The King
51 Golpe Surpresa.
Notas iniciais
Capítulo 51 – Golpe Surpresa.
Obito não conseguia acreditar em tamanha má sorte. Não apenas pela Rainha, como também por ele, que embora devesse se tornar o delator de sua gravidez, sentia-se incapaz de tal coisa.
Os olhos daquela mulher... Os olhos tristonhos, apavorados e implorativos da rainha não lhe saíam da mente e, por isso, foi impossível seguir diretamente ao quarto de Fugaku para lhe dar a tão surpreendente notícia.
A rainha havia sido encurralada da pior maneira, e no pior momento possível. E Obito não pôde deixar de se compadecer, de lamentar.
E de lembrar-se.
Ele ergueu os olhos negros até a pedra que formava o túmulo de Rin, e deslizou o indicador pelas letras de seu nome.
Parecia até uma brincadeira de péssimo gosto.
De tantas pessoas... Justo ele! Justo ele descobrir sobre a maldita gravidez. Justo ele, que acabara de perder o neto! Justo ele, que passara por uma situação tão semelhante anos e anos atrás.
Lembrava-se perfeitamente do dia em que os pais de Rin descobriram sobre a gravidez. Inicialmente pareciam calmos, tranquilos, e tentaram seguir a lógica racional... Rin devia se livrar da criança indesejada e seguir com os planos dos pais, casando-se com Kakashi.
Mas Rin não quis enganá-lo e, mais que isso, não quis se livrar de seu bebê...
E, assim, o pesadelo de Rin e Obito havia começado.
Ele estreitou os olhos e alisou a pedra. – Eu sei o que está pensando... – Murmurou. – Está pensando que eu seria pior do que Fugaku, se o contasse. Mas o que eu deveria fazer?... Se ele descobrir que sei, vai machucar a Kasumi... Mais do que ela já está machucada! Ela não poderia suportar.
O soprar do vento foi sua única resposta. E, embora não esperasse nada além daquilo, sentiu-se indignado com o fato de o peso em seu peito não sumir, já que em geral só estar naquele lugar conseguia tranquilizá-lo.
– Vamos Rin... Você devia acalmar o meu coração, não é?... A nossa filha é tudo o que importa... – Ele respirou fundo e fechou os olhos. – Por favor, faça-me crer que vale a pena fazer isso.
Mas nada. Nada além do vento suave da manhã.
–... O que eu poderia fazer?
Mas não importava quantas vezes se perguntasse, não conseguia achar uma resposta sem que ou seu coração, ou sua mente deixasse de se perturbar.
A luz alaranjada do sol nascendo fê-lo despertar de seus devaneios, e uma nova preocupação o deu forças para se levantar. Ele olhou para o relógio de bolso e fez uma careta; precisava correr para a Torre. Logo Fugaku estaria pronto e, caso ele chegasse ao quarto de Kasumi antes de Obito...
Pobre da senhora de Sasuke.
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Em contrapartida à todas as horas que passara desacordada nos últimos dias, Kasumi não conseguiu pregar os olhos naquela noite.
Sakura sabia disso porque passara o tempo inteiro ao seu lado, lhe cuidando com o mesmo zelo e carinho que – e Kasumi podia afirmar isso com total convicção – Mikoto o faria.
Elas não conversaram muito, embora a frágil Uchiha a tivesse finalmente perguntando sobre os atuais acontecimentos e os motivos que as faziam ficar ali, presas naquele quarto. Sakura imaginou que talvez o estado de Itachi tivesse atiçado seus interesses, reavivado suas preocupações.
Ela lhe explicou o que sabia, mas não sabia muito. O príncipe havia sido morto, e a Akatsuki imediatamente concluíra que Naruto havia sido o traidor. Os mercenários atacaram e, de uma forma bastante suspeita, conseguiram encurralar o casal real a ponto de o Rei ter que fugir – embora a saída de Naruto mais parecesse um sequestro do que uma fuga propriamente dita! – para manter-se a salvo.
– Hinata foi capturada?! – Só a ideia fazia Kasumi se apavorar. – Isso é mau... Ela não pode ter muito tempo, se anseiam colocar aquela ruiva como nova rainha!... Onde ela está Sakura?! Nós precisamos ajudá-la. Ela não foi gravemente ferida, foi?!
– Eu não sei. – Sakura suspirou ao confessar. – Ela foi ferida. – Disso lembrava muito bem. – Mas imagino que tenha sido cuidada... Foram muito cuidadosos ao levarem-na, diferente dos demais reféns.
– É uma refém importante. – A morena concluiu, franzindo os lábios. – Ainda assim há perigo... Nós precisamos descobrir onde ela está! Precisamos ajudá-la a sair daqui!...
– No atual momento estou mais preocupada conosco. – Sakura foi sincera. – Não consigo imaginar Karin mandar matá-la só para ser a verdadeira rainha.
Por mais que não gostasse de Karin, Sakura sabia que a garota, embora mimada por mercenários, não era o tipo de pessoa que pedia a cabeça de terceiros em bandejas de prata.
– Talvez ela não. – Kasumi concordou. – Mas alguém com certeza está pronto para convencê-la... – Ela parecia séria e taciturna. – Não vê?! Alguém orquestrou toda essa situação! E fez muito bem planejado... – Ela pousou a mão no queixo, pensativa. – É óbvio que alguém estava insatisfeito com o rumo das coisas... Decidiram tirar o Naruto e colocar essa garota, talvez por ser mais fácil de lidar... Talvez a Anbu ou o Danzou...
E só pensar naquele homem fez seus pulmões pararem de funcionar. Foi como se um raio a atingisse... De novo. Como se sua alma revirasse dentro do corpo, e todos os seus músculos se contraíssem em desespero.
Aquela lembrança ainda estava viva em sua mente, e Kasumi acreditava que jamais poderia esquecê-la: a imagem daquele maldito homem agachando-se friamente para puxar o punhal do peito de sua preciosa mãe, fazendo com que o corpo da grande duquesa se erguesse e tornasse a cair feito uma pedra. Como se ela não fosse nada.
Aquele homem era desumano... Era um monstro! E Kasumi percebeu que esperava que fosse ele. Queria que ele fosse O Traidor, só para vê-lo ser enforcado em praça pública quando o bem triunfasse.
Um pensamento não muito religioso, ela tinha que admitir, mas extremamente sincero, e tão forte que ela quase não podia respirar, apenas por imaginar a cena.
Foi impossível Sakura não perceber seu sobressalto. Alheia aos sombrios pensamentos da cunhada, a rosada afagou seus cabelos castanhos até que recuperasse sua atenção. – Já vai amanhecer. – Ela disse com um tom tranquilo. – Já que não vai descansar, devia se aprontar... Posso ajudá-la a se vestir, pentear seus cabelos...
Kasumi sentiu uma sensação incômoda no estômago.
Sakura não era exatamente igual à Mikoto. Muito longe disso!... Mas a sua gentileza, seu zelo e o jeito de sempre se esforçar para cuidar de todos à sua volta... Eram tão semelhantes à falecida duquesa que ela chegou a se emocionar.
– Deve ter um vestido por aqui. – A rosada levantou-se lentamente. – Eu vou preparar... – Mas antes que pudesse concluir a frase, sentiu o corpo cambalear.
Kasumi se levantou num súbito, realmente preocupada, mas o mal estar e a maldita febre – que embora baixa, ainda não havia passado por completo – fê-la sentar-se mais uma vez.
– Sakura!...
– Eu estou bem. – Ela tentou tranquilizá-la, mas não parecia nada tranquila.
Os enjoos matinais estavam ficando cada vez piores e, embora quase não comesse, a barriga de Sakura cismava em crescer! Na realidade, a nova senhora Uchiha concluiu que se evidenciava diante do seu rápido emagrecimento.
Ela pousou a mão sobre o ventre e apertou-o de maneira angustiada.
O que poderia fazer...?
Certamente havia ficado viva por seus conhecimentos, por sua habilidade em cuidar dos outros. Mas Sakura não tinha tanta certeza se iria se manter a salvo quando os mercenários descobrissem que esperava o filho de Sasuke Uchiha...
Talvez o herdeiro da família Uchiha.
Só o pensamento fez seu estômago contorcer tortuosamente; ela sentiu suas pernas perderem as forças e, aos poucos, agachou-se ao chão. O medo começava a tomar conta de sua mente... Certamente Kasumi estava viva por seu estranho relacionamento com o mercenário Tobi, assim como Itachi.
Mas o herdeiro deles estava morto. Não era uma ameaça... E o que seria de Sakura, caso descobrissem?!
Engoliu em seco ao concluir que, sem dúvidas, acabariam por matá-la, consequentemente acabando com a vida do filho que ela já amava.
– Sakura... – Kasumi finalmente conseguira se por ao seu lado. Pousou as mãos sobre os ombros da cunhada gentilmente e afagou-lhe um dos braços com sincera preocupação. – Que há, querida? Ficou pálida de repente...
Francamente, Sakura precisava dizer. Sentia a necessidade de desabafar com alguém... A necessidade de ser cuidada por alguém. Estava grávida, pelo amor de Deus! E passava pela maior agonia de sua vida.
Ela não queria dizer a Kasumi... Talvez a notícia de sua gravidez fosse um grande tapa no rosto da cunhada, que acabara de perder seu próprio bebê... Mas, por outro lado, Sakura realmente pensava que só estava ali, viva e segura por causa dela.
Obito realmente parecia confiar estranhamente em seu modo de cuidá-la e, se havia alguém que poderia ajudá-la, certamente esse cúmplice era aquela mulher, por mais fraca que aparentasse ser.
– K- Kasumi...
Seus lábios tremeram ao pronunciar o nome da senhora de Itachi, mas antes mesmo que ela pudesse realmente decidir se prosseguiria ou não, a porta se abriu.
Era quase um costume de Obito adentrar ao quarto daquela maneira, então Sakura não chegou a se preocupar realmente... Ao menos não até erguer os olhos, e dar de cara com Fugaku Uchiha.
Suas vestes pareciam tão finas quanto às de um Rei: longas, com pesados tecidos de cor negra... E sua aparência, embora abatida e cansada, certamente nada lembrava a do prisioneiro que as duas noras imaginaram ser.
O duque pareceu tão surpreso quanto elas.
De fato, lhe faltaram palavras para descrever o tamanho de sua surpresa ao encontrar a maldita Sakura ali, tão aparentemente tranquila, confortavelmente hospedada no quarto de Kasumi, quando deveria estar sofrendo com os demais reféns, trabalhando feito uma escrava dentro das salas de tortura, cuidando dos soldados apenas para que eles fossem novamente feridos.
Bem lentamente, ele sentiu seu rosto queimar de raiva.
“O quê ela estava fazendo ali?!” Perguntou-se entre dentes. Se não morta, a maldita devia estar bem longe de sua família!...
– Milord... – Sakura deixou escapar, chocada demais com suas próprias conclusões.
Não... Aquilo não podia ser verdade.
Ontem mesmo elas haviam visto Itachi! Tinham visto sua situação!... Ele estava tão fraco... Havia sido torturado, claramente ferido! Como poderia seu próprio pai ser responsável por isso?!... Como poderia um pai permitir isso?! Só a ideia lhes parecia loucura.
E, no entanto...
– O que você faz aqui?! – Ele perguntou entre dentes, olhando fixamente para a esposa de Sasuke, que inevitavelmente sentiu-se encolher. – Responda! – Exclamou com fúria palpável.
– Ela está cuidando de mim! – Kasumi o respondeu, em um tom tão alto e raivoso quanto o do próprio duque. Sakura percebeu que suas conclusões não deviam ser tão diferentes quanto suas próprias. – Foi ela quem... Me ajudou... – Sua voz quebrou. – Com meu bebê...
Os olhos negros do mais velho se estreitaram.
– Então você foi a responsável pela morte do meu neto...
Sakura arregalou os olhos, e embora tivesse aberto a boca para retrucar, nada lhe saía da garganta. Que diabo aquele homem estava falando?! De onde poderia tirar uma ideia tão absurda?!
– Claro. Não esperava mais de uma incompetente!... Maldita bastarda, por que ainda está viva?! – Ele tentou puxá-la pelo braço, mas Kasumi lançou-se entre os dois como um tigre.
– Como ousa?! – Ela questionou-o com frustração. – Graças a essa mulher estou viva! – Ela sentiu seus olhos queimarem. – Graças a ela... Pude ver, tocar meu filho!
– Seu filho morto! – Fugaku pontuou. – Será que não está claro para você? Essa maldita matou seu bebê! Graças aos seus maus cuidados, você jamais poderá tentar ter outra criança, Kasumi... Tudo isso por causa dela!
Os olhos castanhos se estreitaram.
– Por causa dela?!... Não foi ela a causadora da morte de Mikoto! Foi o traidor, milord. – O tratamento foi carregado de ironia. – Traidor que, perdoe-me se eu estiver errada, mas parece ser você. – Praticamente cuspiu as palavras.
Fugaku sentiu seus músculos enrijecerem, e por um segundo, não pôde se aproximar delas.
Kasumi o olhava como se fosse o pior dos inimigos... Como se finalmente tivesse percebido que ele era o culpado de tudo.
E, embora francamente pouco se importasse com os pensamentos da primeira nora sobre sua pessoa, o desprezo contido em seu olhar o afetou muito mais do que ele gostaria de admitir a si mesmo.
Fugaku enfim percebera que, caso estivesse viva, Mikoto o trataria da mesma forma, se não pior. E concluir aquilo o machucou... Profundamente.
– Não pode... – Sakura sentia-se tremer. – Itachi... – Ela piscou rápido para não chorar. – Não... Nem você faria algo assim a um filho... – Embora “Itachi” fosse o nome a sair de seus lábios, Sakura só podia pensar em Sasuke.
Sasuke, que ajudara o rei a fugir... Que lutaria ao lado de Naruto mesmo que isso custasse sua vida. Se ele podia ser tão cruel com Itachi, seu primeiro filho e herdeiro, o que poderia fazer à Sasuke?!
Ela não queria imaginar, mas foi impossível.
Os olhos do duque, carregados de ódio e fúria, encararam os amedrontados olhos esverdeados da antiga senhorita Haruno.
– Acha muito, o que fiz a Itachi? Espere para ver o que farei a você.
E agarrou-a pelo braço, obrigando-a a se levantar.
Kasumi apressou-se a fazer o mesmo e tentou, mesmo sem forças, afastar a cunhada do sogro. – Não toque nela! – Gritou a futura duquesa. – Eu não vou permitir que a machuque!... – Mas Fugaku já estava arrastando a rosada pelos aposentos. – Solte-a!... Solte-a!
Ela saltou sobre os ombros dele, e Sakura se viu livre para se afastar.
– Não basta machucar Itachi?! – Kasumi se viu gritar. – Não basta a morte de Mikoto?!... Você também tem que ferir ao Sasuke?!
Era algo muito idiota a se dizer. Especialmente a um homem tão furioso...
Kasumi sabia disso, mas só pôde ter certeza quando, ao ser derrubada de seus ombros, Fugaku acertou-a no rosto com uma forte cotovelada, que a fez desmaiar imediatamente, e cair com força no chão.
Sakura gritou, apavorada, e ignorando seus próprios medos, correu na direção da morena. – Senhora Uchiha! – Ela exclamou. – Senhora Uchiha! – Tentou gritar, mas de nada servia o seu desespero.
Fugaku se arrependeu no instante em que viu o rosto de Obito, pálido, no portal que dava para o quarto. Por um segundo que pareceu eterno, o mercenário não soube como reagir.
Era como se sua mente flutuasse em um mundo alternativo...
Porque aquilo não podia estar acontecendo no mundo real.
E, no entanto, Fugaku continuava ali, parado, olhando-o com tanta indiferença que ele mais parecia um nada ao invés de o pai da pobre moça que havia sido covardemente nocauteada por um homem que devia ter o dobro de seu tamanho.
– Quantas vezes você fez isso? – Obito ouviu sua voz perguntar. – Com que frequência você bate nela? – Sentia-se tremer, e mal percebia seus próprios passos.
Fugaku não o respondeu, e Obito percebeu que não responderia, de qualquer forma. – “Eu não vou tocar sua filha”, Fugaku. Lembra-se dessa frase?... Dessa promessa?! – Ele deu ênfase a palavra final. – Foi o que você me disse, antes de converter-me em seu mercenário particular!
Ele agarrou o colarinho do duque.
– Ao menos uma vez na vida eu pensei que teria a decência de cumprir sua palavra, seu verme maldito! – E sem esperar uma resposta, acertou o nariz do cunhado que, embora tivesse uns bons centímetros a mais, desabou no chão. – Vai aprender a nunca mais tocar na minha filha!
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O alçapão do Templo levou Naruto e seu pequeno grupo de companheiros a túneis subterrâneos largos e, surpreendentemente, muito bem construídos. De fato, era uma estranha e antiga passagem, mas parecia surpreendentemente bem cuidada, como se fosse constantemente usada...
Embora Naruto sequer pudesse imaginar para quê.
– Esses túneis podem nos levar a qualquer lugar na vila. – Nonou Yakushi garantiu enquanto seguia à frente do grupo. – Ele foi feito para a Anbu, por Anbus. – E virou-se para sorrir aos mais jovens. – Um projeto longo e ambicioso. – Ela garantiu aos suspiros. – Que no fim realmente se mostrou útil. – Murmurou para si mesma, voltando a tomar atenção em frente.
– Ser feito pela Anbu não me tranquiliza em nada. – Sasuke bufou, mal humorado. – Se Danzou está envolvido...
– Para a sua tranquilidade, senhor Uchiha, Danzou nunca foi informado sobre a existência desse lugar. – Ela afirmou sem parar de andar. – Mesmo na Anbu atual, garanto que ao menos metade da organização não confia plenamente naquele velho tantan, ou discorda de seus métodos.
Nem Naruto nem Sasuke podiam ver seu rosto, mas estava claro, pelo tom de voz usado pela mulher, que ela falava sério.
–... Os túneis foram projetados pelo antigo príncipe herdeiro. – Ela prosseguiu depois de hesitar por alguns segundos, e soou... Tristonha? Os amigos se entreolharam ao perceber isso. – O príncipe Nawaki selecionou pessoas de confiança e, em três anos, tudo foi arranjado.
– Pessoas de confiança na Anbu? Pessoas de confiança da Anbu que, inclusive, não confiavam no Danzou? – Sasuke forçou uma risada e cruzou os braços. – Lamento, senhora Yakushi, mas só a ideia me parece idiota.
Nonou deu os ombros e continuou seguindo em frente, encerrando o assunto.
– Eu não gosto disso. – Sasuke murmurou de modo que só o amigo o escutasse.
– Não temos escolha, Sasuke... – Naruto tentou ponderar, mas o Uchiha bufou com desagrado. – Não temos tempo, maldição!
– Sei que não temos tempo. Mas entrar na Torre dessa maneira, com tão poucos homens... – Ele olhou em volta, aos sete soldados à sua frente que seguiam a mulher com o lampião. – Você sabe que é uma ideia idiota, Naruto. Se não soubesse, não teria deixado seus avós para trás.
O rei suspirou longamente.
– Eu diria perigosa, mas não idiota.
– Eu diria suicida.
– Mas o quê...? – A voz de Nonou tomou a atenção dos rapazes, que imediatamente ergueram o olhar.
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Kakashi suspirou longamente, e esticou as pernas o quanto pôde.
– Tome um pouco. – Shisui lhe empurrou o galão com água. – Alguém do Templo colocou isso na porta do alçapão, ontem a noite.
– É veneno? – Kakashi fez uma careta ao cheirar a água. – Tem um cheiro forte.
– É do galão, não da água... E você quer parar de reclamar? É tudo o que temos, até que os reforços cheguem.
Depois de oito dias e sete noites presos naqueles túneis antigos e escuros, sobrevivendo pela ajuda de dois ou três sacerdotes de confiança, Kakashi não acreditava realmente que os tão sonhados reforços chegariam algum dia. Na realidade, estava agora mesmo se lamentando por ter que morrer ali, preso com a companhia de Shisui, um galão de água fedorento e um lampião quase sem gás.
– Nós devíamos fugir. – Ele murmurou com irritação. – Não aguento mais ficar aqui embaixo.
– Se um de nós pisar lá em cima. – Shisui apontou. – Vão cortar nosso pescoço. – Ele garantiu, e virou o galão com cuidado para beber da água nojenta. – Pior que ter o pescoço cortado é ter o pescoço cortado pelos meus antigos subordinados, então eu prefiro ficar e esperar até que algum Anbu louco apareça.
– Todos estão presos. – Kakashi garantiu, suspirando pela ideia. – Nós estamos perdidos, garoto... Perdidos...
– Quem está aí?! – Uma voz feminina questionou alto, e os soldados imediatamente se aprumaram. – Quem está aí? – A pergunta se refez e eles se entreolharam. – Apresentem-se!
Talvez algum louco enfim tivesse chegado.
– Kakashi Hatake, do exército!
– Shisui Uchiha, da polícia militar!
Sasuke sentiu o coração pesar.
Shisui estava ali?!... Se Shisui estava ali, talvez Itachi... E, sem nem mesmo pensar nisso, o Uchiha correu para alcançá-los.
Contra a luz do lampião, tudo o que os soldados perdidos puderam vislumbrar foi um grupo que ambos consideravam pequeno demais para salvar a pátria. – E vocês, quem são? – O líder da polícia quis saber imediatamente.
– Nonou Yakushi, da Anbu. – Nonou se apresentou em tom moderado, e se surpreendeu ao sentir Sasuke passar por ela, tão rápido que mal pôde identificá-lo.
Ao alcançá-lo, não pôde fazer nada além de agarrar os ombros do mais velho e sacudi-lo como se assim pudesse soltar alguma coisa. – Onde está Itachi?! – Ele ofegava, mas não sabia se por desespero ou pela curta corrida. – Kasumi?!... Mamãe! Diga-me que estão aqui, por favor!
Mas Shisui não pôde dizê-lo.
De fato, estava muito surpreendido com o fato de Sasuke estar ali, e não preso como os demais fiéis do Rei deviam estar àquela altura do campeonato.
– Sasuke... – Ele segurou o rosto do sobrinho, realmente chocado. – Sasuke! Você está aqui! – E o abraçou com força e firmeza, trêmulo. – Pensei que estava lá... Pensei que também o tinham capturado!
Mas aquelas palavras, embora carregada de emoções positivas, fizeram com que Sasuke sentisse seu chão sumir. Porque se Itachi não estava ali, certamente o haviam pego. E, se Itachi fora capturado... O que seria deles?!
– Como chegaram até aqui? – Nonou quis saber. – Não me lembro de vocês.
– Também fizemos parte da Anbu, senhora. O Rei Minato nos apresentou o lugar. – Kakashi se explicou, suspirando. – Por favor, não se preocupe.
Ela pareceu pensar por um segundo, mas acabou por anuir.
– Quantos de vocês temos aqui?
– Só nós dois... Majestade! – Kakashi quase tropeçou ao identificar os cabelos loiros de Naruto quando este se livrou da capa. – Majestade! O que faz aqui?!... E ainda mais com tão pouca gente!
– Temos pressa, senhor Hatake. – O Uzumaki esclareceu. – Minha esposa foi feita de refém, e nos deram um mês até que ela seja morta. – Ele olhou para a senhora Yakushi com seriedade. – Hoje vou libertá-la. Custe o que custar.
– Refém? A Rainha?!... – Ele não sabia se era por falta de água ou a má alimentação ou pela surpresa, mas Kakashi sentiu a cabeça girar. – Ainda assim, majestade!... Em um grupo tão pequeno... – Ele tentou identificar mais gente ali, mas só conseguiu ver rostos familiares do exército. – Onde está o Conselheiro Jiraya?... Será que...?!
– Meus avós estão bem. – O loiro o tranquilizou. – Decidi que o melhor seria um grupo de rostos desconhecidos... – E dopá-los com uma dose forte de sonífero, Naruto adicionou mentalmente.
Kakashi parecia entender bem o que aquilo significava: ele havia escapado para um plano suicida.
– Isso não vai dar certo nunca.
Foi Shisui quem falou. Mais calmo, afastou-se do sobrinho e aproximou-se do grupo com um rosto sério. – Há muita gente imobilizada lá em cima. Nós quase morremos. – Ele apontou para si mesmo e para Kakashi. – Vimos mais que a metade do exército ser pego, e o resto estava do outro lado.
– Então o alto escalão realmente está envolvido... – Nonou refletiu.
Sasuke ouvia, mas não conseguia realmente fazer parte da conversa.
Sua cabeça doía como um inferno, e ele não conseguia afastar a assustadora imagem do irmão, preso e torturado ao lado de Kasumi, Mikoto e Fugaku.
Ele se recusava a pensar que Sakura sofreria o mesmo destino dos Uchiha... Mas só a possibilidade fez com que ele sentisse a espinha doer.
– Sua majestade não parece disposto a desistir, então... – Shisui suspirou longamente. – Sugiro soltar os prisioneiros. Vamos aproveitar o fator surpresa. Aqueles homens devem estar furiosos, e com certeza vão espalhar o caos pela Torre. – O Uchiha mais velho desenhava algo na areia do chão, mas Sasuke ainda não podia enxergar.
Estava tão preso em seus próprios pensamentos que sequer pôde notar Naruto se aproximando cautelosamente. – Ainda te parece uma ideia idiota? – Ele murmurou ao amigo; seu rosto era sério, e ele parecia adivinhar todos os temores que rondavam a mente de Sasuke.
– Vamos acabar com os malditos traidores.
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Kasumi abriu os olhos lentamente.
Sentia sua cabeça latejar, e metade de seu rosto parecia duro e irritantemente dolorido. – Kasumi! –Sakura soltou com alívio e ajeitou os cabelos castanhos da cunhada. – Como se sente...? Não se mexa!
Mas alheia à preocupação da cunhada, Kasumi se remexeu no chão. Ela fez uma careta de dor, passou a mão pelo rosto e se assustou quando notou o sangue. – Eu estou...?!
– Foi a pancada. – Sakura tentou tranquilizá-la. – Não quebrou nada, mas seu nariz está sangrando e o seu rosto... – Os olhos verdes se estreitaram, cheios de angústia. O rosto de Kasumi com certeza incharia!...
As alteradas vozes masculinas fizeram com que Sakura erguesse o rosto na direção dos homens ali presentes, e Kasumi, curiosa como sempre havia sido, seguiu seu olhar imediatamente.
Precisou de um segundo parar absorver aquela imagem: Obito e Fugaku rolando no chão, um tentando espancar o outro, trocando ofensas e ameaças...
E foi como se uma luz explodisse em sua mente.
Como elas podiam ser tão sortudas?!
– Precisamos sair daqui. – A senhora Uchiha decidiu quando se tornou mais consciente; ela tentou se levantar, mas cambaleou, ainda zonza pela pancada.
Eles pareciam alheios à presença das mulheres. Pareciam alheios ao fato de que em algumas horas, Mikoto seria cremada... Estavam alheios a tudo, exceto o ódio que nutriam um pelo outro desde sempre.
Pela inveja de Fugaku, e pelo ressentimento de Obito.
Por todo o amor que Madara sentia pelo filho, ainda que o sobrinho fosse quem sempre tivesse estado ao seu lado.
Por todas as ameaças e todo o mal que Fugaku havia disposto Kasumi, e pelas correntes invisíveis que haviam sido postas no pária da Uchiha.
Pela morte de Mikoto, e pelo fato de culparem um ao outro por ela.
Nem todos os socos do mundo seriam o suficiente para demonstrar a ira, a fúria que sentiam um pelo outro naquele momento tão delicado. E não importava o quão forte fossem suas palavras, o quão grande fossem os desabafos, nenhum dos dois parecia disposto a escutar.
Quando Fugaku enfim conseguiu imobilizar o primo, já quase não pensava: segurou o pescoço pálido e apertou-o com vontade, até sentir as veias saltarem da garganta do mais jovem. – O que foi, Obito?! – Ele tinha fogo nos olhos. – O papai não está aqui para te ajudar, não é?... Nem a sua irmã.
Obito tentou se livrar do aperto.
Debateu-se, empurrou e arranhou os braços que o seguravam, mas Fugaku parecia possuído por uma força sobrenatural!... E Obito percebeu que morreria.
Ou teria morrido, se assim que aquele pensamento cruzou sua mente, Sakura não tivesse quebrado a caixa de joias – feita com uma madeira forte – de Kasumi na cabeça do sogro, que afrouxou o aperto e cambaleou.
Sakura não hesitou antes de dar outro golpe, com metade da caixa que ainda estava em suas mãos, na lateral do rosto do duque, que finalmente caiu desacordado.
Ela ofegava e tremia. Tanto, que nem parecia acreditar no que havia acabado de fazer... E, quando enfim pareceu perceber, desabou ao chão. – Eu vou morrer... – Disse a si mesma, assustada com a conclusão. – Não posso morrer... Sasuke-kun... – Ela apertou o ventre.
Obito estava entretido demais na cena de desespero da esposa do sobrinho para notar a própria filha se aproximar.
Mesmo fraca, Kasumi parecia uma cobra em seus movimentos lentos. Ela foi até o sogro, puxou o punhal que sabia que ele sempre guardava dentro da bota – uma mania herdada por Itachi e Sasuke – e colocou-se sobre o homem que havia amado durante toda a sua vida, rendendo Obito com a lâmina que havia pertencido ao seu pai, o grande e falecido Madara Uchiha.
Kasumi não tremeu, nem hesitou. Tirando a palidez em seu rosto, e as olheiras profundas abaixo dos olhos, sequer aparentava a atual fragilidade.
De fato, ela parecia bastante decidida enquanto roçava a lâmina contra a veia do pescoço do ofegante pai. – Onde está a rainha? – Ela perguntou com a voz firme e cortante, e Obito estreitou os olhos.
Pensou que talvez, com um movimento simples, poderia tirá-la de cima dele. Ela havia estado fraca durante todos os dias, afinal! A menos que tivesse tomado alguma poção milagrosa, jamais poderia imobilizá-lo por completo...
Mas os olhos dela não pareciam temer, e aquilo o fez hesitar...
Obito vivia por Kasumi. Por ela matava, e por ela estaria disposto a morrer... Era quase engraçado que agora ela realmente tivesse com a vida dele em suas mãos, e irônico que, de fato, estivesse a ponto de morrer por ela.
Ele não teria se importado se aqueles olhos castanhos, normalmente tão brilhantes, não tivessem parecido tão vazios naquele momento...
Obito percebeu que ela não queria fazer aquilo, e isso quebrou seu coração.
Ainda era sua garotinha, afinal... Por trás de todo aquele ressentimento, ainda via nele o pai perdido. – O quarto mais alto da Torre... – Ele riu. – Embora pareça bastante clichê.
Kasumi se manteve séria.
– Nos aposentos mais altos da Torre, há um quarto... É uma porta grande, feita com madeira antiga. A chave é a mais escura desse molho. – Ele apontou para a própria cintura – ou ao menos tentou fazê-lo – enquanto dizia. – Só cuide para não serem vistas nos corredores... Há muitos soldados.
Ela não o respondeu.
Parecia entrar em guerra consigo mesma, e Obito percebeu isso.
– Seja mais rápida do que eles. – Decidiu dizer, apenas para fazê-la despertar.
Foi como se uma fagulha se acendesse nos olhos castanhos. Pai e filha se entreolharam por um segundo e, depois de um tristonho olhar, e um murmurado pedido de desculpas, Kasumi usou o punho da adaga para acertar um ponto sensível da cabeça, que fez com que o mercenário desmaiasse imediatamente.
Apressada e trêmula com a repentina adrenalina, ela vasculhou a cintura do pai até ouvir o barulho do molho de chaves. Puxou-o e assentiu para si mesma. – Vamos, Sakura!
A esposa de Sasuke ainda parecia em pânico.
– Sakura!
Ela se aproximou da cunhada; segurou seu rosto firmemente.
– Você não vai morrer. – Ela afirmou, e Sakura anuiu lentamente. – Vamos salvar a rainha e fugir daqui. – Os olhos verdes se estreitaram, claramente confusos. Kasumi percebeu que o momento entre ela e Obito realmente só havia sido dividido entre os dois.
– Vamos!...
~
– Isso. – Nonou esticou os pés e, com um punho fechado, bateu no oco teto baixo. – Abre caminho para uma cela na carceragem. – Ela contou com um sorriso animado estampado no rosto.
– Não posso entender como estaremos em vantagem dentro de uma cela. – O senhor Hatake sentiu obrigação de observar, e Sasuke, com cara de poucos amigos, cruzou os braços como se estivesse de pleno acordo.
– É claro que podemos abrir a cela. – Nonou revirou os olhos como se a ideia fosse lógica. – A cela em si foi construída para servir como entrada e saída, caso necessário. O príncipe Nawaki era muito cuidadoso com esse tipo de coisa.
Naruto notou que ela sorria de uma maneira estranha ao falar do falecido príncipe herdeiro... Como se tivesse orgulho de quem ele era, ou havia sido. – Esses túneis... Existem passagens espalhadas por toda a Torre? – O loiro teve que perguntar.
– Naturalmente. – Nonou olhou para ele como se fosse óbvio. – O lugar foi construído para a segurança da família real.
Naruto suspirou longamente.
Sim, de fato! Havia sido construído para a segurança da família real, mas nenhum Uzumaki vivo conhecia até então.
Se eles pelo menos tivessem conhecimento sobre todos aqueles cantos e portas espalhadas pelos corredores da Torre...! Talvez tivessem sido capazes de fugir todos juntos, e não estariam nessa situação.
Embora, é claro – e ele tinha que admitir isso –, não teriam a mesma facilidade para voltar ao lugar que era seu por direito.
– Ainda bem que descobrimos isso antes de trancafiar um assassino lá. – Sasuke murmurou, cheio de ironias.
– Conhece muito bem o lugar, senhora Yakushi. – Shisui observou. Mais para tirar a atenção do mau humor do sobrinho do que por qualquer outra coisa. – Por acaso ajudou a construir?
– Eu fiz a planta. – Nonou deu os ombros. – Com a ajuda de sua alteza real, é claro... – Ela tornou a sorrir. Um sorriso nostálgico e verdadeiramente feliz... Que fez Naruto estreitar os olhos.
– Não sabemos se Danzou está envolvido, mas o alto escalão com certeza é uma ameaça. Cada corredor da Torre vai estar abarrotado de soldados...
– E vamos tratar para que fiquem ainda mais abarrotados. – Naruto sorriu com a ideia. – Senhora Yakushi, — Ele se aproximou; puxou as mãos da mulher e beijou-as com extrema gratidão. – Devemos isso à senhora, e ninguém mais.
Nonou sorriu docemente.
– Não sou muito de pensar nisso, rapaz... – Ela alisou o rosto do jovem garoto loiro. – Mas que Deus esteja ao seu lado. E há de estar, garoto... Porque se Ele não tivesse planos para você, realmente já teria se ido.
– O que vai fazer agora, Yakushi? – Sasuke quis saber, sem se importar com inconveniências, olhando-a de maneira irritantemente desconfiada.
Nonou simplesmente deu de ombros.
– Vou ficar aqui, é claro. Guiar quem precisa ser guiado. Ao que parece, uma resistência está se formando dentro dos portões do clã Hyuuga... Os capatazes conseguiram manter os militares longe. Imagine o que poderão fazer com os demais soldados?!
Kakashi sorriu. Definitivamente, Hiashi Hyuuga sempre surpreendia a todos!
– Que a sorte e os anjos estejam de seu lado, cavalheiros.
~
Assim como todos os dias, Hinata estava sentada à frente da janela.
A grande janela do mais alto quarto da Torre lhe dava visão de toda a extensão da residência Imperial...
Dali, ela podia ver os jardins e os estábulos tão bem quanto as ruínas do castelo menor que poderia ter vindo a ser seu lar, caso as duras lembranças não tivessem feito com que Hashirama o demolisse.
Ele não existia mais, embora as ruínas continuassem lá... Intocáveis, como se o mistério do assassinato de Nawaki e sua esposa ainda pudesse ser desvendado...
Hinata suspirou. Olhou para o livro acomodado em seu colo e notou que brincava com o colar que Naruto havia lhe presenteado. Mesmo depois de oito dias encarcerada, não lera sequer um parágrafo do conto que a haviam dado para passar o tempo.
Todos os dias ela se sentava ali, pronta para ler, enquanto Kurenai ajeitava o quarto ou remendava alguma peça das roupas que haviam oferecido à rainha. Mas não importava o quanto tentasse se concentrar, a visão do campo, tão longo e plano sempre tomava a atenção da melancólica rainha, que agora, mais do que nunca, ansiava por liberdade, e não só a sua.
Ela deslizou a mão pelo ventre liso e respirou fundo.
Horas haviam se passado desde que o mercenário a havia flagrado, e ninguém as havia visitado. Tal como Kurenai lhe dissera, o homem se manteve em silêncio.
Hinata francamente não podia compreender os motivos daquele homem, mas sentia-se agradecida. Agradecida a tal ponto que seria capaz de dar-lhe tudo o que tinha e o que não tinha, apenas por aquele gesto de bondade.
Aquele mercenário havia revivido a esperança que Hinata sequer percebeu que havia morrido dentro dela... E mais uma vez, ela notara que tudo o que podia fazer era esperar...
E esperar.
E como se fizesse piada de seus pensamentos, o barulho das chaves na porta a assustou. Ela se levantou ao mesmo tempo em que Kurenai o fazia; ambas sentiam surpresa e temor.
E se ele tivesse contado...?
E se só tivessem demorado porque estavam decidindo o que fazer à ela e ao seu bebê?!
Hinata sentiu o pânico tomar conta de seu corpo, e mal podia respirar. Seu medo era tanto, que ela sentiu que podia desmaiar de alívio quando Kasumi e Sakura surgiram agitadas do outro lado da porta.
– Majestade! – Sakura exclamou, correndo para acudir a pobre Hinata, que acabara por desabar na cadeira. – Majestade! Sente-se bem?... Por favor, aguente firme!
Mas Hinata não podia falar.
Não podia sequer respirar!
Ela tocou os ombros de Sakura, ofegante, e lhe lançou um sorriso terno, de plena gratidão. – Não temos tempo para frescura, Hinata! – Kasumi, mesmo exausta, exclamou com energia enquanto lançava com dificuldade casacos da guarda real na direção de Kurenai e Hinata.
Só então as aprisionadas puderam notar que Kasumi trajava o manto da Akatsuki. – Mas o que...?
– Vistam-se! – E ao fundo da ordem da esposa de Itachi, uma explosão foi ouvida. Soou tão alto que as quatro mulheres caíram abaixadas ao chão, protegendo suas cabeças.
Como estava mais perto da janela, Hinata tentou ver se algo acontecia lá fora.
E sentiu todo o seu corpo tremer.
– Que há? – Ela teve que perguntar. – Tem homens fugindo!... Por toda a parte!
Kasumi estreitou os olhos e, tal como Sakura, seguiu até a janela.
De fato, era como se formigas se espalhassem pelos campos da Torre... Alguns homens corriam como se suas vidas dependessem disso, enquanto outros ficavam para trás no intuito de lutar, fosse com o que fosse.
– O que diabo...?!
E Hinata percebeu que, fosse o que fosse que acontecia lá fora, nem Kasumi nem Sakura estavam informadas. Seu coração se encheu de esperança... Se encheu de vida, e de alegria.
– Naruto! – Ela soltou o nome como uma prece. – Naruto... Naruto! – E se levantou, sentindo as lágrimas queimarem os olhos.
– Espere, majestade... Vista-se!
~
Mais útil do que passagens secretas em celas que aprisionavam homens de bem, eram homens de bem fingindo não ser homens de bem.
Quando Shisui e Sasuke surgiram na cela, foram imediatamente reconhecidos por um dos guardas que tomava conta dos prisioneiros. Bastou um olhar do antigo Anbu para que ele compreendesse o que estava acontecendo.
Os gritos dos prisioneiros – que Sasuke percebeu serem civis – exigindo saber como os Uchihas tinham surgido de repente, fez com que os homens da guarda ficassem tão confusos quanto baratas, tanto que não puderam reparar que o cúmplice dos Uchihas se aproximava de um pequeno barriu de pólvora recostado na mais distante das paredes cinzentas. Pousou um isqueiro aceso próximo do longo pavio, e correu para longe.
Em menos de dois minutos, a parede explodiu. Os guardas praticamente voaram nos corredores da prisão – inclusive o pobre cúmplice. Foi impossível que a carceragem, abarrotada como estava, não fizesse feridos. Mas todos os homens gritaram vitórias quando a passagem para a liberdade foi aberta.
Seguindo as instruções da veterana, Shisui foi até os portões da cela em questão. Buscou apressado o pequeno parafuso solto e, quando encontrado, se apressou para ticar o pequeno buraco do lado da fechadura, que imediatamente fez com que a tranca se soltasse.
Ele abriu a cela e os homens quase se pisotearam. Uns, a caminho da saída; outros, na direção dos demais guardas.
Shisui acompanhou o segundo grupo.
Ele apanhou as chaves das demais celas, enquanto Sasuke ajudou Naruto e os outros soldados a subirem à superfície. – Você vai para as salas de tortura. – O rei comandou ao amigo e entregou-lhe sua espada. – Eu vou para os aposentos...
– Nós vamos para os aposentos. – Sasuke pontuou, e ergueu os olhos à Kakashi. – Vocês vão para as salas de tortura.
O Hatake sorriu.
Aquele garoto se parecia mais com a mãe do que se devia supor!
– Elas devem estar lá em cima. – Kakashi falou alto, por cima dos gritos, e parou os dois amigos mesmo antes de eles começarem a correr. – O Alto Escalão está envolvido, não é? Eles não são idiotas... Devem tê-la colocado no lugar mais difícil de ser resgatada... Ao menos é o que eu faria. – Ele adicionou ao vê-los estreitar os olhos.
Naruto e Sasuke se entreolharam e assentiram em concordância.
– Obrigado.
~
Quando Obito despertou, sentia uma insuportável dor de cabeça.
Ele olhou para os lados do quarto, mas não encontrou nem sombra das duas pestes que, no fim, os haviam encurralado de um jeito bastante desonesto!... Ele pensou em rir, mas não pôde.
Poucos segundos após recuperar a consciência, pôde perceber que o corpo de Fugaku não estava mais lá, desmaiado ao lado do seu... E perceber isso fê-lo tremer de pavor.
Se ele pegasse Kasumi depois daquilo...
Se ele a alcançasse antes de sua raiva dissipar...
Ele sentiu o sangue se esvair de seu rosto lentamente. Tentou se levantar, mas sua cabeça parecia rodar. – Fugaku! – Ele tentou chamar, mas sua voz mais soou como um sussurro.
Porcaria!
– Fugaku!... – Nada efetivo.
Com o corpo dolorido, tudo o que o mercenário pôde fazer foi se arrastar pelos aposentos, exclamando pelo cunhado até que pudesse encontrar a grande porta brutalmente arrombada.
E descobrir que nada poderia ser feito.
.
Fugaku pensou que nada poderia deixá-lo mais furioso do que ser nocauteado por, provavelmente, a pessoa que mais desgostava no mundo.
Mas ele estava errado.
Definitivamente, ser nocauteado por Sakura não era nada em comparação a ter prisioneiros, soldados e civis, rondando por toda a Torre como ratos desgovernados, lutando, xingando, gritando ou simplesmente fugindo.
E como se não bastassem os fugitivos, os criados também pareciam fazer parte do show!... Estavam certos de que poderiam fugir junto com os condenados, os pobres coitados.
Nada poderia fazer Fugaku mais feliz naquele momento do que segurar o fino pescoço de Sakura Haruno e apertá-lo até que o som “clack” surgir. Uma morte rápida e agonizante era bem o que merecia... Como uma galinha!
Só o pensamento fê-lo sorrir.
De fato, nada poderia deixá-lo mais feliz do que aquilo, mas agora ele precisava ajeitar as coisas. Estava decidido a seguir aos aposentos reais para se certificar do bem estar de Karin, mas a voz de alguém o impediu.
Uma voz bonita, que soou ansiosa.
– Naruto!
Hinata havia gritado.
Fugaku pôde vê-la escondida por baixo de um casaco grande demais da guarda real, no topo das escadas de serviço e, ao seguir seu olhar, identificou Naruto e Sasuke, armados com duas espadinhas medíocres, lutando contra dois militares e surpreendentemente ganhando de maneira quase humilhante.
– Hinata! – Ele exclamou em resposta, e ela se botou a correr em sua direção.
Algo muito bonito de se ver, o duque tinha que admitir. Como nos contos de fada, a princesa corria para os braços de seu amor...
Mas, se o mundo em que viviam era um conto, definitivamente não seria de fadas. Fugaku correu, veloz como um cavalo, e exclamou o nome do filho com toda a força de seus pulmões.
Sasuke sentiu como se todo o peso de seus ombros sumisse...
Como se tudo fosse ficar bem.
Ele quase podia sentir as lágrimas ao ver o pai se aproximando. Porque, se Fugaku estava bem, todos também deveriam estar. – Pai! – Ele exclamou, e abraçou o duque com mais força do que nunca tinha feito antes.
Fugaku retribuiu ao abraço com sinceridade.
– Não! – A voz de Sakura gritou em desespero. – Sasuke, não!
Ela parecia em pânico, e Fugaku decidiu que o mais inteligente a se fazer era afastar-se do filho. Ele segurou o rosto do caçula, e deu-lhe um tapa amigável nas faces. – Meu garoto.
Estava verdadeiramente orgulhoso por ele estar ali, vivo e firme. E ainda mais orgulhoso por ignorar a esposa para lhe dar atenção, mesmo diante dos gritos desesperados de Sakura, que corria aos tropeços pelos longos e estreitos degraus.
– Fugaku! – Naruto não pôde resistir aos seus impulsos, e apertou o pai de Sasuke num abraço fraternal. – Você está bem!... Ainda bem.
Fugaku sorriu.
– Naruto, não! – O grito de Sakura foi tão estridente que Hinata se surpreendeu.
– Majestade! – A voz da até então chocada Kasumi conseguiu exclamar.
Mas antes que qualquer atenção pudesse ser dada às mulheres Uchiha, Naruto sentiu a gélida lâmina perfurar seu estômago.
Não era longa, mas dolorida...
Ele se afastou lentamente do pai de Sasuke, em passos vacilantes, e empalideceu ao ver o sorriso satisfeito estampado no rosto do duque, que segurava uma adaga tão grande quanto sua mão, ensanguentada com o sangue do rei.
– Não...
Hinata sentiu-se sufocar.
– Não! – Ela gritou, e empurrando Sakura ou qualquer um que estivesse em seu caminho, correu na direção do marido.
Naruto sentia-se cambalear... Sentia-se confuso.
Aquilo não podia estar acontecendo.
Fugaku tornou a se aproximar e desta vez, em um golpe mais violento, acertou o peito do garoto Uzumaki, que urrou e caiu de joelhos, segurando firmemente os punhos do mais velho, evitando que a lâmina fosse mais fundo.
– Pai...?! – Sasuke não pôde compreender por um segundo, mas bastou absorver a cena para que entrasse em ação. – Não! Não faça isso! – Ele se lançou sobre Fugaku, tarde demais.
O duque havia largado o punhal no peito do rei, e impediu que o filho se aproximasse do amigo.
– Não! – Sasuke gritou. – Não pode ser você! Não pode! – E, sem esperar que Fugaku o respondesse, desferiu golpes violentos em sua direção, que foram precisamente ricocheteados.
– Está acabado! – Ele exclamou ao jovem. – Já chega, Sasuke!
Mas ele não ia parar.
Hinata correu como se sua vida dependesse disso – e ela realmente pensava que dependia. Ela gritou o nome do amado; exclamou mais “nãos” do que havia dito em toda a sua vida e tropeçou três vezes, sem nunca desistir.
Quando o alcançou, Naruto estava ajoelhado, agarrando a adaga em seu peito, ofegando para viver. – Não... – As mãos de Hinata passearam por seu peito. – Não, por favor... Por favor, não...
Naruto prendeu a respiração; ergueu a mão ensanguentada até o rosto pálido da esposa e, com um sorriso muito fraco, alisou-lhe as faces.
– Você não pode morrer agora... – Aos prantos, Hinata segurou o rosto dele com ambas as mãos. – Nós vamos ter um bebê... Por favor...
Naruto sorriu, porque não podia fazer outra coisa além de sorrir.
– Me soltem! – Ele ouviu Sakura gritar lá de cima.
– Corra... – Disse à amada, mas Hinata não se moveu. Continuou ali, ao seu lado; agarrando seu rosto enquanto chorava. – Hinata, por favor...
Mas ela não podia ouvir. E ali continuou, chorando, gritando, praguejando e jurando seu amor eterno... Até que a obrigassem a se afastar.
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