The Darkness is Coming
12 Uma pequena troca de favores
Ele teve um pesadelo, sentia frio como nunca deveria ter sentido e seu pesadelo? As memórias de quando ainda era “humano”, não era “imortal” e sofria com a dor e o frio como qualquer um naqueles dias, quando sofria... Fosse culpa da caixinha com seus dentes que acabou ficando no bolso do seu moletom azul, fosse culpa da marca negra em seu corpo magro e esguio, não importava.
Ele sentia... Frio. Ele era o Jack Frost, o ser que guiava o vento e as ventanias geladas para todas as partes do mundo, criava flocos e tempestades de neve pequenas, congelava o nariz de crianças e as fazia se divertirem, ele não poderia sentir frio, seria o mesmo que voltar a sentir tudo que um humano comum, um adolescente...
— Jack?
Ele estava tremendo? Ele tinha... Dormido? Por que Sandman estava levando a areia dele para Pujam Hy Loo? Era muito trabalho levar areia dos sonhos até ali. E ainda tinha a Dentiana o chamando, o sacudindo para acordar, o mexendo pelo ombro e ao vê-lo acordar ao resmungar algo, parou de imediato o que fazia e se afastou.
Só por se sentar, notou que estava coberto por um lençol cinza em seu corpo e sentindo a mão de Dentiana em sua testa, suor escorria dela e seus lábios tremiam. Algo não estava normal ali, mas quando algo foi normal?
— Eu tentei comunicar o Norte do seu estado, mas preferi esperar... — Ela proferiu, o olhando preocupada e uma afeição que ele não deveria ter, não merecia depois de tantos erros egoístas do passado — Você está suando e quente, Jack.
Quente? Ele?
— Isso é impossível... — Sussurrou, afastando o cobertor de si e vendo a sua mão preta como carvão, o assustando e olhando em choque para a fada dos dentes, para sua amiga... Para sua confidente — Quente, eu sou um espirito da neve e do inverno, Dentiana. Eu não fico quente... — Murmurou, nem mesmo ele acreditando nas suas palavras, tocando o pescoço e sentindo a pele molhada e como a outra falou, quente ao toque.
— Jack... A sua mão! — A outra falou, assustada e segurando a mão do guardião, os olhos lagrimejando — Deveria ter iniciado o seu treino no polo como você me pediu, mas eu sou tão, tão teimosa... — Vociferou para si mesma, a raiva sendo apalpável da figura doce que Dentiana era.
Doce. Ela era doce.
— Não posso ir ao polo, ainda bem que não me levou... — Sussurrou novamente, a mão soltando das pequenas de Dentiana e lhe segurando o rosto com delicadeza, a mesma que ela sempre lhe dava como uma boa amiga.
— Você não vê? Isso é minha culpa! — Exclamou, já alterada e ele não a culpava de tal atitude, ele mesmo deveria concertar aquilo e deixá-la tranquila — Eu o levei ao limite! Teimei em fazer isso e o que custou? Em sintomas de uma doença, Jack!
— Mas eu estou doente, Dentiana... — Sussurrou para ela, a mesma voltando a si e se acalmando — Nada é sua culpa, eu sou o responsável por não ter me cuidado e você... Você tem apenas me ajudado mais do que qualquer um, se importando e me dando até mesmo um cobertor, Dentiana — Falava, se aproximando um pouco mais e a vendo ficar corada — Não precisa se preocupar, eu prometo que nada disso vai ficar pior do que está. Vê? Sob controle — E em uma piscadela, o corar dela sumiu e o olhar cabisbaixo veio.
— Não prometa algo a uma garota quando não pôde cumprir... — Murmurou — Você é tão especial e... — Parando na própria fala, Dentiana se conteve em algo.
— E? — A incentivou, vendo a mesma ficar nervosa e não insistiu, preferia se situar e voltar ao normal.
— Teimoso — Concluiu, os olhos voltando a ficar marejados
— Tire o moletom, Jack... — Pediu, mas sem a malicia ou vergonha em sua voz, sem a costumeira timidez.
E ele fez o que ela pediu, devagar e com um pouco de vergonha ele tirou a vestimenta que a mesma pediu, o peito com a enorme mancha negra exposta e do olhar da Fada, Jack conseguiu ver a tristeza com algo além, uma determinação que ela impôs quando se aproximou o suficiente para tocá-lo no peito, fazendo com que um pouco da poeira da mancha negra caísse e ficasse sob o chão.
Mas as asas de Dentiana tremeram, o corpo dela tremeu e quando a mão da mesma se afastou, o olhar dela parecia de uma ave selvagem. Ela parecia selvagem.
— Estou um pouco curioso com o quê você fez... – Jack falou, olhando para a poeira negra que caiu aos seus pés e do seu peito, mesmo que pouca, havia ainda mancha – Devo me preocupar?
— Você deve não fazer perguntas, Jack... – Sorriu fracamente, tremendo um pouco – Não consigo curá-lo, mas posso aliviar a dor. Por isso que estou insistindo para que fossemos até o Polo, lá o Norte poderia lhe ajudar melhor, ter uma solução...
— É bondosa demais, Dentiana... – Sussurrou um tanto sem graça pelas palavras, a preocupação dela com ele – Mas eu gostaria mesmo que não se iludisse com isso, não vai passar e não é algo passageiro, você sabe que não é, sentiu isso...
— De fato, mas não vou desistir – Falou, convicta.
Ele sorriu com as palavras dela, mas com esse sorriso e a esperança fluindo entre eles, se desmanchou. O calor de antes voltou para ele e uma coisa bastante comum aos humanos apareceu nele. Dor de cabeça. Mas não uma simples “dor de cabeça”, parecia que ela iria explodir e ele colocou as mãos na cabeça como reflexo para diminuir a dor, tentar apaziguar a mesma enquanto ouvia Dentiana o chamando de longe.
Sentia que estava tremendo e ele sentiu o frio atingir cada parte do seu corpo, seus pés doíam e suas mãos começaram a ficar dormentes, nem mesmo sabia se ainda estava escondendo o rosto entre as pernas e segurando a cabeça, não conseguia ter noção de espaço e não sentiu ser levado ou deitado para melhorar.
Ele apenas... Ouvia a voz de Dentiana, distante e chorosa, pedindo para ele continuar ali com ela enquanto eles estavam chegando em algum lugar. Onde? Ele não sabia e não conseguia identificar, mas o que pareceu uma eternidade e acabou, um dos sentidos dele se afastou daquela dor e o cheiro de biscoitos de chocolate e tinta fresca tomaram seus sentidos. Ele tinha sido carregado por ela... Não precisou de mais palavras por conta da situação já mostrar que nada estava sob controle. Nada.
Os seus sentidos apenas voltaram depois do que parecia uma eternidade. A luz do lugar trazia novamente a dor de cabeça e só por levantar o corpo para se sentar, reparou que estava na sala principal do polo, estava na fábrica do Norte, mas não havia ninguém ali.
Tentando se levantar, não conseguiu por se sentir fraco. Não parecia o mesmo de sempre, talvez... Talvez a escuridão fosse tomar conta dele e aquele era o fim, sem ninguém ao seu lado. Iria desaparecer como guardião da diversão, como Jack Frost. Ele não queria morrer... Não, não queria ficar invisível e nem sumir, sem nenhuma lembrança para ser esquecido.
Ele estava com medo.
Uma ânsia subiu e ele tremeu, o corpo inteiro tremeu e Jack vomitou “aquilo”, não tendo tempo nem de gritar por ajuda, apenas colocou algo horrendo para fora de si, abraçando a si mesmo quando acabou e balbuciando algo que nem mesmo ele poderia entender, ficando zonzo e olhando para frente com a visão embaçada.
— Olhe o que ele fez com você, minha criança – Uma única voz, vários tons. A mistura de uma voz infantil, feminina e masculina em uma única voz, falando com ele.
O que tenha sido o que ele cuspiu para fora, acabou se tornando algo vivo e feio, um amontoado de poeira negra flutuando e girando a poucos centímetros do chão, escorrendo do chão e voltando para sua origem flutuante. Ao lado, a dona da voz se tornou visível a Jack e ele achou ter visto Karma ali, mas uma versão mais velha e antiga, longos cabelos negros e a pele não tão humana como deveria, pálida. Era ela... Mãe Natureza.
— Considerei que ele tivesse sido misericordioso ou tentado o que a loucura dele tinha orientado a fazer, mas pelo visto... Estava errada – Falou, ele se sentiu tão pequeno perto dela, indefeso e vulnerável – Espero que ele não me decepcione caso não queira a minha ira caindo dos céus...
E com a mão sendo erguida, raízes saíram dentre as tábuas de madeira da sala e cresciam em direção a forma horrenda e negra, a envolvendo devagar e trazendo um som agoniante para Jack, esse já sem força nenhuma para poder gritar, chorar ou lamentar.
Ele estava com medo.
— Isso será breve, criança – Proferiu, a voz da mesma ficando mais intensa – Se o sucesso de minha filha depende de você, então assim será – Falou, a mão erguida e dela, ramos pareciam formar uma arma antiga de guerra e com uma baioneta na ponta, essa sendo apontada para Jack em seu ombro – Jack Frost, eu, Mãe Natureza, lhe dou minha bênção e meu sangue, lhe dou a força de mil tempestade, o calor do sol e o frio do lado escuro da lua, abrigo do seu protetor... Eu, Mãe Natureza... Lhe dou a bênção da vida! – Proferiu em sentença final, a baioneta perfurando seu ombro e a voz saiu de sua boca, gritando pela dor sentida e olhando horrorizado para a forma negra que deixou de flutuar e caiu no chão, se arrastando para baixo de si.
As luzes da sala tremularam e ele ouviu as vozes de Norte e da Dentiana, mas apenas de soslaio que viu uma muralha cobrir o lugar onde estavam e impedindo que os outros entrassem. Mas a dor em seu ombro foi aos poucos se amenizando e a poeira logo se aquietou, parando de se mexer e parecendo uma... Sombra. Ele tinha uma sombra! Ele era um maldito espírito do inverno, não um ser... Vivo...
Droga...!
Tocou o próprio peito e o observou, não havia nenhuma mancha em sua pele branca. Tocou onde deveria estar a marca da baioneta, sem nenhuma cicatriz ou marca, mas suas mãos... Elas estavam rosadas, seu peito com uma leve pigmentação de vermelho pelo calor e seu rosto, todo o seu corpo... Estava quente.
— Está feito... – Declarou, a voz da Mãe Natureza era uma só apenas, se abaixando na altura de Jack e estendendo a mão para ajudá-lo – Agora, quero um favor seu, criança. Vista uma roupa, traga o seu cajado e esteja pronto lá fora assim que conversar com eles – Apontou para a muralha de raízes, essa que se desmanchou e deixou com que seus amigos entrassem, entre eles, Coelhão.
Quando se virou para ver a Mãe Natureza, essa não estava mais ali e ele sabia que o favor dela não era algo para ser ignorado.
— Jack! – O impacto de Dentiana com ele o fez cair no chão, sentindo algo novo e estranho, a dor do impacto em suas costas e o calor do corpo dela com o seu – O que ela fez com você? O machucou? Não sentimos a presença dela e depois do que o Coração fez, não consigo ficar menos tranquila.
— O seu rosto, garoto – Norte sussurrou e os três o olharam, assustados.
— Ela não me machucou... Ela me abençoou – Contou, olhando para o Coelhão – Onde está a garota, canguru? – Perguntou, sério.
— É o que eu gostaria de saber, Jack – Respondeu o mesmo, mas até ele ignorou que o seu amigo estava trajado de forma estranha, estava com proteções de couro pelo corpo e um cajado nas costas.
Algo maior iria acontecer.
— Eu preciso ir... – Falou, levantando sem dificuldade alguma – Tenho que retribuir um favor
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