Notas iniciais
Mais um...

"Pedras no caminho? Eu guardo todas. Um dia vou construir um castelo."

— Nemo Nox

Marco, sob muitos olhares críticos, foi conduzido para fora do bar pelo xerife. Um amontoado de gente se encontrava do lado de fora, rodeando a entrada. Mulheres cochichavam entre si e alguns homens, curiosos como gatos, empurravam uns aos outros para poderem ter uma visão melhor do que estava acontecendo. Os guardas que levavam o lenhador já estavam numa distância considerável, mesmo assim ainda era possível ouvir os gritos: “Ele sabe, ele sabe!”. O xerife, alto e imponente, abria espaço com seus longos braços. Demorou um pouco até que a multidão começasse a se dispersar e pais persuadissem seus filhos a voltarem para casa ou seus afazeres comuns.

Andaram por uma trilha larga que percorria a vila, e logo se encontraram de frente para um prédio pequeno e achatado. Alguns cavalos estavam amarrados em estacas no lado direito, enquanto que no outro lado havia diversos barris e caixotes. Marco seguiu o xerife através de uma longa porta com mais de 2 metros de altura. A todo instante o rapaz se sentia desconfortável, era seu primeiro dia ali depois de muitos anos e já chamara a atenção de uma maneira tremendamente escandalosa. O xerife, por sua vez, parecia estar calmo e despreocupado, mesmo que seus passos fossem firmes e decididos. Alguns guardas que não foram até o bar e permaneceram na delegacia tiveram suas atenções desviadas para os dois homens que iam até uma porta nos fundos. Mesmo antes de o xerife abrir a bela porta de madeira bem cuidada, Marco já sabia que se tratava de seu escritório.

Era um lugar aconchegante e cheio de objetos e mobílias. Perto da parede havia uma mesa robusta com duas cadeiras, uma de cada lado. Nos dois cantos da parede, se encontravam estantes com decorações e variados artefatos que, apesar de serem inúteis, arrecadaram o sentimentalismo do xerife. Um tapete acinzentado cobria boa parte do chão, enquanto que na parede do lado de trás da grande mesa havia uma enorme arma que Marco nunca tivera visto. Ficou se perguntando se ela ainda funcionava até que, sem que percebesse, o xerife se sentou na cadeira de frente para ele, e pareceu ter feito um sinal para que o jovem se sentasse. Marco não esperou segundas ordens.

— Qual é o seu nome? – perguntou o xerife, se aconchegando melhor em sua cadeira e cruzando as mãos.

Marco pôde finalmente notar melhor sua aparência agora. O homem parecia ter uns cinquenta anos. Seu cabelo castanho, agora um pouco grisalho, era curto e estava escondido debaixo de um chapéu. Rugas acentuavam seu rosto logo abaixo dos olhos verdes e profundos. Seus lábios e nariz eram finos, mas ainda era possível notar certa severidade em seu semblante.

— Marco, senhor. Marco Sulligan – respondeu.

Decidiu não usar o sobrenome de seu pai por enquanto. Se o xerife soubesse de alguma coisa sobre os mineradores de antigamente, seria melhor que ocultasse qualquer relação que tivesse com seu pai. Teria, claro, sido bem mais astuto se tivesse utilizado desse mesmo conceito quando conversou com o lenhador Dickson, apesar de ter sido isso que o deixou verdadeiramente alerta.

— Marco... – disse o xerife, pegando um charuto de uma caixinha no bolso de sua camisa – não me lembro de tê-lo visto por aqui antes, suponho que seja novo no vilarejo?

— Sim, cheguei há alguns dias. – decidiu também, como podem ver, esconder o fato de que morava nas terras mais ao leste dali.

— Interessante! – exclamou o xerife, agora com o charuto na boca.

Um silêncio tenso se seguiu após isso. Marco não sabia se sustentava o olhar duro e pragmático do homem à sua frente, ou se tentava manter-se concentrado em alguma das muitas coisas na sala.

— Senhor, por favor, permita-me dizer que não tive intenção nenhuma em causar aquele alvoroço. Pensei estar tendo uma conversa civilizada com um dos trabalhadores da região, já que sou novo por aqui. E, na minha percepção, foi assim que se seguiu até que, de repente, ele surtou! Peço que não fique zangado comigo pelo que causei aqui hoje. – Marco falou tudo rapidamente, num tom sincero e límpido.

O silencioso xerife, após alguns segundos, retirou o chapéu e o charuto de sua boca. Deu um longo suspiro e voltou seu olhar para baixo.

— Era para eu me desculpar aqui, rapaz – olhou novamente para Marco, que agora estava um pouco atônito.

— Perdão?

— Não é agradável para ninguém que alguém fique envolvido em confusão logo em seus primeiros dias de estabelecimento. Por isso, peço desculpas em nome de cada um daqueles que aqui vivem! – falou o xerife, encarecidamente – Conheço Larry desde que éramos jovens, sei que é um bom homem. Mas também peço que entenda a delicadeza da situação. Faz anos, mas as memórias de um acontecimento terrível ainda impregnam sua mente. Por sua vez, agora peço desculpas em nome de meu amigo.

Marco estava pasmo. O xerife que exalava confiança e autoridade agora não parecia mais ser o mesmo. Surgira um senhor mais velho e cansado que antes, e Marco pôde ver dor em seus olhos.

— Não, por favor, não se desculpe! – apressou-se em dizer – Ele me alertou sobre a reputação que carrega por aqui, mas ainda assim, eu o pressionei para que interagisse melhor comigo.

O homem deu um sorrisinho, e seu olhar pareceu se perder em lembranças.

— Fico contente que pelo menos uma alma por aqui tenha disponibilizado uma atitude amigável para com ele. Discuti com Larry muitas vezes. Disse que seria melhor deixar todos esses murmúrios terríveis de lado; voltar à ativa, entende? – o xerife levantou o olhar — Muitas vezes também, embora em vão, tentei convencer a população em geral de que ele precisava de ajuda e apoio. Não me deram ouvidos.

— E o que foi que resultou todo esse transtorno na mente do pobre Larry, senhor? – questionou Marco. Estava mais curioso em saber se o relato do lenhador era verdade do que realmente preocupado com seu estado. Provavelmente se sentiu mal com isso mais tarde.

O xerife fechou o rosto.

— Não tenho certeza. Temo que as teorias e os rumores já se sobressaiam diante da verdade por agora. Não queria ter de lhe contar sobre essa história, Marco. Visto que ainda é jovem e algo assim pode vir a perturbar-lhe a mente. Talvez até mesmo fazer com que volte para onde veio. Contudo, acho que a verdade deve ser dita e não emitida, ainda mais em minha posição. Irei te contar!

“Sei que há muito tempo, uma mineradora veio para essas terras e se estabeleceram numa região perto daqui. Pareciam ser gente de bom coração, e o povo se alegrou com a notícia de sua estadia. Achávamos que seus trabalhos fossem nos beneficiar economicamente. Digo ‘achávamos’ pois também me incluo nisso. Na época, eu ainda não era xerife, porém, como guarda, fui o primeiro a ser avisado por Larry sobre uma terrível chacina que acontecera há pouco. Ele era chegado deles, sabe? Dos mineiros. Chamei rapidamente os outros guardas para que partissem conosco, e Larry foi liderando o caminho. Estava escuro e a todo instante ele dizia alguma coisa sobre um monstro terrível, mas quando chegamos lá, só encontramos corpos e sangue. Não havia sinais de mais ninguém.

Juro que foi a coisa mais horrenda que já vi, rapaz. Não imagino como um homem pudesse realizar tal coisa sem que ficasse com nojo de si mesmo. Fizemos investigações por toda a área em volta, cerca de 170 metros, na esperança que encontrássemos o assassino. Nada. Não encontramos nada. Larry continuou sustentando a ideia de um monstro, jurava por tudo que mais amava ter visto uma criatura no telhado da casa onde os mineradores passavam as noites. Obviamente, o fato de não termos achado nenhuma evidência colaborou para que, com o tempo, a suspeita do crime caísse sobre ele. Alguns colegas meus queriam prende-lo, falavam que tinha ficado louco e por isso cometeu os assassinatos. Diziam também que as coisas que falava sobre a existência de um monstro comprovavam seu estado mental insano. Fui contra a ideia de prendê-lo, mesmo que também achasse as coisas que dizia infundadas.

Não demorou para que as suspeitas dele ser o assassino se espalhassem. As pessoas vêm aquilo que querem, e precisavam culpar alguém para se sentissem seguras. Felizmente, também não houve provas de que foi ele o assassino. Pelo contrário aliás, seu machado estava intacto e limpo, sem falar que os ferimentos nos corpos pareciam obra de canibalismo. Larry não foi preso, no entanto, precisa conviver agora com os olhares pesados de todos que estão a sua volta. Deixou de ser alguém querido, para se tornar alguém temido. Tudo isso por estar no lugar errado e na hora errada.”

— Pobre homem... – sussurrou Marco – eu nem imaginava. O que será dele agora?

— Creio que a única opção restante seja mantê-lo aqui comigo, na delegacia. Não irei prendê-lo! – acrescentou ao ver o olhar de Marco – Apenas o manterei afastado das outras pessoas. Acredito que tenha atraído atenção demais dessa vez.

Marco se sentiu péssimo ao ouvir essas palavras. Não era estúpido a ponto de ficar se culpando, mas gostaria de ter feito as coisas de maneira diferente.

— Céus, uma pena, uma pena – suspirou Marco se recostando na cadeira, só então percebendo o quanto estivera tenso – e não há ninguém que acredite no coitado...

— Ah, eu acredito. – disse o xerife, ao ouvir as palavras quase inaudíveis saírem da boca do rapaz.

— O quê? – Marco se sobressaltou – Mas o senhor disse que achava o que ele dizia ser infundado.

— E achava, realmente – confirmou – até que eu pude vê-lo.

Marco voltou a ficar tenso, e, se inclinando para frente, perguntou:

— Como assim vê-lo?

O xerife voltou a fumar seu charuto. Olhou para Marco como pudesse ver através dele, observando a porta logo atrás.

— Eu vi o monstro. O mesmo monstro que Larry disse ter visto. O mesmo que matou os mineiros, e também o seu pai, meu rapaz.

Notas finais
s2
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.