The Crooked Man REPOST
2 Memorable Environment
Notas iniciais
"Mesmo nos tempos de mais grave doença, nunca me tornei doentio."
— Friedrich Nietzsche
A quantidade de árvores presentes na trilha que se seguia para Cringleford havia diminuído consideravelmente em relação a floresta de Wychwood, da qual tivera de atravessar uma pequena parte até que chegasse na divisa. Isso ajudou para que Marco tivesse uma melhor noção de espaço e direção. A pequena chama de um isqueiro não é algo que venha ser muito útil em lugares abertos, mas qualquer tipo de ajuda na iluminação de um ambiente tenebroso seria irrecusável. Era memorável as vezes que saíra correndo por aquelas matas em temporadas de primavera na sua infância, quando podia sorrir inocentemente e seu único motivo para parar era estar com fome. De vez em quando, enquanto andava com passos lentos pela trilha, se pegava pensando em sua mãe com seu habitual vestido branco e sua cesta de flores; ah, mas como isso era doloroso. Infelizmente, a doce mulher que trazia "novas cores" para os vilarejos com suas flores e cantos havia falecido de uma doença repentina que sugou por completo sua saúde jovial. Logo depois foi a vez do pai de Marco, ao que tudo indica, no desabamento de umas das minas que trabalhava.
O vento gelado que anunciava a chegada do inverno começava a se intensificar, e as árvores balançavam fortemente. Alguns dos muitos corvos da região levantavam voo, enquanto que os esquilos e coelhos paravam com suas correrias habituais para se abrigarem. Marco conseguia distinguir a silhueta de algumas corujas quando as mesmas ficavam em posições de contraste com a luz do luar. Foi depois de pular algumas pedras e passar pela primeira curva daquela trilha que ele chegou em um grande espaço aberto que de cima deveria se assemelhar com um círculo. A trilha se sucedia pelo canto das árvores à sua direita, mas não seria mais necessário segui-la. Na esquerda se encontravam as terras da mineradora abandonada e mais ao lado estava um grande lago com a Casa Principal perto de sua margem. Parecia estar indiferente ao passar dos anos, pois Marco se lembrava perfeitamente de quando ficava dormindo lá dentro enquanto seu pai trabalhava nas minas. Ali era onde os mineradores almoçavam ou passavam a noite quando necessário, um ambiente muito nostálgico para o rapaz, e agora sua nova casa. O vento já não estava tão forte quanto alguns instantes atrás, e não houve dificuldade para atravessar o campo aberto até a casa. Antes de abrir a porta, já com a mão na maçaneta, Marco olhou em volta com vista para os dois lados. Toda aquela região estava cercada pelas árvores e se perder floresta adentro não parecia ser um bom desafio.
Entrou na casa e fez um reconhecimento rápido pelo lugar. Sempre com o isqueiro à frente, se permitiu notar que tudo ali era feito de madeira: as paredes; telhado; o piso, e até os mais variados móveis. Suspirou e puxou uma das cadeiras da cozinha para se sentar, contente por finalmente sair do clima gélido. Não trouxera malas nem objetos de grande porte, porque, de acordo com ele mesmo, não possuía nada na fazenda do velho Royce que não pudesse obter também com alguns dias de trabalho. O problema agora seria conseguir trabalho. Daria um cochilo rápido e logo de manhã sairia para o vilarejo mais próximo; constatou pelas trilhas que percorreu que gastaria no mínimo meia hora para chegar lá à pé. Lembrava-se que os quartos ficavam no andar de cima, então apressou-se para encontrar uma lamparina em um dos armários do hall, que era logo ao lado da cozinha. Acendeu o pavio da lamparina com a chama do isqueiro que logo tratou de guardar de volta no bolso, junto com alguns barbantes, notas de dinheiro, e também cartas velhas. Com a lamparina em mãos subiu os lances da escada que rangia um pouco, e se encontrou num pequeno corredor. À sua frente estavam pequenas estantes e alguns quadros na parede. Uma das imagens Marco reconheceu sendo uma das minas dali perto. "Deve ter rendido bastante para fazerem um quadro dela" — pensou.
Se fosse pela esquerda se depararia com dois banheiros e um cômodo que servia para a estocagem de coisas antigas. Seguiu pela direita onde adentrou em um quarto extremamente aconchegante com uma cama de casal, gabinetes, espelho, e uma janela tampada pelas cortinas desbotadas mas que com certeza daria vista para o lado sul da floresta. Colocou a lamparina sobre um dos gabinetes e se jogou na cama depois de retirar os sapatos sujos. Fechou os olhos por alguns instantes, aproveitando aquele silêncio e aquela sensação de tranquilidade. Às vezes ouvia o vento gelado em confronto com a janela e agora tinha certeza da existência de lobos naquela área, pois o uivar deles agora se tornaram inconfundíveis na calmaria da noite.
Marco colocou uma das mãos atrás da cabeça enquanto a outra buscava uma das cartas que manteve consigo em seu bolso. Abriu os olhos e perdeu seu pensamento naquelas letras finas e puxadas. A luz da lamparina deixada no gabinete era fraca, porém o suficiente para iluminar uma parte considerável do papel. Não era uma carta do fazendeiro Royce, tampouco de seus falecidos pais, mas sim uma carta dela. É difícil até para mim descrever o quanto Marco amava aquela mulher, e que agora era somente mais uma parte de seu passado que foi deixado. Vivia pensando se poderia, daqui muitos anos, estar vivendo sem ter nem um resquício repentino da lembrança dessa doce época.
Tudo o que fez depois disso foi guardar a carta novamente e se deixar levar pelo sono, mesmo com toda a baderna que a natureza fazia nos campos daquela terra abandonada. Suas expectativas haviam aumentado e precisava se preparar para o dia seguinte. Muitas coisas novas o aguardavam, e ele não aguardava por nenhuma delas. O inverno estava chegando e, junto com ele, uma temporada inteira de acontecimentos cativantes. Talvez, apenas talvez, bem no fundo de seu coração, ele sempre soubera dessa probabilidade quando decidiu retornar. E foram suas últimas palavras antes de dormir:
— Que tudo dê certo...
Fale com o autor