The King
41 Bode Expiatório.
Notas iniciais
Capítulo 41 – Bode Expiatório.
Hinata não sabia, e muito menos compreendia que porcaria estava acontecendo! naquele momento.
Há quinze minutos estava deitada nos braços do marido, amando-o, sendo amada e trocando juras de todo esse amor. Num segundo ele estava sobre ela, beijando a pele de seu rosto e pescoço, sussurrando seu nome com uma devoção deliciosa, e no outro, Sasuke adentrara ao quarto abruptamente, sem se importar com o fato de seus soberanos estarem seminus e em meio aos deveres matrimoniais.
Hinata achava que, para tanta pressão e ansiedade sobre um herdeiro, eles estavam interrompendo muito as intimidades do casal!
Sasuke não havia dito nada, após a invasão. Apenas foi até a cama, ignorando completamente os praguejares nada educados de Naruto – embora ela também não achasse a atitude do Uchiha nada educada – puxou-o pelo antebraço, jogou um robe sobre o rei e, depois de vestido, quase o arrancou do quarto pelos cabelos.
E agora ela estava só... Só, confusa e frustrada.
Encolheu-se na cama, e se envolveu com os lençóis, decidida a reclamar até que o marido retornasse.
Quando os quinze minutos tornaram-se trinta minutos, ela estava deitada, encolhida, abraçando um travesseiro e considerando seriamente a possibilidade de deportar Sasuke Uchiha para qualquer cidade distante, incapacitando-o de interrompê-los. Claro, ele não tinha sido o primeiro a fazer isso. Por Deus! Quantas vezes Naruto e Hinata já não tinham sido interrompidos?! E por quantas pessoas!
Ela suspirou desgraçadamente.
Aquele devia ser o preço de um casamento político.
Ela abraçou as próprias pernas, encolhendo na cama em posição de feto, e gemeu desgostosa. Lembrou-se dos beijos, dos toques e dos murmúrios do marido... Do fato de ele enfim ter se declarado.
– Eu te amo...
As palavras ecoaram por sua cabeça, e a lembrança de Naruto sobre ela, beijando seu pescoço, soltando esses murmúrios contra sua pele aqueceram seu coração.
– Volte logo...
~
Yahiko estava sentado numa mesa localizada na biblioteca principal do palácio, lendo um livro não muito interessante sobre “A Grande História da Nação do Fogo”, que de grande, não tinha nada. Apenas morte, e derramamento de sangue desnecessário.
– Lutas por terras, alianças... – Ele balançou a cabeça em censura. Em sua opinião, guerras deviam surgir por motivos nobres: mudar governo, mudar o país, mudar o mundo... Mas de quê adiantava matar, matar e matar, sem um objetivo real? Apenas para conquistar.
Francamente, Yahiko nunca conseguiria compreender o sentido daquilo, o sentido das grandes guerras. Países lutando uns contra os outros, tudo em benefício do egoísmo de um ou outro governante. Não seria tudo mais simples se os homens apenas duelassem entre si? E que o ganhador ficasse com tudo.
Yahiko suspirou.
Não, não era assim que funcionava. Ele sabia disso. Era líder há bastante tempo para saber. Claro que, como líder da Akatsuki, o mercenário já enfrentara campos de batalha suficientes para não se considerar um covarde – como grande parte dos reis que iniciavam suas guerras eram. Mas havia perdido e matado homens o suficiente para entender que guerras são jogos onde os apostadores colocam suas vidas em riscos.
As suas, e a dos seus.
Mas quanto tempo levou até que ele compreendesse esse fato? Quantas batalhas, quantas dores, quantas perdas não teve que passar, para que entendesse isso?
Que a violência e a sujeira eram muito mais efetivas do que a paz, e os diálogos? Que negociações nem sempre são o suficiente, e que um homem não recua, quando deseja algo.
Yahiko tinha trinta e cinco anos, e era o mais velho dos Akatsukis. Ele precisou perder a irmã para perceber como tudo era tão sujo e errado. Precisou perdê-la, precisou sentir o agonizante do desejo de vingança, e o amargo gosto dela se concretizando.
Ele fechou o livro abruptamente, furioso consigo mesmo. Furioso por seus pensamentos. Maldito fosse Konohamaru Sarutobi e suas teimosias! Maldito fosse aquele garoto, que trouxera as lembranças amargas de seu passado de volta à tona.
A porta se abriu repentinamente, e Nagato estranhou ver Konan, atônita, vestindo um robe que mal fora amarrado adentrando ao local. – Yahiko! – Ela exclamou ao vê-lo; correu até ele e o puxou pelo antebraço.
– O que houve? – Ele estava sinceramente confuso.
– Eles descobriram!
~
Nagato simplesmente não tinha palavras para descrever o que sentia naquele momento. Ele simplesmente não conseguia pensar no que dizer, quando estava tão... Confuso.
O homem que estava à sua frente deveria ser o rei, mas não era. Um rei não seria estúpido a ponto de dispensar o guarda para ficar sozinho com um mercenário com o dobro de sua idade, muito menos cobraria explicações de um mentiroso!
Um rei não o chamaria de “família”.
Por todos esses fatos, Nagato soube que a pessoa que estava diante dele, naquele momento, não era o rei. Era um garoto. Um garoto furioso, confuso e cansado, que precisava de explicações, precisava da verdade.
E ele se lamentou por não poder dar a ele verdade.
Ele forçou uma risada, que saiu bastante natural. – Perdoe-me, majestade... Mas do que exatamente está me acusando? Eu francamente não compreendo. Está dizendo que sou o mandante por trás da morte dos conselheiros?
– Oh, pelo amor de Deus... – Naruto bufou, exasperado. – Sim! – Exclamou com clareza e fúria. – Estou dizendo que foi o maldito que tentou me matar!
– Pelos céus, eu não faria isso. Matar o rei para depois me apresentar como o último herdeiro da coroa? Por favor, é tanta estupidez... – Os olhos azuis de Kushina brilharam no rosto do garoto, e por um segundo, Nagato perdeu a fala.
Ele sempre ouvira falar que aquele garoto tinha os olhos do pai. Os olhos corajosos e obstinados de Minato Namikaze... Mas, naquele momento, Nagato soube que todos estavam errados.
Os olhos dele eram incontestavelmente herança de Kushina.
Dois pontos de imensidão azul, profundas e como o mar, poderiam facilmente ser suaves quentes e aconchegantes, ou brilhar em fúria.
– Seria muita estupidez... Da minha parte. – Ele balbuciou, perturbado por notar tão repentinamente aquela semelhança.
– Eu disse que queria uma explicação convincente, Nagato. – Naruto cruzou os braços. – E está longe de me convencer. – Ele sorriu, mas sua tensão era quase palpável. – Seu nome foi mencionado durante meu atentado, pelo homem que meu guarda matou, e a mulher que estava com ele. O seu, e o de Tobi.
– Eu realmente não sei do que está falando, majestade. – Os olhos azuis se cerraram, desacreditados. O maldito ainda estava tentando contornar a história toda?!
– Estou falando do golpe de Estado que você, Yahiko e Obito Uchiha estão tramando! – Naruto explodiu. Chutou a escrivaninha e não se importou quando o pote de tinta caiu, sujando o carpete do quarto. – Estou falando do maldito dia em que vocês tentaram me matar! – Ele se aproximou do ruivo, furioso, e agarrou-o pelo colarinho. – Do dia em que massacraram uma dezena de vidas inocentes! Dos médicos, dos guardas, e todos os que perderam sua vida, apenas por estarem próximos ao quarto de Koharu e Homura!
– Não sei quem é Obito Uchiha, meu rei. – Os dedos de Naruto apertaram o colarinho da camisa do primo distante.
– Obito Uchiha, — Ele disse entre dentes. – É o nome do seu maldito guarda costas, seu homem “desafortunado.”
E embora Nagato realmente não soubesse a verdadeira identidade de Tobi, não houve surpresa em seus olhos quando descobriu.
.
Sasuke estava furioso.
Tudo o que ele mais queria era entrar naquele quarto, pegar o principezinho fujão pelos cabelos e arrastá-lo, sem piedade, até a guilhotina.
Oh, Deus! Como queria isso.
A imagem de Sakura subjugada, sendo espancada por aquele maldito intruso na cama do rei torturava sua mente; a lembrança de sua esposa tão ferida, apenas por tentar defendê-los, pesava como uma cruz em seu orgulho. E ele tinha que se vingar.
Não... Mais que isso, tinha que fazer justiça.
Alguém devia pagar pela dor dela, por suas lembranças ruins... Pelas lágrimas que ela inevitavelmente derramou, ao ter que relembrar aquele dia maldito.
Seus pensamentos foram afastados quando Yahiko surgiu, empunhando uma espada, com a noiva mercenária em seus calcanhares. Eles andavam firmemente, seus olhos eram confiantes e as posturas, eretas.
Sasuke sacou a própria arma, e colocou-se em guarda. – Algum problema, senhores? – Sua voz soou casual. Yahiko estreitou os olhos.
– Saia daí, Uchiha. – Ele comandou com a voz fria.
– Sua majestade e sua alteza estão tendo uma conversa séria, meu senhor. Não acho que seja correto interrompê-los. – E então eles ouviram os furiosos e acusativos gritos de Naruto.
– Saia daí! – Yahiko tornou a comandar.
– O rei deseja falar a sós com o parente. – O sorriso de Sasuke foi gélido, desafiador. – E é isso o que vai acontecer.
– Por Deus... Eu não tenho tempo para você, garoto. – O ruivo avançou, sem hesitação; Sasuke lançou-lhe um ataque fraco, apenas para fazê-lo recuar, mas o mercenário facilmente esquivou-se; ele se aproximou do guarda com uma velocidade surpreendente, e agarrou a lâmina, numa região próxima ao punhal, imobilizando-a.
Com um chute no estômago, fez o Uchiha curvar-se, e depois de curvado, acertou-lhe uma cotovelada nas costas; o rapaz gemeu de dor, mas antes que pudesse cair, Yahiko puxou-o pelos cabelos, obrigando-o a encará-lo. – Jamais, sob qualquer circunstância, um moleque de dezessete anos me venceria. – Ele esclareceu. – Muito menos um guardinha de merda, que esgrima como uma princesa. – Os olhos negros do Uchiha se cerraram. – Eu sou um mercenário, meu senhor. – O sorriso do ruivo foi gélido. – Você não ataca um mercenário sem vontade de matar. Porque se fizer isso, você morre. – E então, sem esperar respostas, ele jogou o rapaz ao chão, e entrou no quarto.
A fúria e o medo queimaram em suas veias ao ver Nagato rendido por aquele reizinho de meia tigela; Naruto não estava armado, e suas mãos estavam na gola, não no pescoço de Nagato, mas foi como se algo estalasse na cabeça de Yahiko.
Ele não ia perder mais ninguém de sua família.
Livrou-se da espada, e puxou a pequena adaga que sempre guardava nas botas; com uma corrida rápida, se aproximou do loiro, pronto para matar.
– Yahiko!
– Pare! – A voz de Konan e Nagato soaram ao mesmo tempo, e ele praguejou; parou de correr, livrou-se da maldita adaga, mas tornou a se aproximar; assim como fez com Sasuke, puxou Naruto pelos cabelos loiros, sem se importar com o fato de que isso poderia levá-lo para a forca em dois segundos.
Ele jogou o reizinho contra a parede e rendeu-o, apertando seu pescoço com fúria latente. – Algum problema, majestade? – Ele indagou. – Por que essa visita repentina à minha tão prezada família? – Ele não se surpreendeu ao sentir a lâmina de Sasuke roçar em seu pescoço; Konan soltou um gritinho de agonia por ver o noivo rendido, e ele se amaldiçoou por tê-la permitido vir.
– Afaste-se do rei. – O Uchiha ordenou, mas ele simplesmente ignorou.
– Por favor, senhores. – Nagato tentou intervir. – Nada disso é necessário. Somos pessoas civilizadas, e isso é um mal entendido. Quando tudo for esclarecido...
– Esclarecido uma ova! – A voz do Rei gritou. – O que diabos vocês estão fazendo aqui, afinal de contas?! Um golpe de Estado?! Eu estou farto de tanta hipocrisia! Farto de tanta mentira! Uma testemunha afirma ter ouvido o nome de Tobi e Nagato, durante a invasão que matou os conselheiros.
– Ah! – Yahiko riu alto. – Então tudo se trata de “uma testemunha”! Uma testemunha que, não posso deixar de notar, só se lembrou do fato meses após ouvir nossos nomes. – As sobrancelhas do mercenário se estreitaram. – Muito conveniente, não? – Ele sentiu a faca de Sasuke cortar seu pescoço levemente.
– Por acaso... – O Uchiha murmurou, esforçando-se para engolir a própria raiva – Está insinuando que é uma mentira? – Yahiko riu, sem humor.
– Estou dizendo que é um testemunho bastante questionável.
– Confio na minha testemunha mais do que em todos vocês jurando juntos sobre um altar. – O olhar de Naruto sustentava firmemente o do líder dos mercenários. – E a menos que tenha uma boa explicação, todos estarão na forca ao amanhecer.
– “Explicação”? – Yahiko gargalhou. – Não temos explicação. Não precisamos de explicação. Sua testemunha pode estar mentindo, ou pode simplesmente ter se confundido. – Naruto lhe ofereceu um sorriso frio.
– Vocês mentem com tanta convicção que não canso de me perguntar se acreditam em suas próprias mentiras. – O aperto tornou-se mais forte, assim como a pressão da lâmina de Sasuke. – Eu poderia mandá-lo para a forca só por isso. – Naruto apontou para as mãos do mercenário com um olhar zombeteiro. – Poderia botar todos vocês para fora, só por acobertarem um fugitivo do país do Fogo! – Os olhos castanhos do mercenário vacilaram, confusos.
– Fugitivo?
– Obito Uchiha, seu Tobi. – Naruto praticamente cuspiu as palavras. – Desde o começo, soubemos que o assassinato dos conselheiros tratava-se de um crime de vingança... Aquele homem tem todos os motivos para isso, não é? Ele também sabia como e onde atacar, então vocês o mandaram para cá. Para tirar os obstáculos do caminho.
Mas um sorriso surgiu do rosto de Yahiko, além das expectativas.
– Um crime de vingança, é...? – Ele riu. Finalmente aquele maldito traiçoeiro serviria de alguma coisa! – Não, sequer conhecíamos o nome verdadeiro do homem. – Era verdade, então ele não se esforçou para fingir drama. – O conhecemos como “Tobi, o mercenário”, e apenas isso.
– Temos meios para comprovar que aquele homem...
– Oh, não entendam mal. Eu não estou negando nada. – Ele soltou o pescoço do rei, e deixou-se ser guiado por Sasuke e sua pequena lâmina – que agora, com a raiva apaziguada, ele podia notar que era sua adaga – pelo quarto. – Nós não conhecíamos o homem. – Yahiko explicou. – E francamente, nunca confiei nele plenamente... É bem verdade que o homem nos trouxe alguns... – Ele estreitou as sobrancelhas, pensando num termo. – “Colaboradores”...
Sasuke não estava gostando do rumo daquela conversa.
– Mas jamais comandamos ataque nenhum à Torre.
– O que está dizendo? – Naruto se aproximou, irritado.
– Estou dizendo, majestade, que considero Tobi inteligente o suficiente para armar isso debaixo dos nossos narizes. – Yahiko cruzou os braços, sorrindo de uma maneira odiosa. – Não digo que é o tal que vocês acham... – Ele deu os ombros. – Eu não conheço sua verdadeira identidade, mas se ele for, e tiver os motivos...
– Está o acusando. – Sasuke concluiu.
– Estou considerando que talvez sua testemunha não tenha se confundido tanto. – Yahiko deu os ombros. – De qualquer forma... – Encarou Naruto. – Se você provar mesmo que Tobi é esse homem, tem todos os motivos para acusá-lo... Mas nenhum para pôr a culpa em nós. – Sorriu. – Até porque atacar o rei e surgir com um herdeiro seria a coisa mais óbvia, e estúpida a se fazer no universo. Seria muito mais simples atacar diretamente, matar você, e sua família. – Naruto sentiu como se uma faca o acertasse nas entranhas. Ele imaginou o rosto de Jiraya, Tsunade... E Hinata.
E quis matar aquele homem.
– Se fôssemos engenhar um Golpe de Estado majestade, — Yahiko prosseguiu – Acredite quando digo que seria muito melhor do que isso, mais rápido e efetivo. – A mandíbula do rei se trincou. – Portanto... – Ele segurou o pulso de Sasuke ao mesmo tempo em que pisou no pé do rapaz – com uma força descomunal, que fê-lo gemer de dor –, aproveitou-se da surpresa do guarda para torcer seu pulso, virou-se e deu um golpe certeiro na boca do estômago do moreno, que se encolheu. – A menos que tenham uma prova melhor do que uma testemunha de péssima memória, eu exijo que pensem muito bem antes de acusar o nosso príncipe injustiçado.
~
Naruto não voltou ao quarto àquela noite.
Ao invés disso, um guarda que Hinata não conhecia de nome surgiu; disse-lhe que o rei convocava sua presença e, após esperá-la vestir-se apropriadamente, escoltou-a pelos longos corredores da Torre, por alas que a rainha jamais havia estado. – O que aconteceu? – Ela questionou ao homem, realmente confusa.
– Eu não sei, majestade. – Ele foi sincero. – Só me pediram para trazê-la aqui.
Hinata anuiu lentamente.
– E para onde estamos indo? – O rapaz pareceu hesitar.
– A carceragem, milady. – E foi então que Hinata soube que algo muito sério estava acontecendo.
Nenhuma outra pergunta foi feita; ela apenas deixou-se ser levada pelos corredores; tudo o que se podia ouvir eram os ecos de seus passos, e os sons da madrugada.
A carceragem era cinza, completamente cinza. E sem vida.
As paredes eram altas, e os blocos eram visíveis.
Hinata não passou pelas celas; suspeitou que o guarda em questão tivesse tido ordens diretas para que ela não passasse por lá, uma vez que foram necessários vinte e seis minutos rondando para alcançar o tal lugar.
A rainha esperou, ansiosa, que o guarda abrisse a porta e a anunciasse, mas o homem estava indeciso; ele tocou a fechadura, pensou, e se afastou; foi até a soberana e murmurou num tom em que apenas ela podia ouvir: — É a sala de questionamentos, majestade. — Sei que pode ser difícil, mas aguente firme. – Ela concordou com um assentir, mas estava atordoada.
O homem a olhou mais uma vez, duvidoso, mas por fim se afastou. Tornou a se aproximar das portas longas, e após abri-las, anunciou a matriarca da nação.
Hinata adentrou assim que ouviu-o terminar de anunciar “Sua Majestade, a Rainha Hinata”, e teve que engolir um grito ao enxergar o lugar.
Não era uma “sala de questionamentos”. Era uma sala de tortura.
Com instrumentos ainda sujos.
Seu marido estava sentado sobre uma cadeira que mais parecia um pequeno trono improvisado, ao lado de outra cadeira vazia, que Hinata imaginou que devesse pertencer a ela.
Ao redor das cadeiras, estavam princesa Tsunade e os conselheiros e, à frente deles, os líderes da Akatsuki, em volta de um homem agachado, que a rainha não pôde identificar imediatamente. – Majestade. – Sasuke ofereceu o braço à rainha, que aceitou, porque estava atordoada demais para qualquer outra coisa.
O Uchiha guiou-a até o seu lugar, e após sentar-se, ela finalmente pôde ver a situação do pobre homem: ele estava algemado dos pés ao pescoço; seu rosto meio deformado havia sido esmurrado, e sangrava. As vestes de Akatsuki tornaram-se farrapos, sujos com seu próprio sangue.
Hinata não conseguiu olhar para ele por mais que alguns segundos, e virou-se para o marido. O rosto de Naruto era um misto de exaustão e fúria, mas ela precisava de explicações. – Você pode me explicar o que está acontecendo aqui? – Ela perguntou num murmúrio irritado.
– Ele – Naruto apontou para o algemado com a cabeça – Está sendo acusado de Golpe de Estado. – Respondeu no mesmo tom. – Sakura ouviu nomes durante a invasão, o de Nagato e Tobi. Os Akatsukis estão contestando a testemunha, mas não negam a participação do homem.
–... Estão traindo ele... – Naruto finalmente ergueu os olhos até ela; eles estavam frios e profundos, e Hinata sentiu seu estômago congelar por isso.
Não, eles não estavam traindo Tobi. Estavam usando Obito.
Como se a conclusão o frustrasse, Naruto se levantou, subitamente. – Por de me explicar, senhor Tobi, o porquê de lutar tanto contra meus homens, apenas para que eles conseguissem livrá-lo da máscara?
Cabisbaixo, acorrentado, ensangüentado e exausto, Obito não sabia que ainda existia sequer uma gota de orgulho em seu sangue. Mas ainda assim, ergueu o rosto e sorriu para o rei; um sorriso afrontoso.
– Por quê? Bem, eu gostava muito daquela máscara... Além disso, meu rosto não é muito bonito. Fiquei bastante envergonhado. – Se Tobi não considerava seu rosto bonito antes, agora estava muito menos: os olhos estavam inchados, a boca cortada, o canto do rosto ferido, e toda sua face suja de sangue.
– Como se chama? – A resposta do mercenário foi mais um sorriso. – Você é Obito Uchiha? – O homem deu os ombros.
– Eu sou Tobi. – Disse simplesmente. – Sem raízes, meu rei. – Ele foi muito sarcástico na última frase, mas aquilo não pareceu afetar ao rei.
Uma pena.
– Limpem o rosto dele. – Naruto ordenou a qualquer um que ouvisse, e tornou a se sentar. – Fugaku logo vai chegar, e essa dúvida acaba. – Ele notou a repentina e brusca mudança nos olhos negros do acusado, que ficaram sombrios.
Um guarda, o mesmo que havia trazido Hinata até aquele lugar, se postou a obedecê-lo. Buscou uma bacia com água gelada, um pano limpo e se aproximou para limpar o rosto do mercenário. Fê-lo com cuidado, e até gentileza, como se temesse quebrar o pobre homem se o tocasse sem cuidado.
– Urushi, basta. – Foi Itachi quem comandou.
Obito reconheceu o nome, e erguendo o olhar, pôde também reconhecer os traços do rapaz. Pelos olhos dele, soube que também o reconhecia, e pela agonia expressa em seus olhos, soube que não o entregaria.
Urushi Yakushi se levantou, puxando a bacia, e se afastou.
Não tardou até que o Duque enfim comparecesse àquela tão pitoresca reunião... Ou seria um julgamento? Ninguém ali sabia dizer com exatidão.
Fugaku chegou pouco depois de Obito e seu rosto limpo.
Assim como todos, vestia-se como mandava sua profissão: um uniforme impecável da Guarda Real.
Ninguém suspeitaria que algum deles havia sido arrancado da cama no meio da madrugada.
– Majestades. – Ele curvou-se educadamente aos soberanos, e então se virou para Tsunade e Nagato. – Altezas... – Nenhum dos quatro fez menção de responder.
– Eu lamento tê-lo que chamar tão repentinamente, duque. – Naruto foi sincero. – Mas temos um problema que só pode ser resolvido pelo senhor. – Não, aquilo não era verdade. Aquele problema poderia ser facilmente resolvido por Kasumi, Mikoto, ou até mesmo Kakashi, mas Itachi não queria envolvê-los nisso.
O nome de Obito era um tabu para todos os que poderiam reconhecê-lo.
Exceto Fugaku. O sempre frio e calculista Fugaku.
– Espero que minha presença seja de sua serventia, milord.
– Na verdade, Duque, é algo muito simples de se fazer. – Naruto meneou a cabeça, apontando para Tobi. – Simplesmente quero que me diga se reconhece aquele homem de algum lugar.
Imediatamente, os olhos de Fugaku caíram sobre o rosto de Obito. Inicialmente surpresos, depois confusos, abismados... E finalmente, compreendidos.
Naruto viu a mandíbula de Fugaku trincar, mas seu rosto continuou erguido, fitando diretamente os olhos daquele homem desgraçado. – Sim, meu rei. – A voz dele soou firme. – Eu o conheço. – Virou-se para os soberanos. – Trata-se de Obito Uchiha, milord. Meu primo e cunhado.
Sasuke não devia se surpreender, mas se surpreendeu. Como seu pai podia ser tão frio com alguém de seu próprio sangue?! Ele devia saber as injustiças que recaíram sobre os ombros do pobre homem, devia conhecer sua desgraça, e ainda assim...
– Obito Uchiha. – Naruto se levantou. – Você confessa ter esse nome, Tobi? – O mercenário riu.
– Como se eu pudesse negar agora... – Murmurou, revirando os olhos.
– Confessa ser o fugitivo Obito Uchiha? – Obito deu os ombros.
– Sim.
– Confessa o sequestro de Kasumi Nohara?
– Sim. – Naruto estreitou os olhos. Não devia ser fácil para nenhum homem confessar o sequestro de uma filha... No entanto, Obito fê-lo tão diretamente, tão rapidamente, como se fosse algo tão simples... Certamente não queria envolvê-la.
– Confessa o assassinato da família Nohara? – Os olhos negros brilharam com fúria, diante aquela questão.
– Não. – Obito foi firme; decidido. E todos souberam que era verdade.
–... Você teve alguma relação com o assassinato dos conselheiros? – Um sorriso surgiu no rosto deformado.
– Sim. – Foi uma resposta simples e tranquila. Soou com tanta normalidade, que por um segundo Naruto não soube o que pensar. – Eu os matei, e não só porque me acusaram injustamente... Foi porque não fizeram justiça. – Ele apertou os punhos. – Os matei porque preferiram manter as malditas aparências, ao invés de achar os assassinos de Rin! – Ele gritou, furioso, e ninguém soube como reagir.
Houve um longo minuto de silêncio, antes de Naruto prosseguir. – Você fez isso sozinho? – Ele questionou com cautela, olhando diretamente nos olhos negros furiosos.
– Sim. – Naruto estreitou os olhos.
– Então, se tudo se tratava de vingança, porque eu fui atacado?! – O moreno deu os ombros.
– Aqueles dois não seguiram os planos. Eu os peguei do país do Som, talvez tenham sido instruídos por Orochimaru... Eu não sei. Mas pode estar certo, majestade, de que tudo o que eu fiz naquela noite foi dedicado à vingança. Vossa majestade não era, nem nunca foi o meu alvo.
– Está me dizendo que a Akatsuki não teve nenhuma relação com o ataque? – O moreno anuiu. – Está me dizendo que vai pagar por isso sozinho?! – Sua voz soou mais alta do que havia planejado.
– A glória é toda minha, meu rei. – Obito falou isso com um sorriso frustrante.
Naruto quis quebrar tudo. Quis ir até aquele homem e bater nele até confessar que a maldita organização era a raiz de todo o mal. Que queriam destruí-lo e roubar seu trono, que queriam matá-lo.
Ele quis ir até Nagato, espancá-lo e chamá-lo de traidor do próprio sangue.
Mas tudo o que fez foi anuir lentamente, amargando o gosto da derrota, ignorando o sorriso de Yahiko.
– Suas negações e confissões – ele soou mais claro na última palavra. – Serão averiguadas. Sua sentença será discutida pelo conselho. – O homem anuiu. – Mas espero que esteja ciente, senhor Uchiha... De que o crime de assassinato é punido com a morte. E que a morte dada a assassinos de conselheiros não é a guilhotina. É a forca.
Obito sorriu.
– Um bom preço a se pagar pela vingança, majestade.
Depois daquilo, dois guardas foram instruídos a escoltá-lo à uma das celas fétidas. Os Akatsukis foram dispensados de uma maneira muito amarga; uma reunião foi marcada com os conselheiros, e todos seguiram para seus próprios aposentos.
Quando Hinata e Naruto retornaram ao quarto, o dia já clareava.
Ambos estavam exaustos, tanto pela madrugada quanto pelo dia anterior.
Hinata pensou que o marido devia relaxar, então, assim que a porta do quarto fechou-se, pensou em oferecer-se para ajudá-lo a se banhar, mas não teve essa oportunidade.
Assim que se viu fora das vistas dos inimigos, toda a ira, toda a frustração do rei explodiu: ele andou pelo quarto jogando ao chão qualquer coisa que estivesse no caminho: sobre a penteadeira, sobre os criado mudos e sobre as estantes; foi até o grande espelho posto num canto do quarto, puxou-o da parede e atirou-o no chão de maneira tão furiosa que Hinata soltou um grito assustado.
– Por que ele fez isso?! – Ele gritou para si mesmo. – Por que ele fez isso?! Confessar-se para proteger aqueles homens...! – Os olhos azuis se estreitaram, agonizados; ele agachou no meio do quarto, desolado, confuso, e não viu a esposa se aproximar.
– Acalme-se... – Ela pediu com a voz chorosa, e ele enfim se lembrou de que não estava só. – Por favor, acalme-se... – Ele viu que ela estava assustada, e aquilo o magoou.
–... Está com medo de mim? – Ela negou, mas era uma óbvia mentira. – Não tenha medo de mim... – Naruto segurou seu rosto com ambas as mãos, e encostou a testa na dela. – Só estou frustrado... – Ela anuiu, e fungou. – Não chore, meu amor... – Ele implorou, e alisou as faces róseas. – Por favor, não se assuste...
– Como não me assustar?! – Ela estreitou os olhos. – Jamais o vi daquele jeito, Naruto. – Assim como ele, ela segurou seu rosto, firmemente, com ambas as mãos. – Só olhe para si mesmo, veja o que está fazendo! Aquele homem foi espancado porque não quis tirar uma máscara! Você comandou isso! Quebrando espelhos, derrubando coisas, agindo impulsivamente, como um homem qualquer... – O aperto dela se firmou. – Você não é um homem qualquer, Naruto. Você é um Rei. O Rei da nação do Fogo... Não pode agir daquela maneira. Não pode mostrar o quão furioso está. Tem que ser frio... Eu sei que é difícil, mas tem que pensar e refletir, antes de agir.
Naruto manteve-se em silêncio por um longo minuto.
– Eu... Lamento... – Ele sussurrou fraco. – Lamento por ter me visto daquela maneira... Lamento por tê-la decepcionado.
Sim, ele a havia decepcionado. Por sua selvageria, por seu temperamento inconstante e principalmente por sua falta de bom senso, atacando, acusando o príncipe sem provas concretas.
– Por que me chamou lá? – Ela quis saber.
– Eu queria me acalmar... – Aparentemente, não havia funcionado. – Eu poderia ter matado todos ali... – Os punhos do loiro se cerraram. – Podia ter ordenado que fossem acorrentados, e podia decepá-los ali mesmo, naquela sala... Ninguém me impediria. Ninguém iria me contradizer. – Hinata sentiu um tremor se espalhar por seu corpo. Naruto viu seu rosto empalidecer, e apressou-se em prosseguir. – Eu não queria isso. – Esclareceu. – Não quero ser esse tipo de homem... Quero ser respeitado, não temido. Quero ser admirado... E não vou conseguir admiração se matar, sem explicação, o primeiro homem que me desagradar. – Hinata anuiu lentamente. – Reis temidos são facilmente depostos... Ninguém tolera homens desprezíveis. Mas eu... – Ele fixou os olhos nos dela. – De algum jeito, vou ser tão amado que qualquer cidadão estará disposto a matar, ou dar a vida por mim. – Hinata se levantou abruptamente.
– Não gosto do rumo dessa conversa. – Ela abraçou-se, como se aquilo pudesse apaziguar os calafrios.
Ouviu Naruto se levantar, e sentiu-o envolvê-la pela cintura. – Perdoe-me... – Fechou os olhos quando os lábios dele tocaram seu ombro. – Eu não quero assustá-la, só estou... Cansado. – Ela não estava olhando pros olhos dele, mas imaginou que fosse verdade; com um suspiro longo, virou-se para o amado; alisou suas faces e beijou seus lábios. Encostou a testa na dele e se apoiou em seus ombros; os rostos estavam próximos o suficiente para as respirações mesclarem... Calmas e compassadas.
Hinata suspirou.
– Não fale como eles... – Ela pediu num murmúrio, e deslizou a mão pelo peito do esposo, por cima da camisa. – Você é puro... Honesto... Então não seja como eles... – Tornou a olhá-lo. – Por favor...
Ele hesitou. Até demais, na opinião dela, mas por fim anuiu. Sorriu, e alisou os cabelos azulados. – Enquanto você estiver comigo, eu prometo que continuarei como sou... – Puxou-a pela cintura, e os corpos colaram um ao outro. – Porque você acalma minha ira, meu amor... Tranquiliza o meu coração... – Roçou o nariz no dela, que retribuiu apaixonadamente. – Eu te amo...
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