The Destruction
2 A Doença
Notas iniciais
20.01.2039, São Francisco
Quatro dias sem aula e todo o dia a mesma desculpa vindo da professora Katy: funcionários doentes e agora professores também! Mas o pior de tudo era ter que assistir aquele desenho insuportável com David. Eu amo meu irmão mas não tem coisa melhor para assistir não?
Treze horas e ponto, eu estava em meu quarto ainda dormindo quando David entra e fala:
– Amy, é a professora Katy. Ela quer falar com você no telefone.
Eu demorei quase cinco minutos só para levantar da cama, achei até que ela iria desligar.
–Alô? – disse sonolenta como na vez em que falei com Sarah.
– Amy? Você está bem? – perguntou por causa da minha voz
– Sim, estou.
– Você pode vir aqui em casa para conversarmos?
– Professora Katy, meus pais estão trabalhando, eu estou cuidando de David.
– Não se preocupe com isso, ele também pode vir e para você é só Katy. Estarei aí em quinze minutos, tudo bem?
– Sim.
– Abraços.
– Idem. – terminei
Me arrumei e pedi para David também se arrumar. Katy chegara treze e trinta em um Ford Ecosport vermelho. Ela sempre foi muito legal com todo mundo, ainda bem que veio nos buscar.
– Professora Katy, por que estamos indo á sua casa? – perguntou David, algo que eu também gostaria de saber.
– Olha David – ela começou – na verdade eu quero conversar com Amy, mas é bom se quiser ouvir também.
– O que precisamos conversar? – perguntei seriamente.
– Acho melhor conversarmos com mais calma lá em casa.
– Posso ao menos saber o assunto?
– Amy, eu sei que você e David estão quase uma semana sem ir á escola, tanto vocês como muitos outros alunos e é sobre isso que precisamos conversar: sobre o que está acontecendo nessa cidade.
– Ora, mas nem eu sei.
– Por isso mesmo, se conversarmos quem sabe não chegamos a uma conclusão?
Eu achei que devesse ficar calada depois do que ouvi... era algo grave mesmo, algo que precisa ser conversado com tranquilidade.
Quando chegamos, vimos uma casa humilde mas muito linda, com paredes da cor amarela e vermelho
– David, pode ligar a tevê – Katy disse apontando para a televisão e depois para uma cadeira – Você pode sentar ali Amy.
Me sentei e disse:
– Então Katy, fala o que você iria falar.
Ela pegou uma garrafa de água, bebeu e deu um suspiro como se fosse ler um testamento ou falar por umas quatro horas seguintes, então disse:
– Você não acha tudo isso um pouco estranho Amy?
Assenti mesmo que não me importasse com o que ela estava dizendo. Era até bom ficar uns quatro dias sem aula.
– Não é só o Colégio San Martin que está assim, – ela continuou – quase todos os colégios estão sem professores ou funcionários suficientes.
– Há alguns dias eu e Sarah estávamos dando um passeio e quando voltamos para minha casa dois carros haviam batido de frente, um cara estava morto e saia da boca deles coisas nojentas e muito estranha. Não era um tipo de doença comum como a gente ver nos telejornais, era uma doença... estranha. Disso eu tenho certeza, aquilo tinha que ser uma doença.
– “Era uma doença... estranha”, como assim Amy? — perguntou
– Sei lá, era algo anormal. Não é todo dia que se vê essas coisas acontecerem.
– Mas o que você quer dizer com isso? – ela perguntou confusa
– Não é óbvio? Você não acha que pode ser algo contagioso? E se os funcionários, professores, quase toda a população esteja com essa doença?
– E como você pode ter certeza disso? Como você pode saber que isso é uma doença?
– Katy, você pediu minha ajuda para chegarmos á uma conclusão, e é isso que eu acho que esteja acontecendo. Tudo bem, é algo confuso mesmo... espero que eu não esteja certa sobre isso.
Ficamos conversando sobre isso por poucos minutos, até menos de uma hora. Mas então eu e David resolvemos ficar por lá e só voltamos para casa quase dezessete horas, a rua não muito movimentada o que era muito estranho. Quando chegamos em casa pensávamos que nossos pais estavam trabalhando, mas pensamos errados. Entrei dentro de casa e minha mãe deu um pulo do sofá, nos abraçou e nos beijou como nunca tinha feito antes e haviam lágrimas em seus olhos. Até mesmo eu estava desesperada!
– Mãe, calma, por que você está assim e por que chegou tão cedo do trabalho? – perguntei
– Aonde vocês estavam ? Querem me matar do coração?!
– Mamãe, nós fomos na casa da professora Katy! Lá é muito legal – disse David como se nada estivesse acontecendo.
– Sua mãe e eu queremos que vocês assistem á esse noticiário. Depois precisamos conversar... – disse meu pai aflito.
Nos sentamos no sofá, David com preguiça de assistir. Meu pai pegou o notebook e colocou em seu colo. O noticiário dizia:
“A bactéria ainda desconhecida pelos cientistas está avançando cada vez mais para cidades do mundo todo, alguns países já estão sendo obrigados a usar máscaras e tentar não sair de casa o máximo possível! A bactéria contagiosa começa a tomar conta do corpo do hospedeiro e o mata em poucas horas. Mais de duzentas e cinquenta pessoas já foram mortas. Aconselhamos: evitem o máximo possível de saírem de suas casas!”
O medo estava presente na nossa casa, não podíamos acreditar que ouvimos aquilo. Minha mãe chorava sem parar, meu pai a abraçava, David não entendia nada do que estava acontecendo e eu não sabia como explicar para ele. Então levantei do sofá e disse:
– Pessoal, não podemos desanimar. Eu sei que todo mundo está com medo, eu também estou. Mas ao invés de ficarmos choramingando, vamos pensar em uma forma de nos prevenirmos desta doença. Precisamos de comida, de muita água, roupas... eu não posso acreditar que estou dizendo isso, mas eu estou dizendo. Se ainda estamos aqui é porque temos um propósito, nós poderíamos estar entre os duzentos e cinquenta mortos mas não estamos! Todos comigo?
– Eu não entendi nada, mas eu estou com você Amy — disse David
– Resumindo o que você falou: vamos iniciar um manual de sobrevivência? – disse meu pai
– É, quase isso.
– Isso é loucura... esse é o nosso final? Nossa vida termina assim?
– Pai, larga de drama. Quer que eu conte uma piada pra todo mundo ficar feliz?
– As suas piadas nunca tem graça Amy – disse David
– Isso é verdade... – concordei – enfim, só ouvi David falar. Repetindo: “todos comigo?!”
– Sim! – disseram em uníssono.
Pensei em ligar para Sarah mas não fiz, eu tinha que planejar tudo. Eu me sentia como no filme de aventura, era tudo muito maluco mas também muito sério. Só não queria acreditar que o que eu disse para Katy, é mesmo verdade... talvez os funcionários e professores já estão até entre os duzentos e cinquenta mortos...
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