The Crooked Man REPOST
4 Strange Disorder
Notas iniciais
"O mal existe, mas nunca sem o bem, tal como a sombra existe, mas jamais sem luz."
— Alfred de Musset
Naquele mesmo dia, Marco teve que se esforçar para manter a cabeça no lugar enquanto caminhava de volta para as terras da mineradora. Já era fim de tarde e o céu já estava no seu ápice de tom alaranjado. Conforme encurtava a distância até a Casa Principal, o jovem pôde repensar em tudo aquilo que foi dito algumas horas antes no bar.
Apesar da enorme barulheira que os bêbados faziam com suas cantorias desafinadas e brigas sem sentido algum, o homem de capuz notou imediatamente quando a cadeira do outro lado da mesa foi puxada e alguém se sentou. Marco percebeu que o senhor à sua frente já estava com a idade avançada e, para não parecer ignorante, cogitou imbecilmente oferecer um pouco de sua cerveja para ele.
Dickson sabia que o garoto era novo ali, visto que ninguém que o conhecesse sequer pensaria em dividir a mesma mesa com ele. A maioria das pessoas naquela vila achavam que o lenhador era louco, e tinham motivos até de sobra para pensarem dessa maneira.
— Se não quiser virar o centro das atenções nos próximos dias, sugiro que procure outro lugar para se sentar, garoto — falou já voltando a olhar pela janela ao seu lado.
Marco deu um sorriso sem graça, seria difícil fazer amizade.
— Mal cheguei aqui, senhor, e o barman já não pareceu gostar de mim. Além do mais, toda essa algazarra aqui atrás me impede de ficar sossegado.
Não se teve certeza, porém, Dickson pareceu dar uma pequena risada seca sob o capuz.
— Ficar perto de mim não é nem de longe a melhor maneira de se conseguir sossego...
— Por que diz isso?
O lenhador finalmente desviou o olhar e encarou o rapaz que o observava de maneira confusa e cenho franzido. Num ato discreto, o mesmo cruzou as mãos por cima da mesa e suspirou.
— Apenas saiba que não sou muito bem visto pelos outros, o que pode gerar certa comoção. Percebi que você não é daqui, e enquanto ainda é jovem já lhe deixo avisado: pessoas são cruéis, em qualquer lugar do mundo, e aqui não é diferente.
Agora Dickson estava apenas esperando que ele se levantasse e saísse para fazer seja lá o que tivesse vindo fazer. Status são coisas importantes, principalmente para os ignorantes, e todos que o lenhador já tivesse conhecido até então eram ignorantes. No entanto, Marco era diferente. A prova disso é que ele riu. Isso mesmo, deu uma risada.
— Ora, senhor, nem mesmo moro por aqui. E se morasse, também não me importaria com o que os outros falam de mim. Tive uma boa educação na fazenda onde cresci, e não pretendo deixar esse ensinamentos de lado.
Naquele momento o senhor se encontrava um pouco atordoado. Não imaginava que alguém ao leste daquelas terras pudesse não ter sido corrompido pela massa social que se espalhava fortemente pela Europa naquele período. Já fazia muito tempo desde que conversava com alguém que não o olhasse como um louco, e ficou mais surpreso ainda quando lhe foi esticada a mão para que cumprimentasse.
— Prazer, Marco.
— Ah, sim, sim. Dickson, Larry Dickson — disse ao apertar sua mão com vigor.
Depois disso foram sucedidos alguns minutos de silêncio. O senhor alternava a visão entre a janela e a movimentação interna. Marco simplesmente bebia sua cerveja distraidamente. Ao seu término, o rapaz se espreguiçou um pouco e olhou para Dickson.
— Não vai beber?
Demorou um pouco até que o senhor reparasse que ele se referia a cerveja.
— Não bebo — respondeu.
Marco pensou que ele estivesse brincando, mas ao ver que o mesmo não se contrariou, ficou tão surpreso quanto ele alguns minutos atrás.
— E... por que está aqui?
— Porque é um dos poucos lugares que posso ter paz — então, com a cabeça baixa, sussurrou o seguinte: "pelo menos um dos poucos lugares seguros".
— Seguros? O que quer dizer com isso?
Dickson arregalou os olhos. Não esperava que ele escutasse essa última parte. Ficou muito contrariado a responder, pois se acanhou ao pensar que o rapaz também o julgasse precipitadamente. Assim como sua ex-esposa fez, assim como sua família fez, assim como todos fizeram.
— Garoto, — ele começara a falar num tom um pouco mais baixo, e o capuz começou a lhe dar uma impressão fantasmagórica — como eu já lhe disse, não sou o melhor exemplo de lucidez mas sei que sou um homem honesto. Se não acreditar no que vou te dizer, não o julgarei, mas peço que também me poupe de qualquer acusação.
Essas últimas falas despertaram uma curiosidade tremenda em Marco. Parecia até que todo o barulho à suas costas havia se cessado. Ambos se inclinaram um pouco para frente, tais como dois estrategistas criando uma conspiração.
— Pode ter total confiança em mim, senhor. Também sou um homem honesto e todas as minhas palavras foram verdadeiras. Conte-me, por favor, quaisquer que sejam os motivos de sua reputação. Não o julgarei, mas também lhe peço que não duvide da minha sanidade se eu acreditar no que diz.
Foi com essa frase que Dickson riu. Riu verdadeiramente, como não fazia há muito tempo. Porém, isso durou pouco, pois precisava se concentrar no que ia dizer, e risada não era a reação esperada para isso.
— Irá completar 31 anos desde que sou o lenhador desse vilarejo. Foi a profissão do meu avô, a do meu pai, e agora é a minha. Não sei se percebeu, mas tudo nesse lugar é feito de madeira, somos totais dependentes das árvores e não é apenas para respirar.
"Sempre tive boa reputação com todas as famílias daqui. Conhecido por todos, sabe? Os Glasgows, os Hathaways, os Jamersons, e tantos outros nomes que você possa imaginar. E tudo estava muito bom, como sempre foi. Até que chegaram aqueles malditos mineiros para trabalharem lá para os lados de Cringleford."
Nessa parte, Marco estremeceu. Apesar de tudo, nem abriu a boca.
— No começo, todos ficaram muito contentes com isso. Achavam que novos recursos seriam tragos para cá, inclusive eu pensei dessa forma.
— Bom, e o que deu errado?
Dickson suspirou.
— Acho que seria mais sensato perguntar o que não deu errado. Depois de algumas semanas desde que eles se instalaram coisas estranhas começaram a acontecer. Eu transitava diariamente para fora do vilarejo e frequentemente os ajudava com transporte de madeira e outros materiais pequenos, então pude notar certas coisas.
"Os mineradores estavam agitados, quase como se tivessem com medo de algo. Perto daquela região encontrei animais mortos, muitos deles sabem? Não parecia ser obra de lobos nem qualquer outro bicho. Eu suspeitava que eles estivessem fazendo algum tipo de ritual satânico ou devoção maligna, mas não era isso. Passado alguns dias, os vigias do portão de entrada começaram a desaparecer, simplesmente sumiram. Sem rastros ou qualquer pista, fui obrigado a suspeitar daqueles homens, mas continuei os ajudando sem que dissesse nada."
"Aqui estava muito tenso por conta desses desaparecimentos. Todos temiam que houvesse um assassino entre nós, muitos pais nem mesmo permitiam que suas crianças saíssem de casa. Não que eu seja um homem destemido, mas não costumo temer algo que não seja a ira de Deus. Continuei saindo normalmente, mas tudo começou a piorar. Alguns mineradores contraíram doenças gravíssimas repentinamente, e acidentes nas minas começaram a acontecer sem explicação."
Marco engoliu em seco, lembrando-se de seu pai.
— Certa noite, estava voltando para cá e senti alguém me observando. Eu não podia enxergar mas tinha certeza que estava lá. Estava entre as árvores, me encarando. Aumentei o meu passo, e logo comecei a correr. Isso me deu certeza que havia alguém ali, pois ele me seguia e as árvores e seus galhos eram empurrados violentamente. Não sei o que teria acontecido comigo se tivesse esperando mais alguns segundos antes de voltar, provavelmente nem estaria aqui hoje.
"Depois desse incidente, tomei coragem. Era hora de confrontar esses mineiros para descobrir o que estava acontecendo."
Ao falar disso, Dickson parou e começou a chorar silenciosamente.
— Foi... horrível — comentou com a voz embargada.
— O quê? O que aconteceu? — questionou Marco, que estava extremamente envolvido.
O lenhador enxugou os olhos e continuou.
— Foi uma chacina. Antes mesmo de chegar lá, eu já estava ouvindo gritos. Os que não morreram doentes ou em acidentes, simplesmente foram brutalmente assassinados. Um mar de sangue cobriu aquelas terras naquela noite. Eu estava chocado, sem conseguir me movimentar. Tive que me forçar a andar para checar se algum daqueles corpos ainda continham alma, mas eram apenas carne.
"Quando eu estava agachado, checando o pulso de um deles, ouvi um estalo. Havia uma casa onde eles passavam a noite e o som vinha de cima do telhado. Aquela casa era enorme, com dois andares, não fazia sentido haver alguém lá em cima; sem uma escada grande era praticamente impossível subir. Mas eu vi, eu vi."
— O que você viu?
— Aquela coisa. Se parecia com um homem, mas um homem não estaria vivo naquela posição. Não, não estaria...
Dickson estava voltando a ficar abalado. Ele falava mais consigo mesmo do que com Marco em si.
— Não entendo o que está querendo dizer. Que posição?
E o lenhador pareceu acordar. Olhou para Marco como se fosse a primeira vez que o visse.
— Você disse que não morava por aqui. Onde é sua casa?
Marco paralisou.
— Isso é importante?
Dickson se levantou abruptamente e retirou o capuz. Marco notou uma grande cicatriz em seu pescoço.
— Onde é sua casa? — gritou.
Todos pararam seus afazeres para concentrarem suas atenções nos dois, até mesmo os mais bêbados.
— Dickson, por favor... — Marco se levantou também, tentando acalma-lo.
O lenhador parecia completamente alterado. Com isso, o mesmo barman mal-encarado de antes saiu para buscar ajuda.
— Eu deveria saber, eu deveria saber! Você é um deles! Um dos mineiros! Me lembro de você, ainda era uma criança! Veio trazer mais desgraça? Sei que foram vocês! Sei que foram vocês quem libertaram aquilo!
Depois de muitos gritos, alguns guardas juntamente com o xerife vieram para levar o homem que esperneava. Os bêbados cochichavam entre si e muitos que estavam lá fora também vieram para ver o motivo da perturbação. Isso não iria ajudar em nada a má reputação de Dickson, e Marco sabia disso. Antes de todos os guardas saírem, o xerife, que era um homem alto e de cabelo ralo, apontou para o rapaz.
— Você vem comigo.
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