Notas iniciais
Olaaar!

Nos três primeiros dias do mês, todas as terras estremeceram com a raiva do deus do fogo, os vulcões ficaram ativos, a humanidade se apavorou. Depois do quarto e quinto dias, tudo apenas estremecia, e o deus se reclusou em seus aposentos, na escuridão, amargurado e rancoroso.

Nenhuma flor nasceu ou continuou viva nesses dias, a água estava sempre fervendo, e os animais morriam nos pastos ou se tornavam indomáveis nas florestas. A terra ficou árida e as chuvas do começo de ano, não vieram.

A partir do oitavo dia, os deuses presentes na terra do fogo, se mobilizaram, e saíram ao longo do reino, procurando o rastro das ágeis kitsunes que continuavam cruzando o país.

Quando se espalhou o boato de que a noiva fora transformada em raposa, muitos saíram em busca dela para obter recompensas ou tentar aplacar o deus, mas muitos também só queriam atiça-lo.

Shikamaru sobrevoava os campos de arroz, atento a qualquer movimento, sentado num jovem dragão.

Logo Kurama, em sua gigantesca forma juntou-se a ele.

— Nada?

— Nem sinal. Seria mais fácil se aquela mulher maldita desfizesse seu feitiço!

— Não há como saber se a maldição pode ser quebrada, Sasuke jogou uma contra maldição mas não estava muito confiante de que daria certo.

— Se não for desfeita...

— A ele só importará a destruição. É um deus primordial, não apenas criar é seu dom, destruir também. Então se até o dia onze isso não puder mesmo ser revertido, eu temo o que ele fará desta pobre terra.

— A terra sofre com ele...

— Sim, sofre. Assim como adorava aquela humana e nem Sasuke percebia isso.

— Huh?

Shikamaru nada mais disse, apenas recordando como todos os animais tinham apego para com Sakura. Os pássaros queriam cantar e fazer ninhos perto dela, cães e gatos a seguiam por aí, nada nunca foi agressivo ou agiu por instinto em sua presença tal como houve com a segunda noiva, que pereceu a pisar sem querer na cauda de uma serpente venenosa.

Com Sakura não, todas as criaturas eram hipnotizadas por sua presença, e elas eram uma parte ínfima da alma do Kagutsuchi.

Você não precisava pensar muito para entender o que significava, desde que ligasse esses pontos.

E então assim como ele sofria e se irava sem sua noiva, a terra também. E tal como as criações a adoravam, ele também.

Kurama separou-se, seguindo para leste. Shikamaru olhou em volta mais uma vez porém não via sinal de Karin-gami e desconfiava que ela já houvesse desistido e retornado ao palácio para tentar consolar Sasuke, outra vez.

Este estava recluso, não aceitava a presença de ninguém por perto, e sua aura era aterradora e sombria, dava para sentir no ar mesmo de tão longe.

Isto era ser um deus do patamar dele.

Um imenso poder de transmutar e desfazer a realidade.

¤

Quando as portas do aposento se abriram, o ar abafado e pesado, quase queimou a pele da face de Karin como se estivesse olhando dentro de uma panela de água fervente.

A presença esmagadora do deus também fez seu coração e coragem praticamente encolherem dentro de si mas ela entrou mesmo assim.

Andou alguns passos, o aposento estava em quase total escuridão, havia apenas um incenso aceso próximo a cama, uma diminuta ponta incandescente. Toda a luz que havia além, eram os olhos de tons diferentes que se abriram para encara-la.

Karin estremeceu e se abaixou, reverenciando, quase não obteve forças para se erguer.

— Kagutsuchi-sama, eu... Eu venho do oeste, explorei as terras quase além da fronteira, mas nada, não encontrei sinal algum das raposas ou a... a...

— Não pedi a ninguém... que a caçasse.

Ela negou veemente.

— Não estamos caçando! Mas procurando, o prazo que o senhor deu...

— Eu sei exatamente o que disse. Se ela não voltar para mim, até o décimo primeiro dia do mês... Tudo será cinzas e lava.

— Sim... Então...?

— Buscá-la não adianta, se ela própria não quebrar o feitiço daquela mulher... Eu engolirei tudo até encontrá-la na próxima vida, e se eu não encontrar sua alma, eu engolirei todo o universo...- Ele afirmou, com naturalidade fria e cruel. Seu olhos voltaram-se para o incenso que queimou imediatamente, reduzindo-se a cinzas. — Até que tudo se torne exatamente o que sou agora... Vazio.

Karin ficou apenas parada, absorvendo cada frase, retumbando no fundo de seu peito, como uma gota que cai num poço profundo. Depois de milênios ela finalmente absorvera a verdade.

Ela caiu como uma mera gota que ela achou que jamais modificaria seu conteúdo a ponto de fazê-la desistir de vez.

Mas lá estava, ainda reverberando em sua superfície e se misturando a todo o conteúdo.

— Nem a procurando vão encontrá-la. – Sasuke acrescentou, enfadado. — Não será vista ou tocada por ninguém até que retorne... ou não. Eu não quero nenhum olhar sobre ela enquanto não puder pousar os meus...

Karin assentiu, afastando-se até chegar a porta, saiu, apressando-se e passando pelos servos ansiosos e assustados.

Tinha que avisar Shikamaru, quem sabe Sasuke ou recorrer a Amaterasu.

Ou Kagutsuchi engoliria tudo por causa de uma simples alma humana.

¤

Havia algo de diferente, nela, dentro de seu ser, lá em seu âmago.

A kitsune branca parou perto das águas cristalinas de um rio, enquanto bebia água, sua mente vagava facilmente entre um estado de semiconsciência e puro instinto animal.

Ela era diferente, mas estava em seu lugar...?

Bem, não parecia haver lugar melhor para estar, estava cercada daqueles de sua espécie, e eles a incluíam calorosamente, caçando para ela que era desajeitada demais com seu pelo chamativo ou oferecendo as frutinhas que conseguiam alcançar nas moitas.

A kitsune branca certamente adorava o calor que compartilhavam quando paravam para dormir sob a luz do luar e das estrelas, assim como a lua acompanhada destes pequenos astros ela se sentia acompanhada por suas companheiras de pelo laranja e vermelho.

Então por que algo, bem no fundo de seu ser continuava com frio? Era como se de todo o calor que encontrasse e buscasse, nunca encontrasse o correto.

Então ela necessitava continuar a correr pelas planícies e montanhas mesmo quando a terra tremia e gemia sob suas patas.

A kitsune se sentou, saciada, e pôs a olhar através do rio, era um braço de água fresca e muito caudaloso. E do outro lado havia o início de uma terra que a eles não pertencia.

O gramado do outro lado era mais clara, as árvores tinham um verde mais vivo e tudo lá parecia repleto de muito frescor. Ainda assim, a kitsune sabia que nada que não estivesse sobre a terra a seus pés poderia alegra-la.

Mas a entristecia não saber como chegar ao lugar certo.

O que está faltando?

Por que não se recordava?

Por que parecia nunca estar aquecida o bastante?

Será que seu pelo não era o suficiente, ela investigou.

Chateada, deitou-se no gramado escuro e olhou para a água rasa naquele ponto, onde podia assistir os peixinhos nadando bem perto.

A kitsune arqueou as orelhas, intrigada. Por que os peixinhos estavam tão perto? Queriam ser devorados?

Um deles saltou fora por um instante, e ela se ergueu, aquilo foi engraçado. Saltou na água, suas quatro patas se encharcaram e a kitsune branca tentou avidamente acertar os peixes com elas, foi como entrar num duelo. Os peixes revidaram saltando ao seu redor, espirrando água em seu pelo e mordicando os pelos de sua pata.

Mas era divertido, ela regougou alto e empolgadamente.

Rolou na água e se molhou inteira.

“— O banho não é quente o suficiente...”

Eh?

A kitsune paralisou, atenta e assustada, procurando aquela voz ao redor e vendo que ela ecoava no fundo de sua mente, ainda uma frase incompleta.

“— Sakura...”

Eh?

A kitsune caiu sentada sobre as patas traseiras, e sua mente se despedaçou por um momento como se lutasse pra sair da forma em que estava e se encaixar da maneira original.

Então esta não era ela...?

Onde estava?

O que era?

— Tem certeza que não sabe? Pobre criança...

A kitsune de empertigou, uma certeza absoluta que tinha, era de que nunca havia ouvido aquela voz antes.

Era melodiosa e ao mesmo tempo traiçoeira, parecia brincar com sua mente e cutucar algo lá no fundo, como se a provocasse.

— Olhe para a água, querida, a água mostra a verdade... E o fogo, ele ajuda a moldá-la...

Moldar... Quem?

“— Se o seu maior desejo é amar a criação do deus, então apenas se torne uma delas.”

Oh, essa voz fria, esta ela reconhecia, por que estava mentindo?

E por que ela sabia que estava mentindo?

Ela amava... Amava a criação do deus...

Deus... Ele... Ela amava.

Amava?

Amava.

Mas ela criou uma mentira para esconder isso até de si mesma.

Mas quem era ela?

— Olhe para a água, querida, a água mostra a verdade, o fogo lhe dará forma.

Verdade...

Ah, a mentira, não era totalmente mentira.

Ela amava sim a criação do deus, absolutamente já amava.

O seu maior desejo então, nunca foi este...

Seu maior desejo, era amar o deus.

— Olhe para a água...

E ela era... Ela era aquela que a água agora refletia, não uma kitsune branca, mas uma mulher envolta em pele de raposa, com um colar que brilhava como lava incandescente em seu colo, os cabelos rosados e longos, olhos verdes...

Era quem ela era... Quem ela foi?

“— Sakura...?”

Aaaah, sua voz ecoou na alma dela outra vez, desta vez sofrida e dolorida.

Ela o fizera sofrer? Ela o magoara quando se afastou velozmente sobre suas patas brancas e ágeis, ela o deixou para trás e talvez não houvesse como voltar?

“— Retorne a mim, se assim desejar,

Retorne a mim quando a si enxergar,

Retorne a mim, Sakura...”

Foi o pequeno sortilégio, numa língua que existiu antes da maioria dos deuses e do mundo tivessem existido até agora, que Sasuke soprou na flecha que se tornara o colar em seu pescoço.

A kitsune branca ainda não tinha certeza de muitas coisas, talvez tivesse sido apenas um sonho doce ou uma ilusão.

Mas ao menos se não estivesse completamente certa, ela sabia que a parte que a fazia querer correr um caminho diferente das outras era real, pois algo a dizia, e esta voz vinha dela mesma, que ela encontraria o único lugar em que se sentiria plenamente aquecida, se continuasse seguindo este caminho.

E isto bastava.

¤

Na manhã do décimo primeiro dia do mês, os céus ficaram praticamente escuros em plena luz do dia somente com a fumaça negra que saía do cume do vulcão, a terra tremeu em intervalos ainda mais curtos, e as águas termais ferviam se tornando tóxicas.

Karin correu para o jardim, uma ventania quente e ao mesmo tempo sufocante fazia os empregados passarem mal e ela viu as costas amplas do deus enquanto ele caminhava na direção do vulcão. Suas vestes eram sacudidas pela ventania assim como os cabelos escuros e muito longos.

— Kagutsuchi-sama!

Ele a fitou por sobre o ombro, sombrio e pálido e ergueu a mão na direção da montanha, onde os primeiros espirros de lava começaram a ser cuspidos marcando a rocha por onde a lava começou a descer.

E então, seu corpo inteiro se inflamou, tornando-o uma criatura solitária feita de puro fogo.

— Sasuke! Pense direito, estará entrando em conflito com todos os deuses! – Shikamaru gritou, aproximando-se.

Mas recuou quando o chão se abriu a sua frente e a lava subiu.

— Deixe que venham...- Sasuke murmurou. — Ao menos uma única vez, terão motivo para me odiar de verdade.

Shikamaru se ergueu, sabendo que o jeito era sair dali e buscar refúgio nos palácios mais altos onde certamente os deuses logo se reuniriam para pensar em como devolver aquela insanidade.

De qualquer forma, nada seria mais o mesmo se assim continuasse...

De repente, ele viu uma mancha branca vir através da campina, em direção a Sasuke, por um momento achou que já fosse o ataque de algum deus mas a mancha saltou do solo a poucos metros de Sasuke. E de repente jogou-se sobre ele, um cálido corpo feminino envolto numa longa pele de animal.

Ela o abraçou carinhosamente, sentiu o calor que vinha de seu corpo infiltrando através das ricas vestes e sua mente desanuviou por completo, enfim.

Estava certa, e achara seu lugar, seu calor, seu verdadeiro desejo.

— Aaah, estou feliz. Encontrei esse calor. – Proferiu, carinhosamente e então, cansada depois de tanto correr, desmaiou.

Sasuke a segurou, as chamas que o envolviam desapareceram, e abaixando-se, a envolveu-a na pele, ela ainda tinha orelhas, cauda e garras de raposa, mas realmente a maldição regredira. E estava de volta a seu embalo.

Kagutsuchi beijou sua testa, finalmente apaziguado, o vulcão adormeceu, ás aguas esfriaram e voltaram a ser iluminados pelo sol e pelas três noivas no alto da abóboda celeste.

O solo se fechou aonde brotou lava, o gramado e as flores reviveram e o ar voltou a ficar puro e frio como de costume.

Quando ele pôs os pés dentro do palácio, com sua adorada nos braços, até as paredes que racharam por conta dos terremotos se restauraram e assim que a depositou na cama, o reino do fogo e todo o universo voltou a ser o que sempre deveria ter sido e o que continuaria sendo.

Ao menos enquanto tivesse Sakura consigo.

¤

— E você ameaçou todos?! – Sakura exclamou, horrorizada.

Sasuke fechou a cara numa expressão aborrecida como a de um menino mimado, enquanto deitado com a cabeça apoiada em seu colo.

Sakura ainda se sentia um pouco tonta, mas agora não achava que fosse por conta da metamorfose que passou e sim por toda a confusão que foi causada diante isso.

Céus, as pessoas deveriam ter ficado muito assustadas e os outros deuses...? Não podia crer que Sasuke praticamente esteve a ponto de causar um tipo de apocalipse por sua causa.

Sempre o julgara tão plácido e cabeça no lugar.

Porém, acabou recordando de quando chegou ao reino do fogo, e descobriu que só fora parar ali por um engano causado pela rixa entre ele e um irmão. Por que Sasuke não tolerava ser subestimado.

Os deuses eram realmente reflexo dos humanos, ou tão próximos deles quanto aceitavam comparar, dotados de personalidades distintas, qualidades e defeitos.

Eram mais perfeitos e poderosos em tudo mesmo, superiores talvez até na sua malícia, sua inveja e ciúme, assim como seu orgulho...

Sakura olhou ao redor, no campo coberto de flores onde descansavam, viu os pássaros transitando no céu, a brisa fria sacudindo os galhos das árvores, mesmo os habitantes que trabalhavam nas pequenas lavouras, Sasuke estava disposto a acabar com todos eles somente por ela?

Não, isto não era certo, não era justo, nem com esse paraíso que ele carinhosa e meticulosamente criara, nem com as pessoas que nele vieram viver, almejando a proteção e cuidado deste deus.

— Não quero que faça algo assim...

Sasuke suspirou, apenas cruzando os braços.

— Já passou. – Reclamou. — Então não tem que se preocupar.

— É claro que me preocupo! Este mundo, tudo o que existe dentro e fora dele, você não tem o direito de desfazer!

— Não apenas tenho como posso...

— Não tem e não fará! E fará isso por mim! Fará isso por todos nós! Vai prometer isso!

Sasuke se virou, de estomago para cima, a fitou, curioso.

— Por que se importa tanto? Esta terra, até os seres vivos, não é como se não pudesse refazer da forma que quisesse ou quantas vezes...

— Mas não fez! – Sakura o cortou, as bochechas rubras e olhos brilhantes de força. — E sabe por que! Você não é volúvel, não se entedia tão fácil, esse poder.... Você não usa para coisas egoístas! Criou esse lugar para você, é verdade, mas também se não quisesse dividi-lo com qualquer um, jamais teria permitido que fosse habitado por algo além de suas criações! – Sasuke estreitou os olhos, sentando-se e encarando-a, Sakura puxou mais um bocado de ar, não pararia agora que havia começado. — Mas você permitiu, senhor, e agora essa linda terra é o lar de tantas pessoas, e você é responsável por elas. Elas vieram por que tinham fé... Que Kagutsuchi-sama era muito mais do que diziam de ruim, que seria um bom deus e um bom governante. Por favor, não os deixe pensar que se enganaram por tão pouco, não por mim, ou irei também pensar que a pessoa com quem me casei não é tão maravilhosa quanto acho que é.

— É isto?

Ela findou o ar e a coragem, assentiu, virando o rosto.

— É... É sim! Sim, senhor...

— Hm...- Sasuke coçou o queixo com a ponta da afiada unha, seu cabelo longo e liso escorria pelo rosto másculo e Sakura voltou a resolução de que era impossível ele não ser maravilhoso.

— E pensar que gritou comigo mesmo quando só fiquei furioso e magoado por sua falta...- Ele suspirou, e Sakura se sentiu um monstro.

— E-eu não quis dizer que não me importava! – Declarou.

Sasuke ainda parecia magoado, e então seu sorriso se abriu ladino e travesso e ele puxou seu rosto, selando um beijo.

— Sasuke! – Ela ralhou, ainda zonza com a mudança de clima ao que ele a deitou na grama, beijando seu pescoço e orelha.

— Então minha bela rainha das flores mostrará seus espinhos mesmo para mim quando necessário...? – Ronronou guturalmente. — Interessante e excitante.

— Não desvie o assunto!

— Não estou. Me satisfaz que fale diante de mim, é melhor que se falasse ás minhas costas, que fosse alguém que eu não conheça de verdade...

Sakura sabia a quem ele se referia, e suspirou, com pesar por ele, por que por si mesma, ainda sentia um pouco de raiva e ciúmes.

Sasuke afagou sua bochecha, inspirando.

— Está certa, fui egoísta em ameaçar a felicidade daqueles que dependem de mim por minha própria desilusão... E é a segunda vez que falho desta forma... Então obrigado, posso prometer aqui e agora que nada mais será ameaçado quando eu me sentir frustrado, isto são gestos de arrogância e desdém que nenhum deus tem o direito de ofertar. Obrigado por me recordar disto.

Sakura assentiu, aliviada.

— Agora, talvez eu apenas... faça a lava subir aqui e ali, ao menos para saberem quando estou mau humorado, principalmente minha esposa.

— Nem pensar! Nada de lava! Dialogar é melhor! Muito melhor!

— Melhor?

— Sim! É o que as pessoas fazem para manter as boas relações!

— Os casais também, eu presumo...

— Claro!

Sasuke sacudiu a cabeça, negando, beijou o maxilar dela até a orelha.

— Sendo assim, prefiro brigar, fazer a lava emergir... E beijar você inteira sempre que tivermos algo a tratar....

Sakura gemeu, desistindo, ele era muito esquivo quando queria e sabia como tirá-la do foco.

Mas bom, talvez ela pudesse admitir um pouco de lava aqui e ali, afinal estava casada com o deus do fogo, e certamente que não poderia se incomodar com discutir com beijos.

Amava e aceitava a natureza do seu senhor Kagutsuchi.

¤

Sakura tinha agora uma missão, era uma prova de respeito e consideração que ela decidiu que deveria ter para com todos aqueles que foram afetados por seu sumiço.

Independente de ser culpa dela ou não, ser um pivô dos últimos eventos era fato, e não podia usar de sua posição para fingir que nada aconteceu.

Ela ainda compreendia bem a sua posição, era o ser mais simplório do reino, mortal, de vida curta e sem qualquer qualidade que realmente a destacasse ou desse autossuficiência.

Era natural que relevassem os atos de Sasuke, pois deveriam conhecer sua natureza já a muito mais tempo que ela. E não era como se os deuses fossem normalmente questionados por seus atos diretamente.

Mas ela não era como Sasuke, e não achava sentido esconder-se atrás dele e de certa forma, o por em conflito contra seu próprio povo.

Sakura saiu bem cedo pela manhã, a parte mais difícil foi não chamar tanto a atenção de Sasuke, pois não queria que ele a impedisse, que se irritasse ou que se sentisse mal.

Ela não estava se humilhando, estava apenas pedindo desculpas por causar um alvoroço feio. E sabia que era comparada ás outras noivas, não era como se quisesse superá-las, mas tampouco, ficar devendo ante quem elas foram.

Sakura pegou uma carruagem e foi de ponto em ponto, nos locais mais movimentados, se curvou e em alto e bom som (essa foi a parte mais complicada pois não era boa em discursos) desculpou-se pelos dias de aflição passados, ainda mais por ser numa época de comemorações, e tomou para si a responsabilidade por qualquer estrago.

Houve bastante estranheza da parte deles, inicialmente, mas ela sentiu que haviam entendido seu lado e foram cordiais, ninguém parecia realmente zangado com ela ou Sasuke, mas ficaram aliviados de ver com seus próprios olhos que ela estava bem e que por isso o reino seguiria em sua habitual placidez.

Sakura ficou apenas mais culpada com tudo isso, mas também aliviada de não ter sofrido nenhuma hostilidade, confessava.

A ainda passou por parte da área rural, visitando as lavouras até o fim do dia. Ainda não era como se tivesse pedido desculpas a todos no reino, mas Togame disse que seria o bastante, os boatos correriam com o vento e logo todos saberiam.

Retornaram ao palácio já pela noite, como Sasuke havia saído para algum lugar junto de Shikamaru, ela fixou aliviada de que não lidaria com ele sabendo do que fizera tão cedo, ao menos.

Tomou um banho rápido e se vestiu num rico traje, talvez até um pouco exagerado para um jantar normal. Era um vestido rosa pálido, com um robe longo e cintilante da mesma cor, mangas longas que arrastavam no chão partidas ao meio dos pulsos em diante, de forma que ela poderia expor as mãos, uma faixa lilás escuro envolveu sua cintura e Sakura usou o cabelo totalmente soltou com apenas alguns grampos de pedrarias nele, além de flores de lavanda.

Usou brincos de ametista e uma gargantilha dourada, além de um lindo hagoromo feito pelas próprias tennyos. Elas o deram como presente da casamento, inclusive.

Ela não poderia voar com ele, mas certamente deveria ser mágico, era fino e translucido, longo, era capaz de fazer qualquer mulher se sentir a mais bela de todas, mesmo se vestisse um saco de batatas ou somente ele, talvez aí estivesse a magia dele.

Quando estava finalmente pronta, seguiu direto para o aposento de refeições particular de Sasuke, ele era anexo a um dos quartos que ele usava e Sakura ficou enervada com isso.

Geralmente jantavam no salão principal, seja na companhia apenas um do outro, ou na dos seus habituais hóspedes, Kurama e Shikamaru, ou mesmo Kakashi, o sacerdote Sarutobi, ou alguma visita de última hora.

Mas ali, saberia que seriam só ela e seu senhor, que não vira o dia todo, e depois do que aprontou sem seu conhecimento.

Abaixou-se sobre os joelhos no tatame diante da porta e por fim bateu.

— Sim?

— Meu senhor, posso acompanhá-lo para a refeição desta noite?

— Ah... Claro.

Sakura abriu a porta, ansiosa, se ergueu e entrou, Sasuke estava deitado entre as almofadas, com seu longo cabelo negro, fumava preguiçosamente num kiseru* de dourado, com apenas um guinomi por perto, a comida ainda não havia chego.

Sakura sorriu, contidamente e fez menção de se sentar.

— Que belo traje...- Ele disse, olhando-a com apreciação e admiração.

— Oh... Obrigada.

— Achei que teríamos uma festa?

— Uh... Sim...?

— Não que eu esteja incomodado de não haver uma. Estou satisfeito com o que temos para hoje.

— Entendo.

— Você certamente é o bastante para me entreter, não acha?

A pergunta a pegou desprevenida, não sabia bem o que ele queria dizer, estava ainda mais enigmático que o costumeiro.

— Uh... Sim...? Espero conseguir então...?

— Mesmo? – Sasuke pareceu empolgado.

— Sim...?

— Então poderia tocar algo, pra começar? Estava mesmo querendo ver o quanto você progrediu nas aulas.

Sakura sentiu que engolira uma pedra, o som dela arranhando sua garganta ao descer deveria ter sido audível.

— Too-tocar?

— Sim. – Sasuke indicou o instrumento repousado a poucos metros deles. — Tem feito as aulas, sim?

— Si-sim... Togame-san é bastante rígida.

— Sei bem, e muito leal, confio muito nela, mas então, pode tocar um pouco antes do jantar? Será ótimo para abrir o apetite.

O de quem?! O estomago dela era uma bolinha de gude agora.

Sakura andou até o koto* e se abaixou, as paletas estavam lá, e o instrumento muito bem afinado.

Sabia que uma hora teria de fazer isso, mas achou que estaria mais segura.

Inspirou profundamente, fitando as linhas antes de iniciar a melodia na própria mente e então tentar repeti-la fora dela.

Sasuke observou-a, atento e satisfeito, Sakura procurou ignorar sua imagem e tudo que ela a causava, antes que seus dedos suassem demais.

Ela estava consciente dos pequenos erros também, e tentou não parar por causa deles. Em seu atual nível de aprendizado, ainda não havia tocado uma música inteira sem errar alguma nota e sempre parava onde errou e iniciava outra vez.

Quando finalizou, suspirou profundamente aliviada.

Sasuke bateu palmas lentamente, e embora parecesse satisfeito, ela meio que esperava mais energia. Talvez só estivesse sendo mimada.

— Encantador. – Ele disse.

Sakura curvou-se ligeiramente, grata.

— Obrigada, mas sei que ainda me falta muita prática.

Ela se aproximou outra vez da mesa, ao mesmo tempo em que bateram na porta, e trouxeram o jantar.

Sasuke estava realmente certo, a música abriu o apetite dela e não via a hora de provar dos cogumelos com lula, que se tornaram seu prato favorito dali.

Pegou os hashis ansiosa e fitou Sasuke, agora próximo, ele tocava seus cabelos suavemente.

— O senhor não vai comer?

— Por enquanto, só gostaria de provar...- Ele se inclinou em sua direção, seus lábios fecharam em torno do inferior dela e sugaram por um momento longo, literalmente saboreando. — Por enquanto é o bastante, mas por favor, alimente-se, sei que teve um dia longo.

Sakura olhou para a comida, e engoliu em seco, completamente estremecida somente com aquela “prova”, no entanto, as últimas palavras dele ascenderam uma lâmpada vermelha na cabeça dela.

— Eu... Tive...? – Balbuciou, levando uma fatia de salmão até a boca e o fitando de lado. Kagutsuchi bebeu um gole de saquê, olhando-a de soslaio, seu olho direito ainda encontrava-se naquela estranha cor e forma, Sakura passara a achar meio distinto e intimidante, porém não desagradável, contudo.

— Não é? – Sasuke se inclinou outra vez, agora até seu ouvido, o hálito quente a fez tremer em todas as juntas. — Guardar segredos pode ser bem desgastante.

A fatia de salmão escapou dos hashis e caiu no colo dela, Sasuke, muito bem humorado (e ela não sabia como fora ignorar isso agora) se deitou de lado, em torno dela e derramou mais saquê no copo enquanto Sakura escondia o rosto com as mãos, culpada e se sentindo absolutamente tola.

Ficou assim um tempo, até voltar a comer, sabia que falar algo agora não adiantaria, Sasuke levaria tudo a seu próprio tempo, inclusive o que quer que planejasse para castigá-la.

De modo que até mudou de assunto com total naturalidade, e passou a perguntar das outras aulas e estudos dela.

Não havia jeito, ela era um camundongo com a cauda presa numa ratoeira, só poderia esperar que viessem abatê-la de vez.

— Uh... Meu senhor, posso perguntar algo...?

— Já o fez.

Sakura estreitou os olhos, ligeiramente aborrecida, Sasuke riu e beijou seu rosto, pressionando o nariz na curva delgada do pescoço e cheirando.

— Pergunte o que quiser.

— Hm... É que me recordo, de Kakashi-dono comentando que meu senhor cessou sua ira sobre os vulcões do mundo divino, mas... Mas que no mundo humano... Eu-eu não quero criticá-lo é só que... Só que...

Sasuke suspirou, levantando-se se sentando.

— Sim, eu inflamei o Fuji e inflamei muitos outros.

Sakura apertou as mãos no tecido do vestido, sentindo-se verdadeiramente mal. Lhe doía saber que não só os deste mundo sofreram por sua impotência mas também os do antigo mundo dela ainda sofriam.

Por que ele continuava os castigando? Logo seres humanos, tão mais indefesos, alheios ao que aconteceu. Era injusto.

— Os seres humanos pecam também, Sakura. – Sasuke avisou. — Não é por que deuses são falhos que são iguais. Nós ainda vamos punir a ignorância humana.

— E quem punirá a dos deuses, senhor? – Ela indagou, magoada.

Sasuke observou seu perfil por um longo momento.

Recordou que Naruto havia descido a terra e ninguém sabia seu paradeiro, que as tennyos cantarolavam baixinho, somente para aqueles que soubessem ouvir o vento, sobre a deusa lunar que estava em seu castelo na lua, solitariamente tecendo uma tapeçaria enquanto aguardava que um amor ou outro fosse buscá-la e perdoar seu coração caprichoso novamente.

Mas sobretudo, ele olhava para Sakura, e só podia ver a flor de uma única estação. Só podia recordar que um dia a primavera findaria e ela iria também, murchar e partir. E ele... Ele continuaria lá.

— A eternidade....- Respondeu, por fim. — A eternidade é o castigo dos deuses.

Sakura olhou para ele, sem saber o que responder.

Por que Sasuke, ou Karin, ou Naruto e nem Hinata, sabiam o que era ser humano e estar susceptível ás vontades de alguém maior.

E nem ela, era capaz de saber o que era existir quase desde sempre.

— Kagutsuchi-sama. – Kakashi bateu na porta. — O senhor tem uma visita.

— A esta hora?

— Sim.

Ela suspirou, enfadado.

— Que seja.

— Me-melhor eu ir recebê-lo. – Sakura se levantou.

Sasuke pegou o kiseru novamente.

— Não é necessário, posto que aqui já se encontra, não? Bishamonten. – Disse, jogando um olhar frio para o canto da sala.

Sakura se assustou e se afastou, vendo uma forma dourada escorrer das sombras e tomar a forma de uma mulher vestida em ricos trajes de batalha, algo como uma armadura samurai dourada e calças vermelhas, seu cabelo era castanho e preso em dois coques e sua expressão era profundamente austera.

Caminhava como um verdadeiro guerreiro e parou abaixando-se em reverência.

— Perdão pela invasão, Kagutsuchi-sama.

— Apenas sendo furtiva como um ninja eu presumo? – Ele fez um esgar, sem interesse e ela sorriu.

— Meio que é inevitável na verdade. – Declarou, sentando-se sobre os joelhos e então fitou Sakura. — Você deve ser a “rara beleza floral” sobre quem as tennyos cantarolaram por meses, é realmente digno, embora eu não seja chegada a flores, muito prazer, senhora do fogo. – Cumprimentou, soava bastante cordial e polida.

— Uh, hum, muito prazer. – Sakura se sentou novamente.

— Então, o que a traz até mim, Tenten?

— Eu venho direto do mundo humano, fazendo um favor aos meus amigos, os outros seis deuses da fortuna estão preocupados com o que vem acontecendo na terra, graças ao senhor.

— Ah...- Sasuke fitou Sakura, parecendo achar graça. — Parece que agora você tem companhia para me dar sermão.

Sakura nada disse, cautelosa, e Tenten estudou os dois.

— Bem, esperasse mesmo que ela se incomode. Embora não seja culpada, e você já não castigou aqueles que fizeram o ritual sem sua permissão?

— É claro. – Sasuke pegou o guinomi na mesa.

— Então por quê ainda inflama a terra, senhor?

Sasuke soltou uma longa coluna de fumaça que subiu e começou a tomar pequenas formas. Um teatro de fumaça.

— Quando eu desejava uma noiva, permitia a entrada espiritual de algum médium no meu reino, e dizia a ele meu desejo. O médium então comunicava a visão que teve ao povo, e eles iniciavam a preparação, quantas noivas quisessem, poderiam preparar. Chegado o dia...

Ele soprou outra fumaça e ela saiu num vibrante tom escarlate e virou um pequeno vulcão e um pássaro de fogo.

— Eu mandava um dos meus melhores sacerdotes e ele era quem comunicava qual noiva seria sacrificada. O sinal... – Sasuke ergueu a mão, pegando no ar uma flor de fumaça e oferecendo á Sakura, fascinada, ela aproximou os dedos daquela forma enevoada que se desfez ao seu toque.

Sakura recordou da flor de cristal que tinha desde pequena e o fitou, atônita.

— Isto mesmo. E o resto você já sabe. Mas. – Voltou a atenção para a deusa da guerra. — Isto ocorreu em momentos já quase imemoriáveis para a própria humanidade, eu mesmo busquei os registros que eles tinham e as oferendas só foram relatadas em alguns poucos registros escritos e orais... Quanto a quem se apossou deles e reivindicou o status de meus adoradores, nada em especial na verdade, lamentáveis criaturas vazias e ignorantes.

“— Não nos culpe, culpe aos deuses...”

Sakura ainda lembrava bem destas palavras torpes.

— Dei fim em todas elas. – Sasuke disse, displicentemente, abanou o ar uma vez, desfazendo as imagens que ainda pairavam no ar.

— Deu... Fim...?

— Eles não me adoravam? Não seria uma honra então ser mandado ao Yomi, pelo próprio implacável Kagutsuchi? – Ironizou. — Mas isto nos leva ao resto da humanidade, e o quanto ela não deve ser mimada. Sakura foi mandada a mim como sacrifício, se eu houvesse cessado as erupções, o que acha que eles seriam levados a pensar?

Bishamonten concordou, com um suspiro.

— Que a oferenda foi aceita, ou ao menos que valeria a pena tentar outra vez caso os vulcões seguissem seu ciclo natural de calma e de fúria.

— E eu poderia acabar estando com o palácio repleto de noivas tão ou mais despreparadas e assustadas, ou pior, nenhum pouco belas como essa. – Sasuke sorriu.

Sakura não gostou muito de ser espetada, mas não poderia negar que a ideia de dividir um marido com várias outras garotas em nada a agradava. Sasuke percebeu seu narizinho se enrugando.

— Não me leve a mal, querida. Eu não desprezo os humanos, mas isto é diferente de ter meu reino habitado por eles em grande quantidade. São criaturas altamente destrutivas, com ou sem maldade inerente.

Ela também não poderia negar isso, sabendo que a situação do meio ambiente apenas decaía mais.

— Então, você estava mantendo os tremores apenas para que eles não achassem que os sacrifícios dariam certo e desacreditar a seita de vez. – Tenten concluiu.

Aa.

— Seu ponto é válido e os humanos precisam de humildade e de honra. Mas, não acha que já é o bastante?

— Não era como se eu desejasse torturá-los, apenas... mantive o pavio aceso aqui e ali, na verdade... Até havia me esquecido...

— Kagutsuchi-sama! – Sakura repreendeu.

— É uma deidade colossal. – Bishamonten comentou. — E compreendo que mesmo as coisas que criou estão livres para serem elas mesmas.

— Como assim? – Sakura indagou, confusa.

— Eu não faço, pessoalmente, cada flor naquele campo florescer, ou cada animal nascer e morrer. Criar vida não é o mesmo que controlá-la, e controlar um determinado ciclo, não é o mesmo que manipular cada corda e a melodia que ela toca. – Sasuke explicou. — Eu sou o criador dos vulcões, meu sangue respingou na terra, entrou nela e a inflamou, mas eu não estou sempre ciente do processo natural deles. Vulcões inflamarão e explodirão independente da minha vontade, é a natureza deles. Eu posso interferir ou não, mas fazer isso sempre, tornaria a existência deles sem sentido.

Ela assentiu, refletindo. Bem, isso era o que a ciência chamaria de acontecimentos e mecanismos naturais.

Haviam as pessoas achavam que tudo era vontade dos deuses, ou de um deus só, tanto dádivas quanto tragédias, e pessoas que acreditavam que isso era nada além de fenômenos naturais, consequências.

E no fim, era tudo o mesmo. Os deuses criaram, ás vezes faziam sua vontade valer através destes fenômenos, e ás vezes, era apenas tudo ocorrendo da forma que foi criada para ocorrer.

— Mas, assim como não o custa nada interferir para que sua fúria seja temida, interferir para que tudo se acalme...- Tenten reiniciou, sugerindo.

Sasuke suspirou, aborrecidamente.

— Certo, você tem um bom ponto também. Que assim seja, não é como se me importasse, tampouco...

Sasuke, segurando um tokkuri cheio de sakê, o virou na direção guinomi vazio, o saquê caiu tomando cor e temperatura de uma poça de lava. Sakura engatinhou para perto, vendo a poça girar dentro do copo como um caldeirão sem derretê-lo.

Por um momento parecia que iria subir e então começou a diminuir como se houvesse um ralo no fundo, a cor incandescente de lava foi apagando e apagando, até se tornar escura, recoberta por uma crosta negra, mas ainda podia ver o vermelho vivo por baixo dela, como se estivesse pronto para se inflamar novamente a qualquer momento.

E desapareceu num piscar de olhos, só havia o saquê de ótima qualidade preenchendo o recipiente. Sasuke o pegou e sorveu, olhando-a divertido.

— Satisfeita, esposa? Estou completamente rendido agora. – Disse, Sakura o fitou, surpresa e então sorriu.

— Sim! Eu agradeço sua generosidade, esposo!

— Hm. E você, Tenten?

— Eu não poderia exigir mais nada, agradeço também.

— Ótimo, podemos comer agora?

— Sim! Oh, a senhora nos faria companhia? – Sakura chamou, muito alegre agora.

— Se não for incomodar...

— Claro que não! Eu estou realmente surpresa e feliz! Então o deus da guerra é uma garota?!

— Ah... Na maior parte do tempo...

— Eh?

¤

— Fico feliz que tenha dado tudo certo no final. – Tenten afirmou.

Eles pararam sobre o arco de uma ponte, Sakura estava a alguma distância, criando amizade com o belo cavalo de pelo dourado que trajava uma armadura, era a condução da deusa.

— Claro.

— Mas foi realmente por um triz, huh? Já estávamos todos prontos para o pior...

Sasuke riu suavemente, olhou para a espada embaiada no quadril dela.

— Então estava mesmo cogitando erguer sua espada para mim, Bishamonten? Me magoa, parece que esqueceu mesmo os bons tempos que compartilhamos.

Ela deu de ombros, retribuindo um olhar bem humorado.

— Como se também você não houvesse esquecido. – Retrucou. — Além que, parece muito satisfeito com a sua parceira atual.

Sasuke olhou por sobre o ombro, Sakura afagava a crina do enorme animal que mais aprecia um potrinho agora. Bishamonten ficou levemente aborrecida pois era seu cavalo de batalha, afinal.

— Sim, mas isto já está óbvio.

— Certamente! – Ela suspirou. — Tive um rápido encontro com Neji... E ele continua o mesmo. – Ela não pode conter o tom de decepção ao falar do pequeno deus protetor dos mercadores.

Neji era também um primo próximo de Hinata-gami e Sasuke sabia sim o quanto ele protegia e adorava a prima.

Hinata sempre teve uma aura extremamente frágil e dócil, todo homem ou deus que cruzara seu caminho fora arrebatado pelo forte sentimento de proteção.

Ele, inclusive.

Mas mesmo a flor mais bela poderia ter espinhos, e as pétalas que saíam de seu belos lábios, ás vezes tinham veneno.

Uma flor rara que cintila sob o luar, mas Sasuke já não a queria em seu jardim há muito, muito tempo.

— Imagino, mas não é como se eu pudesse ou pretendesse fazer algo. Hinata escolheu pertencer a outro, e sempre respeitei isso, se ela não respeita a minha união, é melhor para ela que se mantenha longe.

— Está certo, mas sabe como ele é, acha que você a desmereceu em prol de uma humana, ao menos isso foi o que ele ouviu de Hinata, além de parecer achar que Naruto se afastou dela por ardil seu.

— Meu...? – Isso o divertiu até.

Nem sabia onde ou quando Naruto sumiu, sinceramente, depois que Sakura fora transformada achara que ele iria aparecer fazendo máximo para relevar a culpa da esposa.

— Não faço ideia do que fez Naruto partir, mas, talvez ele só tenha aberto os olhos como eu abri os meus...?

— Foi exatamente isso, meu senhor.

Ambos se viraram, percebendo Karin parada no início da ponte, ela desviou o rosto, relutante e inspirou.

— Eu os... Presenciei discutir, ainda na festa, ele partiu e acho que ver meu senhor feliz com a humana, acossou o orgulho daquela... Mulher.

— Ah, não me surpreende, na verdade. – Tenten deu de ombros. — Ter a atenção de todos e de repente nenhum... Mas, creio que deveria continuar tomando cuidado, sua revolta ainda irrita muitos lá fora, Neji não tardará a tomar partido e o senhor já tem tantos inimigos.

— Tantos que sinto preguiça de contar. – Sasuke revirou os olhos. — Obrigado por suas palavras, Karin.

Ela assentiu, e então se afastou, partindo silenciosamente.

Sasuke não havia deixado de notar quão distante ela havia ficado, mesmo depois que ele já havia perdoado sua má conduta para com Sakura.

No entanto, Karin sempre fora um mistério de cabelos flamejantes, altiva, voluntariosa e discreta, ela sempre falava quando achava necessário e ele apreciava sua franqueza. Então achava prudente e justo, não importuná-la, se ela não dava sinais de que precisava de algo dele.

Além que ela nunca gostara de Hinata, Sasuke atualmente não tinha motivos para dissuadi-la, tampouco.

Tenten imaginou que não só a Naruto e Hinata a tal discussão atingira, afinal, como também havia sido amante do deus por um certo período, já havia sido alvo da inimizade daquela deusa.

Mas, talvez os tempos finalmente estivessem mudando.

— Bem, devo ir agora.

— Tenha uma boa viajem. – Sasuke disse, acompanhando-a de volta ao cavalo.

— Me perdoe não ter vindo ao seu casamento, ou trago um presente para sua esposa.

— Ah, não foi algo como uma grande festa, embora ela mereça, e bem, não posso imaginar um bom presente que você poderia dar a ela, ambas são muito distintas.

Bishamonten riu, parando ao lado da montaria.

— Aí é que se engana, toda mulher é uma guerreira, o que difere são suas armas. Não acha, senhora?

— Oh, creio que sim, homens podem gostar de espadas, mas lhes falta um pouco mais de sensibilidade para saber como cortar, ás vezes. — Sakura sorriu.

— Foi uma crítica? – Sasuke franziu o cenho e ambas riram.

Tenten montou o corcel, sobre ele parecia ainda mais nobre e belicosa.

— Mandarei um presente digno assim que chegar, já tenho uma boa ideia do que serviria a você.

Sasuke abraçou Sakura, olhando pra Tenten, aborrecido.

— Está tentando usá-la para me atingir? Isso é conspiração!

— Então seria fácil para ela? Você já foi mais astuto, Sasuke! Até mais!

O cavalo se afastou dando um leve trote, asas surgiram de seus flancos e ele galopou no ar, cada vez mais rápido, sua pelagem dourada e a armadura da deusa os fizeram parecer uma estrela em ascensão.

— Eu gostei dela! Aparecerá mais vezes? Posso convidá-la? Estou ansiosa para o presente, confesso!

Sasuke bufou e puxou-a de volta para dentro.

— Não se acostume demais com ela, é uma mulher monstruosa quando irritada.

— Ora...

— Além do mais. Esquece que temos algo a tratar ainda?

Sakura encolheu os ombros com um sorriso faceiro.

— Não faço ideia do que o senhor fala! – Exclamou, correndo a frente dele.

— Sakura... – Sasuke respondeu em tom de divertida ameaça.

Sakura riu, deixando-o para trás, ela correu e correu através dos corredores, mas era como era perseguida por um fantasma, ele sempre estava próximo.

Ela chegou ao quarto deles, parou na porta, esbaforida, e olhou para trás. Sasuke estava no fim do corredor, observando-a com olhos ardentes.

Sakura sentiu todo o corpo estremecer e aquecer em excitação. Fechou as pesadas portas, rindo arquejante.

Girou para correr atras de algum esconderijo mas seu corpo imediatamente trombou no deus. Sasuke arrebatou nos braços e com a boca invadiu a dela.

Sakura ainda riu entregue á brincadeira, mas ela logo se tornou abrasiva o bastante para lhe arrancar gemidos.

Sasuke beijou a delicada coluna de seu pescoço, lentamente puxando o hagoromo do entorno de seus ombros para o chão e ela se agarrou a seus cabelos, suspirando apaixonadamente.

— Minha doce esposa travessa. Deixe-me castigá-la como merece... Na minha cama.

Içou-a pela cintura até a beira do leito, Sakura beijou-o sem parar, necessitando o máximo de proximidade possível com seu corpo.

Sasuke abraçou-a, afrouxando suas vestes, camada por camada, baixando lentamente as alças do vestido. A pele dela se eriçou com o frio que adentrava as largas janelas.

O contraste entre a brisa e os lábios de Sasuke era uma sensação atordoante.

Ele os encaminhou ao longo do maxilar, pescoço e colo, seus dedos longos e peritos afagaram delicadamente os mamilos dela, intumescendo-os. A boca baixou sobre um deles e ela o abraçou com uma exclamação urgente.

Sasuke provou-a devagar, raspando os dentes na carne sensibilizada, seguiu para o outro, deixando um rastro de saliva quente e baixou as mãos, empurrando-a delicadamente para a cama.

Sakura se deitou, mantendo-a as mãos em torno do rosto dele. Sasuke ergueu o tecido que lhe cobria as pernas, revelando-as, afagou com as mãos mais firmes e baixou a cabeça entre suas coxas, beijando-as cada vez mais próximo de seu âmago.

— Tem tão belas pernas, com essa carne tenra e voluptuosa.

Sakura se apoiou nos cotovelos, ofegante, o observou selar a boca contra sua pele, delicadamente, ás vezes com chupões que deixariam marcas. Seus olhos brilhavam de calor, um carmim, o outro púrpura, atrás da cortina de cabelos escuros.

Tocou o rosto dele, afastando o cabelo e olhando aquele olho singular. Sasuke notou sua atenção prolongada.

— Ah, isto deve estar assustando-a?

— Não... É diferente, mas ainda não é como se não fossem mais seus olhos.

Ela gostava daqueles olhos negros, mas também gostava destes. Ela gostava de tudo nele.

Sasuke suspirou, baixando o rosto contra seu ventre.

— Você... Irá me destruir um dia.

— Hum?

Sasuke beijou sua barriga, e então puxou o vestido através de seu quadril e pernas, largou no chão.

— Prefiro você nua agora.

Sakura se sentou, sobre os joelhos, ainda inibida. Ele subiu na cama, com os joelhos, puxou seu rosto e se beijaram enquanto se ajudavam a despi-lo.

— Não tire esses lábios dos meus, ou não sabe onde minha boca irá parar. — Sasuke avisou, mordiscando seu lábio inferior.

— Sasuke...

Ele riu, roucamente, como se já esperasse por isso. Puxou-a quando já apenas vestia a calça e deitou-a contra a cama, dê bruços.

— Você fez isso a si mesma. – Declarou, a voz aveludada, curvando-se e tecendo beijos ao longo da coluna dela.

Sakura apertou as cobertas e abafou um gemido mais alto contra elas, no que ele puxara uma de suas pernas separadas e afundara o rosto em seu sexo.

Sasuke a segurou firme no lugar, sugando-a e esfregando a língua dentro, fora e no ponto mais sensível dela.

Quando ele parou, ela sentia-se como já tivesse morrido outra vez, tudo era turvo e vibrante.

Sasuke puxou seu quadril mais alto, uma mão envolveu seu pescoço sem apertar demais, apenas erguendo sua cabeça para beija-la enquanto se afundava dentro dela.

O corpo dele era pulo calor, suas arremetidas cada vez mais delirantes, seu longo cabelo escuro escorria sobre ela e se misturando aos dela na cama, Sakura podia sentir o perfume refinado e másculo e ele apenas empurrou-a mais rápido para o êxtase.

Tão molhada, sinto que irá derreter em torno de mim. – Sasuke murmurou, uma mão apertando sua nádega bem firme a outra presa a um seio, enquanto seu rosto esfregava no cabelo e nuca dela.

— E-Eu vou. – Ela emitiu fracamente.

Uma risada profundamente sensual ecoou contra sua orelha. Sasuke puxou sua pélvis mais alta, estocando-a mais e mais duro.

Sakura gritou rasgando em liberação e ele saiu dela antes que seu orgasmo o arrastasse junto. Ela ficou estirada e trêmula, com sua carne mortal corada e úmida.

Sakura viu tudo embaçado por um tempo, o corpo parecia em chamas, seu íntimo fervia, não satisfeito o bastante. Se virou a tempo de o ver voltar para a cama, completamente nu e com a prova de que também não estava satisfeito o bastante, pulsando entre suas pernas fortes, quadril estreito e estomago definido.

Sasuke só poderia ser a epítome da beleza masculina, só poderia ser divino, nenhum homem poderia se comprar a ele.

A trouxe gentilmente para perto de si, deitando-se contra os travesseiros e beijando-a, Sakura deitou contra seu tronco, momentaneamente satisfeita apenas com poder sentir o calor dele, beijá-lo e tocá-lo.

Sasuke, baixou o rosto contra seu pescoço, um suspiro necessitado, as mãos apertaram as nádegas dela e então afundou-se novamente dentro dela. Sakura gemeu e apertou o travesseiro, acostumando-se outra vez a ele, nesta posição.

Sasuke ciciou algo contra seu mamilo, e o sugando para a boca, arremeteu nela cadenciadamente, empurrando e trazendo seu corpo a cada estocada.

Sakura se contorceu sobre ele, o estímulo de sua boca, mãos, dentro dela, parecia que perderia a sanidade de vez.

Ele pareceu mais e mais duro, os sons obscenos da união deles o deixavam mais e mais primitivo. Sasuke deslizou uma mão por sua coluna até a nuca. Arquejou e deitou a cabeça e olhou-a com a vista entrecerrada.

— Linda. – Disse, o olhar luxurioso e também, venerador.

Sakura eclodiu num novo orgasmo, mas seu desejo apenas aumentou. Sasuke deixou-a se sentar sobre si, uma mão apertou o seio dela, a outra continuou impulsionando-a para cima e para baixo.

Ela estava vermelha e brilhante, quase uma bela estrela na escuro do quarto.

Se ela apenas pudesse ser uma estrela assim, para sempre.

Sasuke não poderia mais se conter, abraçou-a novamente, e Sakura tremeu com outro ápice, com ele dentro dela, tudo vibrou, ela não podia parar de se retorcer contra seu corpo forte e quente.

Se beijaram outra vez, as mãos dele viajando por todo seu corpo, ainda pulsando dentro dela e lhe dando pontadas de prazer.

Sakura suspirou, sentindo-se exaurida de tanto prazer, sonolenta, se manteve colada nele, traçando círculos invisíveis sobre seu peito forte.

Sasuke beijou sua testa, os dedos acariciaram suas costas e o braço.

— Não fiquei zangado com você. – Declarou. — Sinto orgulho da sua atitude, embora não ache certo que tenha que se colocar nesta posição. Você não tem culpa de nada.

Sakura suspirou, feliz.

— Eu entendo, só não queria passar uma imagem ruim, e acho justo que eles recebam explicações concretas. Mas ainda assim, devo me desculpar por sair sem avisar o senhor, não queria preocupá-lo.

Sasuke girou, trazendo-a para baixo.

— Preocupou, mas fiquei melhor sabendo que estava acompanhada de Togame. – Beijou o rosto dela. — Hmm, esta coisa de dialogar, até que me parece boa.

Sakura gargalhou, sabendo que ele estar feliz e excitado novamente, nada tinha haver com sua conversa de agora, mas com o que houve minutos antes e se repetiu ao longo da noite.

No fim, ele estava tão feliz com sua fidelidade e lealdade, com como venceu uma maldição para o vir reencontrar. Talvez mais admirado do quanto sentira falta dela agora que, tendo-a de volta ao seu lado, pode refletir mais racionalmente sobre tudo o que estivera prestes a fazer em razão do desconsolo e saudade que sentira.

Tsubaki = Camélia Amarela, significa Saudade.

Rabenda = Lavanda, significa Fidelidade.

Kiseru*

Cachimbo japonês.

Koto*

(琴) é uma espécie de harpa lírica japonesa, também chamada de “cítara japonesa”. Possui cerca de 1,80 m de comprimento e é esculpida em madeira paulownia. É um dos instrumentos musicais tradicionais japoneses mais populares, sendo aprendido inclusive pelas meninas em idade escolar.

Notas finais
Dois questionamentos. Primeiro, o que AUTORA TEM QUE FAZER PRA MERECER UM CASTIGO DESSES? AAAIN Aaaaaamey fazer minha Tenten como Bishamonten, A bicha FECHA Segundo questionamento. Estando nós a uns três caps do fim, o mistério agora é, de quem será a voz misteriosa que ajudou Sakurita a vencer a macumba da Hinaja? Que comecem as apostas! Kiseru > https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/211OHL%2BXJ3L.jpg Koto > http://onlynativejapan.com/wp-content/uploads/sites/10/2013/03/b20ed1a32ce8ddb405c5ef7cae0670c2.png