The King
44 A Decisão de Nagato.
Notas iniciais
Capítulo 44 – A Decisão de Nagato.
A última vez em que Mikoto Uchiha sentira-se tão angustiada fora há anos, na primeira missão que Fugaku havia imposto à Sasuke, quando o filho sumira por semanas incontáveis.
Duas semanas haviam se passado desde a prisão de Obito. Duas semanas torturantes e pavorosas. A cada dia que se passava tornava a rotina da duquesa mais dolorosa; ela havia se tornado uma mulher fechada, ansiosa e facilmente irritável.
Tentava ser autorizada a uma visita ao irmão desde sua captura, mas parecia ser impossível. Apenas uma pequena cota de soldados de alta confiança estava autorizada a se aproximar à cela do Uchiha na carceragem, um grupo seleto de homens com no mínimo vinte anos de exército. Mikoto imaginava que fizessem parte do ciclo de amizade do marido, embora não tivesse seus nomes.
Mas isso se tornava uma informação inútil, já que Mikoto estava começando a perceber que as amizades, naquela situação, de nada lhe serviriam.
Ninguém queria se envolver com o assassino dos conselheiros. Mikoto era inteligente o suficiente para saber que nenhum nobre sujaria seu nome diante o Rei apenas por tentar ajudar um pária da Uchiha... Mas ela já sabia estar sozinha naquela luta, mesmo antes de começar.
Desde que demonstrara seus sentimentos, a duquesa era evitada por seus filhos, afilhadas, pelos subordinados e até mesmo pelos que se diziam ser “amigos íntimos” da família. Ela sequer havia se dado ao trabalho de pedir que Fugaku a ajudasse. Sabia que, para o marido, Obito já havia trazido problemas demais ao nome Uchiha para que agora fosse defendido pela família.
Mas Mikoto estava começando a repensar suas conclusões. Se Fugaku ao menos pudesse ajudá-la a ver o irmão...!
A duquesa estava ciente dos maldosos comentários que rondavam pela Torre. Boatos de que Obito, na realidade, não estava em sua cela há dias; boatos de que estava sendo enfurnado em uma sala de tortura, com soldados ANBU fazendo seu máximo para pressioná-lo a revelar o que o rei esperava ser verdade: uma ligação entre a Akatsuki e o atentado contra o soberano do Fogo.
Francamente, Mikoto não sabia se aquele garoto estava ou não envolvido em tortura; ela duvidava que Naruto – um garoto tolo e essencialmente gentil – tivesse estômago para permitir que um homem indefeso fosse torturado debaixo de seu teto... Afinal, ele era filho de Kushina, e dela herdara um bom coração.
Infelizmente, a duquesa não podia ter tanta certeza sobre seu próprio filho.
Itachi era, sem sombra de dúvidas, um rapaz gentil, de bom coração. Mas também era extremamente protetor, e absolutamente fiel aos seus ideais, talvez até mais a eles do que à sua própria família.
Naruto poderia não ter estômago para tortura, mas Itachi teria. Ele era um homem decidido, afinal de contas, e se estivesse convencido de que Obito era uma ameaça ao país...
Mikoto apertou os punhos diante aquele perturbador pensamento.
Estava sentada na desconfortável cadeira do pequeno escritório de Zetsu, o até então inútil advogado de sua família.
O lugar era um muquifo muito mal cuidado e pobre, constituído por paredes pequenas, cheias de pontos de infiltração que cheiravam a mofo; as muitas mobílias do lugar eram usadas, e muito mal restauradas. Haviam livreiros empoeirados, e uma quantidade absurda de papéis que, independente da quantidade de suas visitas, jamais pareciam ser tocados.
Mikoto não sabia como Zetsu e seu pai se conheceram, mas supunha que não haviam sido apresentados em situações convencionais. Afinal, ele não possuía nenhuma das características que Madara considerava importantes para que fosse “digno de relacionar-se com um Uchiha”. Ele era pobre, sem nome ou família; apesar da antiga relação com o último patrono da Uchiha, seus clientes eram fuleiros, e seu modo de trabalho, suspeito.
Zetsu era um homem frio, que simplesmente não se envolvia com seus casos. Ele trabalhava, mas ao seu tempo; trazia muitas notícias para a duquesa, e embora na maioria das vezes fossem inúteis, todas elas notícias que um homem em sua posição jamais seria capaz de conseguir por meios legais.
– Perdoe-me a demora, duquesa. – O advogado sentou-se à frente da Uchiha, e estendeu-lhe uma xícara com chá fumegante. – Meu melhor chá de rosas. – Ele sorriu à mulher, que sequer fez questão de retribuir.
Desde que o irmão fora preso, não sentia ter tempo para ser gentil. – O senhor me chamou com urgência... Tem alguma boa notícia? Por favor, diga-me que sim. Estou há semanas tentando...
– Eu não consegui nenhuma alforria para seu irmão, milady. – Ele se apressou para explicar, e fê-lo com um sorriso de irritante diversão.
Mikoto não gostava daquele homem; tinha uma ligeira impressão de que ele gostava de se divertir com a angústia alheia.
– Mas consegui preciosas informações.
Informações. Sempre informações.
Mikoto teve que se conter muito para não suspirar com desgosto.
– E estou certo de que a duquesa está interessada em saber. – Ele prosseguiu; pôde notar quando os dedos dela apertaram a asa da xícara, e sorriu por isso.
Era muito curioso observar um Uchiha agir daquela forma. Em geral, os membros daquela família tinham o sangue frio. De fato, Mikoto, assim como seu falecido pai, possuía uma mente calculista; era capaz de pensar com cautela suficiente para tomar decisões racionais – embora Zetsu francamente não visse a ideia de livrar Obito da forca como uma “ideia racional” –, ainda que estivesse nervosa. Mas mesmo que fosse indubitavelmente inteligente, seu sangue era quente; aquela mulher possuía um senso protetor absurdo!
– Que informações? – Ela questionou-o quando considerou ser correto. Podia sentir os olhos daquele homem analisando cada uma de suas reações, mas realmente não importou... Ela era uma Uchiha, afinal. Estava acostumada com olhares piores do que aquele, vindo de seus próprios filhos.
E precisava ter notícias novas do irmão.
– A ANBU está envolvida. – O homem lhe disse. – Os homens de Danzou estão fazendo de tudo para arrancar uma confissão de seu irmão. – Os olhos negros se estreitaram em pura irritação.
– Ele já confessou o que devia confessar.
– Duquesa, por favor. – O advogado se acomodou em sua cadeira. – Como a primeira dama da guarda real, sei que deve estar informada. Não se trava de uma confissão de culpa, mas sim de uma confissão de aliança... O rei quer pôr a Akatsuki para fora da Torre, mas quer fazer isso de uma maneira limpa.
Mikoto não via nada de “limpo” em torturar um homem para obrigá-lo a dizer algo que talvez nem fosse verdade, mas preferiu não expressar esses pensamentos. Continuou sentada, olhando fixamente para a mesa do velho amigo de seu pai, amargando sobre a confirmação de algo que há muito suspeitava.
Ela suspirou longamente; deixou a xícara sobre a mesa e levantou-se, aparentemente exausta. – Você tem razão, Zetsu. Eu sou a primeira dama da guarda real, e sou bastante influente. – Ela pegou o guarda-chuva e ajeitou a bolsa pequena. – E por isso peço que não me chame para dizer algo que já imaginava que eu soubesse. – E seguiu a caminho da saída.
Zetsu se ajeitou na cadeira com uma expressão puramente divertida. Juntou as mãos e observou as costas da duquesa.
Esperou até que ela tocasse a maçaneta para dizer, em voz alta: – Será que, por um acaso, as suas fontes tão confiáveis a informaram que o responsável por Obito é o Conselheiro Itachi? – Mikoto ficou parada por um minuto inteiro em frente à porta, com a mão na maçaneta velha, e então simplesmente a girou.
– Tenha uma boa tarde, senhor. – Murmurou antes de deixar o escritório.
Diferente do que costumava acontecer, Mikoto não se sentiu mais tranquila quando se viu fora daquele lugar odioso; na verdade, estava sufocando. Tanto, que preferiu dispensar a carruagem, garantindo ao velho condutor que iria à caminhada até a mansão.
A duquesa não costumava se comportar daquela maneira, mas eles estavam em um bairro nobre, então o homem não teve motivos para, nem coragem de contradizê-la, uma vez que a mulher parecia visivelmente perturbada.
Deixou-a depois de uma curta e hesitante despedida, mas a cabeça de Mikoto não se tranqüilizou, mesmo quando se viu só.
Ela precisava respirar... Precisava gritar, precisava chorar.
Precisava bater em alguém! Tanto quanto precisava abraçar alguém. Precisava conversar... Precisava ficar forte.
Ela desejou a presença de Kasumi com todas as suas forças. Desejou estar ao lado de sua quase filha. Queria abraçá-la, chorar e confessar toda a agonia que sentia em seu peito. Queria compartilhar sua dor, e queria ouvir a dela... Porque sabia que, no mundo, ninguém sofreria tanto com a dor de Obito quanto sua filha.
– Duquesa?
~
Obito estava exausto.
Podia sentir cada uma das gotas de suor – ou seria sangue? – escorrendo por seu corpo nu e machucado. Podia ouvir cada veia de seu corpo pulsando tortuosamente, e cada uma de suas feridas latejando. Uma dolorosa prova de que ainda estava vivo.
Estava no quarto escuro do começo de suas torturas; naquele momento, era atado a uma cadeira de madeira, com as mãos presas aos descansos de braços e os pés acorrentados, presos a uma bola pesada, mas aquilo nem era necessário. Sentia-se tão cansado que a ideia de ser acorrentado era uma tolice, uma vez que ele sequer conseguiria pensar em fugir.
Dias atrás, Tenzou era um homem de existência desconhecida, mas agora mais parecia um amigo. De seus três torturadores, ele parecia o mais humano.
Obito havia sido queimado a ferro quente por Sai; aquele maldito garotinho, que devia ter a idade de seu sobrinho mais novo, o tinha açoitado, quebrado seus dedos e arrancado as unhas de seus pés.
Outro homem que ele não chegou a ouvir o nome o tinha ameaçado, afogado, sufocado e perfurado seus braços, mãos e peito com algo pontiagudo só para depois fazê-lo gritar ao esfregar sal grosso em suas feridas.
Tenzou se contentava em esmurrá-lo, o que o tornava, naquela situação, um homem misericordioso.
Não que ele tivesse mãos de fada... Longe disso! Ele tinha mãos firmes e fortes, e Obito suspeitava que alguns de seus ossos estivessem fraturados por causa daquelas surras, mas era a melhor das opções.
– Qual é a sua ligação com Nagato Uzumaki? – Era a única pergunta que seu quase-amigo se obrigava a fazer.
A pergunta que todos faziam... Já a tinha ouvido tantas vezes naquelas semanas!
Obito estava começando a achar que aqueles homens eram idiotas. Para começo de conversa, ele não tinha mais fôlego sequer para gemer de dor, quem diria falar! Não que ele fosse dizer alguma coisa, mesmo que tivesse algum fôlego... Ele havia sido um comandante do Fogo, afinal. E ninguém se tornava parte do alto escalão militar da nação do Fogo sem aquele tipo de treinamento.
Morreria antes de falar.
– Ele está quase morto. – Ouviu a voz familiar, mas não conseguiu reconhecê-la. – Está aqui há duas semanas... Não vai falar. Vai acabar apanhando até morrer, e o Rei não vai gostar disso.
Tenzou anuiu, compreendendo. Ele virou o rosto na direção de Itachi, que embora não tivesse a mínima vontade de presenciar a tortura de um homem que devia fazer parte de sua família, estava recostado à porta, observando o trabalho de seu antigo veterano.
Era seu dever, afinal.
– Devíamos levá-lo até a cela, senhor? – O conselheiro pareceu hesitar um pouco.
Definitivamente, a ideia de levar Obito de volta a cela sem conseguir uma confissão era frustrante; significava que toda aquela tortura desumana, no fim das contas, não havia resultado em nada. E, para Itachi, quando a tortura não dá resultados, se torna puramente injustiça. Violência gratuita.
Mas aquele homem estava há semanas sendo diariamente exposto à tortura física; diariamente sendo machucado, abusado... E nada iria fazer efeito. Ele era um soldado do Fogo... Mais que isso, era o filho de um Uchiha.
Seria mais fácil vê-lo morto, a vê-lo trair seus ideais.
Itachi suspeitava que tortura psicológica funcionasse melhor naquele mercenário perturbado, e ele tinha informações o suficiente para fazer um bom trabalho... Mas só a ideia de ficar trancado a sós com o tio, gritando ofensas à mãe de sua esposa, exclamando insinuações sobre Kasumi e usando sua própria mãe como uma ferramenta para pressioná-lo era perturbadora.
– Levem-no. – O conselheiro decidiu por fim.
– O mestre não vai ficar contente... – Sai observou.
– E quando ele fica? – Obito sentiu quando Tenzou – ele o reconheceu por suas mãos ásperas e grandes – soltou suas mãos; ele quis esfregar os pulsos, mas não tinha forças nem para abrir os olhos.
Na verdade, surpreendia-se com o fato de estar consciente... Ou quase isso.
– Danzou não pode tirar a autoridade do Rei, e o Rei não vai querer ter um homem morto por tortura abaixo do teto da Torre. – Itachi esclareceu, e mais nenhum comentário foi mencionado.
Obito fora solto; solto e levado. Desmaiou três vezes durante o caminho até sua cela na fétida e fria carceragem, portanto, não percebeu quando o limparam, muito menos quando o vestiram com o sujo e rasgado manto Akatsuki; mal teve consciência do fato de que Tenzou o estava segurando de um jeito muito cuidadoso para um ANBU.
Seus sentidos estavam simplesmente desligados. Ele não sentia, nem enxergava... Não ouvia nada além de uma música cantada pela distante e suave voz de Rin, fruto de suas lembranças trabalhando em conjunto com sua imaginação. Mas a música sumiu, no exato instante em que ele sentiu Sai empurrá-lo abruptamente para entrar mais rápido ao cubículo com grades. Obito caiu com violência no chão e, sem reflexos, mal conseguiu proteger seu rosto durante a queda.
Ouviu uma conversa, alguém dando uma bronca em alguém, mas não se importou; sequer se preocupou em parar para ouvir. Simplesmente continuou deitado, imóvel na mesma posição em que havia caído.
O som das chaves foi ouvido. Os passos se afastaram.
Ele fechou os olhos, e tentou ouvir aquela musica mais uma vez... Tentou ouvir a voz levemente desafinada pela timidez, e foi inútil. Tentou, então, reunir suas lembranças; esforçou-se para lembrar a voz fina e suave da filha, tentou ouvir o “eu estou aqui, papai”, mas tudo o que pôde escutar foi o silêncio da prisão.
E ele quis gritar de raiva e frustração.
Toda a dor da tortura não podia se comparar àquilo: a dor de não conseguir sonhar. Nada podia ser mais terrível do que a dor produzida pelas memórias de Rin e Kasumi, além do fato de ele não conseguir pensar nelas.
Ele riu; riu de ódio.
Como seria bom estar morto! Mas aqueles malditos Akatsuki... Não serviam nem para acabar com aquela agonia!
Obito virou-se com dificuldade, e encarou o teto cinza rachado da construção antiga. – Ah, Danzou... – Sorria. – Reze para que me mate logo, seu velho maldito. Porque se eu sobreviver... – Estreitou os lábios. – Vou caçá-lo até o inferno.
~
Karin não saiu do quarto naquela manhã.
Estava deitada de bruços sobre a cama grande e confortável, e embora não tivesse dormido durante toda a madrugada, não sentia sono. Tinha os olhos fechados, apertados, e tentava firmemente afastar os maus pensamentos; esforçava-se para cair entrar em coma de sonolência, quando sentiu um livro batendo sobre sua cabeça.
– Ei, princesa! – A voz de Suigetsu a fez grunhir de desgosto. – Sua família a espera para almoçar.
– Não tenho fome. – Ela murmurou com desgosto; revirou-se na cama e encobriu a cabeça, como se fosse uma birrenta criança de dez anos.
O guarda suspirou longamente, como se estivesse cansado, mas sorriu por fim. Estava satisfeito por finalmente poder voltar ao trabalho – ou ao menos parte dele, já que segundo a senhora Uchiha, não estava completamente curado –, depois do que lhe pareceu uma década de descanso na enfermaria.
– Vamos, princesa. Seu pai-...
– E não quero ver meu pai! – Ela exclamou aquilo com tanta convicção que o assustou. Definitivamente era muito estranho ouvir Karin rejeitando o pai.
Ela também não se agradava muito por fazer isso, mas sentia-se furiosa, tristonha e decepcionada.
Fazia algum tempo que estava ciente da prisão de Tobi. Havia se lamentado por ele, mas não chegara a entristecer-se... Pelo menos não até a noite anterior, quando uma das criadas lhe contara os motivos que o haviam encarcerado e os meios em que estava sendo mantido.
Karin simplesmente não conseguia acreditar que o pai e os tios haviam deixado o pobre homem assumir a culpa sozinho! Ela não conseguia compreender o porquê de aceitarem isso tão facilmente, quando deviam pelo menos tentar salvá-lo, para então deixarem daquele lugar!
Estava francamente começando a odiar a Torre. Começara a perceber que tudo aquilo mais era um pesadelo de prisioneira do que o sonho de uma princesa. As paredes longas, antes aconchegantes e luxuosas, agora pareciam frias e assustadoras.
E o fato de que por trás de uma daquelas incontáveis portas um homem era torturado – um homem que ela conhecia, um homem com quem já havia conversado, viajado – era terrível.
Karin não se sentia a mulher mais justa do mundo. Ela era a filha de um mercenário, pelo amor de Deus!
Mas mesmo entre mercenários, acreditava que devia haver lealdade...
Olhou de soslaio para Suigetsu, que estava em pé, ao lado de sua cama, com os braços cruzados e um sorriso irritado estampado no rosto. O braço do jovem guarda ainda estava enfaixado.
Suigetsu era a prova viva de que a lealdade existia, mesmo entre mercenários. Karin sabia que ele a odiava – e francamente não se importava com isso – e que, ainda assim, havia se ferido para salvá-la.
Os olhos vermelhos se estreitaram, tristonhos. – Ei, princesa...
– Pare de me chamar assim. – A ruiva pediu agoniada. – Eu não sou princesa... Sou uma prisioneira! – Ele ficou um segundo em silêncio, e então riu.
– E qual é a diferença? – Ela o encarou com irritação, e o fez suspirar. – Vamos, Karin... Seu pai a espera. Ele está preocupado com sua falta de fome.
– Quem teria fome, na minha situação?! Meu pai praticamente condenou um homem! – Ela se sentou subitamente, e encarou Suigetsu como se ele fosse o culpado de todas as suas desgraças. – Como eu posso simplesmente ir lá, me sentar, feito uma boneca, e fingir que não sei de nada?! Fingir que não me importo!
– Você não precisa fingir. – A voz de Nagato soou, e ambos mais jovens se sobressaltaram. Karin sentiu o estômago contrair ao ver o pai em frente à porta. – Pode nos deixar a sós por um segundo, Suigetsu?
O rapaz hesitou. Por um segundo, não quis sair; ele observou o rosto pálido de Karin e quis ficar... Mas, por fim, anuiu. Reverenciou-os educadamente, e em silêncio, retirou-se.
A princesa sentou-se à cama, encolhida em posição de feto, e escondeu o rosto subitamente enrubescido. Ouviu os passos de seu pai se aproximando, o que a fez sentir-se ainda mais ansiosa; sentiu-o sentar ao seu lado e conteve o impulso de pedir desculpas compulsivamente.
– Então... Você acha que eu condenei um homem. – Ele olhou para as próprias mãos, enlaçadas sobre seu colo.
– Você condenou. – O murmúrio dela foi baixo e tímido. – Deixou que ele assumisse toda a culpa sozinho... Permitiu que ele fosse preso, e sequer está tentando salvá-lo da morte certa.
–... Karin, você já pensou na possibilidade de eu realmente não estar envolvido? – Ele a questionou com a voz calma.
–... Não. – Karin confessou, e ergueu os olhos rubros até o pai. – Sei que estavam juntos, papai. Se ele tivesse feito tudo isso sozinho... Você perceberia. E, além disso... – Ela não conseguiu concluir.
– Além disso...?
–... Você... – Ela hesitou. – Você... – Estreitou os olhos. – Você quer o reino, não quer? – Sua pergunta foi um sussurro. – Você quer tomar a nação do Fogo do rei... E por isso quis matá-lo.
– Eu não tentei matar o rei, Karin...
– E está me dizendo que não sabia de nada sobre o atentado?! – Ela questionou-o com fúria súbita, e o calou. – Vê onde isso está te levando, papai...? Está mentindo para sua própria filha! E eu nunca, jamais o trairia...
–... O que espera que eu faça? – Ele estreitou os olhos – Quer que eu vá até o rei, diga que estava compactuando com o homem e condene não só a mim, como a você, seus tios e todos os mercenários que estão hospedados na Torre?!
– Eu quero que você saia daqui! – Ela exclamou. – Eu quero que você pare de mentir... Que pare de agir como um monstro! Porque, desde que nos reencontramos... Desde que conheci Naruto e Hinata... É como se você fosse um vilão! – Sua voz tornou-se chorosa. – Tem ideia do quanto isso é doloroso?! Ver o pai que eu sempre amei e respeitei como um vilão?! – Ele não conseguiu respondê-la. – Em nossa vila, você é tido como um herói... Eu me orgulhava disso, de ser a filha de um herói. Mas aqui... Você nem mesmo se preocupa com o homem que pôs atrás das grades! – Karin tornou a se encolher, e Nagato pôde ouvi-la desmanchar-se em lágrimas. – Por favor, papai... Volte a ser o que era...
Nagato apertou os punhos. Quis praguejar, gritar com ela! Mas tudo o que fez foi aproximar-se, e envolvê-la num abraço gentil e amoroso. Foi como se seu coração sangrasse, quando a sentiu retribuir aquele abraço.
– Por favor, papai... – Ela implorava incansavelmente. – Por favor...
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Naruto estava sentado à mesa antiga de seu pai, assinando a papelada burocrática consideravelmente atrasada enquanto bocejava, espreguiçava e suspirava.
O trabalho burocrático era tedioso e exaustivo, mas ele não tinha do que reclamar. A tensão das últimas semanas o fazia pensar que, em dias sombrios como aqueles, a burocracia era o dever mais agradável de um rei. Pelo menos ali, sozinho no silêncio, ele podia pensar com tranquilidade.
Há duas semanas, Naruto havia decidido ser sincero e direto com Nagato; havia decidido ser honesto, como o velho Naruto... Mas falar que o faria era muito mais fácil do que fazer de fato.
Ele simplesmente não tinha a mínima ideia de como se abordar o parente. Simplesmente não sabia o que dizer!
Decididamente, não queria ter aquele homem dentro da Torre. Não gostava da ideia de tê-lo perto de sua esposa. Mas como propor a um homem que claramente deseja o reino a deixar o reino?
Afastou os devaneios quando ouviu o tique da maçaneta soar; ele ergueu os olhos até Sasuke. – Itachi quer vê-lo. – O Uchiha anunciou.
– Entrem os dois. – O rei instruiu, e assim foi feito.
O conselheiro acomodou-se a uma cadeira, mas Sasuke se contentou em ficar em pé, recostado à parede com os braços cruzados. Naruto estranhou a postura visivelmente tensa do amigo, mas decidiu ignorar o sentimento, e voltou sua atenção ao irmão Uchiha mais velho.
– Algum avanço com o prisioneiro? – Itachi estreitou os lábios, e aquela resposta foi suficiente.
Naruto suspirou; pressionou as têmporas e bufou. – Eu disse que essa coisa de tortura não ia dar em nada. – Murmurou a contragosto.
– Pelo menos assim Danzou não vai ter do que reclamar. – Sasuke interveio, mas Naruto revirou os olhos. Ele francamente pouco se importava com o que aquele velho que mal tinha coragem de dar as caras tinha a dizer!
– Não, ele ainda vai reclamar. – Itachi garantiu. – Mandei que Obito fosse levado de volta a carceragem antes que acabasse morrendo. – Naruto riu sem humor.
– É, matá-lo por tortura nos traria muita dor de cabeça... – Ele estreitou as sobrancelhas. Só por imaginar a reação de Mikoto Uchiha ao receber a notícia de que o irmão não havia agüentado as torturas que haviam sido presenciadas pelo próprio Itachi o fazia se sentir desumano.
– Acho que tortura psicológica traria mais resultados. – Sasuke observou. – Ele é um homem perturbado, afinal. Vocês viram como ele se exaltou durante a captura, só por mencionarmos os Nohara.
– E você teria estômago para pressioná-lo usando a mamãe? – Itachi o encarou de soslaio, e Sasuke percebeu que o irmão já havia pensado na possibilidade.
–... Não.
– Mais ninguém vai ser torturado aqui! – Naruto exclamou visivelmente incomodado. – Faça com que alguém trate das feridas do homem. – Instruiu. – E diga à duquesa que tem a minha autorização para vê-lo. – Os dois pares de olhos negros o encararam como se tivesse enlouquecido. – Sua mãe está tentando ter contato com o irmão desde que foi preso...
– Não viu até agora, não tem porque ver. – Naruto estreitou os lábios.
– Sasuke, aquele homem vai morrer. – Ele pontuou, porque aquela era a verdade absoluta: O conselho julgaria Obito Uchiha como culpado, se não pelos assassinatos que ele jurava não ter cometido, pela chacina que confessara.
Ele comprimiu os lábios. – Eu vou matá-lo. – Murmurou entre dentes. – O mínimo que posso fazer, não só por ele, como por pela duquesa... É permitir que receba um pouco de amor, antes de partir. – Nenhum dos dois tentou contradizê-lo.
O rei passou as mãos pelo rosto, exasperado. – Quando vamos discutir a sentença? – Ele questionou com um tom cansado.
– Como vossa majestade ordenou a averiguação...
– Inútil. – Sasuke murmurou.
– Na residência Nohara e na ala chacinada. – Itachi prosseguiu, ignorando o irmão. – Só podemos começar a discussão quando as investigações forem encerradas.
– E quando serão?
– Pode ser entre três dias ou quatro semanas. – O conselheiro deu os ombros. – Não podemos saber. O estado da residência Nohara é deplorável. – O loiro anuiu lentamente, compreendendo.
Ele inspirou profundamente, e olhou para o pequeno bilhete que havia escrito momentos antes de os Uchiha adentrarem; dobrou-o, selou-o e esticou na direção de Sasuke. – Entregue isso a Nagato.
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Suzuki Hyuuga tinha quinze anos quando se casou. Hiashi, seu primo, era o filho mais velho da família Hyuuga, e herdeiro da maior parte de sua fortuna. Ele havia sido, e ainda era muito bonito, charmoso e extremamente poderoso, mas a mulher jamais chegou a se apaixonar.
Haviam se casado às pressas e por conveniência após a morte de Yume, irmã de Suzuki, primeira esposa de Hiashi e mãe de Hinata, na época um bebê.
Mas mesmo naquelas circunstâncias, Suzuki nunca havia sido uma mulher amargurada. Era feliz, sorridente e sempre uma boa esposa. Havia passado os últimos dezesseis anos de sua vida dedicando-se para ser o melhor possível; era uma esposa submissa e uma mãe presente e carinhosa. Ela via Hinata como sua própria filha, embora soubesse que não passava de uma decepção à agora rainha.
Suzuki estava ciente de que aquela decepção dava-se à influência da duquesa Uchiha, presença constante na vida da menina Hyuuga. Sabia que era rotineiramente comparada à idealista e corajosa Mikoto, mas nunca havia se preocupado realmente com isso. Afinal, as histórias de Mikoto e Suzuki eram absurdamente diferentes.
A primeira havia se casado por amor, enquanto a outra se casara por conveniência, simplesmente para cuidar da filha da irmã; Mikoto havia tido uma educação de rainha, enquanto Suzuki fora treinada para ser uma esposa honrada, calma, obediente, com bons modos e dedicação.
No fundo, até ficava satisfeita com o fato de a filha ter alguém importante para se inspirar, uma vez que a própria Suzuki nunca havia admirado a si própria.
Ela estava ciente da atual situação na Torre, graças à amizade de longa data com algumas servas que haviam sido levadas com Hinata. Estava ciente do infeliz afastamento entre a rainha e a duquesa, e lamentava-se.
Estava a caminho da costureira, em sua carruagem, com esses pensamentos quando se deparou com a imagem de Mikoto parada no meio da estrada, olhando para o horizonte com uma expressão perturbada e preocupante.
Ela ordenou ao condutor que parasse imediatamente, desceu do transporte e seguiu ao encontro da Uchiha. – Duquesa? – Ela chamou, mas Mikoto não parecia ter ouvido. – Duquesa...? – Tentou de novo, mas não houve nenhuma resposta; Suzuki aproximou-se mais, tocou o pulso da mulher e tornou a chamá-la: — Duquesa? – Enfim tirando-a de seus devaneios.
Mikoto teve um sobressalto diante do toque; afastou-se num pulo do corpo da outra e levou um segundo para perceber o quão estúpida devia parecer sua atitude. – Por acaso sente-se mal? – Suzuki questionou-a com visível preocupação. – Eu estou de carruagem, se quiser uma carona para casa...
– Eu... Eu estou bem. – Mikoto forçou um sorriso. – Acabei de dispensar a carruagem, obrigada. Pensei em caminhar, e esfriar a cabeça...
As sobrancelhas de Suzuki se estreitaram em sincera preocupação. – Eu posso acompanhá-la... Realmente duquesa, está pálida. Não deve andar sozinha...
Por um minuto, Mikoto não soube o que falar. Ela continuou olhando para o rosto da senhora Hyuuga, inicialmente confusa por tanta inquietação, mas então sorriu, agradecida por ela. – É muita consideração, senhora, mas eu realmente estou-... – Mikoto calou-se quando um sorriso doce estampou as faces da mulher; surpresa com quão parecidas eram as feições de Suzuki e Hinata.
– Nós devíamos tomar um chá. – A Hyuuga sugeriu, de um jeito bastante meigo. Tão gentil que Mikoto não soube como recusar.
A senhora Hyuuga dispensou a carruagem, instruindo o condutor a encontrá-la em frente à costureira em duas horas e então, puxando amigavelmente o braço da duquesa, guiou-a até um simplório e aconchegante estabelecimento.
Ela mesma fez os pedidos, e ela mesma iniciou a conversa. – Então, como vai a família? – Preferiu começar. – Hiashi e eu fomos convidados para um jantar na casa de Sasuke, e... – Mas Mikoto não parecia exatamente atenta a qualquer coisa que a mãe de Hinata dissesse.
Ela parecia estar em transe.
–... Sinto muito com o que aconteceu com Hinata. – A Hyuuga murmurou de repente, finalmente tomando a atenção da duquesa, que erguera o olhar. Ela sorriu tristonha à mulher e baixou os olhos claros até o bolo enfeitado sobre a porcelana. – Eu estou orgulhosa por ela ser forte, como rainha... Mas lamento que a decisão a tenha prejudicado... – Com o talher, Suzuki serviu-se; rezava para que o doce em sua boca a fizesse tomar coragem para ser sincera. Quando tornou a olhar para a duquesa, ela parecia estupefata. – Espero que compreenda, Mikoto, que meus filhos só estão tentando fazer o melhor... Hinata também está sofrendo por não poder ajudá-la. Portanto...
– Eu... – A Uchiha a interrompeu, mas não sabia o que dizer.
Angustiada, olhou para o próprio pedaço de bolo – que dificilmente comeria – e suspirou. – Eu sei disso. – Murmurou incerta, erguendo os olhos negros. – Sei que Hinata está se esforçando... Sei que está fazendo o certo. Mas é o meu irmão que está lá, Suzuki. Você perdeu a sua irmã, então...
Houve um longo e desconfortável minuto de silêncio, e Mikoto percebeu que definitivamente não queria estar ali. Dentre todas as mulheres com quem seu status obrigava a se relacionar, considerava Suzuki Hyuuga a mais complicada.
Ela era doce, gentil e bondosa. Talvez a melhor pessoa que Mikoto conhecera na vida. Suzuki tinha o dom de vencer discussões pelo simples fato de que realmente se importava.
Ela não era como Mikoto; ela não precisava de laços com uma pessoa para se importar com ela; independente de gostar ou não de alguém, Suzuki simplesmente se importava com os problemas alheios.
– Hinata sempre a viu como alguém para se espelhar, duquesa. – A mulher começou de repente, surpreendendo a outra. – Ela sempre a admirou... – Sorriu à Uchiha. – Por sua personalidade, por suas experiências... Pelo seu jeito de agir. Eu tenho certeza de que ela a vê como uma mãe.
Mikoto sentiu o estômago revirar de desconforto. Não devia existir nada mais desconfortável do que falar sobre sua relação com Hinata com Suzuki.
– Eu tenho certeza de que ela também a admira... – Uma risadinha soou dos lábios finos da Hyuuga, e Mikoto imediatamente se calou.
– Não, ela não me admira. – Tornou a comer um pedaço de bolo. – Me respeita, mas não me admira... – Fitou-a. – Hinata acha que sou tola, preconceituosa. Acha que eu odeio os pobres, só porque são pobres... – Suspirou longamente, e tornou a olhar para o prato. – Se eu a dissesse que Yumi foi assassinada por esses mortos de fome, ela poderia me entender... Mas ainda não me admiraria.
–... Suzuki...
– O que eu quero dizer, duquesa, é que é uma mulher admirável. – Sorriu. – Eu a conheço a tempo o suficiente para saber que, mesmo que eu tente, não irei fazê-la mudar de ideia... E nem quero isso... – Adicionou com hesitação. – É o seu irmão, como você mesma disse. – Ergueu os olhos mais uma vez. – É o seu irmão. E se você quer se esforçar para salvá-lo, deve fazer isso... – Lentamente, a duquesa assentiu. – Mas... – A senhora Hyuuga prosseguiu com cautela. – Independente do resultado, você se esforçou. Eu tenho certeza de que ele sabe disso também. – A duquesa sentiu seus olhos queimarem.
Piscou freneticamente, na inútil tentativa de conter as lágrimas, e desviou-se do olhar gentil da senhora Hyuuga.
– Você é uma mulher corajosa e admirável, duquesa... Seu pai, seu irmão, seu marido e seus filhos se orgulham de você. – Mikoto riu.
– Não, eu só sou uma velha intrometida. – Ela limpou as lágrimas. – Se Hinata soubesse do quanto você sacrificou por ela... Se ela soubesse... – Suzuki sorriu.
– Eu não sacrifiquei nada... Só deixei um amor que não me notava, por outro que precisava de mim, um amor ainda maior. – Mikoto sorriu; puxou as mãos da Hyuuga e apertou-as amigavelmente.
– Sim... Hiashi a ama de todo o coração, Suzuki. – Ela garantiu, e Suzuki enrubesceu.
“No entanto, eu estava falando de Hinata”, foi o seu pensamento, mas não se sentiu capaz de dizê-lo. Aquilo seria como uma rejeição ao marido! E, embora não amasse Hiashi como deveria, ainda o amava. Era o pai de suas filhas, o companheiro de sua vida... O único homem que chegou a amá-la.
Ela tentou voltar a focar-se na conversa; fitou as mãos da duquesa ansiosamente. – Mikoto... – Ela murmurou com hesitação. – Eu estou razoavelmente a par do caso... Sei que, apesar dos seus esforços... – Apertou os dedos dela. – Por favor... – Ela pediu num tom de voz implorativo. – Independente do resultado disso tudo, não culpe aqueles dois... – Ergueu o olhar mais uma vez. – Afinal... Eles são o casal real. E independente de suas amizades... Têm que ser justos. – Mikoto não lhe disse nada, mas ela nem esperava que dissesse. – Hinata a vê como uma mãe... – Ela franziu os lábios. – Talvez, até mais do que isso. – Os olhos negros tornaram-se tristonhos. – Sei que também a ama, e por isso, eu imploro... – Suzuki suspirou longamente, porque simplesmente não sabia como concluir aquilo.
Ela não queria que Hinata perdesse Mikoto, porque, afinal de contas...
– A minha filha precisa de você.
~
Kasumi estava acostumada com os sumiços de Itachi. Estava ciente de que, graças ao peso de seu cargo e à confiança que o Rei lhe depositava, dificilmente poderia se dedicar mais que algumas horas de seu dia à família.
Ela sabia que o marido era responsável e, consequentemente, extremamente ocupado, mas era a primeira vez que ele se mostrava tão ausente enquanto Kasumi estava doente, frágil e acamada.
Justiça fosse feita: ela já se sentia muito melhor. Considerava uma grande tolice continuar deitada o dia inteiro, como uma moribunda, quando tudo o que queria era brincar com a filha no jardim. Mas, pelo amor de Deus, ela estava grávida! Não podia ter um pouquinho de atenção?! Ele estava mesmo tão ocupado a ponto de não passar sequer uma noite ao lado dela, nos muitos dias em que estava na Torre?
Mas a negligência de Itachi não era a pior parte de sua estadia no palácio do Fogo. Absolutamente! A pior parte, sem sombra de dúvidas, era o incômodo fato de que ele simplesmente a estava aprisionando!
No começo, pensara ser tolice. Imaginou-se uma idiota paranóica, e havia passado dias dizendo para si mesma que aquela impressão era fruto de sua imaginação. Itachi estava puramente preocupado – ele era um homem preocupado, oras! – e só queria que a esposa ficasse trancada no quarto por zelo.
Mas então os dias se passaram. Dias, dias e mais dias, e ela ainda não podia sair daquele maldito quarto nem para almoçar com a sogra! Sakura a havia parado de visitar, o que significava que, ao menos fisicamente, ela já estava melhor.
No entanto...
– A senhora está proibida de sair do quarto, milady. – Era tudo o que as servas lhe diziam, quando se mostrava disposta a sair.
– Isso é uma grande estupidez. – Kasumi sempre argumentava. – Já me sinto melhor. Não tenho mais febre, e estou certa de que minha cunhada concordaria que o melhor para eu e o bebê, nesse momento, é tomar um pouco de ar livre.
– São ordens do conselheiro. – A serva lhe dizia, e era aí que a conversa se encerrava.
Kasumi tinha a sensação de que algo muito sério estava acontecendo na Torre naquele momento, mas não conseguia pensar em algum motivo que faria Itachi trancafiá-la em seus aposentos como uma condenada.
Talvez, chegou a cogitar, ele simplesmente estivesse com ciúmes. Talvez simplesmente não quisesse que ela tornasse a se aproximar do mercenário... Mas a jovem esposa não conseguiu pensar naquilo como uma verdade absoluta.
De fato, Itachi podia ser considerado ciumento e exageradamente protetor, mas nunca havia se mostrado possessivo. Se fosse para deixá-la longe daquele homem, não precisaria prendê-la, simplesmente a mandaria de volta à mansão Uchiha, como já havia feito antes.
Kasumi já havia percebido que não estava na Torre simplesmente porque o marido queria tê-la por perto; sabia que havia algo ali... E, mesmo que não soubesse o quê, estava ciente de que faria mal à relação do casal.
Ela bufou, e balançou a cabeça para afastar os pensamentos.
Não! Nada iria piorar sua relação com Itachi.
Ela olhou para a barriga saliente, e alisou-a. – Desculpe, querido... A mamãe está muito mal humorada ultimamente... – Suspirou. – Logo você vai estar aqui fora, e não vai precisar se preocupar com nada disso.
Sentiu-o remexer-se dentro dela, e sorriu por isso. – Quando você chegar, eu e o papai vamos ficar bem... – Murmurou, mais para si mesma do que para o bebê, e então se levantou e puxou o livro da escrivaninha, decidida a não pensar mais naquilo.
Sentia uma imensa vontade de chorar – culpa dos hormônios, ela tinha certeza – apenas por se lembrar da distância que havia se formado entre ela e o marido. Kasumi não gostava de se sentir sozinha; talvez, se ele aparecesse, nem se sentisse aprisionada...
Suspirou longamente. Precisava de ar.
Seguiu até a janela, e abriu-a, tão desajeitada que acabou por derrubar livro que decidira ler.
O exemplar de “O Conto de um Shinobi Corajoso”, seu livro favorito desde antes de aprender a ler, desabou janela abaixo e caiu justamente sobre um pobre soldado que fazia a rotineira ronda. Ela pôde ouvir a exclamação dolorosa do pobre homem.
– D- Desculpe! – Exclamou alto para que ele pudesse ouvi-la.
O rapaz, que devia ser apenas poucos anos mais velho que ela própria, ergueu o olhar para o segundo andar, e enrubesceu ao reconhecer a esposa do conselheiro Uchiha. – Você se machucou? – Ela o questionou com a voz verdadeiramente preocupada.
– N- Não! – Ele gritou em resposta; pegou o livro do chão e surpreendeu-se ao ler o título. – Isso pertence à milady? – Ele ergueu o exemplar, e viu-a anuir. – O levarei em um segundo! – O rapaz exclamou, e em instantes, Kasumi não conseguia mais vê-lo.
Minutos depois, ela pôde ouvir sua serva discutindo com o rapaz. – A futura duquesa está proibida de ter visitas. – Ela avisou ao soldado, e Kasumi sentiu o coração palpitar de fúria. Desde quando era proibida a receber visitas?!
Abriu a porta imediatamente, contendo sua irritação, e deu um sorriso frio à criada. – Ora! Obrigada por recebê-lo, Miho. Derrubei meu livro acidentalmente, e este rapaz gentilmente o trouxe... Eu fico grata, senhor... – Ela olhou para o rapaz como se esperasse que ele se apresentasse.
– Urushi. – Se apressou em dizer. – Urushi Yakushi.
Kasumi levou um segundo para absorver aquele nome.
– Yakushi? – Ela repetiu, chocada. O soldado anuiu, reverenciou-a com educação, mas tudo o que Kasumi pôde fazer foi rir. O soldado e a serva se entreolharam, confusos e constrangidos, e por perceber, a Uchiha se apressou em explicar.
Ela pigarreou. – Eu sou Kasumi! – Exclamou sorridente, crente de que aquilo faria sentido à Urushi.
– Eu sei, madame... – Ele baixou a fronte. – Kasumi Uchiha, a esposa do conselheiro. – Kasumi estreitou os lábios e cruzou os braços.
Aproximou-se e, apertando a bochecha esquerda, obrigou-o a erguer o rosto.
– Eu não posso acreditar que se esqueceu de mim. – Ela murmurou, muito contrariada. – Nós passamos meses juntos! – Diante do olhar escandalizado da serva, ela completou: — Quando éramos crianças, lembra-se? Na pousada de sua mãe.
O brilho de compreensão inundou os olhos castanhos do rapaz, que sorriu abertamente. Finalmente ele se lembrava de onde conhecia aquele rosto!
– A Pequena Encrenqueira! – Ele a abraçou como se tivesse acabado de encontrar uma irmã perdida, e foi retribuído com igual afeto.
A pobre Miho não soube o que fazer; constrangida, ela tentou desviar o olhar da cena, porque realmente não queria ter que descrever aquilo ao seu senhor.
– Deus! Eu fiquei tão preocupado! – Apertou-a. – Estava tão confuso...! Depois da prisão de seu pai, fiquei apavorado, pensando que algo a tinha acontecido...
Kasumi estreitou as sobrancelhas; esperou que ele afrouxasse o abraço para afastar-se e encarou-o com confusão. – Prisão... Do meu pai? – Naquele momento, a porta se abriu.
– Conselheiro! – Miho exclamou alto, como se alertasse um casal de amantes sobre a chegada do marido; algo muito estúpido a se fazer, na opinião do casal Uchiha.
– Urushi? – Ele estreitou as sobrancelhas, verdadeiramente confuso. – Algum... Problema? – Ele olhou da esposa perturbada para o subordinado como se esperasse uma explicação.
– Oh! Absolutamente! – O mais jovem se apressou a soltar a Uchiha. – Só acabo de descobrir que eu e a senhora Uchiha somos conhecidos de longa data. – Ele sorriu, constrangido. – Éramos amigos de infância...
Itachi sabia disso. Sabia disso, mas não esperava que chegasse a vir à tona.
– Kasumi está doente. Não foi autorizada a receber visitas. – Sua voz soou mais fria do que deveria, e isso só fez com que o soldado se sentisse ainda mais constrangido.
– Perdoe-me, conselheiro. – O rapaz baixou a fronte. – A senhora Uchiha acidentalmente derrubou este livro. – Ele ergueu o exemplar. – Enquanto eu passava. Eu vim trazê-lo, e fui reconhecido...
– Tudo bem. – Itachi ergueu as mãos. – Basta. – Ele se aproximou, puxou o livro e sorriu amigavelmente ao mais jovem. – Obrigado por isso. Kasumi não gosta de ficar presa, então os livros são a única coisa que podem entretê-la... – Ele sorriu à esposa, mas Kasumi não conseguiu retribuí-lo.
Itachi soube imediatamente que aquele maldito imbecil havia soldado a língua.
~
Hinata olhou para o prato do marido e estreitou os olhos ao notar que Naruto, mais uma vez, não havia sequer tocado na comida.
Eles estavam sentados na sala de jantar e eram acompanhados por Hanabi, Kurenai, a princesa Tsunade e dois dos conselheiros. Itachi e Kasumi estavam atrasados, mas a preocupação com a falta de fome do marido fazia com que Hinata sequer se lembrasse da existência dos amigos de longa data.
Ela pousou a mão sobre a dele, abaixo da mesa, e fez com que os olhos azuis se erguessem até os seus. – Você precisa comer... – Ela murmurou. – Precisa se alimentar, para falar com aquele homem... – Sussurrou num tom em que apenas ele podia ouvir – o que não era muito difícil, já que aquela mesa era desnecessariamente grande para os poucos convidados.
Naruto lhe sorriu, um sorriso tristonho, e afagou as faces de porcelana da amada. – Eu vou ficar bem... – Garantiu. – É você quem deve se alimentar. Não suportaria vê-la doente de novo... Mais uma vez por minha causa...
Hinata também sorriu; alisou as costas das mãos do esposo e retribuiu seu beijo, sem se importar com as demais presenças.
Não que alguém se importasse com aquilo... Na realidade, nada poderia deixar Tsunade e Jiraya mais felizes, do que ver aqueles dois agirem feito um casal apaixonado.
– Tudo vai dar certo... – Hinata sussurrou entre os lábios do marido, que anuiu.
Ainda que não tivesse plena certeza.
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Nagato não precisou avisar ao rei, muito menos aos conselheiros, quando decidiu seguir até a carceragem.
Ele sequer precisou se identificar aos soldados que guardavam os portões: apenas seguiu em frente, em silêncio, e todos eles lhe abriram caminho. Mesmo Nagato não sabia se aquilo se dava ao respeito à Nagato, o príncipe da nação do Fogo, ou à Nagato, o líder da Akatsuki.
Conhecia a carceragem com a palma de sua mão; o próprio pai o havia apresentado àquele lugar, quando era jovem... Para que Nagato visse com seus próprios olhos que ser o Rei era muito mais do que levar uma vida tranquila com os impostos de seus seguidores, que ser um Rei era muito mais do que ordenar, e viver como bem se entendia.
Ele conhecia aquele lugar tão bem quanto um soldado deveria conhecer, então, uma vez que já estava ciente da exata localização da cela de Tobi, não foi difícil encontrá-lo.
O príncipe não se surpreendeu por vê-lo surrado e maltrapilho; surpreendeu-se por vê-lo sentado, com um olhar pensativo, frio e calculista.
Obito estava humanamente irreconhecível: tinha os olhos arroxeados e inchados, mesmo em seu lado deformado. Por todo o rosto pálido havia escoriações; seus lábios estavam rasgados e vermelhos de inflamação, mas ainda assim, ele ofereceu um sorriso divertido à Nagato quando o reconheceu. – O que é isso?... Esse olhar de pena? Não tenha pena de mim, Nagato. Já fiz coisas muito piores a homens muito melhores.
– Ainda assim, eu lamento. – O ruivo baixou a fronte. – Lamento que esteja aqui, nessa situação, Tobi...
– Não, não. Você só lamenta porque está sendo perturbado pela culpa. – Os olhos lilás se estreitaram. – Por favor, não sinta culpa. – O Uchiha cruzou os braços. – Eu já havia lhe dito, não? Matei os conselheiros por vingança, puramente. Vossa alteza – Pronunciou com ironia – Não foi nada além de uma ferramenta para trazer-me aqui. – Ele ergueu as mãos sugestivamente – não muito alto, Nagato percebeu. – Então não precisa se sentir mal pelo meu destino.
–... Eu não acreditei que ele fosse torturá-lo.
– Oh, eu também não. Os Uchiha devem tê-lo convencido... Mas você não se arriscou vindo até aqui só para dizer que lamenta que eu tenha sido torturado, estou certo? – Nagato não o respondeu. – Vamos, Nagato... Eu sou um homem disposto a morrer a qualquer hora, você não tem porque hesitar em me contar qualquer coisa.
– Eu decidi deixar a Torre. – O ruivo falou de repente, erguendo os olhos firmemente na direção dos orbes negros do Uchiha. – Decidi acreditar em Naruto como o Rei... Decidi que vou apoiá-lo.
Obito sorriu.
– O fato de eu estar atrás das grades, nessa cela terrivelmente úmida faz com que eu compreenda isso sem palavras, Nagato. – Aquilo calou ao príncipe. – Não estou surpreso. – Obito confessou. – Tenho observado você, sua filha... Karin realmente se apegou muito aos Uzumaki, não é? – Os punhos de Nagato se cerraram. – Assim como você se apegou ao rei. – O moreno suspirou longamente, e deu os ombros. – Bem, eu presumi que uma hora ou outra, isso aconteceria... Oh! Por favor, não me olhe assim! – Ele riu da angústia no rosto do Uzumaki. – Como já lhe disse, sou um homem pronto para morrer. – Deu os ombros. – Quanto mais rápido acontecer, mais fácil será a vida de todos os que cruzaram meu caminho.
–... Obito, eu realmente...
– Não lamente, Nagato. – Sua voz soou tão fria que Nagato surpreendeu-se. – Não lamente... – Obito tornou a pedir, agora debilmente. – Só reze para que tudo isso acabe logo... – Fitou ao príncipe. – Pois é exatamente isso o que eu vou fazer.
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