The Crooked Man REPOST
1 Tortuous Journey
Notas iniciais
Espero que essa seja ainda melhor que a anterior e agrade todos que vierem lê-la!
"O resultado é visível, mas a intenção nunca é evidente; por isso, sempre pelo resultado é que julgamos a história dos homens."
— Friedrich Rückert
Essa história se passa algumas décadas antes da Era Vitoriana, no Reino Unido. Ainda que não pareça, sua atualidade nos fatores que envolvem a psicologia humana e seus atos nas mais diversas e oportunas situações são de grande preciosidade quando lidas por mentes abertas. E a prova disso que lhes conto está na vivência dos envolvidos nessa estranha trama, da qual a veracidade não cabe a ser julgada por mim — ou por você. Contudo, não é segredo que o inverno se aproximava daquela época com tal vigor que até mesmo as árvores pareciam se fechar em protesto de terem sua natureza invadida pelo desconforto. Refiro-me mais diretamente à floresta de Wychwood que naqueles anos ainda ocupava boa parte da região de Oxfordshire, que hoje é o centro da Inglaterra.
Não é de se espantar que os cavalos que conduziam a carruagem estivessem tendo dificuldades no avanço pelas trilhas que ficavam cada vez mais fechadas pelas árvores. O carroceiro amaldiçoava tudo ao seu redor entre pequenos murmúrios e espirros nada discretos. Sentado na parte de trás da carruagem estava sentado o homem que servirá de foco para os próximos acontecimentos. Acontece que ele havia herdado uma casa na zona rural do leste e, para que chegasse ao seu destino, era necessário cruzar a floresta independentemente do clima que predominasse. Faltava apenas alguns minutos para que o sol já estivesse completamente fora de visão e a lua dominasse por completo o céu escuro. Marco não estava muito ansioso para se mudar, mas já não aguentava mais viver de favores para o fazendeiro Royce. Desde que seus pais faleceram tantos anos atrás, precisou começar a trabalhar para começar a viver de forma independente, o problema é que não conseguiu ser tão independente quanto queria. Seu pai era mineiro e sua mãe vendia flores, portanto não havia muito o que soubesse fazer com precisão para que começasse a ter um verdadeiro lucro. Foi quando o velho Royce apareceu com pena do garoto e decidiu hospedá-lo como se fosse seu filho. Após Marco se tornar adulto, começou a colaborar na fazenda para ajudar aquele que sempre o ajudou; mas os anos passaram e o negócio começou a cair. O fazendeiro não queria admitir mas Marco sabia que seria muito difícil para que os dois continuassem a ser viver sob o mesmo teto, eram tempos de dificuldade.
Ao que tudo indica, o pai do rapaz era dono de uma parte dos negócios da mineradora da qual trabalhava na parte Leste da cidade, e quando o último membro faleceu foi constatado que o único herdeiro direto daquelas terras era Marco. Não pensou duas vezes antes de aceitar se mudar para lá e tirar esse "fardo" de cima das costas do fazendeiro Royce. É claro que foi uma verdadeira luta convencer o velho de que aquilo seria melhor para ambos, e depois de muito sentimentalismo e despedidas calorosas, ele ainda insistiu em pagar uma carruagem para que levasse Marco durante todo o trajeto. Foi a primeira vez que ele viu o fazendeiro chorar. Agora, enquanto ouvia os resmungos do carroceiro, pensava no quanto essa mudança completamente radical iria alterar sua vida pacata. Procurou se informar antes de partir e descobriu que havia um vilarejo perto de onde iria morar, o que em seu ponto de vista é algo bem positivo. Depois que estivesse devidamente alojado poderia dar uma passada por lá e fazer algumas compras com o dinheiro que o velho Royce o obrigou a levar. "Seria bom também encontrar um emprego e fazer amigos" — pensava ele.
Foi depois de algumas subidas e descidas que as corujas começaram a piar e a carruagem a balançar. Parecia ser uma trilha tortuosa e de difícil travessia. Em alguns momentos jurava ouvir o uivar de lobos, embora o carroceiro não tenha parecido se alterar nem um pouco. Houve uns instantes que contornaram um pequeno rio e passaram por dois ou três morros. Malco já tinha dormido e acordado tantas vezes que perdera um pouco a noção do tempo, ainda que soubesse que lá fora deveria estar escuro como um breu.
— Ainda falta muito, senhor? — questionou se inclinando na direção do carroceiro.
— Mais alguns minutos — respondeu depois de um tempo em silêncio.
Era um homem de meia idade, muito branco e careca. Usava sempre uma boina preta e naquela ocasião se encontrava de cachecol devido a sua gripe. Marco suspirou e encostou sua cabeça no estofado avermelhado. Tentou procurar por alguma distração mas não havia nada que pudesse lhe roubar mais do que um minuto de interesse. Foi aí que decidiu pensar nela, e em todos os momentos que vivenciaram. A verdade é que os maus negócios do fazendeiro não foram os únicos motivos de sua mudança para o outro lado da cidade, no entanto não é algo do qual devemos nos aprofundar agora, mas sim na súbita parada da carruagem e no relincho dos cavalos.
— Aqui é o máximo! — disse o carroceiro quando Marco perguntou com o olhar o que estava acontecendo.
Quando desceu da carruagem foi que entendeu: a floresta fechara o restante da trilha e só seria possível ultrapassar a pé.
— Tudo bem, já foi de grande ajuda.
O carroceiro nada respondeu, apenas guiou os cavalos para que descem meia volta e saíram dali a trotes largos. Marco tirou o isqueiro que trazia consigo do bolso do casaco e o acendeu para dar suporte a lua na iluminação. Foi com extremo esforço que atravessou aquela floresta que parecia lutar como forma de o impedir a passagem. Se concentrou em seguir a trilha pouco visível no chão enquanto seu braço direito se estendia à frente com o isqueiro na mão. Foram dez ou quinze minutos de caminhada até que ele se encontrasse numa divisa com duas placas. Uma apontava para a direita e estava escrito "Surlingham", a outra apontava para a esquerda e estava escrito "Cringleford".
Marco olhou para a direita e podia ver ao longe várias lamparinas iluminando o vilarejo. Ficou muito tentado a ir para lá, mas já era tarde da noite e todos deveriam já estarem dormindo. Contrariado, teve que seguir o caminho pela esquerda, pois as terras da mineradora se encontravam um pouco antes de Cringleford, e deveria chegar em sua casa o quanto antes. Conforme andava tentou se lembrar da época em que seu pai ainda estava vivo e o levava ali para que visse como era seu trabalho. Era muito triste como essas lembranças o afetavam tanto, e também mais triste ainda era a maneira com qual ele lhe dava de saber que nada mais seria como antes: se afastar de tudo.
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