The Fire Inside
11 The night has opened my eyes
Notas iniciais
Durante alguns segundos, Stefan encarou-a paralisado de surpresa. Foi só quando ele observou os olhos apavorados de Elena recaírem sobre a garota no chão que ele pareceu acordar para a urgência do momento. Ele se aproximou rapidamente de Vanessa, abaixando-se, mordendo seu pulso e forçando-a a beber o seu sangue. Elena continuou imóvel no mesmo lugar, parecendo nem respirar, a mesma expressão de terror tomando conta de seu rosto.
– Elena, preciso que você se limpe e vá cuidar do corredor enquanto eu a levo daqui. – a voz de Stefan era de comando, tentando demonstrar uma calma e um controle que ele não possuía naquele momento.
Sentindo-se como um observador externo, como se houvesse saído do próprio corpo, Elena encarou o próprio rosto no espelho enquanto aproximava-se da pia. Seus lábios estavam cobertos de sangue, que escorria pelo queixo. Apesar de sua expressão já ter voltado ao normal, abandonando as presas e as veias saltadas, ela sentiu como se encarasse um monstro no espelho. Abaixou, então, os olhos para as suas mãos trêmulas, também cobertas de sangue.
O líquido avermelhado que antes a levara ao êxtase agora lhe causou repulsa. Tomada por um desespero incontrolável, ela ligou a água rapidamente, colocando as mãos sob o jato e observando a pia ficar toda vermelha. Enquanto Elena se abaixava e usava-as para levar água até o rosto, suas mãos tremiam violentamente, molhando todo o balcão ao redor.
Quando se viu finalmente limpa, Elena se afastou da pia e saiu do banheiro, recusando-se a olhar para o local onde a garota estava deitada ao lado de Stefan. Ela espiou para fora, sem ver ninguém, e segurou a porta aberta para ele.
– Pode vir. – quando falou, sua voz também estava trêmula.
– Vou levá-la para minha casa, vá logo atrás de mim. – a voz ainda era de comando. Stefan tentava transmitir algum tipo de segurança para a garota que o olhava desesperada.
– Não! – ela exclamou quase imediatamente, logo se repreendendo internamente pela resposta súbita. Aquele não era um bom momento para arriscar se deparar com Damon. Ela pigarreou e tentou consertar. – Leve-a para a minha casa, posso cuidar melhor dela lá. – Stefan encarou-a por alguns centésimos de segundo, e então confirmou com a cabeça, achando melhor não contrariá-la naquele momento.
Ela observou Stefan pegar a garota nos braços e passar por ela, tomando a direção da porta no final do corredor, que levava para os fundos do bar. Elena olhou-o com apreensão enquanto ele cruzava a porta, perguntando com a voz rouca, quase sumida, sem saber se realmente gostaria de saber.
– Ela vai ficar bem?
Sem receber resposta, Elena viu quando a porta se fechou atrás de Stefan, e ficou a encará-la com desespero. Ela machucara aquela garota inocente, cuja única culpa havia sido cruzar-lhe a frente naquele momento em que a rejeição a desiquilibrara emocionalmente. Vanessa entregara-se ao charme de Damon, mas Elena sabia, mais do que ninguém, que ela não poderia receber a culpa por isso. Quem não se entregaria?
Ela saiu pelos fundos também, tomando a direção de sua casa. Quando chegou, alguns minutos depois, encontrou Stefan em seu quarto. Ele havia deitado a garota na cama, e rapidamente Elena percebeu que ele havia limpado o sangue antes espalhado no pescoço dela. Agora só se viam as inúmeras marcas, pequenas e circulares, das presas de Elena.
Ela atirou-se na poltrona do outro lado do quarto, tomada pela angústia. Com sua audição aguçada, ela podia ouvir o coração de Vanessa bater muito lentamente, parecendo sem forças. Elena sentiu-se à beira do precipício, prestes a cair. E a queda seria tão profunda que ela não tinha certeza se seria capaz de levantar.
Perdida no seu desespero, ela gravava apenas superficialmente as coisas que aconteciam ao seu redor. Stefan saiu do quarto, e ela pôde ouvir uma conversa baixa no telefone, mas não se esforçou para decifrar as palavras. Algum tempo depois, Caroline entrou no quarto, encarando Elena com tristeza, assustada com a expressão vazia que tomara conta do rosto da amiga.
Ela olhou para Stefan sem qualquer emoção em suas íris enquanto ele dizia que iria para a sua casa buscar todo o estoque de sangue que ainda restava. Elena sabia o que aquilo significava: ele não queria arriscar que ela voltasse a atacar alguém pela sede que sentia. Pobre e inocente Stefan. A sede fora apenas parte pequena e insignificante daquele seu descontrole.
Elena foi trazida de volta à realidade minutos depois, quando Caroline parou em frente a ela com os braços cruzados. Apesar disso, sua expressão estava cheia de tristeza.
– Elena, estou falando com você há horas. Ela vai ficar bem. Pode sair desse abismo agora, tá bem? — ela piscou algumas vezes para a loira, logo em seguida soltando um suspiro e confirmando lentamente com a cabeça. – Ótimo. – Caroline forçou um sorriso e sentou-se na ponta da cama onde Vanessa ainda estava deitada, sem deixar de encarar Elena por nenhum momento.
Elena não quis continuar a conversa, então desviou seu olhar para a janela. Ela estava embaçada em função do frio que fazia lá fora naquele gelado novembro, tempo esse que só servia para aumentar o seu desânimo. Logo a voz de Caroline a afastou de seus devaneios novamente.
– Você tem certeza que não quer conversar? Você sabe que pode confiar em mim, Elena. Eu lhe conheço o suficiente para saber como você deve estar se sentindo agora. Eu sei como é, Elena. Acredite, eu matei alguém! – Sem muita emoção, Elena deslizou o olhar até Caroline novamente, que a encarava com intensidade.
– Eu estava ardente de sede, irritada e então ela esbarrou em mim... – Elena deu de ombros, evasiva. Não sentia nenhuma vontade de falar naquele momento. – Não vai acontecer novamente.
Caroline a analisou por alguns segundos, em silêncio, com os olhos levemente cerrados.
– E você tem certeza que não está escondendo nada de mim? Tenho achado você um tanto desanimada nos últimos dias, Elena... E irritadiça também. – Caroline levantou subitamente, andando até Elena e agachando-se em frente a ela, pegando as mãos da morena. – Você sabe que eu estou aqui para você.
Sem jeito com a repentina proximidade da loira, Elena forçou um sorriso, apertando as mãos da amiga. Por alguns segundos, ela encarou aquele sorriso sincero, aquela expressão ansiosa para ajudar. Naqueles instantes, ela cogitou seriamente contar a Caroline tudo o que a vinha afligindo nos últimos tempos. Tudo o que sentia por Damon, todo o desamparo da rejeição, toda a solidão, todo o desespero. Seria tão bom poder compartilhar o que vinha lhe tirando o sono...
No entanto, Elena reforçou o sorriso amarelo e tentou soar o mais natural possível ao responder. Caroline nunca entenderia, pois ela o odiava.
– Não estou escondendo nada, Car. Só estou tendo um pouco de dificuldade para lidar com todos esses sentimentos tão amplificados. – Caroline soltou um suspiro, não completamente convencida ainda, mas concordou com a cabeça e se levantou, soltando as mãos de Elena. – Agora você fica aqui de olho nela que eu vou nos fazer um chá para esquentar um pouco.
Elena levantou da poltrona e saiu do quarto rapidamente. Quando chegou à cozinha, apoiou as mãos no balcão e abaixou a cabeça, soltando um longo suspiro. Vanessa ficaria bem. Ela percebera isso pelas batidas de seu coração, que lentamente aceleravam-se. Mas Elena tinha medo do que aconteceria na próxima vez em que a sua represa se abrisse, dando passagem àquelas águas turbulentas que a estavam enlouquecendo.
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Stefan entrou na casa silenciosa e tomou rapidamente a direção do porão. Abriu o freezer e pegou as últimas dezesseis bolsas de sangue que ali estavam, colocando-as numa sacola e logo subindo as escadas novamente. Quando ele estava quase terminando de atravessar a sala, pronto para ir embora, ouviu a voz de seu irmão, que descia as escadas.
– A nova vampirinha anda sedenta... – ele comentou com deboche, um sorriso divertido brotando de seus lábios. Ao observar, no entanto, a expressão séria de Stefan, revirou os olhos e perguntou com tédio. – O que foi dessa vez?
– Ela perdeu o controle dessa vez. Estava irritada, com sede, sem sangue em casa... Se eu não tivesse chegado, ela certamente teria matado aquela Vanessa Edwards. – Stefan soltou um suspiro, ostentando uma expressão triste. Ele sabia como Elena deveria estar se martirizando naquele momento. Estava tão preocupado que não foi capaz de notar a surpresa que tomou conta do rosto de Damon por um décimo de segundo.
– A garota vai ficar bem? – Damon perguntou com um verdadeiro desinteresse na voz. A sobrevivência ou não daquela que escolhera como seu novo brinquedinho de nada lhe importava. Entretanto, o fato de Elena ter pedido o controle justamente com Vanessa interessava-o, e muito.
– Acho que vai, dei-lhe bastante do meu sangue. Agora tenho que levar essas bolsas para Elena. Não posso arriscar deixá-la novamente com sede daquela forma. E amanhã mesmo vou ir buscar mais. No Tennessee, ou talvez até mais longe. Na Geórgia, quem sabe.
– Por mim tanto faz. Eu tenho um cardápio cheio de opções para as minhas refeições. – Damon abriu um sorriso torto, dando as costas para o mais novo, que revirou os olhos, e se atirando no sofá.
Só quando Damon ouviu a porta de entrada se fechando é que se permitiu pensar nas palavras do irmão. Elena perdendo o controle e atacando Vanessa poucas horas depois de ter visto a garota entrando no carro dele enquanto ela era completamente ignorada? Aquilo não podia ser coincidência.
No entanto, ele se esforçou para desviar os pensamentos e balançou a cabeça, indo buscar uma dose de uísque. O que quer que Elena sentisse, aquilo não o importava mais. Ou, pelo menos, era o que ele gostaria.
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Ao voltar para a casa dos Gilbert, Stefan dispensou Caroline e contou a Elena sobre as bolsas de sangue que depositara na geladeira e sobre a viagem que faria no dia seguinte. Quando Jeremy chegou, ele prontamente se propôs a descer e explicar a situação, poupando Elena daquele trabalho. Após estar ciente de tudo, ele entrou no quarto da irmã, seguido de Stefan.
– Como você está? – ele perguntou ansioso, enquanto tomava Elena nos braços com força. Ela não respondeu, e nem era necessário que o fizesse. A expressão vazia que ela exibia falava tudo o que precisava ser dito.
Nos braços do irmão, ela sentiu-se subitamente mais calma. Ele era a coisa mais normal que restara em sua vida, e Elena precisava dele para manter a sua sanidade em meio àquele furacão de emoções.
Foi naquele instante que, tossindo, Vanessa se mexeu pela primeira vez. Os três ficaram paralisados, observando, enquanto a garota abria os olhos lentamente, mexendo-se com dificuldade, como se estivesse dolorida. Assim que seu olhar recaiu sobre Elena, seu rosto foi tomado pelo pavor, e ela tentou levantar-se rapidamente, sem, no entanto, ter forças para isso.
Com toda a suavidade, Stefan aproximou-se dela, as mãos erguidas em frente ao corpo como se estivesse se rendendo. A respiração de Vanessa estava ofegante, e seu coração batia freneticamente. Ela estava realmente apavorada com a presença de Elena. Utilizando a sua força sobrenatural, ele segurou-a sentada na cama e fez com que ela o encarasse.
– Você vai esquecer tudo o que aconteceu no Mystic Grill e aqui. Você irá para casa como se nada houvesse acontecido. – sua voz era firme, levemente sedutora, enquanto ele a compelia a esquecer.
A garota concordou com a cabeça e então levantou, sem qualquer emoção, e saiu do quarto. Stefan aproximou-se da janela e observou ela passando em frente à casa e tomando a direção da sua, a noite já escura logo fazendo com que Vanessa sumisse de vista.
Durante o resto da noite, Stefan e Jeremy fizeram de tudo para animar e distrair Elena, que se martirizava internamente com o fato de ter machucado uma inocente, com o fato de não ser capaz de controlar totalmente as suas ações. Somado a tudo isso, ainda havia aquele sentimento de desamparo, de abandono, de rejeição, que vinha sentindo desde que Damon lhe virara as costas.
Não muito tarde Stefan foi para casa, pois acordaria cedo na manhã seguinte para realizar a sua viagem. Buscaria ir o mais distante possível, para não levantar suspeitas. Assim que ele saiu, Elena disse que estava cansada e se retirou para o seu quarto.
Ao se ver sozinha finalmente, arrancou com violência os lençóis da cama, atirando-os no cesto de roupa suja, como se quisesse se livrar de qualquer memória daquele dia. Em seguida colocou novos, mesmo sabendo que não dormiria naquela noite, assim como em todas as anteriores.
As horas passavam e o vento gélido ricocheteava insistentemente nas janelas da casa enquanto Elena mantinha-se aquecida sob uma pesada coberta, completamente acordada. Depois de muitos dias, e pela primeira vez desde que se transformara, ela abriu o seu diário e começou a escrever. Logo as páginas ficaram manchadas com as lágrimas grossas que escorriam de seus olhos, à medida que ela contava sobre as dificuldades da nova vida, sobre a forma como se sentia sem ter Damon como aquela proteção constante que a impedia de afundar, sobre os instintos animais e o êxtase inebriante que sentira naquela tarde no Mystic Falls. Teve de parar a caneta várias vezes em função de seus soluços, enquanto tentava descrever as coisas que haviam se passado em sua mente enquanto o sangue descia por sua garganta. Com as mãos trêmulas, que deixavam sua letra um tanto incompreensível, ela escreveu sobre a ânsia que sentira em destruir aquele pescoço, em beber aquele sangue e em sentir a morte chegar entre seus braços. Ela desejara a morte. Nunca antes compreendera fielmente o que Damon e Stefan sentiam, com o que eles lutavam diariamente, até aquela tarde.
Sem parar de chorar, Elena escreveu até o dia clarear.
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De seu quarto, Elena ouvia a voz do irmão que vinha do andar inferior.
– Não, eu a ouvi chorando grande parte da noite. Agora que ela finalmente está dormindo, eu não vou acordá-la. Sim, sim, eu entendo. Avise a Caroline, assim ela não fica preocupada. Não se preocupe você também, Stefan. Ela provavelmente vai dormir o dia inteiro. Certo. Boa viagem, cara. – logo em seguida, ela pôde ouvir a porta de entrada se fechando.
Há alguns minutos, Jeremy entrara no quarto da irmã, que fingira estar dormindo. Ela estava obstinada a protelar o máximo possível qualquer explicação ou justificação pelo fato de ter chorado a noite inteira. Além disso, estava cansada de todos tão preocupados com ela, sempre perguntando como ela estava.
Elena levantou da cama lentamente, o corpo logo ficando arrepiado por sair de baixo da grossa coberta. Foi até o banheiro e ligou a água o mais quente possível, enfiando-se sob o jato fervente. Não demorou muito para todo o ambiente ficar envolto por uma névoa, o espelho embaçar e o corpo de Elena ficar avermelhado em função do calor.
Escrever em seu diário permitira com que Elena analisasse seus pensamentos com uma perspectiva mais ampla. Abrir a represa de seus sentimentos não fora uma tarefa fácil, mas só com todos eles ali expostos é que ela foi capaz de pensar claramente. Ao terminar de ler o que escrevera pela terceira vez, ela tomara uma decisão.
Todo o seu desamparo e a perda do controle no dia anterior eram causados por um mesmo motivo, o qual era culpa dela. Damon tentara inúmeras vezes conquistar o coração dela. Ele não a abandonara e, principalmente, não desistira dela, nem mesmo em seus piores momentos. Agora, quando ela finalmente percebera todo o mal que lhe causara e quando ele lhe virara as costas, era a vez de Elena não desistir. Damon poderia ignorá-la, poderia rejeitá-la, poderia não querer vê-la, mas ele teria que ser persistente, pois ela o seria.
Enquanto secava-se lentamente com a toalha, envolta por aquela fumaça quente, ela sentiu-se mais leve. Ela tinha agora um objetivo, algo que a faria levantar todas as manhãs. Ela precisava de Damon, essa já era uma verdade incontestável para Elena. Ela não havia pensado ainda em como seria quando alcançasse seu objetivo. Havia seu amor por Stefan, havia aqueles sentimentos que ela nutria por Damon, havia toda a sua confusão interna. Mas ela pensaria nisso quando estivesse completa novamente, o que só aconteceria quando ela conseguisse o perdão dele, e ela iria conseguir eventualmente, pois tinha toda a eternidade para insistir.
Elena se vestiu sem pressa, sabendo que teria boa parte do dia só para si. Stefan estava viajando, o que lhe dava uma oportunidade maravilhosa para ir atrás de Damon. Ele provavelmente não estaria em casa, mas ela o procuraria em cada centímetro da cidade, tamanha era a sua determinação em tê-lo por perto novamente.
Ela desceu as escadas, indo buscar uma bolsa de sangue para disfarçar a ardência em sua garganta. Era impressionante como ela podia estar com tanta sede após quase drenar uma garota no dia anterior. Secou-a avidamente, logo abrindo uma segunda sem preocupação. Stefan logo estaria de volta com mais.
Espiou pela janela da cozinha, que dava para os fundos da casa, e viu uma fina garoa molhando a grama. O dia aparentava estar muito gelado, então ela decidiu subir, buscar um casaco mais grosso e um cachecol. Assim que estava mais aquecida, Elena desceu os degraus rapidamente, com uma ansiedade e um medo crescentes a cada passo. E se Damon a rejeitasse tão friamente de novo? Ela teria que ser forte para persistir frente àquela indiferença cortante. Mas ela o seria por quanto tempo fosse necessário.
Elena abriu a porta com pressa, tomada pela sua ansiedade, e estava pronta para dar mais um passo quando deu de cara com aquela imensidão azul. Aquelas íris límpidas e intensas, que estavam inesperadamente próximas, encararam-na sem a surpresa que as dela deveriam estar demonstrando. Quando Elena falou, sua voz saiu rouca, quase inaudível.
– Damon?
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