The Crow & The Butterfly
4 Help I'm alive
Notas iniciais
No dia seguinte, logo pela manhã, mandei mensagens para Melanie. Mas nada. Nenhuma resposta até agora, e já era hora do almoço. Percebendo que eu estava com o celular o tempo todo em mãos, mamãe veio perguntar se estava tudo bem. Meu bom senso dizia que não era boa ideia falar do estado dela, então respondi que sim, que Melanie tinha me achando um contato interessante.
Mamãe sabia o que isso significava na minha linguagem.
– Como é? – ela respondeu toda interessada. – Vai me dizer que já arranjou alguém?
– Não, mãe. Não é bem assim. – tentei desconversar. – Só nos vimos e tal.
Eu estava justamente falando de algo verdadeiro. Mas eu não tinha o numero dele. Nem sabia quem era. E talvez nem ligasse. Mas para mentir sobre outra coisa, seria melhor usar um assunto verdadeiro. Mães tem faro para mentira. Ao menos a minha tinha.
– E como tem o numero dele?
– Não tenho. Estou esperando a mensagem. Melanie que passou meu numero.
Vendo que o assunto me deixava nervosa, minha mãe passou as mãos nas minhas costas e me deu um beijo na testa. Mudando, finalmente, de assunto.
– O Ben começou a trabalhar hoje. Acabou a mordomia para ele. Esta com vontade de passar um tempinho com a sua mamãe querida e ajudar no jardim? Estou montando uma fonte para atrair passarinhos.
– Claro. Mais tarde vou dar uma passada na casa da Melanie. Combinamos de nos encontrar para não fazer nada. – brinquei.
Ela engoliu minha desculpa, porque não tinha falado nada. Uffa. Terminando de lavar a louça do almoço, fomos para o jardim lá de trás. Até então eu só tinha conhecido o jardim da entrada. Eles tinham tornado aquela parte da casa aconchegante até para o inverno que estava chegando.
– Logo a neve chega. – mamãe comentou enquanto me entregava uma tesoura. – Acho legal ajeitarmos o mais rápido possível, assim estará tudo pronto.
Ela parecia animada, então apenas balancei a cabeça e perguntei o que faria com aquela tesoura. Ainda faltavam alguns arbustos a serem podados. E pelo visto de proposito para ela ter um trabalhinho extra, do jeitinho que gostava. O espaço era grande. Grama cobria todo o solo, arbustos separavam a nossa casa das dos vizinhos. Um par de bancos de madeiras rustico estava no centro, com a fonte que ela estava terminando de arrumar.
Com sol, aquele lugar estaria realmente completo. Combinava com o verão.
Enquanto cortava os arbustos milimetricamente, meus pensamentos voaram para os acontecimentos de ontem. Melanie estava mal, assustada. Ian parecia calmo e como saber lidar com aquela reação dela. Não parecia algo que acontecia esporadicamente. Mas também, quem era eu para falar alguma coisa de como eles se comportavam. Mal os conhecia. Mas além disso também tinha tido aquele acidente. Ele parecia estar lá na hora certa. A força na medida certa para segurar o meu corpo.
Aqueles olhos.
– Aysha, cuidado! – mamãe berrou de longe.
Assustada, larguei a tesoura e olhei para a direção dela, que já tinha corrido para o meu lado.
– Você quase cortou metade do arbusto fora.
Entreguei a tesoura na mão dela e ri baixinho. Meio sem graça, me desculpei. Achando que eu estava cansada pela noite anterior, minha mãe me aconselhou a dormir um pouco mais antes de ir visitar Melanie. Olhei o celular mais uma vez, e nada. Mandei mais uma mensagem, só por precaução e como queria aproveitar mais o tempo, aquele ventinho frio, mas ainda não tão gélido, estendi um pano no jardim, e me deitei ali.
Alguns tímidos raios de sol passavam por entre as nuvens. Atingiam o meu rosto levemente. Quentinho. Eu nunca tinha tido a oportunidade de aproveitar a natureza assim. Viver em uma selva de concreto tinha o seu preço. A grama pinicava meus pés, que tinha deixado propositalmente para fora do pano. O vento competia espaço com os raios de sol, proporcionando uma sensação gélida por onde passava. Me sentia acolhida. Era quase que como estar deitada no colo de uma mãe. Aconchegante, terno e único.
Estranho. Não sentia essa conexão antes. Não lembro de ter oportunidades para sentir essa nostalgia tão grande. Era como estar perdendo algum detalhe. Uma lembrança apagada. Daquelas que você não se lembra de fato o ocorrido, apenas a sensação. Uma completude tomou conta de mim. Um arrepio percorreu meu corpo inteiro e naquele breve momento, senti que estava sendo abraçada por uma força maior. Vontade de chorar, rir. Sentimentos contraditórios encheram meu peito.
E em um breve suspiro, fechei os olhos. Queria sentir mais daquilo. Não era algo que eu faria. Mas sentia que era aquilo que deveria fazer. O barulho das folhas inundava meus ouvidos. O vento cantava. Eu podia ouvir aquela melodia bonita. Raios ao fundo, bem longe, iniciavam a sinfonia. Iria chover mais tarde. Não tive tempo para pensar no que estava fazendo, só conseguia fazer e sentir. Meus olhos estavam se abrindo para algo novo. Meu corpo se movia sozinho em busca do contato. E a confusão não tinha espaço agora.
O que estava acontecendo comigo?
Sentei. Ainda de olhos fechados. O vento bagunçava meus cabelos. Cachos e mais cachos se aglomeravam em minha face. Mas nada me importava. Abri os olhos lentamente. Uma figura feminina estava a minha frente. A apenas alguns passos. Por dentro, senti que meu pensamento coerente voltava. Assustada, queria correr dali. Mas meu corpo físico não se mexia. Minha visão estava meio turva naquele momento, mas eu podia jurar que a mulher a minha frente, mais parecia uma arvore que tinha tomado forma, do que uma mulher normal. A passos lentos, ela diminuiu a distancia que havia entre nós.
Seu corpo era verde claro. Não usava roupas, mas seu cabelo era longo o suficiente para cobrir tudo. O cabelo verde escuro ia até o pé. Estes quase que cobertos por borboletas de diversas cores, em toda a extensão. Um brilho diferente vinha dela. Uma calmaria. E mesmo que eu estivesse assustada, porque aquilo fugia da lógica, não sentia ameaça. Nossas respirações passaram a ser uma só quando ela tocou meu rosto. Os lábios grossos e delineados formaram um sorriso amoroso, e os dedos, cobertos com um musgo fino e de várias cores, fez o contorno da minha bochecha.
Nossos olhos se encontraram. Olhos azuis como o mar. Azuis como o céu quando olhamos debaixo. Azul como a Terra. Senti uma dor dentro do peito. Um estalar dentro de mim.
Algo havia acabado de mudar.
– Minha filha. – escutei ecoar em minha mente. – Minha criação está agora em suas mãos. Proteja a vida.
Suas poucas e únicas palavras foram o suficiente para fazer meu mundo interno tremer. Não entendia nada do que aquilo significava, apenas sentia que não tinha escolha. Aquelas palavras ardiam dentro de mim. Haviam sido gravadas como ferro quente na pele. Senti uma tontura forte, a visão voltou a ficar turva e tudo apagou.
Assustada, levantei rapidamente, gritando por minha mãe. Minha respiração estava ofegante e meu coração acelerado. Levei a mão ao peito, enquanto minha mãe vinha correndo. Tudo tinha sido um pesadelo? Olhei em volta, com minha mãe me amparando e garantindo que não tinha ninguém ali. Será que tinha sido apenas um sonho? Daqueles tão reais que te arrepiam inteiros?
O sentimento forte ainda martelava dentro de mim. Acalmei minha mãe e me desculpei pelo escândalo. Ela se sentia um pouco culpada pela mudança ainda, não podia forçar muito isso a ela. Caso contrario ela iria começar a achar que meu comportamento tinha a ver com isso. Meu celular vibrou e peguei, vendo que era Melanie.
– Oi. – respondi calma. – resolveu acordar bela adormecida?
Uma risada fraca veio do outro lado.
– Suas mensagens me deixaram preocupada A. Eu estou bem. Não precisa agir como se eu tivesse sofrido um atentado. Já tem meus pais pra isso.
– Não tive amigos com asma. – respondi em tom brincalhão. – Ontem foi divertido. Obrigada.
– Você está bem? Sua voz esta estranha.
– Eu tava dormindo. – menti. – Aqui no jardim.
– Nesse frio?
–Nem está tão frio assim. Aproveitei os últimos raios de sol.
– Se quiser passar aqui em casa. Eu já to melhor, mas meus pais só vão me deixar sair a partir de amanhã. Sem conhecer caras bonitos hoje. Só amigos.
– Um filme e pipoca já conquista minha companhia querida.
Melanie riu mais uma vez e aceitou minha ideia de programa caseiro. Disse que chamaria Ian e mais um amigo deles que eu ainda não conhecia. Achei que poderia ser uma armação, mas ela não tinha voz de quem estava aprontando. Então resolvi deixar para lá. Ouvi trovões ao desligar o telefone e automaticamente me veio em mente que eu ouvi isso durante meu sonho. Olhei mais uma vez para me certificar de que não estava ficando maluca. Mas não havia nenhum sinal concreto de que aquela mulher existia ou havia passado por ai.
Eu não estava bebendo ou me drogando para alucinar algo tão forte. Talvez eu devesse aceitar que algo estava acontecendo. Balancei a cabeça e corri para dentro, sentindo os primeiros pingos de chuva. Avisei mamãe que iria sair e subi para o quarto.
Foi então que as coisas estranhas começaram a acontecer de verdade.
Começando que, quando entrei no meu quarto, um monte de passarinhos estavam empoleirados na minha sacada. Uma sinfonia descoordenada de barulhos vinha lá de fora. Tentando ignorar, fechei as cortinas e fui para o banho. Na janela do banheiro apareceu um esquilo. Em um primeiro momento nem me importei muito, mas ele ficou lá. Me olhando. Parecia querer algo. Irritada, sai do banheiro e fui me trocar. Os piados haviam parado. Após colocar a blusa, fui dar uma espiada e vi que apenas estavam calados. Talvez esperando pela minha presença.
Resolvi continuar ignorando a presença deles e desci. Tomei um gole do suco que minha mãe estava preparando para o jantar e disse que iria para Melanie.
– Qualquer coisa é só me ligar.
Disse rapidamente, saindo pela porta da frente. A chuva já estava fraca. Parei por um instante, olhando em volta. Ninguém e nem nenhum bicho. Suspirando de alivio, corri para a casa de Melanie. Chegando na porta de entrada, espiei minha sacada. Os passarinhos já não estavam mais lá. Coloquei uma das mãos na testa. Eu poderia estar com febre. Alucinando uma perseguição. Essas coisas podem acontecer com todo mundo. Certo?
Era só voltar a realidade. Um filme com amigos seria perfeito para voltar a realidade e me lembrar de que o mundo real está aqui e que um sonho não poderia me prender e tirar disso. Quando a porta abriu, não era Melanie. Nem Ian.
Foquei diretamente nos olhos. Os mesmos olhos de ontem.
– Você?
– Você deve ser a Aysha.
A voz dele veio baixa. Sem muito animo. Uma expressão entediante estava pairando em seu rosto. Me senti mal. Ele parecia não querer estar ali e fiquei com medo de Melanie ter chamado por aquele proposito de ontem. Me arranjar alguém.
– Sim. Melanie está em casa? – tentei soar o mais calma possível.
– Está. – ele deu um passo para trás, para que eu entrasse. – Na cozinha.
– Obrigada.
Sem mais palavras a serem trocadas, corri feito uma idiota para a cozinha. E Melanie estava lá, na frente do microondas fazendo a pipoca. Ao me ver, deu grito e pulou em mim. Parecia normal. E animada. Perguntei sobre o menino e ela jurou de pé junto que tinha chamado porque era um dos amigos dela e de Ian. Que o resto do grupo estava viajando e que por isso não tinha chamado mais gente.
– Quem é ele? Não parece muito contente de estar aqui.
– Gale. E ele odeia estar em qualquer lugar. Está sempre com essa cara de poucos amigos. Mas é uma boa pessoa.
Melanie não parecia mesmo estar fazendo propaganda dele para mim. Ou o contrario. Todo o tempo que ficamos na cozinha, ele permaneceu na sala. Olhei de canto para ver o que estava fazendo. Mas sempre que fazia isso, me arrependia. Ele estava olhando para nós. Parecia vigiar algo. Não exatamente nós. O olhar parecia procurar algo além do que tinha ali. Ou era eu mesma que estava tentando achar motivos para decifrar ele.
Aos poucos fui deixando aquele clima esquisito de lado. Melanie e suas palhaçadas eram boas nessas horas. Estava me contando uma história de como foi o primeiro ataque de asma dela. A comoção da família, e como tinham agido como se ela estivesse morrendo.
– Era só me dar uma bombinha, sabe? – ela terminou, rindo.
– As vezes a minha mãe faz a mesma coisa!
– Melanie? – escutei a voz dele vindo da porta da cozinha. – Tem um minuto?
– Claro. A, espere aqui.
Melanie mudou um pouco sua expressão. Mesmo que sutilmente era fácil de perceber. Antes de irem até a sala, Gale direcionou um olhar esquisito para mim e sumiu atrás da parede. Um frio percorreu minha espinha. Ele parecia não gostar muito da minha presença. Pude confirmar minhas suspeitas quando ouvi um pedaço da conversa.
– Qual é o seu problema hein? Não te vemos a meses. Queríamos só um tempo entre amigos. – Melanie dizia chateada.
– Eu não posso. – Ele respondeu de modo frio.
Ouvi o barulho da maçaneta da porta. E fui até a sala, fingindo não ter ouvido nada.
– Tudo bem? – fingi calma.
– Estou indo embora. – Gale terminou, olhando para mim. – você sabe o porque Melanie. Depois eu me resolvo com o Ian.
– Gale. – ela parecia nervosa.
– Tchau Melanie e passar bem Aysha.
Podia jurar que aquele final tinha sido irônico e mal educado. Eu estava chocada. Ao sair, Gale bateu a porta com tudo atrás de si. Melanie parecia nervosa. Um pouco mais irritada do que deveria.
– Ele é sempre assim?
– Você nem imagina. – ela respondeu aborrecida. – Mas tudo bem. Eu vou mandar uma mensagem pro Ian. Ele ta demorando.
– É alguma coisa comigo. Não é?
– Claro que não. Ele não gosta de socializar. Se tornou uma pessoa difícil desde o acidente.
O tom triste de Melanie no final fez minha curiosidade formigar na garganta. Talvez eu devesse ter ficado quieta. Mas esse não era meu tipo.
– Acidente?
– Meninas! – Ian berrou da porta. – Cheguei atrasado. Mas cheguei.
– Ian. Nossa noite provavelmente foi cancelada. – Melanie comentou meio preocupada.
– O que aconteceu?
– Você precisa ir atrás do Gale.
A frase de Melanie fez Ian pegar o celular rapidamente do bolso e discar alguns números. Fazendo um sinal com uma das mãos se afastou e nos deixou a sós novamente. Mas Melanie não voltou ao assunto do acidente depois que Ian chegou. Trocou para outro qualquer. Sem querer ser chata e me intrometer, aderi ao assunto e fingi que nada era comigo. Mas algo me dizia que a forma como ele agia era por causa da minha presença. Ele provavelmente não tinha ido com a minha cara. Será que lembrava como eu tinha olhado para ele ontem?
Envergonhada, coloquei as mãos nas bochechas e cobri o rosto entre minhas pernas. Devia ser isso mesmo. Ele devia estar com medo de uma possível stalker. E eu não podia contar isso para eles.
– Meninas, receio que Melanie tenha mesmo razão. Nossa noite entre amigos foi cancelada. – ele deu um olhar para Melanie antes de continuar. – Façam uma noite das meninas. Amanhã nos falamos. Eu mando noticias.
– Não esquece disso. É imporante avisar, caso precise de ajuda. — ela olhou para mim rapidamente e terminou. – Você sabe.
E lá se foi Ian e toda a sua calmaria.
– Ele ficou pouco tempo. – choraminguei.
– Isso que acontece quando se tem um amigo problemático no grupo. Vai se acostumando. – ela tentou descontrair. Me empurrando para o sofá. – Que tal filmes de terror?
Aceitei os filmes de terror. Seria melhor não me envolver nos problemas deles. E mesmo que em pouco tempo, muita coisa tivesse acontecido, me sentia na obrigação de fingir que estava tudo normal. Minha sanidade estava constantemente ameaçada, era meu dever manter algumas coisas em equilíbrio. O problema era que eu não sabia mais o que viria. Se veria aquela mulher de novo nos meus sonhos. Se entenderia os problemas desse meu novo grupo de amigos. Se tudo seria normal de novo. E algo me dizia não.
Mais tarde, já em casa, estava trocando algumas mensagens com Ian quando vi um vulto passar pela janela. Olhei para o vidro. Nada demais. Estava um breu lá fora e a chuva estava forte. Devia estar frio. Me aproximei, notando algo jogado no chão da sacada. Abri a janela e abaixei, olhando melhor.
Era um passarinho. E estava muito mal.
Assustada, peguei o pequeno ser em minhas mãos e o coloquei para dentro. Fechei as janelas, deixando o frio e a chuva lá fora. Ainda com ele aninhado em minha palma, sentei na cama e comecei a afagar suas penas. Um tom de azul, que provavelmente deveria brilhar no verão. Faltava vida nele. Dava para sentir que o pouco que ainda restava estava prestes a se esvair. Senti um arrepio angustiante. Talvez de modo mais intenso do que deveria. Por um momento, parei de afagar as penas e apenas olhei. Ele parecia gritar por socorro.
– Eu sinto muito pequeno. Não sei o que posso fazer por você. – falei com a voz cheia de compaixão. – Infelizmente você bateu na porta errada. Não sou veterinária. Que azar não?
Era obvio que ele não entenderia. Mas me sentia mais confortável sussurrando aquilo. Em alguns minutos seus olhinhos se fecharam. E sua respiração parou. Fechei seu pequeno corpinho entre minhas mãos, e respirei fundo. De olhos fechados, senti uma tristeza enorme.
Uma coisa que não era minha. Um sentimento estranho. Aquilo era tão injusto. Pobre passarinho. Juntei as mãos que o aninhavam contra o peito. Pensei por um momento que eu poderia ajudar. E em uma onda de loucura, concentrei meus pensamentos. Imaginando o passarinho mexendo as asas, uma por uma. Abrindo os olhinhos. O ar entrando e saindo. Senti meus braços fraquejarem. Era como se minha força estivesse indo embora. Tudo ficou escuro novamente e não me lembro de mais nada.
Uma dor insuportavel cobria meus braços. Parecia que tinham sido trincados. Era difícil mexer, e meus pulmões ardiam. Olhei em volta, confusa e ainda meio sonolenta. A luz do dia entrava pela sacada aberta, e o barulho de chuva não estava mais lá. Levantei, sentando na cama. Os braços formigavam agora, mexi os dedos com dificuldade até que eles voltassem ao normal. Parecia que um caminhão tinha passado por cima de mim. Aquela fraqueza de estar doente tomava conta do meu corpo.
– Peixinho?
Escutei minha mãe chamando, ao abrir a porta.
– Você esta melhor? Estava ardendo em febre quando cheguei aqui hoje de manhã.
– Que horas são mãe?
– Olha só. Até sua voz esta ruim. Você tomou chuva ontem pra pegar aquele passarinho. Não foi?
– Como é que é? – perguntei sem entender. – Passarinho?
Ela devia estar falando do passarinho morto.
– Sim. Ele estava aqui, todo atordoado. Voando aflito.
– Como é que é?!
– Eu sei que você deve ter tido vontade de tira-lo da chuva. Mas prender os bichinhos não é nada agradável meu bem.
Fiquei quieta. Perplexa com a frase da minha mãe.
– Esta tudo bem? – mamãe perguntou preocupada.
O passarinho estava vivo.
– Bom, tome essa agua que eu trouxe para você e desça para comer.
Me entregando o copo, mamãe saiu do quarto. Olhei para as minhas mãos de imediato. Flexionei os dedos de novo, calmamente. Nada parecia ter mudado. Passei a olhar em volta, assustada. Eu tinha mesmo revivido aquele passarinho?
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