The Bride Of The Fire God
2 Sakuraso e Shiragiko.
Notas iniciais

— Senhor! Não vai acreditar! Os humanos!
— Já não disse que não me interessam os humanos?
— Senhor. Eles mandaram uma pessoa, uma noiva!
O choque e o burburinho tomaram a pequena corte, aquele que chamam Kagutsuchi e outros muitos nomes, ainda impassível em seu trono, jogou um olho carmesim sobre o servo.
— Está dizendo que...
O empregado assentiu, nervosamente sob seu olhar.
— Um humano acaba de chegar ao Reino do Fogo.
¤
Sakura constatou que flutuava. A água era morninha, e sentia cheiro de flores, e este mesmo calor e a ardência na pele de suas costas que a despertaram da letargia como se fosse um pesadelo.
Ergueu o tronco e percebeu que onde estava era raso o bastante para se sentar, a água ficara a altura de seus ombros.
Seus olhos varreram a água, era realmente morna, e peixes de caudas espiraladas e cores das mais quentes e escuras, nadavam ao seu redor, plantas aquáticas e flores exuberantes que ela nunca vira na vida abriam-se sob um forte sol.
Sakura cobriu um pouco a vista e olhou para cima, notou que próximo de si havia uma ponte de madeira vermelha, parecia que ela estava numa piscina rasa, ruas de pedra com estátuas de dragões passavam ao lado dela e então notou prédios, prédios enormes, palacetes tradicionais tão belos quanto qualquer um que ela já tivesse visto na vida ou mesmo num filme de fantasia.
Eram vermelhos, dourados, rodeados de frondosas árvores de bordo japonês.
Sakura ouviu vozes e então notou pessoas paradas na ponte, ela podia dizer que eram pessoas?
Eram absolutamente belas e vestiam trajes suntuosos das mais variadas cores e em camadas. Damas de peles alvas e cabelos em penteados assombrosamente complicados, com joias tradicionais e maquiagem perfeita.
Essas pessoas a olhavam como se ela fosse um bicho. Sakura olhou para si mesma pela primeira vez.
Seu conjunto social era uma saia lápis e blazer cinzentos, uma blusa social branca e meias pretas.
O frágil tecido da meia calça estava cheiro de furos por onde ela podia ver sua pele avermelhada, seu cabelo havia se soltado da presilha e as longas mechas enroscavam-se no pescoço e roupas. Seu simples sutiã era visível através da camisa molhada e horrorizada com os olhares e constrangimento ela se embolou com o blazer ciente de que não receberia ajuda alguma desses estranhos.
Sua pele ardia como se tivesse sido fervida.
— Pobre criatura. Humanos são pura lástima...
— E pensar que ainda seriam capazes de algo assim depois de tanto tempo...
Ela apertou as mãos contra os ouvidos e pela primeira vez em muito tempo, orou e suplicou por ajuda.
Braços longos e fortes ergueram-na como se fosse nada e Sakura tirou o rosto para fora, deparando-se primeiro com uma sombra sobre si.
Algo definitivamente voou acima deles e ela foi momentaneamente tomada pelo assombro de ver um barco luxuoso e tradicional flutuar acima deles.
Quando ele se foi, sumindo no céu temperado pelas cores do poente. Sakura também viu o monte Fuji, e diferente dos cartões postais ele era inteiro quase até o topo, recoberto por um campo vermelho.
Essa cor estava também os olhos da pessoa que a tinha nos braços agora.
Um homem de pele branca como cera, cabelos escuros e escorridos sob a face talhada por um maxilar quadrado, lábios finos e nariz reto.
Ele fitou-a por um momento, estudando-a, seus olhos, o cabelo, a flor de cristal presa nele foi o que o fez libertar uma ligeira expressão de choque.
Mas então seus lábios sorriram meio que contrariados, desistentes e fechou os olhos brevemente, suspirando, parecendo achar graça de algo e então disse:
— Parece que perdi a aposta...- Sua voz ecoou como um sopro quente na alma de Sakura. Abriu os olhos e eles eram tão escuros quanto o cabelo ou a noite que se aproximava. — Sendo assim, me resta aceitar paga-la. Então, seja bem vinda ao Reino do Fogo, botão de cerejeira, agora, será a minha noiva.
¤
Sakura abriu os olhos e chorou, não sabia por que chorava, não era um choro fruto da sua própria dor, mas algo que simplesmente a tomava, misturado a temor, confusão e indignação.
Não era dela, mas de alguma forma ligava-se a ela. As próprias emoções de Sakura encontravam-se soterradas.
Aos soluços que não podia controlar, ela se sentou, estava numa enorme cama baixa, de dossel amplo e aberto, cortinas de seda balançavam suavemente com uma brisa fresca.
Estava num aposento puramente luxuoso, havia uma penteadeira, baús e um bimbo ricamente decorados, as paredes eram avermelhadas assim como o chão, dragões que pareciam de ouro a vigiavam de seus pedestais que seguravam as tochas.
A sua direita havia uma cortina, ela empurrou-a e pousou o pé no chão, deparou-se com janelas enormes abertas e baixas, facilmente passou através delas e encontrou um estreito caminho entre a janela e uma piscina de água brilhando sob a lua crescente. Os céus tinham tantas estrelas, tantas que ela podia jurar que se moviam, e percebeu estar na área externa de um grandioso complexo.
Pontes cruzavam as piscinas, carpas nadavam nelas, flores de lótus abriam-se para a noite e o cheiro de um relaxante e refinado incenso vinha pelo ar.
Ela caminhou a beira da piscina, continuava chorando e mais e mais assustada. Percebeu que vestia uma longuíssima e cheia de drapeados, camisola de linho, e no reflexo da água seu cabelo brilhava longo, solto e penteado, tão fino que sob a lua, pareciam fios de prata.
Aquela era ela mesmo?
De toda forma, continuou fugindo, sem saber de quê ou para onde.
Talvez ao fim desse novo sonho estranho.
¤
— Você surpreende a cada dia. O que vai fazer, Sasuke? – Shikamaru, um deus do comércio e um dos muitos filhos de Ebisu, este um dos sete deuses da Fortuna, o indagou com seu habitual semblante tedioso.
Sasuke permaneceu atento ao tabuleiro de Shogi. Shikamaru era muito bom com contas e também com estratégias.
Era umas poucas pessoas que poderia realmente ser um desafio no jogo de tabuleiro.
— Nada que não seja novidade. Seguirei os procedimentos costumeiros, é claro.
Shikamaru riu, balançando a cabeça, nesse momento, Karin uma jovem deusa montanhesa, filha de um pequeno deus pescador, parou de tocar seu shimasen, interrompendo a admirável melodia que tocava.
Seu semblante se fechou em surpresa e revolta contidas, Shikamaru apenas retornou a atenção para as peças.
Achando que seria problemático assistir Sasuke lidar com essa situação toda achando que seria simples.
Houve um tempo que era comum os deuses tomarem oferendas humanas, sacrifícios e noivas em troca de favores e bençãos. Mas os tempos mudaram, a prática se tornou hedionda e mesmo Kagutsuchi passou a dar pouca importância a isso.
A maioria dos deuses cortou relação com os humanos há muito tempo, os mortais passaram a adorar outras coisas e a menosprezar os deuses, aqueles que podiam manter-se firmes sem necessitar de sua fé, prosseguiram, muitos outros tiveram sua existência findada junto com o fim das práticas orais que perpetuavam seu nome na mente das gerações mortais. Aos filhos dos deuses, pouco importava a crença humana ou mesmo assisti-la.
Mas Sasuke andava meio agitado e irritado, depois que Susanoo, os deus dos oceanos e tempestades o desafiou dizendo que os humanos o temiam mais do que a Kagutsuchi o deus que achavam estar morto – Sasuke reviveu sua ira e orgulho como Deus absoluto do fogo, fez os vulcões do mundo humano e divino rugirem e ameaçarem.
Foi uma confusão que há séculos não se via.
Diante isso, Amaterasu veio apartá-los, Susanoo se recolheu de volta aos mares do reino da água, muito cheio de si para aceitar que quando o chão tremeu e a lava ameaçou emergir, isso amedrontou a todos mesmo os de fora do reino do fogo.
Sasuke então, satisfeito, permaneceu fazendo sua ameaça valer com apenas alguns tremores que provavelmente assustaram muito os do mundo humano.
Não poderiam adivinhar que os humanos se assustariam tanto que até mesmo reviveriam costumes primitivos na tentativa de aplacar o deus.
Agora havia uma humana no reino do Fogo, e Sasuke realmente a tomaria como noiva.
Shikamaru ainda estava intrigado, normalmente o deus ficaria apenas aborrecido por seus planos terem rendido problemas e mandaria a garota para o Yomi — reino dos mortos, onde era o lugar dela, mas o contrário disso, ele realmente seguiria o costume e casaria com ela?
Havia algo nisso, Shikamaru só torceria para que não tivesse mais haver com aquelas pessoas.
Ou aí sim, seria muito problemático.
— Senhor. – O criado aproximou-se, em reverência. — A criança humana despertou, está fugindo de nós e está muito perturbada.
Sasuke arqueou o cenho, na direção dele e seu olhar se estreitou.
— Perturbada...?
— Acho que... as Lamentações estão chegando até ela.
Sasuke então se levantou, atravessando o salão, desta vez Karin não se conteve e se levantou, seguindo-o com os tecidos avermelhados de seus trajes farfalhando em torno.
— O que vai fazer? – Indagou, ansiosamente.
As portas foram abertas para a passagem dele, dando a visão dos jardins de piscinas termais que embelezavam a fachada do palácio e as dezenas de pontes que as cruzavam.
O corpo do deus imediatamente se inflamou enquanto ele caminhava.
— Naturalmente, irei buscar a minha noiva. – Declarou, seus braços abriram-se e na forma de um pássaro gigante, ele alçou voo para o céu noturno tomado pelo brilho das estrelas.
¤
— Não se aproxime dela!
— E como vamos leva-la de volta?!
Sakura permaneceu encolhida sob uma pequena ponte, abraçada aos joelhos, tentava abafar a aflição que pesava em seu peito.
Os homens continuaram discutindo entre si, portavam lanças e até mesmo espadas fazendo-a se perguntar se havia ido parar numa espécie de nova dimensão do Japão feudal ou mesmo o passado.
De repente um sibilo alto encheu o ambiente e uma luz quente veio de cima, Sakura escutou o burburinho assombrado e ergueu os olhos, e engatinhou para fora do esconderijo.
Deparou-se com uma imensa ave de fogo vindo para baixo, Sakura podia sentir o calor ainda a distância e embora a assustasse, não era um calor claramente perigoso.
Observou aquela imagem completamente encantada, a ave pousou no solo e calmamente regrediu de tamanho.
Até que a sua frente havia apenas um homem, que sequer ela poderia dizer que era um homem.
Suas vestes eram longas e de tecidos nobres, cheias de bordados intrincados, seus olhos eram escuros e a fitavam de forma terna até.
Ainda assim, era algo grandioso e assustador demais para não se intimidar.
Aproximando-se sem pressa, ele então parou e levou sua grande mão na direção dela.
— Pobre botão, isto vai aliviar seu sofrimento e impedir que se despedace.
Sakura entreabriu os lábios, muito desnorteada para entender, o indicador dele tocou o centro de sua testa e um losango escuro formou-se imediatamente. Ela pode sentir o calor naquele ponto, arder e parecer se espalhar, seu peito perdeu todo o peso que sentia desde que acordara, a aflição, dor, medo e desolação pareceram evaporar deixando-a com uma sensação leve como flutuar na água de um rio.
Sakura fechou os olhos e apenas se entregou ao sono que sentiu, caindo para a frente, o deus a colheu nos braços e se levantou, passando a caminhar de volta ao castelo.
— Quantas lágrimas... Você não disse que se tornaria a mais bonita de todas?
— Quem é você? – Ela sussurrou, sonolenta.
— Vai descobrir logo.
Sakuraso = Prímula, significa Desespero.
Shiragiko— Crisântemo Branco, significa Verdade e Tristeza.
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