The Crow & The Butterfly

3 Something big is happening


Notas iniciais
Olá pessoal! Pessoal, tive que fazer umas modificações que só percebi depois, então esse recado é para todos os leitores que acompanham desde os primeiros epis, pois fiz a mudança hoje, antes de postar esse capitulo, entao aqui vai: - Aysha tem 17 anos. - Ela veio de uma cidade grande para uma pequena. Não o contrário. E por último: esta frio, inverno. Ja que ahistória segue a geografia e estações do ano do hemisfério norte. Boa leitura e desculpem o transtorno!

No outro dia, acordei cedo e fiquei em casa, descobrindo as maravilhas do meu novo lar. A biblioteca era convidativa. Mas eu ainda teria muito tempo para ficar enfornada lá, solitária e suspirando pelos meus príncipes encantados, enquanto falava mal e debochava do meu ex, nada comparado a eles. De um canto a outro, nenhuma novidade, somente cômodos e mais cômodos, com caixas e alguns já totalmente decorados. E isso devia ser obra de Ben, que tinha um tremendo bom gosto e dinheiro de sobra para contratar uma pessoa bem preparada para decorar aquele casarão.

Desci para procurar alguma coisa na geladeira, ainda de pijama, quando vi uma cena pouco agradável na sala. Ben e mamãe estavam com convidados, que assim que pus os pés descalços no piso frio da sala, passaram a olhar minha figura descabelada de shorts e blusa comprida. Senti minhas bochechas queimarem na mesma hora.

– Aysha! – mamãe comentou sem graça. – Ainda está de pijama? É quase a hora do almoço!

Mamãe e seus comentários. Ela sabia mais do que ninguém que eu jamais andava de roupas finas ou algo assim pela casa, como todos deveriam fazer por ali. Eu era meio desajeitada e preguiçosa já na rua, o que ela esperava que eu fizesse dentro de casa? Mas vendo que ela apenas estava fazendo isso por conta da presença dos convidados, tratei de me desculpar, do modo adolescente normal.

– Ah, boa tarde? – arrisquei, tentando ser simpática.

– Bom dia ainda, na verdade. – a moça respondeu, no mesmo tom. – Essa é a sua filha então Marianne?

– Sim, minha única e descabelada filha.

Todos riram, inclusive eu, para dizer que a piadinha tinha sido engraçada, apesar do clima ainda constrangedor e aproveitei a deixa para me retirar.

– Isso mesmo, e é por isso que vou subir correndo as escadas e me arrumar. Então se me derem licença.

Voei para o andar de cima, soltando um suspiro comprido ao me encostar na parede próxima ao meu quarto. Ótimo, os vizinhos ficariam vindo aqui ver quem éramos, ver como nos vestíamos e como era nossa “família”. E tudo para ver se nos encaixávamos perfeitamente no bairro.
Se mamãe pensava que eu ia começar a desfilar modelitos cafonas de vestidos floridos, cabelos lisinhos e ajudando as boas donas de casa a assar bolinhos, ela estava muito enganada. Eu podia não ser o tipo de menina rebelde, mas com toda a certeza deste mundo eu me encaixava em algo mais normal e tranqüilo.

Derrotada pela preguiça de me arrumar do modo adequado e descer, me joguei na cama e abracei um travesseiro. As memórias da noite em que cheguei, duas semanas atrás, se mantinham confusas para mim. O que tinha acontecido mesmo? Ah sim. Eu estava prestes a descobrir o que era aquele burburinho no recém descoberto cemitério, quando alguém tocou meu braço. Eu gritei com todo o ar dos meus pulmões. Naquele momento eu já imaginava que seria uma alma penada pedindo por socorro.

Eu tinha que parar de ver aqueles filmes de terror ridículos.

Junto com o meu grito cessaram os cochichos e logo um bando de cabeças apareceu por detrás dos arbustos. Gelei. Mas de vergonha. Eram adolescentes como eu, olhando confusos para a minha figura assustada.

– Desculpa pessoal, eu assustei minha amiga sem querer.

Uma voz calma veio detrás de mim.

Quando olhei, vi a figura de um menino alto, loiro aguado e olhos castanhos cinzentos. A pele era tão branca que parecia mesmo um fantasma. Sem entender muito, acenei para os desconhecidos e me afastei junto com o grandalhão que parecia um jogador de futebol americano daqueles bem clichês.

– Me chamo Ian. – ele disse no mesmo tom calmo de antes, enquanto voltávamos pela estradinha. – E você?

– Quem é você? – perguntei irritada, andando bem atrás.

– Hm. Acabei de dizer. – ele respondeu confuso, ajeitando as mexas loiras com uma das mãos compridas. – Eu só queria entender o que você estava fazendo no cemitério a essa hora. Apesar do cabelo preto, você não parece uma gótica. – disse por fim, me olhando de cima a baixo.

Me encolhi e ajeitei o cabelo para trás da orelha.

– Meu nome é Aysha. Sou nova no bairro. – comentei baixinho. – eu não sabia que existia esse estilo por aqui.

– Os góticos? Ora. Estão em todo lugar. – ele sorriu, pulando o portãozinho e me estendendo a mão. – E veja só se não é a mais nova vizinha da Mel.

– Mel?

– Melanie.

Enquanto fazia um barulho de espanto, aceitei a mão dele para pular o portão com mais segurança e passamos a caminhar pela rua deserta, um ao lado do outro. Sem dizer muito mais do que deveria, Ian comentou que morava a três quadras para frente, mas que iria me deixar em casa primeiro. Era um amigo de infância de Melanie e bem tranquilo e simpático por sinal. Após me deixar em casa, disse para marcarmos algo os três e que aquele ar do bairro me faria bem.

“Você parece cansada. O ar daqui te fará bem.”

Se me lembro bem, foi isso o que ele disse. E assim como apareceu, se foi.

Escutei um berro vindo do lado da sacada minutos depois do meu devaneio e mesmo em pouco tempo, eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Melanie. Tentei ignorar o chamado, fingindo que estava dormindo, mas ela insistiu. Com um suspiro leve me aproximei da janela, deixando só a cabeça para fora da janela.

– Oi.

Foi tudo o que eu consegui dizer, coçando os olhos.

– Venha Aysha! Vamos aproveitar o dia!

– Eu acabei de acordar. Pode me dar um minuto?

– Claro! Ainda preciso te apresentar a cidade. Você me deve uma saída, hoje a noite teremos uma festa, será muito legal e não aceito não como resposta!

– Eu posso não aproveitar o dia então? – disse sonolenta.

Ela bateu o pé e cruzou os braços antes de abrir um sorriso meigo.

– Esta bem. Passo ai em cima as sete. Sem atrasos. Combinado?

– Combinado. – respondi mais amistosa antes de me despedir.

Aquela ideia até que me animava. A algum tempo não saia com gente nova e já fazia alguns dias que não saia de casa e só evitava os convites de Melanie. Depois de contar a ela como tudo tinha acontecido, ela decidiu sozinha que eu precisava conhecer um cara novo e tinham vários na cidade que valiam a pena.

Eu não queria um namorado novo na minha bota e sim uma vida social mais agitada para esquecer os problemas anteriores. E conhecer pessoas estava na lista de Melanie, então estava na hora de mexer essa bunda branca e correr em direção a cura daquela depressão idiota. E por mais que aquela ruivinha teimosa quisesse me jogar nas mãos de todos naquela festa, tinha de reconhecer que ela estava querendo me animar e a tempos não fazia uma amiga tão animada e sociável como ela. Mamãe estava feliz de saber que em pouco tempo tínhamos nos dado tão bem. Mal ela sabia que era tudo graças a Melanie e seus assuntos, me deixando confortável para me abrir e superar.

Passei o resto daquela tarde ajeitando minhas caixas, com o volume dos fones bem alto. A trilha sonora passou de Believe, do Mumford & Sons, à Ghosttown, da Madonna. Cantei e dancei entre as caixas, com minha voz desafinada, rindo. Me sentia um pouco mais leve, e devia desculpas a Melanie. Enquanto desempacotava a última caixa de roupas, peguei o celular e mandei uma mensagem para ela.

“Desculpa por me esquivar das suas saídas nos últimos dias. Acho que você tem razão.”

“Tudo bem A. Eu entendo ;)”

“...você é insuportável.”

“A senhorita me ama. Admita.”

“As sete passa aqui. Você vai me ajudar com a roupa. Não sei o que vestir em uma festa de interior. Sem ofensas."

“Não somos tão caipiras assim, ta? Haha. E okay, eu sou a melhor consultora de moda que vai arranjar em cima da hora.”

No horário combinado eu estava lá, sentada na cama, de banho tomado, olhando os modelitos que Melanie cuidadosamente escolheu para mim. Todos os meus vestidos de inverno estavam empilhados do meu lado, enquanto ela ia pegando um por um, e estendendo na minha frente. Com uma careta, ia dispensando um por um.

– É assim que você vai fazer pra dispensar quando vier um bom partido falar com você? – ela fez bico.

– São todo lindos. Mas eu raramente uso vestidos Melanie. – admiti. – acho melhor ficar na calça jeans e uma blusa.

Após torcer o nariz e um suspiro frustrado, minha amiga ruiva direcionou os olhos cor de mel para a pilha de roupas cuidadosamente dobradas e foi até ela.

– Posso ao menos escolher a blusa?

– Pode. – respondi amorosa, me aproximando e pegando a calça da mão dela. – só não demore. Estarei no banheiro terminando o resto.

Como uma faísca de esperança, os olhos de Melanie brilharam, e ela passou a desarrumar a pilha de blusas fervorosamente. Ri baixinho, espiando pela frestinha da porta aberta, enquanto me arrumava com o que tinha. O resultado acabou sendo satisfatório. Melanie escolheu uma blusa que eu gostava muito, preta lisa, com as costas aberta e mangas compridas, a calça jeans e uma sapatilha preta, também sem detalhes. Os cabelos soltos, que caiam pelo meu ombro em cachos desalinhados, e os olhos delineados de preto.

– Você nem saiu do básico. Mas acho que ta legal assim.

– Combina comigo, o que eu posso fazer? – respondi enquanto colocava o anel e pulseira. – da próxima vez eu uso um vestido, pode ser?

Talvez eu me arrependesse.

– Agora eu gostei do que ouvi. – minha amiga respondeu mais animada. – mas no final das contas, porque me chamou aqui, se já sabia o que usar.

– Acho que confiança. Não sei direito. Precisava me sentir segura.

Ela riu, e foi até a porta.

– Você tem razão. Desculpa. Acho que estava te forçando mais a virar uma maquina de sedução sem nem ao menos perguntar o que você queria. E no final das contas, sua vestimenta diz tudo sobre você hoje. – ela apontou para mim e disse animada. – ser discreta, mas ainda sim se sentir bonita e confortável.

Sorri de volta, mas logo o discurso voltou ao anterior.

– Apesar de que ainda acho que quando conhecer os caras da festa...

– Melanie!

– Foi mal!

Ela parecia estar se divertindo enquanto corria escada abaixo e se escondia atrás da minha mãe, fazendo cena.

– Ela quer me matar!

– Para com isso sua pestinha! – Falei de volta, rindo.

– Meninas, meninas! – mamãe gritou entre um riso, no meio de nós duas. – Parem, ou vão se desarrumar!

Quando a brincadeira parou, pude ver a satisfação nos olhos da minha mãe. Ainda mais quando me chamou de bonita e mexeu em uma mexa do meu cabelo. Ela sempre fazia isso quando me elogiava. Com um beijo no rosto e um abraço apertado, nos despedimos e prometemos atender o celular quando eles ligassem. Mas não tínhamos hora para voltar.

Fomos a pé ate a praça, Melanie me mostrou as barraquinhas e deu aquele olhar de águia entre os presentes. Com uma expressão pensativa no rosto, pegou o celular e fez uma ligação. Logo depois estávamos nos movendo de novo, mas agora era para o meio da floresta.

– A onde vamos?

– Para a festa, A. – ela disse como se fosse óbvio.

– No meio da floresta?

– A. Essa é a melhor parte da nossa noite. Vou te levar a um tipo de festa que você nunca foi.

Depois de um amontoado de árvores pontudas e arbustos, chegamos a uma enorme clareira. Vários carros estavam aglomerados próximo a nós duas, logo na entrada, a música que estava tocando era eletrônica bem alta. Pessoas se aglomeravam no meio, dançando e conversando, mas haviam ninhos de pessoas espalhadas por toda a clareira, algumas sentadas em meses improvisadas, outras em troncos quebrados.

– Essa é a festa que falei. É para comemorar o início do nosso ano letivo e fazer uma confraternização. – ela explicou, acenando para alguém. – sua mãe sabe. Todos sabem. Nossas aulas começam daqui a exatas duas semanas, então fazemos a reunião e alguns trazem os calouros.

– Parece divertido.

A música alta era boa. Podia sentir a batida pelo meu corpo de tão alta. Acompanhava o ritmo acelerado do meu coração, pela vergonha e ansiedade. Rodamos a festa toda, dei oi para uma meia dúzia de pessoas e depois fomos pegar as bebidas.

– Achei.

Ian entrou na frente de Melanie e segurou-a pelo braço. Rindo, ela abriu espaço para que ele me visse.

– Ian! Essa aqui é a Ay—

– Aysha! – ele berrou para que pudéssemos ouvir. – Eu sei. Nos conhecemos a algum tempo atrás.

Não preciso nem dizer que Melanie torceu o nariz ao saber com que nenhum de nós dois havia dito algo sobre ter se conhecido ne? Depois de Ian explicar, com detalhes, como nos conhecemos, andamos até um tronco de arvore quebrado e nos sentamos lá. Recebemos bebidas de um dos recém formados da escola, que se apresentou brevemente para mim e cumprimentou os dois.

– Vocês todos se conhecem por aqui. Não? – perguntei curiosa, olhando o menino se afastar.

– Mais ou menos. Isso acontece em cidade pequena. – Melanie deu de ombros.

– Aqui sabemos os nomes e as famílias. Mas não nos conhecemos muito bem. As pessoas costumam ficar muito em seus grupinhos. Todos aqui são amigos de infância. – Ian respondeu após um gole da bebida. – Isso acontecia na sua cidade?

– Não sei se com todas as pessoas, mas eu também cresci com os mesmos amigos. – respondi meio sem graça, olhando para o copo em minha mão. – Até me mudar.

Percebendo o clima meio depressivo, Melanie empurrou Ian com o ombro e riu alto. Aquelas risadas prontas para alertar que tem algo de errado.

– Mas tudo bem. Vai se adaptar muito bem aqui. Viu como já somos muito amigas? É bem melhor morar em cidade pequena.

A conversa tomou outro rumo e me distrai novamente. Entre risadas e goles de uma bebida amarga, que presumi ser vodka com algum refrigerante de limão, aprendi um pouco mais sobre a rotina da pequena cidade. O frio ali era suportável naquela época do ano. O inverno já deveria ter começado e só fazia frio mais a noite. Comecei a pensar nisso quando senti os braços frios por causa da brisa que vinha por entre as árvores. Balançavam as folhas, mas o ruído não podia ser ouvido, a música ainda estava muito alta.

Assisti um debate sobre política entre Melanie e Ian. Quieta pude perceber que eram grandes amigos. Aquela risada por entre os argumentos era conhecida para mim. Eu costumava ser assim com os meus amigos e pela primeira vez não estava triste ao pensar no assunto, e sim desejando que com o tempo eu também pudesse rir assim com eles. E entre risadas e conversas não percebi, mas encheram meu copo mais de três vezes. No final do último copo senti o álcool fazer efeito. A visão meio turva, tontura e vontade de rir de tudo. Melanie levantou-se e me puxou para cima. Ian subitamente começou a dizer que precisava ir embora, após atender a uma ligação, e ela queria acompanha-lo até as barraquinhas, dizendo que queria comer algo.

Como estava ainda na primeira fase, aquela alegre, não deixei transparecer muito que a bebida havia sido demais para o meu organismo. Eu nunca tinha bebido antes. Ao menos não vodka. Ao chegarmos nas barraquinha, nos despedimos de Ian e fomos sentar em um dos banquinhos da praça.

– Vamos comer e depois voltar para dançar um pouco. O que acha? Conversamos demais nessa festa. – minha amiga ruiva esbravejou, olhando para os lados.

– Claro. O que tem de bom pra comer aqui?

– Fica aqui que eu já volto com algo bem gostoso. Jantar por minha conta.

E com uma piscadinha, ela sumiu entre a multidão mais velha de pessoas que curtiam o que parecia um festival de inicio de inverno. Alguns minutos se passaram e nada dela voltar. Fiquei olhando em volta. E nada. As barraquinhas não pareciam lotadas.

Aos poucos o efeito do álcool começou a passar. Mas eu estava a quase uma hora parada naquele lugar. Sem amiga, sem comida e com frio. Preocupada de algo ter acontecido, me levantei e comecei a andar por entre as fileiras de barraquinhas. Melanie não estava ali. O que era estranho. Ao invés de ficar brava, fiquei com medo. Preocupada. Ela não poderia ter sumido assim. Peguei meu celular, vendo que não tinha nenhuma mensagem dela. Mandei uma, perguntando se estava tudo bem e guardei o aparelho, saindo dali.

Para sair seria preciso passar por entre a multidão que ocupava a entrada do parque. Mas estavam todos ocupados demais com seus assuntos fúteis para dar atenção aos meus pedidos educados de passagem. Um grandalhão, que estava em uma rodinha barulhenta logo a frente, deu um passo para trás quando eu estava passando. Gritando de dor, perdi o equilíbrio e senti meu corpo pender para trás, caindo.

Mas antes que eu pudesse acertar o solo, parei. Um braço estava ao redor da minha cintura, apertando forte meu corpo inclinado. Meus olhos foram de encontro a um par de olhos azuis cintilantes. A imagem do rosto ainda estava meio turva. Pisquei algumas vezes, ficando naquela posição por algum tempo que não calculei quanto era. Minha mente parou enquanto gravava aquele rosto. Aqueles olhos que me olhavam tão intensamente. Não sabia se era por causa da adrenalina de não me deixar cair, ou outra coisa.

Não sentia mais minha respiração. Meus olhos percorreram dos cabelos negros curtos, para o conjunto do rosto. O olhos em um formato amendoado, a pele lisa, sem nenhuma imperfeição, os lábios grossos e em uma perfeita linha, apertados. Ele parecia estar me analisando também. Mas acho que não da mesma forma que eu.

Meu rosto começou a arder enquanto ele me levantava e afastava o braço que antes me segurava. Voltando a andar para a direção contraria da que eu ia. Sem me dar a chance de agradecer. Nossos olhos se cruzaram mais uma vez antes dele sumir em meio a multidão. Eu fiquei ali. Parada por um tempo, tentando me focar na roupa que ele usava. Uma blusa azul marinho de frio. Era só isso que eu tinha captado de detalhe.

E por mais que flertar fosse coisa de adolescente da minha idade, eu jamais tinha sentido esse tipo de olhar sobre mim. E muito menos olhado um cara desse jeito, tão descaradamente. O rosto ainda ardia. Pude sentir quando coloquei uma das mãos sobre a bochecha esquerda. Senti meu celular vibrar e peguei. Era Melanie ligando. Atendi rapidamente.

– Oi? Melanie? É você?

– Mas é claro que sou eu! – ouvi a voz dela alta, logo depois tossindo.

– Esta tudo bem? A onde você ta? Estou te procurando a horas!

– Tem muita gente, eu me perdi e vim aqui pra entrada. Sabe chegar aqui?

– Se perdeu? Conta outra, você mora aqui a anos! O que realmente aconteceu? – esbravejei.

– Eu perdi onde deixei você, na realidade e.

Podia sentir o timbre de voz dela falhando antes de outra tosse.

– Melanie?

– Você pode ligar para o Ian? E venha me encontrar, rápido.

Senti uma urgência na voz dela. Devia estar mal.

– Okay.

Desliguei e corri para o portão principal do parque. Demorou, mas consegui chegar. Ian já estava lá quando cheguei. Melanie e ele estavam sentados no meio fio.

– Ian, Melanie – berrei de longe.

– Esta tudo bem, não precisa se preocupar Aysha. – Ian disse calmamente quando estava próxima o suficiente. – Ela só teve um ataque de asma e esqueceu a bombinha. Por sorte eu estou aqui com a minha.

Melanie estava ao lado, com a cabeça encostada no ombro dele, respirando fundo e tossindo as vezes.

– Eu só não te liguei porque não tinha o seu número e—

Eu tentei me explicar, mas ele me cortou, levantando uma das mãos.

– Esta tudo bem. Eu sei. A festa acabou por hoje. Vamos voltar, vai ser melhor.

Durante todo o caminho os dois se mantiveram eu silêncio. Ela apenas respirava fundo, andando a passos lentos, por ter recusado o colo. Melanie sorriu quando olhou para mim, mas isso era tudo. Era estranho. Ela não parecia com alguém que tinha sofrido um ataque de asma e sim com alguém que tinha sofrido um ataque. Identifiquei detalhes que indicavam isso. Alguns rasgos no vestido novo dela e pequenos arranhões pelo corpo. Queria ter perguntado, mas ela parecia assustada e não querendo me envolver no assunto. Ian parecia mais calmo, mas sua expressão era protetora.

Com Melanie finalmente entregue em casa, apertei minhas mãos ao redor dos braços e me dirigi a porta da minha casa, com Ian por perto.

– O que aconteceu de verdade? – fui direto ao assunto.

– Ela teve um ataque de asma. – ele repetiu.

– Ela parecia muito assustada para isso.

– Melanie tem um trauma de multidões. Mas queria te impressionar. A tempos ela não fazia uma nova amiga. – Ian respondeu calmo, com um pesar na voz. – eu disse para ela pegar mais leve.

Traumas.

Senti que não devia ir mais a fundo no assunto, então abri um sorriso amistoso e peguei o celular do meu bolso.

– Me passa seu telefone? Seria muito ruim acontecer o que aconteceu hoje, de novo.

Sorrindo de volta, Ian aceitou a mudança de assunto e me passou o número. Minutos mais tarde recebi uma mensagem dele, pedindo desculpas pelo transtorno. Respondi que tudo bem e larguei o celular em cima da cama.

Notas finais
E ai, gostaram?