The King
13 Capítulo XIII – O Grande Dia.
Notas iniciais

Capítulo XIII – O Grande Dia.
Enquanto vivia na residência Hyuuga, Hinata sempre teve o conforto de saber que as senhoras Uchiha viriam visitá-la todas as semanas, sempre que tivessem um tempo livre. A companhia de Kasumi e Mikoto – principalmente a segunda – sempre foi muito considerada pela Hyuuga, pois elas geralmente tinham bons conselhos, assuntos e ideias para oferecer.
Como era de se esperar, toda sua rotina mudou quando ela viu-se residente da Torre, e as visitas já não eram mais tão costumeiras. Isso era horrível, já que ela jamais precisou tanto de conselhos quanto agora, que se via inconsolável com o triste destino de se casar com um homem que não a amava, e fizera questão de dizer que jamais amaria.
Claro que ela não teve muito tempo para pensar nisso, uma vez que as semanas anteriores ao que deveria ser o grande dia de sua vida lhe ocupavam o físico e a mente por todos os dias que se seguiram, mas quanto mais o tempo passava e os afazeres consequentemente diminuíam, menos propensa ela estava a se fechar em um casamento unicamente de fachada, sem esperanças.
Lembrava-se bem da última conversa em que ela e Naruto falaram realmente, há algum tempo. Na verdade, aquela conversa atrapalhava constantemente suas noites de sono – ainda que a moça, mais do que nunca, precisasse estar descansada.
*~*
– Eu sempre fui criada com a ideia de que o amor viria depois do casamento. – Só Deus poderia saber quanta coragem ela teve que reunir para pronunciar aquelas palavras olhando nos olhos dele. E só Deus poderia saber o tamanho de sua humilhação ao ouvir sua resposta.
Assim que Naruto recuou as mãos, ela sentiu seu coração despedaçar-se e todo o ego que havia conseguido reunir durante quase dezesseis anos deveria ter sumido naquele momento. – Senhorita Hyuuga. – Ele falou firmemente. – Eu gostaria de deixar bem claro o fato de que estou perdidamente apaixonado por outra pessoa. – Como se ela não soubesse disso. – Embora como príncipe... Eu não tenha muitas escolhas... – Dizer aquilo à uma mulher era definitivamente muito cruel, mas Hinata deu o máximo de si para ignorar. – Não pretendo alternar meus sentimentos. – Aqueles olhos decididos foram o fim para quaisquer esperanças que ela poderia nutrir futuramente. – Quero saber, senhorita Hyuuga... Se mesmo sabendo de minhas intenções, ainda quer aceitar a proposta de casamento. – Os olhos de Hinata estavam fixos aos dele, e ela ouvira cada palavra com uma maturidade que ninguém da sua idade deveria ter.
– Creio que vossa alteza não tenha compreendido a minha situação... – Ela falou constrangida, baixando a fronte para fitar as próprias mãos, que estavam pousadas em seu colo. – Eu nasci para me casar com você. – Ergueu os olhos de pérola angustiados até os do príncipe, que parecia tão tristonho quanto ela. – O objetivo da minha vida é servir como meio para que minha família consiga um bom título. – Ele realmente achava que ela tinha escolha?! – Eu não vou desistir desse casamento, senhor.
–... Sabe, Hinata... Isso é um pouco triste. – Os olhos dela fitavam-no timidamente, e ele suspirou. – É triste você não poder escolher quem vai amar.
– Infelizmente, senhor... – Ela disse depois de hesitar. – Pessoas como nós dificilmente podem se dar esses luxos. – Naruto suspirou. Levantou, reverenciou-a educadamente.
– Isso era tudo o que eu queria saber. – Falou. – Já que você está disposta a seguir em frente... – Ela assentiu. – Até o altar, Hinata.
– Até lá, vossa alteza. – Eles se despediram com mesuras e não mais se falaram.
*~*
Faltavam apenas algumas horas para o grande dia quando os últimos acertos do vestido da cerimônia de coroação – que seria na noite seguinte após as núpcias do casal, pois os conselheiros tinham pressa – quando a moça enfim teve o prazer de receber a visita de sua madrinha. Ela não trouxe companhia, pois só sua visita já havia sido suficientemente difícil a se conseguir; ainda assim, Hinata sentiu-se feliz.
Elas se cumprimentaram educados acenares, pois a noiva do príncipe não podia se mover muito, já que as costureiras ajeitavam os últimos detalhes do grande vestido branco e rendado. Até o fim da sessão tortura – como Mikoto costumava chamar momentos como aquele – elas mantiveram uma superficial conversa sobre coisas sem importância real. Quando enfim as mulheres despiram-na das vestes exageradas, e deixaram-na com um severo aviso de que ela deveria se controlar para não comer nem de menos, nem demais, a prometida do herdeiro enfim pôde levar a mulher que provavelmente mais amava na vida para sua sala particular.
Naturalmente, a mais velha notara imediatamente a tensão da afilhada e a moça falara-lhe tudo: todos os seus medos, todos os motivos para sua hesitação com a união.
A senhora Uchiha ficou chocada ao saber da desconsideração de Naruto, e não hesitou ao culpar Jiraya por sua má criação, sem sequer pensar na possibilidade de tamanha sinceridade ser herdada do sangue teimoso dos Uzumaki. – Embora eu tenha dito que me casaria a qualquer custo, já não tenho tanta certeza... – A moça murmurou cabisbaixa. Claro que Mikoto bufou, pois a ideia de cancelar todo o planejamento de ambas as famílias em cima da hora era simplesmente impossível.
– Como se eu fosse permitir que fizesse algo assim. – A morena balançou a cabeça como se fosse uma ideia absurda. – Querida, por acaso você sabe quem é a garota que enfeitiçou o príncipe? – O rosto de Hina enrubesceu.
– Não. – Ela mentiu sem hesitar.
– Certamente é alguém que teve um papel importante em sua antiga vida. – A mais velha refletiu. – Terá possibilidade de ser a enfermeira? – Hina emudeceu. – Não, não. Não acredito que seja o caso, já que a garota está visivelmente apaixonada por meu Sasuke. – Um sorriso divertido nasceu em seus lábios, e o coração da Hyuuga sentiu-se aliviado. Embora não gostasse nem de Sakura, nem da ideia do seu noivo estar apaixonado por ela, não queria causar-lhe problemas. – Ninguém que tem um príncipe aos seus pés dá corda para outro rapaz. – Ela riu ao concluir, e a outra preferiu sorrir e bebericar da xícara de chá sem comentar.
Depois de se recompor, a senhora terminou de beber de sua própria xícara enquanto pensava em qualquer palavra que pudesse confortar sua querida Hinata; assim que terminou o chá, fez questão de sentar mais próxima à futura princesa. Com um sorriso maternal, ela puxou as mãos da moça. – Não se preocupe. Nós daremos um jeito de dobrar aquele teimoso. – Disse com a voz firme e decidida.
– “Dar um jeito”? – A mais velha assentiu.
– Você vai conquistá-lo, querida. – E alisou as faces brancas. – Não há como o príncipe não se apaixonar, já que não existe moça mais bela do que você nesse reino. – O rosto da Hyuuga enrubesceu, e ela tentou baixar a fronte, mas foi imediatamente impedida pela Uchiha. Ela tinha uma expressão assustadoramente animada. – Hinata, logo você será uma mulher casada, então não pouparei palavras. – Os olhos perolados se arregalaram surpresos, mas a morena prosseguiu. – Sua alteza pode ser idiotamente romântica, mas também é um homem. Um homem jovem, a propósito. – O rosto da jovem enrubesceu novamente. – Um homem jovem, sob pressão... – O sorriso da senhora era tão malicioso e constrangedor... – Certamente não poderá segurar seus... Instintos, quando chegar a hora.
– Madrinha! – Hinata exclamou, recuando. Não sabia se estava mais assustada ou constrangida, principalmente com o fato da senhora Uchiha continuar com aquela expressão. – D- Do que está falando?!
– Oh, querida, você pode fingir não saber o que eu quero dizer, mas estou certa de que todo esse constrangimento, toda essa hesitação vai sumir quando estiverem sozinhos no quarto. – Mikoto levantou-se se segurando para não gargalhar com a situação. – Quando chegar a hora, por favor, não poupe esforços para seduzi-lo. Você é bonita, jovem. Por favor, não deixe que um tolo apaixonado baixe sua autoestima, sim? – A garota suspirou, e também se levantou.
– Eu vou me esforçar. – Prometeu.
– Lembre-se que não é só sua família que ganha com esse casamento. – A mulher alisou as madeixas azuladas da afilhada. – Força, minha querida. – Elas se abraçaram, e depois de uma despedida carinhosa, a senhora Uchiha retirou-se.
~
A despedida de solteiro de Naruto resumiu-se em uma hora e meia de reunião com os rapazes que mais era próximo: Sasuke e Itachi. Isso porque Jiraya e Tsunade estavam ocupados demais com os últimos preparativos para a segurança de sua alteza.
Eles se reuniram no novo quarto do herdeiro – os antigos aposentos de Minato e Kushina – e, em geral, beberam em silêncio.
Como era de se esperar, o príncipe não estava lá muito feliz com todos aqueles eventos, um atrás do outro, que mudariam definitivamente sua vida. Ainda assim, ele estava decidido a passar por tudo aquilo. Pelos pais que começava a se lembrar, pelo povo que precisava dele e de seu casamento. Ele queria ser um bom príncipe, gostaria de ser alguém que ele admiraria, em condição de povo, e era essa a decisão que o mantinha ali, firme. – Você não devia estar com cara de enterro. Amanhã vai se casar com uma das mulheres mais bonitas do reino! – Itachi exclamou quando decidiu que o silêncio se prolongara por tempo suficiente. O loiro suspirou longamente.
– Não é como se um casamento arranjado fosse um ponto alto de felicidade, ao menos do meu ponto de vista. – Ele respondeu com um murmurar.
– Infelizmente, o seu “ponto alto” é algo inalcançável pra alguém na sua condição. – Sasuke disse enquanto bebericava de sua taça. Naruto arqueou a sobrancelha; olhou-o de soslaio com irritação palpável.
– E é alcançável para você, por acaso? – Para os irmãos Uchiha, estava claro que aquela reação dava-se à terceira dose de bebida, portanto, o provocado preferiu responder com um dar de ombros.
– O que meu irmão quis dizer, vossa alteza, é que agora, como príncipe, você vai ter que abrir mão de algumas coisas que antes gostava de ter.
– Eu sei. Como a liberdade. – Os olhos azuis se reviraram.
– Sabe, pessoas matam para estar no seu lugar. – O Uchiha mais jovem já estava ficando saturado de tanta infantilidade. Ele levantou-se, puxou o príncipe sem cerimônias e levou-o diante do quadro de seus pais. Itachi não tentou refreá-lo. – Eles morreram. – Apontou para a pintura do sorridente casal falecido. – Eles morreram para proteger o seu lugar como herdeiro. – Naruto não respondeu por um momento.
– Falando nisso, Sasuke... – Ele murmurou em tom baixo depois de algum tempo de reflexão. – Porque eu vivi... E eles morreram? – E ergueu os olhos até o amigo, que suspirou.
– Eu entrei no exército há menos de quatro anos, Naruto. Tem coisas que não sei. E nem adianta perguntar para Itachi, — Ele falou quando viu amigo virar-se na direção do mais velho. – Porque estou certo de que os conselheiros não compartilham informações confidenciais. – O outro sorriu e deu os ombros como se não pudesse fazer nada.
–... É insuportável. – A voz do loiro soou agonizada. – É insuportável estar no meu lugar, a ponto de assumir uma responsabilidade que eu não me lembro de conhecer... Sem saber de nada. – O Uchiha bateu amigavelmente em suas costas.
– Você bebeu o suficiente. – Avisou. – Deveria dormir. Amanhã será um longo dia. – O rapaz concordou.
– Nós vamos deixá-lo. Sasuke ficará de guarda do lado de fora de seu quarto. – O loiro assentiu. – Qualquer problema, não hesite em chamá-lo. – Mais uma vez concordou, e assim, os irmãos se retiraram.
Sakura estava ansiosa, escondida no lado de fora do quarto do Uzumaki. Ela não gostava da ideia de uma visita surpresa noturna, mas não tinha jeito. Nas últimas semanas, ninguém havia tido tempo para nada, e ela queria muito desejar boa sorte na próxima etapa da vida do melhor amigo.
Quando viu os irmãos Uchiha saírem do quarto de sua alteza, julgou ser o melhor momento para a entrada, mas hesitou assim que Sasuke se pôs em guarda em frente às grandes portas que davam para os aposentos do herdeiro.
Assim que o irmão mais velho estava fora de vista, entretanto, deixou seu posto. Sak imaginou que ele deveria ter ido fazer uma necessidade importante, pois definitivamente não era do feitio de seu amado fazer algo assim. Mal sabia a pobrezinha que ele estava justamente deixando espaço para que ela pudesse adentrar propositalmente.
Após a deixa, a rosada aproximou-se timidamente das portas e depois de duas batidas hesitantes, foi convidada a entrar.
Era uma grande sorte Naruto ainda estar vestido, mas nenhum deles pensou nisso. Ele estava alegre por tê-la ali – a alegria aumentada pela bebida – e ela, feliz por ele estar supostamente bem nas vésperas de seu casamento arranjado. – Sakura! – Ele exclamou realmente surpreso, e eles se abraçaram amigavelmente.
– Meu amigo! Estou tão feliz por você! – Era verdade. Ela estava muito satisfeita com aquele casamento, pois gostava muito de Hinata. Durante toda a doença de Moegi, ela pareceu ser exatamente o que Sasuke havia descrito na primeira vez: gentil, amorosa, e com um coração gigante. Uma dama refinada, sem duvidas.
Claro que toda aquela felicidade por um casamento que nem ele desejava o pegou desprevenido. Ela o soltou, puxou suas mãos e as apertou ansiosamente. – Quem diria! Naruto Uzumaki, um príncipe! E se casando aos dezesseis... Meu amigo, eu realmente lhe desejo tudo o que pode haver de bom no mundo, pois sei que merece. Você é a melhor pessoa do universo, Naruto. Um pouco cabeça dura, é verdade. E bobalhão, mas sei que seu coração é bom, justo e que só isso o tornará um bom líder.
–... Você só veio me dizer isso? – Ele não pôde evitar a decepção na voz.
– Eu não tenho dinheiro para dar um presente à sua altura. – Ela riu. – Mas achei que deveria vir aqui pessoalmente desejar-lhe boa sorte. Amanhã não vai ter tempo para uma mera doutora.
– Eu sempre tenho tempo para você. – Embora a voz dele fosse séria, ela tornou a rir.
– Obrigada. Infelizmente, eu não posso dizer o mesmo... Tenho que voltar logo para meus aposentos, pois Shizune não vai gostar de me ver fora. – E depois de mais um longo abraço, que não foi retribuído, pois Naruto estava magoado demais para isso, ela se retirou com um “é amanhã!” ansioso.
Ela não se lembrou de Sasuke até vê-lo do outro lado da porta, de braços cruzados e com uma expressão de censura estampada no rosto. – S- Sasuke-kun! – Ela gaguejou com nervosismo.
– Se eu soubesse que sua presença iria deixá-lo mais deprimido do que animado, não teria deixado você entrar. – Ele balançou a cabeça, culpando-se. Sak arqueou as sobrancelhas, mais surpresa por ele ouvir atrás das portas do que por tê-la deixado entrar. – Vamos, senhorita Haruno... – Ele desencostou-se da parede e aproximou-se – demais, na verdade. – Sei que está ciente dos sentimentos de sua alteza. – Ela corou.
– S- Sentimentos?! – Sasuke suspirou.
– Deveria saber que bancar a inocente comigo não funciona. – Ela suspirou. – Eu acredito senhorita Haruno, que se gosta tanto de sua alteza, deveria ter respeito por seus sentimentos. Vir aqui, desejar boa sorte a um casamento que ele não desejava... Não é muita falta de tato para uma só pessoa? – Os lábios dela se contraíram com incômodo.
– Não acho que seja a pessoa indicada para me falar sobre essas coisas.
– Na realidade, sou a pessoa perfeita para censurá-la sobre esse assunto. – Interveio o Uchiha. – Pois ainda que conheça seus infantis sentimentos sobre a minha pessoa, nunca agi para nutri-los.
– Nunca?! – A exclamação dela foi um pouco alta demais.
– Nunca. – Ele pontuou, e ela apertou os punhos. Queria muito chorar, mas não lhe daria esse gostinho. Ele, que não queria vê-la chorar, coçou a nuca e tentou ao máximo focar nos sentimentos do príncipe, não nos dela. – Sinceramente, acho que deveria ser sincera com ele. – A Haruno curvou-se respeitosamente, sem olhá-lo nos olhos, e sem dizer uma palavra de adeus, se retirou.
~
Aquele deveria ser um dia especial. Deveria ser um grande dia, o mais importante da vida de Hinata. Ainda assim, enquanto estava em pé, com os braços abertos vestindo seu quimono branco de casamento, ela não conseguia parar de lembrar-se daquela conversa insuportável com seu futuro marido.
Há três semanas... Fazia três semanas que eles não conversavam realmente. Justamente nas três semanas dos últimos preparativos do grande dia. Ela podia estar errada, mas aquelas não deviam ser as semanas em que eles mais conversariam?
Ele definitivamente não estava satisfeito com a união. De certa forma, aquilo a machucava, pois ela realmente gostava dele. Aos olhos de Hinata, Naruto era mais do que perfeito para seu sonho de marido: ele era bonito, sincero, gentil e fiel – ainda que não fosse fiel a ela. Sabia que poderia facilmente se apaixonar, mesmo que ele fosse tão teimoso.
Seus pensamentos eram tão confusos, tão angustiados que ajeitar o cabelo, a maquiagem e o quimono não pareceu ser uma tarefa tão difícil quanto ela esperava ser. Quando se olhou no grande espelho posto no quarto do templo que ela usara para se vestir, mal pôde se reconhecer com os cabelos repuxados no topo da cabeça, decorado com acessórios bonitos. Seus lábios estavam levemente avermelhados e os olhos perolados eram destacados.
O longo quimono cerimonial era branco, bordado e forrado com vermelho escuro – provavelmente, ela pensou, para combinar com o guarda chuvas oriental.
Uma serva se aproximou, e após reverenciá-la, pronunciou: — Seu pai a espera. – Hinata concordou com um assentir calmo. Com a ajuda das mulheres que a vestiram, ela caminhou porta afora.
Hiashi nunca mais ficaria tão orgulhoso quanto naquele momento, ao ver sua filha pronta para se tornar a rainha da nação. Ele e sua esposa – que estava sempre ao seu lado – se curvaram respeitosamente, e mais pelas roupas do que qualquer coisa, Hinata retribuiu apenas com um sorriso.
O velho senhor Hyuuga ergueu a mão para que ela pudesse segurá-la, e ao lado de sua esposa, caminharam até onde os esperavam.
O Templo do Fogo não era muito diferente das diferentes igrejas em geral: era grande, com porcelanas de deuses em todos os lados e paredes internas feitas de papel e madeira. Os detalhes da fachada e do altar, entretanto, eram todos feitos com o acabamento em ouro.
O noivo já estava posto em seu lugar, esperando em pé. Usava um pomposo quimono negro cerimonial, que lhe caia muito bem, a propósito. Embora estivesse pensativo, não se deu ao luxo de baixar a fronte.
Quando a noiva chegou, todos olharam em sua direção, até mesmo o próprio príncipe, que mesmo estando decidido, não expressava nenhuma alegria. Hinata notou isso, mas tentou firmemente ignorar o sentimento de rejeição. Afinal, ela não estava apaixonada para sentir-se tão mal.
Hiashi entregou a filha com uma felicidade que infelizmente não foi verdadeiramente retribuída. Ele percebeu, mas não se importou de fato; sua felicidade era grande demais para se importar qualquer tristeza da parte dos noivos.
Uma fila foi formada e a saída a caminho do local da cerimônia foi organizada da seguinte maneira: dois sacerdotes abriram caminho e foram seguidos por mais duas sacerdotisas, que eram seguidas pelos noivos e a mãe da noiva – que segurava sua mão – e logo atrás destes, um rapaz segurava o guarda chuva vermelho. No resto da fila, os convidados, que se baseavam nos conselheiros e pelo menos um representante das mais nobres famílias estavam presentes. Os únicos plebeus ali eram os membros da família Hyuuga.
A plebe comemorava alegremente a união dos jovens: ainda que não pudessem estar presentes na cerimônia, faziam questão de estar próximos aos novos governantes do país, então se juntaram aos arredores do lugar. Tanta felicidade e alegria em um lugar que há muito não via nada além de tristeza e perda era um colírio para os olhos da até então noiva depressiva. Ela sentiu-se verdadeiramente grata por todos, e faria questão de agradecer pessoalmente mais tarde.
Dentro da sala onde seria realizado o casamento, as sacerdotisas guiaram os presentes para que ficassem em seus devidos lugares, e os noivos esperaram no centro de tudo, nunca trocando olhares.
A cerimônia em si durou cerca de trinta minutos: os noivos dividiram o a bebida abençoada pelos deuses e seus ancestrais, trocaram alianças, fizeram promessas e orações, além de toda tradição que deveria existir no mundo ocidental. Tudo extremamente religioso, cerimonioso, mas nem de longe romântico.
Muitos perceberam isso. Pelo olhar emanado dos jovens, não restava duvida de que aquele era um compromisso extremamente político, e que o amor eterno que juraram não passava de palavras vazias; alguns ficaram sinceramente felizes pela conclusão, já outros lamentaram, pois aquele era o tipo de relacionamento que não poderia ser rompido.
Após a cerimônia, os noivos e seus familiares juntaram-se mais uma vez; agora eles iriam além, e para a felicidade dos mais pobres, caminhariam para fora do Templo, até a carruagem que levaria ambos de volta à Torre, onde uma recepção seria feita.
Nem enquanto juntos no salão de comemoração eles tiveram coragem de conversar realmente. Eles cumprimentaram os nobres com polidos agradecimentos, tanto por suas presenças, quanto pelos presentes mandados – que variavam em ouro, cavalos, tecidos e perfumes.
A nova princesa não pôde falar com ninguém que verdadeiramente a faria sentir-se confortável, assim como seu marido.
Um banquete foi servido em nome aos futuros governantes e a falsa alegria se propagou por todo o salão – falsa, pois todos comentavam a falta de intimidade do novo casal, que certamente havia se mostrado mais feliz nos demais bailes do que em seu casamento. Sakura se preocupou, e ainda que tivesse sido terminantemente proibida por Shizune, não conseguiu conter a curiosidade, e após colocar o vestido verde – seu único para qualquer evento importante – seguiu para a comemoração.
Claro que uma penetra não entraria assim tão fácil no casamento dos futuros reis, e ela foi pega antes mesmo de chegar ao salão principal, por dois brutamontes que deviam ter o dobro de seu tamanho. Eles não foram nada mal educados inicialmente, apenas quando ela começou a insistir. – Mas eu não sou uma penetra! – Ela exclamou enquanto era puxada pelos braços, e afastada do lugar.
– Claro que não é. – Um dos rapazes ironizou. – É uma duquesa perdida, não?
– Na realidade, ela é a minha parceira. – A voz de Sasuke interveio, e parou com qualquer tentativa de expulsão dos outros. Eles se desculparam mais de três vezes com os dois, e após Sak afirmar, pela décima vez que não havia problema algum, seguiu para o lugar almejado ao lado da companhia mais agradável que podia pedir. – Eu devia ter deixado você ser humilhada. – O Uchiha murmurou com um suspiro, mas Sak não se deixou abalar. Estava feliz demais por ter sido resgatada – mais uma vez – por seu belo cavalheiro.
Eles passaram o resto da recepção juntos, dançando vez ou outra e nunca deixando de observar seus frios amigos, que realmente não trocavam um só olhar, admirado, apaixonado ou o que quer que fosse, nem enquanto dançavam juntos.
Toda aquela aproximação não escapou dos analíticos olhos negros do senhor Fugaku Uchiha, que ao se lembrar das origens da moça, e de sua apresentação medíocre, demonstrou seu desagrado com a situação apenas para com a esposa, que murmurou um “deixe que dancem.” desinteressado.
Assim que a hora foi permitida, os recém casados foram retirados do salão para os preparativos da noite de núpcias.
Ironicamente, o banho de Naruto foi ainda mais longo que o de Hinata – ainda que ela tivesse feito todos os preparativos existentes de uma noiva importante.
O quarto nupcial era grande, pintado de vermelho e com móveis escuros: totalmente apelativo. Um tecido fino bege estava preso aos toldos, e sentada, escondida por estes, a nova princesa, vestida com uma fina camisola longa constrangedoramente transparente – que havia sido escolhida cuidadosamente por Mikoto.
Naruto adentrou hesitante, e as portas se fecharam repentinamente. Só então, ao enxergar sua tímida esposa sobre a cama, pôde enfim concluir que eles estavam realmente sozinhos.
Como a curiosidade masculina era muito mais forte que a fidelidade ao sentimento que tinha por Sakura, ele não se conteve, e deu passos suficientes para vê-la: os longos cabelos azulados estavam soltos – ele nunca os tinha visto soltos – e a deixavam com um ar surpreendentemente sedutor. Ela não tinha mais maquiagem, mas seus lábios entreabertos pareciam estupidamente chamativos, assim como as alças finas da camisola branca transparente.
Ela se ajoelhou convidativamente, e o puxou cheia de constrangimentos, pela longa camisa branca que ele vestia. Quase hipnotizado, ele deixou-se levar; sentou-se à frente dela, sentiu as carícias gentis sob seu rosto e observou-a aproximar o rosto do seu para beijá-lo.
Por que ela o estava atacando?! Essa era a única pergunta que seu cérebro conseguia fazer. Como ele poderia resistir?! Principalmente com as mãos finas, deliciosamente macias alisando sua nuca, seu pescoço e seus ombros enquanto os lábios inexperientes beijavam os seus.
Claro que depois de meio segundo, ele não conseguiu conter-se: acabou por puxá-la pela nuca possessivamente, e mostrou-lhe o que era um beijo de verdade.
A reação instantânea sinceramente não havia sido planejada pela nova senhora Uzumaki, que constrangida, retribuiu às carícias de seu marido com mais satisfação do que ela imaginaria ter.
O príncipe colocou o corpo sobre o seu, sem parar de beijá-la, enquanto ela alisava os cabelos loiros que eram deliciosamente sedosos. Depois de minutos se beijando, os lábios do rapaz enfim conseguiram desvencilhar-se dos dela, apenas para passear pelo alvo pescoço.
O toque dos lábios dele sobre sua pele foi tão impactante que ela não pôde evitar, e acabou murmurando “senhor!” com o rosto enrubescido. A exclamação, entretanto, pareceu despertar o rapaz, que ao enfim conseguir ouvir a cabeça certa se afastou do corpo deliciosamente sedutor de sua esposa. Ele sentou-se ofegante, e sem entender, Hinata o imitou. – Algum problema? – Ela perguntou depois de um tempo de silêncio. Seu coração ainda palpitava.
Ele escondeu o rosto com as mãos, e após um longo suspiro, fitou-a com um sorriso sem graça. – Desculpe. – Pediu. – Eu não devia ter feito isso. – O rosto dela corou ainda mais.
– C- Como assim?! – Se exaltou.
– Ainda que tenha dito todas aquelas coisas sobre “sempre soube que teria um casamento arranjado”, eu sei que você não quer se entregar a um homem que não ama. – Ela se perguntou se não seria ele a ter tal ideia. – Eu... – Ele corou. – Eu não devia ter feito isso, mas... – Inconscientemente, os o lhos azuis fitaram-na com um desejo quase palpável, que fez o sangue da nova princesa pulsar. – V- Você fica muito bonita com cabelo solto. – Gaguejou; não queria ser indelicado.
– Mas... Nós precisamos...
– Não se sinta obrigada, por favor. – As sobrancelhas dela se juntaram.
– Se não fizermos isso, o casamento não será válido! – Exclamou irritada. – Eu pensei que tinha concordado! – Naruto assentiu lentamente; alisou as faces dela para acalmá-la, mas acabou deixando-a ainda mais nervosa.
– Tudo o que você fala... É pensando no casamento, e só nisso. Quando se apaixonar, Hinata... Vai entender. – Os punhos da moça se fecharam.
– Por favor, senhor... – Ele pousou o indicador sobre os lábios róseos.
– Eu odeio até quando os servos me chamam assim. – Riu nervoso, pois queria puxá-la novamente. Para conter-se, preferiu levantar. – Você é minha esposa, mas não estamos apaixonados. – Ele preferiu não olhá-la enquanto falava. – Mesmo assim, eu gosto muito de você, então espero que possamos ser amigos. – E sorriu como se aquela ideia fosse simples. – Façamos o seguinte... – Virou-se para fitá-la; ela estava séria e irritada. – Eu não vou contar para ninguém, e você também não conta. – Bom, ela não tinha lá muitas escolhas, pois ainda que fosse suficientemente corajosa para tomar uma iniciativa, não era o bastante para agarrá-lo a força.
– Com uma condição. – Ela disse após erguer o indicador. Naruto arqueou a sobrancelha, um pouco surpreso. – Você vai ter que dormir aqui. – Ela apontou para a cama, e o rosto do rapaz enrubesceu.
– Veja... Não sei se vou ser forte o suficiente nessa situação. – Ele coçou a nuca. E a princesa, reunindo toda a coragem que podia arranjar no fundo de sua alma, sorriu numa tentativa falha de ser maliciosa.
– Se for forte o suficiente, eu vou concordar. – A expressão envergonhada dela o fez querer rir, mas estava tão surpreso que não pôde. A princesa ajoelhou-se e mais uma vez o puxou. Por sorte – ou azar – ela recuou antes de ele ceder aos impulsos masculinos: deitou-se, aconchegou-se abaixo das cobertas e passou o resto da noite acordada, assim como ele, que tentava a todo custo se controlar perto da mulher mais bonita que já conhecera na vida.
Por saber que era desejosamente observada, ela imaginou se os conselhos de Mikoto não estariam realmente certos, e sorriu.
Afinal, o desejo pode ser o começo de um sentimento maior, não?
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