The Bride Of The Fire God
10 Suitopi e Hinagiku
Notas iniciais

Uma poção da verdade, era relativamente fácil para um deus conceber.
Neji misturou-a ao chá da oferenda e calmamente observou-a beberica-lo, insegura.
Serviu a si mesmo de uma porção limpa e soprou o vapor, algo no fundo da sua mente, pareceu adquirir voz, e ela teve quase certeza deter ouvido um suave e cauteloso “Cuidado”.
— Está muito bom, obrigada. – Sakura disse, timidamente, ainda tentando ter certeza de que estava apenas nervosa demais.
— Não por isso... Mas não acho que minha companhia seja o motivo da sua presença.
— Ao menos o senhor deve concordar que não passou a impressão mais cativante.
Neji se perguntou se ela era dada a impertinência por Sasuke ser muito pouco rigoroso com ela, ou se já era efeito da poção.
Mas bem, ele não perguntara nada, diretamente.
— Acho que devo concordar.
Sakura suspirou, pousando a xícara na mesinha.
— Mas antes de lhe responder, devo ser franca, e confessar que me sinto realmente ofendida com sua tentativa de me usar. Mas me chateia mais ainda que eu ainda tenha prosseguido com isso...
Ele ergueu as sobrancelhas, curioso.
— Presumo que ele tenha descoberto...?
— Talvez? Meu senhor é muito astuto, mas de toda forma... Uma vez que ele tenha tomado as rédeas da situação...
— Tomou...?
Sakura não pode deixar de sentir o calor subir por seu pescoço, e cada ponto em sua pele, onde Sasuke deixara uma marca de dentes e lábios, tilintar como um sino.
— Enfim... O que você queria saber...?
— Se Kagutsuchi foi capaz de lhe revelar seu terceiro nome...- Neji disse, já enfadado.
Ela era tão transparente que chegava a ser obscena, considerando que ele não tinha qualquer interesse em saber sobre suas intimidades maritais.
— Sim! – Sakura escondeu a boca com as mangas, chocada com a facilidade quase forçada com que a resposta lhe escapou. Sentiu-se ainda pior. Um tipo de espiã ou agente dupla, uma traidora.
Neji piscou, extremamente surpreso, encarou a bebida se perguntando se errara em algo.
— Disse que ele.... Revelou...?
— Sim...
— O maior segredo de um deus?
— Sim. Não acredita? Ou acha que ele mentiria?
Ele nem sabia qual teoria fazia mais sentido. O chá não teve efeito e ela estava mentindo para não se sentir despeitada, ou Sasuke a enrolara com um falso nome?
— Tem certeza que ele lhe disse?
— Sim! – Ela se encolheu, encabulada. — Com todas as letras e um pouco mais...
— Poupe-me dos detalhes.
— Eh?! Nã-não dessa forma! – Ela se adiantou, abanando-se.
Neji inspirou, procurando assimilar o que fazer com essa informação.
— Acredito em você...- Admitiu.
— Sim...? – Sakura o fitou, surpresa.
— Sim.
A poção não a permitiria mentir, e na verdade, se Sasuke fosse o tipo que não se importasse de mentir sobre tal coisa, Hinata talvez já até soubesse (de um falso nome) e isso talvez tivesse feito com que ambos estivessem casados agora.
Mas Sasuke não se valeu de nenhum ardil para capturá-la, o que Neji admitia que só tornava a atitude atual da prima ainda mais condenável.
E ele já não queria participar disso.
— Não vai me... Perguntar qual o nome...? – Sakura balbuciou, apavorada, talvez percebendo que algo a estava empurrando a falar descaradamente.
“Cuidado”.
Neji suspirou, tomou um último gole de chá, e calmamente recolheu a louça, ela ficou ainda mais aterrorizada com seu silêncio.
Ele se ergueu, levando a bandeja para uma bancada.
— Não, não é como se me interessasse.
— Huh...?
Ele jogou o chá fora, e pegou mais água do cantil.
Começou a preparar outro chá, algo que servisse para sossegar um coração muito honesto, e para isso nem precisava acrescentar uma poção, bastava por um sentimento sincero de desculpas.
¤
De soslaio, através da janela, Sasuke observou um imenso tigre branco partir com Neji montado em seu torso. Sorriu ladinamente, e se voltou para a própria mesa, onde repousava uma caixa talhada em pura pedra de jade, abriu-a e analisou o suntuoso conjunto de enfeites de cabelo, com jades e ouro incrustrados em forma de flores e pássaros.
Ainda estava surpreso de Bishamonten ser capaz de um presente tão feminino, e por isso ainda estava desconfiado, sentia que havia algum segredo, mas talvez fosse algo que só competiria a outra mulher saber.
Sasuke fechou a caixa, e deixou-a de lado, voltando a atenção para os pergaminhos, ao longe podia ouvir a agradável gargalhada de Sakura, e os relinchos de Nébula e Magma, além dos da pequena surpresa que eles trouxeram ao fim do inverno, uma potrinha agora chamada de Bruma a quem Sakura mimaria por todo o verão, certamente.
Kagutsuchi deixou a sala, e seguiu para o salão assim que chegou o momento do almoço.
Uma das coisas que mais apreciava era a companhia da esposa, cuja energia tornava qualquer refeição deliciosa.
Ao entrar no vestíbulo, encontrou Sakura já instalada a espera, rodeada pelos cães de guarda de Kakashi, especialmente com o Pakkun no colo, alimentando-o com petiscos.
— Se comerem demais, não terão condições de cumprir seu dever, esposa. – Avisou-a, sentando-se, ao acariciar a tez acetinada de seu rosto, Sasuke parou, com a ligeira impressão de que ela estava mais quente que o habitual. Olhou em torno perguntando-se se o tempo não estava muito quente ou abafado. Mas de toda forma, Sakura parecia reluzir, e ele deixou isso de lado.
— Oh, um pedacinho não faz mal... — Ela sorriu, coçando as orelhas murchas do cão.
Sasuke suspirou, adorava comer com a esposa, mas só com ela.
¤
Neji adentrou o salão prateado sem muita pressa, alguns dos vassalos retiraram-se tão rápido quanto puderam. Ele não duvidava que fosse mais por temor ao humor da deusa, do que por educação.
Hinata parecia tão pacífica e tranquila quanto o habitual, tocando seu shamisen calmamente, dedilhando as cordas de seda suavemente, numa melodia sossegada.
— Veio mais rápido do que esperava, primo. – Ela cantarolou, como que imersa na música, apesar que estava mesmo era no sabor que esperava sentir, da conclusão de seus planos.
Mas não podia ficar menos ansiosa, e rapidamente deixou o instrumento sobre as almofadas e se levantou. Olhar o trono vazio de seu marido ainda lhe perfurava o coração, mas Hinata acreditava veemente estar fazendo o possível para restaurar algum equilíbrio entre todos eles.
— E então?
— Tem certeza de que quer saber?
Hinata riu, docemente.
— Neji, não é hora de piadas.
— Bem, se insiste, fiz exatamente como instruiu, ela não demorou muito a perguntar... Ou deixar escapar, de todo modo...
— E quanto a Sasuke... Ficou irritado, presumo...?
— Não que eu tenha como saber, na verdade...
— Oh... Não? – Ela franziu ligeiramente a testa, mas por fim deu de ombros, fazendo um breve muxoxo. — Bem... Que seja, diga logo o que descobriu!
Neji suspirou, empurrando uma longa mexa de cabelo da frente do rosto.
— Kagutsuchi revelou seu nome a ela, Hinata.
Hinata piscou, incerta de que ouvira bem, se aproximou dele, inclinando a cabeça em sua direção, os enfeites prateados de seus cabelos balançaram e tiniram um som doce, mas sua voz soou gelada.
— Como é?
— Ele a revelou seu terceiro nome, não posso afirmar que é o verdadeiro, mas acho que conhecemo-nos bem o bastante para saber que ele não menti-...
— Mentira! – Ela exclamou, visceralmente, recuando transtornada para longe, apoiou-se numa das mesas, onde ficavam seus pinceis e folhas. — É mentira! Mentira! Você não usou a poção!
— Sim, eu usei.
— Não pode ser... Então ela... Uma humana...? Sabe o terceiro nome do Kagutsuchi...?
Neji assentiu, não deixando de dar-se conta do quão perigoso isso era. O terceiro nome de um deus, a chave de sua vida e sua morte, nas mãos de criaturas tão instáveis, e influenciáveis como eram os humanos.
Não fazia ideia do que se passava na cabeça de Sasuke, mas não poderia pôr a prova os sentimentos dele, independentemente de quais fossem.
Capricho, ingenuidade ou amor, qualquer que fosse, deuses como ele e Hinata não estavam em posição de questionar isso, seria no mínimo arrogante, e certamente, poderia ser perigoso.
— Não pode ser...? – Ela balbuciou. — Eu nem mesmo sei... O de Naruto eu sei...- Lamuriou, caindo de joelhos contra a mesa.
— Ao menos tentou perguntar...?
— De que me serviria?! – Neji encarou-a, estupefato, e recuou um passo, Hinata se ergueu novamente. — O nome... Diga o nome!
— Que nome...?
— Não seja tolo, Neji! O nome dele! Ela o disse, não disse?! Você lhe deu a poção! Ela não poderia evitar nem se quisesse!
Os olhos de Neji se estreitaram da forma mais julgadora que poderia haver, e ela se encheu de pavor.
— Neji... Não faça isso... Você sabe o nome... Diga-me! Eu imploro! Não há nada que você possa fazer com ele, eu...
— Faria algo “melhor”? Francamente, Hinata... Em que você se tornou? – Bufando, ele deu as costas e caminhou para a saída.
— Neji! Neji! Não ouse me negar isso!
Ele parou, suspirando.
— Não posso lhe negar...
— Por favor, meu primo!
— Não posso lhe negar o que não tenho, Hinata. – Ela caiu novamente, enroscada nas camadas das próprias peças, os cabelos enroscando-se nos enfeites e entrando em frente sua face empalidecida.
— O quê...?
— Eu lhe dei o chá, ela me disse que sabia o nome, e apenas isso.
— Você não perguntou...?
— Para quê? Você mesma disse-me para perguntar-lhe se sabia o nome, e não qual era o nome, há uma diferença.
Dito isso, ele partiu, ao sair lá fora, o vento frio e as terras cinzentas da lua encheram sua visão, os gritos odiosos da prima, seus ouvidos.
Mas ele já estava farto de ouvi-la, confessava.
¤
Ainda urrando de ira, Hinata, atirou tudo o que encontrava pelo caminho ao chão, olhar para o trono vazio do marido, encheu-a de ainda mais ira.
Até mesmo Neji ousou deixa-la, Hinata caiu diante o tinteiro e os pinceis, furiosa, virou o recipiente no chão branco, e esfregou as mãos espalhando a tinta escura, com se pudesse pintar o tom em seu coração, agora.
Pela primeira vez, odiou absolutamente o quanto Sasuke era poderoso e inatingível, deuses como ela, Neji ou Naruto nunca poderiam rebaixá-lo ou controla-lo, era a epítome da força da natureza, o elemento mais selvático.
Ao menos... Ante aqueles abaixo dele...
Mas e se fossem aqueles acima dele?
Hinata puxou uma folha limpa, freneticamente catou um pincel pelo chão esfregou-o na tinta espalhada, tomando cuidado para com a folha limpa, escreveu rapidamente e os traços de seu novo plano.
Ainda com as mãos manchadas de tinta escura, ela ordenou que um mensageiro levasse sua carta a um lugar mais distante que os cinco reinos, e mais alto que o sol e a lua.
Sua carta iria para a ilha de Ahaji*.
¤
Semanas depois, País da Água.
Karin caminhou pelos suntuosos corredores do palacete das águas com enfado, ao longe poderia ouvir as risadas escandalosas das cortesãs, a música exageradamente animada e o forte cheiro de saquê.
Ela adentrou o salão, não deixando de dar um olhar de desprezo a todo aquele circo espalhafatoso e pomposo.
Sentando em seu trono, cercado de cortesãs de todos os tipos, Susanoo gargalhava escandalosamente sacudindo uma garrafa de saquê. Assim que a viu, ele estreitou os olhos ligeiramente, e sorriu de forma que poderia fazer qualquer uma suspirar.
Era assombroso o quanto ele e seu irmão mais velho eram parecidos, até mais que Itachi o era, no entanto, a personalidade fazia seu papel de transformá-los em absolutos opostos.
Sasuke era sábio, atencioso, astuto e muito gentil, mas Izuna, Izuna era traiçoeiro, rude, maldoso e sempre se aproveitava de tudo e todos sem remorso.
— Ah, vejo que finalmente resolveu se juntar a nós, Karin-gami. Gostou da festa? Foi feita exatamente para comemorar vossa chegada.
Ela quase revirou os olhos, enfadada, como se não soubesse que no reino da água, não era necessário ter um motivo especial para se fazer essas festas, dependia unicamente do humor e do ego do deus.
— Muita gentileza sua, mas não estou muito bem para festas, sendo assim...- Curvou-se, fazendo menção de retirar-se.
— Não com tanta, pressa. – Ele declarou, sua voz agora bastante distante do tom ébrio e empolgado de antes, todo o salão mergulhou em tensão.
Todos provavelmente acostumados com o caráter volúvel do seu senhor.
Karin não entendia como poderiam submeter-se a viver num lugar assim, mediante tanto capricho e intimidação. Eram todos custeando a diversão de uma criança mimada para não terem seus pescoços contra lâmina de sua espada.
— Tenho algo a tratar com você, apenas saciar algumas curiosidades... Antes de pensar em atender a este convite...- Izuna declarou, erguendo um pergaminho embalado numa bainha dourada, os desenhos talhados nele, não deixaram dúvida para ela, sobre de onde aquela mensagem viera, o sorriso triunfante e maldoso do deus da água fez o sangue de Karin gelar, como a água sempre se tornava nas mãos de Susanoo, tal qual o coração dele.
¤
Sakura olhou para o céu, notando uma estranha vibração parecer irradiar, talvez fosse impressão sua, mas seu coração de repente se encheu de receio.
Bruma, ergueu-se de seu colo e relinchou agudamente, como se notasse algo que a incomodasse nas nuvens. Sakura afagou suas pernas brancas e vermelhas, e então viu uma revoada gigantesca de pássaros levantar voo e partir.
Ela se ergueu, espantada, e viu a massa de pássaros subir até as nuvens e de repente se partir em duas, dando passagem a um dos barcos flutuantes do reino.
A embarcação contornou o palácio com estranha pressa, Sakura seguiu para dentro, correndo através dos corredores, mal havia chegado ao pátio interno quando quase trombou com Karin.
— Oh, é a senhorita. – Ela iniciou uma mesura, mas foi empurrada e se desequilibrou, batendo o ombro contra a parede enquanto Karin vociferava e chutava a barra de seu casaco da frente de seus pés.
— Saia da minha frente! É tudo culpa sua!
Sakura a fitou, assustada, mal conseguia se mexer, ao ver uma aura dourada e hostil cobrindo as formas da deusa e seus olhos avermelhados quase se tornarem rubis.
— Posso saber o que se passa aqui? – Ambas se viraram, deparando-se com a expressão incógnita de Sasuke, ele alternou o olhar entre ambas, e seus olhos se estreitaram sobre a deusa.
Sakura se levantou o mais rápido que pode, não querendo criar nenhuma discussão, e se manteve quieta.
Sasuke deu as costas.
— Acompanhe-me, Karin.
Karin arquejou, nervosamente, mas o seguiu com pressa.
Eles mau haviam entrando na sala, para ela começar a falar alto e ofegante.
— O que deu em você?! Está completamente louco?!
Sakura se aproximou das portas, sem coragem de abri-las, embora pudesse ouvir claramente, temia e ansiava ver Sasuke.
— Dizer seu nome a ela?! Que se passa com sua cabeça?!
Sasuke permaneceu parado diante das janelas, Karin respirou profundamente antes de voltar a falar, mas todo o ar se foi, quando o viu erguer o braço e nele pousar uma exuberante águia dourada segurando um pergaminho em bainha de ouro dentre o bico afiado.
— Faz tempo, Gōrudo. – Ele cumprimentou, pegando o pergaminho, a ave curvou a cabeça respeitosamente.
— É uma honra, Kagutsuchi-dono. – E dito isso, ela partiu novamente, suas penugens refletiam a luz do sol e parecia um ponto de luz subindo cada vez mais longe.
Sasuke voltou a atenção para o pergaminho.
— Isto chegou mais rápido do que imaginei, confesso.
— Você sabia...?
— É claro.
— Sasuke...! Como pode?! Faz ideia do que pode acontecer? Do que podem tentar fazer com você... É uma ordem, não um convite!
— Fazia tempo que não via um destes...- Ele comentou, analisando atentamente os detalhes da bainha dourada. Puxou a folha de dentro, e largou-a, sem interesse, ela caiu sobre a mesa e se desintegrou em chamas, sob seu olhar estoico.
Karin se aproximou, inspirando profundamente.
— Você irá mesmo.
— Não por ser uma ordem, afinal, mas acho que já era tempo de dar algumas respostas.
Ele sabia que hora ou outra a tomada de uma noiva humana, depois que os sacrifícios humanos tornaram-se abolidos, tornar-se-ia pauta na reunião dos deuses, mas não esperava, ou se agradava que essa se tornasse a única pauta, no entanto.
— Deixe-me ir com você! – Karin disse, parando às suas costas.
— Não é necessário... – Sasuke surpreendeu-se, quando ela o abraçou de repente.
— Por favor, deixe-me... Deixe-me ir com você. Deixe-me estar com você.
Karin não esperou sua reação, afastando-se rapidamente, seguiu para as portas.
— Irei mandar prepararem o barco! – Avisou, mal contendo a euforia em sua voz, que saia como uma brisa fresca para dentro de um cômodo abafado. Por um milênio.
Sakura afastou-se do salão, muito consternada, de repente, um enjoo profundo preencheu-a, não sabia se tratava-se apenas do que ouvira, mas estava muito mal, de toda forma.
Ela se encostou contra a parede, tentando não chorar, sentou-se no chão, e esfregou a testa, sentindo-a tão quente que começava a porejar, ainda assim, doía mais saber que seu egoísmo estava trazendo problemas a Sasuke.
Se ela não tivesse se deixado cair naquela proposta, se não tivesse deixado se ansiar o que não lhe era direito...
“Acalme-se, vai ficar tudo bem”.
Sakura se empertigou, olhando para os dois lados do corredor e nada vendo, mais uma vez tentou investigar se era apenas sua mente, afinal nem sequer conseguia identificar se a voz em sua mente, agora, era dela própria. Sentia como se, em parte fosse, em parte não fosse.
“Em parte somos, em parte não somos... Um”.
Sakura balançou a cabeça, e voltou a se levantar, de toda forma, ficar ali, falando consigo mesma, em nada ajudaria.
Sakura deixou correu, ainda se sentindo tonta, chegou nos aposentos que compartilhava com o marido. Sasuke acabava de vestir um majestoso traje negro e vermelho, e sobre a cama, havia uma estranha máscara, que ela o viu amarrar junto de sua espada.
Ele fitou-a, estranhando sua reação.
— Você... Como está se sentindo? – Indagou, Sakura o abraçou, angustiada.
— Me desculpe, é tudo culpa minha. – Ele suspirou, se perguntando porque todas as mulheres em seu entorno pareciam achar que ele era incapaz de lidar com suas próprias escolhas e ações.
Abraçou-a, e tocando sua tez, sentiu-a quente e úmida, Sasuke puxou seu rosto alto, ela estava avermelhada e com uma expressão exaurida.
— Você...?
— Por favor, não vá. – Sakura pediu, Sasuke, segurou-a e levou até a cama, deitou-a, e acariciou sua testa, verificando o selo. Estava inteiro e revigorado, mas ela definitivamente estava febril.
Talvez houvesse passado tempo demais brincando lá fora.
Ele não gostou de deixa-la assim, mas sabia que estaria bem, desde que Togame cuidaria dela.
Beijou sua testa, como despedida, e por fim saiu, com pressa.
Sasuke chegou ao pátio externo, vendo o barco já a espera, suspirou, novamente, e se inflamando por completo, tomou a forma de um falcão gigantesco que alçou voo em impressionante velocidade.
Karin desceu do barco apressada, o sorriso que havia se formado em seu rosto desde o momento em que havia saído do escritório se desfizera, assim que viu ave em flamas ficar cada vez mais distante.
— Senhora... Ainda vamos partir...?
Karin engoliu em seco, e já sabia que ninguém contaria mais uma vez em que ela continuou seguindo Sasuke, nem ela.
— Claro que vamos.
¤
Sakura se sentou bruscamente, e foi empurrada por Togame, que pressionava um pano molhado em sua testa.
— Senhora, aquiete-se por favor, está ardendo em febre!
— Onde ele está? Onde ele foi?!
— Kagutsuchi irá retornar logo, acredite, é uma reunião comum...
— Reunião? Que tipo de reunião?! – Togame suspirou, um pouco tensa.
— Com os deuses, vão se reunir e discutir os últimos acontecimentos... Aqui no reino...
— Se refere... A mim.
— Não tem que se preocupar! É normal, como você, já sabe, foi uma surpresa que se tornasse uma oferenda então...
— Continua sendo culpa minha! Eles... – Sakura empurrou as cobertas e se levantou da cama, o movimento brusco a fez ter vertigens.
— Sakura-sama! Por favor, você está com uma febre muito alta, e, honestamente, não fazemos ideia do que está havendo.
— Onde é essa reunião? – Sakura interrogou, cobrindo a boca quando sentiu ânsia de vômito.
“Podemos ir até lá”.
— Não pode ir até lá, senhora. Ahaji é muito longe, e ninguém pode entrar uma vez que os deuses se reúnem diante aquele que convida.
— Aquele...?
— Izanagi-sama, pai de Kagutsuchi-sama.
“Vamos até lá!”
Sakura sentiu o estomago saltar, e quase vomitou, sentia o suor frio, e sacudiu a cabeça.
— Eu preciso ir até lá. – Balbuciou.
— Não há como ir, senhora.
— Preciso tentar.
— Sakura-sama, eles nunca aceitariam a presença de uma humana em tal lugar.
Sakura apertou os olhos, dolorosamente. Isso poderia ser verdade mas...
Jogou a vista para a exuberante caixa esculpida em jade agora pousada sobre sua penteadeira, Sakura caminhou até lá e abriu, observando o maravilho conjunto de enfeites e adornos guardados.
Ela rapidamente afrouxou o obi que vestia, e foi largando as peças no chão.
— Uma humana não. – Declarou. — Mas a esposa do Kagutsuchi, talvez.
¤
Sakura chegou à saída muito apressada, cercada de aias, que pareciam querer apará-la a qualquer momento. E ela realmente não poderia negar que estava para cair.
— Quanto tempo até o barco poder sair?
— Não muito, mas deve entender que está muito longe, senhora, nas suas condições... Nem sabemos se pode chegar lá.
— O barco é muito lento, também...
— Não há como saber nem se achará o caminho. – Togame, alertou. — Ahaji não é fácil de encontrar nem para outros deuses, justamente porque Izanagi-sama não gosta de ser incomodado.
— Mesmo que ache o caminho, não existe certeza de que chegará lá.
Sakura olhou para o céu, estremecendo de frio, mesmo que suasse sob as suntuosas vestes que trajava.
O desespero parecia ser sua verdadeira doença, pois quanto mais tempo passava, mais perto ela se sentia de estar perto de ser jogada no verdadeiro abismo.
Chorar agora parecia inevitável, ela sentia claramente que estava indo para uma viajem sem rumo e sem propósito, ainda assim era tudo o que tinha, não havia sensação pior que essa.
“Nós podemos chegar lá”
Nós quem? Ela se perguntava, e por que parecia que estava cada vez mais dada a ter essas vozes em sua cabeça.
Primeiro aquela, clara e enigmática, que ela ouvira no rio quando ainda era uma raposa.
Agora esta, que mal consegui distinguir da própria, um tanto mais cristalina e carinhosa, do que esperado, considerando que aparentemente falava consigo mesma.
“Não pergunte quem, pergunte como!”
Ah, e com essa empolgação pueril definitivamente nada apropriada para o momento, deixava-a ainda mais nervosa, seus nervos em frangalhos.
“Me desculpe, é que não posso evitar...”
— Quem é você...? – Ela choramingou.
“Irá descobrir na hora certa. Tudo tem seu momento, começo, meio e fim. Nosso momento ainda está por iniciar.”
Sakura esfregou os olhos, cada vez mais assustada, antes era mais fácil achar que era ela mesma pensando quando ouvia frases curtas e soltas, mas agora...
Se ela ao menos pudesse chegar até Sasuke.
“Nós podemos ir lá”
— Como...?
“Existe um modo, mas terá de fazer algo, algo por mim.”
— Por... Você...?
“Sim, sim”
— E isto é...? – Ela não pode deixar de apertar as mãos contra o peito, temerosa, não queria nem poderia cair noutra armadilha, seja de sua própria cabeça ou de alguém brincando com ela.
A voz retornou, agora um tanto tímida e meio manhosa.
“Você terá que... Ter fé.”
— Fé...? Diz, orar?
— Sakura-sama! O barco! – Togame avisou-a, Sakura se espantou, e olhou para trás, não sabendo mais o que fazer.
“Sim... Nós podemos conseguir, mas preciso da sua ajuda... Eu sei que é muito presunçoso... Mas não existe ninguém além de você que possa fazê-lo”
— Ter fé... Mas eu nem o conheço...?
“Bem, é disto que a fé se trata, não? Acreditar, independente do que se é, ou se pode ou não ver. Por favor, acredite em mim.”
Sakura juntou as mãos e fechou os olhos, não tinha certeza disso, mas definitivamente havia algo lá dentro dela, dizendo-a para continuar acreditando.
E não custava nada tentar.
— Por favor, me leve até lá, eu o peço.
“Então, assim será”.
Calor inundou Sakura de dentro para fora. Ela ouviu exclamações de choque, mas quando deu-se conta já estava acima do chão, e seus braços eram asas de fogo, seu corpo uma ave majestosa e mesmo seu cabelo era uma longa flama.
E ela olhou para cima, e sem nem sequer perceber, um novo instinto a tomou, ela bateu suas asas inflamadas, e ganhou os céus em direção a Ahaji.
Em direção a Sasuke, e em direção ao cumprimento de seu destino.
Suitopi = Flor de Ervilha Doce, significa Despedida.
Hinagiku = Margarida, significa Fé.
Ahaji*
Local onde Izanagi escolheu repousar desde que deu por terminada sua missão de criação.
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