Notas iniciais
Yooooooo! Voltei mais cedo pq finalmente terminei um trabalho bem cansativo e to de bom humor rs

Quando Sakura despertou, estava novamente naquele quarto, havia luz do sol por todo o cômodo, as cortinas abertas a deram a mais bela visão que alguém poderia ter ao despertar.

O céu absolutamente anil, as piscinas brilhando, a beleza real das construções ao redor, absolutamente magníficas.

Ela sentou na cama, observando o quarto, e segundos depois várias mulheres o invadiram, portando dezenas de caixas de madeira e tecidos dobrados, muito apressadas.

— Está ficando tarde e ela sequer comeu algo!

Eram todas muito parecidas, cabelos pretos e peles claras, maquiadas quase como gueixas mas tão ricamente vestidas quanto qualquer uma já vista. Seus penteados eram mais simples porém adornados com exuberantes flores de tons quentes.

As mais novas puxaram-na da cama sem cerimônias, falavam muito depressa e Sakura mau viu quando fora enfiada num ofurô quentinho, cheio de ervas e flores que deixavam a água muito perfumada, escovaram-na em lugares que uma pessoa só deveria escovar ela mesma e seu cabelo nunca fora massageado e penteado tão bem.

Uma vez fora da banheira, secou-se e logo passaram cremes perfumados em sua pele. Massagearam-na e enfiaram numa espécie de camisola de cetim brilhante e vermelho como sangue, repleto de finos bordados em fios de ouro e prata.

Sakura nunca vira tanta opulência na vida, e se perguntou se estava certo continuar deixando seja lá o que fosse acontecer como se fosse um sonho mesmo.

Depois da camisola, puseram-na em vestes pesadas, varias camadas de quimonos de seda como um jūni-hitoe, as cores predominantes eram quentes e estava ficando cada vez mais pesado e complicado de se mover naquilo.

— Você nunca usou algo assim? Como eu temia, ela vem de baixa estirpe!

— A estirpe não importa. – A mais velha delas disse, enquanto pintava os lábios de Sakura com um pincel fino como se ela fosse um quadro. — O que importa é que possa se adaptar daqui em diante...

— Com licença... Mas o que está acontecendo exatamente...?

As outras praticamente se descabelaram de indignação e choque, mas a mais velha continuou sua função, sem abalo e com um breve suspiro.

— Isto tudo não é um sonho, minha criança.

Sakura afastou o rosto, encarando-a consternada.

— Eh...?

— Você foi dada como sacrifício ao deus do fogo, e ele aceitou. Agora é a sua noiva. Sua vida no reino humano acabou, e permanecerá aqui por que Kagutsuchi-sama aceitou honrar o sacrifício, mesmo que não o tivesse pedido.

— Sacrifício... Eu...? – Balbuciou, empalidecendo, levou as mãos ao cabelo enquanto era sugada por lembranças terríveis.

Recordou da saída do trabalho, daquela gente horrorosa, os jornais na parede falando sobre as atividades sísmicas.

— Como não... Como não pediu...? Os vulcões... Eu lembro, do jornal do-do... Então foi ele... É culpa dele!

— Kagutsuchi-sama não queria uma noiva. Ele apenas respondeu a um desafio arrogante. Na verdade, você bem sabe que não se sacrifica mais mortais aos deuses. Foi um mau entendido, deuses são semelhantes aos humanos, com temperamentos, a diferença é que tem grande poder e nem sempre podem controlar sua verdadeira natureza, e ele tampouco assiste aos humanos. Não haveria como adivinhar que ainda existissem humanos que fariam isso...

Sakura jogou os olhos para a cama, numa mesinha próxima, estava a flor que a acompanhava desde um sonho da infância. E recordou claramente as palavras daquele homem antes de ser atirada num poço de lava.

Seguiu até lá, pegando-a e mostrou á mulher.

— Isto, e isto? Exigiu? Foi mesmo uma coincidência?

A mulher fitou a flor, mas por fim encolheu os ombros.

— Não sei a resposta correta... Mas se posso arriscar, talvez isto seja o motivo pelo qual você foi aceita como oferenda mesmo não tendo sido exigida.

— O que isso significa?

— Se o deus não a tivesse aceitado... Faz ideia de onde estaria agora?

— Eu...?

— No mundo humano, de volta ao que conhecia é que não é. Você estaria perdida, em algum lugar na fronteira, ou pior, no Yomi. Uma oferenda rejeitada, uma morte sem sentido, você seria um fantasma.

¤

Kagutsuchi não se importava muito com detalhes oficiais. De modo que não fez grande caso sobre convidar alguém para essa união.

Já foi abrupto o bastante que uma noiva humana emergisse das piscinas termais depois de séculos. Ele ainda recordava da última, havia aceitado apenas três ao todo.

Frágeis vidas humanas, cem anos para eles não eram mais que uma lembrança curta para os deuses.

Havia a opção de estender a vida da noiva o quanto quisesse, mas Sasuke não vira motivos para estagnar o ciclo das suas noivas. Cuidou de cada uma, assistiu cada dia em que sua beleza murchava aos poucos ou mesmo quando fora interrompida abruptamente e transformou cada uma delas em estrelas mais brilhantes no céu do reino do fogo.

As três noivas poderiam ser avistadas sempre a cada amanhecer e sumiam com a vinda do crepúsculo, simbolizando a efemeridade de sua existência, porém também, que nem por isso mereciam ser esquecidas.

Sasuke percebeu que estava iniciando isso de novo, no entanto, nem na primeira vez que perdeu uma noiva para a mortalidade, ele se viu incomodado com a ideia de ter de se separar de uma delas e apenas observa-las no céu eternamente marcadas na imensidão celeste.

Mas, julgou que fosse falta de prática, ou talvez por que a noiva de agora viera de uma forma que ele nunca julgara possível, ou mesmo fosse despeito por perder uma aposta para si mesmo e o tal Destino, a quem desafiou.

Então apenas não pensaria no fim que provavelmente seria como um breve suspiro ao longo de sua existência, e aproveitaria esse novo momento, acompanhado daquela criatura tão delicada, como pétalas de dente de leão sob o vento.

— Senhor, alguém acaba de chegar ao reino do fogo. – Uma criada anunciou, Sasuke a fitou, saindo das reflexões.

— Não diga que...

— Outra noiva?! – Shikamaru exclamou, mas a mulher negou logo.

— Não senhor, é um deus.

— Ah...

Kagutsuchi se levantou, acompanhado de Shikamaru, seguiu para a frente do palacete, as criadas e os músicos se posicionavam na grande sala, instrumentos tradicionais, mesas com o banquete e as belas tennyos, dançarinas dos céus, que estavam sempre observando tudo lá das nuvens, não perderam tempo em vir oferecer sua dança em troca de aproveitar o pequeno evento de perto.

Eram, resumidamente, as maiores fofoqueiras do céu divino.

Porém sua dança era a mais bela de todas, quando sacudiam seus hagoromos, encantavam a qualquer um e Sasuke prezava o bom gosto.

Saindo, olhou para o céu azul onde apenas as três noivas disputavam atenção com o sol. Três pontos em ascendente.

A primeira chamara-se Kirihana, a segunda, Aoi, e a última, Nanami. E isso já fazia milênios.

Ele também viu uma enorme kitsune laranja de nove caudas voando na direção deles, ela desviou das nuvens, girando no ar e desceu num rasante até pousar na piscina e ali permanecer como se fosse seu ofurô particular.

Kurama continuava ranzinza e folgada, Sasuke observou, já aborrecido.

Naruto Uzumaki, filho de um deus do vento e uma deusa montanhesa desceu das costas de Kurama, escorregando para a calçada, suas vestes laranjas sempre chamativas demais e a espada sempre atada a cintura, seguiu até Sasuke ignorando os cumprimentos das criadas, com uma expressão dura e irritada que era rara.

Sasuke se permitiu saborear isso um pouquinho.

— Seu grande patife! – Naruto esbravejou. — O que deu em sua cabeça? Para exigir sacrifícios a essa altura?! Não posso crer que esteja tão por fora do avanço da humanidade, Sasuke!

— Não exatamente. – Sasuke deu de ombros e começou a retornar para dentro.

— Shikamaru. – Naruto cumprimentou rapidamente, seguindo o deus do fogo, irritado. — Não me dê as costas! Explique-se! Por que tem apavorado os humanos?!

— Esteve na terra outra vez?

— Sempre vou lá para...

— Se divertir? – Sasuke assinalou, o fitando com sarcasmo. — Nos poupe do discurso, não estava no mundo humano fazendo algo por eles. Mas quanto a apavora-los, não foi bem essa a intenção embora tenha acontecido.

— Susanoo...?

— Ele me desafiou. Só por que estou quieto, não estou com medo de ninguém, ou abaixo. Mas Amaterasu já veio bancar a apaziguadora, então pode se poupar disso também.

— Seu... E quanto a esta festa?! Vai negar que não aceitou uma noiva humana?

— Eu não a pedi, não esperava que ainda houvessem humanos que acreditassem na prática das oferendas. Você que ama estar com eles, não sabia? Pois se não, eu muito menos. Porém, uma oferenda é uma oferenda.

— Você...

Sasuke sentou em seu trono calmamente e fitou as portas laterais dando o sinal para que pudessem iniciar essa pequena trivialidade.

— O que queria que eu fizesse? Deixasse a pobre humana morrer em vão? Você que ama os humanos. Acharia isso justo?

— Não, mas... Tomá-la como noiva...

— Apenas aceitei o propósito dela, e ela aprenderá a aceitá-lo tal como as outras. Isto não está mais em pauta, Naruto. Eu aceitei uma nova esposa. – Estreitando os olhos perigosamente atento, o deus completou. — E me admira você estar incomodado com isso...

Naruto fechou os lábios e punhos com resignação forçada. Shikamaru alternou os olhos entre eles, ainda preocupado mas se tranquilizou mais quando a música começou a tocar, as tennyos, muito animadas, eram as que mais aproveitavam o evento. Sentadas em zabutons, esperando ansiosamente para verem a noiva e poderem começar a falar sobre isso.

Eis uma rara beleza floral

Ela é botão de renovação

Eis uma rara beleza floral

Vem do profundo calor do vulcão

Eis uma rara beleza floral

Sua tez, seda e coral

Em todo reino não existe outra igual

Uma cantora entoou docemente enquanto a noiva entrava trajando as cores do fogo, um manto cobria sua cabeça, escondendo a maior parte do rosto, e ela avançou o mais calmamente possível.

Seu cabelo era rosa e longo na altura dos quadris, e enfeites pendiam ao lado do rosto, as camadas de kimono arrastavam-se atrás suavemente.

Eis uma rara beleza floral

Um olhar, e os campos rejuvenescem

Eis uma rara beleza floral

Um beijo seu, vale mais que as joias do imperador

Eis uma rara beleza floral

Um sorriso e o império cairá

Eis esta rara beleza floral

Ao senhor do Fogo vem desposar

Eis sua rara beleza floral

Ela parou diante dos degraus para o trono, Sasuke se levantou e desceu, levou as mãos á peça que cobria sua feição e retirou-a, entregando á criada que seguia.

O cabelo dela havia sido adornado com enfeites e flores do campo miúdas e brancas em torno das lycoris, flores de lótus e um ramo de glicínia no centro do penteado. A pele ressaltada com fino pó branco destacara admiravelmente seus olhos verdes e os lábios tingidos de vermelho.

Ela relutantemente o fitou, muito intimidada para dizer algo e Sasuke decidiu que ela estava certa.

— Eu pedia apenas uma noiva bonita, para que a mais bela não sofresse a tristeza de deixar de embelezar o horrendo mundo humano...- Iniciou.

— O-oe, Sasuke! O que está dizendo grosseiramente...- Naruto protestou.

— No entanto, sem nem mesmo eu pedir uma noiva. – Ele continuou, satisfeito, virando-se e ficando ao lado dela. — Eles me deram realmente a mais bela?

Sua forma de falar, ao menos para Sakura, soou tão natural que ela não poderia dizer se era realmente um elogio. Tampouco tinha a mínima coragem de responder algo ainda diante tantos estranhos.

Permaneceu calada, enquanto era conduzida para o assento no topo do degrau, uma espécie de liteira baixa, confortavelmente forrada de tecidos caros e almofadas, Sakura tentou não tropeçar ao sentar, mas ficou ainda mais sem jeito por ele sentar ao seu lado.

Kagutsuchi, para um temível deus do fogo, soava bastante ameno, e Sakura podia sentir calor emanar dele.

Até onde sabia Kagutsuchi não era um deus “morto”? Que foi desmembrado pelo próprio pai logo após o nascimento?

Se ele era o deus do fogo... Bem, não era como se pudesse desafia-lo a provar. Já havia caído num poço de lava antes e não a agradava pensar em cair em outro.

Ele acenou ligeiramente e os músicos iniciaram outras músicas, Sakura ficou observando, evitando qualquer olhar direto, cheia de fome, a comida estava longe demais ainda.

Aparentemente não haveria nada como uma cerimônia, ela se tornara a noiva do deus no momento que fora jogada no poço, e sua esposa no momento em que ele a aceitara no reino, então isso era somente uma espécie de recepção.

Sentindo algo roçar suas costas e passar por baixo de seu braço esquerdo. Ela ergueu-o vendo uma criaturinha do tamanho de um cão pequeno, seu pelo era laranja tão forte que quase parecia vermelho, e abanava suavemente um grande conjunto de caudas.

Ele parou a sua frente e voltou-se para ela, Sakura ficou encarando o bicho, incapaz de esboçar algo e apenas receosa de alguma hostilidade.

Ele retornou, encarando-a com olhos expressivos e de ar curioso e se deitou em seu colo. Ela manteve as mãos afastadas, com receio e observou-o se estirar como um cãozinho qualquer.

Sakura afagou seu focinho delicadamente, até perceber que ele estava gostando. Pegou-o com as mãos, segurando por baixo de suas pernas da frente e levantou, olhando-a.

— Uma... Kitsune...? – Indagou, olhando as caudas felpudas balançando.

A raposa se debateu, soltando-se de suas mãos para se jogar no colo dela e se estirar deixando o estomago á mostra.

Sakura ficou primeiramente surpresa e então riu, concluindo que ao menos os animais pareciam como animais, e coçou a barriga da raposa que regougou apreciando bastante.

Só então ela notou que havia algo a observando, olhou para frente e deu com uma ave estranha, era mediana, suas penas eram pretas e o bico de um azul intenso, assim com nas penas da cauda, tinha um penacho no topo da cabeça que era meio engraçadinho, como um topete.

A ave a fitou de volta e então voou para o joelho dela, aproximando-se mais até esfregar a cabeça em seu cotovelo, Sakura acariciou o penacho, muito macio e ela gorgolejou animada.

De algum modo, isso simplesmente foi crescendo, outras aves apareceram, um gato preto, um enorme cão de pelo rajado, e um lagarto ou iguana de meio metro e couraça em tom de poente.

— Saiam daqui, saiam daqui...- Suplicava baixinho, tentando espanta-los discretamente mas quanto mais tentava, mais eles se jogavam em torno dela e se esfregavam com manha.

Sakura não fazia ideia de como isso foi acontecer, ou de onde eles vieram, só sabia que era um milagre ninguém mais na festa estar olhando aquele absurdo.

Mesmo o homem ao seu lado, estava distraído o bastante, por enquanto.

— Então é isto. Vou me retirar pois está muito tarde...- O homem loiro disse, seu cabelo era meio curto, mas ele parecia ter não mais que trinta anos, parecia muito enérgico desde as cores das roupas ao temperamento, um oposto claro ao Kagutsuchi, ao lado dela. — Continue sensato, Sasuke, mesmo que a seu modo? Enfim, quanto a sua noiva...

— Eh?! – Ela exclamou, os encarando de volta e eles a ela.

O cão estava estirado atrás de suas costas, o gato, a kitsune e a iguana disputavam espaço no colo e os pássaros insistiam em pousar nos ombros ou na cabeça dela.

Sakura só sentiu-se tão constrangida assim na época do colégio, quando tropeçou n frente do senpai que pretendia se declarar.

Sasuke suspirou, aborrecidamente.

— Estas criaturas não perdem uma chance... Saiam. – Ordenou, com um tom mais duro, as aves voaram, o cão partiu ganindo um pouco, o gato saltou se espreguiçando e a iguana saiu sem muita pressa. A raposa pareceu ignorar e Sasuke a encarou diretamente.

— Kurama! Não vá se espalhando! – Naruto repreendeu e a raposa só então saltou das pernas dela, se esticando e bocejando, se aproximou parando ao lado dele e fitando Sakura. — Você, seu aproveitador, fique longe da moça!

— Ora, o que eu poderia fazer? – Uma voz bastante grossa ecoou da garganta da raposa e Sakura jurou que estava sendo fitada com malícia por aqueles olhos avermelhados. — Ela tem uma aura atraente, seus dedos são macios, foi a melhor massagem em séculos.

— Seu grande...

— Está falando...? — Sakura balbuciou, pálida, apontando pra ele.

— Hm? Claro que fala, até demais. – Sasuke disse, os braços cruzados.

— Er... Acho que ela não tinha percebido...? – Shikamaru comentou, vendo-a empalidecer ainda mais e amolecer.

Kurama riu, a malditazinha sádica e Naruto catou-a pelo couro.

— Venha aqui! Estou me retirando, Sasuke! Você também deveria ir cuidar da sua noiva.

Eles simplesmente saíram do salão discutindo.

Tinha uma raposa falando palavrões e ninguém estava realmente chocado com isso além de Sakura.

— Togame-san. – Sasuke chamou, e a mais velha das criadas que esteve com Sakura quase o dia inteiro se aproximou, reverenciando. — Leve-a para os meus aposentos e alimente-a, ela não comeu desde que chegou?

— Peço perdão, mestre.

— Hn, não se esqueça que o corpo dela ainda é humano, apenas isso.

— Hai.

Sakura sentiu uma leve tontura ao se erguer, ainda mais com todas aquelas roupas. Tentou não se firmar em ninguém mesmo que suas pernas tremessem depois de tanto tempo sentada.

Seguiu a comitiva de damas para a saída do salão, aliviada de isso estar tendo fim por agora.

Kagutsuchi se deitou de lado, observando-a sumir através das portas, segurando o tokkuri cheio de saquê.

— Veja só, ela estava a ponto de colapsar de novo mas permaneceu seguindo em frente... Humanos...

Shikamaru o fitou de lado, desconfiado.

— Testando a resiliência dela? Por isso a ignorou o tempo todo?

Sasuke encarou o vasilhame de cerâmica, pensativo.

Talvez? Ele não sentira necessidade de tomar assunto com ela, não por desprezo, mas por ela estar muito mais desconfortável que as outras noivas.

As antigas vieram sabendo seu propósito e aceitavam o que viria depois, obedientemente, com tranquilidade até, ainda mais depois de saber que o reino do fogo não era algo como um inferno e nem ele um tipo de monstro ou dragão temível como as lendas contavam.

Então sentiu-se até mesmo intimidado para comunicar-se com ela, e até mesmo irritado pelos animais terem tido mais intimidade com sua noiva do que ele, que sequer sabia seu nome, ou pelo próprio fora chamado.

— Não ignorei... Não ignoro...- Concluiu.

Definitivamente, a notava até demais.

¤

Sakura, agora sozinha, passou os olhos em torno do magnífico aposento que se encontrava.

Diferente daquele em que esteve até então este era mais amplo, mais luxuoso e intimidante.

Algo que se poderia esperar do quarto de um deus, certamente.

Havia ouro nos detalhes dos móveis e objetos, a cama era enorme coberta de tecidos escuros e suntuosos, havia uma estante abarrotada de rolos com pergaminhos, e uma mesa próxima a uma das amplas janelas com mais rolos abertos e espalhados.

Sakura deixou o macio e divinamente delicioso bolinho que comia sobre a bandeja e curiosa, aproximou-se da mesa.

Espiou os pergaminhos sem tocar, o tinteiro e a pena usados eram verdadeiras preciosidades. Ela não entendia bem do que se tratavam os pergaminhos, a escrita era lindíssima e muito arcaica também.

Deu atenção ás janelas, empurrando uma cortina, aproximou-se do peitoril, embasbacada pela vista, não haviam piscinas rasas ou pontes, somente a visão distante da montanha que ela já não sabia se seria mesmo Fuji.

Um grande campo de flores antes dele, e mais próximo, um rio cruzava pradaria, como prata escorrendo sob a luz lunar. Ele vinha na direção do palacete, desembocando num único duto, corria e se espalhava por outras ramificações até chegar na maior que ficava exatamente ao pé da janela onde ela estava.

Sakura se inclinou, encantada ao ver peixes tão belos nadando na água cristalina, alguns deles se aproximaram da superfície sem medo, esperando seu contato.

Ela tocou a água com as pontas dos dedos, e imediatamente afastou-se, com um grunhido de dor. Só então notara que a água era tão quente que emitia vapor.

— O rio nasce junto com a lava daquela montanha.

Virou-se, espantada, e só então o vento gelado como inverno parou de soprar um instante e baixou as cortinas. Ela viu então Kagutsuchi parado, observando-a direta e fixamente.

Encolheu-se, segurando os dedos queimados.

— Antes era apenas lava. – Ele prosseguiu, aproximando-se da janela, e Sakura afastou-se um pouco, arisca. O viu se inclinar e tocar a água, onde os peixes vieram mordiscar seus dedos que se quer ficaram vermelhos, enquanto os dela pareciam que teriam bolhas. — Eu fui até lá, no fundo do vulcão, e cavei uma fonte, também pus um feitiço, separando a água da lava, para que uma não abafasse a outra.

— Entrou... Num vulcão? – Sakura ciciou, muito incrédula ainda, mas depois sentiu-se estúpida, afinal se ele era o deus do fogo...

O flagrou sorrindo ligeiramente, sentiu-se ainda mais estúpida.

— Se serve de consolo, também fiquei impressionado na época.

— Hum...?

Ele se sentou na beirada, virando-se, mostrou a mão onde segurava um dos peixes, este se debatia, sua carne inteira era como e fosse transparente, e por dentro, havia algo vermelho nebuloso girando.

Sakura aproximou-se, vendo a criatura se debater, já ia pedir que ele o devolvesse, porém o bichinho se revolveu e algo como pequenas asas de barbatanas brotaram de seu dorso, e com mais energia, ele libertou-se do deus e voou.

Sakura se inclinou na janela, vendo-o voar desajeitadamente acima da água e então mergulhar nela, retornando a nadar tranquilo.

— Tudo aqui se adapta facilmente ás adversidades..- Kagutsuchi comentou, observando com um certo orgulho até. — Os criei assim... Assim seriam mais fortes.

— São tão bonitos...- Ela suspirou, baixando os olhos. — Mas não acho que eu possa ser como eles...

Kagutsuchi tocou sua tez com o dorso da mão, observando o losango que adornaria sua testa de agora em diante.

— Você já é.

Sakura fitou seus olhos escuros, finalmente admitindo que não havia como ignorar quão belo ele era e quantas coisas atraentes e misteriosas exalava.

Ele puxou a mão trazendo seu queixo para si, inspirando, ela teve coragem de se aproximar, mas soltando o ar, ficou muito envergonhada para algo assim e baixou o rosto, escapando do dele e cobrindo com as mãos.

— Não posso... Não ainda. – Admitiu, nervosa e constrangida.

Não era nenhuma adolescente, e embora casar-se não fosse uma meta, também não era como se tivesse desistido totalmente da ideia de se relacionar.

Talvez o abandono do pai e assistir o sofrimento da mãe, a tivessem tornado muito cética com as intenções masculinas, mas esperava agir mais maduramente quando a intimidade com um deles entrasse em pauta.

Bem, mas poderia se culpar? Homem ou deus, ele ainda era um estranho, e ela mal estava lidando com a ideia de que agora pertencia àquele lugar.

Sentiu-o envolver os braços em torno de si, rindo suave e rouco, seu calor e perfume abraçaram-na.

— Que lástima, não? Parece que terei de esperar mais para ver como fica sem esta bela camisola.

Sakura se encolheu mais, ciente do tecido frágil e quase transparente em que ficara depois que se livrou de todos aqueles kimonos.

Ele se levantou, tomando-a nos braços facilmente outra vez. Dirigiu-se até a cama, depositou-a nela.

— De qualquer forma, foi um dia cansativo para ambos, importa-se de dividir a cama?

Ela ainda se importava, mas ele poderia ter sido muito mais exigente, insistente ou simplesmente demonstrar má vontade em aceitar suas condições. Então ao menos poderia ceder para algo assim. Além que era o quarto dele e ela não tinha ideia de como chegaria ao próprio se tentasse.

Negou, calada, e o viu se afastar até um biombo, quando ele sumiu atrás dele. Sakura se virou para um canto da cama, puxando uma coberta e se encolhendo, tentou acalmar o coração e quase o havia esquecido, dada a demora e o cansaço.

A brisa gelada invadiu as janelas sem portas e ela sofreu com o frio mesmo usando o lençol.

— Por que é tão frio...?

— Esta terra é próxima aos reinos do vento e da água, o inverno é rigoroso, e mesmo no verão, as noites são frias. – Ele disse, sentando-se na cama, Sakura olhou por cima do ombro quando uma coberta de pele foi jogada sobre si, e o viu parecer ignorar a brisa de trincar os dentes, usando apenas vestes de linho branco. — Com as águas termais por toda a cidade, ela fica mais aquecida, apenas.

— Cidade... A cidade dos deuses...?

Kagutsuchi riu um pouco, negando enquanto se recostava na almofadas.

— Não apenas para deuses, na verdade, fora eu mesmo, existem apenas alguns que arriscam vir para uma terra tão hostil e distante no continente divino, e todos você viu no salão esta noite. Na cidade habitam todo tipo de seres, os que os humanos conhecem, como dragões e kitsunes, e os que não conhecem. Todo aquele que sente afinidade com esse lugar... Ou que não se sente bem vindo em nenhum outro, pode vir se instalar.

Havia algo de triste no que ele dizia, por mais que estivesse frio, e por mais assustador que parecesse, as construções, as criaturas e natureza dali, eram deslumbrantes para Sakura, então não entendia por que ele falava como se o reino fosse algo como um infeliz exílio ou banimento.

Mas havia muito que não entendia, e por hora estava exausta.

Deitou a cabeça no travesseiro, e timidamente arrastou a mão até a barra da camisa dele, puxando-a.

— Eu acho isto aqui lindo, pode mostrar-me mais... Do que você criou, Kagutsuchi-sama?

Ele fitou-a, consternado e encabulado. Acabou por sorrir, seus dentes brancos e alinhados perfeitamente exibindo-se pela primeira vez, revelando uma expressão pura de alegria, pareceu jovem, como um menino, e Sakura sentiu o coração badalar como um relógio á meia-noite.

— Sim eu posso, á minha estimada noiva, tem direito ao que quiser...

Ela não quisera falar nesse sentindo, mas não se opôs ou contradisse.

— E também... Pode me chamar de Sasuke. – Ele disse, pegando sua mão.

— Sasuke...?

— Kagutsuchi é mais um título do que um nome, e minha bela noiva certamente tem intimidade para chamar-me por um nome melhor que esse...- Completou, beijando os dedos queimados dela, Sakura sentiu uma breve ardência em contato com os lábios finos mas esta passou logo, tal como a persistente ardência da queimadura, estava muito sonolenta (e feliz) para se importar com isso.

— Sasuke... – Ciciou. — Tudo bem, e meu nome, é Haruno Sakura...

Sasuke fitou seu rosto adormecido, surpreso. Riu outra vez e se deitou de lado, apoiando a cabeça no pulso, puxou as madeixas dela, e esfregou-as entre os dedos.

— Sakura... huh? E não é que o pequeno botão desabrochou?

E talvez não coubesse mais questionar isso, apenas aceitar, e até mesmo, agradecer.

Buruberu = Blue Bell/Sino Azul, significam Gratidão.

Notas finais
QUASE que a Sakura provou do leite divino QUASE HASAUSHAUHSUAHSUAHSUAHSAUHSUAH Alguém me bate