The Game

5 Parte 1 - Capítulo 4 - O Começo de um Novo Dia


De bermuda jeans e camiseta branca, o costumeiro colar balançando conforme o andar, Hélcias se dirigia para a mesma loja de card games que sempre visitava. A noite fora bem dormida, mas passar a manhã isolado em casa foi o máximo que aguentou. Precisava distrair-se. Relaxar. Jogar um pouco iria lhe ocupar a mente. Chegara a pensar se deveria voltar lá depois das coisas que aconteceram no dia anterior, mas terminou por convencer-se de que o quanto antes pudesse ter um dia de jogo normal antes seria capaz de definitivamente classificar os problemas de ontem como frutos de sua imaginação. Ao passar próximo ao beco que iniciava o quarteirão onde ficava a loja, contudo, ele rapidamente se arrependeu de sua decisão. Uma sensação ruim. Uma mão o puxando, atirando-o ao chão do beco. A mala que carregava amortecendo levemente sua queda.

–Mas o que... – Prestes a gritar por explicações, o olhar turvo de Hélcias cruzou com o familiar rosto. Uma expressão de medo dominando sua face – D-Duo?!

–Olá Hélcias... Sentindo-se melhor? – A pergunta era claramente cínica – Desculpe, acho que ontem acabei me esquecendo onde a loja ficava e não consegui arrumar ajuda... – A expressão de Duo claramente não era amigável. Estava irritado, beirando o furioso.

–Tudo bem, vamos deixar ontem pra lá... – Hélcias conseguiu falar. A voz trêmula, claramente assustado. Conforme Duo dava alguns passos em sua direção, Hélcias tentava se afastar, ainda sem conseguir se levantar.

–Oh, eu temo que isso não vai poder acontecer – Duo replicou, cada vez mais próximo – Você vê, nós dois temos alguns assuntos inacabados, entende? – Duo parou de caminhar. O final do beco já estava às costas de Hélcias, que não conseguia ver saída – Vamos. Pegue seu deck.

–Meu... deck? – Hélcias repetiu, como se não entendesse o sentido naquelas palavras.

–Sim imbecil, seu deck. Você está com ele, não está? – Duo acrescentou, perdendo a paciência – Pois eu sugiro que obedeça e pegue logo aquela porcaria. Nós vamos fazer um pequeno joguinho.

–Jo... go? – De repente, Hélcias compreendeu o que Duo queria dizer. A expressão de terror se tornando pânico – Não... Não, não! D-de novo não, eu não vou! – Gritava.

–Você vai por bem ou por mal, agora se apronte logo ou eu...

–Ou você o que, Duo? – Ambos os olhos se dirigiram para a entrada do beco. Caminhando a passos lentos, em total calma, estava um homem. Jovem, ainda. Usava roupas leves: uma bermuda marrom e uma camiseta azul sem estampas. O cabelo bem agradeceria alguns cortes. Apesar de o ter visto por pouco tempo, Hélcias podia dizer que aquele era o exato mesmo homem que havia falado com ele no banheiro no dia anterior – Por favor, continue Duo. Vai fazer o que? – Ele tornou a perguntar. A voz firme.

–Fique fora disso Esídio. Ninguém te chamou aqui – Duo respondeu, ríspido. Aparentava um pouco de apreensão diante da figura do recém-chegado.

–Você bem sabe que eu não preciso de convite, Duo – Aquele que atendia pelo nome de Esídio respondeu. Estava calmo, ainda que seu tom fosse firme. E, após uma breve pausa, acrescentou – Dê o fora daqui. Agora!

A expressão de Duo era de claro desconforto e irritação. Ao mesmo tempo, porém, tinha traços de apreensão e medo. Quem quer que fosse aquele homem, não parecia ser alguém a quem Duo estava disposto a irritar.

–Não se cansa de bancar o protetor dos newbies? Ora vamos, você sabe como isso vai acabar, não sabe? – Duo replicou, após uma pausa breve. Apesar da expressão nervosa, ainda mantinha um sorriso cínico.

–Duo, deixe eu te dizer uma coisa... – Esídio replicou. O tom calmo e firme mantinha-se predominante – Você vai enfiar o rabo entre as pernas e sair deste beco feito o covarde que é antes que eu fique ainda mais irritado. E se por qualquer chance eu ficar sabendo que você encostou um só dedo no novato de novo eu vou pessoalmente garantir a sua anulação. Você me entendeu ou eu preciso dar mais explicações?

Hélcias não sabia o que pensar daquela situação surreal. A tensão crescente, embora os únicos que aparentassem alguma apreensão fossem o próprio Hélcias e Duo. Este ultimo, contudo, estava excepcionalmente tenso. Os dentes claramente trincados e as mãos fechadas em punhos cerrados. Os olhos raivosos encarando ao recém-chegado. Sua mente claramente considerando todas as possibilidades que se abriam perante ele. Contudo, ao final, ele pareceu relaxar o corpo.

–Hunf... – Após o que pareceram horas de silêncio tenso, embora nem um minuto inteiro deveria ter se passado, Duo em fim deixou escapar um suspiro de resignação – Você não muda mesmo Esídio. Bom... só não queira chorar depois – Duo completou, enquanto caminhava para a saída do beco – Só espero que tenha em mente que não pode protege-lo para sempre – Acrescentou, já na saída do beco – Se não eu, outros virão. Esse garoto já está morto. Ele só não sabe disso ainda.

As palavras arrepiaram a espinha de Hélcias, que viu Duo deixar o beco. Ao mesmo tempo Esídio aproximou-se, estendendo a mão ao jovem. Sua expressão mudara. Apesar de ainda claramente preocupado e sério, o mais velho se esforçava para manter um sorriso gentil. Acanhado, porém já mais calmo, Hélcias aceitou a ajuda e levantou-se sem grandes dificuldades.

–Er... hum... Obrigado... – Hélcias disse, sem saber bem o que comentar.

–Hum... – Esídio meneou um aceno com a cabeça e ficou em silêncio por alguns segundos. Uma expressão bastante séria – Eu... queria dizer que não foi nada, mas esse não é o caso. Se eu não tivesse aparecido agora, você provavelmente... – Ele interrompeu a frase ai, escolhendo bem suas palavras – Você estaria com grandes problemas agora.

–Eu... eu sei – Hélcias declarou, abaixando a cabeça. Pode ver a expressão de Duo. Ele estava irritado. Muito. É difícil de pensar o que poderia ter acontecido se ambos não tivessem sido interrompidos. Sério, Hélcias pegou seu celular.

–Vai ligar para alguém? – Esídio perguntou, confuso com a atitude do jovem.

–Para a polícia – Hélcias declarou, desbloqueando o aparelho touch-screen e abrindo o aplicativo do telefone – O Duo ainda deve estar nas redondezas. Se chamar a polícia agora, talvez eles ainda o peguem...

–Pelo que? – Esídio respondeu, sério. A pergunta chamando a atenção de Hélcias, que exibiu uma expressão de estupefação – No que concerne à provas físicas, nada aconteceu aqui – Ele disse, procurando se explicar – Não há câmeras na região, ou testemunhas que comprovem que você foi arrastado para o beco contra sua vontade.

–Como assim não há testemunhas? – Hélcias perguntou, confuso – Você viu o que aconteceu!

–Na melhor das hipóteses, é a nossa palavra contra a dele – Esídio replicou, para o desagrado de Hélcias – E qualquer um que me investigar minimamente vai descobrir que eu odeio aquele babaca, então eu não sou o que se chamaria de uma testemunha confiável. E depois, na melhor de todas as hipóteses esse caso seria arquivado como uma briga de beco.

–E? – A indignação de Hélcias crescia a cada palavra que o outro falava – Eu deveria simplesmente deixar pra lá? – Havia algo de errado naquilo. Quem testemunha uma tentativa de agressão e fala para a vítima não procurar a polícia? – O que está acontecendo? – Hélcias perguntou, por fim – Por que não quer que eu chame a polícia?

–Porque... – O mais velho pensou muito bem na resposta que daria, mas no fim decidiu contar a verdade. Após um suspiro, continuou, sério – Porque no minuto em que vocês dois ficarem frente a frente na delegacia, você vai desmaiar. E, dessa vez, não vai voltar a acordar, se entende o que eu estou falando.

–O que... você quer dizer? – Aquela conversa não estava indo pelos caminhos mais confortáveis e Hélcias considerava se não deveria simplesmente deixar aquele beco o quanto antes.

Esídio, por sai vez, não sabia bem como proceder. Imaginava que o jovem ainda estivesse assustado e honestamente não esperava que ele fosse aparecer na loja que havia indicado no dia anterior. Contudo, quanto mais tempo passasse maiores seriam os riscos. Um newbie sempre acabava por atrair veteranos. A menos que Esídio pudesse conversar com Hélcias logo, Duo teria plena razão: ele já estava morto e só não sabia. Contudo, era bastante provável que o jovem ainda estivesse em estado de negação. Precisa de tempo para convencê-lo de todas as coisas que precisava contar. E tempo não era algo que tinham sobrando.

–Me diga, Hélcias... quer tomar um café? – Ele perguntou, casualmente, para o espanto do mais novo – Tem um barzinho do outro lado da rua.

–O que? – Foi tudo o que ele conseguiu responder diante de uma proposta em um momento tão inusitado – Por que eu...

–Porque eu quero falar com você – Esídio respondeu, sério – Eu entendo que você esteja com medo, mas por favor. Me dê dez minutos e eu garanto que muita coisa vai começar a fazer mais sentido. Por favor?

Hélcias podia notar uma clara apreensão na voz do mais velho. Bem como uma urgência sincera. Não, o que estava pensando? Ele devia ligar para a polícia! Contar o que acontecera. Denunciar a agressão de Duo e talvez até comentar a aparente conivência desse estranho com quem falava. Por outro lado... Esídio de fato havia acabado de salvá-lo. Não havia qualquer motivo para crer que este lhe faria algum mal, ou para não ter uma conversa rápida. É... seria rápido. Dez minutos, não? Ouviria o que ele teria a dizer e, se não estivesse satisfeito, simplesmente pegaria o celular e ligaria para a polícia. Sim, poderia fazer isso. O que tinha a perder? Com um suspiro, ele guardou o celular no bolso.

–Dez minutos — Declarou Hélcias, com mais firmeza do que achava que tinha.

–Hum — Um aceno positivo com a cabeça foi a resposta dada por Esídio, com a mesma expressão séria que mantivera até então, ainda que claramente aliviado com aquele desenrolar das coisas — Obrigado — Completou.

–/-/-/-

O caminho para o pequeno bar, espremido entre outras duas construções maiores, ambas destinadas ao comércio dos itens mais variados, foi bem rápido. Como Esídio dissera, ficava literalmente do outro lado da rua. Ambos se sentaram e pediram cada um um café. A partir dai, contudo, um desconfortável silêncio se instaurou. Ambos sabiam do que aquela conversa trataria. E nenhum deles tinha certeza de como começá-la. As bebidas chegaram e, sorvendo-a em goles pequenos, ambos pareciam imaginar quando a outra parte daria início àquela conversa.

–Então... – Hélcias disse, disposto a quebrar o silêncio, logo após um gole de café – Sobre o que quer falar?

Esídio não respondeu de imediato. Olhava a sua própria xícara de café com certo pesar. Já esteve em outras situações como aquela e fazia alguma ideia das reações que teria ao longo daquela conversa, isso se se quer fosse capaz de completa-la. Precisava escolher as palavras com cuidado, mas também não poderia omitir demais. Precisava da atenção do mais novo, não de sua desconfiança.

–Queria falar sobre ontem – Esídio disse, em fim, após um longo suspiro. Imaginou que a abordagem direta e cuidadosa seria a melhor – E sobre o que aconteceu pouco antes de você desmaiar – Completou. A expressão séria fixada em Hélcias – Aquela sua partida com Duo...

–Não houve partida alguma – Hélcias declarou, claramente alterado. Ainda que esperasse aquele assunto, estava irritado. Tentava desde a tarde anterior esquecer o pesadelo que tivera e agora um completo estranho o fazia reviver aquelas memórias incômodas – Íamos jogar. Eu desmaiei. Se era isso o que tinha para falar, então acho que já podemos encerrar a conversa.

–Hélcias, por favor – Esídio estendeu a mão em sinal de apelo quando viu que Hélcias fazia menção de se levantar, pedindo para que ele se mantivesse sentado – Eu entendo que você esteja assustado. E entendo que você só queira acreditar que nada daquilo aconteceu, mas a verdade é que...

–A verdade é que nada aconteceu! – Hélcias disse, com firmeza. Estava começando a se irritar cada vez mais com aquela conversa – É, eu tive algumas alucinações esquisitas enquanto estava desmaiado, mas foram só isso: alucinações. Um monte de sonhos causados por algum curto circuito no meu cérebro ou sei lá. E nada mais.

–Você pode dizer isso e tentar se convencer disso – Declarou Esídio, fazendo o possível para manter a calma diante da reação do mais novo. Precisava aparentar toda a seriedade possível naquele momento – Mas eu sei que, lá no fundo, você não consegue acreditar que algo que parecia tão real seja fruto de... uma soneca.

–Puxa vida, você parece saber bastante a meu respeito, não é? – Hélcias replicou. Era uma boa noticia que àquela hora de um dia de semana os dois fossem praticamente os únicos clientes do bar, pois a cena já começaria a chamar a atenção se alguém estivesse mais perto – Sabe o que eu penso, o que eu sinto... Por que não fazemos assim, então: quer me convencer de que sabe o que aconteceu ontem? Pois bem. Por que não me diz, então, algo sobre a... partida – Fez um movimento de aspas com os dedos ao pronunciar a palavra – Quais units usadas, quais combos foram feitos, enfim, algo que somente alguém que viu aquela partida poderia saber? – Silêncio – É... eu imaginei.

–Eu não vi a partida – Esídio apressou-se em dizer, quando Hélcias fez nova menção de se levantar – Apenas os envolvidos podem participar do jogo...

–Ah, que conveniente, não é? – Debochou Hélcias

–Mas eu sei que ela aconteceu – Emendou Esídio. Precisava convencer o garoto logo, ou terminaria por vê-lo sair porta afora – E sei que você foi quem venceu. – Neste momento, ele olhou para o pescoço do jovem, onde ainda estava pendurado o colar de ágata vermelha, agora com duas pedras – Eu vou chutar... – Ele disse, vendo naquilo a oportunidade de que precisava – E dizer que, até ontem de manhã, esse seu colar só tinha uma pedra – As palavras pareceram atrair a atenção do jovem – Estou errado?

Aquelas palavras eram incômodas, como tudo naquela conversa. Desta vez foi Hélcias quem foi pego: não apenas de fato seu colar tinha originalmente apenas uma pedra, como até agora ele não conseguira ver uma só explicação para o surgimento da segunda. O melhor palpite é o de que teriam colocado a peça extra enquanto ele estava desacordado. Talvez tivessem encontrado a pedra jogada no chão e imaginaram pertencer ao jovem. De onde ela veio, neste cenário, seria de pouca importância e, até que alguém reclamasse a posse da pedra sobressalente, o assunto poderia ser dado por encerrado. Ou, ao menos, foi a conclusão à qual Hélcias chegara naquela manhã, enquanto pensava sobre a existência daquela pedra extra.

–E daí? – Ele respondeu, após alguns instantes de silêncio – O que isso tem há ver com qualquer coisa? – Perguntou, sem fazer qualquer ligação daquele estranho fato com aquela estranha conversa.

–Ao vencedor, as batatas – Respondeu Esídio, citando a popular frase de um conto Machado de Assis – A vitória sempre traz consigo algum prêmio. No caso do jogo, o vencedor obtém a pedra do oponente. O fato de você ter duas quando antes tinha apenas uma me garante que você foi quem venceu aquela partida. Bom, isso... e o fato de você estar acordado agora.

–O fato de eu... Mas o que diabos isso quer dizer? – Por que ainda estava sentado ali? Aquela conversa já passara dos limites da sensatez humana há tempos! Por mais agradecido que estivesse pela ajuda que recebera daquele sujeito, ele certamente deveria ter algum transtorno mental muito forte para fazer as insinuações que fazia – Olha, já chega. Você me pediu dez minutos e eu tenho certeza de que eles já passaram.

–Você e Duo se enfrentaram no que chamamos de Campo – Esídio começou a dizer, aparentemente ignorando a irritação do menor. Precisava ser rápido – Um Campo é... como uma dimensão paralela, fora do nosso tempo e espaço. Você deve ter notado. Um espaço vazio, branco. Geralmente é onde os monstros aparecem...

–Já chega! – Aquilo já era demais. Dimensões paralelas? O que viria depois? Apesar de ter de admitir que era estranho a tal descrição de um espaço branco vazio, aquilo não devia passar de uma infeliz coincidência. Já bastava. Era hora de sair. Talvez mesmo de voltar a tentar ligar para a polícia – Obrigado pelo que fez, mas já fez o bastante. Adeus – Declarou Hélcias, levantando-se e dando alguns passos em direção à saída.

–Hélcias! – Esídio gritou. Teria de ser rápido. Tinha uma só chance e não poderia falhar. O jovem virou-se, como que para praguejar qualquer coisa contra a insistência do mais velho. Não importava. Essa era sua chance – Desculpe.

Hélcias estava prestes a perguntar do que ele estava falando agora quando uma cena que só poderia ser descrita como completamente surreal se desenvolveu diante de seus olhos. Nada. O mais puro vazio. Foi como se num simples piscar de olhos todo o bar... não, todo o mundo, desaparecesse. Como num mal efeito especial de algum programa de baixo orçamento, sem qualquer tipo de grande efeito luminoso para indicar a transição, o bar onde estava até poucos segundos era agora um enorme espaço branco vazio.

Vazio? Não, não era vazio. Havia algo lá. Em meio à sua estupefação, Hélcias pode distinguir algo à sua frente: uma plataforma. Branca, quase mesclada à paisagem desolada. Porém visível. Um pedestal de mármore que se estendia até a altura de sua cintura. No canto deste, ainda, havia algo mais: se baralho. Aquele sleeve protetor... Aquele era definitivamente seu deck de Vanguard.

–Mas... o que...

–Confuso, não é? – Olhando para frente, Hélcias notou a distinta figura de Esídio. Estava há alguns metros de distância e tinha a metade de baixo do corpo encoberta por um pilar idêntico ao de Hélcias. Ainda, era possível distinguir um baralho em um dos cantos daquele pilar. Um arrepio cruzou a espinha de Hélcias – Bom, você não me deixou escolha.

–Eu não... Mas o que diabos está acontecendo aqui? – Hélcias gritou, consternado. O pânico crescendo – Onde... onde nós estamos? C-como... Como viemos parar aqui? Pelo amor de Deus, o que está acontecendo?!

–Eu te disse – Proclamou Esídio. Tinha de ser rápido. Estavam ficando sem tempo e, de qualquer forma, se ficassem tempo demais ali era possível que o mais jovem entrasse em estado de choque por conta do pânico – Isto aqui é um Campo, um espaço fora do tempo-espaço. E o lugar onde acontecem os Jogos. Mas não se apegue a detalhes agora. Isso vai acabar bem rápido.

Terror. Era tudo o que Hélcias sentia. As imagens das units flutuando no vazio... num vazio exatamente como aquele ainda eram vívidas em sua memória. Pela primeira vez, permitiu-se pensar que, de fato, aquilo era real. A bem as verdade, sabia que Esídio tinha razão. Sabia que, bem no fundo, não podia acreditar que o que vivenciara no dia anterior era falso. Mas de novo, não são assim todas as alucinações? Não são assim todos os sonhos? Quantas vezes não nos pegamos tendo certeza da veracidade de algo que apenas sonhamos? Ainda assim, existem coisas de cuja existência não duvidamos. Lembranças fortes demais para serem meros frutos de nossa imaginação. Marcantes demais. Frescas demais. Reais demais. Aquilo era real. E este simples pensamento apavorava-o.

Seria ele forçado a outro daqueles jogos? Não. Não podia. Tinha de fugir. Mas para onde? Como? Não havia nada em direção alguma. Teria de jogar? Era sua única opção? Não, não podia ser. Precisava fugir. Para algum lugar. Qualquer lugar. Fechou os olhos. Sim. Fugiria para sua própria mente. Para dentro de si. Era mais confortável. Mais seguro. Bastava fechar os olhos e poderia ignorar aquele mundo. Aquela realidade. Aquele medo. Sentiu uma sensação familiar. Quente, como se alguém o protegesse. Ela ia ficando mais forte. Mais e mais forte. Contudo, se dissipou.

–Eu me rendo! – Esta declaração, dada em alto e bom tom, vinha de Esídio. Abrindo os olhos, Hélcias estava estupefato. Não teria de lutar? Não haveria jogo? Se o perdedor havia se declarado, então estava tudo acabado, não é? E assim o era. Tão rápido quanto apareceu, assim também todo aquele espaço sumiu. O bar retornava. Tudo voltava ao normal. Estava tudo bem.

Esta constatação fez as pernas de Hélcias fraquejarem e Esídio foi prontamente ao seu socorro, amparando ao jovem antes que este caísse. Sentou-o em uma cadeira e, antes que ele fosse capaz de esboçar qualquer reação, Esídio segurou sua mão e a levou até o pescoço, na região do colar. Os olhos de Hélcias se arregalaram ainda mais, se é que isso era possível. Onde até então duas pedras estavam presas, sua mão podia agora sentir três.