25 de janeiro de 2018 ( 4 ANOS DEPOIS)

07:30- manhã

Acordo com o barulho de chuva, me levanto da cama e vou logo em direção à varanda para contemplar a vista. Acho que nunca irei me cansar do clima encantador que Paris oferecia. Olho para o relógio e percebo que eu estava atrasada para o trabalho então em menos de 2 minutos me arrumo com um vestido azul claro e um casaco térmico já que ainda estávamos no inverno. Entrei na minha lambreta sem nem tomar café afinal não poderia desapontar o meu chefe, ou melhor, meu namorado.

A melhor parte de trabalhar na maior empresa de jornalismo da França era o trajeto que eu tinha que percorrer para chegar ao meu destino. Primeiro eu passava pelo maravilhoso arco do triunfo e no meio do trajeto eu estacionava meu veículo para comprar pipoca de um vendedor ao lado da Torre de Notedrame contudo devido ao horário, tive que ficar de estômago vazio. Por último eu contornava um dos monumentos mais lindos do mundo inteiro: a famosa Torre Eiffel. Finalmente eu chego ao meu destino, Jornalist World France, ou apenas JWF porém eu sempre o chamava de casa.

Abri a porta de vidro e passei por a secretária Gemma Styles.

— Bom dia senhorita Gomez, posso saber o porquê do atraso?

— Ah Gemma o de sempre, eu dormi demais, muito mesmo!

— Se divertiu muito com o patrão ontem a noite não foi? — Ela falava com um sorriso malicioso. Se tinha uma coisa que a Gemma não era com certeza era inocente.

— Não imagina, nossa vida está tão corrida. Estamos tentando cobrir diversas matérias antes dos outros jornais o que está muito difícil.

Não me lembro mais da última vez em que eu e o Taylor tivemos algum momento íntimo, tirando a vez em que ele quase se matou e o dia em que chegamos a Paris creio que nada mais pessoal aconteceu entre nós. Parecíamos 2 velhos e olhe que eu tinha 25 anos e ele 35. Me despeço da secretária e pego o elevador para me dirigir à sala de reuniões, mesmo atrasada a minha memória não estava fraca. Teríamos um reunião de emergência.

Ao abrir a porta me deparo com todos aqueles homens engravatados todos com aparência, digamos, não muito encantadora. Sempre me sentia constrangida por ser a única mulher a trabalhar na empresa, temos tantas mulheres hoje em dia mais capacitadas que os homens então porquê o mercado não percebe isso? Vou em direção ao meu assento e espero o Taylor, ou melhor, o chefe chegar.

— Bom dia pessoal, sei que demorei um pouco à chegar mas era porque eu gostaria que todos comparecessem— Ele falou enquanto olhava com um tom de " Melhor não fazer isso da próxima vez " — Hoje mudaremos todos os cargos de vocês.

No exato momento em que ele disse a palavra "mudar", toda a sala começou a cochichar. Em cinco anos de empresa nunca tivemos uma troca de cargos, porém já era de se esperar já que no ano passado demitimos metade dos funcionários para cortar gastos.

— Calma pessoal, tudo isso é necessário para que a empresa possa crescer! Preciso ver como cada um se sairá nos cargos dos outros, temos que mudar às coisas aqui se quisermos nos igualar ao NY TIMES! — Ele falou em um tom bastante sério.

Então começou, cada funcionário trocando de cargo com outro funcionário. O David foi para a tesouraria, o Henry para a redação, todos estavam muito nervosos afinal iriam trabalhar em áreas as quais não são experientes. Depois de 15 minutos todas as mudanças foram feitas, menos comigo o que fez que todos olhassem para mim com um tom de inveja, principalmente o Liam que por algum motivo que não sei me odeia desde o dia em que essa empresa foi criada. Todos então saem da sala menos eu pois queria dar um abraço em meu namorado. Porém ao chegar nele ele me para.

— Bom querida, eu deixei todos saírem porque gostaria de conversar com você sobre um assunto que pode deixar você com raiva, e do jeito que é estressada... — Por que ele sempre tinha que fazer piada com isso?

— E qual seria esse assunto? — Realmente perguntei com um tom bastante estressado.

— Bom quando eu disse que todos os funcionários trocariam de cargos, eu quis dizer todos os funcionários mesmo. — Comecei a mexer no meu cabelo, era o que sempre fazia quando estava nervosa e naquele momento meu nível de nervosismo estava para estourar — Receio dizer que tenho que trocar seu cargo com alguém também!

— Mas não sobrou mais ninguém e quem seria essa pessoa que de certeza não terá a mesma capacidade que eu para cobrir as mais diferentes reportagens?

— E é justamente por isso que temos que trocar você! Por onde você vai os outros reportes a seguem já sabendo que você vai cobrir algo muito polêmico. Por isso contratei uma nova pessoa que nunca trabalhou antes no mercado, todavia tem muita capacidade. Então vou apresentar ela a você o que acho que não vai ser preciso.

Então a minha "substituta" entra na sala e eu fico com uma cara de decepção. Era a Taylor, minha única melhor amiga como disse. Ela tinha acabado a faculdade de jornalismo a dois meses e eu mesma disse a ela que iria procurar um emprego aqui na empresa. Mas não, ela preferiu falar com o meu namorado antes já que a intenção dela não era ter um novo emprego e sim roubar o de alguém. Nunca imaginei que alguém tão doce pudesse fazer isso.

— Então é assim? Você vai e me troca por a minha melhor amiga que nem ao menos tem experiência? — Uma lágrima caiu do rosto dela no instante em que disse isso. Acho que gritei muito mas não importava, eu estava indignada!

— Calma Sel, foi ele que me ofereceu o emprego. Eu não estava com dinheiro nem pra pagar as minhas contas e eu achei uma ótima oportunidade — Falou com um tom de " Desculpa eu não quis magoar". Acho que já sabia todos os tons de voz que os seres humanos possuíam.

— Não fale assim com ela ! Você não entendeu que não foi só você que teve o cargo trocado?! A empresa está com sérios problemas financeiros e você não consegue compreender isso? Esse novo cargo é até bom pra você já que vai poder cobrir reportagens melhores e ainda vai poder escolhe-las...

— E se quiser eu posso desistir disso, eu não quero perder a sua amizade — Ela o interrompeu.

— Não! Eu não estou com raiva de você então pode continuar afinal não é todo o dia em que uma oportunidade como essa aparece não é? — Respondi sarcasticamente. — Eu só estou decepcionada com o outro Taylor da minha vida!

Saio sem me despedir. Mesmo com toda a raiva eu conseguia ver que eu estava um pouco errada afinal como ele próprio disse, eu não fui a única a perder o cargo. Porém pedir desculpas ia contra os meus princípios, eu era orgulhosa demais para admitir uma derrota. Pego a lambreta e vou para o único lugar o qual consigo achar um pouco de paz: Os Jardins de Luxemburgo. A atmosfera calma do lugar sempre me encantava.

Ao chegar lá estaciono a lambreta e enquanto caminho escuto um som a mais fora o dos pássaros e os passos das pessoas. A música " Back To December " que era uma das minhas favoritas de todos os tempos estava ecoando pelo local só que com uma pequena diferença, ela estava toda no piano. Procuro, procuro e procuro de onde vem o som e finalmente o localizo, estava vindo de uma barraca de suco quase no final do jardim.

— Perdão senhora, a senhora poderia me dizer quem está a tocar essa música — Perguntei bastante calma se for comparado ao que aconteceu na JWF.

— O nome dele é Justin Bieber, um pianista canadense não muito conhecido mas bastante talentoso. Gostaria de ver um vídeo dele?

— Sim, muito obrigada!

Ela então abre o vídeo no seu Iphone 5s que não sei como ele tinha já que o produto já tinha saído do mercado há tempos. Vejo então no vídeo ele se dirigindo a cadeira onde começa a tocar uma música escrita por ele de nome " Nothing Like Us". O ritmo contagiante do piano me convidou a fechar os olhos e pensar em todos os momentos felizes que tive nos últimos anos. Comprovei a minha teoria outra vez de que era impossível não se sentir em paz nesse lugar. Ao final do vídeo alguém da plateia joga uma rosa que acerta seu rosto.

— Que estranho por que ele não se desviou? Mesmo prestando atenção no piano era impossível não ver!

— Ah senhorita, esqueci de ter dizer que o garoto é cego. Uma pena afinal o mesmo é tão jovem e com muita coisa ainda para viver, mas Deus o concedeu esse impressionante dom!

— Impressionante mesmo! — Falei de boca aberta. Já tinha visto alguns músicos cegos, surdos e com todos os tipos de deficiências possíveis, mas nenhum tocava com tamanha emoção se fossem comparados ao menino que tinha acabado de ver na tela do celular da vendedora de suco.

Me despeço da senhora e vou me sentar na grama para come uma barra de cereal que comprei no caminho. Ao terminar de comê-la pego meu Galaxy S8 e digito "Justin Bieber" no buscador. Só consegui encontrar uma pequena biografia dele porém ela me deu uma ideia. Já fazia um ano que eu não saia da França e já que agora eu só poderia cobrir coisas de pequeno porte, essa seria a melhor matéria!

Deixo uma mensagem para Gemma avisando que ficarei no Canadá durante a semana para cobrir uma matéria "secreta" ( eu queria poder provar ao Taylor que mesmo em coisas pequenas era impossível ninguém notar o meu ótimo trabalho ).

Passo em casa, pego algumas roupas, minha câmera de última geração e então vou em direção ao aeroporto. Confesso que essa é a melhor parte de ser Jornalista, você poderia viajar para qualquer lugar na hora que bem entendesse. E era isso que eu estava fazendo, estava saindo do lugar que no último dia só me trouxe decepção.

Depois de fazer o Check-in entro no avião, dessa vez da classe econômica devido aos cortes de gastos e antes que o aviso de desligar os telefones celulares fosse dito eu leio mais uma vez a biografia do jovem pianista. O modo de como o piano mudou a sua vida e lhe deu esperanças me deixou ainda mais interessada na sua história. Tudo Nela era interessante, inclusive seu nome: "Justin Bieber".