The King

14 Capítulo XIV – Cúmplices.


Notas iniciais
Ainda não são 00h, então to no horário! xD ~ Desculpem a demora do post, pessoal. Eu estava em Itapevi, na casa da minha tia, comemorando o aniversário do meu tio. Na verdade, eu estava no interior desde sexta-feira; como a viagem só foi decidida quarta (ou será que foi quinta?), sequer pude avisá-los. T-T Quando eu cheguei em casa eram oito horas, e depois de fazer o que tinha que fazer, betei o capítulo (que por sorte já estava feito). ~ Francamente eu gostei MUITO do capítulo. :3 Sério, achei super interessante! Espero que vocês concordem! *-*

Capítulo XIV – Cúmplices.

O País dos Ventos era conhecido por sua grandeza geográfica e suas mentes inovadoras; era um dos mais próximos do Fogo, mas diferente do vizinho, seu sistema de governo baseava-se na nova democracia.

Gaara Sabaku era conhecido como o homem mais jovem a subir na liderança de um país: sequer completara seus quinze quando a escolha foi feita. Hoje, aos dezessete, era motivo de orgulho para seu povo: embora jovem, era sério, inteligente, comprometido e consciente. Um jovem gênio, sem sombra de dúvidas.

Graças às novas tecnologias – nas quais ele próprio, sua família e um grupo de especialistas trabalhavam constantemente – seu país expandiu-se consideravelmente em popularidade, sem violência ou sangue para manchá-los. Apenas construindo e comercializando ferramentas agrícolas (para facilitar e agilizar o plantio), hospitalares (como o cultivo de plantas medicinais) e tantos outros, tornaram-se um país reconhecido.

Deve-se também mencionar que o jovem governador tinha dois irmãos de sangue: a mais velha de sua família, Temari, era teimosa e tinha uma força bruta que poderia fazer inveja a muitos soldados. O segundo mais velho, Kankurou, era estranhamente fiel ao mais jovem – ainda que o correto fosse que ele herdasse a o respeito e consequentemente a liderança do falecido pai.

Todos eram muito inteligentes – na verdade, a família Sabaku era conhecida especialmente por suas ideias brilhantes, ou pelas “cabeças divinas”, como os cidadãos chamavam. Mas ainda que tivessem família, nome, e cargos importantes, os três eram solteiros. O mais jovem em especial não parecia inclinado a se casar tão cedo, ainda que o povo clamasse por uma primeira dama.

Era o final de uma tarde quente – todos os dias em Suna, a capital e antiga cidade imperial, eram quentes – quando a notícia do casamento do herdeiro do trono do Fogo chegou aos ouvidos do governador. – Ele se casou?! – Para um jovem solteiro cobiçado, aquela era uma notícia chocante.

– Sim. – O informante confirmou. – Infelizmente, a carruagem que trazia o convite foi abordada por assaltantes, e só recebemos a notícia agora. – Saber que o atraso era dado por problemas na carruagem, e não por desconsideração dos conselheiros de Konoha aliviou os nervos do rapaz, pois o Fogo e o Vento tinham um tipo de aliança que fora formada há muito, quando as guerras ainda estavam em alta.

– Eu quero que mande os protótipos mais inovadores que tivermos na oficina. – O homem concordou. – E também preciso que prepare meu cavalo, pois irei imediatamente até Konoha me retratar pessoalmente. – Adicionou, e depois de curvar-se em uma despedida cortês, o mandado se retirou para cumprir suas obrigações.

– Você quer sair agora? Ainda mais a cavalo? Para Konoha?! – A voz de Temari subia uma nota a cada frase. – Só pode ter enlouquecido!

– Eu não tenho escolha. – O ruivo deu os ombros. – Não gostaria de correr o risco de entrar em conflito com um país que é conhecido por ter o maior exército já conhecido na história. – E suspirou.

– Ao menos vá de carruagem! – A mais velha pediu com a voz cheia de preocupação; pela cara do mais jovem, ele não gostou muito da ideia.

– Pode demorar mais tempo do que necessário. – Ele argumentou.

– Mas será mais seguro. – A loira ponderou, fazendo o irmão suspirar. – Eu, você, Kankurou e pelo menos dois homens. – Ela contou nos dedos enquanto dizia. – É um bom grupo. Você não pode aparecer lá sozinho, como se não fosse importante. Podemos levar dois cavalos: um para a esposa, e um para o herdeiro. O que acha? – E bateu gentilmente no ombro do rapaz, que por fim concordou.

– Apenas cinco pessoas, nada mais. – Ela concordou alegremente com aquela condição. – E mais duas montando os cavalos: quero que levem nossos melhores sangues puros, um branco e um negro. – A irmã assentiu. – Vamos! Se apresse, faça os preparativos. Não quero demorar nem mais um instante! – O arranjo não poderia ser mais satisfatório para a preocupada irmã, portanto a senhorita Sabaku, após dar um beijo carinhoso na face do irmão, afastou-se para cumprir as obrigações instruídas.

~

Nada poderia ser mais horrível do que uma noite mal dormida após um longo dia de cansaço, que seria seguido por mais um.

Naruto sabia disso. Na realidade, ele nunca passara uma noite inteira em branco, e definitivamente não se orgulhava da experiência. Ele literalmente passou horas e horas olhando para as costas brancas da esposa, e por mais que cobrisse a bela adormecida, esta sempre dava um jeito de se livrar dos lençóis para exibir sua natural beleza.

Aquele era um teste por qual nenhum homem deveria passar. Ele mesmo não soube como conseguiu passar tanto tempo deitado ao lado de uma verdadeira Afrodite que estaria disposta a lhe entregar tudo de bom grado sem tocá-la.

Ele estava tão cansado que sequer notou quando amanheceu; só pôde perceber quando o corpo de sua esposa se remexeu na cama. Ela virou-se para sua direção, mexeu os lábios de maneira incômoda, piscou três vezes e ergueu os olhos perolados até os do marido. Arregalou-os, ao notar o estado do rapaz e abafou uma risada divertida que o fez suspirar.

O Uzumaki se levantou mais cansado do que quando havia ido deitar. – Isso não tem nenhuma graça. – Ele murmurou irritadiço. Hinata sentou-se na cama e segurou-o pelo pulso esquerdo, o que o fez olhá-la de soslaio. O sorriso dela era tão doce...

– Eu fico realmente grata. – Disse surpreendendo-o. – Por sempre ser sincero comigo... Por zelar pelos desejos de uma jovem lady, e por ser tão cavalheiro, ainda que eu não tenha me comportado como uma dama recatada deveria. – Explicou após notar seu olhar interrogativo, e o rosto do príncipe corou.

– N- Não diga besteiras! – Exclamou. – Você se comportou do jeito que deveria se comportar... Afinal nós, de fato, somos casados. – E sorriu sem muita alegria. – Mas acredito que os desejos do coração devem ir além dos carnais... E estou certo de que a não seria uma boa experiência entregar-se à alguém que não a ama, e que você não ame. Ainda que insista que não acredita em romantismo, estou certo de que já pensou em um homem ideal. – O rosto da princesa corou.

Ela baixou a fronte e pensou por um instante. “Não poupe esforços”, foi o que sua adorada madrinha comandara, e o que deveria fazer. Após respirar fundo, levantou-se; aproximou-se de seu marido e segurou ambas as mãos. – É verdade. – Confessou, erguendo os olhos perolados timidamente até os azuis, que pareciam perplexos pela aproximação. – De fato, gostaria de me entregar ao homem que amo. – Naruto sorriu; por algum motivo, sentiu seu peito queimar. – Mas francamente não pretendo me casar de novo, então espero que um dia possamos ser donos do coração um do outro. – O rosto dele enrubesceu, acabou recuando constrangido.

– E- Eu já disse que não pretendo criar sentimentos! Ainda que sejamos casados, e que eu goste m- muito de você... Não acredito que algum dia nós teremos laços desse tipo... – Mas a esposa deu os ombros; caminhou até a penteadeira e lá se sentou.

– Por toda a minha vida... – Ela disse depois de hesitar; olhava para o espelho fixamente. – Por toda a minha vida eu sonhei que o escolhido para ser meu marido seria corajoso, forte, decidido, gentil e fiel.

–... São muitas qualidades em um homem só. – Por algum motivo ele sentia-se ansioso, então, para acalmar-se, começou a arrumar a cama. Hina estranhou, mas preferiu não interferir.

– Eu gostaria de ter um cavalheiro como marido, mas na verdade, para que eu admire uma pessoa, basta que ela tenha bom coração. – Prosseguiu, e então riu. – Não esperava que fosse encontrar um noivo com todas essas qualidades. – Todos os músculos do Uzumaki paralisaram naquele momento. Ele olhou de soslaio para a mulher, que estava corada e cabisbaixa.

–... Eu não sou tudo isso. – Disse depois de um tempo, sentando-se sobre a cama grande. – Eu sou teimoso, cabeça dura e um bobalhão... – Sorriu tristonho. – Eu sou imaturo, e só faço besteiras... Mesmo a garota que eu amo jamais pôde olhar para mim. – Hinata pôde ter um vislumbre da conversa com Mikoto, onde a senhora Uchiha afirmara que a senhorita Haruno “estava perdidamente apaixonada por seu Sasuke”. De fato, depois de refletir por alguns momentos, a princesa pôde perceber que, de alguns tempos em diante, Sasuke e Sakura sempre estavam juntos.

A moça levantou-se; caminhou até seu marido e ajoelhou-se perante ele. Puxou o rosto cabisbaixo e fitou-o com ternura extrema. – Você é incrível. – Murmurou sincera, e o rapaz sentiu uma imensa vontade de beijá-la. – É esforçado quando treina... Pensa em outros antes de si mesmo, como no caso da senhorita Moegi... E... Você se esforça pelo bem da maioria... Como no nosso casamento. Pode não aceitar, pode não acreditar em si mesmo... Mas sempre faz o melhor de si. – O rosto dele queimou. – Isso é a verdadeira força. – Sua voz soou decidida, como se não houvesse outra verdade no mundo. – E quando pensar que está sozinho... Lembre-se que, ainda que eu não te ame, ainda que eu dificilmente seja amada. – Ela não hesitou em utilizar o termo “dificilmente”, pois queria deixar bem claro que não desistiria. – Quero que saiba que acredito em você. – E sorriu. – Alguém que se sacrifica casando-se com uma desconhecida, por um país que não se lembra... Definitivamente não há Rei algum que faça isso. – Sentiu os braços fortes apertarem-na e enrubesceu.

– Obrigado! – Ele exclamou. Sentia cada músculo de seu corpo vibrar.

Hina fechou os olhos e deliciou-se com o calor do corpo de seu marido; alisou os cabelos loiros gentilmente, e continuou assim até que ele se afastasse, sorrindo. – Você realmente sabe usar palavras. – Comentou, quase rindo. A moça deu os ombros.

– Já que foi sincero comigo, achei que deveria retribuir o favor. – Então o viu erguer o mindinho.

– Se o que me disse foi mesmo tudo verdade, então façamos um acordo: você será minha cúmplice, e eu o seu. – A sobrancelha azulada arqueou-se, levemente desconfiada, e o príncipe riu. – O que quero dizer é que... – O rosto dele corou um pouco. – Embora eu acredite em algumas pessoas... – Suspirou. – Sasuke, Itachi, Jiraya... Nenhum deles pode realmente saber como eu me sinto. – E tornou a fitá-la. – Nós dois nascemos com um destino traçado...

– Isso não é verdade. – Ela o interrompeu repentinamente. – Sasuke, Itachi... Até mesmo o senhor Jiraya... A verdade é que todos nós, ricos ou nobres, temos um propósito certo ao nascer. – Sentou-se ao lado dele. – Itachi e Kasumi foram criados como irmãos... E ainda assim, foram obrigados a se casar. – Hinata sempre considerou o casamento desses dois algo muito impactante, até mesmo absurdo, uma vez que seria como se ela e Neji se casassem, e era impossível que ela concebesse tal ideia. – Mikoto, a mãe deles, queria muito professorar, mas nunca foi permitida. Eu provavelmente fui sua única aluna, e apenas porque sua majestade, a rainha Kushina o pediu. – Como sempre acontecia ao ouvir o nome de sua mãe, Naruto sentiu uma pontada em seu coração. -... Quando tinha quatorze anos, Sasuke se feriu... – Ela baixou a cabeça. – Foi um ferimento grave, e ele passou semanas desaparecido. Quando voltou, quis sair do exército, pois sempre sonhou com o cargo de conselheiro, e em tempos de paz, para isso precisaria de formação política (coisa que não se tem no exército), mas é claro que ele foi proibido. – E então suspirou. Quando olhou para o rosto do marido, ele parecia chocado. – O que eu quero dizer é que... Todos nós temos nossas vidas controladas, e ainda que os pobres não tenham comida, são eles que têm a liberdade.

– De fato. – Naruto não pôde discordar. -... Eu nunca quis ser príncipe. – Murmurou angustiado. – Eu nunca quis tanta responsabilidade, pois jamais me senti inteligente ou suficientemente forte para tal coisa. – O toque dela em seu rosto fez com que ele parasse de falar.

– Você é. – Murmurou baixo, arrepiando até o último fio de cabelo loiro que o rapaz pudesse ter em seu corpo. Os lábios de Hinata comprimiram seu rosto gentilmente. – Você é forte. – Ela murmurou baixo novamente. – E vai ser um bom rei. – Os olhares enfim se cruzaram, e os jovens puderam notar que estavam próximos demais.

Os corações palpitavam e os rostos queimavam; as respirações ficaram mais rápidas e os olhos de Hinata chegaram a fechar-se quando ele pareceu disposto a se aproximar. Mas, como sempre há inconvenientes em dias cheios como aquele seria, alguém bateu à porta, deixando-os tão constrangidos a ponto de se afastarem. – Entre. – O herdeiro murmurou enquanto coçava a nuca, e uma moça jovem adentrou.

– Vossa alteza, os conselheiros o aguardam. Eles querem que o príncipe e a princesa se aprontem imediatamente, pois antes da cerimônia de coroação, serão introduzidos ao povo. O lençol da madame será mandado até sua família, como prova de sua honra. – O rapaz viu o rosto de Hinata empalidecer.

– Lençol? O que tem o lençol? – Perguntou ignorante, e o rosto da serva enrubesceu.

– O- O lençol manchado... O senhor Hiashi fez questão de pedi-lo aos conselheiros, e eles não encontraram problema algum. – Vendo o estado da esposa, o príncipe apenas assentiu.

– Dê-nos alguns minutos. – Ele pediu, e após corar mais um pouco e reverenciá-los, a mulher se retirou. Hinata parecia um fantasma. – O que houve?! – Soou preocupado.

–... Quando... Quando um casal... – Ela tentou recompor-se. – Quando uma moça perde sua pureza, ela sangra. – Explicou com timidez extrema, e ergueu os olhos preocupados até o príncipe. – Maridos e famílias pegam lençóis manchados para comprovar a pureza de suas esposas ou filhas. – O rapaz empalideceu.

– O que faremos?! – Como se ela soubesse!

– Eu não sei. – Respondeu agonizada, mas controlada o suficiente para não ser mal educada.

– Por que diabos seu pai pediria algo assim?! – Ela deu os ombros.

– Meu pai se sente orgulhoso. Afinal, a filha dele será uma rainha. – Ela balançou a cabeça, lamentando-se e se arrependendo por não ter sido mais apelativa na noite anterior. – Oh Deus, estou perdida. – Murmurou escondendo o rosto.

O Uzumaki ficou paralisado por alguns instantes; seu cérebro trabalhava a mil por hora e enfim uma ideia boa o suficiente pareceu agradá-lo. Ele pôs a mão abaixo da cama e dali, puxou uma adaga pequena, mas sinistra o suficiente para apavorar sua esposa. – Acalme-se. – Pediu. – Sasuke disse que eu deveria ficar com isso embaixo da cama, para qualquer eventualidade. E se esgueirou para o centro do colchão.

– O- O que você vai fazer?! – A esposa parecia ainda mais preocupada. Naruto empurrou os cobertores, fitou o tecido fino e branco que forrava a cama e após respirar fundo, deslizou a lâmina pelo braço, que sangrou.

– Senhor! – Hinata exclamou assustada, e se apressou, subindo na cama no intuito de para-lo.

– Fique quieta. – Ele pediu enquanto apertava sobre a ferida no intuito de fazê-la sangrar mais. – É muito sangue?

– E- Eu não sei! – A moça gaguejou. – Acho que varia de mulher em mulher! – Exclamou após ver uma expressão impaciente no rosto do herdeiro. – Não era necessário se machucar! Eu poderia fazer isso! – Estava realmente assustada.

– Como se eu fosse deixar. – Naruto revirou os olhos. – Não se preocupe, é quase um arranhão. – Garantiu. – Posso escondê-lo com as roupas... – Ela queria chorar. – Ei, não se preocupe! – Ele exclamou aos risos. – Veja, já até parou de sangrar. – E exibiu o corte avermelhado – que ainda sangrava.

– Senhor...! – Ela fungou chorosa, e sentiu-o beijar sua testa. Enrubescida, ergueu os olhos e o viu com uma expressão divertida.

– Um problema a menos. – Falou, e ergueu o mindinho novamente. – Agora você entende, minha cúmplice? – Após fungar mais uma vez, ela concordou, e enlaçou os dedos.

– Cúmplices.

~

Sempre assim... Sempre assim...

Todos os dias eram sufocantes, todos os dias eram insuportáveis.

Ainda assim, todos os anos, o dia dez de janeiro parecia ainda mais doloroso, ainda mais cruel: era como se suas cicatrizes sentissem, como se o fogo estivesse novamente roçando em sua pele dolorosamente.

Aquela era uma casa que ficava dentro de Konoha, mas afastada do centro da cidade: era grande, e embora agora estivesse acabada com as paredes pretejadas, janelas e portas quebradas, era evidente que algum dia fora uma residência de respeito.

O homem encapuzado já estava acostumado àquele lugar, antes e depois de sua desgraça. Por alguma razão, ele sentia-se sentenciado a visitar o lugar sempre àquela data. Adentrou facilmente, e ainda que cinzas estivessem por todos os cantos, subiu as escadas de madeira – que surpreendentemente ainda tinham forças para aguentar o peso de um homem adulto – e adentrou em um dos quartos sinistros.

Sentou-se no chão; encostou a cabeça no que já fora um armário e fechou os olhos, tentando recordar-se do que um dia aquele lugar fora. Não parecia, mas há exatos vinte anos aquela era uma casa alegre. Ele podia se lembrar... Das paredes róseas, dos móveis de madeira escura, das pinturas que ela tanto adorava... Do piano que lhe dera secretamente, do diário que ela escondia, dos livros que lia. Das bonecas que colecionava, das poucas joias que tinha.

Ele puxou do pescoço um pequeno relicário arredondado, e após abrir cuidadosamente, alisou o tufo de cabelos castanhos. – Rin... – Murmurou saudoso, e foi como se todas as malditas lembranças daquele dia retornassem: As chamas, os gritos dela e de seus pais, o choro alto e desesperado de um bebê recém-nascido; os gritos estavam sufocados pela fumaça, e a família Nohara via-se desesperada com as chamas espalhadas na mansão.

Um assovio de admiro soou pelo local e foi como se ele despertasse. Fechou o relicário instintivamente e levantou-se; no portal do quarto, um de seus subordinados observava admirado. – Entendo, você veio admirar o seu trabalho. Parabéns, essa foi uma grande obra de arte. – O rapaz loiro elogiou com sinceridade, mas aquilo o irritou profundamente.

Quase sem pensar, o moreno aproximou-se em passos rápidos e o ergueu pelo colarinho. – Repita isso, Deidara. – Comandou, e o mais jovem sorriu desafiador.

– Um belo trabalho, senhor Obito Uchiha. – Repetiu orgulhosamente. Obito o empurrou para fora do quarto, contra a parede do corredor; seu antebraço o sufocava.

– Não é porque acidentalmente ouviu meu nome que pode ficar dizendo por aí, garoto. Escute: tente bancar o esperto comigo mais uma vez, e farei questão de te mostrar o porquê sou o líder da Akatsuki.

– Claro! – Ele exclamou em resposta e enfim foi solto. Revirou os olhos azuis e suspirou. – Foi só um elogio... – Murmurou enquanto alisava o pescoço.

– O que você faz aqui? Eu não gosto que me sigam. – O Uchiha já descia as escadas àquela altura; o mais jovem o seguia.

– Eu e Sasori acabamos de voltar de Suna. Atrasamos a carruagem que levava as notícias do casamento... – Ele tirou do bolso uma insígnia em forma de formato estranho e exibiu. – Roubamos isso, então podemos entrar tranquilamente na cerimônia de coroação. – Eles já estavam fora da mansão. Obito puxou a peça das mãos do outro e observou cuidadosamente.

– Sim, podemos nos fazer de representantes. O governador do país dos Ventos certamente mandará um polido pedido de desculpas... Quantos vocês conseguiram?

– Quatro, meu grande senhor. – Obito realmente odiava toda a ironia daquele insuportável jovenzinho. Estava começando a se arrepender seriamente de aceitá-lo na organização, ainda que ele fosse um excelente mercenário – embora um pouco imprudente e exibido demais. – Duas estão comigo, e as outras duas com meu veterano. – Ele exibiu uma segunda idêntica.

– Ótimo. – O líder guardou a própria em seu bolso. – Como ninguém tem informações físicas de vocês, serão os instruídos na infiltração. Eu usarei uma máscara, e dirão que sou o guarda instruído para cuidar de seu grupo. – O loiro assentiu. – Sasori será o porta-voz, já que ele de fato é de Suna. E você...

– Eu sei, eu sei! – Deidara bufou. – Devo procurar o garoto Sarutobi e dar as instruções. – O Uchiha concordou.

– Além disso, vai ficar parado, quieto.

– Sim senhor! – O loiro bateu continência.

– Tentarei conseguir mais duas pessoas. Geralmente guardas não precisam de identificação... Precisarei falar com Sasori para ter certeza... – Refletiu em voz alta, e após respirar fundo, olhou para o mercenário. – Volte para a base. – E seguiu para o lado oposto do que comandara.

– Espere! Você não vem comigo? Precisamos acertar os detalhes! Temos pouco tempo! – O líder ajeitou o capuz.

– Logo estarei lá. Antes preciso fazer uma coisa. – E sem esperar resposta, seguiu em frente.

~

Estar na sala dos conselheiros nunca era bom, mas a primeira vez em que sua presença era convocada era especialmente ruim.

Naruto sabia disso, portanto, antes que as servas tornassem a bater na porta de seu quarto pela segunda vez naquela manhã, ele pensou em instruir sua esposa sobre tudo o que havia aprendido em suas visitas.

Infelizmente os senhores conselheiros estavam extremamente ansiosos com a visita dos futuros reis, e tornaram a incomodá-los antes mesmo de Hinata terminar de lavar o corte que Naruto fizera com a adaga – ela o fez com a água da grande jarra que deveria matar a sede dos noivos durante a noite de núpcias. Desta vez, o fizeram pessoalmente, e foram prontamente atendidos.

A senhora Utatane pareceu satisfeita ao notar a vermelhidão no lençol da cama contrastando com o rubor na face da nova princesa, e o senhor Mitokado ficou satisfeito com a satisfação de sua companheira. – Espero que tenham tido uma noite agradável. – A velha mulher murmurou com um sorriso pretensioso e os jovens coraram.

– Vossa alteza, — O velho pareceu ignorar o comentário da conselheira. – Nós temos algumas instruções sobre a cerimônia, então vamos começar a explicar. – O tempo inteiro, os atuais governantes revezaram de frase em frase para explicar ao casal cada movimento que deveriam fazer durante a coroação.

Explicaram que apenas pouquíssimos nobres da corte, e mais alguns convidados de outros países aliados estariam presentes, portanto eles deveriam ser mais cuidadosos em mostrar... Afeição, pois estavam realmente frustrados com o comportamento de ambos no dia anterior.

Hinata e Naruto sabiam que haviam se portado mal ao sequer fingir intimidade, mas nada podiam fazer para mudar o fato já ocorrido, então não se preocuparam em pedir desculpas. Afinal, o orgulho de um monarca era tudo, não?

O Uzumaki realmente surpreendeu-se com o comportamento da moça, que nem por um instante deu motivos de reclamação aos conselheiros – diferente dele, que recebeu mais de uma vez olhares de censura. Ela ficou por todo tempo sentada na cama, estava encolhida para esconder as pernas limpas – pois elas deviam estar sujas de sangue – e conseguiu passar a impressão contrária. Assentia para as instruções e não baixava os olhares durante as repreensões: era atenta, silenciosa e educada em suas respostas.

Quando a conselheira enfim pareceu cansar-se de encher os ouvidos dos jovens com os detalhes da cerimônia, disse: — Acredito que seja apenas isso.

– A cerimônia será feita na sala do trono, antes do almoço. E a propósito, vossa alteza... – O homem caminhou até a porta, abriu-a e chamou alguém. Um rapaz alto com uniforme da guarda real adentrou calmamente. – Este é Shino Aburame. – Hinata o cumprimentou com um aceno. – Ele será o seu guardião particular. – O rapaz ajoelhou-se no chão e reverenciou-a respeitosamente.

– A servirei com minha vida, sua alteza. – Prometeu com a voz grave e Naruto sentiu-se levemente incomodado.

– Eu pensei que o guarda de minha esposa fosse Sasuke. – Falou sem pensar. A Utatane mais uma vez lhe lançou o olhar de dona do mundo.

– O senhor Uchiha tem muitas responsabilidades. – Murmurou com revolta palpável. – E sua falta de bom senso o desqualificou para o cargo. – Pontuou; pelos olhos castanhos irritadiços e culposos, ele soube que o amigo havia se prejudicado por qualquer estupidez que ele tivesse feito.

– Não tenho problemas com isso. – Hinata sorriu gentilmente ao Aburame, pois não queria deixá-lo desconfortável.

Ouvira falar muito daquele rapaz, enquanto era noiva de Kiba. Ele e o Inuzuka eram amigos de infância: a mãe do Aburame havia sido ama de leite de seu antigo noivo. Pelos relatos deste, Shino era um rapaz quieto, muito envergonhado, de baixíssima autoestima, mas muito talentoso e trabalhador. Mesmo antes de conhecê-lo, Hinata já simpatizava com sua personalidade. Então, ainda que também estivesse surpresa – pois tinha quase certeza de que o cargo de guardião seria dado a um Uchiha – por pura educação preferiu não demonstrar preferências.

O rapaz pareceu grato, pois sorriu. – Pode se levantar. – Ela instigou e ele a obedeceu.

– Uma serva lhes trará o café da manhã. Depois de alimentados, por favor, se apressem em se arrumar. – O casal concordou, e após reverencias de todos, os três se retiraram do quarto.

Os herdeiros respiraram aliviados, e Hinata enfim levantou-se. – Acho que fomos convincentes... – Murmurou pensativa. O loiro concordou.

– Mas o pior está para vir. – Ele também se levantou, e sorrindo com uma expressão cansada, murmurou à esposa: — Boa sorte para nós.

~

Kakashi Hatake era um homem solitário. Nenhum adjetivo melhor lhe qualificava do que aquele: solitário.

Embora órfão, hoje era um dos mais importantes comandantes do exército do país do Fogo, mas já trabalhara para a guarda real e até mesmo o serviço secreto. Era um homem bom, consideravelmente charmoso e possuía um salário invejável naquela época de crise, além de uma fortuna pequena herdada do pai, que já fora herói de guerra. Ainda que tivesse todas aquelas qualidades, não era casado.

O motivo de não ser casado era o mesmo do fato de ele estava visitando o cemitério naquela manhã importante, quando na verdade deveria estar ajeitando seu melhor uniforme para aparecer na cerimônia de coroação do príncipe herdeiro: hoje seria o aniversário de vinte anos da morte daquela que um dia amara.

Rin Nohara fora uma moça adorável quando viva: cheia de sorrisos e gentilezas para todos à sua volta. Sua família era simples, mas de boa índole, e de importância considerável: o pai era um cobrador de impostos que, assim como todos no país do Fogo, em tempos de guerra vivia consideravelmente bem (financeiramente falando). A mãe era uma mulher extremamente bondosa, que geralmente fazia de tudo por sua filha.

Os Nohara não tinham muitos familiares, mas eram muito amigáveis com todos, e não havia motivos para que morressem da maneira que se foram: queimados vivos em sua própria casa. Kakashi não sabia quem havia sido o malfeitor que lhe tirara a única família que podia lembrar ter tido na vida, mas o governo já havia achado um culpado.

Obito Uchiha, um renegado de sua família, estava desaparecido na época e fora condenado pelo assassinato dos três Nohara. Ele era o culpado perfeito, pois assim como Kakashi, sempre fora apaixonado pela filha do casal. O Hatake, entretanto, sabia que a possibilidade de Obito matá-la era tão nula quanto à de ele próprio fazê-lo.

Todos os anos, naquele mesmo dia, o comandante ia até os túmulos da família Nohara. Na ocasião, sempre trazia consigo dois ramalhetes de flores: um de rosas brancas, para colocar sobre o senhor Nohara e outro de rosas róseas, para a senhora Nohara. Ele jamais precisou se preocupar em trazer para Rin, pois sempre que alcançava o cemitério, o túmulo de sua amada estava coberto por flores campestres – as suas favoritas – recém colocadas pelo eterno amor da falecida: o suposto culpado de sua morte, o renegado Obito Uchiha.

Notas finais
Estou moooorta de sono. D: Tão, tão cansada que sequer vou terminar o capítulo da outra fic (vou deixar pra postar semana que vem mesmo. u.u) e vou cair na cama. Eu tenho uma prima pequena, e sou completamente apaixonada por ela, mas... Francamente, uma criança de sete anos pode sugar toda sua energia! q Minhas pernas provavelmente foram mordidas por todos os insetos irritantes e coceirentos do mundo! T-T ~ Eu me esforcei muito para deixar esse capítulo esclarecedor e ao mesmo tempo misterioso (sim, eu sei que é confuso. XD). Estou me esforçando muito em escrever, e quero que vocês considerem o TobiObito um vilão no mínimo interessante. TwT ~ Err... Não sei mais o que dizer SHAHUASHAUSHSAUU' Acho que vou parar por aqui. Sinto muito por não responder aos comentários (foi uma semana cheia. XD), mas quero deixar claro que sempre leio TODOS, e sem exceção, são todos importantíssimos para minha auto estima! Obrigada por me acompanharem! ~ Dúvidas? Críticas? Sugestões? Pode demorar, mas eu garanto que a resposta vai chegar! XD ~ Até a próxima!