The Crow & The Butterfly

5 Dreams and disasters


Notas iniciais
Ola você leitor novo ou antigo! Gostaria de me desculpar pelo sumiço repentino, tive uma semana dificil e provas finais para terminar na faculdade, espero que tenham uma boa semana e ótima leitura! Estou aberta a criticas e elogios, viu? Beijos a todos!

– O que você esta fazendo?

Escutei aquela voz gélida, surpresa, detrás de mim.

– Eu posso explicar. – minha voz saiu em um fio.

– Aysha?

Foi tudo o que consegui ouvir antes do meu corpo se chocar com o chão fofo de terra. Como foi que deixei Gale descobrir tão descaradamente meu maior segredo?

Seis meses tinham se passado desde aqueles acontecimentos. Gale e seu jeito torto não tinham mudado muito, e mal trocava palavra com Ian e Melanie quando estavam comigo. Na verdade, quando eu me aproximava ele sempre saia antes que eu chegasse perto. Sempre me olhando de lado antes de se afastar. Ian sempre dizia que aquilo era parte dele, e Melanie concordava, mas ela era muito ruim em mentiras. Ian até que se saia bem, mas ela? Não muito. O tempo já estava ótimo, era possível sair sem casacos, o verão já estava chegando.

Reviver aquele passarinho tinha sido apenas minha primeira peripécia. Com o tempo fui descobrindo que podia ajudar qualquer animal ferido, ou a beira da morte. Eles vinham até mim como filhos machucados vem até a mãe. Acuados e querendo proteção. Com o tempo me acostumei a essa ideia de ser mais próxima na natureza, gostar de ficar sozinha sem me auto flagelar. Não me sentia mais sozinha quando ficava na grama do jardim ou algum parque. Era revigorante. Afinal, toda vez que curava um animalzinho ferido, dependendo de sua lesão, era dor na certa. Era como dar minha própria energia a eles. Mas dormir um pouco, sempre parecia ajudar a diminuir os estragos que ficavam pelo meu corpo.

Mantive em segredo. Ninguém acreditaria muito nisso. Nem eu acreditava muito que isso poderia acontecer, as vezes duvidava, pensava que era um sonho. Mas não, estava mesmo acontecendo e eu devia guardar esse segredo com a minha vida. Não queria correr o risco de alguém ver. Eu não poderia explicar aquele fenômeno, apenas dizer: Hey, eu sei que o que você viu é estranho, mas não se preocupe com isso, eu sou uma estranha mesmo. Uma que cura as coisas.

Balancei a cabeça para os lados, irritada. Me sentir doida era novo. Saber que eu sabia de algo que ninguém mais tinha o conhecimento era empolgante, mas de muita responsabilidade. Me sentia a branca de neve, com todos aqueles bichos sempre vindo atrás de mim. Voltei a prestar atenção na aula de matemática, vendo o professor parar de explicar a matéria e indo escrever alguns problemas na lousa.

– Quero que façam em grupo esses exercícios. – ele disse alto. – Mas se eu pegar algum grupo conversando, separo na hora.

Logo as carteiras de Ian e Melanie estavam próximas da minha. Sorri discretamente. Eles tinham se tornando meus companheiros inseparáveis nos últimos meses e parecia que os conhecia a muito tempo.

– Vamos lá, oh, senhora da matemática. – Melanie começou, dramática, fazendo graça. – Ensinai-vos sua arte de tortura.

– Deixa de ser palhaça. – falei rindo, empurrando Melanie com o ombro.

Ian apenas riu e começou a anotar os problemas. Ele era o mais quietinho do grupo. Sempre sorrindo e abrindo a boca apenas para falar as coisas uteis. Com todo aquele porte de esportista, a única coisa que ele fazia, perto disso, era natação. As meninas ficavam doidas quando ele estava na piscina. Fora das piscinas ele era mais um nerd que gostava de matemática e ajudar as outras pessoas a estudar. Como ele e Melanie, tão diferentes, poderiam ser tão próximos?

– Vai ficar olhando para mim, ou vai prestar atenção? – Ian perguntou sem graça, balançando o lápis na minha frente.

Sem graça, virei o rosto e dei um soco de leve em Ian.

– Não enche. Eu estava distraída olhando para o lado que você está. Não se sinta muito convencido não.

– Hm, logo o Ian? Eu tinha tantos pretendentes para você!

– Melanie!

– Meninas, o exercício. – ele continuou calmo, virando a folha para nós.

– Esse eu sei fazer! – Melanie berrou, pegando o papel.

Deixamos que ela tentasse a sorte. Mas tudo o que ela conseguiu foi uma bronca do professor, por ter gritado de raiva ao fracassar no exercício. No final daquele dia letivo, Melanie disse que queria ficar para terminar nosso trabalho de história. Ian não fazia parte, pois era em dupla, então se despediu cedo de nós. Estavamos no laboratório de informática quando um esquilo apareceu na janela.
Me olhava com agonia. Apressado, ele corria de um lado para o outro da janela, tentando chamar a minha atenção. Olhei de canto para ele, e inventei uma desculpa para sair por um tempinho da salinha.

– Quero terminar logo isso. – Melanie falou chorosa. – Vai logo e volta logo.

– Não vou demorar!

Engolindo minha desculpa, Melanie voltou a fuçar as páginas sobre o assunto do trabalho, com cara de emburrada, enquanto eu corria para o pátio. Olhei em volta, vendo que muitos alunos estavam ainda lá. Alguns conhecidos de classe me identificaram, e parei na hora. Me virei para eles, cumprimentando com um sorriso amarelo e tentando ser discreta, voltei ao meu caminho, me enfiando por entre algumas arvores ali perto.

– Okay. – falei baixinho, ajoelhando no chão. – Quem é o ferido?

O bichinho parecia não entender muito bem minha linguagem, mas sim o recado de que eu estava disposta a ajuda-lo. E sem esperar muito, arrastou o corpinho de um outro esquilo até mim. Ele não estava como os outros bichinhos de antes, parecia mal, mas algo estava diferente.

Pela primeira vez hesitei. Algo em mim gritava para não curar este. Mas o dever gritava junto, e me perguntei diversas vezes se estaria tudo bem deixar de brincar de Deus por uma vez e não decidir isso no lugar da natureza. Confusa, olhei para o esquilo que estava assistindo aflito seu companheiro falecer. Eu não podia deixa-lo desamparado e não tinha muito tempo, Melanie iria me procurar se continuasse assim. Respirei fundo e peguei o corpo do pequeno nas mãos, fechando os olhos, como sempre fazia. A sensação de que algo estava saindo do meu corpo para o dele começou, e de inicio estava tudo bem. Nada fora do normal.

Mas logo uma pontada alcançou meu peito. Uma imagem apareceu em minha mente. Era horrível. Não sabia se era um homem, um monstro ou um demônio. Estava de costas para mim e pareceu sentir minha presença, virando e vindo rapidamente na minha direção. Com um grito, joguei o esquilo longe, já vivo. O pequenino se assustou e correu com seu parceiro. Com a respiração ainda forte, coloquei a mão sobre o peito e tentei me acalmar. Mas o que raios era aquilo? Aquele sorriso maléfico, aqueles olhos vermelhos.

– Aquela risada medonha. – falei baixinho.

E então, um barulho de galho veio detrás de mim, e gritei novamente.

– Não me machuque, por favor!

A essa altura, já sentia o forte cansaço. Diferente de todas as outras vezes, me pegou de forma avassaladora e rapida em poucos segundos antes de desmaiar.

Quando acordei na enfermaria, não havia ninguém além de Gale. Ele estava sentado na cadeira ao meu lado, com o rosto virado para a janela. O vento movia calmamente seus cabelos, e ele parecia pensativo, com o queixo apoiado em uma das mãos. Seus pés estavam apoiados na minha cama, o que o fez perceber rápido que eu tinha acordado.

Voltando sua atenção para mim, ainda com a habitual expressão de quem não liga muito, levantou-se e chamou a enfermeira. Tentei dizer que estava tudo bem, mas ele não deixou.

– Deita ai e fica quieta. – ele ordenou.

Sem muito o que contestar, deitei novamente. Não deveria, mas algo na voz dele parecia tão autoritária que pensei que se não fizesse, ele faria com que eu fizesse a força.

– Olha só. Como está nossa pequena bela adormecida? – a enfermeira brincou, trazendo um copo de agua para mim. – Como se sente?

– Cansada. – respondi baixinho, me sentando na cama e pegando o copo. – Não sei ao certo o que aconteceu.

– O garotão aqui te carregou como uma princesa. – ela continuou a brincar, piscando para Gale. – Foi muito bonito.

– Ela estava desmaiada, não dava para trazer andando, Kátia. – ele respondeu como se fosse obvio. – Melanie? – ele perguntou para mim. – Onde ela está?

– Estava na sala de computação comigo. – perguntei confusa. – Porque não liga para ela?

Com um rosto assustado, Gale pegou o telefone e saiu da sala de enfermagem. Com um sorriso amável no rosto, a enfermeira sentou-se no pé da cama e ficou me olhando, enquanto eu bebia a agua. Fiquei sem graça pela falta de conversa e de tanto que ela me olhava. Percebendo isso, ela voltou a me informar sobre o que Gale havia feito quando chegou comigo lá.

– Ele parecia preocupado. Foi tão bonito. – ele continuava, com um ar apaixonado na voz. – Alias, eu sou irmã do Gale, acho que ele nunca te contou isso. Certo?

– Gale e eu não somos amigos. Mas, ahn, Kátia, não é? – tentei desconversar. – Obrigada pela agua.

– De nada, florzinha. – ela piscou, enquanto pegava o copo com água. – Hm, é mesmo, é obvio que vocês não são amigos, só vi o meu irmãozinho desse jeito uma vez, e faz taaaanto tempo.

Depois da risada afetada dela, e de uns tapinhas na minha perna, não aguentei mais.

– Não, olha, Kátia. Não somos mesmo amigos, nem conhecidos.

– Sei.

– É sério. Digo, seu irmão apareceu por acaso e me ajudou, eu estava sozinha.

– Gale nunca ajuda as pessoas. – ela continuou com o tom suspeito. – Estão mesmo nessa coisa escondida?

– Não. – usei um tom mais aborrecido agora. – Nem nos falamos.

Parecendo que finalmente tinha entendido o recado, Kátia enrubesceu e com as duas mãos em cima da boca, se desculpou.

– Eu sinto muito, Aysha. É que o Gale nunca fala com ninguém além de mim, Melanie e Ian desde o ensino fundamental. Como ele te ajudou achei que – ela parou, balançou a cabeça negativamente e continuou. – Deixa pra lá. Acho que começamos com o pé esquerdo. Eu sou Kátia, como ficou sabendo, a enfermeira chefe da escola e enfermeira do hospital municipal em horas vagas. Você é a aluna nova que a Melanie ama. Certo?

Rindo da apresentação formal, me levantei e continuei o assunto.

– Sim. A nova vizinha da Melanie. Todo mundo se conhece nessa cidade, é tão estranho para mim. – admiti.

– Vai se acostumar, aqui fomos todos praticamente criados juntos. Mas, quanto ao que fiquei falando do Gale, desculpa. Não tive a intenção de ser chata, só achei que o comportamento estranho dele seria por sua causa.

– Comportamento estranho?

– Meu irmão já é estranho mesmo a algum tempo. Acredite em mim, não da pra ficar mais estranho que isso. – ela disse em tom brincalhão. – Mas de uns meses para cá ele vinha agindo de uma forma reservada, e mais observadora. Achei que ele poderia ter conhecido alguma garota. E quando vi ele entrando com vocês nos braços, bom, eu pensei que era você. Ele até ficou aqui enquanto você dormia.

– Pelo jeito que você viu ele me tratando, não deduziu nada? Como por exemplo, esse menino me odeia! – falei um pouco mais alto, apontando para a porta.

– Nunca da pra saber de quem ele gosta de verdade. Mas ele não te odeia. O Gale pode ser assim, de poucas palavras, mas Aysha, saiba de uma coisa, se o meu irmão se dispôs a te trazer aqui e saber se você estava bem, é porque ele vai com a sua cara.

Podia sentir o tom amoroso vindo dela. Agora sim parecia uma irmã. Antes eu jamais iria deduzir que eles teriam algum parentesco. Ir com a minha cara já era alguma coisa. Mas meu sorriso fraco de quem concordava era falso. Ele provavelmente só estava curioso sobre o que tinha visto hoje mais cedo, e nem o mais excluído de todos conseguiria resistir a curiosidade. Mas ele ter ficado do meu lado enquanto eu dormia, tinha sido um gesto admirável. Me evitar só fez com que eu notasse mais a presença dele. Olhasse mais para os detalhes de como ele se vestia, com quem andava, para o que olhava.

A curiosidade de saber quem ele era só aumentava cada vez mais que ele me evitava. Queria saber o porque. Fazer amigos não era tão ruim assim e todos ficavam repetindo afirmações que me faziam acreditar que algo tinha acontecido para ele ficar assim. Mas ainda não sabia se seria invasão de espaço perguntar para os conhecidos sobre a vida dele.

– Preciso ir agora.

– Como desejar princesinha. Venha me visitar mais vezes, além de irmã dele sou uma ótima amiga, conselheira e gostei de você. Sua energia é bem revigorante, você é uma ótima pessoa.

E com sorrisos e olhares tímidos meus, nos despedimos. Fiz o caminho de volta a sala que eu estava antes e encontrei Melanie e Gale conversando. Quando me viram, Gale levantou e me olhou por algum tempo, antes de desviar o olhar. Dessa vez, o que a irmã dele tinha falado ficou em minha cabeça, então sorri. Mas ele não parecia gostar muito disso. Com ares dramáticos, Melanie correu até mim e se jogou, perguntando como eu estava.

– Você nem percebeu a diferença entre minutos e algumas horas?

– Fiquei preocupada e fui atrás de você pela escola mas, olha. – ela falou baixinho, mais perto de mim. – quando vi você no pátio e o Gale do seu lado, achei que seria melhor não atrapalhar nada.

– Estou indo.

Percebi que ele estava do meu lado, nos olhando.

– Okay, até mais. – Melanie respondeu calma.

Ele me olhou, esperando, pela primeira vez, por uma resposta.

– Ahn, Até mais Gale. – falei sem jeito. – Obrigada por hoje.

– Fico feliz que esteja melhor, Aysha.

Seus dedos passaram pelos meus ombros de leve. Quase não tocando. O tom de sua voz era sincero, mas ele parecia não muito confortável ainda com aquelas palavras. Parecia estar se esforçando para se aproximar de nós. O silencio que ficou ali parecia não constrange-lo. E com um suspiro, o jovem dos cabelos negros e olhos opacos deixou a sala.

Não pude deixar de acompanha-lo com os olhos até sumir. Tantas perguntas em tão pouco tempo e agora eu teria que responder as perguntas dele quando fosse me abordar sobre o que aconteceu hoje a tarde. Eu estava ferrada. Meu segredo estava sendo compartilhado com a única pessoa que eu não queria que fosse a primeira.

– O Gale chegou na hora certa hein?

– Sim, ele parece não me odiar mais tanto assim.

– Ele não te odeia.

– Porque todo mundo fica repetindo isso? – respondi aborrecida.

– Talvez porque você tenha cismado com isso e viva repetindo que ele odeia.

– Ninguém me conta o problema dele com novas amizades, enquanto isso não acontecer, não vou entende-lo. Só isso.

– Deixa isso pra lá. Depois de hoje, acho que vocês se acertam. Estava escrito nos olhos dele que ele queria se esforçar pra ser gentil com você.

– Logico, eu dei uma bronca nele.

Ian apareceu atrás de nós, provocando um coro de gritos.

– Como você está? – ele perguntou preocupado. – Fiquei sabendo do desmaio.

– Vocês precisam parar com essa história de passar informações rápidas demais entre si. Não estou muito acostumada com isso. – choraminguei.

– Casa? — Melanie sugeriu, quebrando meu drama.

– É tudo o que eu quero agora.

Com os pés escaldados na banheira, me aninhei na parede úmida, com um pote de sorvete nas mãos, e comecei a pensar no meu dia. Alguns segredos rondavam o passado dos meus novos amigos, e Gale vinha de brinde. Ele ainda sim parecia sempre estar lá na hora certa, já tinha até me ajudado duas vezes. Mamãe parecia bem distraída com Ben e a nova casa nos últimos dias, então era fácil esconder meu comportamento e meus pensamentos dela. Mas era difícil esconder tudo para sempre.

– Certo, eu preciso começar a me mexer. – falei alto, só para mim, confiante.

Coloquei o pote de sorvete de lado, e fui secar meus pés e colocar o pijama. Precisava dar uma relaxada antes de dormir, por isso o sorvete e a agua quente nos pés. Quando cheguei no quarto, me joguei na cama, macia e fofinha, logo depois me sentando nela, voltando a comer o sorvete. Liguei o vídeo game e comecei a jogar meu jogo favorito de zumbis, ao som de Eric Clapton, cocaine. Ben tinha me dado um gosto musical bem peculiar para a minha idade. Mas é que essa batida, e a combinação de guitarra e baixo me deixavam doida nessa musica. Um gosto secreto meu, por musicas antigas que quase ninguém entendia. Comecei a balançar os pés para fora da cama, enquanto ouvia. A cabeça começou a ir junto e logo eu estava cantando enquanto matava os zumbis. Frase por frase me atentava a cantar um pouco mais alto e não demorou muito para pausar o jogo, estar de pé com a colher do sorvete nas mãos cantando e fazendo movimentos e caretas estranhas. No refrão fiz uma ceninha, abaixando o corpo e aumentando o tom de voz. Do meio em diante tinha apenas o instrumental, onde fingi que a colher era o instrumento e comecei a tocar no meu mundo imaginário. Fui até a cabeceira da cama e peguei o sorvete, comendo umas boas colheradas enquanto ainda me mexia e ria, com a boca cheia.

A intimidade te da oportunidades com essa. Ser ridícula sem ninguém estar vendo.

Quando a musica acabou desliguei, capaz da mamãe vir atrás se o som estivesse muito alto por muito tempo. Ainda não tínhamos tido a ideia de colocar paredes antirruído nessa casa. O que seria ótimo. E enquanto tomava o folego de novo, com mais uma colher de sorvete na boca, ouvi o som de palmas, vindo da minha varanda. Tremi na base e apertei a colher com os dentes, o que me rendeu uma boa dor momentânea. Com a mão em uma das bochechas, me virei para ver quem era.

– Até que você não dança nada mal. – ele disse.

Respirei calma quando vi Ian na minha sacada.

– Quem disse que você podia entrar?

– Estava aberta. – ele respondeu inocente, levantando as mãos.

Conformada, mas muito envergonhada, ofereci um pouco de sorvete.

– Não sabia que gostava dessas musicas. – ele disse calmo, enquanto pegava a colher e enchia com o sorvete.

– Minha paixão secreta. – admiti. – Mas, o que te traz aqui? E não venha me dizer que foi a musica, porque eu sei que não estava tão alta assim.

– Só vim ver como você estava, checar.

– Ian, eu só desmaiei, nada demais. Minha saúde está ótima. Vocês se preocupam demais.

– Diz a menina que teve um surto de preocupação por causa de uma crise de asma da amiga. – Ian retrucou. – Eu queria ouvir um obrigado e não um sermão.

– Isso que você ganha por aparecer aqui sem avisar, me ver dançar de pijama e ainda comer meu sorvete.

– Está bem, você ganhou. – Ian se deu por vencido, me devolvendo a colher e o pote. – Boa noite e sonhe com muitos sermões.

Ele brincou, se aproximando da sacada, e enquanto pulava, corri até lá, me pendurando.

– Existe uma coisa chamada porta da frente, que é muito usada em casas. Avisa a Melanie, acho que vocês não sabem disso.

– Vai se ferrar!

Pude ouvi-lo gritar entre um sorriso, enquanto ia para sua própria casa. Voltei para dentro, mas quando ia deitar, minha mãe abriu a porta.

– Oh, já está de pijama peixinho?

– Sim, como pode ver. – falei em tom divertindo, girando. – Mas o que houve mamãe? Precisa de algo?

– Não, na verdade você tem visita.

Abri um sorriso e disse que já desceria. Ah Ian, você é tão idiota. Como pode vir tocar minha campainha só pelo comentário que fiz? Coloquei uma calça e corri para a porta de entrada, e antes mesmo de abri-la toda, já fui falando.

– Sério Ian, você tinha mesmo que ser tão palhaço?

– Ahn, desculpa te decepcionar, mas não é o Ian. – a voz veio suave, mas séria.

Perplexa, olhei a figura a minha frente, reconhecendo aquele rosto pálido e olhos azuis opacos na mesma hora.

– Gale?

– Posso entrar? – ele perguntou meio sem jeito, ainda um pouco rude. – Precisamos conversar.

Eu queria arranjar uma desculpa, mas nenhuma me veio a mente. A rainha da mentira estava sem palavras. Tudo o que eu conseguia fazer era olhar para aquela jaqueta de couro que caia bem demais dele, aquela blusa azul que ele estava usando na noite que nos vimos pela primeira vez e como ele parecia aqueles bad boys de series antigas encostado com o ombro no batente da porta.
Eu precisava de um namorado urgente, a carência estava me fazendo parecer aquelas meninas de livro juvenil que sempre se apaixona do nada pelo cara sombrio, cheio de mistério e problemático. Respirei fundo para deixar meus pensamentos de lado e sai da frente dele, abrindo um sorriso mais próximo do amigável possível.

– Claro, porque não?

Meu inferno estava apenas começando. Não?