The Game
4 Parte 1 - Capítulo 3 - Retorno à Realidade
Uma voz no vazio. De quem era aquela voz? Ou melhor... era mesmo uma voz? Ou apenas algum som distante? Não. Era uma voz, com certeza. Mas o que ela dizia? Hélcias fez um enorme esforço de concentração. A mente ainda imersa na escuridão. Agora reconhecia: era a voz de Alvim. O que ela dizia? Era difícil de dizer. Mas ainda assim tentava compreender. Aos poucos, a voz distante, quase um sussurro vindo de outro mundo, ia se firmando na mente de Hélcias. Era seu nome. Alvim chamava-o. De onde? De onde vinha aquela voz? Não via nada. O mais puro vazio. Confusão. A consciência parecia o ter abandonado. Mas... ia voltando. Aos poucos o jovem novamente ia sentindo seu corpo. Estava com o dorso deitado, mas o restante do corpo estava certamente sentado. Podia sentir o rosto em algo duro e foi então que finalmente se deu conta de que seus olhos estavam fechados.
Abrir os olhos exigiu um enorme esforço por parte do jovem. Aos poucos as pálpebras se separavam, para logo depois se fechar. Luz. A luz incomodava. Ainda assim, a voz distante do amigo ficava cada vez mais próxima. Precisava acordar. Abrir os olhos. Se mover. Novamente as pálpebras se afastavam. As mãos, apoiadas ao lado do dorso, fechavam em punhos cerrados. Ele estava acordado. Estava consciente. Estava vivo. Agora, só faltava convencer seu corpo disto. Aos poucos, se levantou. As forças voltando com muito vagar, mas ainda o bastante para se erguer. Todo o corpo parecia mole quando este finalmente sentou-se plenamente ereto. E, com um olhar confuso, olhou em volta, distinguindo quase uma dezena de silhuetas ao seu redor.
–Hélcias! – Foi Alvim quem gritou. Tinha uma vontade imensa de simplesmente abraçar ao amigo que vira cair sem motivos, mas precisava se conter. Não sabia o estado do menor e qualquer movimento brusco demais poderia ser perigoso.
–Al... vim?! – Ele respondeu, sem forças ainda – O que... aconteceu?
–Você desmaiou – Alvim respondeu, sério – Você e o Duo tinham acabado de pegar os decks quando você simplesmente caiu na mesa. Como está se sentindo?
–Eu... cai... – Hélcias tinha obvias dificuldades para lidar com aquela informação. Aos poucos a consciência plena ia voltando. Lembrou-se de ver Duo pegar as cartas e depois... depois o que? A mente era ainda um pouco confusa. Turva.
–Hélcias! – Alvim gritou, trazendo o amigo de volta à realidade. O jovem parecia estar imerso em seus pensamentos e Alvim temia que ele fosse desmaiar de novo – Cara, como você tá se sentindo?
–A ambulância está a caminho – Quem falava era um homem que já aparentava estar chegando aos trinta. De cabelos negros e postura rija, trajando calças jeans e uma camisa vermelha, o atendente e dono da loja se aproximou, afastando as pessoas, que agora cercavam Hélcias – Vamos, deem espaço pra ele respirar – Ele dizia, visivelmente preocupado.
Hélcias pensou em dizer que não precisava ir ao hospital. Que pedir uma ambulância era um exagero. Mas dado que mal tinha forças para falar essas palavras com alguma coerência, talvez apenas devesse se deixar examinar. Olhou para a mesa. As cartas ainda na mesma posição em que estavam logo após o duelo com Alvim. E, então, algo em sua mente despertou. Uma lembrança. Uma lembrança bem recente. O duelo com Duo. A sala vazia. O teto infinito. As units flutuando no vazio. Logo, uma expressão de puro terror ia se pondo na face do rapaz.
–Duo... cadê o duo? – Conseguiu formular, após rapidamente passar o olhar pela loja.
–Ele saiu – Alvim respondeu – Quando você desmaiou, tentaram ligar para a emergência, mas por algum motivo a ligação não era completada. Dai o Duo se ofereceu para ir buscar ajuda onde conseguisse. Já deve fazer uns três minutos que ele saiu correndo.
–Mas... a ambulância...
–Acabei de conseguir completar a ligação – O atendente explicou, entendendo a confusão de Hélcias – O que quer que estivesse ocorrendo, foi consertado. Ela deve chegar aqui em uns dez minutos. O que você está sentindo?
–Eu... – A cabeça latejava. Se o que eles diziam era a verdade, então há quanto tempo estava desacordado? Entre a comoção causada pelo seu desmaio, até tentarem ligar para a emergência e perceberem que ninguém conseguia... Com Duo saindo para buscar ajuda... Cinco minutos? Dez minutos? Vinte? – Eu... eu não sei... – Hélcias fez menção de se levantar. Estava confuso. Mas foi prontamente impedido por Alvim, a quem olhou com certo espanto – Alvim...
–Você devia ficar sentado. Descansar – Alvim explicou-se, a mão segurando o ombro do amigo – Não está em condições de ir a lugar algum.
Hélcias não gostava daquela situação. Sentia-se peso. Preso novamente àquela cadeira. As lembranças ficando mais e mais claras. Como tentara se levantar e não conseguiu. De onde elas vinham? Se ele desmaiara antes mesmo de começar o jogo, como podia ter aquelas lembranças? Não importava. Não agora. Eles estavam lá. E eram bastante desconfortáveis. Ele precisava fazer algo. Precisava se levantar. Pelo menos se levantar.
–Alvim, por favor, só... só me deixa ir no banheiro um pouco... ta?
–Hélcias... – Alvim podia sentir a urgência na voz exausta do amigo – Tudo bem – Respondeu Sério – Quer ajuda pra se levantar? Ou pra ir até lá? – Perguntou. Queria ajudar o amigo, mas também sabia que uma das coisas que ele mais precisava agora era respirar o próprio ar um pouco.
–Não precisa... – Hélcias disse. Se levantando. As pernas trêmulas, mas firmes o bastante – Eu... vou ser rápido...
O banheiro ficava aos fundos da loja. Uma única entrada, com o quase universal símbolo de “masculino” formado por um boneco azul em posição de sentido estampado na porta, dava acesso a uma área com três cabines e duas pias. Após prometer não demorar demais, Hélcias entrava naquele espaço, imediatamente indo até a pia mais à esquerda. Seu primeiro ato foi encher as mãos com um pouco de água
O que foi aquilo? Aquelas lembranças... Foi tudo um sonho? Pensava, enquanto jogava um pouso de água no rosto. Mas é claro. Que outra resposta havia? Um monte de alucinações vívidas, causadas pelo desmaio. Com certeza era isso. Mas, então, porque desmaiara? E isso importava? Pessoas desmaiam, não? Talvez fosse o calor... Desidratação... Fosse o que fosse, logo algum médico poderia dizer o que aconteceu. Era melhor não pensar a respeito. Sim. Devia ignorar. As perguntas e... Aquele pesadelo. Afinal, não passou tudo de ilusão. E novamente uma quantia de água lhe atingia o rosto. Foi então que, nessa terceira passada de água no rosto, Hélcias notou um fato estranho. Pendurado em seu pescoço, estava ainda seu velho colar. O estranho, porém, é que agora ele distinguia duas pedras de ágata vermelha presas a este.
Neste momento, a porta se abriu. Pelo espelho à sua frente, Hélcias viu entrar no banheiro um homem. Devia ter próximo da sua idade, talvez um pouco mais velho. Usava uma bermuda marrom e camiseta combinando. Os cabelos negros precisavam de um corte e a expressão era séria. Ele se aproximou e ligou a torneira, lavando de leve as mãos.
–Não foi um sonho – As palavras ditas com tranquilidade arrepiaram a espinha de Hélcias.
–Como... assim?
–O que acabou de acontecer – Ele respondeu, como se aquela descrição vaga pudesse servir de explicação – Não foi um sonho. E vai acontecer de novo.
–Eu não sei do que você está falando – O homem era visivelmente maluco. Hélcias virou-se e, sem pensar em enxugar as mãos, dirigiu-se para a saída.
–Eu estou falando da partida que vocês dois acabaram de ter – A frase certamente atraiu a atenção de Hélcias, que parou em frente à porta – Sabe? Aquela em que as units que vocês estavam usando se materializaram – Embora Hélcias não pudesse ver, o homem agora se virara, encarando as costas do jovem.
–Eu... eu não sei do que você está falando – Repetiu. Por que repetiu aquilo? É claro que sabia! Tinha acabado de ver acontecer! Não. Não, não tinha. Tinha, sim, acabado de ter uma série de alucinações causadas por algum tipo de curto-circuito em seu cérebro. Só isso.
–A negação pode te ajudar a manter a sanidade... Mas ela não vai te proteger na próxima vez que isso acontecer – O homem se aproximou. E, sem aviso, entregou algo ao jovem. Um cartão, que Hélcias não ousou ler agora – Sua ambulância está pra chegar. Se quiser resposta sobre o que aconteceu aqui, me procure neste endereço. Estou lá todos os dias até as três da tarde.
E sem dar chance de réplica, o homem deixou o banheiro. Por sobre o barulho da ambulância que se aproximava, o estupefato Hélcias deu uma rápida olhada no cartão. Um endereço, seguido do logotipo de alguma loja: Fighters!
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A tarde de Hélcias foi longa. Ou ao menos assim pareceu. Após exames prévios, a equipe de atendimento a emergências colocou o jovem na ambulância e o levou ao hospital, visto que ele ainda apresentava sinais de extremo cansaço, suor frio, tontura, entre outros problemas que o próprio Hélcias não sabia dizer se eram ainda consequência de seu recente desmaio ou se eram frutos da estranha conversa que tivera no banheiro. Fosse como fosse, após pouco mais de uma hora de rápidos exames e repouso, ele recebeu alta. Com condição estável e a falta de leitos que o hospital para onde fora levado enfrentava não havia nada de excepcional nesta decisão. Infelizmente, porém, os médicos não conseguiram precisar com total certeza o que causara seu desmaio, atribuindo-o a uma provável combinação de calor e desidratação. Assim, com a recomendação de beber bastante água, Hélcias deixou o hospital.
Alvim fizera questão de acompanhar a recuperação do amigo. Não tinha nada de importante que precisasse fazer ou que não pudesse adiar e o choque de ver o companheiro simplesmente cair ao seu lado ainda o afetava. Queria ter certeza de que o jovem estava bem e, após deixarem o hospital, ainda o acompanhou até em casa. O que não era incomodo algum: ambos moravam no mesmo quarteirão, com a casa de Alvim quase no meio da rua, enquanto que Hélcias morava em um apartamento no prédio ao fim desta. Assim, após insistências da parte de Hélcias de que estava bem e de que apenas queria descansar um pouco, Alvim despediu-se do amigo e partiu para sua casa.
Agora, estava sentado em sua cama. A casa vazia, como ficava na maior parte do tempo, naquele período do ano. Em silencio, o rapaz tentava se acalmar. Desde a estadia no hospital, havia conseguido retomar o fôlego e o coração voltara a bater num ritmo aceitável. A ansiedade ia diminuindo, mas ainda estava longe de desaparecer. E, embora fizesse o possível para ignorar aquelas lembranças, elas continuamente voltavam. Mesmo atirando o cartão que aquele estranho sujeito o deu no primeiro lixo que encontrou não ajudava a fazê-lo parar de pensar que talvez, só talvez, ele devesse tentar procurar explicações.
Não. O que estava pensando? Não havia nada a explicar: o calor o fez desmaiar e então teve uma série de alucinações. Foi o que o médico dissera, afinal, ainda que Hélcias tivesse convenientemente se esquecido de mencionar a parte das alucinações. Mesmo assim, se as tivesse mencionado o médico certamente diria que foram fruto do desmaio. Sim, com certeza ele diria isso. Não havia motivos para procurar o que quer que fosse. Tinha já todas as respostas e devia era esquecer aquele dia o quanto antes.
–Você devia ir.
Hélcias deitou na cama. O quarto às escuras. Fechou os olhos. Estava cansado. Exausto. Precisava de descanso. Já fazia algum tempo que a tarde findara e a noite começava a avançar. Queria dormir. Quem sabe, quando acordasse, todos aqueles pensamentos e lembranças não desapareceriam? Sim, com certeza desapareceriam.
–Ignorar a realidade não vai te proteger dela.
Hélcias estendeu a mão à gaveta do criado mudo ao lado da sua cama. Pegou um frasco com alguns comprimidos. Despejou alguns na mão e os tomou a seco, deitando a cabeça no travesseiro logo em seguida. Em breve estaria dormindo.
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