The Heart And Darkness
24 Kingdom Key.
Notas iniciais
“Isto é real?”
Seu corpo afundava, como quem adormece na mais profunda vastidão. Era frio, mas ao mesmo tempo quente. Era molhado, mas ao mesmo tempo era possível respirar.
“Eu me sinto afundar... O que está realmente acontecendo?”
Seus olhos finalmente se abriram. Mas abri-los era a mesma coisa que mantê-los fechados, já que tudo era escuridão. Seu coração batia de modo calmo, enquanto caia. Não o cair de modo bruto como a gravidade, mas cair como uma mãe que põe o filho no berço. E assim afundava lentamente, enquanto curiosas bolhas de ar passavam próximas a seu rosto.
Delicadamente, seu corpo ia ficando de pé, como quem alcançava o fundo de uma piscina. Uma gigantesca piscina. E agora uma luz surgia sob seu corpo, suspirando, via que iria pousar sobre uma imensa plataforma. Uma plataforma negra. Ao firmar-se no chão, ele se desfez, fazendo sua cor escura desmanchar em pássaros que voavam tranqüilamente, surgindo quase do nada. Encolheu-se por instinto, achando ser atacada, mas retomou sua posição normal, ao reparar que agora luz emanava sob seus pés mais uma vez.
Feita por um gigantesco vitral, com o desenho de dois rostos diferentes, a plataforma exibia dois corpos desenhados. Eram dois garotos, estampados em cores vivas. Um tinha cabelos loiros arrepiados e mantinha seus olhos fechados. Seu semblante de puro sono era tranqüilizante, delicado, porém alarmante de algum modo, algo no jovem desenhado apertava o coração. Usava roupas acinzentadas em detalhes negros, que eram aparentemente de batalha, e em sua mão... Havia uma Keyblade. “Gaia Bane.” – Pensou. Por algum motivo conhecia a arma na mão do ser ali, mas ao mesmo tempo não tinha a menor noção de quem ele era ou se tinha visto aquela keyblade antes.
Então se virou. Olhou para o outro ser ali estampado e reparou que conhecia o rosto dele, ou pelo menos acreditava que não era uma ilusão. Seus cabelos eram negros e desorganizados, porém mantinha os olhos fechados assim como o outro. Usava uma roupa estranha, que mais parecia ter os seus músculos desenhados enquanto em sua mão, ele segurava também uma keyblade. “Ele se parece muito com Sora...” – Constatou.
“O cemitério de Keyblades.” – Pensou, enquanto se aproximava de uma das bordas e notava uma grande quantidade de Keyblades desenhadas de modo “morto”. Era confuso, não entendia onde estava e nem o que deveria fazer ali. Tudo ao redor era tão negro, tão escuro e confuso. Surpreendeu-se então com a escada de vitrais que surgia a sua frente. Os degraus e formavam um torto caminho, até alcançar uma segunda plataforma que antes não estava ali. Ou pelo menos, não aparentava estar.
Timidamente, aproximou-se. Pisou no primeiro degrau com um imenso tênis alaranjado e notou que parecia ser seguro. Pisou com força e acreditou que não despencaria dali, não naquele enorme abismo negro. E com isso seguiu andando, até se aproximar da segunda plataforma. Pulou na mesma e reparou que o desenho ali já era diferente, no vitral.
Um Sora adormecido, encolhido com sua Kingdom Key estava desenhado. As cores eram tão vivas que podia jurar “ele vai se erguer dali a qualquer instante.” Mas isso não a acalmava. Estava em estado de alerta, pensava que algo perigoso iria acontecer, mas não tinha certeza, se permanecesse ali. Olhou para trás, e então teve a certeza de seus pensamentos preocupados. Pouco a pouco, manchas negras surgiam no chão, de onde surgiam elevações. Monstrinhos, pequenos e negros, tomavam forma revelando seus olhos amarelos e vorazes. Muitos deles pularam, esmagando seu corpo contra o chão, deixando apenas um pensamento desesperado em sua mente.
“Eu vou... Virar um Heartless? Vou simplesmente desaparecer?”
E uma segunda luz surgiu. Um volume tomou conta de sua mão e seus dedos a envolveram com força. Um rápido movimento com seu braço delicado e fino, e todos os monstrinhos foram jogados para longe.
“Kingdom Key... Mas, por quê? Como eu a ganhei? Eu... O que houve aqui?”
Mas não havia tempo. Os Heartless ainda atacavam, o que não era nada bom. Rebatia com sua keyblade rapidamente, livrando-se deles, até não sobrar mais nenhum. Ao aniquilar finalmente o último, sentiu um alívio, mas ao mesmo tempo não sabia se era certo relaxar de vez. “Cric” – Foi o som que ouviu. Estava no meio do vitral, e então reparou pequenas rachadas. Pequenas que rapidamente tornaram-se enormes. Manteve-se imóvel. Um passo e tudo quebraria, seria uma linda queda em meio a escuridão. Prendeu a respiração, mas ao ver novas sombras surgirem, no caso Heartless, não tinha mais escolha, era lutar ou cair... Lutar eternamente seria cansativo demais.
Correu para um último ataque contra um Heartless que voava contra seu rosto, quando seu coração fortemente palpitou. O vitral se partiu. Apenas via tudo quebrar, voar... E então caiu em queda livre na escuridão.
- Vamos... Acorde. – A voz ressoou em sua cabeça. Levantando-se do chão, olhou para trás. Procurou quem havia falado consigo e com isso ficou em choque. A voz, bem feminina e infantil, vinha... De sua própria sombra. – Você está com medo, não é Nina?
- O que...? Medo? Do que?
- De tudo. Viajar, ter o seu coração corrompido em trevas, ficar sem seu pai, seus amigos... E ser abandonada por aquele que você ama.
-... Você não sabe o que escondo em meu coração... – Nina respondeu, sentindo um tremor forte nos joelhos.
- E se... – A sombra começou a se despregar do chão, começando a tomar forma. Uma forma negra e assustadora de menina. –... Eu for você?
- O que? – Nina deu um salto para trás. Via sua própria forma, porém negra e com intensos olhos amarelos. O ser sorriu, intimidando-a ainda mais. – O que você quer?
- Eu... Quero tudo o que você quer, tudo o que você tem... Eu quero o seu coração. – E caminhando lentamente, aquele ser começava a mudar pouco a pouco de forma. Seus cabelos iam crescendo, e seu contorno indicava um vestido negro, até mesmo sua altura começava a mudar. Aquela transformação repentina assustava Nina, por que tudo aquilo?
- O meu coração não pertence a você! Não vou deixar que você me faça nenhum mal, muito menos à aqueles que me importam!
- Será...? – E nas mãos dela uma keyblade negra tomava forma. – Então venha!
“Por favor, venha...” – E nas mãos de Nina, a Kingdom Key tomou forma mais uma vez. Sentindo-se revigorada, correu contra sua sombra, ou sei lá o que ela era agora.
- Vamos lutar eternamente... Ou até que eu ganhe!
- Não se eu te impedir!
E uma batalha começou entre as duas. Incansavelmente, Nina chocava sua Keyblade contra a Keyblade do Heartless. Elas lutaram, gritaram, até que... Ambas caíram no chão. O Heartless, sem demonstrar cansaço, levantou-se e tentou encaixar sua Keyblade contra o coração de Nina, que estava estirada no chão. Jogou-se para o lado na última hora. Levantou e correu, defendendo-se de outro ataque repentino de sua própria sombra. E elas teriam permanecido lutando um bom tempo... E agora estavam disputandoquem empurrava a Keyblade uma contra a outra com mais força de vontade.
“NINA!” – Outra voz chamou na cabeça da garota.
- O que...?
“Não deixe que as trevas te dominem. O seu coração pertence a luz, não deixe ela te derrotar!”
- Sora...? É você? Cadê você? SORA!
- NÃO SE DISTRAIA! – Disse a sombra, batendo com um cotovelo no estômago de Nina.
- NÃO ME DIGA O QUE FAZER! – Replicou, protegendo o corpo com o braço na última hora. Cansada, Nina só podia tentar uma última coisa para acabar com aquele embate eterno. E a Kingdom Key desapareceu de suas mãos.
- A Keyblade te rejeitou? OTÁRIA!... Mas... O QUE? – E aconteceu rápido demais. No momento que a espada chave sumiu, Nina pulou e abraçou sua sombra. Horrorizada, o Heartless berrou em desespero. – NÃO! ME SOLTA! ME LARGA AGORA!
- Você e eu somos uma só. O meu coração realmente não é de todo puro, mas nem por isso vou rejeitar algo que faz parte de mim... Que as trevas vivam, e voltem para o meu coração...
“Não esqueça esse nome... Mie.”
Como se uma chama negra tivesse invadido o corpo da garota, elas pouco a pouco desapareciam, enquanto mais uma vez Nina caia, e então desmaiou naquele vitral.
E o desenho naquele chão sorria intensamente, enquanto seus cabelos prateados escondiam seus olhos e trajes negros circulavam seu corpo.
A luz do sol batia em seu rosto. Uma sensação de quem dormiu uma ótima madrugada de sono, e então se espreguiçou. Opa, acho que uma noite nem tão boa assim, seus ombros estavam intensamente doloridos. Seus olhos se abriam. O direito, em um azul tão intenso e o esquerdo, um caloroso verde. Olhava para o nada, como quem tenta se lembrar de algo esquecido há muito tempo. Então, aos poucos, começava a recobrar suas memórias. Elas eram difusas, borradas e então lembrou-se da Kingdom Key e o duelo com sua Antiform. “Onde... Eu estou mesmo? Ah, isto aqui parece ser um castelo... Estou... No Castelo em ruínas! Sim! Aquelas correntes nos prenderam até dormirmos e... Droga, ainda estou presa a elas, porém parecem estar bem enferrujadas, ao contrário de quando fui presa... Quanto tempo será que passei dormindo?”
Fez um pouco de força. O estado das correntes era tão decadente que o menor movimento as desfez. Pulou e caiu no chão com leveza. Esticou os braços, que estavam cansados de ficarem pendurados para o tal, os movimentou e deu um pulo, também esticando as pernas. Sentia-se bem estranha, seu corpo parecia mais pesado do que normalmente era e, ao passar a mão na própria cabeça, ficou surpresa com o tamanho dos próprios cabelos. Estavam enormes, batiam praticamente em sua cintura, um tamanho que a garota nunca havia os deixado chegar. Suas vestimentas estavam curtas e os sapatos apertados. Não conseguia acreditar... Realmente, quanto tempo ela passou dormindo? Foi então que, distraidamente, olhou para o alto e viu Eros e Lee, também dormindo profundamente. Caminhou, até estar exatamente embaixo de Eros. Com grande impulso, pulou, agarrando-o pelos pés. As correntes arrebentaram e o ruivo despencou do alto, onde Nina teve que se jogar, pra não deixar que ele se machucasse. Com estrondo, o corpo dos dois bateu no chão, e assim um bocejo veio de Eros.
- Ah... Quem atrapalhou o meu sono?
- Eros! – Nina sorriu, vendo que ele estava bem. Ela o sacudiu até que despertasse por completo, contou sobre terem ficado presos ali e o garoto parecia assustado, por que, com o tempo que aparentemente ficaram ali, ele também havia mudado. Seus cabelos ruivos ondulados estavam quase tão grandes quanto os de Nina, havia ganhado músculos mesmo ali preso. Estava mais alto e tinha uma aparência mais velha, parecia responsável e com um rosto maduro, parecendo com os heróis de sua terra natal, no Olympus Coliseum. Juntos, agora os dois de pé, iriam repetir o mesmo processo com Lee. Nina pulou, o agarrou pelos pés, e, ao partirem as correntes, Eros estendeu os braços, agarrando o oriental. Ao contrário dos outros dois, o garoto acordou mais rapidamente. E de modo tenso, ele parecia mais velho que os dois, sendo que era o mais frágil e baixo anteriormente. Tinha cabelos mais longos que os de Nina, tão delicados que pareciam fios negros de seda. Um rosto quase adulto, mesmo eles acreditando que ainda tinham 14 anos. Estava tão forte quando Eros, e os três estavam trajando roupas curtas e apertadas. Sabe-se lá quanto tempo dormiram, aparentemente foi bem mais que um ano.
- Precisamos ir... – Ao tentar pronunciar algo, um pedaço do teto do castelo caiu. – AGORA!
O castelo estava tremendo. Pedaços dele começavam a cair e quebrar outras áreas do mesmo. O castelo em ruínas estava em seus últimos momentos de “vida”. Nina olhou em volta, precisava ser rápida, foi quando ela viu uma saída. Correu para lá, o coração batendo acelerado e logo em seguida era acompanhada pelos amigos. O chão estranhamente afundara, como se estivesse se soltando das quatro paredes. Pulando agilmente, os três se agarraram naquilo que parecia ser o portal de uma porta em pedaços. Forçaram e alcançaram o corredor, o importante agora era serem rápidos e escapar antes de serem esmagados. Cheio de desenhos góticos nas paredes, que não puderam ser apreciados enquanto visitaram o local à noite, Eros avistou uma esquina mais adiante. Ao chegarem lá, depararam-se com a sorte: uma escada gigantesca. O ruivo sentou-se de lado no corrimão largo e polido de granito e escorregou rapidamente. Instantes depois, respectivamente, fora seguido por Lee e Nina. Em espiral, eles deslizavam e também viam o castelo em seus últimos pedaços, mas para atrapalhar, faltando descer uns últimos dois andares, pedaços do andar anterior esmagaram o restante dos degraus. Com a passagem bloqueada, eles teriam de procurar outra maneira de continuar.
- Água? – Disse Lee, assustado. Ele observava que o primeiro andar estava inundado e com aquilo, eles poderiam pular sem se machucar... Demais. – Por aqui! – E assim o oriental jogou-se, mergulhando em uma água terrivelmente fria.
- Ei, espera!
- Espera nada, vai logo! – E agarrando Nina pela cintura, Eros a jogou e em seguida também pulou. Nadando rapidamente e guiados por Lee que já ia bem mais a frente, acharam outro corredor extenso e com uma saída bem clara no final. A forte correnteza os arrastava para lá, porém tinham de tomar cuidado, pois pedaços grandes de mármore estavam no caminho e entrar em choque com aquilo... Iria ferir pra valer. Próximos uns dos outros e próximos também da imensa saída, Nina notou curiosamente:
- Espera, essa saída... – Ela parou um instante para respirar. – AONDE ela vai dar mesmo?
- Ela vai dar... – Lee observou e viu que iriam cair de uma altura absurda, pois a água fazia uma espécie de “curva”, caindo em uma abrupta queda livre. – PRA BAIXO!
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