The King
48 Perdas.
Notas iniciais
Capítulo 48 – Perdas.
Sakura não conseguiu se mover.
Podia ouvir ao longe as exclamações de alguém de fora da enfermaria... Podia ouvir o barulho da porta abrindo e fechando, tal como o farfalhar das longas cortinas brancas. Podia sentir o ar que denunciava a aproximação da chuva misturado ao metálico cheiro de sangue que invadia todo o lugar.
Ela ouvia e sentia tudo o que ocorria a sua volta, mas não conseguia raciocinar.
Quase pôde sentir cada uma das manchas de sangue espalhadas por seu corpo. Seu rosto, o avental branco, seus braços... Suas mãos. Mãos trêmulas que seguravam o pequeno menino de Itachi e Kasumi.
Um menino pequeno demais. Fraco demais.
Um menino que nem chorou, nem respirou quando enfim chegou ao mundo.
Francamente, ela não sabia há quanto tempo estava ali, parada, segurando sua própria respiração enquanto olhava fixamente para o rosto levemente arroxeado do natimorto que devia ser seu sobrinho.
Quis chorar... Mas não conseguiu.
“Por quê?”, era tudo em que ela podia pensar.
Por que uma inocente criança, que sequer chegara a ver a luz do sol, tinha que pagar pelos erros dos adultos? Sakura não estava muito certa do que de fato ocorrera à cunhada, mas suspeitava que o aborto fosse mais um dos frutos daquela tragédia tão repentina, que para ela não fazia nenhum sentido.
– Ele está morto?
A voz de Obito soou ligeiramente tristonha.
– Sim.
Sua voz foi um murmúrio sem vida.
Houve um momento de silêncio após aquela afirmação. Como se as três pessoas conscientes ali precisassem deixar que a frase perdurasse no ar por imensuráveis segundos para que ela pudesse fazer algum sentido.
Sakura estava exausta, e sua cabeça latejava. Uma dor infernal, agonizante, que fazia a decapitação parecer uma boa ideia. Seu estômago girava quase tanto quanto sua mente, mas seu corpo, com exceção às trêmulas mãos, estava completamente inerte.
Lentamente, debilmente, os olhos verdes ergueram-se até o corpo adormecido de Kasumi. Percebeu que havia mais sangue espalhado do que a cunhada podia ter perdido, mas não se atentou muito ao fato, uma vez que seus olhos, inevitavelmente, fixaram-se ao cordão umbilical que ainda ligava mãe e filho.
E ela tinha que cortá-lo.
Tinha que afastar o bebê, voltar-se aos cuidados da mãe ainda viva, mas simplesmente não conseguia pensar em se mexer.
Ela pensou em Itachi e Kasumi.
Pensou em Sasuke e Mikoto.
Pensou em seu filho e em si própria e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se realmente impotente. Uma inútil sabe tudo que sequer poderia salvar um bebê.
Obito realmente não pôde acreditar. Por tanto tempo que ele nem soube, imaginou que havia sido um engano. Um erro daquela garota tão visivelmente perturbada.
O filho de Kasumi não podia estar morto. A vida daquele bebê era tão certa para os Uchihas – mais certa do que a vida da própria Kasumi, embora Obito odiasse isso – que a notícia de sua morte lhe causou um choque maior do que o próprio mercenário poderia imaginar.
Era um menino... E estava morto.
O filho que Itachi e Kasumi tanto esperavam e amavam.
O neto que Fugaku ansiava. O herdeiro do nome e do legado Uchiha.
Embora o próprio Obito, pelo bem de Kasumi, já tivesse cogitado tantas e tantas vezes a morte daquela criança, foi estranho ouvir Sakura dizer que ele estava morto. E embora “O Herdeiro dos Uchiha” – e era desse jeito que ele havia se acostumado a pensar naquela criança – estivesse morto, tudo em que ele podia pensar, naquele momento, era que “O filho de Kasumi estava morto”.
Tudo em que ele podia pensar era nas lágrimas que sua menina derramaria ao descobrir que o seu filho tão esperado jamais viveria; que nunca aprenderia a montar, nem esgrimar, nem a falar e nem a andar.
Ele não arrancaria risos, sorrisos e broncas de Mikoto ao correr pelos longos corredores da mansão Uchiha. Tudo continuaria cinza e triste, e absolutamente nada poderia ser feito a respeito.
Era irônico, ele pensou. Um herdeiro era tudo o que um homem como Fugaku poderia querer. Possivelmente era a única coisa que poderia fazê-lo feliz, mas agora, o menino tão esperado estava morto. Graças a algo que o próprio Fugaku provocara.
Mais uma vez, Obito pensou em Kasumi.
Em suas lágrimas e em sua dor, e quase sem perceber, estava se aproximando, trêmulo. Puxou o mesmo instrumento que Sakura utilizara para o parto e cortou a última coisa que unia mãe e filho.
Uma ação tão repentina e furiosa que fez Sakura se sentir estática.
– O que está fazendo?! – Ela exclamou alto demais. – Como pôde-...
– Kasumi.
A palavra soou como uma ordem, murmurada num tom autoritário entre dentes. Por um segundo, a Uchiha não soube como reagir; não notara o tremular nos olhos do mercenário, mas podia perceber o tamanho da frustração e fúria implícita nos orbes negros idênticos aos de todos os Uchihas.
Sakura sabia que era uma ordem que jamais deveria ter sido ordenada. Afinal, era sua obrigação cuidar de Kasumi. Ela estava viva, e precisava de ajuda. O sangue precisava ser estancado, a abertura do parto precisava ser fechada e ela necessitava de cuidado. Mas Sakura não teve muito tempo para pensar em seus defeitos e suas obrigações, já que Obito, de um jeito nada gentil, tentou roubar o pequeno garoto de suas mãos.
– Solte-o! – Ela gritou, brigando pela criança, e Obito teve que se conter para não surrá-la ali mesmo.
Ele sentia seus nervos à flor da pele.
Ela resistiu até todas as suas forças se esvaírem, e além disso. Gritou, arranhou e xingou o mercenário, mas nenhuma de suas reações surtiu o efeito esperado.
– Você não pode tirá-lo de perto dela!
Berrou, enfim se entregando as lágrimas.
– Não consegue entender? Se você levá-lo... A Kasumi vai enlouquecer! Tem ideia de tudo o que ela passou pelo filho?! Da dor que ela vai sentir quando souber que o perdeu?! Do quanto ela vai precisar vê-lo... – Fungou. – Tocá-lo, para poder acreditar?! Para poder mensurar o quanto perdeu?!
Ele quis gritar com ela, mas se controlou. Aquela garota, ao que parecia, poderia ser a última chance de sua filha, e seria muito estúpido de sua parte machucar a pessoa que representava sua última gota de esperança.
– Você... Por acaso acha que me conhece? – Estreitando os olhos, ele a encarou. – O que você sabe, ou acha que sabe de mim... Não é nem a metade da verdade.
Sakura apertou os punhos.
– Eu não espero a sua simpatia, senhora Uchiha. E nem a desejo. Peço-te agora a mesma coisa que pedi quando entrou nesta sala... – Os olhos negros tremularam levemente quando ele murmurou: — Salve-a.
Mas Sakura não soube como reagir.
– Você quer fazer isso, não é? – Ele estreitou os olhos. – Quer salvá-la, porque ela merece ser salva. Então, não faça porque eu estou pedindo... Faça porque é o que quer fazer. Porque, se você salvar essa mulher, não é só a ela que vai salvar.
Ele não precisava lhe dizer isso.
Sakura sabia muito bem o quanto Kasumi Uchiha era amada. Amada por pessoas que ela amava. A amada de Itachi, que sempre a tratara com um carinho de irmã. Uma irmã para Sasuke, uma filha para a admirável Mikoto.
– Não o leve daqui. – Ela tentou implorar por uma última vez.
Mas Obito virou-se, puxou uma manta limpa que descansava sobre uma maca qualquer, envolveu seu neto com um inútil cuidado sem sentido.
E simplesmente deixou o quarto.
Rezando para que a nova Uchiha tivesse habilidades suficientes, e um coração melhor do que o resto daquela maldita família.
~
Suzuki havia acordado com uma estranha sensação naquela fatídica manhã.
Era como se o ar estivesse pesado. Ela sentia seu corpo pesar, e mal conseguia respirar... Uma sensação ruim e sem sentido, que a incomodou profundamente.
Francamente, a senhora Hyuuga desacreditava em “maus pressentimentos”. Desde a morte da irmã, duvidava que perigos às pessoas que amava poderiam ser pressentidos por sensações ruins ou afins.
Mas ainda assim estava tensa.
Sabia ser um dia importante. Não só à filha querida seu marido, mas a todo o país do Fogo. Mas sentia-se incomodada a tal ponto que, quando a criada adentrara ao quarto as nove ou dez da manhã no intuito de vesti-la, tudo o que pôde fazer foi verbalizar uma recusa, além de um pedido à moça.
Hiashi foi avisado pela mesma criada sobre a súbita indisposição da esposa, mas não fez caso. Ele confiava plenamente em Suzuki, afinal de contas. Sabia que a esposa era responsável, conhecia seus deveres e fazia o possível para ser uma esposa tão boa quanto havia sido sua antecessora.
O patrono da família não se deu ao trabalho de visitá-la no quarto antes de deixar as terras Hyuuga para seguir ao tão importante evento, e Suzuki tampouco se importou.
Preferia pensar no caso como um voto de confiança ao invés de uma atitude absurdamente negligente. Afinal, Hiashi era um bom homem, e ela estava ciente de seus sentimentos.
A senhora Hyuuga, então, havia passado um dia quieto e silencioso. Isolara-se em seu próprio quarto, francamente confortável com um raro momento de solidão.
Ela tentou ignorar as más sensações que preenchiam seu peito com leitura, música e autodivagações, mas nada foi muito eficaz. Passara a manhã folheando seus diários e admirando seus desenhos – que eram, a propósito, muito ruins em comparação às outras Hyuugas com quem já havia tido contato. Cantarolou algumas de suas composições e tocou o piano pequeno em seu quarto até o entardecer.
Tentou escrever, desenhar, pintar e tricotar, mas nenhuma das atividades serviu como distração e, quando o sol se pôs, ela pôde perceber que realmente algo devia estar muito errado.
O céu estava prestes a escurecer, e não recebera notícias de sua família. Nem Neji, nem Hiashi haviam voltado, e não era do feitio dos homens Hyuuga preocupar ninguém.
Suzuki havia perguntado uma dúzia de vezes, a três empregadas diferentes, se os patrões já haviam retornado. E para as três – uma centena de vezes – havia pedido que fosse imediatamente avisada quando os parentes enfim chegassem.
Enquanto via o sol se pôr, tentou respirar fundo. Tentou raciocinar com calma e frieza, e esforçou-se para manter a compostura, mas a tensão em seu peito – a misteriosa tensão presente desde o amanhecer – não a permitiu nada disso.
Andava de um lado para o outro dentro do grande e confortável quarto, perguntando-se internamente se devia ou não colocar um vestido melhor para visitar a Torre em busca de notícias, quando um barulho de explosão a faz cambalear, e cair sentada no chão.
Confusa, Suzuki ouviu as exclamações e os gritos assustados dos empregados vindos do corredor e, cambaleando, tentou engatinhar até a porta, que se abriu antes mesmo que pudesse alcançá-la.
Um homem alto e forte que fazia parte do ciclo de confiança de Hiashi adentrou sem cerimônias e estendeu a mão a patroa quando outro estrondo, maior e mais alto, pôde ser ouvido.
O capataz tropeçou, caindo à frente de Suzuki de um jeito nada heroico.
– Que diabo é isso?! – Ela gritou a pergunta, sem se preocupar com seu ridículo salvamento.
– Não sabemos, madame. – Ele confessou. – Parecem ser homens do exército... Talvez da guarda real. Não posso afirmar com certeza.
Suzuki não conhecia muito sobre as forças militares de seu país, mas não era uma idiota. Ela conhecia a história de seu povo bem o bastante para mensurar o tamanho do poder dos soldados do Fogo, mas nunca pensou que um dia consideraria isso algo desvantajoso.
– Pelo seu rosto, imagino que conheça o tamanho do perigo. – O homem observou, sério ao notar a palidez no rosto da jovem senhora. – Os nossos homens estão tentando contê-los, madame, mas preciso tirá-la da linha de fogo. O patrão ficará furioso se algo acontecer.
Francamente, a mulher sentia-se confusa com tantas informações.
– Homens...?! – Foi tudo o que ela conseguiu balbuciar, claramente perturbada. Sentia sua cabeça doer infernalmente e se encolheu, apertando as próprias têmporas.
– Os trabalhadores, senhora.
–... Trabalhadores? – Ela soou desacreditada. Realmente, a ideia de ter camponeses lutando contra o exército, a polícia ou a guarda não parecia muito promissora.
– Estão lutando por suas famílias.
Os olhos castanhos do homem brilharam ao pronunciar as palavras, mas ele estava sério. Muito sério. Parecia realmente acreditar que aqueles homens miseráveis poderiam lidar com a situação.
Levou um instante para que Suzuki pudesse identificar frustração em sua expressão corporal, mas foi fácil deduzir o porquê dela.
Imaginou que, talvez, ele também estivesse preocupado com sua família... Mas, por ser o homem de confiança, teria que deixá-los de lado... Deixá-los em segundo plano, já que tinha uma dondoca importante para salvar.
Outra explosão, e Suzuki agachou, encolhida ao chão, sob a proteção do corpo grande do homem que ela sequer sabia o nome.
– Que droga é essa?! – Ela gritou furiosa, e ele estreitou os lábios.
– Pólvora. Eles têm uma dúzia de barris... Detonaram os portões, mas não parecem ter vontade de estragar a propriedade. – Tentou ser cuidadoso ao explicar, mas só conseguiu confundir ainda mais a mente da matrona Hyuuga.
– De qualquer forma, madame... Devemos ir. A senhora precisa ficar a salvo.
~
Hanabi havia roubado pela primeira vez na vida e, francamente, havia ficado muito satisfeita com seu desempenho.
O cavalo fora o objeto de seu furto. Mais especificamente, o belo garanhão branco que pertencia ao rei.
Afinal, se era pra pecar, que pecasse da melhor maneira possível.
O furto havia sido cometido em cumplicidade com a até então correta Tenten, pouco após se encontrarem nos corredores da Torre. As moças haviam corrido pelo palácio juntas: Hanabi, escondida pela manta emprestada e Tenten, por seu excelente desempenho ao atuar como uma criada perdida e desesperada.
Ninguém tinha motivos para se preocupar com duas criadas assustadas, então nenhum dos prováveis traidores lhes deu a devida importância.
Hanabi imaginou que, se fossem mulheres ali, poderiam facilmente notar o fato de que, embora rasgado, o tecido de seu vestido devia valer, no mínimo, uma fortuna. Mas deu graças aos céus pela ignorância daqueles malditos.
Os estábulos, assim como a própria garotinha havia cogitado desde o início, haviam sido interditados pela guarda. Havia três homens a postos, em posição de guarda, claramente protegendo o lugar.
Foi Tenten que se livrou deles ao gritar, escondida em um canto consideravelmente distante que “o rei estava ferido e correndo em direção aos portões”, fazendo com que dois dos três, estáticos, corressem até a direção comandada.
Também não havia sido muito difícil nocautear o rapaz – que era quase franzino, se fosse comparado à Neji – que restara.
Elas haviam roubado dois cavalos. Tenten se contentara com o primeiro que havia visto, mas Hanabi foi até a última casa; resgatara o cavalo favorito do cunhado e, sob o olhar rigoroso de sua atual responsável, montou sem cerimônias.
Pela primeira vez na vida Hanabi havia roubado. E, pela primeira vez na vida, desobedecera às ordens da irmã.
Hinata havia ordenado que a mais jovem seguisse até a casa de sua ama e lá se escondesse, provavelmente por julgar o lugar longe de quaisquer suspeitas e seguro o suficiente, mas Hanabi não podia concordar com aquilo. Além de pôr em risco uma pessoa tão querida, ela simplesmente não podia deixar a irmã para trás. Hinata estava em perigo, e lutava por todos! Então, precisava de alguém que lutasse por ela.
E Hanabi, definitivamente, não tinha nascido para ser uma covarde!
Sua teimosia fê-la galopar o mais rápido possível, ignorando completamente as ordens de sua protetora. Ela gritou para cada soldado encontrado pela cidade imperial que “a Torre precisava de ajuda!”.
Não foi muito difícil tomar a atenção dos homens. Bastou que os militares reconhecessem os traços da família Hyuuga na irmã de Hinata para que decidissem questioná-la com seriedade.
Hanabi havia explicado tudo na medida do possível, embora ela própria não entendesse o que estava acontecendo. Os homens também pareciam confusos no começo, mas claramente compreendiam a gravidade da situação.
Os soldados e policiais reunidos dividiram-se em três grupos: o maior seguiria até a Torre no intuito de dar suporte aos bons homens que certamente deviam estar encurralados; outro continuaria na proteção dos portões e um menor faria a proteção da mocinha.
Hanabi não gostou de ser taxada como menina indefesa quando claramente era a heroína do dia, portanto, assim que se viu sozinha com seus protetores, brigou pelo direito de lutar.
Eles foram inflexíveis, no entanto. Não havia nem a menor possibilidade de enviar a irmã da rainha para a linha de fogo de uma guerra que eles sequer compreendiam direito!
Mas Hanabi era teimosa. Insuportavelmente teimosa. E discutiu até conseguir, pelo menos, que eles o seguissem até a passagem secreta que um dia utilizara para sair do palácio. Imaginou que, em caso de necessidade, eles poderiam sair por lá.
Era um local calmo e discreto, com gente demais para que uma garotinha rica fosse notada, então eles não demonstraram muita resistência. Queriam, acima de qualquer coisa, que ela calasse a bendita boca. Portanto, naturalmente, ficaram bestificados quando vinte minutos depois a parede se abriu, e Neji saiu dali com Naruto às suas costas. O rei estava escondido por uma manta negra, mas ela ainda pôde reconhecê-lo.
Hanabi os observou como se estivessem em câmera lenta, sempre ansiosa por ver o rosto da irmã. Neji foi o primeiro a sair pela passagem, segurando o rei desacordado. Depois Sasuke, com o braço ferido.
Tsunade. Jiraya. Shikamaru...
E eles simplesmente fecharam a porta.
Hanabi se sentiu confusa, tão perdida que não conseguiu verbalizar sequer uma questão. Observou Sasuke dar ordens aos homens, e viu Shikamaru pagar uma quantia absurda por uma carroça velha com cobertura, onde Neji aconchegava o rei.
E, assim, tão rápido quanto apareceram, fugiram.
Para longe da Torre.
Para longe de Hinata.
E o pior de tudo era que Hanabi deixara-se ser levada sem dar um pio.
.
– Hanabi.
A voz de Tenten soou gentil e suave, mas ainda assim, Hanabi despertou num súbito, assustada e perturbada. Ela havia cochilado enquanto sentada num canto da parede, em frente a uma corja de soldados que, para ela, pareciam inúteis.
Naquele momento, eles estavam aconchegados numa pensão não muito distante dos arredores de Konoha. Um casarão oriental que parecia pertencer a um dos soldados que os havia ajudado na fuga.
Sasuke e Neji também estavam lá, sentados em uma mesa próxima. Eles haviam trocado as roupas por vestes limpas, e a mulher da pensão imobilizara o braço de Sasuke após tratar de suas feridas.
Sem sombra de dúvidas, ele parecia ser o mais prejudicado do grupo, mas Hanabi ainda não tinha tido a oportunidade de verificar a situação do cunhado.
Quando os olhos dos rapazes – Sasuke e Neji – recaíram sobre ela de um jeito estranho, a irritadiça garota preferiu evitá-los, desviando seu olhar.
– Querida, você deveria deitar-se em uma cama. – A criada sugeriu carinhosa, e ajeitou o casaco que cobria a menor. – A senhora da casa já preparou um quarto para você. Fica próximo ao de sua majestade, para que fique bem protegida.
Hanabi não quis responder.
Para ela, estar protegida não significava absolutamente nada.
Sentia-se irritada... Frustrada com tudo aquilo! Queria saber da irmã. Precisava saber da irmã, dos motivos por Hinata não estar ali, mas simplesmente não tinha coragem de perguntar.
Estava assustada demais com as possibilidades de respostas.
Encolheu-se ainda mais, fingindo ignorar a Mitsashi, e escondeu seu rosto entre os próprios joelhos, com o coração apertando insuportavelmente. Mágoa, tristeza, irritação e fúria. Era surpreendente que um peito tão pequeno pudesse suportar tantos sentimentos desagradáveis.
Por que eles estavam lá? Hanabi não conseguia compreender.
Por que eles estavam aconchegados naquela pensão, quando era na Torre que deviam estar? Lutando pelo casal real, lutando pelo país, lutando por justiça!
Lutando por Hinata.
Pensar na irmã sozinha ou ferida – porque ela se recusava a pensar em Hinata morta – fez com que Hanabi sentisse um leve tremor em seu corpo. Ela se encolheu mais, e engoliu as lágrimas irritantes.
Não podia chorar... Não queria chorar. Ela tinha que ser forte...
Mas mesmo que pensasse assim, sentia-se quebrada, e um gemido baixo de agonia e dor inevitavelmente escapou de seus lábios.
Tenten mal pôde notar quando Neji havia se aproximado, mas tentou não se sentir nervosa quando o rapaz agachou-se ao seu lado. – Hanabi, você devia dormir. – Ele murmurou em tom baixo. – Já fez muito hoje, ao avisar e guiar os soldados. Se vocês não estivessem lá, dificilmente conseguiríamos escapar.
Hanabi sentiu um bolo de culpa se formar em sua garganta.
Ela não tinha feito isso para que eles escapassem.
– Eu sei que está furiosa... – O primo prosseguiu, afagando carinhosamente os cabelos castanhos da mocinha. – Especialmente comigo. – Ele sorriu tristonho. – Por não ficar ao lado de sua irmã... Mas quero que saiba que tudo o que fiz foi por ela. – Com os olhos levemente estreitos, fitou a figura encolhida. – Porque sua irmã jamais nos perdoaria, se ele morresse ali.
– Eu não me importo! – Hanabi exclamou sua voz esganiçada, sofrida. Ela respirava lenta e audivelmente, tensa e chorosa. – A minha irmã... – Mordeu o lábio inferior. – Ela... Ela está...? – Mas Hana não conseguiu prosseguir.
Não queria ouvir...
Não queria pensar naquilo.
Hinata estava viva. Ela precisava estar!
– A rainha lutava enquanto fugíamos. – Neji murmurou, compreendendo a dúvida da jovem. – Ela é forte. – Ele lhe disse com firmeza. – Sei que está bem.
E, após aquilo, o silêncio se formou. Lentamente, hesitante, os olhos claros da menina egoísta se ergueram, e a mocinha fitou os orbes sérios de seu quase irmão. – Eu não pude trazê-la, Hana... Mas eu vou salvá-la. – Ele garantiu. – Nós vamos. Custe o que custar.
~
Fugaku encarou a porta a sua frente como se fosse um tipo de inimigo.
Os olhos negros estavam frios como o gelo, mas ele sabia que devia mudar isso se quisesse ter algum sucesso.
Respirou fundo, e olhou para suas próprias vestes. Trocara o uniforme da guarda – agora manchado com o sangue da esposa amada – por vestes pomposas feitas para a festa, mas francamente não sentia muita diferença.
Ele ajeitou as abotoaduras caras que havia herdado do tio e, de um jeito exasperado, passou as mãos pelos oleosos cabelos lisos e negros. Novamente, respirou fundo. Tocou a maçaneta da porta e, tornando o olhar dissimuladamente penoso, adentrou ao local.
O quarto de Nagato era grande, então não parecia muito cheio. O príncipe estava deitado, morto, sobre a cama, e tinha a tão amada família ao seu redor.
Karin estava deitada, encolhida, com os olhos vermelhos e o corpo trêmulo ao lado do pai, e alisava com carinho o rosto gélido do príncipe falecido.
Yahiko estava sentado ao lado dela, com os olhos fixos ao corpo do melhor amigo. Fugaku percebeu que o homem parecia ter perdido a si próprio, e devia sofrer tanto, se não mais que a própria princesa.
Konan era a mais sóbrea do grupo. Ela estava em pé, abraçando a si própria, olhando penosamente em direção a sua família.
Ela havia sido a única a perceber a presença de Fugaku... Ou pelo menos a única a demonstrar perceber, erguendo os olhos em sua direção.
Por um minuto, os olhos de Fugaku fixaram-se ao corpo de Nagato. Embora ele tivesse partido de uma maneira rápida e limpa, Fugaku pôde perceber que o príncipe parecia muito mais morto ali, com seus lábios arroxeados e pele pálida do que Mikoto, mesmo cheia de sangue.
Ele afastou os pensamentos imediatamente.
Pigarreou baixo para conseguir a atenção do restante da família e, quando conseguiu, baixou o cenho educadamente; uma encenação de humildade e respeito.
– O que um homem da Elite, como você, faz aqui?
A voz de Yahiko parecia desprovida de qualquer sentimento. Era fria, seca e ressentia, mas ele parecia mais tranquilo do que mais cedo, então Fugaku soube que não corria o risco de ser atacado.
O duque desembainhou sua espada e ergueu-a na direção da cama; ajoelhou-se e baixou a cabeça. – Sou Fugaku Uchiha, senhor. O Duque de Uchiha. – Ele ergueu os olhos negros à família. – Sou o líder e cabeça da guarda real, e faço parte dela desde a minha juventude.
Nenhum dos três pareceu expressar interesse, então ele prosseguiu:
– Eu treinei com o pai de Nagato.
Era verdade.
– Cresci ao lado do príncipe.
Também era verdade.
– E sempre fui fiel ao falecido príncipe herdeiro.
Era uma mentira. Pura e cínica.
– Durante toda a minha vida tentei levar os ensinamentos e as ideologias do príncipe Nawaki aos meus subordinados... – Ele baixou os olhos como se refletisse sobre o assunto. – Quando sua alteza apareceu, pensei ser o dia mais feliz da minha vida. – Novamente ergueu os olhos e desta vez fitou Karin diretamente.
– Estou simplesmente desolado com nossa perda.
Ele observou Konan e Yahiko trocarem olhares desconfiados, e viu o líder dos mercenários se levantar. O ruivo o encarou com os olhos estreitos e cheios e suspeita.
– Mesmo assim, o que faz aqui? Que eu saiba, faz parte do alto escalão que servia ao rei que escorracei essa mesma tarde... Um Uchiha, não é? Parente do rapaz de confiança do Rei.
– Pai. – Fugaku o corrigiu, erguendo o olhar. – Sou o pai de Sasuke e Itachi Uchiha. – Esclareceu, sério.
– Pai dos homens de confiança do homem que nos traiu... – Ele cruzou os braços, ainda o encarando. – Me diga um motivo para que eu não pegue sua espada e o decapite aqui mesmo?
Karin se sentou imediatamente. Os olhos castanhos foram até o rosto da tia, claramente assustados, mas Konan não fez menção em acalmá-la.
Na verdade, sentia-se inquieta.
Por algum motivo, não conseguiu acreditar em uma só palavra daquele homem.
– Você pode me matar. – Fugaku garantiu, muito tranquilo. – Eu perdi minha esposa essa tarde, e posso ter perdido meus filhos... Neste momento, não tenho motivos para viver.
Karin estreitou os olhos, abalada.
– Mas quero deixar clara a minha lealdade... Não para você, mas para ela. – E apontou com a cabeça na direção da ruiva. – Para a única sobrevivente dos Uzumaki capaz de governar o país que tanto amo.
Houve um instante longo de silêncio.
– A única? – Yahiko estreitou os olhos. – O que quer dizer?
Fugaku respirou fundo.
– Naruto é um bom rapaz. Não me entenda mal. – Ele olhou sério ao mais velho. – Minha esposa era muito ligada à falecida rainha, por isso tínhamos uma boa relação com o rei. Mas... Ele nunca me transpassou muita responsabilidade.
Konan estreitou os olhos.
– É um garoto rebelde, irresponsável e facilmente influenciável. Não tem as características de um governante.
Konan estreitou os lábios.
– Francamente, não acredito que a ideia de matar o príncipe tenha partido do rei, mas de um homem chamado Danzou. Ele é conhecido como “as mãos sujas de Konoha”... Possivelmente pode ter influenciado o rapaz a pensar em sua alteza como um traidor.
Yahiko apertou os punhos.
– Então... É isso? Você afirma o envolvimento de Naruto na morte de Nagato?
– Não consigo pensar em como tudo aquilo poderia acontecer sem o conhecimento do rei, senhor.
Era tudo o que Yahiko precisava ouvir para que o peso das dúvidas e da hesitação fossem retirados de seus ombros. Tudo o que ele precisava ouvir para realmente odiar Naruto Uzumaki.
– Por que eu deveria acreditar em sua lealdade?
Fugaku tornou a baixar a cabeça.
– Porque ela é real.
Ninguém se pronunciou. Yahiko ergueu seus olhos à Konan, que parecia tensa e desconfiada; levou seus olhos à Karin, que parecia... Triste, profundamente sensibilizada. E levou seus olhos à Nagato. Seu irmão, seu amigo... Que agora não passava de um corpo sem vida.
Apertou os punhos e cerrou os lábios.
– Quer provar lealdade? – Encarou-o de soslaio. – Traga-me seus filhos. O mais jovem especialmente. E conviva com o destino deles.
– Tio! – Karin levantou-se de súbito, assustada, mas paralisou o corpo ao ver Fugaku se erguer, os olhos sérios e uma expressão tranquila.
– Lamentavelmente isso é algo que não posso prometer. – Ele fitou Yahiko friamente. – Já que não tem filhos, pode não compreender a minha situação... Mas a verdade é que, não importa o quão leal eu seja aos ideais de Nawaki, ou à família que ele formou, jamais entregaria nenhum de meus filhos à morte.
– O que significa que nos trairia na primeira aparição dos malditos! – Yahiko bradou, furioso.
– Não. – Fugaku era a personificação da calma. O que era frustrante. – Significa que não vou matar meus filhos. Significa que vou tentar convencê-los, e mostrar minha visão e apresentar meus ideais.
– Então seja um bom pai e saia daqui antes que eu corte a sua cabeça!
Karin apertou os punhos e deu um passo a frente, ficando ao lado do tio.
– Não. – Ela murmurou em voz baixa. – Ninguém vai sair daqui... – E olhou na direção do Uchiha. – O duque demonstrou que seus sentimentos são sinceros. – Ela observou. – Afinal, que tipo de homem entregaria seus filhos à morte? Mesmo que seja para demonstrar lealdade... Isso é impensável.
O pequeno sorriso que o duque expressou diante àquelas palavras foi sincero.
– Acredito que é disso que precisamos... Sinceridade. – Ela baixou os olhos, tristonha. – Eu fui baixamente enganada pelo casal real... Fui impelida a acreditar neles, em sua bondade e capacidade... Mas, diante a franqueza do duque, tudo o que posso fazer é acreditar em suas palavras.
Tornou a olhar para o tio, mas desta vez parecia buscar uma permissão.
– Por isso, peço que não faça isso... Não afaste as pessoas sinceras... Esse é o momento mais difícil da minha vida, e tudo o que quero é estar cercada de pessoas em que confio. – Carinhosa, ela segurou a mão do mercenário, que parecia realmente afetado por suas palavras.
Yahiko não lhe respondeu nada, mas ela o conhecia o suficiente para saber que seu silêncio era o mesmo que o consentimento.
Karin tornou os olhos castanhos ao duque, seus olhos estreitos e magoados.
– Eu lamento muito pela duquesa, milord.
A sinceridade dela foi como uma faca atravessando o peito dele. Tão dura, gélida e dolorosa, que Fugaku quase não soube como respirar.
– Não conheço os costumes do país do Fogo... Mas gostaria que me guiasse. Sei que fará com que a duquesa parta como uma rainha... E eu quero o mesmo para a despedida de meu pai.
Fugaku forçou um sorriso e fez uma reverência.
– Farei como me mandar, majestade.
O título fez com que um arrepio transpassasse pelo corpo da ruiva.
– Se me derem licença...
Não houve objeções então, após uma educada mesura, Fugaku deixou o lugar.
.
Nervoso e tenso, ele seguiu diretamente para o seu escritório.
Sabia que devia estar satisfeito com seu desempenho, mas não conseguia deixar de pensar no quanto Karin Uzumaki era simplesmente odiosa por lembrá-lo de Mikoto. Fingindo conhecer a esposa... Fingindo admirá-la. Fingindo se importar.
“Guiá-la”? Era claro que ele iria guiá-la! E, definitivamente, não a guiaria apenas durante a despedida do covarde príncipe finalmente morto.
Iria fazer daquela garotinha estúpida uma boneca viva manipulável.
Esses eram os seus planos, desde o começo.
Ele tornaria Karin Uzumaki a rainha do país do Fogo. Sabia que não era uma tarefa difícil a se cumprir, agora que Naruto havia sido escorraçado e era considerado um traidor.
Ele caçaria o reizinho até o inferno e, depois que o matasse, Karin seria a última da linhagem Uzumaki.
Iria colocá-la no poder e mandaria os tios idiotas e intrometidos de volta ao país da Chuva. Karin ficaria sozinha pela primeira vez, e consequentemente se tornaria insegura. Seria muito fácil controlá-la nessa situação.
Karin tinha um bom coração, que convenientemente pertencia à Sasuke. Ela veria em Fugaku o pai que perdeu, e confiaria plenamente em seus julgamentos.
O que daria a ele o controle de tudo.
O duque concluiu que seria tudo mais simples depois da morte de Naruto. Mesmo os fiéis teriam que se contentar com Karin, na falta do outro.
Fugaku se livraria de Sakura tão rápido quanto pudesse e, quando o filho retornasse, casaria-o com a estúpida garota. Sasuke se tornaria o rei e ele, o comandante de todo o país.
Teve os pensamentos interrompidos ao ouvir um estrondo vindo do outro lado da porta. Ele identificou as vozes de Obito e Zetsu discutindo do corredor e francamente se assustou quando, num súbito, Obito entrou no escritório.
Ele tremia de fúria.
Aproximou-se em passos rápidos e, sem explicações, jogou um embrulho pequeno sobre a mesa à frente do cunhado.
– Abra.
Ele comandou com autoridade. Fugaku estreitou as sobrancelhas, muito mais surpreso do que amedrontado.
– Abra!
Obito tornou a comandar, agora em voz alta. E, embora a ideia de ignorar aquela ordem – só para provocar aquele infeliz – fosse muito tentadora, a curiosidade do duque falou mais alto e, lentamente, ele abriu os lençóis.
Ele sentiu cada membro de seu corpo paralisar ao enxergar aquilo.
Sentiu a mente flutuar ao enxergar o menininho tão pequeno e arroxeado.
– Enfim ganhou o seu reino, não é Fugaku? – Obito cerrou os olhos. – Do jeito que é dissimulado, aposto que ganhou a confiança da adorável tola princesa em um piscar de olhos.
Fugaku não conseguiu respondê-lo.
Na verdade, quase não conseguia pensar.
– Mas você devia saber que nada vem de graça... Nada.
Os olhos do duque estavam fixos aos ralos fios da cabeça pequena da criança morta, e ele se sentiu tremer ao perceber o quão negros eram.
– O preço pelo seu reino foi a vida da sua família...
O mercenário socou a mesa, violento.
– O preço pelo seu reino foi a felicidade da minha filha! – Gritou furioso. – Meus parabéns, Grande Avô! – Bradou com ironia. – Acaba de perder o seu tão esperado herdeiro!
~
Naruto despertou ao sentir o pano úmido roçar em seu rosto, mas não conseguiu se mexer. Sentia seu corpo pesado, e sua cabeça doía tanto que sua mente parecia flutuar.
Ele ouvia alguém cantarolando ao longe... Uma voz melodiosa e aconchegante de alguma mulher desconhecida.
Ele tentou pensar. Lembrar-se de alguma coisa que daria sentido àquela situação.
O colchão era fino e desconfortável, então o rei sabia que não podia estar em seu quarto na Torre. Ele também podia sentir o cheiro da floresta... Da terra molhada. E ouvia o som da chuva suave muito próxima.
Aquele lugar o fazia se sentir em paz e tranquilo, então não podia ser a Torre.
A mulher continuou a cantarolar. Uma música gentil e bonita, que o fazia se sentir relaxado.
Naruto tateou pelo futon debilmente, procurando as mãos da esposa, mas tudo o que pôde encontrar foi o chão frio. Quis murmurar o seu nome... Chamá-la, mas sua garganta estava seca, e ele se sentia inexplicavelmente fraco.
Pensou que talvez Hinata nem devesse estar ali. Talvez Naruto estivesse na enfermaria. Sentia-se adoecido, de qualquer forma. E cada uma de suas feridas latejava.
Feridas...
Inevitavelmente, pensar naquela palavra fez com que sua mente divagasse até aquele momento horrível. O último momento em que seus olhos haviam se cruzado com os de Hinata.
Lembrar-se daquilo foi como presenciar a cena pela segunda vez.
Ele viu os olhos perolados assustados e amedrontados como se estivesse de volta àquele lugar. Ele viu-a ser acertada, engolir um grito e cair, encolhida pela dor. E foi nesse exato instante que tornou a realidade.
Os olhos azuis se abriram subitamente, abruptamente, e Naruto agarrou a mão da senhora que o cuidava.
Encarou-a como se ela fosse o inimigo.
– Onde ela está?
Nonou Yakushi sorriu. Um sorriso doce e maternal que parecia divertido e, em qualquer outra situação, certamente acalmaria o coração daquele tão perturbado e sofrido rapaz... Qualquer outra, mas não aquela.
Ele apertou o punho dela.
– Onde ela está? – Tornou a questioná-la, e sua voz tremeu.
– Os seus acompanhantes estão lá, majestade. – Ela apontou para a porta. – Estão comendo. Eu trouxe sua refeição. Algo mais leve e de qualidade, então não é necessário...
Mas antes que ela pudesse concluir seu pensamento, surpreende-se ao vê-lo levantar. – Majestade!
Naruto sentia cada músculo de seu corpo dolorido, mas teimou até estar em pé, e ignorou completamente a mulher ao seguir para fora do quarto em passos firmes e – na medida do possível – rápidos.
Segurando-se nas frágeis paredes do casarão oriental, ele seguiu até onde os murmúrios vinham e, pouco depois, encontrou-se com um bando de pessoas – em sua maioria desconhecidos – reunidos sobre mesas baixas com comidas estranhas.
Ele imediatamente enxergou Jiraya e, sem hesitação, seguiu na direção do avô. Agarrou-o pelo colarinho e, com uma força que devia vir do além, empurrou-o contra a parede.
– Onde ela está?! – Gritou, furioso.
E sentiu o chão sumir ao enxergar hesitação no olhar de seu velho avô.
Eles a haviam deixado para trás...
Hinata havia se ferido, e mesmo assim eles a haviam deixado a própria sorte.
Naruto estava furioso, mas inevitavelmente recuou, extremamente perturbado com suas conclusões. – Não... – Ele murmurou para si próprio. – Não pode...
Aquilo não podia estar acontecendo. Não agora... Não daquele jeito.
O conselheiro mais velho lançou um olhar sugestivo à todos os homens reunidos no local, e os militares imediatamente obedeceram à sua ordem muda, deixando o lugar. Sasuke foi o único a ficar, mas aquilo não pareceu incomodar ao mais velho, que simplesmente voltou-se ao neto.
– Foi a escolha dela, majestade.
A formalidade expressa por Jiraya claramente visava forçar Naruto a se lembrar quem ele era ali: o Rei. O líder. O motivo para se lutar. – A rainha...
– Escolha dela? – Naruto forçou uma risada. – “Escolha dela”...? – Ele apertou os punhos e cerrou os olhos. – Que droga de escolha é essa?! – Gritou, encarando o mais velho. – Quem diabo escolhe morrer?!
Só a possibilidade de tê-la morta fê-lo sentir-se sufocar.
– Hinata não está morta. – Tsunade ponderou. – Não é vantagem se livrar da rainha nessa situação. Hinata é uma refém importante... Todos eles estão cientes de seus sentimentos por ela.
Os olhos de Naruto se estreitaram.
– Por isso mesmo... – Ele passou as mãos pelos cabelos, desnorteado. – Eles sabem da nossa relação... Dos nossos sentimentos... – Ele apertou os punhos. – Se ela estiver morta... Se ela estiver ferida... – Ele cerrou os lábios. – Por minha causa... Para me proteger!...
Socou a parede.
– Que porcaria ela estava fazendo?! – Gritou a questão para si mesmo, em um tom choroso. – Desde quando uma mulher tem que se sacrificar pelo seu homem?!... Não devia ser o contrário?!
Sentiu seu coração apertar.
– Ela não devia... Eu é que tinha que defendê-la...
– Fala como se a Hinata fosse uma mulher qualquer. – Sasuke enfim se pronunciou, tomando a atenção do amigo. – Mas ela não é. – Ele afirmou com os olhos sérios. – Hinata é a Rainha. Diferente de você, conhece seus próprios deveres.
Naruto estreitou os olhos, claramente ressentido.
Sasuke estava ferido. Tinha o rosto cheio de escoriações e o braço estava imobilizado. Trajava um medíocre quimono – emprestado pela pousada, Naruto imaginou –, mas ainda assim continuava o mesmo homem.
O decidido e intocável Sasuke Uchiha.
Por que você permitiu isso, Sasuke? – Naruto perguntou entre dentes. – Tem ideia do quanto essa mulher significa para mim? Do que ela representa...? – Os olhos de Sasuke continuavam severos e indiferentes, e aquilo incomodou ao rei de tal forma que, em um piscar de olhos, Naruto estava se lançando sobre o amigo.
– Eu estou te perguntando! Como pôde permitir que a deixassem?! Ela é a sua rainha, não é...?! Ela é a soberana de todos! Então por que a deixaram?! – Ele estava furioso, claramente descontrolado, mas Tsunade foi a única a se mover, e tentar afastá-lo do guarda ferido.
– Como eu vou poder viver, se algo acontecer à ela?!
Mesmo longe, Naruto continuou a gritar, cuspindo as palavras na direção de Sasuke. – Se algo acontecer a Hinata, eu vou perder tudo! E do que adianta estar vivo, se eu não tenho motivos para isso?!... Eu devia estar lá! Eu devia tê-la protegido!
– Como a própria princesa Tsunade afirmou, Hinata dificilmente será morta enquanto você estiver vivo. .- Sasuke foi frio, direto e objetivo. – Ela é uma refém preciosa. Precisam da rainha viva para atrair o rei... É algo simples de se pensar.
Naruto franziu os lábios e estreitou os olhos.
– Acho que não consegue entender sua própria situação, Naruto. – O Uchiha prosseguiu. – Isso não é um livro. Não é uma história de amor idiota em que o mocinho pode se dar ao luxo de entregar sua vida pelo bem da mulher que ama... Isso é um jogo.
Naruto cerrou os punhos e tentou, inutilmente, livrar-se do aperto de Tsunade. Ele tinha que bater em Sasuke!
– Assim como as peças do xadrez, somos obrigados a nos mover estrategicamente. É sujo, frio, mas é a realidade. Obrigados ou não, todos tem a responsabilidade de se sacrificar pelo rei, caso necessário... E, querendo ou não, você é o Rei. Então pare de agir como uma criança rebelde e assuma suas responsabilidades!
Ele foi firme, decidido, e o silêncio se estendeu.
– Eu sei que é difícil para você... – Sasuke sussurrou. – Porque, embora seja uma obrigação, deixar que os outros se sacrifiquem em seu nome não faz parte da sua personalidade... Mas é isso o que nós somos, Naruto. Nenhum de nós age por bem próprio... Se a Hinata se sacrificou, esteja certo que não foi só por te amar.
Os olhos azuis, até então baixos ao chão, lentamente se ergueram para encarar o amigo. – Salvar você é o mesmo que salvar a esperança do país do Fogo.
–... Não...
Naruto se sentou, exausto por toda aquela situação.
– Eu não sou a esperança de nada... Nem sou um rei de verdade. Hinata é uma Rainha. – Ele estreitou os olhos. – Se fosse para sobrar um de nós, eu sei que a nação do Fogo estaria melhor nas mãos dela.
– Assim como você seria muito melhor aconselhado, caso Itachi estivesse no meu lugar. – Pela primeira vez, a voz de Sasuke soou suave. Mais uma vez, Naruto levou sua atenção ao Uchiha. – Você acha que é o único que queria estar lá?
Ele estava sério.
– Você diz que perdeu tudo, mas devia olhar a sua volta. – Com a cabeça, ele apontou na direção de Tsunade e Jiraya.
Mais uma vez, o silêncio.
Sasuke apertou o punho bom.
–... Minha mãe está lá. O meu pai. Meu irmão, minha cunhada... – Os lábios se cerraram. – Minha sobrinha. – Tentando não transparecer a dor em seu peito, encarou o rei firmemente. – Minha esposa está lá. Carregando o meu filho.
Naruto baixou os olhos.
– Mas eu estou aqui. Firme. E, embora você seja tão importante quanto o meu irmão, eu não estou aqui por você. Estou aqui pelo Rei... Pela nação.
Naruto quis dizer alguma coisa. Alguma palavra de consolo, mas nada lhe passou pela mente.
– Se você estivesse lá, e ela aqui, tudo mudaria. O maldito mercenário ia te estripar, e depois nos procuraria. O reino ficaria nas mãos da Akatsuki e dos traidores, que com certeza estão envolvidos em toda essa sujeirada. – Os olhos negros se estreitaram. – No fim, nada sobraria. – Sasuke afirmou. – Nossas esposas não sobreviveriam, e meu filho morreria com Sakura. Kasumi morreria por Itachi, e Itachi morreria por Kasumi. Meus pais seriam assassinados e só Deus sabe o que aconteceria à Akane.
Ele franziu os lábios.
– Você acha que perdeu tudo?... Eu perdi tudo.
E, numa atitude súbita, furiosa e impensada, ele chutou uma das mesas, fazendo com que a louça desabasse. – A minha família é mais perigosa do que preciosa! – Ele exclamou com a voz baixa, mas tensa. – E, diferente da sua rainha, eles morrem se forem pegos.
Mais uma vez, Naruto viu-se sem resposta. Em seu peito, a aflição cresceu.
Sasuke ficou parado por mais um minuto, tentando controlar sua própria respiração, conter seus próprios sentimentos, mas sabia que era impossível. Ele fez uma curta reverência com a cabeça e, sem esperar por permissão, retirou-se, seguindo na direção da chuva.
~
A mente de Itachi parecia flutuar sobre as memórias daquele dia.
Ele pensava na mãe... No frágil corpo estirado ao chão, envolto numa poça de seu próprio sangue. Lembrava-se dos olhos dela; os olhos negros arregalados, olhando fixamente em sua direção.
Pensou em Danzou. E em como queria matá-lo naquele mesmo instante.
Itachi mal conseguia sentir seus braços que, erguidos e presos a correntes altas e grossas, pareciam ter adormecido. Ele havia sido despido de sua camisa; alguns homens limparam e trataram suas feridas, o que só o fazia concluir que, de fato, Fugaku devia estar envolvido.
Afinal, porque outro motivo os traidores tratariam com tanto zelo um conselheiro claramente fiel ao Rei?
O pensamento o fez se sentir um idiota. Havia confiado tanto... Se esforçado tanto para provar a inocência do pai! E, no fim, ele realmente era um maldito traidor.
Talvez até mesmo O maldito traidor.
Itachi tinha a cabeça baixa e os olhos perdidos, pensativos encaravam o chão. Ele não se deu ao trabalho de erguer o olhar quando ouviu a porta se abrir, e se manteve imóvel, mesmo depois de reconhecer a voz de seu pai chamando.
Por um longo instante, Fugaku permaneceu parado, ao longe, encarando a figura do filho preso. – Itachi. – Ele o chamou por uma segunda vez, mas novamente não houve reações.
O duque suspirou longamente; puxou algo que poderia usar como banco e sentou-se a frente de seu primogênito. Sem hesitação, ele agarrou o queixo do filho e ergueu o seu rosto, obrigando-o a olhá-lo.
– Então, você realmente fazia parte da ANBU... – Ele soou desgostoso, decepcionado. – Diga, Itachi... Há quanto tempo trabalha para destruir sua própria família?
Itachi forçou uma risada.
– A menos tempo do que você, posso afirmar. – Ele ergueu os olhos negros frios até os do pai. – Traidor. – Cuspiu a palavra, e Fugaku sentiu seu corpo tremer.
Sua resposta foi um soco firme e violento no rosto do filho. Tão forte que fez um filete de sangue escapar do nariz do jovem conselheiro. – Traidor? – Ele forçou uma risada. – Eu não sou um traidor. Os Uchihas deviam ser a monarquia, não os malditos Uzumakis.
Itachi lhe deu um sorriso pequeno.
– Então é disso que se trata? – Ele tentou zombar, mas sua voz soava fraca. – É, parece que os superestimei... Pensei que se tratava de poder, não inveja.
Fugaku estreitou os lábios.
– Você pode dizer o que quiser meu filho, mas justiça é justiça. O país do Fogo foi erguido com o sacrifício de muitos Uchihas, não pela lábia alegre dos Uzumakis ou Senjus... Nós merecemos ser tidos como líderes, não eles.
Itachi respirava lentamente, fracamente, ainda dolorido pelas pancadas do tio.
– Então, de fato... Você é O traidor... – Ele balançou a cabeça, desacreditado. – É você quem usa e manipula todos à sua volta... – O encarou, sério. – Foi você, não foi? Quem ordenou a morte dos antigos soberanos... Que ordenou a morte de Nagato.
– Obito foi o responsável.
Foi tudo o que Fugaku afirmou e, de alguma forma, as coisas pareceram fazer sentido na mente de Itachi.
– Obito... – Ele estreitou os olhos e encarou o pai como se Fugaku fosse um monstro. – Foi por isso... Por isso que aceitou a guarda de Kasumi, não é? Para poder tê-lo em suas mãos... – Ele apertou os punhos e estreitou os lábios. – Foi por isso que não recusou nosso casamento! – Exclamou. – Porque não queria perder sua refém!
Francamente, Fugaku se surpreendeu.
Ele não estava ciente do conhecimento de Itachi sobre Obito, então ficou espantado pelas conclusões do filho. Especialmente por estarem completamente corretas. Mesmo assim, ele não quis afirmar.
Estava cansado de tudo aquilo...
Cansado de se sentir um monstro.
Porque só Deus poderia saber o quanto ele queria ser tão frio quanto os outros o julgavam. Só Deus poderia saber o quanto ele realmente não queria sentir... O quanto ele queria não sofrer.
– Eu tenho algo a dizer...
– Eu não quero ouvir nada. – Itachi o interrompeu, furioso, machucado.
Agora as palavras de Obito podiam fazer algum sentido. É claro que o homem tinha motivos para odiá-lo! É claro que ele tinha motivos para culpá-lo!
Kasumi era uma refém, e ele havia contribuído para sua situação.
Mesmo sem querer, havia posto a vida da mulher que amava em perigo... Simplesmente por amá-la.
– É sobre o seu filho. – O murmúrio do pai tirou-o de seus devaneios. Quando encarou o duque novamente, sentiu-se estranho... Confuso.
Fugaku parecia triste e abatido, e aquilo o desarmou completamente.
– O menino que Kasumi esperava... Está morto.
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