The Crow & The Butterfly
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Notas iniciais
A passos lentos, ele adentrava a casa. Naquele momento meu estomago revirou violentamente. Caramba, ele era tão curioso assim a ponto de não conseguir esperar até amanhã? Ele estava estragando o único momento do meu dia que tinha sido agradável, pois a manhã tinha sido tão conturbada que eu nem queria me lembrar. Bufei em desgosto, enquanto fechava a enorme porta de madeira maciça atrás de mim.
Nossos olhos se encontraram, e rapidamente desviei. Aquela situação toda tornava muito difícil encara-lo. Mas pois é, o famoso drama adolescente que vocês devem entender. Aquela sensação estranha de ter a ansiedade pura, misturado do com a vergonha correndo pelas suas veias freneticamente enquanto você quer enfiar a cabeça na terra e sumir para sempre.
Dei um sorriso amarelo, e comecei o inevitável.
— Quer beber algo?
— Não. – ele respondeu seco, olhando ao redor. – Você poderia chamar o Ben?
Meio confusa, o guiei até a salinha particular que ficava ao lado, apenas separado da sala principal por uma porta de madeira de correr com pequenas janelinhas de vidro.
— Conhece meu padrasto?
— Chame-o para iniciarmos a conversa. – ele insistiu, frio.
— Olha. . .- comecei meio apavorada. — . . .isso é um segredo muito complicado, não quero minha família envolvida nisso. Não até eu entender direito como funciona.
Escutei uma risada baixa e o olhei de canto. Ele estava debochando de mim?
— Apenas chame. Não posso começar sem ele.
— Agora eu estou muito confusa.
Estava tentando prolongar ao máximo a conversa. Até porque chamar o meu padrasto seria idiotice, mas ele parecia não ligar muito para a minha opinião. E o silêncio continuou. Ele apenas pegou o celular e digitou algo, o guardando no bolso logo em seguida. Parecendo alheio a minha fala anterior, Gale se jogou no sofá a minha frente e ficou olhando para o teto, com a cabeça apoiada nas mãos.
— Tudo bem, ele já está vindo.
Ele parecia tranquilo.
E eu? Apavorada.
— Chamou meu padrasto? E espera ai. Como você tem o numero dele?
As perguntas rodavam a minha mente, mas eu não conseguia decifrar o que vinha pela frente. O medo bloqueava qualquer pensamento coerente ou compreensão. Como eles reagiriam a isso? Era só o que conseguia pensar.
— Não se faça de cachorrinho assustado, Aysha. – ele falou mais calmo, cortando meus pensamentos. – O que está prestes a ser explicado é mais positivo do que imagina.
E com um sorriso enigmático, de quem estava gostando do espetáculo, Gale cortou novamente a conversa. Provavelmente minha cara estava denunciando tudo o que eu estava sentindo, porque ele tinha traduzido, e muito bem, como eu me sentia naquele momento. Um bichinho assustado.
Ouvi a porta se abrir e os passos do meu padrasto se aproximando de mim. Gelei naquele momento, e nem o encarei. Senti minhas costas se endireitarem e ficarem rígidas. Eu estava me punindo antes mesmo de levar a bronca. Podia sentir pela dor nos músculos e a tremedeira nas pernas.
— Para você mandar a mensagem de emergência, é porque algo. . .
Ele começou descontraído, apenas olhando Gale, mas logo parou de falar quando me viu junto. Com a pausa, me atrevi a olhar para Ben, que agora estava um pouco pálido, enquanto me encarava.
— Como se conhecem? – Indaguei, um pouco nervosa.
— Ele a encontrou.
Gale falou logo depois de mim. Meio preocupado com a afirmação, que até então não tinha significado nenhum para mim, Ben se sentou ao lado dele e continuou a conversa.
— Como?
— Não sei ao certo, ele devia estar procurando. Alguma pista deve ter levado até ela, afinal, ela não se preocupou muito em não deixar vestígios de suas peripécias. – Gale continuou duro, com uma linguagem e tom de voz sério.
— Parece até uma criança que ganhou um brinquedo novo.
Logo, algumas coisas começaram a fazer sentido. Mas a única coisa que eu tinha certeza, era que eu era a que menos sabia das coisas ali. Um sentimento de irritação tomou o lugar do medo dentro de mim e a tremedeira começou a se acalmar.
Gale estava começando a me irritar.
— Escuta aqui. – cortei Ben, que estava prestes a falar. – Não me trate como uma criança quando eu nem sei ao menos o que quer dizer. Antes de falar do que você pensa que eu fiz errado, porque não conta o que diabos está acontecendo.
— Aysha. – escutei Ben ao fundo.
Apenas levantei a mão, pedindo que esperasse.
— E você? Vocês se conhecem? O aluno da minha sala e você? Como?
— Aysha, nós precisamos conversar sobre algumas coisas e o que vem acontecendo com você.
— Ah, então você sabe! – berrei, entrando no modo irônico de discussão. – Sabe que eu ando brincando de Cinderella?
— Branca de Neve. . .- Gale falou baixinho.
— Tanto faz! – berrei, me levantando.
— Você sabia da minha confusão então? Há meses eu faço essas coisas, e não entendo o porque. Estava com medo de alguém ver e me achar uma aberração, e você nem ao menos veio me amparar? Que tipo de família é você?!
— Eu disse que ela parecia o tipo de pessoa escandalosa.
— Manda ele calar a boca, ou eu tiro ele a força daqui!
Gale se levantou e veio até mim rapidamente, me encarando de cima, como se quisesse me intimidar.
— Tenta. – ele provocou.
— Parem. Vocês dois, parem!
A voz de Ben me fez voltar à realidade e me afastei do irritante, que fez o mesmo.
— Primeiro, Aysha, eu não podia te explicar assim, do nada. Existem circunstâncias que você está submetida que não são porque eu quero, e você vai entender. E Gale, eu pedi para você ficar de olho nela, caso despertasse, para ele não encontra-la. Mas pelo visto nem você pode impedir quee ela usasse o dom, apenas olhando. Talvez tenha sido um erro nosso, da central. Falarei com eles, nem tudo está perdido. Ele a viu, ou a tocou? – Ben perguntou preocupado, focado agora em Gale.
— Apenas viu. Não deixei que tocasse. – ele respondeu seco, de braços cruzados.
E com um suspiro aliviado, Ben continuou.
— Menos mal. Você sempre está cuidando dos novatos. Isso nos dá um tempo de pensar no que fazer, já que ele provavelmente não tem certeza que ela é o que é.
— Sou o que? O que é isso? Eu sou o Harry Potter e ninguém me contou?
— Aysha.
Meu padrasto usou um tom de repreensão e pude ver a preocupação em seus olhos. Aquilo me travou de certo modo. E mesmo confusa e com raiva, ele era minha família. Olhei para baixo e me calei, juntando as mãos a frente do corpo, deixando que eles acabassem de conversar.
— Como disse, não sei o que ele descobriu.
Os dois se olharam, e Gale revirou os olhos.
— Não. De novo não!
— Você precisa fazer isso. – Ben continuou paciente como um monge. – Muitas coisas dependem disso.
— Você tem ideia de como isso dói?
— E é por isso que você vai fazer isso na base. Sempre fez. Gale, eu odeio te pedir isso, sei que podemos te perder a medida que fazemos isso, mas. . .só desta vez.
— A ultima vez. . .
Os dois ficaram em silencio novamente e Gale virou de costas.
Eu queria perguntar alguma coisa. Aquela conversa não fazia o menor sentido e eles falando daquele jeito, pausadamente e com olhares obtusos, era como estar em uma rodinha de amigos que todos sabem o que aconteceu na festa passada, enquanto você estava em casa, dormindo e de alguma forma, tinha tudo a ver com você.
Cerrando os dentes, Gale concordou com o pedido de Ben e disse que ia embora. Na mesma hora, me lembrei desde a primeira vez que eu o tinha visto e um sentimento estranho tomou meu peito. Uma amargura esquisita me acalmou e eu me levantei.
— Eu abro a porta para você. – falei baixo, o olhando sem medo. – Ben pode me explicar tudo sozinho. Certo?
Um pouco surpreso, meu padrasto apenas balançou a cabeça em acordo.
Sem protestar, Gale deixou que eu tomasse a frente e abrisse a primeira porta. Me seguiu quieto até que eu abrisse a segunda porta.
— Gostaria de poder pedir desculpas e dizer que tudo era só uma brincadeira, mas. . .
— Não sei se está sendo sincero ou não, mas não preciso da sua piedade. Sério, tá tudo bem. – respondi sorrindo, mas fria.
— Você muda muito rápido de opinião.
— Sei lá, são tantas coisas que eu estou sentindo nesse momento, que não sei o que demonstrar.
— Eu acho que te entendo.
O tom de voz tinha sido suave demais para quem estava discutindo comigo minutos atrás. Os olhos dele demonstravam compreensão, mas eu não sabia se era verdadeiro. Nem o que eu achava que era coincidência, era. Ele não tinha me segurado por acaso no parque, aquele dia. Ele estava me vigiando desde o primeiro dia.
— Você me vigia desde que cheguei né?
— Ben vai. . .
— Só me responde.
— Sim.
— Boa noite.
Fechei a porta na cara dele sem nem ao menos ouvir se tinha algo a dizer. E eu achando que ele só era um cara tímido e aos poucos nós poderíamos ser amigos, colegas. . .ele nunca quis ser meu amigo, só estava próximo o tempo todo para caso algum desastre estranho acontecesse. Como o da floresta.
Eu sou tão idiota.
Esfreguei o rosto com a palma das mãos, voltando para a salinha.
— Vamos conversar agora?
— Estou mais calma e pronta para a loucura. – brinquei. – É um alivio de certo modo, saber que não estou sozinha com esse segredo.
— Vamos precisar ter uma conversa longa.
— Eu tenho a noite inteira. – respondi e coloquei os pés na poltrona do lado.
— O dom que você tem, você tem ideia da onde vem?
— Não. Uma moça me deu. Quer dizer, eu acho. Pareceu um sonho.
Ele riu.
— Que?
— Você fez o contato direto com ela. Poucos fazem, na verdade. – ele comentou animado, esfregando as mãos. – Vou tentar explicar de modo sucinto. Cada dom tem a ver com um elemento da natureza especifico, e é dado por um Deus. – ele fez uma pausa, para ver minha reação, e como não demonstrei espanto com nada, apenas curiosidade para que continuasse, ele prosseguiu. – Seu dom, é a vida. Temos dons mais comuns, que são os quatro elementos. Terra, fogo, ar e água. Os dons um pouco mais raros, como o gelo, são encontrados também. E existe uma terceira categoria, os dois dons mais raros e difíceis de se lidar, no qual são despertados diretamente por seus Deuses vigentes. A vida e a morte.
Meus pensamentos estavam apenas acompanhando a narração dele. Estava completamente focada e guardando todas as informações. Era impressionante como aquelas informações me empolgavam. Não porque eu era especial, isso não me animava muito. Mas o fato de não estar sozinha com um segredo desses, era no mínimo confortante.
— A mulher que você viu, era Gaya.
— A mãe terra? – perguntei perplexa. – Sério?
Ele riu novamente.
— Você parece estar um pouco mais animada com isso do que antes.
— Eu estava nervosa. – admiti, um pouco mais calma. – Foi tudo tão de repente. Ainda preciso me acostumar, mas não deixa de ser legal ter vocês comigo.
— Vocês?
— É, você e a mamãe. – respondi, como se fosse obvio.
Ele ficou quieto por um tempo, e continuou a explicação.
— Gaya veio te despertar, quando achou necessário. Vocês são raros, pois a missão de vocês é manter o balanço da vida nesse mundo, portanto, só nascem apenas alguns de vocês de décadas em décadas, e infelizmente vocês são o sinal de que algo está errado com o equilíbrio do planeta.
— Mas se nascemos assim, então está errado desde quando eu nasci?
— Mais ou menos. O nascimento é o presságio de que algo ruim está por vir.
— Nossa, acho que não estou mais tão feliz assim com isso. – disse um pouco preocupada.
— Não é culpa sua. A organização em que trabalhamos, nasceu disso. Para controlarmos o nível de crianças com dons pelo mundo, e ajuda-los a treinar e se preparar. Ao longo dos anos, as crianças com os dons mais comuns conseguem lidar com as ameaças ao balanço. Demônios e criaturas do outro mundo que tentam criar um desconforto generalizado nos seres humanos, ou planos piores.
— Então “ele” está atrás de mim porque eu posso voltar com o equilíbrio das coisas?
— Voltar não, você mantém. E ele quer destruir esse equilíbrio.
— Ele no caso é. . .
— Sim. Nem precisa dizer o nome.
— Estou realmente me sentindo em Harry Potter.
— Você é palhaça quando não precisa ser, sabia?
— Aquele que não pode ser nomeado! – falei com ênfase, brincando.
— O rei dos demônios. – ele falou, por fim. – Ele não sabe quando nasce uma criança com o dom da vida. Mas pelo histórico da esperteza de Gaya de trazer um escolhido quando ele planeja algo, já começa a procurar a criança quando os planos se iniciam. Por isso estávamos escondendo você. E se tivermos sorte, ainda não foi descoberta como portadora do dom da vida.
— Ben, você não conheceu a minha mãe no trabalho né?
— Não. Aysha, eu conhecia o seu pai. – ele falou de uma vez, sem rodeios. – ele também era da organização.
Senti a ansiedade voltar. Meu pai. Eu não sabia lidar com esse assunto desde pequena, por ele ter sumido. Sempre me comportava de forma estranha quando ele era mencionado, e agora não estava sendo diferente. Continuei olhando para Ben, mas meus olhos estavam desfocados. O vazio e o medo de saber a verdade me apertavam, e algo me dizia que eu estava prestes a entender aquela parte da minha vida.
— Ele me deixou quando eu era pequena.
— Ele sabia que você era filha da luz.
— Como?
— A marca.
Olhei meu pulso, focando na marca branca, que dava voltas, como uma arvore que crescia saudável.
— Isso é uma cicatriz. – insisti.
— É a marca que todo filho de Gaya tem. Ela começa a crescer e tomar cor quando você é despertada.
— Eu tinha até esquecido que ela existia.
— Seu pai sabia, queria te proteger. Isso nunca tinha acontecido. Um membro da organização ter alguém da família tão próximo acompanhado de um sinal tão ruim. – o tom de voz de Ben passou a ser mais triste. – Essa parte é difícil, eu sei.
— Você era amigo do meu pai?
— O mais próximo, mas sua mãe não me conhecia, eu juro.
— Por um momento, cogitei que você casou com a minha mãe, por minha causa. – respondi amarga. – Mas. . .a forma como você olha pra ela, e se importa com ela. Eu sinto que é amor. Não sei explicar.
— O dom. O seu dom te da essa sensibilidade com os sentimentos humanos.
Fiquei quieta. Ainda pensando nas coisas que haviam sido ditas.
— Quando o seu pai viu a marca, tentou a qualquer custo, esconder você e sua mãe. Ele não podia lutar contra o seu destino, Aysha, mas ele era pai agora. Não queria ouvir falar nessa palavra. Justo o maior mentor de todos, agora estava lutando contra tudo o que acreditava para proteger um ser tão pequeno e que ele amava tanto. Ele luto Aysha, ele fez de tudo para te tirar desse caminho. – Ben mantinha o ar de pesar na voz, o que partiu meu coração. Era do meu pai que ele estava falando. – Seu pai não foi um covarde que largou a família. Ele foi em busca de uma alternativa. Ele concluiu que você viveria um fardo, que perderia você se não fizesse algo. Me pediu que cuidasse de você e sua mãe enquanto ele estivesse fora. E partiu em uma missão na qual nunca mais voltou. Ele desapareceu, não sabemos o que aconteceu. Ele foi com a esperança no coração, mas essa esperança nunca retornou.
A pausa que ele fez só mostrou o quanto aquela lembrança o chateava. As rugas se atenuaram na face cansada do meu padrasto, pela tristeza. Ele encostou as costas no sofá macio, com as duas mãos cobrindo a boca. O olhar focado no nada demonstrava que ele estava lembrando de tudo aquilo. E a compaixão me pegou. Como eu poderia ter raiva de uma pessoa que perdeu o melhor amigo e por consequência de preservar o que lhe era mais sagrado, se apaixonou pela mulher dele?
A compaixão virou uma calmaria. Eu podia sentir a dor dele, a verdade nas palavras, por mais duras que fossem. Eu pensaria diversas vezes naquilo depois, como todo bom adolescente. Mas também era um alivio saber que o meu pai não era um ordinário. Que ele amava a família. Que ele me amava.
— Ele me deixou instruído para continuar te escondendo caso ele não voltasse. Claro que briguei com ele quando ouvi aquilo. Era um absurdo meu melhor amigo não voltar. O melhor instrutor que conhecíamos. O mais sábio. Mas ele não voltou, e eu tinha que lidar com a realidade. – e após um suspiro, ele completou amoroso. – Foi ai, que eu conheci vocês.
Eu sorri de volta para ele, sentindo uma lágrima escorrer pela bochecha.
— Você, pequena e levada. Não parava de encher a sua mãe! – ele brincou. – E sua mãe triste e preocupada, por não saber como levar a vida com o sumiço do seu pai. Me disfarcei de chefe em uma das empresas que a organização comanda, para gerar lucros, e forjamos tudo para sua mãe arranjar um novo emprego. E . . .o resto da história você já conhece.
— Se algum dia eu descobrir que você fez isso de propósito e nunca amou minha mãe de verdade, eu mato você!
— Admito que tudo ficou mais fácil. Você estava sempre perto, crescendo perto de mim. Mas acabei me desviando da sua guarda e te deixei viver uma vida normal, já que estávamos longe da onde à outra filha da vida estava crescendo.
— Outra?
— Acabamos descobrindo, depois de um tempo, que além de você, outra tinha nascido.
— Mas duas não significa uma catástrofe?
— Não sabemos.
— A onde ela está?
— Essa é uma longe história. – ele suspirou. – mas para resumir, ela foi corrompida e agora você é a única filha de Gaya existente. E isso foi uma emergência. Pois como você era a única existente agora, precisaria ficar próxima a base e aos membros, porque se despertasse longe, como estávamos, eu sozinho não poderia te proteger e todos correríamos riscos.
— Ela foi despertada antes de mim então. – conclui.
— Sim, e não sabemos o porque. Isso faz parte dos planos dos Deuses, eles despertam a hora desejada cada filho. Tem planos para eles. A única diferença é que aqueles que nascem com os dons da vida e da morta veem seus criadores de perto, no despertar.
— Não sinto algo bom quando você diz isso, pensando em quem tem o dom da morte. – admiti, senti arrepios.
— Gale pode te explicar melhor qualquer dia desses.
Travei.
— Ele tem o dom da morte?
— Sim. Mas este dom nunca conseguimos entender bem. O filho da morte nasce junto com um filho da vida. É como o ying yang. Se existe um caminhando pela terra, o outro também deve estar. E é só isso o que descobrimos até agora.
— Não é uma forma desse rei demônio se prevenir, quando um filho da luz nasce? – arrisquei um palpite.
— É algo a ser considerado, mas não sei responder se você está no caminho correto.
— Mas não faz sentido, Gale está com vocês.
— E é por isso que não consigo te responder se está correta. Gale tem um temperamento estranho, teimoso, mas não tem traços da maldade de um demônio. Não chega nem perto disso, então continua tudo um mistério para nós. Mas ambos andam em uma corda bamba. É o único dom que pode ser corrompido. Gale vive em constante conflito, mesmo que não admita. Vemos isso.
— Achei que era por um problema que ele teve há uns anos atrás com os amigos.
— Sim, a filha da luz que foi corrompida, era amiga deles. Lucy.
— Eu vou ter esses conflitos, mais cedo ou mais tarde também, não é? – perguntei com o resquício do medo que não queria demonstrar.
— Não se preocupe Aysha. O erro foi nosso, não pensamos em te contar antes, e esse será o nosso único erro com você. Iremos te treinar, ajudar a controlar os impulsos. Se você se sair bem, terá um parceiro e irá trabalhar como todos os outros! Mas essa conversa fica para amanhã, quando mostrarmos a base para você. Aqui fica a central.
— Posso te chamar de professor Xavier a partir de agora? – brinquei.
— Palhaça. – ele retrucou, se levantando.
— Sério, você está até meio carequinha!
— Aysha, pare! – apesar da bronca, o tom foi de brincadeira e ele logo riu. – O importante é que agora você está segura. Aos poucos, o destino se mostrará para nós, e vamos fazer o possível para que o seu destino não seja sombrio. Eu acredito na sua força de vontade.
Ditas aquelas palavras, Ben me deu um beijo na testa e um abraço apertado. Agora que ele tinha me alertado sobre essa minha sensibilidade a sentimentos humanos, podia sentir o calor que ele emanava. A bondade e ao mesmo tempo tudo o que carregava. Senti as lágrimas se juntarem ao redor dos meus olhos, mas não deixei que caíssem. Eu estava confusa, com medo, aliviada e ansiosa. As coisas se encaixariam aos poucos, ao menos eu pensava assim.
Soltando meu padrasto, perguntei uma ultima coisa, que estava entalada na garganta, como curiosidade.
— Melanie e Ian. . .
Ele pareceu entender e respondeu antes que eu perguntasse.
— Sim.
— Uffa, eu não sei o que faria sem eles! – disse aliviada.
— Não está chateada com eles?
— Algumas mentiras são obrigatórias. Acho que em algum momento vou me perguntar se eles realmente queriam ser meus amigos, mas se fosse comigo, acho que esconderia também, pois são ordens. – respondi um pouco confusa. – Mas o que importa é que, de certo modo, eu entendo. Pode ter sido como você Ben. Eles podem ter se aproximado apenas para cumprir uma missão e terem se tornado meus amigos. Consequências da convivência. – dei de ombros.
Foi neste momento que mais uma coisa não dita na conversa, me pegou.
— Espere, Ben. Mais uma coisa. – parei na frente dele, com as duas mãos estendidas. – A minha mãe sabia de tudo né? Do meu pai, vocês. A organização.
Ele ficou quieto, coçando a cabeça.
— Não.
Quando ele me respondeu aquilo, senti algo estranho pressionar meu ombro, e um sopro como o vento chiou aos meus ouvidos.
“Por hoje, chega.”
Depois disso, tudo que estava a minha frente se tornou negro.
E acordei pela manhã, deitada em minha cama, com a companhia sombria de uma dor de cabeça e um galo roxo na cabeça.
Levantei atordoada, a procura de um remédio e acabei encontrando um bilhete da minha mãe, dizendo que tinha uma entrevista de emprego, que iria sair cedo e me deixar aos cuidados de Ben.
— Minha mãe não sabe de nada. – repeti a ultima coisa que lembrava da noite anterior. – Ben, Gale, Ian e Melanie. Argh. Quanta coisa para processar em pouco tempo. – esbravejei, tomando o remédio.
— Aysha?
Escutei meu padrasto chamar do outro lado da porta.
— Pode abrir.
— Te acordei?
— Seu timing foi perfeito. – falei irônica, me sentando na cama. – Acho que bebi demais ontem a noite. Tive um sonho bizarro em que eu fazia parte dos Xmens e que você era o professor Xavier.
— Você está melhor do que imagina. – ele revirou os olhos e colocou uma bandeja de comida na minha cama. – Coma, se arrume e vamos. Preciso te levar na base para continuarmos a conversa de ontem, apresentar sua nova rotina e o pessoal. E ah, antes que eu me esqueça. – ele disse com a porta semi fechada. – Eu adoraria ser o líder, mas não passo de um tutor lá dentro, então não quero esse apelidinho.
— Você sabe quem é o Xavier? – respondi, comendo um pedaço do pão com manteiga.
— 10 minutos Aysha, 10 minutos.
Não me demorei no café e nem em me arrumar. Coloquei uma calça jeans e uma blusa escura, um tênis e estava pronta. Não era momento de me arrumar, ainda mais se eu fosse passar por aulas de Box ou essas coisas bizarras de treinamento de agentes. Eu tinha tantas referencias na minha cabeça que parecia uma nerd em parafuso. Eu e Ben não trocamos palavras no carro. Ao invés de tirar logo minhas duvidas, resolvi babar no couro claro do banco até chegarmos em um ponto no meio da floresta. Não prestei atenção no caminho, só acordei quando chegamos.
Uma clareira no meio da floresta, em algum ponto da cidade. Aparentemente, era uma casa normal, uma fazenda no meio do nada. Entramos e fomos até uma estante cheia de livros. Era tão previsível que se esse Rei demônio visse filmes humanos, já teria achado essa base. Ao puxar um dos livros, a estante se levantou e entramos em uma espécie de elevador que após descer alguns minutos, saiu em disparada para a esquerda.
Minha primeira reação foi gritar. Ben estava calmo, parado no lugar como se estivesse no metrô. O elevador tomou direções diferentes durante uns 15 minutos até finalmente parar.
E eu gritei durante o percurso todo como uma louca.
— Sério? Precisa mesmo ser essa montanha russa toda? – falei irritada, saindo de dentro do elevador.
— Você se acostuma.
— Ah, claro. Um cara de quase cinquenta anos falando para uma adolescente que um elevador montanha russa é leve. Claro, porque a vida tá mesmo muito normal.
Ben riu e me jogou para frente, com certo cuidado.
— Vamos, não tem que ser tão ruim assim.
Enquanto caminhávamos olhei ao redor. Aquela era a base? Várias pessoas andavam de um lado para o outro, atarefadas.
— Aqui é a recepção e o caminho central para todas as áreas. – ele dizia enquanto apontava para todos os corredores a frente. – Vou te levar direto para a área de treinamento, por enquanto é lá que você precisa conhecer e se familiarizar.
— Eu podia ter ficado em casa processado toda essa história, não acha?
— Infelizmente não temos tempo para deixar você digerir a história. E além de tudo você parece ter aceitado.
— Em termos. Algumas coisas eu nem pensei ainda.
— Sua segurança depende dessa rotina de treinamentos. – Ben retrucou um pouco cansado.
— Está bem. Só mais uma pergunta?
— Sim, pequena.
— Não consigo compreender.
— Você irá com o tempo, pequena.
A voz de Ben era acolhedora, apesar da situação. No final tudo estava tão confuso, tão fora de ordem.
— Minha mãe sabe disso também?
— Infelizmente, Aysha, é a única e maior mentira que já contei a sua mãe. — dizia meu padrasto, triste. — Mas não é culpa dela o dom que você carrega consigo. Não podemos envolve-la nisso. Seu pai não iria querer isso. E nem nós dois. Não é mesmo?
— "Não podemos" — repeti, fazendo aspas com os dedos. — A organização? Porque eu poderia contar a verdade facilmente.
— Você quer arriscar a vida dela?
Naquele momento minha convicção anterior caiu e minha respiração falhou. Ele parecia bravo, preocupado com minha afirmação. Eu poderia mesmo arriscar a vida dela? Talvez uma mentira, mesmo que grande como essa, fosse mesmo necessária.
— Eu amo sua mãe. Quero protegê-la tanto quanto você. Coloca-la nisso seria. . .
— Tudo bem. — respondi rapidamente, levantando as mãos em sinal de pedido para que parasse. — Eu me rendo. Participarei de verdade dessa loucura e mentirei para todos a minha volta. — ri, de modo irônico. — Por onde começamos?
Meu padrasto riu. Parecia satisfeito com minha resposta. E assim, meu tour pela base começou.
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