The Heart And Darkness
23 Extra - Aniversário!
Notas iniciais
Havia acordado no banco traseiro de um pequeno compartimento. Seus olhos infantis piscavam, acostumando-se com a luz e então pôs-se sentada. O local aonde encontrava-se era diferente de tudo o que já havia visto, parecia um tanto futurístico e o que mais chamou a atenção daquela pequena garotinha era a visão através da janela.
- Nossa! Da pra ver milhões de estrelas daqui! – Falava enquanto sorria e observava tudo através da imensidão negra que era viajar no espaço.
- Olha, se a minha princesinha não já acordou! – Disse uma voz adulta e masculina, chamando a atenção da criança. O homem usava uma imensa capa marrom, que devia alcançar facilmente seus calcanhares, enquanto tinha preso em meio ao cabelos grisalhos misturados com um tom de castanho, um óculos de solta. Sua blusa branca estava amarrotada e a calça negra contrastava com as botas de couro claro. Ele sorriu e esticou as mãos enluvadas, enquanto a garotinha corria e pula no colo dele. – Então Nina, você dormiu muito mal? – Ele passava seus dedos pelos cabelos castanhos da garotinha com o vestido azul. Ela retribuiu o sorriso e o abraçou com força.
- Eu dormi muito bem, papai! Hehe!
- Ah, que alívio então. – Ele caminhou com a filha no colo. – Senão seria um problema quando chegássemos “lá”.
- Lá? Lá aonde, papai? – E então a pequena Nina perguntou curiosa.
- Lá... – E assim o homem apontou através da janela da pequena nave onde viajavam. Através do vidro, era possível ver que algum tipo de luz muito forte emanava no meio do espaço e lentamente o ambiente mudava. Pouco a pouco, a garotinha via um céu alaranjado, como se estivesse amanhecendo. E nisso, seu pai sentou em um imenso banco acolchoado em vermelho e começou a pilotar dali, mesmo com a garotinha sentada em seu colo.
Através do pára-brisas, eles observavam que navegavam sobre um infinito mar. Era uma visão incrível, até Nina avistar bem ao longe um pouco de terra.
- Papai, aonde estamos indo?
- Vamos comemorar o seu aniversário! – Ele riu. E surpreendentementeaumentou a velocidade, tornando a terra cada vez mais próxima. A garotinha desceu do colo do pai e sentou no banco mais próximo, fazendo uma cara meio emburrada. O homem estranhou e quis saber o que houve.
- Ei, princesinha... Por que essa cara, hein?
- Como vou comemorar meu aniversário, se nem sei quantos anos eu tenho? – O pai ficou surpreso com uma indagação dessas, mas sorriu. Colocou a nave em piloto automático e caminhou até a filha. Puxou a mão dela e falou de modo atencioso.
- Quando você estica esse dedo aqui... – Ele brincou, puxando o dedo indicador da garotinha. – Significa que você tem um ano.
- Mas isso eu sei, papai! Eu já tenho quatro anos!
- Não... – E ele esticou todos os dedos da mão dela. – Hoje você faz cinco anos de idade! – Ele deu um sorriso brincalhão, enquanto a filha ficava surpresa.
- Cindo... Anos?
- Exato! Agora espere, estamos chegando... – E ele voltou para o banco e conduziu mais uma vez a navezinha. A pequena Nina observava o local desconhecido com interesse. Era um lugar bonito, haviam muitos coqueiros e cachoeiras. A terra encontrava a água, dando a entender que aquilo era uma praia. O pai fez questão de esconder a pequena nave no local mais cheio de árvores possível, tornando-a quase invisível.
Com um baque surdo, três tripés saíram da nave e agarraram no chão, tendo um pouco até delicado. Uma pequena porta abria no compartimento branco do lugar e dali surgia uma escada, aonde o pai e a filha sendo carregada por ele desciam e alcançavam a areia fofa da terra firme.
- Filha... “Isto” é o que chamamos de... – E ele andava, abrindo espaço dentre as plantas, até que uma visão incrível surgiu. -... Mar.
Ele a colocou delicadamente na areia fofa. Os olhos da pequena Nina não podiam acreditar no que viam. O mar a sua frente era uma imensidão infinita e azul, uma espécie de espelho do céu, onde ao fim do horizonte ambos de tocavam como um só. Ela era tão pequena diante de tanta água, que o medo de ser capaz de sumir só de se aproximar era devastador. De modo medroso, ela correu e se escondeu atrás das pernas do pai, mas ele sorriu e não ficou lá muito surpreso com aquela reação. Então puxou pelos pequenos dedinhos, ficando de mãos dadas. Caminhou tranqüilamente e sentou-se bem próximo a água. Nina não o fez, e mesmo em pé por pouco não era menor que o pai. Este passou uma das mãos pelos cabelos que pouco a pouco deixavam de ser castanhos e suspirou.
- Quando eu tinha a sua idade, eu também conheci o mar. – Falou de modo sereno. – E acredito seriamente... Que foi uma das coisas mais mágicas que já aconteceu comigo até hoje. E também foi aqui, nesta praia, onde conheci a sua mãe, Nina.
- A mamãe?! – Ela ficou repentinamente surpresa. Então, como se ele tivesse explicado a existência da água pra garota, ao poucos ela foi se aproximando da água. Timidamente, ela olhava a areia que absorvia as pequenas marolas do mar. Corajosamente, ela fechou os olhos e pulou sobre uma pequena onda. Não havia dor, era basicamente o que ela pensou. O mar era algo infinito. Grandioso. E não havia por que temê-lo. Ela então virou o rosto pro pai e sorriu de um modo tão parecido com o dele. Começou a correr, a pular, a brincar e o homem a seguiu, vendo que conseguiu fazer a felicidade da filha no seu aniversário de cinco anos.
- Mas sabe, você foi bem mais corajosa do que eu! – Ele disse enquanto a via cair na água, se molhando completamente. – Quando eu tinha a sua idade, fiquei com tanto medo do mar que sai correndo e me escondi no meio das plantas. Foi quando a sua mãe, que estava fazendo alguma coisa no topo de uma árvore, caiu bem encima de mim.
- Isso não é muito romântico... – Disse Nina, que sempre imaginou os dois se conhecendo de modo bem formal, como um príncipe e uma princesa.
- Eu sei... Mas se não fosse por mim, a sua mãe estaria machucada.
- Mas aposto que quem se machucou na verdade foi você. Hihi! – Nina riu de modo infantil.
- Você tem razão... Mas depois, foi ela mesma quem me ensinou a não ter mais medo do mar... E bem, eu estou ficando com fome. Vou pegar algumas coisas pra um lanche na Gummi. Espere aqui, ok?
- Certo!
E enquanto o homem desaparecia dentre as árvores, Nina aproveitou para olhar todo o resto da praia aonde se encontrava. Era um local vasto, com estranhas construções espalhadas, como um píer muito baixo, casas escondidas nas mais altas árvores, plataformas sobre a água e afins. Então, quando ela havia encontrado um pequeno caminho, próximo a uma cachoeira. Era um local espremido e fechado, mas apenas na entrada. Quando conseguiu passar, a passagem era um túnel comprido e rochoso. Ela caminhou até chegar em uma espécie de sala e ficou com surpresa com tudo. A área se mantinha em pé graças a uma pilha de pedras pra todos os lados, e o mais interessante eram os desenhos talhados em quase todas as superfícies. Mas o que realmente chamou a atenção de Nina era o que estava escondido por um conjunto forte de raízes, bem no canto de uma parede. Era uma porta de madeira. Uma porta, que por sinal, era bem velha. No meio da mesma havia uma espécie de fechadura, talhada na cor amarela. Nina se aproximou lentamente, graças a sua imensa curiosidade, mas ouviu vozes da entrada da caverna e se assustou. Pulou para trás de uma pedra e escutou a conversa.
- E aqui vai ser o nosso quartel general, Riku! E esconderijo secreto também! – Dizia uma voz masculina infantil.
- Ou é um quartel general, ou um esconderijo, Sora. – Replicou uma segunda voz.
- Pode muito bem ser os dois! – Contestou o primeiro, Sora.
- Não, pode não! – Assim Nina via os dois que se aproximavam. Pareciam ter uma idade bem próxima a dela e eram bem diferentes, o que não podia nem dar a impressão de que eram irmãos. O primeiro, mais sorridente e com uma espadinha de madeira em mãos, tinha cabelos castanhos espetados e vivos olhos azuis. Usava uma camisa branca com detalhes azuis e uma bermuda vermelha. Já o menino que o acompanhava estava de costas, então não era possível descrevê-los muito bem. Mas era possível notar suas roupas azuis e amarelas, além do cabelo único. Nina nunca havia visto alguém com aquele tom de cabelo, sendo que o mesmo era prateado. Mas então ela se lembrou do pai e do tempo que estava demorando, tentou sair sorrateiramente da caverna, mas escorregou em uma pedra e caiu aos pés dos dois garotos. Eles a observaram enquanto estava com o rosto no chão e logo o pequeno Sora a ajudou a se levantar.
- Ei! Quem é você? – Ele perguntou surpreso por ela ter achado a caverna. Nina o olhou e ficou um tanto atordoada, seu rosto estava levemente vermelho e esfolado. O amigo de Sora se aproximou e a ajudou a limpar o rosto.
- Você está bem? – Ele perguntou. Mas sem saber como reagir e sem querer olhar pra cara dos dois de tão envergonhada que estava, ela se soltou e sair correndo, deixando-os para trás.
- Ei! Espera a gente! – E Sora correu com Riku atrás dela, mas ao chegarem na praia mais uma vez... Ela havia sumido. – Nossa! Ela foi bem rápida! – Riku fez que sim com a cabeça, concordando com o amigo.
- Pai, pai! Essa praia tem gente morando nela! – Disse a garotinha correndo um tanto eufórica em meio as árvores, se aproximando da nave enquanto o pai carregava algumas coisas.
- Nossa, calma! E é claro que mora gente aqui. Ou como eu teria conhecido a sua mãe?
- Eram dois meninos, papai! E eu me machuquei e ele tentaram me ajudar!
- Meninos...? – O pai fez um rosto de raiva repentino. – Nenhum menino toca na minha princesinha! – Disse, deixando óbvio o seu ciúme de pai. Mas, após alguns segundos, ele faz uma cara pensativa. Tentou balbuciar algo, mas não tinha as palavras certas pra formar a frase. Até que saiu: — Filhinha... Você pode me descrever esses meninos...?
- Um tinha cabelo prateado, mas eu não vi ele direito... – Ela disse, de modo a ficar lembrando de alguns detalhes. – E o outro tinha cabelos castanhos, tipo da cor do nosso, olhos azuis e ria de modo idiota. – Ela finalizou sem ser muito delicada. Estranhamente, o homem ficou pálido. Correu para a nave e guardou todo o resto, até que ele voltou e parecia estranhamente sério. – Me desculpe princesinha, mas nós devemos ir embora.
- Mas já? Não ficamos quase nada aqui... – Ela choramingou.
- Nina, agora não. Nós temos que ir. – Ele disse de modo meio frio. Pegou a menina no colo e entrou na nave, onde o compartimento fechou e ele se pôs a decolar com uma pressa significativa.
De modo desanimado, Nina observava pela janela a nave deixar a pequena praia para trás. Eles estavam ganhando altitude quando com a cara triste, ela perguntou.
- Pai...?
- Sim?
- Vou voltar algum dia aqui?
A resposta demorou um pouco a vir.
- Vai sim, filha. Com certeza você vai sim.
E a nave sumiu na escuridão após atravessar o feixe de luz. Pelo menos, o aniversário dela estava só começando.
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