Notas iniciais
Dando continuação, na espera dos capítulos que trarão o terror à tona...

"Não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço com o que fizeram de mim."

— Jean-Paul Sartre

De manhã o mau agouro da noite havia se dissipado em partes, dando mais espaço para a nostalgia. Marco estava encostado no batente da porta de entrada da Casa Principal, olhando para fora e ponderando sobre os acontecimentos dali desde sua partida quando criança. Devo dizer que esse se tornou um hábito muito comum para ele, principalmente por gostar de devanear sobre as terras além daquelas florestas densas que cobriam toda a sua visão além das minas. Momentaneamente leves brisas surgiam como se sua única função existencial fosse movimentar seu cabelo negro enquanto Marco alternava distraidamente seu olhar entre as árvores e o vasto céu de tom pálido.

Apesar do cansaço adquirido pela viagem turbulenta e do tempo frio, o rapaz não dormiu bem. Em intervalos de longos minutos ele acordava assustado, como se alguém estivesse remexendo em seu corpo ou respirando próximo ao seu rosto; teve até algumas vezes que ele se levantou para checar o quarto. Como quase tudo na casa era de madeira não é de se estranhar que a escuridão se propagasse muito facilmente lá dentro, mas, ainda assim, Marco não tinha certeza se aquela escuridão era normal. Parecia que o ambiente não gostava de iluminação e nem mesmo os poucos feixes de luz da lua eram tinham a permissão de ultrapassagem. É claro que isso podia ser muito bem coisa de sua mente sobrecarregada, porém, vai de cada um o dom da interpretação.

O ponto alto daquele dia, positivamente, foi sua ida ao vilarejo mais próximo. Na verdade, "mais próximo" seria um eufemismo considerando que a distância que Marco teve de percorrer foi consideravelmente angustiante. No caminho para lá não se via mais os esquilos correndo nem os coelhos saltitantes da noite anterior.

— Claro, o inverno está se aproximando... — sussurrou para si mesmo com as mãos no bolso e a cabeça baixa — eu também deveria me preparar.

As árvores dos dois lados da trilha davam a impressão de estarem conversando entre si. Pelo menos dessa vez era possível ver o céu entre os galhos e as folhas, sem falar que o vento perdera suas forças. E foi com muita surpresa que Marco notou que essa natureza melancólica era completamente substituída por uma mais vívida e alegre conforme se aproximava dos lados de Surlingham. Lá as plantas tinham mais cores, e outros pássaros além dos corvos voavam por ali. Acelerou o passo com ansiedade até que pudesse enxergar um longo portão aberto no meio de um imenso muro composto por toras muito compridas que mais pareciam estacas gigantes de tão afiadas. Ainda do lado de fora desse portão se encontravam algumas carruagens, cavalos, e pessoas conversando. Mulheres com grandes cestos catavam o máximo de frutas possíveis nas árvores baixas e outras recolhiam ervas do chão a alguns metros de distância.

Marco adentrou o lugar aparentando estar completamente encantado. Bom, talvez você possa achar que isso é um exagero, mas pense bem: suponhamos que você tenha crescido com seus pais em terras rurais perto de minas e escavações para logo depois mudar este cenário para uma enorme fazenda a horas e horas de distância que também não é melhor exemplo de boa socialização. Aquela era definitivamente a primeira vez que ele pisava num vilarejo por conta própria. Existiram algumas visitas às vilas dos sul do país com o velho Royce quando este saía para tratar de negócios e estava com bom humor a ponto de levar o garoto — talvez porque na época ele ainda não fosse tão velho e nem tão rabugento.

"Engraçado como já sinto saudades dele!" — foi a conclusão da vez.

Mais engraçado ainda era que Marco não sabia o que fazer. Fora até ali para comprar suprimentos com o dinheiro que ainda tinha, no entanto, logo precisaria de mais e a necessidade de arrumar um emprego aumentava drasticamente. Onde é que ele conseguiria um emprego, ainda mais naquela época do ano em que as pessoas passariam quase todas as horas do dia em seus lares próximas às lareiras? Foi nesse nível de preocupação que se encontrava quando alguém, ou melhor, uma moça esbarrou em seu braço.

— Ai, meu Deus! Mil perdões, senhor! — exclamou a jovem, ofegante e um pouco assustada.

Marco nada respondeu; estivera tão enrustido em seus próprios pensamentos que ficou muito abalado ao ser abruptamente interrompido por uma estranha. A moça nem deu tempo dele se recuperar que já havia voltado a correr seja lá para onde enquanto levantava a saia e mantinha uma expressão mista de susto e desconforto. Ele a acompanhou com o olhar até que sumisse de sua vista após passar por algumas casas. Virou-se e deparou-se com grande movimento por todos os lados: o padeiro anunciava seus pães e bolos; alguém estava prestes a ser executado em praça pública numa guilhotina; madames de idade avançada andavam com superioridade; crianças corriam brincando, e pessoas circulavam rumo ao seus destinos.

Por algum lugar ele deveria começar, portanto começou a andar entre aquele aglomerado de pessoas até se deparar com o primeiro edifício à sua frente. Pela placa aquilo era uma taverna, e parecia haver bastante pessoas lá dentro também. Atravessou as portinhas de madeira enquanto empurrava alguns bêbados para o lado para que pudesse passar. Durante todo o seu trajeto, da entrada do vilarejo até aquele estabelecimento, Marco recebeu vários olhares de desaprovação, olhares esses que apenas ele ainda não notara. Não pense que é porque o rapaz era diferente ou usava roupas incomuns, longe disso. Naturalmente ele seria apenas mais um no meio de muitos, se não fosse por uma coisa que ele mesmo também não sabia: as pessoas de lá sabiam de onde ele vinha. E isso não era motivo algum para agrado ou felicitação de outros — ou quaisquer — indivíduos que soubessem a história por trás daquelas terras.

Inocentemente, o rapaz apenas abriu caminho rumo ao bar onde pediu pela cerveja mais barata. O barman, careca e com um grande e volumoso bigode castanho, lançou-lhe um olhar profundo de acusação antes de lhe entregar o pedido um pouco contrariado. Nisso tudo, Marco não deixou de pensar que ele fosse só um mal educado. Sem querer sentar de frente ao homem, ele procurou com os olhos algum lugar onde pudesse sentar-se. Achou uma mesa em um canto, ocupada apenas por um senhor encapuzado que olhava morbidamente para a janela do lado esquerdo de onde estava sentado. Pensou que fosse melhor deixa-lo sozinho, mas alguns bêbados começaram a brigar violentamente uns com os outros e Marco quase deixou que a cerveja caísse. Sem opções, foi até lá com passos largos e sentou-se em uma das cadeiras.