The Darkness is Coming
13 Não tenha vergonha de ter medo, afinal, ele é primitivo
Karma não sentia o sólido embaixo dos pés, parecia que estava sonhando e estando no mais puro e profundo sonho, mergulhada na bagunça vazia que era a própria mente durante um sonho vazio. Não sabia como ou porque os mais belos sonhos com as areias de Sandman não chegavam até ela, mas sabia que nunca uma um pesadelo das areias negras tinha chegado até ela e atormentado.
Mas ali estava ela, em meio ao oceano, esse já escuro e pelo horizonte, nenhum sinal de civilização. O céu refletia as águas que outrora foram limpas, mas que agora tinham objetos humanos boiando, enormes e que qualquer animal daquele mar poderia confundir com comida, um deles mostrava a nadadeira e pelo som que vinha desse, um grande choro ecoava pela noite, o sofrimento era grande. Estendeu a mão para alcançar, tocar tal animal, vendo que mostrando um pouco mais de si e espirrar água e pequenos objetos humanos.
— Não se distraía, criança – Breu a advertiu, segurando sua mão da qual tinha intenção de tocar o animal, mas não fazia sentido ele o fazer, estavam flutuando a metros do dito mar.
— Ela está sofrendo, quero ajudá-la – Argumentou e Breu negou com a cabeça, suspirando – Eu não me importo se vai me impedir ou não, mas mesmo com meu dever, não vou negar ajuda! – Aumentou o tom de voz, soltando a mão que Breu segurava e olhou para baixo.
Não foi impedida ao se jogar, pelo contrário, a areia negra apenas a fez criar coragem que demoraria para ter. Sentindo apenas a água salgada e gélida tocando cada parte do seu corpo e a abraçando, respirando fundo assim que emergiu e mexendo os braços de forma desengonçada, mas com força para chegar até o animal, tocando a pele enrugada e velha, ouvindo novamente o choro que soava mais forte e alto.
Então, Karma viu. Não haviam palavras, apenas sons e imagens, seus olhos eram daquela que teria metade da sua idade. Cada parte do oceano parecia cantar para ela, o nascimento, sendo filhote e depois criando o filhote, envelhecendo e seguindo rumo pelo mundo. Ela viu o definhar lento e torturante, a baleia chorou para Karma, se mexendo e balançando a água ao redor, quase a afastando, mas ela se segurou e tentou buscar algo ali para ajudar, algum pensamento ou que a fizesse sofrer menos.
Então, ela viu. O pensamento de chegar até a costa e... Encalhar. Sentiu a fome, mas a barriga cheia de sujeira do mundo da qual tanto explorou e fez parte, da qual viveu e desistia pela fome. O pensamento da sua mãe veio a cabeça, toda a dor que ela sentia e deveria carregar de cada filho da natureza, cada um que deveria viver e não sobreviver e definhar aos poucos em sofrimento, viver no eterno medo e incerteza. Era para isso que o sacrifício servia... Poderia ter vivido pouco em meio século, mas amava a vida e queria que outros pudessem desfrutar como ela desfrutou.
Mas ali... Ela sentiu. Medo. Medo do fim, medo da dor não acabar.
Apenas o mais primitivo e puro medo.
Era sempre a raiz de tudo. O medo.
Segurando a respiração e mergulhando, sendo guiada pela luz do homem da lua, sabendo que ele estava testemunhando e mandando luz para ela para ver seu ato final. Chegando embaixo da baleia, a tocou e forçou o seu dom para com o animal para trazer o equilíbrio do que ela merecia, trazendo por consequência disso o choro de dor da baleia e o agitar ainda mais forte do mar.
Conseguiu no momento em que ela abriu a boca e cada parte suja dentro dela saiu e Karma não esperou e nadou até a superfície para respirar, ofegando e esfregando os olhos pelo ardor, vendo a baleia espirrar água novamente. Usou o toque na água e a luz do luar ficando forte, era um sinal de que não estava fazendo algo errado ou distorcendo a ordem natural das coisas, isso só trouxe algo brilhando embaixo da água, várias coisas brilhando e a baleia se mexeu até esse brilho, ansiosa e fraca.
Comida.
Se afastou como pôde e algo a agarrou, a levando de volta para longe do mar. O olhar se virou para o dourado que encarava, sério e sem palavra nenhuma dita. Seu avô apenas a colocou de volta na nuvem de areia negra e eles seguiram viagem, sem uma conversa sendo sustentada, sem o contato de olhar e o vento conversando com ambos.
Não sentia frio, estava molhada ainda e pareciam não chegar a lugar algum, pareciam perdidos. Ela em seus pensamentos, esse que se voltavam para a esperança, quando a personificação e significado dela se preocupou consigo e não contou algo de tamanha importância. Ele não mentiu, mas omitiu algo maior da qual Karma ainda não entendi e compreendia, lembrava de ter dito e não sabia por ele se tinha ouvido, proferiu as palavras “eu amo” que foram soltas e não sabia do porquê, mas a intensão delas para ela foram fortes.
Naquele momento, o próprio poder se voltou contra ela. Não foi a poeira negra dos pesadelos que a fizeram chorar copiosamente e sem saber de onde veio tanta dor. Sentia saudade e notava a ausência, mas não sabia definir o significado intenso do “amo” que proferiu.
Tinha esse “amor” e respeito com sua mãe e pelo seu pai, o “amor” que sentia com cada criatura protetora que ajudava sua mãe ao redor do mundo, o “amor” e carinho que tinha pela Dentiana e pelo Norte por esses zelarem e a protegerem de cada mal. Mas com Coelhão soava diferente.... O amor que tinha por ele doía.
Apertou o próprio peito, segurando com força e novamente elas vieram, quente e brancas, caindo na poeira negra de pesadelos e tornando o tom preto em branco, esse parecia que cada gota que caía parecia secar depois do tom esbranquiçado. Talvez fosse nesse momento que atraiu a atenção do seu avô, se assustando ao perceber esse ajoelhado na sua frente e com uma mão que repousava em seu ombro esquerdo.
— Não chore por ele, menina – Falou, um suspiro deixando claro o nervosismo em sua voz. Breu não estava sendo cauteloso com suas palavras, ela não sentia receio.
Ele não tinha medo dela. Ele era o medo.
— Eu não gosto disso...! Por que dói em mim se eu não fiz nada de errado? – Fungou o nariz, tentando secar o rosto e os olhos.
— Você sente por ele, isso já deve ter sido o suficiente para doer, Karma – Explicou de forma tão simples – Você vai entender quando tiver idade...
— Todos falam isso, mas eu já tenho mais de 70 anos... – Resmungou, respirando fundo e tentando se acalmar – Todos falaram a mesma coisa, que sou muito nova para entender e compreender o mundo inteiro por si, mas olhe envolta... Olhe a criatura que o senhor me impediu de ajudar, eu já entendo, só preciso que iluminem o caminho para que não pareça errado – Argumentou, agora calma e notando brevemente com o olhar que tinham parado – Eu quero entender antes que seja tarde...
— E você vai, mas em grande maioria, nós mesmos temos que iluminar o caminho, criança – Contou – Seja de forma sombria ou ela de forma boa. Não existe apenas o preto e o branco, mas várias camadas de cinza para se iluminarem e você não deveria ser tão dependente daqueles que deveriam lhe auxiliar e também não a guiarem – E falando, Breu olhou para os céus, para a lua – Alguns aprendem isso um pouco tarde, outros aprendem cedo demais e falham...
— Mas... E se...
— Nunca pense assim – Falou – Nunca vai ser tarde demais, você tem muito o que viver, menina... – E devagar, ele bagunçou o cabelo molhado dela – Espero não vê-la chorando novamente, não quero ter que me forçar a cometer uma babaquice contra um guardião – Resmungou, voltando a se levantar e dar continuidade.
No céu surgiram criaturas moldadas das areias do sonho do Sandman e seguindo todas uma mesma direção e caminho, deixando um rastro e não se importando tanto assim com a chegada doa desconhecidos em seu lar. O lar flutuante em meio ao mar, uma olha dos sonhos feita em dourado e se mostrando semelhante como pó de ouro, mas a grandiosidade do lado de fora não era como dentro de tal lugar.
A areia escorria e não desmanchava de sua forma, se mantendo firme e como conseguiram entrar? Uma boa pergunta.
Karma nunca tinha ido tão longe, nunca havia ido até o lar de Sand ou tido um contato maior com o guardião, mas sabia que logo o mesmo não iria demorar para aparecer.
— Fale apenas quando eu falar que é para fazê-lo, menina – Falou em um tom sério.
A estrutura do lar dos sonhos se modificou e em momento nenhum eles pisaram no chão daquele lugar e em momento algum a areia do pesadelo de Breu tocou o lugar, mas não pareceu importar quando o dono do lugar apareceu e sua feição estava séria, bem diferente da bondosa e acolhedora da qual Karma já viu várias vezes.
— Peço que me escute antes de me arremessar para longe, velho amigo – Breu se colocou na frente dela, mas ela viu que a feição de Sandman não mudou – A minha neta veio pedir a sua ajuda, Sand. Veio oferecer algo em troca, uma solução para todos os males, para o caos que o mundo está se tornando, para a negligência dos humanos – Proferiu, se afastando e dando visão de Karma para o guardião – Vá.
Receosa, se colocou a frente e Sand sorriu para ela, se aproximando e pegando suas mãos com delicadeza. Não queria ver através dele, mas não afastou o toque.
— Sandman... Eu preciso das suas areias do sonhos e... E levá-las ao mundo com algo além dos sonhos e realizações... – Contou em um sussurro baixo, mas o outro guardião a ouvia com bastante atenção – Não fique bravo comigo, por favor... Mas eu preciso que você se junte a mim e ao Breu, preciso que leve sua areia dos sonhos com os pesadelos do meu avô, com pesadelos junto e sendo levados aos adultos principalmente... – Contou, abaixando a cabeça e sentindo uma mão pequena acariciar seu cabelo – Não fique bravo... É a única solução com um inimigo que não tem forma.
Era visível o pesar na face dele, como se soubesse desde o início.
— Está sugerindo destruir a infância das crianças, menina? Você sabe o que está exigindo? – Breu perguntou a ela, o tom de voz confuso e ela não queria olhar para ele.
A vergonha se embaralhava em suas entranhas.
— O medo é sempre a resposta, sempre está ali... – Karma falou, olhando para baixo, vendo a areia negra dos pesadelos a envolverem – Os humanos sentem medo e é por isso que sobreviveram, mas eles não sobrevivem mais e sim, estão vivendo, estando no limite e colocando o próximo no limite... O medo os fazia se afastar daquilo que os machucaria e os levaria a ruína...
— Quer fazê-los criar empatia através do medo? Isso não vai funcionar – Breu negou com a cabeça – Não é assim que se sacrifica em uma luta, em uma causa, menina – Explicou.
— Eu sei disso, vovô – O chamou, atraindo a atenção dele pela forma como ela o chamou – Por isso estou aqui, porque sou eu que irei fazer tudo acontecer... Meu poder, irei usá-lo para manipular esse medo – Declarou, afastando a mão de Sand da sua cabeça – Me deem uma chance... Irei conseguir e preciso de vocês caso eu perca o controle, mas além disso, preciso da areia dos sonhos e dos pesadelos.
E ela sentiu algo ao ter terminado de falar, uma coisa que nasce e cresce nos lugares mais improváveis, no solo banhado pelo medo. A esperança. Sentia uma ponta de esperança florescer diante da sua ideia boba e perigosa.
— Diga que o faremos, menina – Breu falou, acenando com a cabeça em sinal de respeito.
A areia de Sand tomou forma de um dedo positivo para ela. O incentivo que ela precisava.
Ela contou como poderia ser, mas que Breu teria de ter mais do poder dele e foi feito, os medonhos em forma de cavalo cresceram ao seu lado e animais aquáticos tomaram forma ao lado de Sand, esse que se afastou de Karma aos poucos, ficando distante e frente ao Breu, tendo Karma no meio. Dando volta ao redor deles, se misturando em algo não definido, novo e torto, que dava medo e para terminar, faltava um efeito final.
Lágrimas dela. A areia distorcida se aproximou e quase a derrubou, mas ela se manteve em pé, abraçando a forma distorcida.
Breu disse que não queria que ela chorasse novamente, mas era a essência dela... Era para o mundo inteiro que ela afetaria. Esse era o detalhe que ela omitiu na explicação, ela seria afetada pelo próprio poder...
E então, as lágrimas vieram.
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