The Fire Inside
4 Time to kiss the world goodbye
Notas iniciais
Elena descansou o copo vazio no balcão da cozinha. Aquele já era o seu quarto copo seguido de água, e, apesar disso, sua sede não ia embora. No seu inconsciente, Elena sabia que poderia tomar litros de água e ainda não ficar saciada. Porém, o estado de negação em que se encontrava não a permitia admitir que a sua sede era de outro tipo de líquido.
Stefan falara apenas meia dúzia de palavras desde que Damon saíra. Elena gostaria de consolá-lo, de atenuar aquelas feições tão sofridas. A culpa realmente devia estar destruindo-o por dentro. No entanto, ela não fazia ideia de como ajudá-lo sem mentir ou fingir algo que não estava sentindo. Stefan sabia claramente que Elena nunca quisera se transformar em uma vampira. Se ela tivesse tido a chance, preferiria morrer a viver aquela vida.
E então uma ideia iluminou as trevas que pareciam ter tomado conta de seus pensamentos. Ela não precisava completar a transformação. Bastava não se alimentar. Ela possuía, sim, a chance de escolher qual caminho tomar. Não beberia nenhuma gota de sangue e morreria em algumas horas. Teria o destino normal de todos os seres vivos, destino esse que o sangue de Damon teria apenas atrasado por um dia.
Elena se perguntou se teria o apoio de Stefan nessa decisão. Ele sempre respeitara as suas opiniões, o que, conforme Damon dissera, levara-a em direção à morte. Será que, depois de chegar a esse extremo, Stefan ainda a apoiaria incondicionalmente?
Elena fez uma nota mental, no entanto, para não deixar Damon saber, de forma alguma, sobre esses seus planos suicidas. Se ele soubesse, certamente a impediria, sempre com a mesma justificativa de “protegê-la”.
– Como você está se sentindo?- perguntou Stefan de repente, acabando com o silêncio e interrompendo os pensamentos de Elena.
– Minha cabeça dói ainda e a sede não passa... – ela pigarreou tentando amenizar a ardência na garganta.
Stefan, então, se aproximou lentamente de onde a garota estava, ainda com o mesmo sofrimento nos olhos. Segurou o rosto de Elena entre suas mãos, deu-lhe um leve beijo e depois a abraçou com força. Elena encostou seu rosto no ombro de Stefan e deixou que a tristeza que sentia progressivamente aparecesse. Tudo começou com algumas lágrimas silenciosas, até que ela não conseguia mais segurar seus soluços.
Elena Gilbert nunca sentira medo de morrer. Ela chorava, no entanto, pelo futuro que gostaria de possuir. Pela faculdade que gostaria de cursar, pelo casamento que gostaria de ter, pelos filhos que gostaria de trazer ao mundo. Mesmo que ela decidisse completar a transformação – o que ela estava determinada a não fazer –, o futuro que teria não seria como o desejado.
Depois de abrir uma pequena fresta para esses pensamentos, Elena não conseguiu mais conter o seu desespero. Seu estado de negação tinha ido por água abaixo. Ela se deixou dominar pela dificuldade de sua escolha. Se não completasse a transformação, ficaria eternamente longe de Jeremy, Stefan, Damon, Bonnie, Caroline, Matt... E, se completasse, viveria uma eternidade como um ser das trevas, lutando todos os dias para não se deixar cair em tentação. Ela nunca seria capaz de se perdoar se matasse alguém, e não poderia viver com o medo pendente.
Stefan alisava lentamente o longo cabelo castanho da garota enquanto ela soluçava em seus braços. A dor dela multiplicava-se dentro dele. Damon estava certo. Elena deveria ser a prioridade sempre. Ela sofreria com a perda de Matt, mas ela sofreria muito mais se machucasse alguém. E, com muita tristeza, Stefan tinha de admitir que isso acabaria acontecendo.
Ele ouviu um barulho na porta e logo viu Jeremy entrando na cozinha.
– Elena? – ele chamou preocupado, ouvindo os soluços da irmã.
– Oh, Jeremy! – ela lamentou-se, afastando-se de Stefan e correndo na direção do irmão.
Os dois se abraçaram intensamente, e, apesar de não enxergar o rosto de Elena, Stefan ainda podia ouvir seus soluços desesperados. Depois de alguns segundos, Jeremy afastou-se o suficiente para segurar o rosto de Elena e olhá-la com cuidado.
– Vai ficar tudo bem – ele sussurrou, seus olhos cheios de lágrimas. – Você vai passar por isso.
Antes que Elena tivesse tempo de esboçar qualquer reação, o celular de Stefan tocou. Com a sua audição agora mais aguçada, ela conseguiu ouvir fracamente a voz carregada de sarcasmo do outro lado da linha.
– Tic tac, Stefan. O tempo está passando. Faça alguma coisa. – e então Damon desligou.
Stefan guardou o celular e continuou parecendo impassível, enquanto Elena agia como se não tivesse ouvido nada. Aquele era um assunto muito delicado, e eles precisavam de tempo para discuti-lo. Elena abraçou Jeremy novamente antes de se afastar.
– Eu vou subir e me refrescar um pouco – sem esperar resposta, a garota subiu apressada os degraus de sua casa.
Assim que entrou no banheiro, chaveou as portas que davam para o seu quarto e para o de Jeremy e ligou a água do chuveiro. Assim que o banheiro estava tomado pela fumaça, ela enfiou-se debaixo do jato quente, deixando seus músculos relaxarem lentamente. No entanto, seus pensamentos estavam a mil por hora, e não a deixavam relaxar. Elena deixou-se levar por eles durante alguns minutos, relembrando cenas de Damon, Stefan e de outros vampiros que conhecera, até que teve certeza de sua decisão.
Desligou a água decidida a se despedir de todos e não completar a transição. Secou-se rapidamente com a toalha e, quando estava saindo do box, sentiu uma leve tontura que a fez se segurar na parede para permanecer de pé. Elena respirou fundo, tentando retomar o controle, e logo conseguiu caminhar novamente. Enquanto se vestia, pensou que a tontura deveria ser de fome. Não lembrava qual fora a última vez que comera alguma coisa.
Porém, quando Elena se abaixou para vestir sua calça, a tontura veio agora bem mais violenta. Ela perdeu completamente o equilíbrio e caiu com estrondo no chão frio do banheiro. Deitada, ela via o teto girar em uma velocidade que a nauseava. Ouviu batidas insistentes na porta e a voz de Stefan.
– Elena? Você está bem? Elena? – ele continuava batendo, e a náusea não permitia que Elena respondesse aos chamados.
E então ela ouviu o barulho de algo se quebrando e a porta se abriu. Ela notou vagamente que a maçaneta estava arrebentada enquanto Stefan se aproximava dela.
– O que houve, Elena? – ele perguntou preocupado, abaixando-se ao lado dela e ajudando-a a sentar. Ela respirou fundo e lentamente foi voltando ao normal.
– Tive uma tontura. – ela respondeu com a voz fraca.
– Você precisa se alimentar... – Stefan soltou um suspiro logo após pronunciar as palavras.
– Sim, faz horas que eu não como nada. Assim que me vestir vou... – no entanto, Stefan a interrompeu.
– Você sabe que eu não estou falando de comida, Elena. – a expressão dele era de tristeza ao falar a mais pura verdade para a garota à sua frente.
Elena encarou-o por alguns segundos, respirando fundo e tomando coragem para cumprir a decisão que havia tomado.
– Eu não vou me alimentar, Stefan.
O vampiro a encarou de boca aberta, sem conseguir disfarçar o choque em que se encontrava.
– Mas se... – a voz dele falhou. Porém, ele se recuperou rapidamente. – Se você não se alimentar você não sobrevive, Elena. Você sabe disso! – seu tom possuía uma pontada de desespero.
– Stefan, você respeitou as minhas decisões até aquela que seria a minha última, se não fosse o pequeno imprevisto do sangue de vampiro em meu sistema. Por favor, eu preciso que você respeite essa que de fato será a última. – ele abriu a boca para protestar, mas Elena não deixou que ele falasse. – Você me conhece, Stefan! Sabe que eu nunca me perdoaria se machucasse alguém... Imagine então se eu acabar matando alguém! – ela balançou a cabeça intensamente, como se tentasse afastar a ideia. – Eu não quero ter de viver nesse eterno autocontrole em que você vive, Stefan... Viver eternamente com medo de perder o controle.
Stefan encarou Elena por alguns segundos, em um silêncio atordoante. Quando a sua cabeça mexeu-se levemente em concordância, a expressão em seu rosto era de uma tristeza devastadora que sufocava o coração de Elena. Ele não conseguia se imaginar vivendo sem Elena Gilbert. E ela, mesmo que odiasse vê-lo naquele sofrimento, odiava muito mais a ideia de se transformar em um ser como ele.
– Eu sinto muito... – as palavras saíram quase inaudíveis dos lábios do vampiro. Elas transbordavam culpa, e Elena abraçou-o fortemente enquanto as lágrimas voltavam a escorrer pelo seu rosto.
– A culpa não é sua, Stefan... Você apenas fez o que eu lhe pedi, como sempre fez. Você salvou Matt, e isso conta muito para mim. – as palavras saíram um pouco entrecortadas pelos soluços de Elena. – Você foi maravilhoso para mim esse tempo todo. Você apareceu quando eu mais precisava e me deu um novo ânimo para viver. Eu vou ir embora feliz, Stefan.
Elena afastou-se para encará-lo e pôde ver as lágrimas enchendo os olhos dele também. Ela limpou com o polegar uma que começou a escorrer pela bochecha de Stefan e deu um sorriso fraco.
Após um bom tempo encarando Elena, tentando memorizar cada traço daquele rosto do qual ele sentiria falta para sempre, Stefan estendeu a mão para ela e ajudou-a a se levantar.
– Vamos, temos pouco tempo e você tem muitas despedidas pela frente.
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Algumas horas depois, Elena já falara com Bonnie, Caroline, Matt e Jeremy. Todos haviam chorado muito, principalmente Caroline, abalada também com a despedida que tivera com Tyler. Ela implorara muitas vezes para Elena repensar sua decisão, defendendo que não era assim tão ruim a vida que levava, mas Elena permanecera impassível. Matt, por sua vez, sentia-se extremamente culpado, e Elena tentou tranquilizá-lo da melhor forma que pôde. Jeremy, apesar de muito triste, respeitara a decisão da irmã. Aquela era a parte mais sofrida para ela: saber que deixaria Jeremy sozinho, uma vez que ele já perdera todos os outros. Mas ela sabia que Matt, que também acabara sozinho, cuidaria dele como um irmão mais velho.
A atitude de Elena durante todas essas despedidas surpreendera Stefan. Ela fora forte, não derramando uma lágrima sequer, apesar de estar se sentindo triste pelos amigos. Isso demonstrava o quanto ela estava decidida, e mesmo odiando a situação, ele sabia que aquela era a melhor alternativa. Elena nunca conseguiria conviver com a culpa que ele convivia.
Porém, a parte mais difícil ainda estava por vir. Ela deixara por último por saber que ele não teria muito tempo para impedi-la. Elena sentia-se extremamente fraca e tonta, mas fazia de tudo pra não aparentar. Ela queria deixar uma imagem forte, uma imagem decidida. Além disso, sua garganta ardia de uma forma inimaginável, ansiando por aquilo que nunca teria.
Elena respirou fundo antes de girar a maçaneta que segurava. Ela pedira para Stefan permanecer do lado de fora. A porta abriu-se lentamente e ela não viu ninguém na sala. Deu alguns passos e fechou a porta atrás de si, tendo de parar alguns segundos para retomar o equilíbrio. Com a sua audição já um pouco mais aguçada, Elena ouviu alguns ruídos no andar de cima.
Ela subiu as escadas lentamente, apreciando os detalhes daquela casa que conseguia surpreendê-la a cada nova visita, mesmo já tendo estado ali inúmeras vezes. Lá em cima, ela pegou a direção do quarto dele, cuja porta estava fechada. Parou em frente a ela, respirando fundo novamente. Porém, ao esticar a mão para abri-la, alguém do outro lado o fez mais rapidamente, e ela ficou imóvel, encarando a figura de Damon Salvatore parada à sua frente.
Elena ainda não o tinha visto tão de perto depois de começar a transição. Os seus traços pareciam ainda mais impecáveis, seus cabelos negros brilhavam sob a fraca luz e sua boca parecia esculpida, mas o que realmente a espantou foi a profundidade inigualável do azul de seus olhos, e ela perdeu-se neles por alguns instantes. Seria a última vez que os veria, então ela se deixou levar até o momento em que nova tontura a atingiu, e ela lembrou-se de sua missão ali.
– Estava indo exatamente lhe procurar. – ele disse enquanto a observava com cuidado, com uma expressão séria e preocupada. – Mas pela sua aparência você ainda não completou a transição. Você está pálida, Elena. Não deveria atrasar mais isso. – sua voz tinha um tom repreensivo.
– Era exatamente sobre isso que eu queria conversar com você, Damon. – ao pronunciar as palavras, ela relembrou-se da conversa do dia anterior. Gostaria de possuir mais tempo para poder tê-la de forma decente, não pelo telefone.
– Não se preocupe, Elena. Eu já deixei tudo arrumado para você. – ele deu um passo para trás, revelando o interior de seu quarto com um sorriso orgulhoso. Uma garota loira estava sentada na enorme cama sem nenhuma expressão, o pescoço já com marcas de presas de um dos lados. Damon abriu agora um sorriso torto. – Espero que você não se importe por eu já ter começado sozinho. – ele deu uma risadinha debochada. Elena, no entanto, permaneceu muito séria.
– Eu não vou fazer isso, Damon. – ela decidiu ser direta, sem enrolação, pois a fraqueza começava a tomar conta de seu corpo.
Por um milésimo de segundo, Damon pareceu surpreso. Depois, porém, ele assumiu uma expressão de descrença e suas palavras saíram arrogantes.
– Muito engraçado, Elena. Vamos, você não pode perder mais tempo. – ele tentou segurá-la pelo braço, mas ela se esquivou antes disso.
– Eu estou falando sério, Damon. Eu não vou completar a transição. Eu não vou conseguir conviver com a ideia de que machuquei alguém. – Damon analisou a expressão extremamente decidida de Elena, e ela pôde notar em seu rosto a progressiva alteração de humor.
– Você não está raciocinando direito, Elena! Stefan sabe disso?- ele perguntou exasperado, sua expressão ficando ainda mais transtornada ao ver a garota confirmar com a cabeça.
– Ele já me levou para me despedir de todos. Já está tudo decidido, Damon.
– E ele vai simplesmente deixar você decidir novamente? – Damon quase gritou, seus olhos azuis que antes haviam encantado Elena agora enegrecidos pela raiva que emanava dele. Ela era ainda maior do que aquela que ele demonstrara no quarto dela mais cedo naquele dia. – Ele já cometeu a mesma estupidez e deixou você nessa situação! Agora ele realmente vai seguir os seus planos suicidas? – a voz de Damon estava a cada palavra mais elevada e seu corpo estava todo tenso em função da fúria que sentia. As veias escuras sob seus olhos estavam saltadas e suas presas já estavam aparentes. Sua figura estava tão ameaçadora que faria qualquer ser humano comum sair correndo no mesmo instante.
– Isso porque ele me conhece, Damon! Ele sabe que isso é o melhor pra mim! – Elena começou a gritar também, irritada com a reação dele, mesmo que já a esperasse.
– O que é melhor para você? Morrer? – Damon perguntou aos gritos ainda.
Quando Elena abriu a boca para retrucar, a escuridão tomou conta de sua visão e ela cambaleou, chocando o lado esquerdo de seu corpo com o batente da porta. Em menos de um segundo as mãos de Damon a seguravam, mantendo-a de pé, e mais rapidamente ainda, ele a carregou até a sua cama. Quase inconsciente, Elena pôde ouvir o som da pele da garota sendo perfurada pelas presas de Damon, e logo em seguida o pulso dela foi pressionado contra seus lábios. Elena tentou se debater, fugir do sangue que escorria, mas estava quase sem forças, e o cheiro delicioso que o líquido emanava tornava quase impossível resistir, fazendo sua garganta arder mais do que nunca.
A escuridão começou a tomar conta de sua mente e seus pensamentos ficaram nebulosos, assim como os seus sentidos. A única coisa que Elena conseguiu sentir claramente em meio à quase inconsciência foi quando o sangue da garota atingiu a sua língua. A última lembrança que teve foi a de cravar suas recém adquiridas presas na pele da garota e sugar seu sangue com desespero, como se a sua vida dependesse daquilo.
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