The King
37 Saudades.
Notas iniciais

Capítulo 37 – Saudades.
Sasuke estava furioso, e Itachi pôde saber disso no instante em que puseram os pés em seu escritório. – Aquele homem me fez de estúpido! – Ele rugiu quando Itachi fechou a porta. – Humilhou-me! Na frente da rainha, da princesa... De minha esposa!
Itachi suspirou longamente; serviu uma bebida para os dois – porque ele não estava exatamente bem, naquele momento – e sentou-se numa cadeira em frente à mesa.
– Ele está sendo cuidadoso. – Sasuke estreitou as sobrancelhas, e copiou o mais velho, sentando-se à sua frente.
– Muito mal cuidadoso, se quer saber minha opinião. Estava claro que brincou comigo. – Itachi negou.
– Apenas para você. – Garantiu.
– Você percebeu! – Sasuke apontou-lhe o copo, mas Itachi deu os ombros.
– Percebi por sua expressão. – Foi sincero.
– Kasumi também pareceu perceber. – Itachi sentiu uma extrema vontade de murmurar um amargo “Claro que perceberia”, mas preferiu calar-se. – Vocês se acertaram? – Lentamente, ele negou com a cabeça. – Deveriam se acertar. Ela está grávida e, pelo amor de Deus, você a ama! – Itachi franziu o cenho.
– Amor não é tudo em um casamento. Às vezes, nem o mais importante. – Sasuke estreitou as sobrancelhas; era muito estranho ouvir o irmão falando coisas assim, entãoa insinuação o havia divertido, mas o outro não pôde perceber. – Confiança... – A mandíbula do mais velho enrijeceu. – A confiança e a cumplicidade podem vencer o amor.
O jovem senhor Uchiha suspirou longamente; sentou-se ao lado do irmão e encarou-o. – Você diz isso porque ama sua esposa, e tem o amor dela.
– Eu digo isso porque ela não confia em mim. – A voz de Itachi foi tão fria e irritável que Sasuke bufou. Mas como não queria deixar o irmão mais irritado do que ele parecia estar, ajeitou-se na cadeira, e mudou de assunto:
– Aquele homem tinha esquivas muito parecidas com as da Kasumi. – Comentou casualmente. Itachi estreitou os olhos.
“É claro que tem!”, pensou com fúria. “Foi ele quem a ensinou!”, mas ao invés de dizer, tomou mais um gole da bebida. – Ele tem o estilo de soldados do Fogo. – O mais jovem concordou com um assentir.
Itachi hesitou. Muito, e mesmo que ainda estivesse amargando a vitória forçada, Sasuke conseguiu perceber isso. – Você descobriu alguma coisa. – Ele concluiu por si só, a voz baixa. O conselheiro anuiu ainda hesitante.
– Ele é de Konoha. – Tomou mais um gole, como se a bebida pudesse ajudá-lo a decidir se contava, ou não, o resto da história. – É um Uchiha... – Murmurou cauteloso, e então ergueu os olhos negros até os abismados do mais jovem. – Nosso tio. – Adicionou com a voz baixa.
Sasuke empalideceu.
– Mas o Shisui...
– Não, não o Shisui! – Itachi bufou, levantou-se e andou pela sala de maneira aleatória. – Mamãe tinha um irmão. Ele foi renegado, você ainda nem tinha nascido... Ao que parece, e tornou-se mercenário. – Naquele instante, o mais jovem simplesmente não sabia o que dizer.
Ainda assim, de alguma maneira, conseguiu forçar seu cérebro a raciocinar; Itachi parecia muito mais perturbado do que ele, então tinha que manter a postura. – E como pode saber disso? – Itachi lhe ofereceu um meio sorriso, e olhou-o de canto.
Era óbvio que não contaria.
Sasuke suspirou. – Podemos pô-lo para fora daqui, só por mentir parar o rei.
– E de que adiantaria? – Itachi descansou o copo sobre a mesa, cruzou os braços e fitou o irmão. – Não é como se ele fosse o mestre da Akatsuki. Nagato pode muito bem dizer que não fazia ideia da história do próprio guarda, e ainda estaríamos à mercê dos mercenários.
– E o que sugere?
– Observá-lo. – O mais velho deu os ombros, como se fosse a resposta mais óbvia. – Quando sua majestade estiver aqui, vamos decidir. – Sasuke riu.
– Ele vai te matar por deixar um assassino debaixo do mesmo teto que Hinata.
Mais uma vez, Sasuke conseguiu enxergar a hesitação nos olhos do mais velho, e aquilo o surpreendeu. – Afinal, — o jovem prosseguiu – Acredito que um Uchiha, especialmente filho de nosso avô, só seria perseguido por assassinato. – Explicou.
–... Ele foi acusado pelo assassinato dos Nohara. – E então, ele tornou a fitar o irmão. Ele pareceu confuso no começo, mas Itachi enfim fê-lo compreender toda a sua irritação e hesitação, dizendo: — Foi o homem que levou Kasumi quando bebê.
– E como você ainda não o matou?! – Era uma pergunta estúpida, ele sabia, mas não pôde deixá-la de fazer. Os irmãos Uchihas conheciam bem a história de Kasumi, o suficiente para ambos odiarem o maldito desgraçado.
A pobrezinha havia sido levada por um homem cruel, que a privara da sociedade, e dos confortos que qualquer garotinha em sua condição deveria ter. Fê-la sofrer como um cão abandonado!, e graças ao maldito desgraçado, até hoje a pobre mulher sofria ao ser taxada como selvagem.
Itachi suspirou longamente; coçou a nuca e gemeu de frustração.
– Sasuke, aquele homem não matou os Nohara. – Esclareceu. – Foi usado de bode expiatório, porque o governo não tinha outro culpado, e toda a população estava assustada. Mas ele não matou os Nohara. – Mais jovem cruzou os braços; tinha uma expressão de pura insatisfação.
– Eu não vou deixá-lo em paz até me contar onde ouviu isso.
– Eu não vou contá-lo sobre minha fonte. – O mais velho suspirou. – Mas a história dela faz sentido. Veja: sabemos que o culpado do incêndio foi um namoradinho da irmã... – De repente, pensar em “Rin Nohara” como irmã de Kasumi tornou-se estranho. Era como se ele estivesse desrespeitando sua alma, ou algo parecido...
Mas Sasuke não podia saber que ela era mãede Kasumi, antes de Kasumi, então Itachi pigarreou, e prosseguiu. – Um rapaz apaixonado por Rin Nohara, supostamente movido pela “raiva passional”. – Sasuke concordou. Ele sabia da história, embora nunca tivesse sequer ouvido o fato de o fugitivo tratar-se de um Uchiha. – Kakashi Hatake foi posto para persegui-lo, e todos sabiam de sua paixão pela senhorita Nohara, e seus sentimentos de gratidão para com os demais da família. O mínimo que se podia esperar era que ele estripasse o homem quando o encontrasse.
– Eu estriparia. – Sasuke murmurou incomodado; por algum motivo, a lembrança de Sakura sendo atacada durante a invasão surgiu em sua mente.
– Agora, diga-me: quais são as chances de Kakashi persegui-lo por anos, salvar Kasumi e simplesmente deixar de procurá-lo só por uma promoção? – Sasuke não respondeu. – Só um homem muito frio teria estômago para isso, e sabemos que Kakashi não é esse tipo de pessoa.
– Kakashi é o tipo de homem que não acredita em vingança.
– Qualquer homem que perdesse a mulher que ama daquele jeito procuraria vingança. – Itachi garantiu. – Mesmo Kakashi, com toda essa conversa moralista. Se ele pensasse que Obito era culpado, iria atrás dele até sua morte.
Sasuke pensou naquela afirmação por um instante, e acreditou que o irmão estivesse certo. – Então ele não é um assassino. – Itachi sorriu de canto.
– Um mercenário da Akatsuki sempre é um assassino, Sasuke. – O mais jovem corou um pouco, pigarreou e tentou contornar sua frase:
– Não é o assassino dos Nohara. – Itachi anuiu.
– Não acredito que seja, o que complica um pouco as coisas... – Sasuke lhe lançou um olhar interrogativo, e o mais velho suspirou longamente. – Acho que mamãe já sabe. – Explicou. – É irmão dela, então vai defendê-lo até a morte. E é por isso que não podemos deixá-la saber que nós sabemos. Nem a mamãe, nem o pai... – Os olhos escuros se estreitaram. – Muito menos Kasumi.
Um sorriso discreto nasceu dos lábios de Sasuke. Um sorriso claramente provocador. – Acho que começo a entender o porquê dos problemas de confiança no seu casamento, irmão.
~
Naruto deixou o país das Águas na manhã seguinte ao seu aviso.
Mesmo que Mei insistisse que podiam esperar mais algum tempo, pelo menos alguns dias, até o navio de carga voltar, Naruto estava decidido a partir, então ele e seus companheiros embarcaram num pesqueiro. O Rei, francamente, pouco se importou com o fato de todas as paredes federem à peixe. Também não ligou para o pouco espaço, e a falta de conforto.
Na verdade, ele estava radiante por conseguir voltar.
Eles passaram uma semana viajando pelas águas claras da fronteira do país das Águas com a nação do Fogo. Naruto estava resolvido a continuar destemido e animado, durante o resto da viagem, mas não pôde deixar de sentir aquele terrível revirar de estômago, quando a carruagem ficou pronta.
Por que aquelas coisas tinham sido inventadas, mesmo? Ele não conseguia compreender. Sinceramente, acreditava que um cavalo, para um homem, devia ser mais que o suficiente.
Quem ligava para conforto? Aquelas coisas eram perigosas!
Tentou não pensar no pesadelo que tivera meses atrás com os pais – que, graças aos céus, e à lembrança de sua doce Hinata, não tinham retornado –, quando chegou àquela conclusão.
Diferente da viagem de ida, Jiraya não permitiu que ele deixasse o transporte e seguisse à cavalo. Temia mercenários na estrada – como se eles não tivessem mercenários dentro da maldita carruagem! – e ainda que Naruto fosse o rei do mundo, não permitiria que corresse nenhum risco além do necessário.
Foi insuportável.
Todos os dias, todo o tempo, ele queria vomitar.
Dava graças ao Divino, quando a carruagem parava em uma estalagem, ou numa casa de chá. Ele não gostava quando paravam para comer – porque sempre se sentia enjoado, e comer enjoado definitivamente nunca era uma boa ideia.
Mas ainda que estivesse um caco, não deixou que isso transparecesse. Ou pelo menos não pensava ter deixado seus medos, e incômodos transparecerem para o intruso na carruagem.
Pelo menos não tinha que se preocupar com Yahiko, que assim como os demais guardas, estava à cavalo – o maldito sortudo! –, mas aquele pequeno detalhe não pôde tornar melhor a estadia daquelas duas semanas na maldita carruagem.
Eles estavam no começo da terceira semana de viagem quando Naruto se saturou. Haviam passado a noite em uma pensão qualquer, e na manhã seguinte, antes que Jiraya pudesse estar em pé, Naruto já tinha montado. – Que diabo está fazendo em cima desse maldito cavalo, seu moleque?! – O conselheiro bradou quando o flagrou, sem sequer pensar em como aquilo soaria indiscreto na frente de guardas e visitantes.
– Ora, meu conselheiro! Que péssimo palavreado! Quase me faz lembrar o velho pervertido que me criou. – O homem fez uma careta irritada, mas não teve tempo de retrucar, pois Naruto prosseguira: — Meus senhores, acredito que todos estamos cansados desta maldita viagem. – Ele se dirigiu tanto aos guardas quanto aos akatsukis. – Estou certo de que querem voltar para suas famílias... Seus filhos... – Deu um olhar sugestivo à Nagato. – Suas noivas... – Olhou para Yahiko. – E suas amadas. – Com um sorriso maldoso, fitou o avô.
Jiraya nunca sentiu tanta vontade de dar-lhe um safanão quanto naquele momento, mas controlou-se.
– Então pensei, como o bom rei que sou, — ele parecia divertido ao dizer aquela frase, e sua expressão não lembrava nem um pouco um rei. – Que poderíamos simplesmente ignorar as malditas formalidades, e seguir de volta para Konoha à cavalo, à toda a velocidade! – Nem Nagato, nem Yahiko, puderam conter o sorriso.
– Nem todos acham atraente a ideia de passar uma semana assados, majestade. – Yahiko comentou com ironia.
– E quem se importaria com as dores, Yahiko? – Naruto lhe sorriu. – Quem, com uma noiva como a sua esperando, poderia se importar com isso? Somos homens, pelo amor de Deus! Podemos reduzir o tempo da viagem pela metade, se formos à cavalo.
– Ganhar tempo pelo preço de uma dor mortífera, depois de cavalgar por uma semana... – Nagato murmurou, fingindo pensar sobre o caso. – Sinto muito, mas ainda não faz muito sentido para mim.
– Vamos, rapazes! Teremos mais uma semana de carruagem, podemos reduzir para três ou quatro dias!
– Tudo isso é saudade da rainha, Naruto? – O rosto do loiro enrubesceu, e não foi pelo fato de que, pela primeira vez, Nagato referiu-se a ele como “Naruto”. Ele fez uma careta de desagrado, mas todos puderam compreender que era apenas constrangimento.
– Bom, se vocês querem ir de carruagem, senhoras, fiquem à vontade. – Ele se prendeu às rédeas. – Irei à cavalo, de qualquer forma. Isto, — com a cabeça, ele apontou para o cavalo. – É como se fosse uma porta para a liberdade.
Nagato suspirou longamente. – Yahiko pode ficar no meu lugar. – Naruto sugeriu como se fosse simples.
Os olhos de Jiraya se cerraram irritadiços. – Devo pedir para reconsiderar, majestade. – Ele ponderou com a voz lenta que, para Naruto, pareceu bastante furiosa.
Constatar que ele estava furioso alargou ainda mais o sorriso de sua majestade.
Ele iria fazê-lo se arrepender de tê-lo arrastado para longe de Konoha. – De fato, não posso reconsiderar avô. – Afirmou. – Afinal, como o senhor sabe... Sempre fui muito obstinado.
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Mesmo antes de ser rainha, Hinata estava acostumada a receber desconhecidos.
Sua família sempre foi rica e influente, então mesmo quando ainda era a “senhorita Hyuuga”, Hina sempre cumpria – por trás dos panos – o trabalho de anfitriã: dava ordens à governanta, à cozinheira e ao mordomo, mas definitivamente, ser oficialmente a anfitriã era muito pior do que cuidar dos detalhes da estadia das visitas.
Ela certamente devia algumas desculpas à sua mãe, por pensamentos impróprios que tivera quando mais jovem, porque não devia haver, no mundo, tarefa mais difícil do que agradar com palavras pessoas que mal se conhecia.
Karin estava na Torre há algumas semanas, mas não era tempo suficiente para se conhecerem. Não precisou nem de dois dias para que Hinata soubesse que, diferente do pai, ela não tinha nada de mercenária.
Embora, de fato, estivesse longe de ser uma moça tranquila. Hinata pensou que a agitação na personalidade da princesa devia-se ao sangue Uzumaki em suas veias.
Diferente de Konan, que passava boa parte do tempo trancada no quarto ou na biblioteca – embora agora, com a presença da sobrinha, não fizesse com tanta frequência –, Karin gostava de ficar em público.
Geralmente estava com a rainha, como era de se esperar, mas elas não costumavam conversar muito. Ou ficavam sentadas, lendo, ou costurando, ou tocando e, o que acontecia com mais frequência, ouvindo Hanabi tocar.
Quando não estava com Hinata, Karin passava seu tempo na enfermaria, com os conhecidos, ou insistia para que Sasuke a permitisse assistí-lo treinar.
A rainha podia não estar ao lado dela o tempo inteiro, mas estava ciente de cada passo que a garota dava, dentro do palácio.
Era o final de uma tarde fatídica. As Uzumakis estavam acomodadas na saleta particular da rainha, esperando as senhoras Uchihas – que haviam sido convidadas àquela manhã – para um lanche na companhia de seus respectivos guardas – Neji e Sasuke –, Itachi e Tenten.
Sakura também devia estar presente, mas um imprevisto na enfermaria havia atrasado sua chegada. – Então quer dizer que Sasuke e Itachi são parentes distantes de vossa majestade? – Karin questionou depois de Hinata explicar cuidadosamente um pouco da história de sua família.
– Sim.
– Ora! Sempre achei que se pareciam bastante. – Ela lançou um olhar encantado à Sasuke, e depois à Hinata, comparando-os. – Todos vocês tem essa expressão séria no rosto... – E então ela olhou para Neji. – Poderia ser que o senhor é um Uchiha, também?
Hinata riu.
– Neji é meu primo, alteza. É o herdeiro dos Hyuuga. – Explicou.
– Oh... – Karin franziu o cenho. – É, ele faz com que o parentesco pareça mais claro. – Olhou animada para Hinata. – Vossa majestade não tem esse ar de “turrão”. – Hinata riu. – É verdade, parece ter uma personalidade muito dócil, majestade.
– Fala isso porque nunca travou espadas com ela. – Itachi murmurou por trás da xícara de chá. Karin arregalou os olhos.
– O quê?!
– Eu tive aulas de esgrima com Itachi, quando mais nova. – A rainha explicou, e suspirou de maneira nostálgica. – De qualquer forma, faz bastante tempo que não pego num florete.
– E gostava das aulas? – Ela anuiu.
– Eram bastante relaxantes. – Confessou. Estava a ponto de sugerir para que a princesa tentasse, mas mordeu a língua no mesmo instante.
Afinal, até que se provasse o contrário, ela era parte do inimigo.
– Eu adoraria tentar alguma vez... – Os vívidos olhos vermelhos tornaram a olhar para Sasuke.
Hinata notou que a princesa olhava muito para o Uchiha, de uns tempos para cá. – Talvez pudesse me ensinar alguma coisa, Sasuke? – Sasuke lhe sorriu, mas Hinata notou que ele não havia respondido.
– Bem, eu tenho certeza de que meu filho se sentiria honrado por ensinar esgrima a uma princesa. – Aquela voz...
Itachi levantou-se instantaneamente. Sasuke enrijeceu, e com muita hesitação, virou-se para encarar o pai.
É claro que uma hora ele tinha que aparecer. E é claro que seria na pior hora possível!
Fugaku estava ao lado da esposa, guiando-a como um bom marido. Tinha no rosto um sorriso encantador.
Kasumi seguia logo atrás do casal, cabisbaixa, como costumava a ficar, de uns tempos para cá.
Itachi sentiu um bolo se formar no estômago, ao notar a palidez no rosto da esposa. Ele a havia mandado de volta para a Uchiha no mesmo dia de sua descoberta, mais por temer que ela desconfiasse de que ele estava ciente da verdade do que por qualquer outra coisa... Mas ele não a havia visitado, depois daquilo; não tivera tempo. Nem ela tinha tido oportunidade de voltar à Torre.
Conteve a vontade de chutar seu próprio traseiro, e se aproximou da esposa; sorriu a ela, um sorriso gentil, que há tempos não lhe dava, e beijou-lhe o rosto, tão carinhoso que ela pareceu se assustar.
Hinata levantou-se, assim como Karin. – Vossa alteza, creio que já conheça as Uchiha. – Karin anuiu; as duas morenas fizeram uma mesura educada. – E este é o Duque, Fugaku Uchiha. – Karin fez uma mesura desajeitada. – Fugaku, esta é Karin Uzumaki, a princesa.
Ele curvou a fronte de um jeito bastante exagerado. Soltou-se da esposa e se aproximou; puxou as mãos da jovem ruiva e beijou-as. – É um honra conhecê-la, alteza. Conheci seu avô, eu realmente o admirava muito, por isso fico sinceramente feliz com sua existência. – O rosto de Karin ficou quase tão vermelho quanto seus cabelos, mas a família Uchiha estava se segurando muito para não revirar os olhos.
– Espero que meu filho lhe esteja servindo como merece, alteza. – Sasuke instantaneamente lançou um olhar irritado à Itachi, porque não queria que o pai descobrisse o temporário cargo do filho, mas o outro negou a acusação silenciosa.
– Ah, seu filho é maravilhoso, duque-... – Ela havia falado sem pensar, e enrubesceu ao perceber. O sorriso de Fugaku foi largo o suficiente para que os filhos soubessem que ele devia estar tramando.
– Não tanto quanto seu verdadeiro cavalheiro, alteza. – Sasuke se apressou em interromper a conversa; ele sorria, mas estava visivelmente nervoso.
– Oh, certamente tão bom quanto Suigetsu. – Karin rebateu, fazendo uma careta por se lembrar do Houzuki.
– Ouvi dizer que o pobre homem quebrou três costelas para que não se machucasse, alteza. – Itachi comentou, obviamente desejando tirar Sasuke do foco da conversa. – E ouvi falar que costuma visitá-lo, de vez em quando.
Mais uma vez, Karin corou. Agora, Fugaku não sorriu.
– Ele é um bom rapaz... – Ela murmurou, um pouco a contragosto. – Mas muito teimoso. – Ela fez uma careta quando disse aquilo, e Sasuke sorriu.
Sim, Suigetsu era bastante teimoso. Sakura que o dissesse! Sua pobre esposa havia ficado responsável pela observação do rapaz, depois que os doutores voltaram ao hospital – era inverno, e como em todos os anos, os médicos deviam estar à postos –, e só Deus sabia como a esposa reclamava do mercenário e suas teimosices.
E, como em resposta ao seu pensamento, um guarda – o mesmo desajeitado que permitira a entrada de Fugaku repentinamente – entrou com Sakura em seu encalço, para anunciá-la.
Ela parou assim que enxergou o sogro, e não conseguiu dar um passo até Sasuke estar ao seu lado. – Sakura! Você está atrasada. – Hinata aproximou-se, alienada à tensão formada pela entrada da rosada. – Que belo vestido está usando... – Ela observou, sincera.
Sak corou um pouco, baixou o rosto, e fez uma reverência. – Obrigada, majestade. Também devo dizer que está deslumbrante. – Hina riu, porque sabia que era mentira.
Ela devia estar parecendo um fantasma, uma vez que não dormia direito há dias, graças à falta de notícias do marido. – Estávamos falando de Suigetsu neste momento. Estava com ele, certo? – A Uchiha anuiu. – E pode nos dizer como está o teimoso cavalheiro de sua alteza? – Aquilo a fez sorrir.
– Teimoso. – Sak garantiu, com um rosto um pouco mais animado. – Muito teimoso. É a terceira vez que estoura os pontos! E isso dormindo. – Ela suspirou longamente. – Então deve ficar com cicatrizes. Francamente, a última vez que um paciente estourou tantos pontos... – O rosto dela enrubesceu, e os olhos verdes, constrangidos, foram até Sasuke.
– Eu? – Ela anuiu, e ele não conseguiu segurar o sorriso.
Aquela cena quase emocionou Mikoto. Ela pôde ver, pela primeira vez, que o filho realmente estava apaixonado pela esposa.
Mas a felicidade da duquesa foi proporcional à decepção do duque, por perceber a mesma coisa. Ele pigarreou, apenas para que o clima romântico sumisse, e o mais jovem casal Uchiha ergueu os olhos até ele.
Levou apenas trinta segundos até Sakura afastar-se do marido, aproximar-se dos demais familiares e curvar a fronte em respeito a eles. – Duque, duquesa... Kasumi-san.
Mikoto e Kasumi instantaneamente se aproximaram. Abraçaram-na com carinho tão sincero que Sak sentiu-se confusa. – Oh, querida! Você está linda! – A duquesa exclamou com orgulho. – Suas bochechas estão mais rosadas, seus olhos estão radiantes... Fico satisfeita que meu filho a faça feliz. – Fugaku revirou os olhos diante do elogio da esposa; ninguém, além de Sakura, pôde notá-lo, mas ainda assim ela quis enfiar a cabeça no chão.
– De fato, parece-me ótima. – Kasumi concordou, e lançando um olhar provocativo ao cunhado, adicionou: — Sempre achei que, quando se casasse, Sasuke fosse torturar a esposa. – O Uchiha riu – riu! – e se aproximou da mulher.
– E eu sempre lhe disse que seria um bom marido... Aliás, Kasumi, você está péssima. – Era verdade, mas foi cruel e desnecessário, então Sak mal pôde se conter antes de acertar o cotovelo no estômago do esposo.
Kasumi riu disso. – Não precisa bater nele. Eu sei que estou péssima. – Ela suspirou longamente, e olhou para a barriga saliente. – Dizem que as mulheres ficam radiantes durante a gravidez, mas estou ciente de que sou um caso a parte.
Itachi tornou a se aproximar; envolveu a cintura da esposa intimamente, e beijou-lhe a cabeleira castanha. – Você está linda, querida. – Garantiu, porque para ele era mesmo verdade.
Sasuke revirou os olhos quando Sakura suspirou discretamente, encantada. – Eu nunca vou fazer isso. – Garantiu num sussurro que só a esposa pôde ouvir. Ela fez um beicinho, e olhou-o de canto.
Toda aquela cena de família feliz, francamente, estava começando a fazer com que o estômago de Fugaku revirasse. E como sentia necessidade de estragar aquilo, interveio. – Na verdade, acho que minha nora engordou um pouco depois de casada. E seu rosto está muito vermelho, devia parar de tomar muito sol. – Ele sorriu falsamente quando Sakura olhou em sua direção, e só porque a princesa também olhava.
– De fato, — Mikoto concordou, e um sorriso estranho formou-se em seus lábios. – Meu marido tem razão. – Ela olhou com uma animação quase maligna expressa nos olhos negros. – Sakura, você engordou um pouco... Será que existe a possibilidade de esperarmos mais um neto?
O casal Uchiha enrubesceu tanto quanto Hinata empalideceu.
Na verdade, a rainha precisou se segurar num móvel para não cair ali mesmo, e todos olharam para ela, quando Neji foi à sua ajuda.
Não. Eles não podiam estar esperando um filho! Haviam se casado muito depois do casal real, e se Sakura engravidasse antes dela, certamente as pessoas começariam a comentar. Aquilo não podia acontecer, porque embora seu casamento já estivesse consumado, ela não tinha tanta certeza de que poderia voltar àquele tipo de intimidade com o marido. E tinha certeza de que não estava grávida.
– Você está bem? – A voz de Neji soou rouca de preocupação, mas ela assentiu, dizendo que sim. Olhou constrangida para os Uchiha, e tentou não transparecer o que sentia: ansiedade, constrangimento e medo.
– Apenas uma vertigem. Deve ser a falta de sono. – Por sorte, já havia comentado com Itachi e o primo sobre a insônia, então eles pareceram acreditar.
– Farei algo que a ajude a dormir esta noite, majestade. – Tenten garantiu, e Hinata sorriu-lhe.
– Eu ficaria agradecida, querida.
Fugaku deu graças aos céus por aquele pequeno mal estar de Hinata, pois assim tinha a oportunidade de mudar de assunto. – Então, alteza. Quantos anos têm? – Ele perguntou casualmente à Karin, quando a rainha já estava sentada.
– Dezessete...
– Oh! Exatamente a mesma idade de Sasuke! – Fugaku exclamou com alegria sincera. – Que coincidência, não acha querida? – Ele olhou para Mikoto, que se limitou a assentir com um sorriso forçado. – E quando faz aniversário? Sasuke faz em julho, minha nora é um tanto mais velha do que ele, já que faz em março...
Karin não era nenhuma idiota. Ela conseguia perceber o que Fugaku estava tentando fazer, e aquilo a constrangia imensamente. Chegava a sentir-se mal pela senhora Uchiha, mas não pôde fazer nada além de murmurar “eu faço aniversário em junho”, com uma falsa calma expressa na voz.
– Então tem apenas um mês a mais que meu Sasuke...
– Podemos começar logo a comer? – Kasumi os interrompeu. – Esta criança está acabando comigo, sinto-me faminta a todo o instante. – Mentiu.
Na verdade, ela quase não sentia fome durante a gravidez, pois geralmente estava acamada, com febre.
Ainda assim, Mikoto concordou, e todos se juntaram à mesa.
Tenten, com a ajuda de mais três criadas, serviram à família. Para a sorte de todos, o assunto foi simples, casual e educado, sem farpas trocadas, e sem insinuações constrangedoras.
Mas Hinata ainda tinha seu estômago revirado, ao pensar na possibilidade de Sakura Uchiha dar a luz antes dela. Não por inveja, mas por medo.
Não. Sendo sincera consigo mesma, talvez tivesse um pouco de inveja dela... Do fato de Sasuke ser tão visivelmente apaixonado, quando os sentimentos de Naruto eram um mistério à Hinata; do fato de ele estar sempre ao lado dela, enquanto Naruto estava não se sabe onde, fazendo sabe-se lá o quê com alguém que ela dificilmente conheceria.
Além disso, ter um filho do homem que ama...
Hinata conteve o impulso de balançar a cabeça, mas esforçou-se para afastar o pensamento.
Certamente, ela pensou, mais forte que a inveja, era o medo. Não de Naruto, pois sabia que ele cuidaria dos comentários que certamente se espalhariam pela Torre, se Sakura de fato estivesse esperando um bebê, mas temia Hiashi.
Hiashi Hyuuga queria, mais do que tudo no mundo, um ente familiar na monarquia. Ele quase precisava disso, e Hinata era, até o momento, sua única chance de ter o sonho realizado.
– Majestade. – A voz de Neji soou ao seu lado, despertando-a de seus devaneios. Ele sorriu à ela, e esticou-lhe uma carta.
Hinata deve ter passado um minuto inteiro ali, sentada, observando debilmente o envelope selado com o símbolo real, mas então se levantou, de súbito. Pegou o papél e, sem se importar com os convidados, seguiu até o sofá.
Ela tremia, quando abriu a carta. À primeira vista, lamentou-se pelas poucas linhas escritas pelo marido, mas à medida que lia, sentiu que seu coração podia explodir de felicidade.
“Querida Hinata,
Estamos na terceira semana de novembro, e neste momento, estou no meu quarto, enquanto dois lacaios levam meus baús de volta àquela maldita carruagem.
São nove da manhã, e partirei assim que o sol estiver a pico, depois de almoçar com a rainha. E é a primeira vez que me sinto tão ansioso para entrar naquela coisa!
Mal posso esperar para revê-la. Sinto sua falta, ainda mais do que imaginei que sentiria quando parti, e espero que sinta a minha...
Não devo me prolongar, querida esposa, pois Mei, a rainha, espera-me para o desjejum. Eu sempre me atraso, e eles sempre reclamam. Francamente, estou até hoje esperando que me expulsem daqui... Mas como não me expulsaram até hoje, acho difícil que o façam agora. De qualquer forma, enfim deixarei o país das Águas.
Mando-lhe esta carta agora, mas devo admitir que, no fundo, tenho esperanças de chegar antes dela. Adoraria ver sua cara de surpresa, pois assim terei certeza se sentiu, ou não, saudades.
Oh, agora estou sendo idiota.
Eu sinto muito por isso. Seu pai arranjou-lhe um marido estúpido e idiota, que mal consegue escrever uma carta, mas espero que me perdoe por isso, já que não sou culpado de minha própria imbecilidade... E mesmo com toda a minha estupidez, ainda assim, espero que sinta minha falta, ao menos tanto quanto sinto a sua.
Que você esteja bem. E, se por acaso não estiver, diga à Itachi que lhe cortarei o pescoço por isso.
Que nos vejamos logo, Hinata.
Com todo o carinho, de seu marido,
Naruto Uzumaki.”
Ela sorriu ao terminar a carta, e deslizou o indicador pela caligrafia do amado.
Ele estava voltando.
Finalmente, estava voltando.
E sentia sua falta... O que significava que estava voltando para ela!
Era maravilhoso pensar assim. Tão maravilhoso, que ela não conseguiu evitar rir alto. – Uma boa notícia? – Itachi questionou-a, realmente curioso, e ela anuiu.
– Sua majestade está a caminho!
~
Ao fim daquela tarde, os Uchihas decidiram retirar-se e, para a sorte do casal mais jovem da família, Karin recusou-se quando Fugaku pediu que os acompanhasse até a carruagem; ela e Hinata usaram o fato de terem que noticiar do retorno do rei como desculpa.
Mas ainda que fosse claramente uma desculpa, Fugaku não se deixou abalar, e Mikoto tinha certeza de que o marido passaria o resto da semana exaltado as qualidades da princesa.
Sasuke também sabia disso.
Quando estavam fora do palácio, esperando que a carruagem ficasse pronta, a duquesa aproveitou-se do fato de Fugaku estar ocupado discutindo alguma coisa política com Itachi, e se aproximou do filho mais jovem para que pudessem conversar. – Por favor, mamãe, não tente defendê-lo. – Ele pediu calmamente à mulher, antes que ela sequer pudesse começar a falar.
– Eu não pretendia. – Mikoto garantiu. – Mas agora que o rei voltará, gostaria de deixar claro que sua esposa não será hostilizada dentro da mansão Uchiha. Já conversei com seu pai – ela prosseguiu antes que ele pudesse retrucar. – E lhe disse que no instante em que ele ofender Sakura, partirei da Cidade Imperial.
– Você não faria isso...
– Oh, é claro que eu faria. – Mikoto deu os ombros. – E ele sabe disso, então vai se comportar... Portanto, querido, eu realmente...
– Mamãe, eu sinto muito. – Sasuke a interrompeu; quando ela o fitou, ele hesitou. – Eu sinto muito, mamãe, mas... – Suspirou longamente. – Já providenciei uma casa para minha esposa e eu. – O rosto da duquesa empalideceu. – Prefiro uma residência próxima à Torre...
– Próxima à Torre, — ela o interrompeu – Ou distante da Uchiha? – O silêncio dele foi uma afirmativa, ela sabia.
Ainda assim, depois de ver o comportamento do marido naquela tarde, soube que o filho não estava de todo errado... Não, na verdade, ele estava completamente correto. E ela era mãe dele! Precisava apoiá-lo em suas decisões, então, ainda que fosse tão difícil, ela o abraçou, e mesmo que lhe doesse o peito, mesmo que seus olhos estivessem ardendo em lágrimas, disse-lhe “parabéns”.
A carruagem estava pronta. Kasumi foi a primeira a despedir-se de Sakura, pois não se sentia muito bem; ela tentou subir sozinha à carruagem – pois não era muito alta –, mas uma vertigem fez-la cambalear.
Para sua sorte, um guarda do exército segurou-a antes que pudesse se machucar.
Foi a exclamação de Sakura, que gritou “Kasumi-san!” que fez com que todos os Uchihas percebessem, e em pouco tempo, estavam-na rodeando.
O guarda em questão sentou-se ao degrau do transporte, e ajeitou-a em seus braços; a mulher estava quente, e seu corpo mole. O rosto dela estava pálido, mas de alguma forma, ele sentia que já a havia visto em algum lugar...
– Senhora! – Ele tentou despertá-la. – Senhora! – Kasumi remexeu-se em seus braços, e logo foi tomada pelo marido.
Itachi pegou-a com facilidade extrema, como se fosse um bebê. – Grato Urushi. – Ele murmurou ao soldado. – Eu vou levá-la à enfermaria... Vocês podem ir, pai, mãe.
– Mas...
– Eu envio notícias. – Ele garantiu à duquesa. – Sakura! – Em um segundo, a rosada estava ao seu lado.
– Vamos, vamos! – Ela praticamente empurrou o cunhado para dentro do palácio, tão preocupada que sequer pensou em despedir-se dos sogros.
Kasumi foi acomodada em seu quarto, não na enfermaria, e Sakura ficou horas e horas ao seu lado, cuidando-lhe com dedicação, tanta que chegou a comover o herdeiro dos Uchihas.
Sasuke passou três vezes no quarto; também estava preocupado, mas tinha trabalho a fazer, e apenas as onze, quando a febre da grávida baixou, Itachi teve coragem de dispensar a cunhada. – Eu fico grato por sua dedicação, Sakura... – Ele murmurou sincero. – Mas você já fez muito por hoje. Vá, durma... Também deve estar cansada. – Sakura havia anuído lentamente, mas não tirara nem por um segundo os olhos de Kasumi.
A imagem da cunhada deitada na cama, tão frágil e doente, era um contraste enorme com sua personalidade forte e decidida. Ela lamentou-se por isso. – Embora a princesa Tsunade certamente fosse cuidá-la melhor, eu me esforcei. – Garantiu ao conselheiro. Ele sorriu tristonho.
– Você foi ótima, estou certo de que a princesa Tsunade se orgulharia. Eu sou muito grato. – Ele se aproximou, comovido, e abraçou-a quase inconscientemente. – Sei que meu pai deixou-a numa situação constrangedora... Mas não deixe que isso a afete. Estou muito feliz que tenha se tornado esposa do meu irmão. – Ele foi sincero e direto, e Sakura sentiu o rosto queimar por causa disso.
Depois daquilo, Sak instruiu-o sobre como cuidar dela durante a noite, esclarecendo que, a qualquer sinal de aumento na febre, deveria chamá-la imediatamente, independente da hora. E então deixou o quarto.
Itachi suspirou longamente, sentou-se ao lado da esposa e alisou-lhe a franja úmida pelo suor.
Normalmente, Kasumi costumava remexer muito na cama, mas agora ela não movia nenhum músculo. Estava pálida como papel, e sua pulsação era tranqüila de uma maneira quase torturante. Torturante, porque Itachi sabia que a esposa era uma mulher de sangue quente.
Ele beijou-lhe os lábios, ajeitou os cabelos castanhos e prometeu aos céus que nunca mais ficaria longe dela.
~
Era madrugada quando Naruto finalmente alcançou a Torre.
Ele havia passado três dias a cavalo, e finalmente alcançara seu destino.
O rei e os companheiros entraram pela porta de trás, e foram recebidos por Tsunade e Shikamaru, que pareciam sinceramente satisfeitos com sua volta; todos estavam cansados, todos queriam dormir, mas ele só conseguia pensar nela.
Shikamaru havia avisado que Itachi tinha algo urgente para dizê-lo. Naruto foi muito severo quando ordenou ao conselheiro que deixasse o pobre homem dormir, mas a verdade é que pouco se importava com o sono de Itachi, só não queria uma reunião tensa agora, que finalmente estava de volta!
Ele não esperou que todos os cumprimentos acontecessem: bastou por os pés no palácio para despedir-se – de uma maneira bastante superficial, diga-se de passagem – e seguir para seu quarto.
Ele sabia que ela estaria lá, e aquilo era estranhamente reconfortante... O fato de que finalmente Hinata, não a de seus sonhos, mas a verdadeira, estaria lá, e ficaria ao seu lado... Não exatamente ao seu lado, ele pensou com malícia.
Talvez embaixo dele.
.
Hinata estava exausta, e desta vez ela não podia culpar Karin, Konan, nem qualquer akatsuki por isso.
Não podia culpar ninguém, além de si própria, e sua preocupação com o estado de Kasumi. E o destino, é claro.
A esposa de Itachi estava febril há dias, e nenhum tratamento parecia ser o suficiente para curá-la. O conselheiro estava desolado, e Hinata simplesmente não podia fazer o pobre homem trabalhar com a mulher – e consequentemente o filho! – naquele estado.
Naquela tarde, ela passara o tempo inteiro com Sakura, na ala dos conselheiros, cuidando de Akane, enquanto observava a antiga rival a cuidar da futura duquesa, que em três dias acamada, poucas vezes mostrara-se consciente.
Hinata nunca odiou tanto o inverno, quanto agora.
De fato, para a sorte de Kasumi, não havia nevado – ainda – mas o clima frio sem sombra de dúvidas não era bom para a saúde da pobre senhora, e era o bastante para fazer com que Hinata o odiasse.
A rainha encarou a si mesma no reflexo do espelho, após pentear os cabelos e vestir uma camisola confortável de tecido quente. Seus olhos tinham olheiras, sua pele estava um pouco pálida e seus lábios, secos.
Ela suspirou longamente, lamentando-se, mas então algo muito estranho aconteceu. Algo que a fez esquecer-se completamente de tudo que a vinha preocupando.
Hinata observou Naruto entrar pela porta com um sorriso encantador, e seus olhos paralisaram; ele se aproximava, mas ela não conseguiu se mexer.
Na verdade, sequer conseguia piscar os olhos, por medo de que ele sumisse.
Quando estava a centímetros dela, Hinata percebeu que prendia a respiração.
Os olhos dele estavam fixos ao dela, pelo reflexo do espelho.
Deus, ela estava mais linda do que podia se lembrar! Era simplesmente perfeita, perfeita aos seus olhos.
Ela só conseguiu piscar quando o viu segurar uma mecha de seu cabelo; na verdade, naquele instante, seus olhos queimaram, e ela piscou inevitavelmente, para conter inutilmente as lágrimas.
Sentiu os dedos de Naruto deslizarem por seu ombro e seu braço, por cima do penhoar, e encolheu-se para chorar.
Sentiu-o abraçá-la por trás, fechou os olhos e acomodou nos braços dele.
Naruto afundou o rosto nos cabelos azulados, sem se importar com o fato de que ainda estava sujo e suado, e apertou o corpo dela contra o seu.
O alívio foi instantâneo para ambos.
Ficaram assim por longos minutos, encostados um ao outro, sentindo o calor um ao outro, e então ele suspirou. – Eu devia tomar um banho... – Murmurou perto da orelha dela. – Mas queria vê-la, antes disso. – Hinata desvirou-se naquele momento, e agarrou a cintura do esposo instintivamente.
– Não precisa ir. – Ela garantiu, embora soubesse que ele, definitivamente, precisava de um banho. – Fique...
Naruto ficou em silêncio por um instante, mas depois negou. Antes que Hinata pudesse retrucar, ele ergueu o rosto dela. – Ao invés disso, você devia vir comigo... – Ele sugeriu, com a voz baixa e sedutora.
Hinata pensou que estivesse sonhando, porque era a primeira vez que Naruto parecia tentá-la seduzir conscientemente. Não, ela devia estar sonhando, pois ele sequer corou, quando fez isso. – Pode preparar meu banho? – Questionou-a com a voz aveludada, e ela anuiu lentamente, quase hipnotizada.
– Na verdade, acabo de me banhar... A água ainda deve estar quente... – Ele anuiu, e então eles se olharam por um longo minuto.
Naruto se aproximou, sem hesitação, e num ato quase necessitado, abocanhou os lábios dela. Só então Hinata percebeu que estava acordada, porque apenas o verdadeiro marido tinha tanto poder sobre ela.
As mãos ásperas do rei deslizaram por dentro de seu penhoar, e ele apertou sua cintura, puxou-a possessivamente até que os corpos estivessem colados um ao outro, fazendo-a estremecer; com o corpo, ele a empurrou em direção à porta que dava ao quarto de banho. Ele nunca havia estado lá dentro, mas estava ciente de que tinha sido um cômodo planejado para o casal.
Sentiu as mãos dela subindo por seu peito, e suspirou entre seus lábios. – Eu senti tanto sua falta... – Murmurou agonizado, e ela sentiu o estômago se desdobrar em mil e uma borboletas.
– Eu também senti sua falta... – Ela garantiu com a voz embargada; Naruto não queria vê-la chorar, então a puxou pela nuca e tornou a beijá-la, ainda mais violento do que da primeira vez; ela retribuiu, com necessidade idêntica à sua, e com a respiração entrecortada, começou a livrá-lo das vestes.
Primeiro o casaco; aquele casaco idiota, cheio de franjinhas e faixas, que estava todo sujo; depois da camisa, uma camisa grossa para o frio, que foi retirada com um pouco mais de dificuldade do que o casaco, e então... Suas mãos paralisaram, quando chegaram aos botões da calça dele, e Naruto simplesmente não conseguiu não rir.
Aquilo fez o rosto dela queimar. – Não ria de mim... – Pediu contrariada, e ele suspirou; alisou o rosto de porcelana e beijou-lhe os lábios docemente.
– Não estou rindo de você. – Garantiu. – Estou rindo, porque estou feliz. – Ele parecia tão sincero que ela sentiu o coração queimar.
Naruto sorriu-lhe, um sorriso maroto, muito encantador, então tornou a se aproximar. – Eu fiquei meses longe de você... – Deslizou os lábios sobre os dela. – Justo quando estávamos começando a nos entender... – Lentamente, as mãos que ele usava para acariciar o rosto dela desceram; primeiro pelo pescoço, suavemente, e depois pelo ombro, arrastando o odioso penhoar no processo. – Eu achei muito injusto... Você não? – Ele mordeu o lábio inferior, quando a peça caiu ao chão.
–... Eu não pensei que o acontecimento daquela noite se repetiria... – Ela confessou com a voz tristonha. – Mas independente disso, eu...
– Sh... – Naruto calou-a com mais um beijo; um beijo calmo, suave, que fez com que o coração dela derretesse.
Como podia ter ficado tanto tempo longe daquele homem?!
Como ele havia ficado tanto tempo longe daquela mulher?!
– A água está quente, você disse... – Ele murmurou contra os lábios dela, mas sua única resposta foi um assentir. – Devíamos entrar... – Ela anuiu, mas não estava realmente prestando atenção.
Ele percebeu isso.
Mais uma vez, Naruto deslizou as mãos pela cintura dela; numa lentidão quase torturante para ambos, puxou o tecido da camisola, e então a ajudou a se livrar da peça.
Ela devia ter ficado envergonhada, mas estava feliz demais para isso. Tanto, que não conseguiu evitar o sorriso ao flagrá-lo admirando-a; seu peito quase explodiu de felicidade, quando ele a puxou pela nuca e tornou a beijá-la.
Ela o amava. Agora tinha plena convicção disso.
Ela o amava, e queria estar ao lado dele sempre e sempre, ainda que não fosse necessária. – Eu quase enlouqueci, enquanto pensava em você... – Sentiu-o mordiscar seus lábios, e suspirou. – Em tudo o que aconteceu, e o que podia ter acontecido, se estivéssemos juntos... – Ele a ergueu pela cintura, e ela se apoiou em seus ombros; quando Hinata abriu os olhos, deu de cara com os grandes olhos azuis que tanto adorava; ambos tinham a respiração entrecortada. – Lembrei de cada suspiro... De cada palavra... – Ela tremeu, quando as mãos dele deslizaram por sua espinha, e arfou baixo, quando ele a arranhou; e então, de repente, ele a pegou em seus braços; entrou na banheira e afundou o corpo de ambos ali.
Quando emergiram, a tensão não tinha se dissipado, mas pelo menos ele não estava molhado de suor; Hinata pôs-se sobre ele, sem exatamente saber como conseguira fazer isso sem enrubescer, e quase sem pensar, tornou a beijá-lo. A iniciativa deliciou-o, e em poucos instantes, mesmo embaixo d’água, ele conseguiu livrar-se da calça. Eles se separaram para que ele pudesse jogá-la para longe da banheira, e Naruto se apressou em puxá-la de volta.
Hinata riu, quando o fez, e a expressão dela, tão doce e pura, fê-lo lembrar-se daquela tarde no campo. – Também está feliz... – Ele concluiu, e alisou seu rosto. Hina assentiu imediatamente.
– Sinto que “felicidade” nem chega perto de como me sinto... – Ela confessou num suspiro, e encostou a testa na dele. – Eu senti sua falta... Tanto, que mal conseguia dormir. Tanto, que... – Ele a calou com mais um beijo.
Ela não precisava dizê-lo, porque ele sabia o quanto ela havia sentido sua falta; as saudades dela, ele percebeu, eram proporcionais às suas próprias saudades.
Inconscientemente, as mãos dele apertaram os quadris dela, consequentemente comprimindo as intimidades uma na outra. Hinata estremeceu, e arfou entre os lábios dele. – Eu... – Ele apertou os punhos, arranhando-a durante o processo. – Eu...
Era simplesmente impossível descrever o que estava sentindo naquele momento.
Uma explosão de sentimentos e sensações, certamente muito difícil de descrever, e então, Hinata tornou impossível, quando deslizou os lábios pelo pescoço dele, sedenta por beijá-lo, tocá-lo, por senti-lo próximo a ela.
Não importava o quanto fosse doer, ela queria estar com ele. Queria ser dele... Queria que eles se tornassem um, mesmo que fosse só mais uma vez.
Não estava pensando em herdeiros, naquele momento. Embora devesse. Só conseguia pensar nele, e neles, e no tamanho de seu amor, e de suas saudades.
Os pensamentos fizeram-na mordê-lo, e Naruto grunhiu em aprovação; ela deslizou as unhas pelo peito dele, e deliciou-se ao vê-lo estremecer.
Quando ela ergueu os olhos perolados até os azuis mais uma vez, parecia desesperada. – Eu quero ser sua mulher... – Murmurou constrangida. – De novo, eu quero ser sua... – Francamente, ela não precisava pedir.
Segurando sua cintura, ele a ajeitou sobre seu corpo, e penetrou-a de uma maneira quase violenta; só percebeu o quão rude havia sido quando ela se encolheu, mas não conseguiu pedir desculpas; apenas escondeu o rosto no ombro dela, e apertou-lhe os seios, com força suficiente para fazê-la soltar um gritinho muito estimulante.
Hinata sentiu-se incomodada pela invasão repentina, pelos apertões e pela violência que a necessidade dele havia ocasionado, mas tentou não pensar nisso; não queria pensar nisso. Ela mesma havia pedido por isso!
Mas então, ele pareceu perceber o quão rude estava sendo, e diminuiu seu ritmo – mesmo que seu corpo exigisse que fosse rápido e direto. Ele conteve sua própria vontade, e beijou os ombros da esposa docemente; alisou sua cintura, suas costas e seus cabelos, e então tornou a beijar seus lábios, com calma e romantismo.
Só quando os dois estavam calmos – ou tão calmos quanto se podia estar, naquela situação – e ela, confortável, ele tornou a deslizar as mãos até os quadris dela, e forçou-a a se mover.
Ouviu-a arfar, gemer e se contorcer; sentiu-a retribuir e a quis ainda mais; ele beijou seus lábios, seu queixo, seu colo e seus seios, deliciado; nenhum dos dois disse nada compreensível, e quando ambos chegaram ao ápice, dentro da banheira, a água já estava gelada.
Não que importasse.
Hinata estava encolhida sobre seus braços, cansada, com a respiração curta e ofegante, e ele alisava seus cabelos, seus braços e vez ou outra a beijava.
Agora sim, tudo estava certo. Tudo estava em seu devido lugar.
Ela estava ao lado dele.
Ele estava ao lado dela.
Sem brigas, nem discussões. Sem farpas, nem insinuações. Sem Sakuras, Gaaras, Hiashis nem ninguém no mundo, além deles.
Quando começou a perceber o frio da água, Naruto enfim se levantou, com ela nos braços; Hinata encolheu-se com o vento gélido, mas ele ignorou as roupas e as toalhas; levou-a para cama, e lá a deitou, sem se importar com o fato de que eles molhariam os lençóis; pôs-se sobre ela, e não se preocupou com o frio, nem com as cobertas, apenas tornou a beijá-la.
Porque tudo o que queria, naquele momento, e talvez para sempre, era fazer amor com sua esposa.
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