The Horror of Our Love

4 Burning angel wings to dust


Notas iniciais
Olá, pessoal! Mais um capítulo. Boa leitura!

Um mês se passou. A sacerdotisa Kikyou andava, serena e pensativa, ao longo de uma colheita de arroz. Nas primeiras horas da tarde, algumas aldeãs a haviam procurado naquele vilarejo onde ela resolvera pernoitar, para que ela auxiliasse uma parturiente a dar à luz.

A jovem sacerdotisa rememorava o trabalho de parto – rápido e bem-sucedido – e, apesar de não ser a primeira vez que presenciava o nascimento de uma criança, o evento a impressionara. Era um menininho pequenino, um pouco mirrado, mas com que prazer fora recebido pelas mãos de sua mãe... A mulher, bem pobre e com mais filhos, chorava e agradecia a Kami-sama por mais um descendente. O pai, um camponês mais velho, aguardava do lado de fora. Não dissera nada a não ser o nome que escolhera para seu filho. Pessoas quaisquer diriam que o homenzinho estava indiferente, mas Kikyou via além do exterior.

O camponês não poderia esconder o brilho no olhar ao ver a criança envolta em panos. Mais um membro para a família.

— Obrigado, miko-dono — disse o homem, com um sorriso pequeno e uma reverência. — A senhora foi um verdadeiro anjo para nós.

Ela apenas sorriu melancólica, repetindo a reverência e se afastando, após recusar o convite para pernoitar de novo ali. E, tão silenciosa quanto chegou, Kikyou se foi, em direção ao vilarejo onde havia nascido.

Anjo... Um anjo é uma criatura pura. Eu sou uma proscrita. Entreguei meu corpo diversas vezes para o demônio mais odioso do mundo. E... Não consigo sequer me arrepender, nem parar de querer repetir...!

De fato, Kikyou queria se arrepender — e, ao pensar em Inuyasha, ela ficava abatida. Queria muito se aproximar dele de novo, queria abrir os braços e envolvê-lo neles, agora que sabia que ele não a havia matado.

Entretanto...

Havia Naraku. Havia a garota Kagome. E havia ela mesma, perturbadíssima.

A moça andou devagar até chegar à floresta de Inuyasha. A floresta onde ela havia selado seu único e verdadeiro amor. Em suas lembranças, com riqueza de detalhes, era possível vislumbrar os olhos âmbares a encarando com amargura e decepção antes de se fecharem.

O coração de Kikyou doeu. Lembrou-se de uma discussão seriíssima que tivera com o hanyou aracnídeo, em outro castelo que ele possuía, já que o primeiro havia sido destruído. O ódio de Kikyou fora tanto que ela decepou a perna direita de Naraku com uma flechada assim que pôs os olhos sobre ele, que estava sentado no chão. Todavia, ele se recuperou em alguns minutos e, com um gesto de mão, dispensou Kagura, sua serva que manipulava os ventos e Kanna, outra youkai que ele havia gerado e que tinha a habilidade de capturar almas com seu espelho. Nenhuma das duas conseguia compreender o porquê de seu mestre ter encontros furtivos com aquela miko que poderia matá-lo, mas pergunta alguma fora feita. Afinal, Kagura não gostava dele e não queria se intrometer; Kanna, por não possuir alma, não entendia certas coisas e se resignava a obedecer Naraku em tudo.

Com os dois a sós, ele religando aos poucos a perna ao corpo e a encarando ostensivamente, a moça disse:

— O que há de tão sigiloso assim para que não me diga perante suas filhas, Naraku?

— Não são minhas filhas. São minhas extensões, minhas escravas. Youkais como eu não se dariam ao trabalho de gerar filhos.

— Não me enrole... Seu maldito...

— Huh — ele sorriu, irônico. — Quanta agressividade. Onde estão a doçura e a meiguice da sacerdotisa Kikyou? Oh... É mesmo, estão com Kagome, na alma dela, que na verdade é sua...

— Não ouse falar daquela garota para mim... Aaaah! — gritou ela, sendo surpreendida por tentáculos marrons que saíram das costas do hanyou, que continuava sentado. Os tentáculos apertaram fortemente o corpo da jovem, que se debateu, em vão. Agora ela era arrastada para perto de Naraku, que murmurou, com um brilho possessivo no olhar:

— Por que não estraçalho seu corpo agora mesmo? Aquele cachorro maldito tocou você...

— Do que está falando?!

— Eu vi — rosnou o moreno. — Ele tocou sua mão pouco antes de você vir para cá. Pegou sua mão com aquelas patas nojentas e ficou repetindo “Kikyou, Kikyou” como um retardado.

— Patas nojentas são as suas — retrucou a moça, olhando com nojo para os pelos dos tentáculos de aranha do seu inimigo.

Os tentáculos agora eram recolhidos e Kikyou era largada no chão sem muito cuidado. Naraku prosseguiu, enquanto movimentava sua perna recém-conectada:

— Enfim... Aquele imbecil deixou fedor de cachorro em sua mão, mas nos pensamentos dele tudo o que há é o fato de que a menina Kagome saltou para dentro do Poço após terem brigado por causa do príncipe dos youkais lobos.

A sacerdotisa se ergueu do chão, furiosa, e se punha de joelhos quando reparou melhor no hanyou. Ele estava bem nervoso, comprimia a mandíbula e piscava pouco. Puro ciúme.

— Não importa o que me diga, Naraku — replicou a moça. — Inuyasha me ama. E eu amo Inuyasha.

— Não — esbravejou o outro. — Ele não a ama. Ele está apenas se sentindo culpado, pois, se não fosse por ele, você possivelmente estaria viva de verdade agora, com seus sessenta e nove anos.

— Agora a culpa é dele?! Foi você quem desgraçou as nossas vidas, foi você... — Kikyou respirou fundo antes de concluir: — Foi você o único culpado!

— Não! Não fui o único, sua louca! Éramos centenas!

— Não me venha com gracinhas, seu monstro! Você, a ‘consciência Naraku’ já existia! Foi você!

— E daí?! Você estava tão encegueirada por aquele híbrido que, se não fosse a ‘consciência Naraku’, como você quer me chamar, seria outro youkai a despachá-la deste mundo! Você, sacerdotisa Kikyou, se entregou à morte ao permitir que um relacionamento lhe desvirtuasse de sua missão a ponto de enfraquecê-la.

— Que loucura é essa que você está dizendo?!

— Você também foi culpada por tudo aquilo!

A sacerdotisa, numa súbita falta de controle, começou a socar o peito de Naraku e a gritar:

— EU TE ODEIO! VOU DESTRUI-LO NEM QUE SEJA A ÚLTIMA COISA QUE EU FAÇA!

O hanyou se deixou ser atingido e não esboçou reação alguma, a não ser olhar fixamente para a jovem furiosa que o golpeava.

— EU TINHA SONHOS! EU ESTAVA PERTO DE CONSEGUIR MEU MAIOR OBJETIVO... SER UMA PESSOA COMUM! TER UM COMPANHEIRO, UMA FAMÍLIA, FILHOS... M-MAS VOCÊ APARECEU... DESTRUIU-ME SEM Q-QUE EU PUDESSE ME DEFENDER! IGNOROU T-TODO O BEM QUE LHE FIZ...

Naraku permaneceu olhando para Kikyou, que enfim desistia de batê-lo e explodia num pranto convulso. Aquilo doeu nele; não tinha, entretanto, como ele se justificar. Ele tramou meticulosamente a destruição do coração daquele casal, bem como a interrupção da vida de ambos.

Os dois agora permaneciam de pé, um diante do outro. Ela soluçava; a ferida emocional ainda crepitava em chamas dentro de si. Minutos desconfortáveis de silêncio se passaram, até que o hanyou sussurrasse:

— Eu matei você porque quis, sacerdotisa Kikyou. Porém, você passou esses cinquenta anos em paz, ao contrário de mim, que os vivi no inferno.

— ...

— Matando-a, o resto de alma que eu tinha morreu também. Sendo sincero, creio que o youkai tarântula que fui um dia jamais imaginava que matar a guardiã da Joia não seria uma vitória. Não houve prazer em te matar.

— P-por favor, Naraku — balbuciou a moça, arrasada. — Dê um t-tempo com essa falsidade. Não me ajuda em nada ouvir suas mentiras.

— Acha que sou falso?

Kikyou ergueu a cabeça; os olhos de Naraku estavam rasos de lágrimas.

— Sim, você é falso — objetou ela, olhando-o.

— Está certa. Sou falso... — ele estendeu a mão para a bochecha da moça. — Mas apenas com quem não me conhece a fundo para discernir minhas mentiras, Kikyou.

O toque sutil de Naraku levou a jovem a, irracionalmente, se sentir mais tranquila.

— Como assim? — indagou ela.

— Sou falso para o mundo, Kikyou. Minto e engano os outros. Mas não a você. Um olhar seu — e Naraku se arrepiou ao dizer isso — e eu, Naraku, sou totalmente desbaratado. Você sabe disso.

— Sim... Sei disso. Você nunca foi um mistério para mim.

— Então...

— Então o quê?

— Então não fique achando que você é a única que sofre.

— Seu maldito! Não compare minha dor à sua, se é que você de fato sente dor...

As mãos do hanyou se fecharam subitamente em volta dos ombros de Kikyou, que deu um pequeno salto devido ao susto.

— Kikyou — murmurou Naraku, consternado. — Entenda. Eu, mesmo sendo mau, também tenho minhas dores. Dores atrozes, dilacerantes. Também sinto falta... — fungou. — De afeto. De colo. Mas, como estou fadado a não ter nada disso, e como sou mau, gasto-me sendo realmente mau. Você sabe... Matando por matar. Eu sinto uma grande necessidade de matar, Kikyou.

— Por que não tenta ser diferente, então?!

— Não há como mudar minha natureza homicida. Não sei ser como os outros e simplesmente me arrepender ou sentir remorso. Nasci para ser um assassino.

As mãos longas do hanyou desceram gentilmente pelos braços da sacerdotisa, segurando-lhe as mãos.

— É por isso que eu tenho essa necessidade imensa de matar você. Você me deixa confuso, me perturba. Você desperta em mim uma culpa enorme, uma agonia profunda por ser quem sou. E, ao mesmo tempo, fico pensando na dor que sentiria se a matasse de novo. Não posso matar a mulher que amo. Não deveria sequer ter esse tipo de sentimento dentro de mim... Esse amor...

Por fim, ele baixou a cabeça e se afastou dela.

— Você me estraga, Kikyou. E as coisas ficaram bem piores depois que fizemos amor por dois dias consecutivos, há vinte e seis dias atrás. Você me deixou tão irracional que até me levou a pensar em... — corou totalmente. — Casamento...

— Casamento?! Comigo?!

Naraku deu mais alguns passos em direção à porta. Riu, sem humor.

— Hu, hu, hu, hu... Patético. Eu, Naraku, pensando em você, minha pior inimiga, como sendo minha esposa...

— Pensar nisso foi tão ruim assim? — indagou a moça, tremendo, encostada à parede onde a perna do hakama rasgado fora deixada. Subitamente, o moreno socou a parede, destruindo-a. Seus olhos agora tinham um brilho demoníaco e ele, ainda de costas para a sacerdotisa, bradou:

— É óbvio que foi ruim, porra, foi um pesadelo! Você só tem olhos para aquele cão idiota! Você só pensa nele! Sua alma reencarnou naquela garota maluca somente por causa dele! Você só tem coração e desejos para o maldito Inuyasha! Como acha que me sinto?!

— Naraku...

— A única coisa que me faz sofrer, que me dói, que me leva a chorar como um humano vil e miserável é o amor que sinto por você, maldita Kikyou! Quando penso que seu coração nunca será meu, eu... Tenho vontade de morrer, de matar, de explodir este país, de foder com a porra toda!

Kikyou se aproximava a pequenos passos do demônio, enquanto ouvia suas perturbadoras confissões. O mais difícil de tudo, para a jovem, era sentir a verdade de cada uma delas e perceber a dor com que Naraku as expunha; ele não era dado a palavras chulas. Estava profundamente revoltado naquele instante.

— Vamos, Kikyou — prosseguiu ele, exaltado. — Está chegando mais perto para poder zombar melhor de mim, não é, desgraçada? Vamos, ria! Tripudie! Diga que entregou seu corpo para mim enquanto seus pensamentos giravam em torno do híbrido! Gozou comigo desejando ele! Vamos, o que está esperando?

— Isso não é verdade — rebateu ela, o coração a saltar pela boca. Também tinha uma confissão perigosa a fazer. — Naraku, não é verdade.

— O que não é verdade?

Era humilhante para ela dizer aquilo, mas não poderia voltar atrás. Lágrimas desceram por seu rosto pálido; era possível ouvir o hanyou fungando ainda. Pisando devagar pelos destroços da parede, a jovem se postou diante de Naraku, cujos olhos e nariz estavam avermelhados.

— Quando estivemos juntos... Eu não estava pensando nele... — e Kikyou fechou os olhos com força ao dizer o restante de sua confissão: — Meu desejo... Era todo por você. Nunca havia sentido isso antes por alguém.

— Está blefando...

— Não estou. Por que está virando o rosto?

— Não quero olhar para você — replicou Naraku, virando a face para o outro lado, vermelho e irado consigo mesmo.

Ele sabia que a simples proximidade física com a sacerdotisa o deixava extremamente sensível e libidinoso; ao ouvir a declaração de Kikyou, seu membro endureceu de imediato sob a calça rasgada.

— Quer, sim.

— Não quero.

— Você vai me olhar, maldito — revidou a moça, irritada e já sentindo o corpo arder por ele. Tomando o rosto do hanyou entre suas mãos, ela afirmou: — Olhe para mim!

— Pare de me tocar, maldita! Pare de me provocar! Solte-me antes que eu rasgue suas malditas roupas e...

— Não vou soltá-lo!

Enfim Naraku parou de resistir e olhou para a bela moça rubra à sua frente. Ela mordia de leve os lábios e o admirava com seus olhos castanhos brilhantes. O olhar de ambos era como que magnético, de forma que não tiveram forças para desviar-se um do outro.

— Você é tão odioso, tão detestável... Tão perverso... Eu não entendo por que o desejo tanto. Meus raros sonhos estão repletos de nós dois juntos, seu maldito. Você só pode ter me enfeitiçado.

— Kikyou...

— Vamos, poderoso Naraku. Disse que iria rasgar minhas roupas e o que mais?

Naraku rilhava os dentes, envolvido num misto de tesão, insegurança e raiva.

— Vou devorá-la por completo, sacerdotisa maldita. Vou chupá-la até que goze na minha boca e fodê-la até que você esqueça o próprio nome de tanto prazer.

A jovem se arrepiou com a assertiva do hanyou.

— Ohh... Por que não o faz?

— Você está louca por isso, não está? Tire a roupa e eu o farei agora mesmo, quantas vezes você quiser.

— Não...

A mão de Kikyou foi até a perna despida de Naraku e afagou sua virilha, encontrando os testículos em seguida e os afagando. Logo os dedos da moça subiam pela extensão do falo inchado. O hanyou arfou com o toque delicioso da moça em seu sexo.

— Quero que rasgue minhas roupas — disparou ela, surpreendendo-o. — Por favor... Destrua minhas roupas.

— O quê?! Tem certeza?!

— T-tenho — respondeu ela, masturbando-o com suavidade. Naraku permaneceu inerte por alguns instantes, desfrutando das carícias da sacerdotisa, até que a afastou gentilmente de si e levou as mãos à túnica da moça. Passando a acariciar o pescoço, colo e seios de Kikyou, o moreno se pôs a beijá-la com fome e, ao notá-la bem envolvida consigo, dilacerou brutalmente a túnica branca. Entre as pernas dela, o genital molhado latejou violentamente com o gesto de Naraku, cujos olhares famintos devoraram os sensíveis mamilos rosados.

A sensação de ser desejada loucamente por Naraku levou o tesão da sacerdotisa às alturas. Sem se conter, ela passou a estimular os próprios seios para o hanyou, que chegava a grunhir.

— Impossível você se tornar uma mulher comum, Kikyou... Você é absolutamente deliciosa demais para ser comum!

E, a enlaçando com seus braços, o hanyou correu com ela para um cômodo menor no segundo andar do castelo, onde entrava bastante luz solar. Mal tendo fechado a porta de correr, Naraku voltou a beijar Kikyou cheio de desejo, ouvindo com satisfação os gemidos incontidos dela em sua boca. Aos poucos, ele se abaixou para estimular-lhe as mamas eriçadas com seus lábios e, de repente, interrompeu-se e disse, com a voz enrouquecida e grave que enlouquecia a jovem:

— Kikyou... Veja só o que você faz comigo... Você me deixa louco como um animal...

Ofegante, a moça olhou para baixo. Num gesto tão brusco quanto o anterior, o hanyou rasgou a calça vermelha, sem deixar de encarar a sacerdotisa, já bastante enrubescida e muito excitada agora. Na face de seu inimigo, a expressão safada e predatória que a deixava de pernas bambas. O jeito violento com que ele destruíra suas vestes sacerdotais só comprovavam o quanto o desejo de ambos era visceral e primitivo.

No canto oposto do quarto onde estavam, havia um futon dobrado. Kikyou disse, languidamente:

— Posso ir arrumar o nosso leito, enquanto você se despe?

— Ah... Pode, é claro... Fique à vontade.

Com um pequeno sorriso oculto, a moça se dirigiu até lá, enquanto notava divertida que Naraku, como das outras vezes, se atrapalhava para despir-se. Tendo desdobrado o futon e soltado seus longos cabelos, a moça se sentou, já menos envergonhada do que das outras vezes e achando graça no desespero do homem, que não estava conseguindo desamarrar o hakama. A luz invadia todos os cantos do cômodo; Kikyou mordeu o lábio na expectativa de ver Naraku se aproximando dela. Então, uma ideia estranha lhe passou pela cabeça enquanto o hakama finalmente descia pelas longas coxas do hanyou.

Naraku, inclinado para tirar a pesada vestimenta, não percebeu uma movimentação diferente no futon. Qual não foi o seu sobressalto ao erguer os olhos e avistar a sua amada sacerdotisa, com as coxas grossas bem separadas, se tocando intimamente com os dedos e olhando fixamente para ele. O hanyou chegou a estremecer.

— Ohh... K-Kikyou, o que está fazendo?!

— Estou me dando prazer enquanto você não vem... Ahhh... Saudade de você aqui dentro...!

Afoito e com os olhos saltados, Naraku se dirigiu apressadamente à moça, gemendo com ela e se sentindo crepitar por dentro ao vê-la seduzindo-o daquela maneira. Por sua vez, Kikyou não conseguia entender de onde tinha arrancado coragem para fazer tamanha indecência, mas sua libido não lhe permitia ter grandes preocupações morais naquele instante.

Entretanto, a cinco passos de distância, Naraku foi fortemente repelido por algo invisível a olhos humanos. Caindo com estrépito, o hanyou olhou furioso e incrédulo para Kikyou, que ria dele. Havia erguido uma barreira em seu redor, nociva para demônios.

— O que significa isso?! — protestou o moreno. A jovem abrira um pouco mais as pernas e deslizou um dedo para dentro do seu canal estreito. Ver aquilo enlouqueceu Naraku, que se levantou de novo e começou a bater na barreira com os tentáculos que emergiram de sua espinha dorsal.

Hanyou presunçoso, pensou que seria tão fácil assim? E recolha essas patas de aranha, você fica feio com elas.

Grrr! Maldita! Não brinque comigo! Senão...

— Oh, ohh... — ela agora batia devagar os dedos sobre o clitóris e gemia alto, sem pudor, ao ver o rosto transtornado do hanyou, cujo pênis inchado emanava líquido incessantemente, que descia por sua extensão e alcançava já a coxa. — Senão o que, Naraku?

— HMMM, Kikyou...! Maldita miko safada! Desfaça logo essa porra de barreira para que eu enterre isso aqui por inteiro dentro de você!

— E se eu quiser me divertir sozinha primeiro...? Olhe... — a sacerdotisa alternava os toques pela genitália e se retorcia de tesão, principalmente ao notar o quanto aquilo levava seu parceiro à loucura. — Isso é tão... Tão gostoso... Você nem consegue piscar...

— Vai me pagar...

— Vai me matar, por acaso?

— Sim... Vou meter gostoso nesse buraquinho para você gozar com vontade... Vou te matar de prazer.

A jovem revirou os olhos, atingindo rapidamente o clímax, enquanto desfazia de uma vez a barreira e surpreendia o demônio, que desavisado caiu aos seus pés. Naraku estava em vias de ter uma síncope: o rosto suado de sua querida Kikyou estava contraído, numa expressão genuína de satisfação carnal, enquanto seus dedos ainda tocavam de leve a área do clitóris. Era possível ver os discretos espasmos da genitália encharcada de fluidos íntimos.

Em segundos, o moreno se postou entre as pernas da jovem, ensandecido de desejo. Kikyou balbuciou, desfeita sobre o leito:

— S-sem esses tentáculos. Não p-precisamos deles.

— Tudo bem, então... Sem tentáculos — resmungou Naraku, impaciente, recolhendo suas patas. Notou que a sacerdotisa estendia as pernas e rodeava sua cintura com elas, aparentando um pouco de pressa. — Inferno... Você se transforma totalmente quando quer ser tomada...

— Isso é... É ruim?

— Isso... É... Divino! — e o hanyou entrou totalmente no canal da moça, levando-a a gritar de deleite, estocando-a a cada palavra dita. Apesar da brusquidão, a dor foi ínfima e quase imperceptível para Kikyou. — É... Perfeito! Minha deusa!

Naraku agarrou um dos seios da jovem e investiu com vigor contra ela, puxando o falo dolorosamente rígido quase que completamente para fora e o arremetendo em seguida para o interior do canal apertado e escorregadio. Kikyou o envolvia com suas pernas, gemendo alto, olhos fechados, pedindo mais prazer ao hanyou. Não tardou para que ela arqueasse as costas, gozando mais uma vez e provocando no trespassado Naraku uma de suas mais ruidosas gargalhadas.

Ele ria de felicidade. Era como um belo sonho, onde ele recebia o privilégio de se refestelar com a tão amada Kikyou. Mesmo sendo naturalmente egoísta, Naraku não conseguia pensar em si mesmo quando estava com ela; todos os seus sentidos convergiam para satisfazê-la e, com isso, ele próprio ia às alturas.

A moça, quase desfalecida, o admirava em meio à letargia do orgasmo. Olhava o quanto o rosto do hanyou ficava diferente naqueles momentos proibidos. Tão mais leve, tão mais bonito, afável até. Kikyou se perguntava se haveria alguma outra ocasião onde Naraku não pensasse em ser mau.

Ele quer ser comum também... Exatamente como eu. Mas é fraco demais para buscar isso... E é exatamente por isso que ele é perigoso: é uma criatura magoada, revoltada e fraca”, intuiu ela, notando com ternura ele fechar os olhos, ainda a penetrando fortemente, e sacudir um pouco a cabeça, incomodado com a cabeleira solta que ficara agarrada à sua pele suada. Então o membro do hanyou palpitou, latejou e expeliu sêmen dentro do canal vaginal, ao mesmo tempo em que Naraku erguia o rosto para o alto e emitia um brado emocionado e agudo, sempre penetrando a jovem com entusiasmo.

— Aaahh... Que sonho... — ofegou ele, em seguida, enquanto Kikyou o enlaçava e enchia seu rosto úmido de beijos. — Não sei o que dizer...

— Não precisa dizer nada... — sussurrou a sacerdotisa, sentindo-se à vontade debaixo do corpo esguio de um ainda arrebatado Naraku. — Você me fez tão... Tão bem...

— Te dei prazer, minha tennyo?

— Ainda tem dúvida...? Foi tudo tão perfeito...

— Pois saiba que, sempre que você desejar ser saciada... Estarei aqui para te proporcionar o gozo que você merece... Não que eu seja um amante tão experiente, claro.

— Está louco? Você é fascinante...

Os beijos recomeçaram, lentos e meigos. O casal mergulhou naquela atmosfera doce do pós-sexo e um acarinhava o outro.

Não havia nada a ser dito. Os corações batiam juntos e era isso o que importava.

— Eu amo você, Kikyou — murmurou o moreno, olhos nos dela, mãos que seguravam o tronco e os cabelos da moça. — Promete que vai se lembrar disso, mesmo quando lutarmos um contra o outro?

— Eu... Eu prometo...

— Obrigado por me compreender...

Súbito, Kikyou franziu o cenho. Desta vez os olhos de Naraku permaneciam vermelhos e as pálpebras com a exótica coloração azul.

— Pensei que virasse um humano depois de instantes como... Como esse que vivemos agora.

— Não, eu sempre baixo a guarda nesses momentos, mas é intencional. Você sabe o que espero de você depois de praticarmos isso, Kikyou.

Ambos ficaram sérios.

— Não acho certo... — explicou a jovem. — Esta é a hora em que eu me sinto melhor, Naraku, e imagino que sinta o mesmo. Não vou estragar isso tirando a sua vida. Não gosto de matar.

— Você não terá outras oportunidades como essa, miko convencida.

— Não me subestime, você não sabe do que sou capaz. Então sua forma humana não é essa a quem estou abraçando?

Naraku sorriu sem graça, enquanto seu olhar se obscurecia por algo que parecia constrangimento e melancolia.

— Kikyou... Não queira me ver no dia em que perco meus poderes.

— Por quê?

— Porque estou te pedindo. Não desejo ser visto daquela forma.

— Ah... Sim, sim — a moça se perguntava interiormente o porquê daquela recomendação. — Como você quiser.

O hanyou se ergueu sobre os cotovelos, enquanto afagava a pele suave do rosto de Kikyou.

— Kikyou... Proponho um acordo a você.

— Que tipo de acordo?

— Estive pensando... Já que estes momentos a sós entre mim e você são tão bons, vamos preservá-lo assim. Não vou atacá-la e nem você irá me atacar enquanto estivermos nos entregando um para o outro.

— Entendo... E concordo, Naraku.

— Será nosso momento sagrado.

— Sagrado? Ambos somos totalmente profanos. Eu era pura e...

— Ah, querida... — e ele se inclinou para perto do ouvido da jovem. — Impossível você deixar de ser pura, pelo menos aos meus olhos. Pode me odiar e querer se vingar de mim, mas sinto uma doçura, uma pureza e um amor tão intensos em seu espírito... Você seria pura e imaculada para mim mesmo que fosse uma prostituta¹.

— Mas isso é um absurdo...

— Não, não é! Absurdo foi você ter resolvido se entregar para mim.

— Bem... — a moça estava vermelha como um pimentão. — Sou humana... E tenho os meus... Meus desejos. N-na verdade eu não os conheceria se você não tivesse me provocado...

— Não fui eu quem entrou no seu quarto de madrugada — replicou ele, achando graça na caretinha de revolta de Kikyou. — Aliás... O que você faria comigo, se eu estivesse dormindo de verdade?

— N-nada...

— Você tentou me tocar, já se esqueceu? Oh, não diga mais nada — e ele sorriu largamente. — Seu cheiro mudou assim que você abriu a porta e veio até meu leito. Eu seria despido e abusado por você.

— Claro que não! Que loucura! — volveu a sacerdotisa, meio envergonhada. Naraku se pôs a beijar e sugar de leve o lóbulo da orelha dela. — Ei... Pare...

— É o preço que pago por ser um indivíduo sedutor e gostoso — afirmou ele, teatralmente, cheio de falsa modéstia. Kikyou não resistiu e riu com gosto. — Que foi?

— Não tem vergonha de dizer isso de si mesmo?

— Ora... Não...

A jovem ergueu uma das sobrancelhas; Naraku deu de ombros, comentando:

— Estava apenas brincando, sei que não sou lá tão apresentável.

— Que bobagem! Eu o acho tão belo. E gostoso também. Peladinho, então...

A reação de Naraku foi bem inusitada: arregalou os olhos, engasgou-se e tossiu, enrubescendo até as orelhas. Kikyou riu mais uma vez, pegando-lhe o rosto e o afagando, sentindo-se bem ao lado daquela criatura tão contraditória. O hanyou era estranho: ora se portava como um homem extremamente sensual, ora se tornava como um adolescente bobo. Na verdade, Naraku ainda não havia se acostumado a desfrutar de momentos sadios com outras pessoas. Vendo-se envergonhado, ele decidiu sair pela tangente:

— Bom, querida, já que você aceita meu acordo, vou lhe propor mais um.

— O que você quer?

O hanyou prendeu o lábio inferior de Kikyou entre os seus, sugando-o e ouvindo, feliz, as batidas do coração da jovem se acelerarem. Um pensamento se instalou em sua mente: “duvido que ela conseguirá ter esse mesmo desejo por aquele cachorro. Vou proporcionar a ela todas as formas de prazer que eu souber...”.

— Vou garantir minha proteção, miko-dono — respondeu ele, afetado, fingindo-se com medo. — Vou me esconder do seu hama-no-ya² que destrói os demônios...

Ele levou o indicador aos lábios e o lambeu, dirigindo a Kikyou seu olhar mais safado. Em seguida levou o dedo úmido até o sexo da jovem e o afagou, levando-a a gemer, excitada.

— N-Naraku... O que está fazendo?

— Já lhe disse... Garantindo minha proteção, Kikyou. E o melhor de tudo é saber que estarei muito seguro entre seus braços e suas pernas — riu ele. Derrotada, a jovem riu também.

***

Agora, dez dias após o último encontro deles, Kikyou enfim chegava diante da Goshinboku. Ignorou os arbustos que a rodeavam e chegou mais perto. Seus pensamentos iam e vinham, desordenados. A sacerdotisa sentiu os olhos escorrerem de saudade, de dor, de carência. Foi quando ouviu a voz meio anasalada e aguda, cheia de emoção, à sua esquerda.

— Kikyou...

O peito da moça entrou em frenesi. Ali estava o dono de seus sonhos, o indivíduo que a inspirava a cantar, a sorrir, a amar. Com um brilho comovido nos olhos de ouro, Inuyasha a chamou de novo.

— Kikyou... Você está aqui...

— I-Inuyasha...

A sacerdotisa não ligou para os arranhões que obtivera nos pés ao se precipitar para perto do hanyou que a encarava com veneração e algo mais que ela não compreendeu no momento. Enfim estavam diante um do outro, os fôlegos agitados.

— Você... Está ainda mais linda — murmurou Inuyasha, corado, olhando-a atentamente. — E diferente...

— Diferente como? – indagou ela, ligeiramente insinuante, acercando-se do hanyou e o abraçando.

— N-não sei – foi a resposta dele, que de fato estava estranhando o lampejo sensual na fisionomia de sua querida sacerdotisa. Foi quando Kikyou o beijou, com delicadeza a princípio, e em seguida com desejo puro.

Inuyasha não estava acostumado a aquilo — a jovem, outrora tão polida e recatada, o mordiscava, envolvia a língua na dele, deixando escapar gemidos baixos e deliciosos aos ouvidos dele. Os shinidama os rodeavam, enchendo o bosque de luz. Tremendo por dentro, o hanyou a envolveu com força nos braços e se arriscou a devolver aqueles beijos voluptuosos com sua pouca experiência. Kikyou resolveu colar o corpo ao dele, sedenta; aguardava o instante em que ele a faria incandescer de prazer, crendo inclusive que seria ainda melhor do que o que o perverso Naraku a fizera experimentar. Inuyasha, inebriado, já apresentava uma espigaitada ereção, ofegando quando a moça pressionava o púbis contra o seu membro.

Apartaram-se para respirar um pouco. A jovem o olhava cheia de fogo e desejo. Ele, porém, tinha uma fisionomia estranha, e Kikyou ficou confusa.

— Algum problema, Inuyasha?

— K-Kikyou... Você está tão mudada...

— Como assim?

— Não é... Não é como a Kikyou que conheci.

A moça se afastou rapidamente dele para estudar o rosto do amado. Leu, nos olhos âmbares que ela adorava, uma confusão de sentimentos.

Não era segredo para ninguém que a sacerdotisa Kikyou era uma mulher bastante independente e madura para a idade, até porque sacerdotisas de vilarejos tinham a obrigação de serem altruístas, responsáveis e decididas. No caso dela, que fora a guardiã da Joia de Quatro Almas, o peso de sua missão era ainda maior.

Inuyasha estava reticente com a nova independência de sua adorada: a sensualidade nos gestos e olhares da moça eram inéditos para ele. Não que o hanyou não a desejasse; porém ele era bem inexperiente e inseguro até mesmo em relação ao próprio corpo – anos e anos de rejeição devido à natureza híbrida que possuía deixaram-no absurdamente tímido. E, além do mais, havia alguém que ficaria totalmente triste consigo caso soubesse de certas liberdades entre ele e a sacerdotisa revivida à força.

Kagome.

O hanyou agora estava atônito enquanto Kikyou não entendia o porquê daquele distanciamento súbito. Naquele momento, porém, ela teve um insight do que poderia ser: de fato ela mudara bastante seus conceitos sobre a vida e sobre si mesma desde que se entregara para Naraku. A sacerdotisa perdeu o medo de ousar, de dizer o que sentia realmente, de agir como bem lhe conviesse.

Uma pontada dolorosa se fez no coração da jovem. De maneira inconsciente, seu verdadeiro amor a estava julgando. A moça cerrou os punhos; seus olhos arderam e ela se sentiu miserável. Desconhecendo boa parte de suas angústias, Inuyasha, confuso à sua frente, ia perguntando a ela o que estava acontecendo, quando ouviram passos de quem corria e uma respiração ofegante, precedidos de uma voz jovial e feminina:

— Inuyasha... Inuyasha! Eu sinto a presença de fragmentos da...

Kagome Higurashi se calou de chofre, ao ver que o hanyou não estava mais sozinho. Seus olhares foram de encontro aos de Kikyou. Uma atmosfera pesadíssima se instalou no local e, por sua vez, Inuyasha havia emudecido.

A jovem aprendiz de sacerdotisa, que havia vindo do futuro, respirou profundamente, tentando se livrar daquele nó incômodo na garganta ao ver a cena. Lembrou-se de como Inuyasha a havia magoado por ocasião de seu sequestro por Kouga. Se ela era importante para ele, então por que correr tanto atrás daquela moça morta?

A menina deu uns passos para trás, mortificada, quando ouviu a voz de Kikyou se dirigindo a ela:

— Fuja.

— O... O quê?

— Aqui não é seguro para você, menina. Fuja.

— O que foi, Kikyou? — indagou, temeroso, Inuyasha. — O que você está olhando? Há algum youkai aí?

A mais velha sentiu uma súbita mudança no ar e se afastou de Inuyasha, olhando para cima. Estranhou que o hanyou não houvesse notado que não eram somente eles três ali.

— Inuyasha, fuja com ela — ordenou Kikyou, procurando o arco e a única flecha que tinha. Ela o havia deixado no chão assim que o hanyou tinha aparecido. O chão estava limpo; a moça se espantou. — O que vocês ainda estão fazendo aqui? Querem que Naraku os destrua?

— O quê?! Naraku está por aqui? — e Inuyasha desembainhou a Tessaiga, ficando alerta também. Kikyou bufou discretamente; não queria que eles se vissem. Ela percebia que seu inimigo estava por perto, quase que imperceptível, sendo que a Joia era a única coisa que o denunciava.

— Inuyasha, leve Kagome para longe. Eu dou cobertura para vocês — afirmou a moça de novo, já impaciente. Contudo, o hanyou não arredou pé. — Inuyasha, saia logo daqui!

Foi aí que tudo aconteceu. Perto dos pés de Kikyou, havia uma raiz seca da árvore sagrada; subitamente a raiz criou vida, se metamorfoseando em um monte de tentáculos marrons e agarrando as duas moças, enquanto golpeava Inuyasha no estômago. O híbrido foi atirado brutalmente contra os arbustos; as jovens gritaram, assustadas.

Dentre os tentáculos, Naraku aparecia, totalmente envolto em sua pele de babuíno, tendo apenas os olhos expostos. Olhou para Kikyou com tal ódio que fez a sacerdotisa engolir seco; ele não a amedrontava, mas naquele instante a jovem duvidou que conseguisse se salvar da malignidade do araneídeo.

— Boa noite — disse ele, com falsa amabilidade. Inuyasha se levantou num átimo, brandindo Tessaiga e gritando:

Kaze no Kizu!

Contudo, uma resistente kekkai envolveu o corpo do outro, frustrando o intento de Inuyasha, que, furioso, começou a xingar Naraku, exigindo a soltura das mikos. O vilão tirou da cabeça o manto, mantendo na face um sorriso que em nada condizia com a ira que lampejava nos olhos vermelhos. O tentáculo que segurava Kagome se elevou, deixando a moça em uma posição constrangedora, afinal era possível ver suas roupas íntimas. Apavorada, Kagome gritou por Inuyasha. O hanyou moreno arqueou uma sobrancelha; Kikyou, por sua vez, estava com os pensamentos em frenesi. Não sabia o que ele estava tramando daquela vez; Naraku estava com uma postura misteriosa, aquele ataque parecia incomum.

— Por que chama por Inuyasha, Kagome? — indagou Naraku, com um tom sereno. — Não vê que ele está ocupado com Kikyou?

— Maldito! Solte as duas agora mesmo! Vou destruí-lo! — gritava o outro, tentando acertá-lo com Tessaiga. A reação de Naraku foi erguer Kikyou para o alto, também; ela, orgulhosa, não mostrava medo, simplesmente o encarava com rancor.

— Sabe, Kagome... — prosseguiu o araneídeo, ignorando os esforços de Inuyasha para salvar as jovens. — Parece que tanto você como eu atrapalhamos algo que ia acontecer por aqui entre este casal. Devo imaginar que você se sente muito triste quando os vê juntos, não é?

— CALE ESSA BOCA, MALDITO! — bradou o outro híbrido, já cansado de desferir Feridas do Vento nele.

—Você estava sendo apenas gentil com Kouga naquela manhã... — continuou Naraku, agora trazendo a colegial para bem perto de si e a encostando nele.

A visão daquilo enfureceu totalmente Inuyasha, e, das alturas, Kikyou sentiu algo ferver em suas veias — um estranho sentimento de ciúme. A jovem se debatia entre o tentáculo apertado; súbito, Naraku teve uma atitude inusitada, que foi a de soltar gentilmente Kagome e, expondo o largo peito nu, envolvê-la com os braços, aninhando-a por trás e mantendo a boca próxima à orelha da menina. Os braços de Naraku, entretanto, eram tão fortes quanto os tentáculos, de forma que a jovem não conseguia se esquivar deles.

— Contudo, Inuyasha foi muito injusto com você. Maltratou-a, feriu seus sentimentos. Você foi embora para sua casa... Voltou, disposta a perdoá-lo, como sempre... E se depara com ele aqui, agarrado à sacerdotisa Kikyou.

— Kagome! Não dê ouvidos a... — ia dizendo Kikyou, quando a ponta do tentáculo tapou sua boca.

— Dói, não é? Você opta por permanecer neste país perigoso para ficar ao lado de quem você tanto ama... — os olhos da jovem se encheram de lágrimas ao ouvir isso. — Por acaso, Inuyasha disse para você que a amava? Ou ele, simplesmente, se contenta em usar você como instrumento detector de fragmentos da Joia? Vocês já olharam para as estrelas juntos? Ele já a ouviu contar de seus sonhos, seus planos para o futuro? Não, ele só pensa no momento em que os shinidama vão aparecer de algum lugar e mostrá-lo onde está a sacerdotisa Kikyou.

— N-Naraku, me solte, e-eu não tenho motivos p-para ouvir suas idiotices — soluçou a moça. O estrago, porém, já estava feito: Kagome estava arrasada. Das alturas, Kikyou lutava por conseguir se soltar; Inuyasha estudava como cortar aquele tentáculo e soltar a jovem, ao mesmo tempo que exclamava:

— Kagome, não escute esse desgraçado!

— A sacerdotisa Kikyou tentou matar você, não foi? — inquiriu Naraku, com brandura em seus modos e quase carinho no jeito de falar. A jovem já não se debatia, apenas chorava copiosamente. — E Inuyasha não fez nada para vingá-la. Aliás — o hanyou olhou para o outro, que estava lívido de ódio. — Esse cachorro híbrido não lhe pede desculpas por seus rompantes de raiva. Não se incomoda se você está magoada. Mas, para vir se dar ao desfrute com outra no meio da floresta, ele está sempre pronto.

— Isso é mentira, Kagome! — gritou Inuyasha.

— N-não — soluçou a jovem, sentindo o coração sendo esfacelado. — D-desta vez, N-Naraku não está mentindo...

Enfim, ele soltou a boca de Kikyou, que parecia absolutamente furibunda. Não que ela se importasse com Kagome de fato, mas via que Naraku estava passando dos limites ao abraçar a menina daquela forma.

Hanyou Naraku — chamou-o a mais velha, num tom letal. — Deixe-a. É a mim que você quer, então venha lutar comigo.

— Vê, Kagome — tornou ele, encarando Kikyou ostensivamente e mantendo o timbre de voz sedutor e afável. — A sacerdotisa Kikyou está sob meu poder agora. Se você disser uma única palavra, eu posso apertá-la até que morra. Assim, o caminho para Inuyasha ficará livre para você.

Inuyasha congelou onde estava, perturbadíssimo. Olhava fixamente para Kagome soluçante em meio aos braços de seu inimigo. A outra jovem, por sua vez, não parava de olhar para os dois. Sabia que Kagome tinha um coração bom demais para fazer um absurdo daqueles; contudo, o que a deixava fora de si era ver o corpo parcialmente despido do hanyou aranha colado ao da menina. O pensamento de que ele poderia estar roçando seu sexo em Kagome lhe deu náuseas.

— K-Kagome... — balbuciava Inuyasha, nervoso ao extremo. — Não dê ouvidos a ele... N-não é verdade que eu não ligo para você...

— Que vergonha, Inuyasha. Tsc, tsc, tsc — fez o outro, cheio de malícia. — Disfarce, pelo menos. Você está esfregando na cara de qualquer um que está com medo de que Kikyou seja assassinada por mim de novo.

— Cale a boca, seu ordinário! — berrou a moça, no alto, perdendo as estribeiras. — Inuyasha, ele não pode me matar porque...

O tentáculo enrodilhou-se como uma serpente em volta do pescoço alvo da sacerdotisa, que começou a sufocar. Em meio às dores emocionais que sentia, Kagome percebia também o quanto a voz de Naraku era agradável quando ouvida de perto. Seus cachos macios tinham um perfume de ervas; a pele quente do peito dele a fazia se sentir confortável. Os músculos do abdome do hanyou pareciam ter sido esculpidos à mão e o contato dos lábios finos que resvalavam por sua orelha era estonteante. Então ela despertou daquele engodo; com todos os diabos, aquele era Naraku, prestes a cometer mais um de seus crimes. Era um demônio. Voltando a se debater, a jovem gritou:

— Não! Não quero que mate Kikyou...

— Mas por que não?! — retrucou ele. — Ela não liga para você! Ela está se lixando para você!

— M-Mas Inuyasha a ama... — chorou a colegial, derrotada. — E eu... Eu o amo. Quero vê-lo feliz... M-Mesmo que com outra pessoa...

Tanto Inuyasha quanto Kikyou engoliram seco com aquela confissão dolorida. Naraku, meneando a cabeça, soltou Kagome, que caiu aos seus pés, chorando muito. Num piscar de olhos, o tentáculo que prendia Kikyou nas alturas foi recolhido e a jovem despencou. Inuyasha saltou agilmente e impediu que a moça atingisse o chão. Afastando-se de todos, ainda envolto em sua kekkai, Naraku afirmou:

— É, Kikyou... Kagome é melhor do que você. Só não te matei porque ela pediu e, de qualquer maneira, não vim aqui para machucar ninguém. Pelo menos, não fisicamente.

Inuyasha saltou contra Naraku, mais uma vez, tentando acertá-lo.

— Seu imundo! Não seja covarde e lute comigo, ao invés de ofender Kikyou!

— Lutar com você? — e o hanyou sorriu. — Você é um híbrido patético. Não perco meu tempo com imbecilidades. A propósito... Continue o que estava fazendo com a sacerdotisa Kikyou. Digamos que o caminho de acesso agora está livre...

— Chega, Naraku! — interrompeu-o Kikyou, só então caindo em si e notando as más intenções do vilão; Naraku poderia destruir mais uma vez o elo já frágil que ela tinha com seu amado, caso contasse o segredo que ambos tinham. — Você não tem o direito de...

— Tenho o direito de dizer e fazer o que eu bem entender, sua maldita miko fracassada — vociferou ele de volta, preparando-se para voar. A expressão rígida e endurecida do hanyou escondia a dor que ele sentia de ter visto sua amada com outro. Voltando as costas para os três, disse, em alto e bom som: — Pensei que você fosse mais honesta. Deveria ter dito ao seu querido Inuyasha o que aconteceu entre nós dois!

— O quê...?! — tartamudeou Kagome, ainda prostrada.

— Kikyou, do que ele está falando?! — interveio o outro híbrido, sem entender.

Naraku deu um largo e maligno sorriso, enquanto seus olhos cintilavam com o sarcasmo que ocultava seu coração ferido:

— Você achou que Kikyou estava mudada, Inuyasha... É verdade. Ela mudou.

— Naraku, não! — gritou ela, agoniada, mas já era muito tarde.

O hanyou araneídeo flutuou no ar e, cinicamente, afirmou antes de desaparecer:

— Kikyou não é mais uma donzela virgem, Inuyasha. E quem a deflorou fui eu, o youkai Naraku.

***

¹ — Citação da #HanyouSamyra em sua fanfic “O Demônio e a Sacerdotisa – A Confissão de Naraku parte III”.

² — Hama-no-ya: a flecha purificadora do mal, que Kikyou e Kagome manejam.

Notas finais
Gente... Eu avisei que o Naraku, aqui, seria o fdp que conhecemos no mangá/anime... O amor dele é verdadeiro? Sim. Só que ninguém deixa a perversidade da noite para o dia. E ele conseguiu atingir não somente Kikyou, desta vez T_T #TodasSeLamenta O que acontecerá entre Kikyou, Inuyasha e Kagome? Aguardo os comentários... Espero que tenham apreciado mais momentos tensos entre esse(s) casal(ais). Beijos e obrigada! ~Okaasan