The Fire Inside
9 Going under as you walk away
Notas iniciais
Um minuto antes de seu despertador tocar, Elena esticou o braço até o aparelho e desligou-o, impaciente. Passara a noite toda deitada, encarando o quarto escuro, adormecendo por apenas alguns minutos intercalados. É claro que o fato de ter dormido praticamente o dia inteiro influenciava a sua falta de sono, mas os acontecimentos do início da madrugada eram os principais motivos daquela insônia.
Ela se levantou prontamente, não aguentando mais ficar no escuro, sozinha com os seus pensamentos desconcertantes. Rapidamente ela tomou a direção do banheiro, trancou as portas e ligou o chuveiro numa temperatura bem alta. Com movimentos ágeis, arrancou a blusa e os shorts que usava e jogou-os na cesta de roupa suja, logo se enfiando sob o jato de água que caía com força. Elena deixou a água quente percorrer todo o seu corpo, tentando relaxar. No entanto, ainda não era suficiente, e então ela esticou o braço e pegou a esponja. Enchendo-a de sabonete líquido, Elena começou a esfregar todo o seu corpo com certa voracidade, como se estivesse se sentindo suja.
E Elena estava mesmo. Sentia-se suja em cada centímetro do corpo que Damon havia tocado. Sentia-se suja internamente, pelo que havia feito com Stefan, por ter se deixado levar pelos seus impulsos mais profundos. No dia em que caíra da Wickery Brigde, Elena tomara a sua decisão, baseada em tudo o que sentia por Stefan, em tudo o que ele já havia feito por ela. E ela decidira, também, que não poderia continuar prendendo Damon. Que tinha que deixá-lo ir. E agora ela devia manter a sua decisão.
É claro que muitas coisas haviam mudado desde aquela noite. Elena sabia agora que fora Damon quem entrara primeiro em sua vida, lembrava-se da declaração feita por ele tanto tempo atrás e que fora forçada a esquecer, presenciara tantas outras demonstrações – algumas verbais, outras não – por parte dele. Além disso, ela não era mais humana, e tudo que sentia estava tão intensificado, de forma que ela se sentia prestes a explodir o tempo inteiro.
Mas isso não é desculpa!, ela pensava enquanto esfregava avidamente a sua pele já avermelhada. Coerente, Elena. Você precisa ser coerente!
Ela suspirou e encostou a testa na parede, fechando os olhos quando um arrepio percorreu o seu corpo, causado pelo choque térmico de sua pele quente com o azulejo gelado. Imediatamente, aquela sensação lembrou-lhe as causadas pelos toques de Damon, e imagens da noite anterior reproduziram-se em sua mente. Por um instante, todo o corpo de Elena reagiu àquelas lembranças. Era como se cada poro da garota clamasse por aquelas sensações novamente, clamasse por aqueles lábios convidativos, por aqueles braços fortes, por aquelas mãos ágeis...
Elena deu um soco na parede, e o azulejo branco rachou-se exatamente onde a mão da garota entrara em contato com ele. Os olhos castanhos encheram-se de lágrimas, mas não eram causadas por alguma dor que ela estivesse sentindo em seus dedos em função do soco. Não, eram lágrimas de pura raiva. Elena sentia raiva de si mesma por não ser capaz de controlar aquelas ondas de sentimentos conflitantes. Apesar de tudo que mudara, ela amava Stefan, e não queria enganá-lo, machucá-lo, ser uma segunda Katherine em sua vida. No entanto, havia ainda aqueles sentimentos por Damon, que ela não sabia como classificar, mas que, mais do que nunca, estavam consumindo-a.
No mesmo instante, aqueles pensamentos fizeram com que lembranças de uma época tão distante, uma época em que tudo era mais simples, em que os pais de Elena estavam vivos, em que ela era namorava o quarterback do time da escola, voltassem vívidas à sua mente.
Damon encarava-a com aqueles olhos intensos e com toda aquela beleza impecável, intocável, que deslumbrara Elena naquela primeira vez que com ela se deparara. Um sorriso torto tomou conta daqueles lábios esculpidos, e então ele respondeu à pergunta dela.
- Você quer um amor que a consuma...
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Stefan levantou-se de forma arrastada quando seu despertador tocou. Ainda sonolento, escutou alguns ruídos no andar inferior, mas ignorou-os. Tomou um banho rápido e se vestiu para mais um dia de ensino médio. Quando saiu do quarto, tomando a direção da escada, pôde ouvir mais nitidamente os ruídos que antes ignorara. Eram gemidos abafados e risadinhas afetadas. Franzindo o cenho, ele desceu os primeiros degraus até que, fazendo a curva da escada, foi capaz de visualizar as responsáveis por aqueles sons.
Damon estava sentado no enorme sofá vermelho da sala dos Salvatore, com todos os botões de sua camisa abertos, revelando seu peito esculpido. Uma garota com longos cabelos negros, vestida apenas com sua lingerie azul, estava sentada no colo dele, uma perna de cada de seu corpo, e tinha o rosto inclinado de forma que seu pescoço estivesse todo à disposição de Damon. E ele se aproveitava muito bem disso, cravando suas longas presas na pele alva com uma ferocidade quase animal. Ao lado dos dois, ajoelhada no sofá, outra garota, essa com cabelos loiros e uma lingerie rosa, alisava os cabelos da primeira, observando Damon sugar o sangue da amiga com uma expressão que misturava desejo e inveja.
Stefan desceu os últimos degraus ostentando um olhar de reprovação, só então reparando na bagunça da sala, com garrafas de todos os tipos espalhadas pelas mesas e pelo chão. Damon levantou vagarosamente o rosto, que ainda estava tomado pela sua forma vampírica, com os olhos enegrecidos e as presas cobertas de sangue. Um sorriso arrogante e malicioso brotou de seus lábios avermelhados enquanto ele observava o irmão mais novo.
- Bom dia, irmãozinho. Espero que não tenha acordado por nossa causa. – ele deu um tapinha na bunda da garota que estava sentada no seu colo, e ela saiu de cima dele, sentando-se no sofá. – Não sejam mal-educadas, garotas... Cumprimentem meu irmão, Stefan.
- Oi, Stefan... – as duas falaram em uníssono, acenando para ele e exibindo sorrisos travessos. Stefan ignorou-as, ainda observando o irmão de forma repreensiva. Quando abriu a boca para falar, Damon foi mais rápido.
- Eu até o convidaria para participar de nossa festinha, garotas, mas ele é um estraga-prazeres. – as duas formaram beicinhos com seus lábios ao mesmo tempo em que Damon sorria debochado. – Boa aula, irmãozinho. – então ele virou o rosto para a loira e abriu seu sorriso mais encantador. – Sua vez, querida.
Stefan limitou-se a lançar um sorriso irônico para o irmão, sem humor para discutir ou repreendê-lo, e virou-se para sair da casa, ouvindo os gemidos da garota quando Damon cravou os dentes em sua pele. No caminho para a escola, enquanto dirigia o seu carro, Stefan se perguntava o que teria gerado aquela recaída tão acentuada em seu irmão, que, ultimamente, estava bastante contido.
Alguns minutos após a saída de Stefan, a porta de entrada dos Salvatore voltou a se abrir. Damon estava pronto para levantar o rosto daquele pescoço tão convidativo e perguntar com irritação o que o irmão queria dessa vez, quando uma voz carregada de sotaque e ironia chegou aos seus ouvidos.
- Espero não estar estragando a sua festa, Salvatore.
Damon ergueu os olhos lentamente, seu rosto sem nenhuma sombra daqueles sorrisos anteriores. Ele deu um leve empurrão na garota sentada em seu colo, que caiu no sofá com uma expressão magoada.
- Klaus... – ele disse simplesmente, a voz tomada por um desdém mal contido.
- Faz um bom tempo, não é? – Klaus disse ignorando o tom do Salvatore e aproximando-se da mesa de centro sobre a qual estava uma garrafa de uísque. Ele tomou um longo gole e depois se atirou numa poltrona próxima, com a garrafa na mão, agindo como se estivesse em casa.
- O que você quer? – Damon perguntou ríspido, sem rodeios, afastando a mão da morena, que começara a acariciar a coxa dele.
- Eu estive fora por alguns dias... Pesquisando. – Klaus tomou outro gole de uísque, abrindo um sorriso que completava a expressão de superioridade que ele exibia. No instante seguinte, porém, qualquer divertimento sumiu do rosto do Original, que agora ostentava um ar de irritação e arrogância. – Estou aqui para lembrá-lo de sua dívida comigo. – Damon abriu a boca para revidar, mas Klaus interrompeu-o produzindo um som de repreensão com a língua. – Você e sua mania irritante – ele colocou ênfase na palavra, que ficou ainda mais carregada de sotaque – de se meter e estragar tudo. Você e seus impulsos tinham que transformar Elena, não é? — ele balançou a cabeça, ainda com uma expressão de reprovação. Porém, em seguida, seu rosto foi tomado por um sorriso de triunfo. – Felizmente, acredito ter descoberto uma forma de usar o sangue da nossa pequena doppelganger em meus híbridos, mesmo ela sendo agora uma vampira. – Damon encarou-o com um olhar incrédulo, mas Klaus ignorou-o e continuou. – Ainda faltam algumas peças do quebra-cabeça, e por isso ficarei fora por algum tempo. Mesmo longe, Salvatore, não esqueça que você está em dívida comigo. Eu nunca esqueço.
Assim que terminou de falar, Klaus levantou-se em toda a sua elegância e bebeu o resto do uísque da garrafa, largando-a sobre a mesa de centro novamente. Com um sorriso arrogante, ele virou-se para Damon, que o olhava com evidente desprezo, antes de tomar a direção da saída.
- Aproveite sua festinha. – e então ele piscou para as duas mulheres emburradas sentadas no sofá. – Tchau, garotas. – elas deram risadinhas histéricas por ele ter falado diretamente com elas, derretendo-se com o sotaque acentuado do vampiro Original.
Klaus cruzou lentamente a sala, e, antes de sair pela porta, falou sem se virar para Damon.
- Não esqueça, Salvatore.
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Elena estava parada no estacionamento da escola, apoiada em um carro qualquer, e a música alta que emanava de seus fones de ouvido isolava todos os outros sons ao seu redor. Era calmante calar todos aqueles ruídos que constantemente a perseguiam, que não a deixavam pensar em paz.
Algumas pessoas passavam e acenavam para a garota, mas a maioria a ignorava. Aquilo a fez lembrar a época em que competia com Caroline pela maior popularidade do colégio, em que o seu grande sonho era ser rainha do baile de formatura. Ela deu uma risada sem humor enquanto pensava na sua antiga futilidade e ingenuidade. No entanto, internamente, tudo o que ela mais desejava era retornar àquela época tão simples.
Ela pôde observar quando Stefan entrou no estacionamento e ficou a procurar uma vaga. Ele não a viu imediatamente, o que lhe deu alguns segundos para respirar fundo e manter a sua calma recém adquirida. Depois de um longo banho, Elena sentiu-se melhor e decidida a controlar aquela tempestade causada por Damon. Não lhe agradava esconder de Stefan o que acontecera entre ela e o seu irmão mais velho, porém aquele era um mal necessário. Ela iria omitir aquele deslize – sim, era exatamente isso que acontecera, um mero deslize – e manter a sua decisão anterior. Ela amava Stefan, e faria o que fosse necessário para que tudo permanecesse perfeitamente bem entre os dois.
Após estacionar, Stefan aproximou-se sorridente da garota. Era impossível não sorrir de volta frente àquela felicidade que ele demonstrava. Tudo era perfeito quando Stefan estava por perto, e ela concluiu, naquele instante, que não o deixaria ir.
- Bom dia, dorminhoca! – ele disse animado assim que se aproximou o suficiente para segurá-la nos braços.
- Bom dia. – ela respondeu com uma risada que foi calada pelo beijo que Stefan depositou em seus lábios.
- Eu não acredito que você dormiu a tarde e a noite inteiras! – ele riu novamente, e foi acompanhado por ela, que se esforçou para soar o mais natural possível. Felizmente, ele não desconfiava de nenhum acontecimento noturno. Por fim, ela deu de ombros.
- Eu estava cansada... A noite anterior foi péssima. Fiquei bastante preocupada com a Bonnie... Ainda estou. – Stefan concordou com a cabeça, agora com uma expressão entristecida. Ela lhe contara tudo na tarde anterior, antes de adormecer profundamente.
Os dois iam caminhando lentamente para dentro da escola, os dedos entrelaçados. Após uma breve conversa sobre Bonnie, Stefan pareceu lembrar-se de alguma coisa.
- Você viu o Damon, por acaso? – a pergunta inesperada não parecia esconder nenhuma desconfiança, mas Elena gelou. Por um milésimo de segundo, sua expressão tornou-se culpada, assustada. No entanto, imediatamente ela esforçou-se para ficar calma, uma vez que Stefan parecia exibir apenas uma leve preocupação.
- Não, ontem não. Por quê? – ela tentou soar apenas suavemente curiosa, mas, por dentro, ela estava completamente intrigada com aquela pergunta.
- Quando acordei, ele estava se alimentando de duas garotas de lingerie, e, pela bagunça, eles fizeram uma boa festa ontem à noite... – a voz de Stefan estava inundada de reprovação. Elena, por sua vez, foi atingida violentamente por um sentimento que pareceu queimá-la por dentro.
A imagem de Damon agarrando-se a duas garotas, vestidas apenas com suas lingeries, tomou conta de sua mente. Ela ficou extremamente grata por ter chegado ao seu armário e poder esconder seu rosto enquanto fingia procurar por um livro. Ele certamente estava tomado pela raiva inexplicável que Elena sentia arder internamente.
Parecendo vir de muito longe, a voz de Stefan chegava aos seus ouvidos.
- Ele estava tão... humano, ultimamente. Eu estava até orgulhoso. E agora essa recaída? Deve haver algum motivo.
Elena respirou fundo, fechando os seus olhos. Ciúme, era isso que ela sentia. No entanto, ela não podia, não estava certo, não fazia sentido! Ela escolhera Stefan, ela sabia que devia deixar Damon ir. Mas ele precisava se agarrar com duas garotas apenas algumas horas depois de ter feito o mesmo com ela? Ela bufou. Ela significava tão pouco assim para ele?
Estou sendo ridícula, ela pensou em seguida. Ela sabia dos sentimentos de Damon por ela, sabia o quanto havia significado para ele os acontecimentos da noite anterior. No entanto, aquele ciúme incoerente que fazia Elena borbulhar de raiva a impedia de raciocinar apropriadamente.
- Elena? – a voz de Stefan chegou novamente aos seus ouvidos, parecendo vir de uma outra realidade. Elena fez um grande esforço para controlar aquele seu turbilhão interno, concentrar-se na conversa e parecer o mais natural possível ao responder.
- Desculpa, estou meio tonta depois de tanto dormir... – ela deu uma risadinha, finalmente fechando o armário e virando-se para Stefan. Quando ela o encarou, não havia nada em sua expressão que denunciasse a explosão que estava prestes a ocorrer dentro dela. Então, Elena fez um sinal com a mão, como se indicando para ele deixar para lá. – É o Damon, Stefan.
Naquele instante, o sinal tocou, e ela suspirou agradecida por ter uma desculpa para fugir um pouco da atenção ininterrupta de Stefan e ficar a sós com os seus sentimentos. Ele a beijou e então eles tomaram rumos diferentes, Elena praticamente correndo para a sua sala e escolhendo a mesa mais afastada e próxima à janela. Nada do que foi dito pelo professor ficou gravado no cérebro de Elena. Tudo o que se passava em sua mente eram imagens de Damon que faziam seu peito arder de raiva: os lábios convidativos cobertos de sangue, o peitoral definido à mostra, as garotas deslizando suas longas unhas vermelhas pela sua pele, em direção ao zíper de sua calça jeans...
O sinal tocou, indicando o final do primeiro período de aula e assustando Elena. Para ela, perdida em seus devaneios, apenas alguns minutos haviam se passado. Ela suspirou, esfregando as pálpebras fechadas com os dedos e bocejando. A noite mal dormida começava a produzir seus efeitos. Quando ela atingiu o corredor, meio sonolenta, Caroline veio praticamente correndo na sua direção, com um sorriso de triunfo no rosto e praticamente arrastando Tyler pela mão.
- Elena! Adivinha quem não deu as caras ainda? Nossa pequena Miss Vadia. Ela deve estar com vergonha de aparecer na frente de todo mundo.
- Assim como você deveria estar com vergonha depois de ficar bêbada daquele jeito. – Tyler resmungou. Caroline revirou os olhos para ele, e Elena teve que segurar uma risadinha. Ela estava tão ocupada com o furacão de emoções dentro do seu peito que sequer se lembrara da vergonha que estava sentindo em aparecer no colégio.
Tyler se afastou para a sua aula, e Caroline foi carregando Elena pelo braço até o laboratório, contando-lhe sobre as fofocas da festa de Halloween que ficara sabendo naquela manhã. Elena ouvia apenas parcialmente, nada interessada em saber sobre brigas ou beijos que não fossem entre Damon e aquelas duas vadias.
Elena suspirou, sentada no laboratório com Caroline. Ela não tinha o direito de se sentir assim. Damon não lhe pertencia. Damon era livre para fazer o que bem entendesse com a garota – ou as garotas – que quisesse. E ela iria controlar aquele ciúme irracional que...
Naquele instante, o frasco que Elena segurava distraidamente, mas com ferocidade, explodiu em sua mão.
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Horas mais tarde, dando-lhe carona para casa, Stefan perguntou novamente a Elena como estava a sua mão.
- Está perfeita. Isso é fantástico. – ela murmurou distraída enquanto observava a mão já totalmente cicatrizada. Stefan sorriu para ela.
Após sair da sala, supostamente para ir à enfermaria, Elena retirou os cacos de vidro um a um no banheiro da escola. Logo em seguida, enquanto limpava o sangue da mão, ela pôde perceber o início da cicatrização das feridas e abriu um sorriso um tanto impressionado. Ficou ali um bom tempo, observando sua imagem no espelho e aproveitando o tempo sozinha. Após encarar os próprios olhos castanhos por longos minutos, ela foi capaz de controlar as suas emoções. Ela precisava deixar Damon livre para seguir a sua vida, e ele o estava fazendo. Agora, ela poderia concentrar-se em Stefan e esquecer aqueles sentimentos irracionais que nutria por Damon. Assim como sua mão, tudo cicatrizaria sem deixar nenhuma marca para trás. Tudo ficaria bem.
Antes de ir para a sua próxima aula, Elena entrou sorrateiramente na enfermaria, enquanto a Sra. Garner tagarelava ao telefone em sua salinha, e pegou uma atadura para enfaixar a sua mão e escondê-la. Não seria nada fácil de explicar a súbita cicatrização após todos terem visto sua mão sangrando ininterruptamente.
A ardência crescente em sua garganta a trouxe de volta de seus devaneios para o carro de Stefan.
- Acabei de me lembrar... Não tenho mais nenhuma bolsa de sangue em casa. – Stefan olhou-a surpreso e Elena abriu um sorriso amarelo.
- Você vai secar os hemocentros da Virgínia, Elena. – ele disse com um falso tom de repreensão, arrancando uma risada dela. – O nosso estoque está indo muito mais rápido agora que temos mais alguém com quem compartilhar. – Elena piscou os olhos com inocência. – Logo vou ter que começar a viajar mais longe para abastecê-lo, ou vamos levantar suspeitas.
Felizmente para Elena, cuja sede tornava-se cada vez mais insuportável, o caminho até a casa dos Salvatore passou rapidamente. Porém, assim que Stefan estacionou e os dois desceram do carro, aquele cheiro conhecido atingiu-os em cheio. As presas de Elena imediatamente ficaram visíveis, seu rosto se transformou, e Stefan esticou o braço na direção dela, impedindo-a de prosseguir. No entanto, passado aquele primeiro segundo de surpresa, Elena começou a perceber diferenças entre o cheiro que emanava da casa e aquele adocicado, inebriante e intoxicante que a tirava do sério.
Já controlada, ela virou-se para Stefan com o cenho franzido em confusão. Ele segurou-a pela mão e a levou para dentro da casa, uma expressão sombria no rosto. Os dois rapidamente dirigiram-se à sala de estar, da qual emanava aquele cheiro estranho a Elena. Assim que cruzou a porta, porém, ela entendeu tudo.
Uma garota loira, vestindo apenas uma lingerie rosa, estava atirada no tapete dos Salvatore, o tronco e a cabeça deitados sobre a mesa de centro. Ela tinha o pescoço estraçalhado, coberto com sangue seco, que anteriormente escorrera também para seu peito, manchando o seu sutiã. Havia sangue seco até em seus cabelos, escurecendo boa parte de seus fios claros.
Horrorizada, Elena congelou no lugar onde estava. Após alguns segundos com os olhos assustados fixos na garota morta à sua frente, ela pôde captar com sua visão periférica uma outra figura, caída próxima à escada. Relutante, Elena deslizou seu olhar até outra garota, essa com longos fios negros, atirada no início dos degraus, seu pescoço retorcido de uma forma não natural. Apesar de ele estar totalmente destruído por presas, não havia sangue nas feridas. Olhando com atenção, ela estava tão pálida que Elena se questionou se haveria sequer uma gota de sangue naquele corpo.
Do lado oposto ao qual ela olhava, Elena pôde ouvir passos se aproximando. Quando virou seu rosto, viu Damon entrando na sala tranquilamente. Ele vestia apenas sua calça jeans escura, todo seu peito esculpido à mostra, e segurava um copo de uísque nas mãos. Ao encarar os olhos castanhos assustados, um sorriso irônico lentamente tomou conta daqueles lábios.
- Sinto muito, não tive tempo de limpar antes. – nada em sua expressão arrogante demonstrava qualquer remorso. Ele andou calmamente até o sofá, passando por cima das pernas da garota loira, totalmente indiferente, e atirou-se nele. Em seguida, perguntou com deboche. – Os pombinhos tiveram uma boa aula?
- Qual o seu problema, Damon? — Stefan perguntou com uma raiva mal contida na voz.
- No momento? Estou preocupado com essa mancha no tapete. – ele abriu outro de seus sorrisos, apontando com o pé para uma grande mancha de sangue seco. – Acho que vamos ter que jogá-lo fora. É uma pena. – ele fingiu uma expressão de mágoa, um pequeno beiço se formando em seus lábios. Suas íris azuis, no entanto, brilhavam de pura diversão com a situação.
- Elas eram pessoas inocentes, Damon! – Elena se viu exclamando antes que pudesse pensar em qualquer coisa. Toda aquela arrogância e indiferença de Damon fizeram com que uma fúria incontrolável brotasse dentro dela. Na noite anterior, ele aparecera em seu quarto, completamente frágil, e ela se entregara quase totalmente a ele. Agora, não havia nada de humano naquele vampiro.
- Elas me aborreceram – ele disse simplesmente, sem se importar com o tom da garota, e deu de ombros.
- Você é um idiota, Damon! Quando eu penso que você está finalmente se aproximando de sua humanidade, você resolve estragar tudo! – ela praticamente gritava. No seu tom de voz, a fúria transparecia; em seus olhos, o sentimento que se formara rapidamente dentro dela: aversão. – Mas eu sei por que você faz isso. Você faz para se esconder! Você tem medo de sua humanidade!
Quando Elena parou de gritar, não havia mais resquícios daqueles sorrisos debochados e arrogantes no rosto de Damon. Ele estava sério, as feições tensas, enquanto ele tentava controlar a raiva, e as íris azuis gélidas. Damon levantou-se do sofá, depositando o copo de uísque na mesa de centro, e andou de forma imponente na direção de Elena. Qualquer ser humano sentiria medo naquele momento, vendo aquela figura que emanava fúria aproximar-se. No entanto, a raiva que ela própria sentia fez com que Elena erguesse o rosto e o enfrentasse com o olhar quando ele parou a alguns centímetros dela.
- Você está sendo ridícula, Elena. Aprenda de uma vez por todas que esse é o verdadeiro Damon Salvatore. – ele então passou por ela, sem deixá-la responder, e tomou a direção das escadas. Assim que começou a subi-la, tornou a falar, mas sem parar ou olhar para trás. – Acho bom você limpar isso, irmãozinho, antes que elas comecem a feder.
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O sol se punha, lançando sombras avermelhadas sobre Mystic Falls. Sentada na varanda de sua casa, Elena estava alheia à beleza daquele fenômeno natural. Sua mente estava tomada pela imagem das duas garotas mortas na sala dos Salvatore. Pensava em como a vida podia tomar reviravoltas completas entre um pôr do sol e o outro. Duas inocentes haviam perdido a vida injustamente, assassinadas pelo mesmo homem que, na noite anterior, quase a tivera por completo em seus braços.
Ela afundou o rosto nas mãos, deixando as grossas lágrimas brotarem de seus olhos fechados. Lembranças dela e Stefan livrando-se dos corpos das garotas atingiram-na em cheio. Elas não mereciam aquilo, não mereciam ser escondidas em meio a uma floresta qualquer, esquecidas para sempre.
Pensando nas atitudes de Damon, Elena sentiu-se ainda pior pelo que havia feito com Stefan na noite anterior. Ela o traíra e ainda o enganara no dia seguinte, e sabia muito bem que teria ido além se não fosse a interferência oportuna de Jeremy.
Elena ergueu o rosto e limpou as lágrimas. O sol já havia se escondido, e a escura noite de lua nova tomava conta de Mystic Falls. Ela sentiu-se grata por ter percebido no último instante o erro que estava cometendo. Antes tarde do que nunca. Era irracional considerar, por um momento que fosse, trocar Stefan por Damon. O mais velho fizera questão de deixar isso muito claro para Elena naquela tarde.
No entanto, uma vozinha teimosa parecia gritar na mente de Elena, trazendo à tona lembranças em defesa a Damon. Tentando ignorá-la, Elena entrou em casa e subiu as escadas. Assim que chegou em seu quarto, atirou-se na cama e afundou o rosto no travesseiro, tentando parar de pensar naquilo. Quando o levantou, porém, seu olhar foi atraído por um curto fio negro que contrastava com seus lençóis brancos. No mesmo instante, sua mente foi invadida por lembranças vívidas do dono daquele fio de cabelo.
- E é porque eu a amo que eu não posso ser egoísta com você. Eu não posso fazer isso. Eu não mereço você. Mas meu irmão merece. – a dor ficou visível nos olhos de Damon naquele instante. E então, aproximando-se ainda mais, ele depositou um longo beijo em sua testa, um beijo cheio de significados e sentimentos. Damon levou seus dedos até o rosto de Elena e acariciou-a tristemente.
Não, ela pensou com convicção, aquele não era o verdadeiro Damon Salvatore. Ela, mais do que qualquer um, já havia vislumbrado a parte mais humana daquele vampiro, já havia mergulhado na fragilidade daqueles intensos olhos azuis. Ele sentia, e sentia tão profundamente que precisava se esconder sob aquela máscara de indiferença, arrogância e ironia para não sucumbir aos seus sentimentos.
A compreensão repentinamente tomou conta de Elena, inundando-a de culpa. Pela primeira vez desde a noite anterior, ela percebeu os efeitos de suas ações no mais velho, e não apenas no mais novo dos irmãos Salvatore.
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Exausta, Elena adormeceu em meio à sua culpa algumas horas depois, sem ter levantado da cama sequer uma vez desde que deitara. Seu sono foi agitado, ocupado por pesadelos em que era ela quem estava sugando o sangue daquelas garotas até a última gota. Inconscientemente, ela percebera que era, em última instância, a culpada por aquelas mortes prematuras. Era ela quem continuamente dava e, em seguida, quebrava as esperanças de Damon. Ele a amava, e não tinha problemas em admitir isso. Amava-a tanto que não suportava a ideia de perdê-la, obrigando-a a se transformar; que cumpria a sua promessa e passava noites a observá-la dormir. E ela, no entanto, seguia causando-lhe sofrimento, seguia sem conseguir manter a sua decisão de deixá-lo ir.
Quando o dia já amanhecia e o despertador tocou, Elena levantou prontamente da cama, tomando um banho rápido e vestindo-se apressadamente. Não, a ansiedade não era para ir à escola. Ela precisava encontrar Damon, e não havia horário melhor que o de aula, pois Stefan certamente não estaria em casa.
Elena desceu as escadas aos pulos, pegando uma bolsa de sangue na geladeira e sugando-a completamente em menos de um minuto. Jogou-a no lixo e saiu para a manhã fria de novembro, apertando mais o casaco ao redor de si. Apesar do vento com cara de chuva que soprava com força, ela estava feliz de caminhar um pouco, pois teria tempo para pensar. Ainda não fazia ideia do que falaria para Damon quando o encontrasse.
Ao se aproximar da Mansão dos Salvatore, cerca de meia hora depois, Elena parou e respirou fundo. Ficou alguns momentos a observar a arquitetura de outros tempos, que lhe dava um charme diferente do das outras casas. Em seguida, aproximou-se mais até parar em frente à porta e escutou, ansiosa. Não havia nenhum sinal de Stefan, tampouco de Damon. Elena resolveu entrar, abrindo a porta lentamente. Não havia nenhum ruído no interior da casa. Ela caminhou até a sala de estar vazia e deixou seus olhos vagarem pelo cômodo, percebendo rapidamente que o tapete manchado fora retirado. A sala parecia estranhamente vazia sem ele.
Tentando manter longe de sua mente a imagem das pobres garotas, Elena sentou-se no enorme sofá vermelho e resolveu esperar por alguns minutos. Ela apoiou as costas no encosto e inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos. Ainda tentando encontrar as palavras exatas que ela gostaria de dizer para Damon, Elena não viu os minutos passarem, assustando-se ao olhar para o relógio mais de meia hora depois.
Frustrada, ela suspirou e resolveu ir embora. Teria que esperar a sua próxima chance de falar a sós com Damon. Imaginou que ele estaria em algum alimentando-se de outras garotas que nada tinham a ver com a dor que ela lhe infligira. Dirigiu-se lentamente à porta, ouvindo as primeiras gotas de chuva entrarem em contato com o solo. Ela sorriu de leve, lembrando-se que não chovia em Mystic Falls há mais de um mês.
Fechando a porta de entrada dos Salvatore, Elena caminhou em direção à chuva que caía com mais força a cada minuto. Sem se importar, ela começou a se afastar sem pressa, sentindo seu corpo rapidamente encharcado pelos grossos pingos. Estava um pouco frio, mas ela abraçou a si mesma e continuou o seu caminho. Através da cortina de chuva, ela pôde ouvir um carro se aproximando, mas sequer se virou. Foi só quando ele chegou muito próximo e diminuiu a velocidade, subindo na calçada dos Salvatore, que Elena olhou para trás a tempo de ver Damon desligando o carro.
Ele abriu a porta e desceu, parando protegido sob a marquise da casa, e encarou Elena com uma leve curiosidade. Ela havia parado de caminhar, e não parecia nem ligar para a água que caía ao seu redor enquanto observava Damon. Um sorriso irônico tomou conta de seus lábios.
- Se veio procurar Stefan, sabe que ele está em alguma aula inútil agora.
- Eu vim porque eu preciso conversar com você, Damon. – ela falou calmamente, aproximando-se da casa. Naquele instante, a chuva aumentou ainda mais sua intensidade, mas ela estava tão focada no que tinha que fazer que sequer notou.
- Perdeu seu tempo, então. Não estou com paciência para mais lições de moral... Já me basta meu irmãozinho. – ele deu um sorriso torto que não chegou aos seus olhos gélidos e deu meia volta, pronto para entrar em casa.
- Eu lhe devo desculpas, Damon. No fim, a única egoísta sou eu! – ela teve que aumentar o tom de voz para ser escutada através da grossa cortina de chuva que caía. Ele imediatamente parou onde estava, perto da porta da casa, mas não se virou para observá-la. Ela continuou falando rapidamente, seu tom carregado de aflição. – Eu sei que você está agindo assim porque eu lhe magoei. Eu lhe magoei uma, duas... vinte vezes enquanto tentava decidir quais eram os meus sentimentos por você, pelo Stefan, e... Você não merece isso! Você nunca foi egoísta comigo! E eu não espero que você me perdoe assim fácil, eu só quero que você entenda que não há nenhum problema em ter sentimentos, Damon! Você não precisa escondê-los, agir como se nada importasse e...
Quando Damon finalmente começou a virar-se na direção da garota, ela não conseguiu segurar um leve sorriso. Porém, ao lhe encarar através da espessa cortina de chuva que os separava, sua expressão estava impassível. Não havia nada ali além da mais pura e gélida indiferença. Quando Damon abriu a boca para falar, seu tom era cortante e sem emoção, assim como os seus olhos.
- Você está perdendo seu tempo, Elena. Vá embora antes que a chuva piore. – e então, sem dizer mais nada, ele virou-se e entrou na casa, fechando a porta em seguida.
Ela permaneceu imóvel, encarando o ponto onde Damon estava há poucos instantes, a chuva gelada caindo com violência ao seu redor. Um raio iluminou o céu e, um segundo depois, um trovão ressoou bem próximo dali. Elena sequer se mexeu, enquanto a dor parecia se espalhar por todo o seu corpo. Era como se o tom, a expressão, as palavras e – principalmente – o olhar de Damon fossem lâminas atravessando a sua pele. A indiferença que ele emanava chegava nela como uma agressão física. Nada havia ali que lembrasse a atenção, o amor e o cuidado que ele tinha para com ela há poucos dias.
No rosto de Elena, lágrimas misturavam-se à água da chuva. Ali parada, ela se sentia desolada, como se estivesse completamente só no mundo, e tudo porque ela conseguira feri-lo tão profundamente a ponto de, finalmente, fazê-lo se afastar. Foi só naquele momento que ela percebeu como Damon havia se transformado, progressivamente, no seu único porto-seguro. Mesmo quando Stefan partira, mesmo quando Klaus desligara sua humanidade, Damon não a deixara sozinha. Elena compreendeu, naquele instante, que era na tempestade causada por Damon que ela se sentia segura.
Sem que ela percebesse, seu choro silencioso dera lugar a soluços incontroláveis, que faziam seu corpo estremecer. A chuva continuava a cair impiedosa, e todo o corpo de Elena estava gelado, açoitado pelo vento forte. Ela tremia numa mistura de desespero e frio. Unindo todo o resto da força que possuía, Elena gritou em direção a casa, numa última tentativa angustiada antes de afundar.
- Damon?!
Durante alguns segundos, ela sequer respirou, atenta a qualquer ruído que pudesse indicar a aproximação de Damon. Nada aconteceu. Então Elena fechou os olhos por um instante, seu rosto contorcido. Assim que os abriu, ela tomou apressadamente a direção de casa, contando cada passo dado no caminho entre a sua e a dos Salvatore, cada passo a menos para estar na segurança de seu quarto.
3142 passos depois, já de porta fechada, Elena deixou-se desabar no chão, seu corpo tomado pelos soluços.
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