The King
20 Capítulo XX – Inocentes.
Notas iniciais

Capítulo XX – Inocentes.
Por que ele estava fazendo isso?
Deveria mesmo beijá-la, em um momento desses? Mais importante, ele realmente devia se sentir assim, tão desejoso, enquanto a beijava?
Quando Hinata havia começado a gritar, expressando os seus sentimentos de maneira tão impulsiva, ele não soube o que fazer; tudo o que sabia era que, para ele poder pensar, ela teria que se calar, então impulsivamente a beijou. Infelizmente a ação não foi muito efetiva, pois que ainda que ela estivesse calada, ele não conseguia raciocinar direito.
Por que diabos, ele não cansava de se perguntar, porque diabos tinham que lhe arranjar uma noiva tão bonita?!
Hinata Hyuuga era um perigo a qualquer homem, sem sombra de dúvidas, inclusive ele, especialmente ele.
Naruto adorava cada olhar, cada atenção, cada palavra de apoio expressada com a doçura de sua esposa; apenas imaginar que ela tinha a intenção de manipulá-lo o frustrava. Ele sabia que Hinata era melhor rainha do que ele jamais seria rei, mas não gostava de se sentir um tolo, queria estar à sua altura... Afinal, eles não eram cúmplices? Para isso, ele deveria entendê-la, deveria saber sobre seus sentimentos... Devia conhecê-la, e confiar nela. Mas como fazer isso quando ela parecia defender o inimigo?!
A moça se esquivou de seus lábios repentinamente, ofegando um pouco; ela ergueu a mão, e para evitar um outro tapa, Naruto segurou seu pulso firmemente. – Não faça isso. – Comandou com a voz séria. – Se fizer... Eu vou beijá-la de novo. – Ameaçou.
– Por que está fazendo isso? Dizendo essas coisas... Acusando-me...! – Ela questionou com a voz baixa e o rosto encharcado pelas lágrimas.
“Eu não sei”, era o que ele devia dizer, mas estava tão irritado com toda aquela onda de confusões que mal pôde controlar a língua, e acabou soltando: — Eu não bato em mulheres, então quando tentar me machucar, eu vou te beijar. – Mas aquilo era mentira – não que ele batesse em mulheres, é claro que não, mas o beijo não havia sido impulsionado pelo tapa, e sim pelo desabafo.
Desde menino, Naruto dificilmente conseguia confiar plenamente nas pessoas. Ele estava se esforçando para fazê-lo agora, pois sabia que não podia controlar um país sozinho. Hinata era inteligente, bondosa e linda, e até então não havia lhe dado motivos para reclamações ou desconfianças.
Ele sabia que ela não tinha o perfil de uma traidora, era discreta e nunca reclamou dos arranjos do marido; não havia verbalizado suas suspeitas, e nem procurado respostas para tais. E, no final das contas, quase sem que a moça tivesse que fazer nenhum esforço, foi ele quem lhe contou a verdade: estava apaixonado por Sakura Haruno.
A reação dela foi bem natural, na verdade. Afinal, embora Hinata fosse muito madura e tranquila, mal tinha chegado aos dezesseis anos. Ainda assim, mesmo que ele tivesse começado com os desaforos idiotas, não quis ouvir as verdades dela, então simplesmente calou-a. Queria fazê-la parar de chorar, pois simplesmente sentia-se um monstro ao vê-la magoada por sua causa.
Hina se esquivou do aperto dele facilmente. – Acabo de pedir para pensar nos meus sentimentos... – Ela murmurou com mágoa. – E você faz isso? Beija-me por rancor?! – Os perolados se cerraram tristonhos. Ele desviou o olhar.
– A culpa foi sua. – Murmurou com os punhos apertados, mas antes que a esposa pudesse retrucar, alguém bateu à porta. – Entre. – Naruto autorizou depois de longos segundos silenciosos, e Itachi o obedeceu.
Ele pareceu notar que interrompia algo, pois percebera que a jovem secava as lágrimas discretamente, mas não se importou. – Meu rei, minha rainha. – Curvou-se diante os governantes. – Tenho que conversar sobre algo importante. – Falava com a voz baixa, cautelosa.
A rainha guiou o Uchiha até a mesa que deveria ser utilizada para servir o chá, e os três sentaram-se, antes do guarda explicar a situação. – Acabo de conversar com o Jiraya, e decidimos que seria mais seguro se dormissem, pelo menos por alguns dias da semana, em aposentos separados. – Hinata mal pôde descrever seu alívio ao ouvir as palavras do primo, pois sentia necessidade de manter-se longe do marido.
Naruto também ficou satisfeito com a ideia. Imaginava que, talvez, ao manter-se distante da moça, a incrível atração que sentia por ela pudesse, no mínimo, diminuir. Logo, ele teria tempo para organizar seus pensamentos e formar uma opinião definitiva sobre Hinata.
Em respeito à sua esposa, evitando que nem ela nem seu guarda pudessem notar aquele alívio, manteve-se em silêncio enquanto Itachi continuou a explicar. – Na realidade, não sabemos como aqueles malditos invasores conseguiram alcançar seu quarto, vossa alteza, mas estamos trabalhando nisso. – O rei e a rainha sabiam que aquilo queria dizer que “eles dariam logo um jeito no traidor, fosse ele quem fosse”. – Também sabemos que, como recém casados, certamente querem privacidade. Entretanto... – Hinata sorriu gentilmente.
– Compreendemos sua situação, Itachi. – Ela disse com a voz doce, mas de maneira apressada, e Naruto entendeu que se sentia como ele. – Não se preocupe, não vamos causar mais dores de cabeça a vocês.
~
Como, ele não cansava de se perguntar, como poderia ser tão estúpido?!
Como poderia deixar que sentimentos tão estúpidos nascessem em seu coração? Como poderia sentir-se atraído, não só pela aparência, como pela personalidade da garota que, estava nas fuças de quem quisesse ver, era a dona do coração e da alma de seu melhor amigo, de seu Rei.
Pior que aquilo! Como ele poderia se deixar agir daquela maneira?! Tocá-la, acariciá-la... Dizer coisas tão imprudentes! Como poderia ser tão tolo?! Queria bater a cabeça na parede até que o sangue começasse a jorrar.
Ele não podia fazer isso com ela! Não podia iludi-la!
Sasuke conhecia muito bem a situação da senhorita Haruno, e também conhecia muito bem a sua situação.
Ele era o segundo filho de um duque, do comandante da guarda real. Claro que Itachi ficaria com o título após o falecimento do pai, mas também era óbvio que, caso Kasumi não desse a luz a um garotinho, ele seria o próximo na linha de sucessão.
De fato, Itachi era um homem saudável. E também havia a possibilidade de ele ir antes, uma vez que o irmão era importante demais para o reino, de modo que o alto escalão dificilmente o mandaria a uma missão suicida...
Como eles fizeram com Sasuke, anos antes.
O Uchiha se ajeitou na cadeira, sentindo-se de repente desconfortável graças à lembrança.
*~*
Ele havia acabado de entrar para a guarda real, estava orgulhoso de si mesmo. A mãe estava preparando uma festa em comemoração ao “terceiro homem influente da família”, quando Fugaku surgiu de repente, estragando seus planos ao dizer que o filho teria sua primeira tarefa. – Você será infiltrado, junto a um grupo de mais três pessoas, à vila do Som. – O pai lhe dissera após trancados em seu escritório. – Não diga a ninguém, nem mesmo à sua mãe, ou seu irmão. – Sasuke entendia bem o motivo de não poder dizer a nenhum deles: Mikoto ficaria apavorada, e Itachi provavelmente se disporia ao lugar do irmão. – A vila do Som foi a atacou Suna pouco após a morte da família real, aproveitando-se do fato de que, com nosso país fraco, não poderíamos ajudar os aliados. – Fugaku explicou. – Eles fracassaram, não conseguiram tomar controle do país, mas ainda assim conquistaram uma boa parte geográfica. – Havia lhe dito com cautela. – Orochimaru é o atual líder da vila... Ele é um desertor de Konoha, mas não sabemos o que o covarde tem em mente. Desde que atacou a o país dos Ventos, estamos atentos a quaisquer movimentos daqueles malditos, então periodicamente mandamos espiões.
A missão era obviamente perigosa, e Sasuke até se espantou quando o pai a propôs, mas ele não queria decepcioná-lo. Portanto, concordou com uma expressão calma.
Durante alguns meses, o plano havia dado certo, mas então tudo falhou: a farsa foi descoberta, graças a um deslize idiota de um de seus companheiros (que havia sido pego escrevendo para a família) e Orochimaru correu atrás deles como se fossem caça.
Claro que os três jovens tentaram fugir, mas o que eram três garotos em meio a um exército que tinha conseguido vencer os soldados de Suna?!
Uma batalha terrível foi travada e, de algum jeito, Sasuke havia sobrevivido.
Ele só não sabia como, pois havia sido nocauteado.
A primeira coisa que viu quando acordou, supôs que muito tempo depois, foram os olhos dela.
Os intensos olhos verdes, que o fitavam com admiração e posteriormente surpresa, provavelmente por vê-lo desperto.
A senhorita Haruno tinha cabelos mais longos naquela época. Era uma mocinha muito bonita – como ainda era – e com um sorriso encantador.
Havia tentado falar com ele energeticamente, sempre bondosa e cuidadosa. Na época, Sasuke lembrava-se de ter se sentido realmente afetado por toda aquela atenção. Ao contrário do que geralmente acontecia em sua família, Sakura insistia para que ele se acalmasse, esquecesse os problemas e cuidasse de si mesmo.
No fim, as insistências dele puderam vencer às dela. A madre superiora, que ele não havia chegado a conhecer, lhe arranjou um cavalo e ele partiu, mas não sem antes agradecê-la verdadeiramente.
*~*
E lá estava ele pensando nela novamente!
Sasuke suspirou pesadamente, arrependendo-se de suas lembranças, e encostou a testa na parede. Não! Ele não estava apaixonado, como Itachi gostava de garantir. Apenas gostava demais daquela moça.
Talvez estivesse a ponto de se apaixonar, e aquilo era terrível.
Terrível para ele, para os Uchiha, e principalmente para ela.
~
Shikamaru não gostava de colocar a vida das pessoas em risco desnecessário. Por isso, assim que descobriu a possibilidade de um dos invasores fazer parte da vila do Som, fez questão de deixar Chouji em casa, com sua esposa. Só então, depois de deixar o amigo em segurança, pegou um dos cavalos do exército emprestado e pôs-se a sair de Konoha.
A vila do Som era consideravelmente nova, mas já havia causado muita dor de cabeça, especialmente ao país dos Ventos. E, exatamente por isso, era impossível imaginá-los compactuando com Suna por qualquer motivo que fosse.
O fato de o defunto pertencer à vila do Som, Shikamaru sabia, seria o que tiraria a corda do pescoço dos Sunas.
Depois de três ou quatro horas cavalgando, Shikamaru parou em um acampamento que sabia não estar montado há mais de uma semana.
Descei do cavalo e se identificou aos guardas.
Aquele lugar era a sede de espionagem de Konoha. O país do Fogo, como uma nação grande, naturalmente temia por ataques repentinos, então era lógico que havia muitos grupos infiltrados em outras outras nações, vilas e cidades. Aquele, ele tinha certeza, era o lugar ideal para procurar informações.
A sede servia, especialmente, para ocasiões emergenciais, e fora criada após o filho de Fugaku Uchiha quase morrer em uma missão.
Após explicar a situação, ele foi guiado até a responsável pelo esquadrão de espionagem da vila de Orochimaru, e não se surpreendeu ao encontrar Anko Mitarashi, a segunda mulher mais durona que conhecera na vida, só perdendo para Ino, a esposa de Chouji.
A lembrança da senhorita Sabaku fez com que ele repensasse a conclusão. Sim, talvez Anko tivesse caído para o terceiro lugar. – Shikamaru! – Ela bateu nas costas do rapaz como se fosse um homem, sorrindo enquanto comia qualquer coisa que não importava ao rapaz. – O que o trás aqui? – Shika pigarreou.
– Bem, eu tenho algumas perguntas sobre este homem. – Puxou do bolso uma caricatura do defunto feita por ele mesmo e entregou à mulher. – Encontrei uma pequena cicatriz em forma de nota musical em sua nuca. Foi um dos invasores. – A mulher assentiu enquanto analisava o desenho.
– Fiquei sabendo... Sim, esse rapaz faz parte do Som. – Ela devolveu-lhe o retrato e se pôs a procurar algo nos arquivos; depois de alguns minutos, entregou uma ficha ao rapaz. – Chama-se Zaku. Eu conheci o seu pai, éramos subordinados de Orochimaru, antes de ele desertar. – O rapaz assentiu, e observou a careta da mulher. – Maldito Orochimaru... – Ela murmurou entre dentes. – Aproveitou-se da morte dos pais para pegar o garoto! – O Nara suspirou.
– Bem, não há muito a se fazer agora, já que está morto. Então, eu poderia ficar com isso? Pode ser de grande ajuda na averiguação. – Anko deu os ombros e sorriu.
– Só se prometer que eu vou estar no grupo de retaliação. – Não que ele tivesse patente suficiente para tal coisa, mas do mesmo jeito concordou.
~
O país do Fogo não era realmente um país tradicional. Havia bailes, cerimônias, muitos comunicados, mas nada que os fundadores houvessem realmente pensado.
No passado, tudo havia ocorrido de maneira natural e espontânea: um rico homem com terras, que abrigou certas famílias, que aos poucos foram se tornando muitas. A vila de Konoha sequer fora nomeada por seu dono: o nome surgiu pelo simples fato de ser uma terra muito boa para o plantio.
A expansão do país também não foi algo planejado: simplesmente homens começaram a invadir as terras do agora falecido fundador, e os novos proprietários viram-se obrigados a revidar.
Talvez, a única tradição do Fogo fosse a de lutar. Até porque foram através dessas batalhas que o país se ergueu.
À medida que conquistavam novos territórios, novas pessoas – e naturalmente, novas culturas – agregavam valores à grande nação que começava se formar, e foi assim que os títulos e posições começaram a surgir.
Quando Mito Uzumaki casou-se com Hashirama Senju, a pouca organização cultural do país foi-se para o espaço.
Hashirama era um homem peculiar, e encantava-se facilmente. Assim que se tornou rei, não poupou esforços para manter a paz entre as outras nações que começavam a se formar. O resultado de suas viagens foi uma salada de tradições, cerimônias, vestimentas e tratamentos introduzidos no país do Fogo.
Por isso Naruto, como rei, deveria usar aquelas incômodas roupas pomposas e Sasuke, como cavalheiro, trajava o tradicional quimono negro bordado com o símbolo de sua família – que também era o símbolo da guarda real.
Bem, no fim das contas, o Fogo não era exatamente ligado às tradições, mas aquilo era realmente importante. – Você já analisou a lista que te enviei? – Tsunade insistiu.
Naruto, que estava lendo um livro qualquer na biblioteca, assustou-se com a abordagem repentina da avó.
Ele suspirou longamente, e deu os ombros. – Muitas coisas aconteceram. – Foi o que murmurou em resposta, e isso a irritou.
Sentando-se ao lado do neto, empurrando-o com o traseiro grande, Tsunade puxou o papel e a pena que Naruto deveria usar para escrever, e anotou alguns nomes na folha amarelada. O loiro arqueou a sobrancelha e revirou os olhos, pois não estava disposto a escolher os futuros insuportáveis naquele momento.
Claro que a princesa Senju sabia disso, mas não se importava. Ele escolheria, porque era preciso que o fizesse. – Aqui estão os nomes. – Ela empurrou a lista rápida na direção do rei. – Escolha-os agora! – Mas os olhos azuis pareciam desinteressados. – Naruto, preste atenção! – Ela comandou, e ele suspirou.
– Vovó, eu realmente... – Ela apertou com força a bochecha dele, fazendo com que o rapaz se sentisse uma criança de quatro anos quando gritou “Por favor, pare!”.
– Escute aqui, rapazinho! – Ela disse entre dentes. – Eu estou sendo muito paciente com você, porque sei que nem eu nem Jiraya cumprimos nosso dever corretamente, ao criá-lo como um garoto normal. – Ela forçou o aperto, e o Uzumaki gemeu de dor. – Mas isso é importante! – Exclamou impaciente. – Acha que faço isso por fazer? É claro que não! – E finalmente o soltou. Naruto esfregou o rosto como se aquilo pudesse aliviar a dor.
Ele encarou à avó, furioso, mas quis recuar ao ver a expressão furiosa dela. – Os conselheiros são importantes, Naruto! – Tsunade exclamou alto. – Em um regime como o nosso, o Rei não pode fazer escolhas sozinhos. Sabe o que vai parecer se você não escolher logo os novos conselheiros? – O loiro não respondeu. – Vão começar a desconfiar de você. – Aquilo o surpreendeu tanto que ele levantou-se num pulo.
Por que diabos iriam desconfiar justo dele?!
A avó suspirou; se aconchegou no banco e massageou as têmporas. – Naruto. – Ela tornou a falar, agora cuidadosamente. – Eu sou sua avó. Tenho responsabilidades para com você, para com o reino... – E então suspirou longamente. – Não somos uma monarquia absoluta; o rei toma a última decisão, mas não pode ser o único a opinar. – Ela ergueu os olhos uísque até os azuis do neto, séria. – Se não tratar logo de arrumar novos conselheiros, vão começar a falar que “vossa majestade não quer babás em seus calcanhares”, “vossa majestade deseja ser o único a tomar uma decisão”, “vossa majestade acreditar ser autossuficiente”. Então começarão a comentar que não se dava bem com os velhos malditos...
– Como se alguém se desse. – Naruto murmurou revirando os olhos, mas Tsunade o ignorou.
– No fim das contas, vão suspeitar de você. Ainda que você tenha sido atacado, — ela adicionou após vê-lo a ponto de retrucar. – você está vivo. E isso é o suficiente para levantar suspeitas. – Naruto pareceu refletir.
Praguejou baixo, e enfim sentou-se ao lado da avó, empurrando o livro que lia e puxando a lista que havia sido redigida pela viúva há pouco.
Não tinha muitos nomes. E destes, apenas de Jiraya, Kakashi e Kurenai ele se lembrava. – Por que os Uchihas não estão aqui? – Questionou curioso. Em sua opinião, Fugaku Uchiha e Mikoto Uchiha certamente tinham mais porte de conselheiros do que o comandante Hatake e a pobre mulher que era obrigada a dar ao rei aulas de política.
– Itachi Uchiha é muito jovem. – Tsunade respondeu dando os ombros. – E, bem, seu pai seria uma falta muito grande à guarda real. – O loiro arqueou as sobrancelhas, e tornou a olhar a lista.
– Não me lembro de nenhum Inoichi Yamanaka, nem Shikaku Nara... E você nem precisava ter escrito o nome, é claro que eu vou escolher meu avô. – Tsunade sorriu. – Ajude-me. – O loiro pediu enquanto coçava a nuca.
– Você deveria pedir à rainha. – Ela disse simplesmente, mas ele não respondeu, e nem responderia.
Então a mulher mordeu o lábio inferior; queria que ele tomasse a decisão. Mas, dando-se por vencida, aproximou-se. – Se quer minha opinião, — disse ela – Shikaku Nara é um dos homens mais inteligentes do país do Fogo. Talvez o mais. – Claro que, ao afirmar isso, ela ainda não havia conhecido seu filho. – Mas vou dizer os motivos de eu colocar cada um nesta lista. – O rapaz assentiu, e ela prosseguiu. – Kurenai Yuuhi pode parecer uma tola perdida, mas é a mulher mais preparada do reino.
– Eu não tenho duvidas disso. – Naruto suspirou; ela era realmente preparada, tanto, que não conseguia dar uma aula sem que ele se sentisse um completo idiota.
– A família Yamanaka está conosco desde o início da expansão, então são confiáveis, e o senhor Hatake é um homem sério e correto. Todos tem um histórico heroico em sua família, mas dentre eles, acredito que Kakashi seja o único que pode ser considerado um herói.
– Eu lembro que um dos conselheiros havia me dito que ele salvou a esposa de Itachi. – O loiro adicionou curioso, e Tsu surpreendeu-se por ele se lembrar de algo tão desinteressante.
– Sim... – Ela concordou hesitante, estreitando as sobrancelhas. – A senhora Uchiha foi sequestrada quando bebê, por um pária. Kakashi a encontrou e a trouxe de volta...
– Mas eles não se dão muito bem. – O rapaz não pôde deixar de observar. – E eu gosto muito da esposa de Itachi para ignorar isso. – A princesa suspirou.
– Eles não se davam muito bem. – Concordou a senhora. – Ela era uma garotinha difícil... Depois de dois anos tentando conquistá-la, entregou a guarda à Mikoto Uchiha. – E deu os ombros, como se fosse o fim da história. – Certamente uma mulher, mãe de dois filhos, esposa de Fugaku Uchiha conseguiria lidar com uma garotinha selvagem. – E sorriu, e então pigarreou para continuar, e tornou a apresentar cada um dos poucos candidatos da lista, exceto Jiraya – pois afinal de contas, ele não precisaria ser apresentado às qualidades do homem que mais admirava na vida.
Naruto percebeu que a avó não deu muita ênfase nos demais listados, e imaginou que os primeiros haviam sido seus prediletos. Por fim, o rei suspirou. – Vou até Itachi, e pedirei que me apresente aos outros. – Tsunade concordou. – Assim que conhecer todos, tomarei minha decisão. – A avó ficou satisfeita com aquilo, e assim, a discussão se encerrou.
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Era quase anoitecer quando Shikamaru tornou à Torre, e ele sabia exatamente o que fazer.
Já tinha chegado aos ouvidos da criadagem – portanto, claro que também à guarda real – que a rainha estava apta a defender os irmãos Sabakus, ou pelo menos não condená-los sem mais provas, e por Deus, sem dúvida seria mais fácil chegar à Hinata do que à Naruto.
Ele foi até os aposentos de Kurenai, e surpreendeu-se a encontrar Konohamaru de babá. Afinal, o rapazinho Sarutobi era um garoto ativo, o que significava que de certo algo havia acontecido para que ele sentisse a vontade de se isolar. Imaginou que talvez se desse a paixão platônica que começara a nutrir pela caçula dos Hyuuga e não se importou por muito tempo.
Após saber que a senhora Sarutobi estava dando suas costumeiras aulas à rainha, ele não hesitou. Deixou Konohamaru com o primo e se apressou em direção à sala de estudos nos aposentos de Hinata.
Ele se apresentou à Shino, o guarda costas da rainha, e foi anunciado como “uma visita à senhorita Yuuhi”. – Enlouqueceu?! – Ela perguntou em voz baixa quando o amigo lhe disse suas conclusões.
– Ela é a rainha, e parece ser a única a querer ouvir. – O rapaz suspirou longamente. – Por favor, Kurenai. Preciso de uma audiência.
– Uma audiência? – A voz confusa da antiga senhorita Hyuuga soou. Ela não havia ouvido de propósito, é claro. Havia saído da sala para pedir um pouco de água a uma serva qualquer. – Eu poderia ajudar? – Inocente, se aproximou dos dois.
Shikamaru sorriu, confiante, mas Kurenai pareceu preocupada. – Este é Shikamaru Nara. – Apresentou a tutora, mas era desnecessário.
Todos se conheciam em Konoha, afinal de contas.
Shika curvou-se respeitosamente. – Minha rainha. – Cumprimentou com educação, e Hina apenas lhe sorriu. – Poderíamos falar? – Ela pareceu surpresa. – Não precisa ser necessariamente privado. – Ele se apressou em explicar. – Mas é um assunto importante. – Hinata estreitou os olhos, mas por curiosidade, acabou concordando.
Avisou à Shino que não deveria interrompê-la, a menos que o rei lhe chamasse e se trancou na sala de estudos com a tutora e o visitante.
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Já haviam passado das dez quando Naruto retornou aos aposentos que dividia com a esposa.
Ele não sabia ao certo se ela estaria ou não no quarto, depois da decisão da guarda real, mas sentiu-se ansioso.
Cumprimentou Shino e mais um guarda — que parecia ser o temporário substituto de Itachi -, que se curvaram, com um aceno de cabeça. Estava tão tenso que mal pôde notar a apreensão nos olhos dos guardas.
Olhou para a porta do quarto de seus pais fixamente, respirou fundo e girou a maçaneta; simplesmente perdeu o fôlego ao encontrar Hinata em pé, em frente à cama, na companhia de um soldado que ele só conhecia de vista.
Claro que um milhão de coisas passaram por sua cabeça ao encontrar àquela cena – sua esposa trancada no quarto, sozinha com um desconhecido – e nenhuma explicação lhe pareceu muito boa.
Para a sorte de Hinata e Shikamaru, Kurenai, que estava longe das vistas de sua majestade, aproximou-se e curvou-se. – Vossa majestade. – Cumprimentou com a voz ansiosa, sendo imitada por Shikamaru.
Hinata, Naruto percebeu, demorou um pouco até olhá-lo nos olhos. O rosto da esposa estava levemente corado, mas ela tinha estampada no rosto uma expressão decidida. – Meu marido. – Disse-lhe respeitosamente, curvando-se. – Este é Shikamaru Nara. – Apontou para o rapaz e Naruto imediatamente lembrou-se do homem de mesmo sobrenome que conhecera mais cedo.
– O que está acontecendo? – Ele quis saber com a voz hesitante, olhando de um lado para o outro.
Kurenai respirou fundo antes de começar. – Meu rei, — ela disse cuidadosamente. – O senhor deve se lembrar da aula de história que tivemos algumas semanas antes, onde falei sobre a história da aliança com o país dos Ventos. – Nos olhos azulados, uma centelha de ódio se acendeu.
Ele fitou a esposa como se pudesse matá-la. Aquela mulher estava defendendo demais aqueles malditos estrangeiros! Hinata desviou o olhar, e reparando na tensão, a senhorita Yuuhi prosseguiu. – Lembra-se? Sobre a aula onde lhe disse como eles haviam perdido um terço do país. – O Uzumaki respirou fundo.
– Sim, minha senhora. – Disse com irritação. – Lembro-me vagamente.
– A vila do Som — Shikamaru disse repentinamente. – atacou, de maneira covarde, o país dos Ventos. – O rei ofereceu ao soldado um olhar implacável, mas o Nara não se conteve. Imaginou que devesse lembrá-lo dos detalhes que provavelmente haviam sido abordados na aula de Kurenai. – O líder do Som queria conquistar o país, mas tudo o que conseguiu foram algumas terras e muitas mortes. Entre essas mortes, estava o pai dos irmãos Sabaku, o antigo imperador dos Ventos. – Naruto não respondeu, estava furioso demais para isso e não conseguia parar de imaginar porque diabos estavam conversando sobre história quando acontecera um atentado à vida de todos dentro daquele maldito lugar! – Bem, — o rapaz aproximou-se para entregar uma papelada ao rei. – O garoto que Sasuke matou pertencia ao exército do Som. – Aquilo o surpreendeu.
Naruto olhou para todos à sua volta antes de analisar a ficha que lhe havia sido entregue. “Zaku”, ele já tinha ouvido esse nome antes, e imaginou que, talvez, pudesse ter sido um pouco antes de perder a consciência.
Hinata apertou a saia do vestido, olhando ansiosamente na direção do esposo. Definitivamente ela não queria falar sobre Suna na última noite – pelo menos naquela semana – em que dormiriam juntos, mas não pôde simplesmente ignorar o apelo que Shikamaru lhe fizera após apresentar as provas.
Além disso, pelo amor de Deus, a vida de uma família estava em risco! Que tipo de rainha ela seria se preferisse agradar o marido a salvar três vidas e uma aliança? – E o senhor quer dizer... – Naruto pronunciou lentamente, erguendo os olhos azuis em direção aos de Shikamaru. – Que os culpados são a vila do Som, e não o país dos Ventos? – Shikamaru concordou.
– Definitivamente, os motivos de o Som nos atacar são muito maiores do que os de Suna, meu rei. – O Uzumaki notou que ele estava sério, mas tenso. – O líder da vila, Orochimaru, é um desertor do exército de Konoha. – A sobrancelha loira se arqueou um pouco. Naruto tornou a olhar os documentos em suas mãos de maneira duvidosa, e Shikamaru disse apressado: — Arranjei isso – se referindo à ficha. – com a sede de espionagem. A senhorita Mitarashi pode confirmar isso. – Mitarashi? Naruto não fazia ideia de quem era, mas imaginou que ele estivesse falando a verdade. Não porque confiava nele, mas Tsunade parecia confiar tanto na família Nara quanto na senhorita Yuuhi, então ele tinha que dar o braço a torcer.
Além disso, Shikamaru mostrara uma grande coragem ao fazer a burrice de entrar em seus aposentos sem que o rei tivesse conhecimento. – Entendo. – Foi apenas o que ele disse, e entregou os papeis de volta ao rapaz. – Você tem certeza? – Shikamaru anuiu, nervoso.
– Encontrei um tipo de cicatriz em forma de nota musical na nuca do defunto. Ao que parece, eles usam isso como meio de identificação. – Naruto assentiu lentamente.
Foi até a porta e após abri-la, disse em voz baixa à Shino: — Chame Itachi e Jiraya imediatamente.
~
Em Suna o tempo costumava a ser sempre seco.
Konoha era o oposto, e embora Temari não se incomodasse realmente a umidade no ar, sentiu-se saudosa de sua terra.
Com um suspiro longo, ela fechou os olhos.
Tentou lembrar-se das colinas, da brisa sempre quente, da felicidade que tinha o prazer de compartilhar com sua família...
E então estreitou as sobrancelhas; abriu os olhos e fitou o teto do cubículo em que estava presa com tensão. Como estariam seus irmãos?
Ela se preocupava especialmente com Kankurou, que havia sido idiota e teimoso; provavelmente deveria estar ferido, e se apavorou com a ideia do irmão ferido e preso em uma cela, sem atendimento médico.
Ela balançou a cabeça freneticamente. Shikamaru a havia avisado que Kankurou havia sido tratado, então ele-...
O quê?! Ela estava mesmo confiando na palavra do homem que a havia rendido?! Gemeu de desgosto, pois só podia estar muito solitária para algo assim.
A porta rangeu, e ela tratou de se sentar.
Usava calças de montaria, mas ainda assim era uma jovem senhorita. Deveria mostrar-se respeitosa, apesar de tudo. Preferiu engolir a felicidade que sentiu ao ver Shikamaru passar pela porta. Não que gostasse de Shikamaru, mas ele era o único guarda ali que conseguia ser minimamente gentil. – Senhorita Sabaku. – Ele reverenciou-a com um sorriso misterioso que a fez sentir-se desconfiada. – Pronta para a sua sentença? – Temari sentiu-se apavorada inicialmente, mas então ouviu a voz do irmão.
“Onee-san!”, era o que Gaara exclamara. Aquilo a surpreendeu, pois o ruivo não a chamava dessa maneira desde que eram crianças.
Fitou tão, tão feliz ao vê-lo ali, sujo e sorridente, que não pôde controlar seus impulsos: enlaçou o pescoço do caçula e chorou alto, sem se importar com a presença dos demais.
Embora o Kazekage fosse um homem sério e geralmente indiferente, não resistiu ao aconchego maternal da mais velha, e ao vê-la bem, em um quarto consideravelmente confortável para um traidor, tranquilizou-se. – Terei o prazer de guiá-los até um aposento reservado aos hospedes, meus senhores. – Shikamaru sorriu. Estava verdadeiramente satisfeito consigo mesmo, e quando Temari fitou-o, com os olhos castanhos ardendo em agradecimento, ele se sentiu um verdadeiro cavalheiro.
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Fugaku Uchiha realmente estranhou ser chamado a uma reunião de emergência no meio da madrugada, mas como Konoha estava uma bagunça sem igual, imaginou que devesse ser algo importante.
Não pôde evitar o sentimento nostálgico ao cruzar a porta e entrar no escritório de Minato, e vislumbrou um antigo rei sentado à cadeira. Levou um minuto para que ele percebesse que era, na realidade, Naruto.
Ele tinha um olhar sério, implacável. – O senhor é o último que eu desejava ver, duque. – O Uzumaki murmurou calmamente, antes de se levantar.
Todos os comandantes do alto escalão estavam ali, reunidos, além de Sasuke e Itachi. – Antes de anunciar minha decisão publicamente, quis juntá-los para informar que os irmãos Sabaku foram inocentados sobre o atentado. – Os olhos negros do comandante da guarda real arregalaram-se.
– O- O que...?! M- Mas...! – Ele tinha dificuldades para falar. – Eles atacaram Konoha! Mataram os conselheiros! Atentaram contra a sua vida, majestade! – Sasuke e Itachi se entreolharam, surpresos pela reação do pai, já que Fugaku era sempre controlado.
– Algumas evidências surgiram. – O Uzumaki entregou a ficha que havia visto mais cedo ao duque. – Sasuke reconheceu o homem, e a senhorita Haruno afirmou que seu nome é Zaku. – O maxilar do comandante Uchiha enrijeceu.
– O meu filho quase morreu. – Ele murmurou, e Naruto enfim entendeu.
Todos ficaram em silêncio por um bom tempo antes que o Uchiha voltasse a falar. – Acredito que seja mais prudente de sua parte, vossa majestade. – Ele disse lentamente. – Se primeiro escolhesse os novos conselheiros. Definitivamente, esse é um assunto que deveria ser muito conversado antes de uma decisão.
– Eu já os escolhi. – O rapaz disse sem pestanejar, surpreendendo a todos, inclusive Sasuke. – Os conselheiros serão Jiraya, Itachi e Shikamaru Nara. – O velho Fugaku perdeu a fala.
Normalmente, o rei havia descoberto, os conselheiros eram escolhidos entre heróis de guerra e servidores do país há muito, mas Naruto acreditava que se ele, aos dezesseis anos, poderia ser rei, não tinha motivos para que Itachi, aos vinte e oito, não ser um conselheiro. E Shikamaru, ao mostrar toda sua coragem investigando um caso que não lhe dizia respeito, havia se mostrado realmente admirável. – Sasuke tem toda a minha confiança, portanto será promovido a meu guarda costas. – O loiro prosseguiu. – E Suna será inocentada. – Disse por fim, olhando para cada um dos líderes de alto escalão.
O motivo de o rei os reunir ali, todos sabiam, não era apenas para avisar sua decisão, mas mostrar que ele estava fazendo seu trabalho.
Que sabia que trabalhos necessários haviam sido deixados de lado, e como isso era estranho; que sabia que havia um traidor entre eles.
Kakashi, que como um dos comandantes do exército não poderia faltar àquela reunião, não pôde deixar de sorrir com a conclusão daquele encontro, pois quem quer que fossem os traidores, ou o traidor, definitivamente estaria em apuros com aquele garoto desconfiado como rei e Itachi e Jiraya como conselheiros.
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