The Fire Inside
10 Even the best fall down sometimes
Notas iniciais
Chovia ininterruptamente em Mystic Falls há uma semana. A grama, antes enfraquecida e amarelada pela seca de mais de um mês, crescia com vigor, embelezando os jardins com a sua imensidão esverdeada. A chuva torrencial dos primeiros dias dera lugar a uma garoa calma, mas ainda fria e contínua. Poucas pessoas caminhavam nas ruas, que emitiam um sentimento de desolação e abandono. Era como se o tempo refletisse em maior escala tudo que se passava dentro de um aflito coração que habitava uma das inúmeras casinhas similares das ruas residenciais de Mystic Falls.
Poucos sorrisos cruzaram os lábios de Elena Gilbert durante aqueles dias chuvosos, e um número ainda menor deles foi realmente verdadeiro. No entanto, ela não poderia se dar ao luxo de compartilhar o seu desamparo. Isso exigiria muitas explicações sobre o que realmente se passava dentro dela, explicações essas que não conseguia dar nem a si mesma. Ela sentia-se andando sobre uma corda bamba, prestes a cair, mas sem poder deixar os espectadores visualizarem o seu medo. O que mais lhe afligia era saber que, se caísse, não haveria ninguém lá embaixo para segurá-la, para impedi-la de alcançar o chão.
Naquele dia em que se permitira desabar, Elena passara horas no chão de seu quarto, sem forças sequer para levantar. As lágrimas duraram apenas parte desse tempo, e, quando elas cessaram, assim como os soluços, um desespero ainda maior pareceu tomar conta do peito de Elena, causando-lhe dificuldades para respirar. Ela agora enfrentava uma situação que nunca cogitara anteriormente: viver longe de Damon Salvatore. E nunca o fizera porque, inconscientemente, não acreditava na possibilidade dela realmente existir. Damon era aquela força sempre presente, às vezes invisível e silenciosa, a qual ela poderia recorrer a qualquer instante.
Em algum momento daquele dia, enquanto a chuva ainda caía com violência e o vento açoitava as janelas da casa, Elena ouviu o celular tocar no seu bolso. Encarando o nome de Stefan na tela por longos segundos, ela decidiu que deveria agarrar-se com força a tudo o que lhe restara, à sua última chance de conservar a sanidade. Ela fizera a sua escolha e a manteria nem que fosse por ter perdido qualquer outra opção.
Fingindo que tudo estava bem, inventou uma desculpa qualquer para sua ausência na escola e combinou de encontrá-lo. Após tomar um rápido banho, Elena encarou a sua figura no espelho ao abrir um sorriso forçado. Ela parecia a mesma garota de sempre, com exceção dos olhos castanhos que pareciam mais escuros e opacos. Dando-se por satisfeita mesmo assim, ela preparou-se para encarar o mundo como se nada tivesse acontecido enquanto, internamente, ela sentia um desamparo nunca antes experimentado.
E dessa forma se passaram sete dias chuvosos. Elena se esforçou para tentar ajudar Bonnie, que ainda enfrentava os seus problemas com os espíritos, pois sentia-se culpada pelo egoísmo que demonstrara anteriormente. No entanto, internamente, aquilo era uma boa desculpa para esquecer a sua própria situação.
A amiga tentara fingir, por algum tempo, que estava melhor em relação à perda de seus poderes. Após insistir, no entanto, Elena conseguiu arrancar de Bonnie um desabafo. Ela continuava sem conseguir dormir em razão dos sonhos desconcertantes provocados pelas bruxas do outro lado. Entretanto, quando Elena lhe perguntava o conteúdo deles, Bonnie desconversava, clamando não lembrar com precisão. Apesar de desconfiar daquela resposta, Elena quis deixar a amiga livre para contá-la apenas quando se sentisse a vontade com aquilo.
Stefan, por sua vez, continuava o mesmo de sempre. Amoroso, compreensivo, atencioso, preocupado. Em muitos momentos a distraía daqueles sentimentos que a impediam de adormecer à noite, mas o alívio vinha apenas por alguns segundos. Não levava muito tempo para que a aflição voltasse a envolver o coração da garota, que sentia como se constantemente faltasse algo para completá-la e afastar a angústia. O que lhe tirava o sono, no entanto, era saber o que era aquele algo que lhe faltava.
Felizmente, como enfrentavam um período de provas na escola e ela faltara muitas aulas em função de sua transformação, os estudos estavam ocupando a sua mente por consideráveis horas. Elena solicitara a ajuda de Stefan, que chegara à casa dela com os braços tomados por livros e uma caixa dos bombons preferidos dela, para alegrar outra tarde chuvosa.
Foi após algum tempo estudando física que Elena empurrou o seu livro para longe, resmungando, e puxou a caixa de bombons para si. Stefan ergueu os olhos com uma risadinha e observou-a enfiar o bombom na boca com certa violência.
- Qual exercício você não conseguiu fazer dessa vez? – ele perguntou com um tom divertido, pois era a sexta vez que Elena esboçava a mesma reação. Ela revirou os olhos para ele, fazendo uma careta mal humorada em resposta à diversão dele.
- Todos. Eu nunca vou aprender isso. – ela respondeu com irritação, jogando as pernas sobre a cadeira ao lado da sua, assumindo uma postura de quem não iria mais nem encostar nos livros.
Stefan balançou a cabeça, ainda achando graça, e pegou o livro dela, observando a forma como ela tentara resolver a questão. Então o aproximou dela novamente, tentando mostrá-la qual era o erro que cometera. Ela observou sem prestar muita atenção, e, quando ele terminou, levantou-se sem dizer nada, foi até a cozinha buscar uma bolsa de sangue, serviu-o num copo e voltou.
Os dois ficaram alguns segundos em silêncio, e Stefan decidiu que era melhor dar-lhe algum tempo para esfriar a cabeça. Ele tentou puxar um assunto alternativo, lembrando-se de algo que vinha o incomodando há dias.
- O Damon está cada vez mais distante da sua humanidade. – Stefan deu um suspiro enquanto observava o tampo da mesa, um tanto distraído em seus pensamentos. – Não sei o que aconteceu com ele para ficar assim tão de repente.
Felizmente para Elena, Stefan estava distraído o suficiente para não notar a expressão que tomou conta do rosto dela ao ouvir tão subitamente aquele nome que vinha evitando. A verdade era que não o havia visto desde aquela manhã em que ele lhe virara as costas e a deixara afundar sozinha em seu desespero. A única notícia que tivera dele fora há dois dias, quando Caroline ligara do Mystic Grill a convidando para jantar. Casualmente, ela mencionou que Damon estava levando a garçonete para os fundos do bar, e Elena imediatamente inventou uma desculpa para não ir.
Elena tinha medo de encontrá-lo novamente. Não fazia ideia de como reagiria ao encarar mais uma vez aquela expressão de pura indiferença ou aqueles olhos gélidos e sem emoção, mas sabia que não seria de uma maneira agradável. Elena simplesmente não gostaria de afundar mais naquele mar de aflição no qual já estava submersa.
A voz de Stefan lentamente foi trazendo-a de volta para a realidade.
- ...toda manhã uma garota diferente. Pelo menos, eu não encontrei mais nenhuma morta, e sequer ouvi notícias sobre algum ataque de animal nos arredores.
- Menos mal. – foi tudo que Elena conseguiu dizer, sem muita emoção na voz, e então se ocupou em tomar rapidamente o resto do sangue que havia em seu copo.
- Vamos voltar para a física, agora? É mais fácil de entender do que o meu irmão. – Stefan deu uma risadinha, tentando suavizar o seu tom de voz, e Elena concordou com a cabeça, ansiando por ocupar a sua mente com qualquer outra coisa.
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Elena se arrastou para fora da sala de aula, tendo certeza que havia se dado muito mal na prova de física. Stefan tentava consolá-la, mas ela não prestava atenção, pensando que mais tarde compeliria a professora a melhorar a sua nota. Quando estavam quase virando o corredor na direção do refeitório, cruzaram por Rebekah, que andava na direção oposta, agarrada ao braço de um garoto do time do colégio. Ela lançou um olhar furioso e vingativo na direção de Elena, que estava sem humor para esboçar qualquer reação, e continuou o seu caminho.
Os dois almoçaram junto de Caroline e Tyler, e, apesar de procurarem avidamente por Bonnie com o olhar, não havia sinal algum da amiga. Após o intervalo, Stefan e Tyler afastaram-se juntos para a aula de biologia, Caroline foi para a reunião da comissão de algum dos inúmeros bailes que ela organizava, e Elena andou sozinha em direção ao seu armário para pegar suas roupas para a educação física. Em seguida, saiu para o estacionamento, o qual tinha que atravessar para chegar ao ginásio.
Ela parou de repente quando ouviu algum carro se aproximando. Distraída, ela virou o rosto para observar o automóvel. Todo o seu corpo gelou quando seus olhos recaíram sobre o motorista do conversível que se aproximava, e sua boca abriu-se em estado de choque. O sol que finalmente voltara a Mystic Falls refletia-se naqueles fios negros, cujo dono tinha os olhos de uma imensidão azulada cobertos pelos óculos escuros que usava. Talvez em razão dos dias sem vê-lo, Elena achou-o de uma beleza mais estonteante do que nunca.
Paralisada no mesmo lugar, ela observou quando o carro passou por ela, sem que o motorista olhasse em sua direção, e parou alguns metros a diante. Ele abriu a porta do carona e Elena ficou encarando as costas dele com uma expressão boquiaberta, sem acreditar que ele estivesse realmente a convidando a entrar no carro.
No entanto, a sua dúvida foi rapidamente esclarecida. Elena observou quando Damon virou um pouco o rosto na direção da escola, um sorriso torto brotando em seus lábios. Ela fez o mesmo, e pôde ver quando Vanessa Edwards, uma loira um ano mais nova do que ela, veio caminhando com pressa na direção do carro, um sorriso de orelha a orelha nos lábios. A garota parou do lado do carro, apoiando as mãos na lataria, e inclinou-se para alcançar os lábios de Damon. O beijo que ela começou com suavidade foi claramente aprofundado por Damon, que a segurou com força pelos cabelos. Elena pôde ouvir sem dificuldade as risadinhas baixas de Vanessa, e, quando ela se afastou dos lábios dele, o que ela lhe sussurrou ao pé do ouvido.
- Estou louca para tirar toda essa sua roupa, Damon.
Ela entrou com um sorriso travesso no carro e Damon arrancou rapidamente, saindo em alta velocidade do estacionamento da escola, sem esboçar qualquer reação à presença de Elena. Ela permaneceu no mesmo lugar, observando o ponto onde o carro estava há poucos segundos e sentindo-se como se estivesse sendo sugada para baixo, para o fundo. Era como se o chão houvesse sumido sob os seus pés e o oxigênio não conseguisse mais chegar aos seus pulmões.
Elena achara já ter vivenciado o auge da indiferença de Damon, mas nada se comparava a ter a sua presença totalmente ignorada. Era como se ela não existisse mais para ele. O sentimento de abandono que já vinha acompanhando-a atingiu o seu auge, e para Elena, era como se estivesse completamente só no mundo. É claro que havia Stefan, Caroline, Bonnie, Matt, Jeremy... Entretanto, naquele momento, ela sentia como se eles nunca mais fossem ser suficientes, não se ela não tivesse Damon por perto. Nada significava se Damon a abandonasse. Ele tornara-se parte indispensável de sua vida, tornara-se parte dela mesma. Era como se, ali, parada no estacionamento da escola, uma parte de seu corpo tivesse sido arrancada sem anestesia.
As pernas de Elena falharam, fazendo-a cambalear, e sua visão tornou-se embaçada pelas lágrimas que se formavam. Ela respirou fundo, tentando agarrar-se às suas últimas forças, e praticamente correu pelo pátio e pelos corredores, que lentamente esvaziavam-se em função do sinal que tocava. Assim que se encontrou na segurança do banheiro, ela trancou a porta e deixou seu corpo deslizar contra ela até atingir o chão. Elena abraçou os joelhos enquanto altos soluços escapavam por entre seus lábios e as lágrimas escorriam livremente por seu rosto.
Durante um tempo indeterminável, Elena continuou sentada no chão frio, permitindo-se demonstrar toda a desolação que a atingia, e que ela escondia, há mais de uma semana. Ser rejeitada doía de uma forma que ela não conseguia explicar. No entanto, Elena sabia que merecia toda aquela dor que se espalhava por suas veias como um veneno. Ela dava esperanças continuamente a Damon, por não conseguir controlar seus sentimentos, e em seguida o rejeitava uma, duas, vinte vezes. E ele nunca saíra do seu lado, nunca deixara de protegê-la, de apoiá-la, de amá-la, até aquela última vez. Ela o compreendia e não nutria qualquer ressentimento. Damon possuía todo o direito de cansar daquele joguinho em que ela o colocara.
Quando as lágrimas finalmente secaram em seu rosto, Elena levantou-se lentamente e apoiou-se na pia, observando sua figura no espelho. Seu estado era deplorável. Em seus olhos avermelhados, ela pôde encarar explicitamente a verdade que estava ignorando, pôde admitir o que seu coração já sabia há muito tempo. Ela não podia mais sobreviver sem a presença de Damon. De nada importavam as suas decisões conscientes. Ela necessitava desesperadamente dele, e não poderia deixá-lo ir. No entanto, havia Stefan e...
Elena suspirou lentamente. Encarando os seus próprios olhos castanhos, ela teve uma certeza nunca antes experimentada. Ela não ficaria inteira com apenas um dos irmãos Salvatore.
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Quando o próximo sinal tocou, anunciando o início do período seguinte, Elena saiu lentamente do banheiro, como se nada houvesse acontecido. Ela fechara novamente a represa dos seus sentimentos, sabendo que não poderia compartilhá-los com ninguém. Bonnie estava já bastante ocupada com os seus próprios problemas, e Caroline nunca aceitaria aquilo que ela vinha nutrindo por Damon. Só o que lhe restava era guardá-los com cuidado dentro de si até estar sozinha novamente.
Ela andou lentamente pelo corredor, guardando suas roupas – inutilizadas – de ginástica dentro do armário novamente. Ao longe, ouviu as vozes de Stefan e de Tyler, que comentavam sobre o próximo jogo do time de futebol da escola. Elena fingiu pegar alguns livros no armário enquanto respirava fundo e tentava manter tudo o que sentia bem escondido dentro de si.
Quando Stefan estava quase a alcançando, uma colega da aula de ginástica passou por Elena e comentou sobre sua ausência, perguntando se tudo estava bem. Ela dispensou a garota rapidamente, mas Stefan já havia escutado tudo. Tyler acenou para Elena e se afastou, deixando-os a sós.
- Elena... Você está bem? – ele perguntou em um tom preocupado. Ela afirmou com a cabeça e tentou mudar rapidamente de assunto.
- Você viu a Bonnie? Não a acho em lugar algum. – Stefan balançou a cabeça, mas continuou encarando-a com apreensão.
- Você tem certeza de que está bem? Você parece um pouco pálida. – ele diminuiu o tom de voz. — Precisa de sangue? Posso te levar para casa.
- Eu já disse que estou bem. – ela respondeu com uma pontada de irritação na voz, e então fez um sinal com a mão, indicando-o para deixar para lá. Os dois começaram a atravessar lentamente o corredor. – Estou preocupada com ela.
- E eu estou preocupado com você. – ele falava de forma incisiva, observando-a atentamente enquanto Elena tentava evitar o seu olhar.
Logo os dois chegaram na sala de sua próxima aula, onde Caroline esperava-os perto da porta. Antes que a loira pudesse dizer qualquer coisa, Stefan dirigiu a palavra a ela.
- Caroline, você concorda comigo que a Elena não parece bem?
Elena revirou os olhos para a amiga, que, por sua vez, devolveu-lhe um olhar também preocupado.
- Agora que você mencionou, ela realmente parece um pouco pálida... – Caroline falou lentamente, observando atentamente a expressão de Elena.
A morena bufou, perdendo o resto de sua paciência. Quando se virou para Stefan, sua expressão era de pura irritação.
- Eu já disse que estou bem, Stefan! Você não precisa me tratar como se eu estivesse prestes a quebrar o tempo inteiro! – seu tom era exasperado, e atraiu vários olhares para a cena. Percebendo-os, Elena respirou fundo, controlando a sua súbita irritação, e abaixou o volume quando tornou a falar. – Estou cansada, vou para casa.
Elena deu meia volta e cruzou o corredor a passos rápidos, sem olhar para trás. Já no pátio, ela pôde sentir a brisa contra seu rosto e acalmou-se um pouco enquanto o atravessava e tomava a direção de sua casa. Não era justo irritar-se com Stefan tão facilmente, uma vez que ele não tinha culpa de nada que vinha acontecendo com ela. No entanto, a insistência dele só tornava ainda mais difícil para ela ter que mentir repetidas vezes.
Caminhando calmamente na direção de sua casa, Elena percebeu como a sua garganta estava ardendo. Antes de ir para a escola, ela bebera a última bolsa de sangue de sua geladeira, o que era pouco comparado às 3 ou 4 que normalmente consumia. Com Stefan na aula, ela não tinha a quem recorrer, e aparecer na casa dos Salvatore estava fora de cogitação. Decidiu, então, ir até o Mystic Grill e compelir o garçom a vendê-la uma dose de uísque para disfarçar a sua sede.
Sentada no balcão do bar escuro, Elena sentiu-se uma alcóolatra por estar bebendo no meio da tarde. Ela deu uma risadinha sem humor, lembrando-se de Alaric e de todas as tardes que ele passara ali. O lugar estava razoavelmente vazio, uma vez que as pessoas encontravam-se ainda na escola ou no trabalho.
De costas para a entrada, Elena não se virou quando ouviu alguém entrar pela porta e andar a passos lentos até uma mesa. Estava ocupada observando as pedras de gelo que flutuavam no líquido alaranjado quando uma voz, que foi rapidamente reconhecida, atingiu seus ouvidos. Imediatamente, todo o seu corpo ficou tenso e sua audição ficou mais aguçada, prestando atenção a cada palavra.
- Já cheguei aqui. Sim! Acabei de voltar de lá. – apesar de sua ótima audição, ela não conseguia ouvir o que a outra pessoa respondia ao celular. – Ele é simplesmente maravilhoso! E cada vez que eu o vejo ele parece estar ainda mais gostoso! – a garota deu risadinhas histéricas. – Vem logo! Espera só até eu te contar as coisas que ele faz comigo. Beijinhos, estou esperando!
A raiva começou a borbulhar dentro de Elena como um líquido prestes a entrar em ebulição. Seus dedos estavam fechados em punho enquanto ela tentava se controlar, as unhas cravadas na palma da própria mão. Ela fechou os olhos castanhos por um instante, agarrando-se a todo o resto de sua sanidade. No entanto, imagens de Damon em seu carro, abrindo a porta para a garota e ignorando totalmente a presença de Elena, como se ela fosse invisível, projetaram-se contra suas pálpebras fechadas. Todos os sentimentos de abandono, de desolação, de rejeição que ela vinha sentindo há uma semana se transformaram imediatamente em uma fúria cega.
Quando ela se levantou do balcão, tudo o que Elena queria era calar Vanessa Edwards para sempre, para nunca mais ter de ouvi-la se gabando sobre o que quer que ele fizesse com ela. Para que ele nunca mais tocasse nela. Ou em mais ninguém, uma vozinha furiosa sussurrou dentro de Elena. Ela andou a passos lentos e silenciosos na direção da mesa, cada movimento tomado pela precisão, pela elegância e pela confiança de um predador. Ela costumava associar aquele jeito de se mover com Stefan ou Damon cometendo alguma bobagem.
No entanto, antes que ela alcançasse a mesa, Vanessa levantou-se em direção ao banheiro. Elena mudou imediatamente o seu rumo, seguindo-a silenciosamente e entrando atrás da garota antes mesmo que a porta se fechasse. Quando ela notou Elena pelo reflexo do espelho, arregalou os olhos, assustada em função das presas aparentes e das veias saltadas no rosto da morena. Aquela expressão de pavor fez com que Elena abrisse um sorriso sombrio, satisfeito. E então, antes que Vanessa pudesse fazer qualquer movimento, Elena cravou as longas presas no seu pescoço, uma mão cobrindo os lábios da loira para que ela não gritasse.
O sangue quente, fluindo diretamente da veia, atingiu a garganta de Elena e ela emitiu um grunhido de satisfação. Seus lábios sugavam o líquido avermelhado e férrico com uma voracidade animal, e aquele gosto inebriante deixava todos os outros sentidos adormecidos. O fato de a garota estar se debatendo sob os braços de Elena só aumentava a satisfação do momento, em que a mente dela estava tomada por seus instintos predadores e pela fúria nutrida pela loira. Mesmo quando a sua sede foi saciada, Elena não parou de sugar, movida pelo prazer, pelo vício. Mesmo quando Vanessa caiu desacordada nos braços de Elena, depois de tanto lutar, ela não parou de sugar. Não só queria beber cada gota daquele sangue, como queria estraçalhar aquele pescoço. Raiva, vingança, luxúria, vício, morte... O sangue era capaz de despertar nela sentimentos que a deixavam cega em relação ao resto do mundo, que a afastavam da pessoa que sempre fora.
Parecendo vir do nada, uma voz atingiu os ouvidos de Elena. Tomada pelo êxtase do momento, ela não ouvira passos se aproximando ou sequer a porta se abrindo. Ao erguer o olhar para o espelho, ela encarou aquele rosto conhecido e, naquele momento, surpreso. E então seus olhos, agora apavorados, recaíram sobre a garota que, sem perceber, deixara cair desacordada no chão.
Oh, Meu Deus.
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