The Bride Of The Fire God
4 Anemone, Sumire e Kiiroibara
Notas iniciais

Quando despertou naquela manhã, estava sozinha no aposento, Sakura não teve tempo de ficar incomodada com isso, pois haviam belos trajes esperando-a na beira da cama, e também fora tomada pela visão dos peixes voadores usando suas barbatanas para saltar bem alto acima da corrente de água e o sol radiante daquele dia.
Sakura ficou observando, encantada, o céu tinha poucas nuvens, continuava ventando frio e forte, mas os raios solares e o calor das termas diminuíam a sensação.
Suaves batidas ressoaram em suas portas e ela se virou, respondendo.
Logo Togame adentrou, seguida das outras criadas, sempre apressadas, graciosas e elegantes.
A enviaram para outro banho quente e demorado, pentearam seus cabelos, prendendo duas porções em cada lado da cabeça dela deixando o resto solto e o enfeitaram com camélias vermelhas e graúdas.
Os trajes na cama eram uma calça de tecido vermelho claro, bordada e por cima um vestido cujas a anáguas eram longas, repicadas em faixas que arrastavam no chão. O colo era aberto e reto, com alças largas nas extremidades dos ombros e mangas igualmente largas como bocas de sino, também repicadas.
Disseram a ela, que a moda não seguia a dos humanos tão a risca, os trajes do reino do fogo se inspiravam nas pétalas das flores vermelhas, que simbolizavam o reino. Vaidosamente disseram que eram muito mais belos trajes que os das damas que habitavam os reinos da água, vento ou da terra.
Sakura não tinha lá um senso de moda admirável nem para os atuais padrões humanos, então apenas aceitou os conselhos delas até que pudesse formar seu próprio estilo, se é que poderia, visto que tanto melindre com sua aparência, se dava também pelo fato de esperar-se que a noiva do deus do fogo estivesse sempre acima de qualquer outra mulher no reino.
Isto sim era assustador.
Ela olhou-se no espelho e não se reconheceu mesmo sem tanta maquiagem, apenas pintaram seus lábios com um vermelho mais escuro e sóbrio e enfeitaram o losango em sua testa colando uma pedra verde e desenhando pétalas de flor ao redor.
Também a puseram um cinto de ouro e um discreto medalhão com o emblema do reino, e foi neste momento que o quarto teve as portas escancaradas.
Uma dama de cabelos vermelhos e rebeldes adentrou alguns passos, usava calça lilás e uma túnica de cor purpura, seu cabelo era enfeitado com kanzashis dourados de onde pendiam passarinhos e era a mulher mais bonita que Sakura poderia dizer que já viu.
Talvez até estrondosamente bonita se estivesse com uma expressão menos furiosa.
Ela olhou diretamente para Sakura, estudando-a dos pés á cabeça e se injuriando ainda mais, Togame permaneceu impassível embora as outras tivessem se recolhido atrás dela, praticamente apavoradas.
A mulher abriu a boca para cuspir provavelmente algo muito desagradável, mas relanceou os olhos para a cama ainda desfeita e sua expressão murchou em mágoa e orgulho ferido. Assim, deu as costas e partiu tão rápido quanto apareceu, a ponta da túnica arrastando atrás de si.
Passado o choque inicial, afinal fora tudo tão rápido, Sakura se agitou, confusa e preocupada enquanto duas das criadas correram para fechar as portas.
— O-o que houve? Quem era ela?
Togame continuou penteando as pontas do cabelo de Sakura, suspirando.
— É Karin-gami, uma deusa que habita esta corte desde antes mesmo do mestre ter uma primeira noiva...
— Eh?
— A senhora deve ficar longe dela! – Uma delas alertou e Togame a fitou, repreendendo.
— Não comece com asneiras. Karin-gami sabe que não pode tocar um fio do cabelo da noiva. Ela está acostumada, e sabe que se fizer algo, Kagutsuchi-sama a punirá, não importa quão longa seja a amizade deles.
— Por que ela... Me machucaria...?
— Despeito... Kagutsuchi nunca correspondeu a ela. Mas embora nunca tenha amado as outras noivas, ele sempre foi cuidadoso, leal e fiel. Esse cuidado que ele reservou á meras humanas, é invejado por qualquer uma que o almeje.
— Kagutsuchi-sama é gentil, você percebeu não é? – Outra delas disse e Sakura enrubesceu ao perceber que ela se referia àquilo.
— Ela não sabe, suas tolas. Deve ter ficado apavorada.
— Eh?! – Exclamaram e Sakura baixou a cabeça, sem dignidade alguma para negar.
Entendia o choque delas, deveriam achar seu senhor tão agradável, atraente e elegante que sequer concebiam que alguma mulher se negasse a ele.
E bem, ele realmente fora muito agradável, gentil, e absolutamente, era atraente.
— Ela não é como as outras noivas. As mais belas do vilarejo escolhido cresciam preparadas para esperar o dia do casamento, e mesmo que temessem que o deus fosse ruim, se adaptavam mais rápido pois este era seu único propósito... Mas você teve boa ou má sorte? – Togame ergueu-se, enfim satisfeita. — Isto somente você definirá, criança.
Sakura assentiu, devagar, procurando absorver tudo.
— Agora deve ir, Kagutsuchi-sama certamente espera ter a primeira refeição ao lado da esposa.
— Oh, uh, sim...
— E quanto á Karin-sama, não se preocupe com ela... Mas também não a desafie desnecessariamente, mantenha-se distante dela e ficará tudo bem. Agora levem-na ao mestre.
— Hai!
Sakura seguiu as moças, pensativa, Togame ficou observando-a se afastar, na verdade, não tão crente do que afirmara agora.
A deusa já deveria ter aceitado esta nova união, mesmo odiando-a, ainda assim, veio até ali cheia de revolta como que para confirmar uma traição.
Togame se perguntava e temia, se o que havia acontecido era que Karin também percebeu, que esta noiva era totalmente diferente das outras três...
A começar pelo fascínio e atenção singulares que o deus do fogo demonstrava sentir por ela.
¤
— Eles dormiram juntos, eu tenho certeza! – Karin esbravejou, forçando-se a engolir qualquer lágrima.
— Porque você ainda se importa com isso? Iria acontecer de todo jeito, não? – Naruto suspirou, recostando-se no corrimão da ponte.
Karin bufou como um touro furioso e revoltado.
— Eu sempre vou me importar! De todo jeito... Você é que não se importa não é? E por que deveria... – Sibilou, venenosa e ele a fitou, começando a se irritar.
— Que está insinuando, hã? Não vim aqui pra ser seu bode expiatório.
— Claro que não veio para isso, Naruto, seu interesse e totalmente outro. E eu me refiro a ele. Sua hipocrisia e audácia de vir até aqui, depois de tudo. – Karin despejou, a essa altura tremia de raiva.
Irritava-a mais que tudo, a hipocrisia dele.
Que magoou tanto a Sasuke, que simplesmente partiu achando que um pedido de desculpas bastaria, e foi viver no seu reinozinho de nuvens como num conto de final feliz para crianças dormirem.
Naruto se enfezou com ela, podia-se sentir no vento, mas ela não se abalou.
— Isso já passou. Não use fatos do passado pra descontar suas frustrações em mim! Aquilo nunca teve nada haver com...
— Comigo? – Ela cuspiu, rindo de tamanha audácia e crueldade. — Não tem nada haver comigo? O que eu sofri, o que sofro, não valeu de nada, não é? Muito menos o sofrimento de Sasuke, não é? Por que você finalmente ganhou dele e foi embora, e essa terra sofreu junto com o coração dele por um milênio inteiro. Nada disso te importa ou vale para você e aquela... Praga.
— Não se refira a ela assim!
— Claro que me refiro. – Ela vociferou, aproximando-se com olhos injetados de ódio. — É isso que ela é. No fundo até você sabe disso, por isso você veio sozinho.
— Não foi... Por isso...
Karin se afastou, sorrindo venenosamente, esfregou os olhos molhados e avermelhados e deu as costas com uma risada seca e sardônica.
— Tem razão... Provavelmente não a trouxe consigo, por que teme que Sasuke vença de novo. Afinal, o que é uma mera vitória sua ante, as mil e outras tantas dele?
Ela se foi, deixando seu veneno no vento, Naruto suspirou, irritado mas também triste por ela.
Karin era uma mulher tão diferente quando chegou ali, pueril, alegre e gentil.
Mas ela continuava se recusando a aceitar que Sasuke nunca a enxergaria como mais que uma grande amiga. E em vez de lutar para manter esse laço, ela continuava tentando cercá-lo com seu amor não correspondido, valendo-se até mesmo de ardis injustos para empurrar Sasuke para longe de outras mulheres.
Mas quem era Naruto para julga-la, se ele mesmo valeu-se desses ardis e do amor dela para chegar ao seu, para ganhar?
Talvez ele só não quisesse que ela ganhasse como ele ganhou? Talvez ele só não quisesse admitir que nunca houve uma vitória?
Nem ele sabia mais, talvez também tivesse se mantido tanto tempo longe do reino do fogo para que não se visse forçado a pensar nessa época novamente.
— De pé tão cedo? Isto é raro. – Sasuke observou, aproximando-se sempre a seu próprio ritmo, sempre como se fosse o mesmo, você nunca conseguia notar as diferenças claramente.
Naruto sorriu, tentando voltar a lembrar por que eram amigos, não importava quanto tempo passasse, eles só precisavam se rever para tudo ser igual, discutindo, competindo, conversando ou qualquer outra coisa.
— É por que eu não decidi ter um reino inteiro para administrar. – Brincou, enquanto continuavam atravessando a ponte, em descida. Sasuke deu de ombros, soturno como o habitual.
— E agora uma noiva, como ela está? – Prosseguiu.
— Hm? Bem? Por que não estaria?
— Bem... Ela era uma oferenda... Completa...? Digo, casta...? Você não teve nenhum trabalho?
— Trabalho...? Quer dizer deitar-me com ela?
— Sim.
— Ah... Algo assim não aconteceu. – Sasuke admitiu, um pouco divertido.
— Huh?! Mas ela disse que... Quero dizer, ela o rejeitou?
— Não exatamente, só é impossível que esteja preparada desde que foi apenas atirada num poço de lava pelos humanos... De todo modo, ela só está se adaptando primeiro.
— Uh... Entendo. Mulheres precisam ter seu coração bem preparado...
— E um botão de flor, precisa ser bem cuidado para que desabroche como queremos... – Sasuke comentou, com um sorriso raro e leve, enquanto tocava as flores de glicínia que pendiam acima deles, duas grandes árvores delas faziam sombra para uma mesa baixa com tapete a almofadas, que ficava numa das agradáveis ilhas dentro das piscinas termais.
Acessível apenas por uma passarela, a mesa já estava posta, e Shikamaru estava lá, mostrando mais energia que de costume para tocar sua biwa*.
Sakura estava ao lado, observando seus dedos tocarem suavemente e sem pressa, uma melodia muito agradável.
Seus cabelos não eram tão longos como o ideal no mundo deles, mas a coloração os tornava completamente fascinantes de olhar, e pareciam finos como teias de aranha, sacudindo ao menor resquício de brisa.
— Yo, vocês demoraram. – Shikamaru disse, parando. Sakura já ia até aplaudir, mas notou ambos os deuses ali agora, baixou as mãos para o colo, nervosa e se curvou rapidamente.
— O-ohayo.
— Ohayo! Noiva-san! – O loiro exclamou, sentando-se do outro lado da mesa e cruzando os braços, sorridente. Usava uma calça hakama branca e o kimono de cima laranja enquanto Sasuke, parecia apreciar estar sempre mais formal.
Ele sentou-se ao lado dela, mas recostado no tronco de uma das glicínias, onde basicamente estaria voltado apenas para ela.
Isso era enervante.
Antes de Shikamaru chegar, ela já estava com a cabeça lotada de instruções e regras sobre como se comportar e agradar o mestre, tinha que ao menos se oferecer para servir algo a ele, mas não tinha coragem de soar tão íntima na frente de outros ainda que fosse só questão de etiqueta para eles.
— Noiva-san, afinal nem sabemos seu nome ainda. – Shikamaru observou.
— Ah, Haruno Sakura. – Ela apresentou-se.
— Eh? Sakura? Mas como combina, hahaha! Eu sou Naruto Uzumaki, Sakura-san!
— Muito prazer.
— Estava tentando fazer Sakura dormir com sua música Shikamaru? – Naruto provocou.
— Ah, talvez? Ela parecia um pouco agitada quando cheguei...
Sakura se empertigou, com a atenção deles sobre si e negou logo, abanando-se.
— Er, não, nem pensar! Estou bem, obrigada.
— Se você diz... – Shikamaru deu de ombros, pondo o instrumento recostado numa almofada e se servindo de chá.
Sakura lembrou que havia se acostumado desde nova com tomar café expresso e forte. O que havia disponível era tão suave que mais parecia um tipo de derivado do café, mais leve.
Os três homens se pegaram conversando amenidades, das quais ela não entendia tudo, mas sentia que pareciam cotidianas o bastante para que se acostumasse logo.
Serviu-se, quieta e observadora, aliviada quando Sasuke se serviu por si mesmo sem qualquer incômodo assim como os outros.
Ele era realmente calado em suma, o tipo que parecia estar longe, lacônico, mas mais perto do que se imagina.
— Não saiu do palácio ainda, correto, Sakura? Ainda não viu nada da cidade. – Naruto disse.
— Não, não vi...
— Ah, você irá gostar! As pessoas aqui parecem ser sisudas como esse cara, mas são bem gentis na verdade!
— Uh, sim, espero poder ir logo...?
Sakura não fazia ideia de quais eram suas liberdades e limitações como esposa de um deus. Deveria cuidar de algum afazer? Apenas perambular por aí com trajes caros como uma socialite?
Mas principalmente, quantas coisas diferentes e interessantes ela poderia ver nesse mundo?
Estava ansiosa para descobrir, admitia.
— Não fale como se ela pudesse somente sair do palácio á vontade. – Sasuke cortou, enquanto sorvia um gole de chá, Sakura sentiu-se murchar na mesma hora e não pode deixar de o fitar de lado, chateada. Sasuke suspirou baixando a xícara. — Como humana, há muito perigo para ela lá fora, e na sua posição, não pode sair atoa pela cidade.
— Argh, quanta rigidez!
— Não é rigidez. É claro que ela vai conhecer todo o reino e os que habitam nele. Afinal, agora é o reino dela também. E quanto ao povo ser rude, duvido que sejam para com ela. Será adorada aonde passar...
— Eu...?
Sasuke a fitou, achando graça da reação dela.
— Mas é claro. Nunca o reino do fogo viu uma noiva tão bela, irão amá-la e cortejá-la incansavelmente.
Sakura só se deu conta do clima que isso gerou, quando suas orelhas esquentaram.
— Bem, estou indo. Não gosto de atrapalhar ninguém quando está arrulhando... – Shikamaru avisou, já se levantando e partindo com a biwa.
Sakura escondeu o rosto atrás das mangas longas de seu traje, muito desconcertada para contestar.
Sasuke deu de ombros, incauto, e Naruto apenas os observou silenciosamente percebendo sua aura tão leve. Percebeu algo e acabou impelido a dizer, mesmo sabendo que poderia acabar com este clima tão descontraído.
Talvez fosse esse seu pior defeito, avançar ignorando que provavelmente machucaria alguém.
— Você... Não perguntou sobre ela...
Sakura o fitou, percebendo o tom soar estranhamente receoso para seu comportamento e olhando para o lado, de alguma forma, sentiu-se mais tensa de ver Sasuke soar tão mais displicente enquanto se servia de mais chá.
— E? – Ele apenas disse. — Alguma coisa aconteceu que não percebi?
— Não! – Naruto apressou-se, nervoso. — É só que... Bem, não é nada de mais mesmo! Além que havia muita coisa acontecendo, então não tinha como esperar que você se atentasse a tudo, não é...?
Ele parecia mais nervoso e sem jeito a cada palavra e a calma de Sasuke, soou perturbadora para Sakura.
— Claro... – Sasuke disse, a voz baixa e controlada, os olhos baixos como se pedaço de pão de tonalidade escura fosse mais interessante. — Mas talvez eu devesse ter perguntado? Afinal você veio sozinho...
— Não! Quer dizer, vim sim, mas você sabe como é. Simplesmente saí ás pressas de casa com Kurama...
— Sempre impulsivo... Mas se está tudo bem, que seja. Eu estava mesmo bem ocupado com esta pequena e adorável surpresa...- Ele continuou dividindo o pão ao meio, Sakura só percebeu que era de si que ele falava quando o notou oferecer a metade. — E provavelmente estarei mais, daqui em diante, não que eu me importe. Não esqueci do nosso combinado de ontem, correto?
Sakura sentiu um profundo calor inundar seu peito, com o gesto, as palavras, seu olhar afável e cuidadoso como na noite passada.
Segurou o pedaço, sorrindo o menor possível para não parecer tão feliz e boba como estava.
— Hum! – Concordou.
— Então pode me esperar no lado leste? Irei apenas verificar algumas coisas antes de ir.
— É claro!
Sasuke então se levantou, contornando a mesa. Naruto se ergueu também, bastante calado agora, quase como se suas personalidades se invertessem um pouco por um momento.
— Vou também. Até mais, Sakura-san!
— Ah, até mais!
Sakura os observou se afastarem, ainda segurando o pedaço de pão, provavelmente nunca suspirara tanto para a comida.
Porém, depois de um tempo, ela percebeu que não fazia ideia de onde ficava o lado leste deste lugar.
Saiu apressada, retornando ao palacete, passou a caminhar e procurar alguém que pudesse guiá-la, mas só então apercebeu-se de como, em geral, aquele palácio era pouco movimentado.
Seguiu por longos corredores externos, até cansar, sem viva alma por perto. Sentou-se num muro baixo e suspirou, sentindo-se verdadeiramente desapontada consigo mesma e seu péssimo senso de direção.
Era primeira vez desde a faculdade que saía com um homem, e bem, não era um encontro! Por que deveria... Se já eram casados? Mas ao menos não queria atrasar-se simplesmente por ser incapaz de achar um ponto específico.
— Procurando alguma coisa? – Uma voz profunda e rouca cantarolou para ela, Sakura olhou para o lado, vendo aquela raposa novamente.
Instintivamente, se afastou um pouco, e o animal, sempre com aquele ar meio cínico saltou para o muro, balançando suas nove caudas devagar e sinuosamente.
— Uh... Você... Fala mesmo?
— Mas é claro, não sou um mero animal estúpido como os que conhece da terra mortal. Já vivi mais de mil anos, como pode reparar. – Ele gabou-se sacudindo as caudas, exibindo-as orgulhosamente.
Sakura concordou, ainda desajeitada e incrédula.
— São caudas... Muito bonitas... Er, enfim, você perguntou se eu estava perdida, Kitsune-san, acho que estou mesmo...
— Humpf, meu nome é Kurama! – Kurama saltou para o chão, espreguiçando-se. — Aonde você tem que ir? Do jeito que parece tonta, deve estar andando em círculos.
Sakura sentiu muita vontade de ter um par de botas ou um casaco de pele de raposa agora.
Que bichinho mais abusado!
Mas não podia reclamar muito agora.
— Eu tenho que chegar ao lado leste...
— Huh? Só isso!? Huahahahaha! Você é tonta mesmo!
— Não é minha culpa! Eu não conheço bem esse lugar ainda!
— Certo, certo. Eu levo você, mas tem um preço. – Ele saltou para os braços dela e foi se ajeitando como se ela fosse um tipo de sofá. — Pague com uma boa carona.
— Ora...
— Com direito a cafuné.
Sakura deu adeus a própria dignidade, e seguiu em frente, coçando as orelhas dele.
Kurama a guiou-a sem lá muita pressa através dos longos corredores e uma ponte. Chegaram a um pátio circular onde havia uma longa linha de estrebarias, Sakura podia ouvir os ruidosos cavalos relinchando de lá e viu Sasuke conversando com o que parecia, algum dos poucos servos que ela via por aí.
Apressada, seguiu até ele, quase aos tropeços.
— Me desculpe! Eu demorei muito?
Sasuke a fitou de lado, e negou, sua atenção focando-se na raposa, estreitando os olhos.
— Vejo que ainda não virou o agasalho de alguém, kitsune.
Kurama saltou para o chão, bocejando, Sakura não o defendeu por que havia pensando exatamente naquilo, alguns minutos atrás.
— Naruto a está procurando, se quer saber.
— Certo, certo, não precisa inventar desculpas para ficar com sua esposa...- Raposa rebateu, ardilosa.
Sasuke ignorou, voltando-se a pessoa que se aproximava trazendo dois cavalos. Sakura acenou ligeiramente para a raposa, e então voltando-se a ele e os animais, não pode deixar de recuar um passo, surpreendida pelo porte das majestosas criaturas.
Além de mais altos, um deles tinha sua pelagem rajada de preto e vermelho, sua crina, orelhas e patas não eram feitas de pelo e sim penugens escuras, meio transparentes, tinha um chifre preto muito afiado no topo da cabeça, olhos vermelho chamejantes. O outro, era pouco mais baixo, gracioso no porte, o pelo era branco e avermelhado, as penas alaranjadas, o chifre menor.
— Estes são Magma e Nébula. – Sasuke declarou, apontando o animal vermelho e o branco, respectivamente. — Os mais rápidos e também mais dóceis destas estrebarias. – Comentou, afagando a testa do animal maior em torno do chifre. — Em geral são bem hostis por isso só os mantenho aqui durante os meses sem neve, preferem encarar a nevasca, entende?
— Uh, acho que sim...? – Ela não entendia nem um pouco o por quê, mas tocando o pescoço de Nébula, sentiu-a tão quentinha que presumiu que pudesse encarar uma nevasca com tranquilidade. — Tão bonita, que garota bonita você é.
Sasuke, satisfeito, aproximou-se verificando a sela da égua.
— Ajudo você a subir. – Disse, Sakura assentiu, mais empolgada desde que Nébula parecia bastante doce até em seu olhar. Pisou no estribo e com a ajuda dele, subiu, acomodando-se um pouco espantada com a altura agora.
Sasuke contornou, montando Magma com perfeição.
— Eh...? Não tem rédeas?
Ele riu, enquanto Magma simplesmente seguia seu caminho.
— Não são criaturas domesticadas, esposa. Sabem exatamente aonde podem ir, por quê o querem. Segure-se bem.
— Mas aonde?! – Nébula fez seu caminho, trotando leve, mas Sakura já se via quebrando o pescoço e apertou as pernas contra o flanco da égua, esta alcançou Magma e Sakura ainda tentando não cair, observou onde Sasuke se segurava, o que parecia ser na base das penas onde deveria haver uma crina.
Procurou o mesmo ponto na égua, segurou-se ali mas não apertou, temendo machuca-la
Eles passaram por uma ponte, ainda apenas cavalgando devagar, logo deixaram a área das pedras polidas do chão em torno das termas e ganharam o solo, passaram por uma tradicional plantação de arroz e alguns agricultores acenaram para eles curvando-se em respeito, os fitando curiosos.
Enfim chegaram a campo aberto, o campo de grama alta, muitas pradarias e colinas a perder de vista e mais longe ainda, uma cadeia de montanhas de picos alvos que Sasuke afirmou serem vulcões também.
Uma vez no prado, os cavalos começaram a correr praticamente ignorando que carregavam alguém. Sakura sentia não só a pele gelar com a brisa fria que batia contra suas roupas mas o sangue também, ainda com medo de cair.
Era todo muito divertido e belo para ignorar, ainda.
Eles passaram por alguns vilarejos próximos, basicamente onde moravam as famílias dos servos do castelo e os agricultores que mantinham as plantações que proviam esse lugar. Apenas na direção oposta ela encontraria aldeias maiores e a cidade principal do reino do Fogo.
Numa destas passagens por vilarejos, eles almoçaram sob uma ameixeira, generosamente servidos por algumas famílias, e então seguiram passeio, exploraram uma parte da floresta, onde Sakura foi praticamente perseguida pela exuberante variedade de pássaros que queriam se aninhar em sua cabeça e na de Nébula.
E também, encontraram uma fonte de água comum, que não era aquecida pelos vulcões e Sakura apreciou beber dela, pois mesmo a água do castelo sendo servida já esfriada, ainda tinha o gosto das termas.
Enfim, já assistindo o sol começar a se por, eles cavalgaram até perto da montanha que parecia o Fuji, no campo de flores vermelhas, no topo de uma colina onde havia um solitário bordo japonês. Sentaram-se sob a sombra dele, os cavalos deitaram-se ao redor, descansando.
Sakura admirou a vista que tinha, de um lado, o maravilhoso palácio do fogo, e na outra direção a montanha.
Havia algo de muito familiar na vista, neste lugar.
Sasuke observou-a analisando tudo, intrigada, mas também cansada e satisfeita demais para procurar por mais algo.
Era engraçado o jeito como ela parecia estar de frente para a resposta do enigma, mas seus olhos estavam tão cheios de coisas para olhar que não enxergava ou focava os detalhes mais.
— É incrível... Tudo isto... Pensar que algo assim foi concebido de você. – Sakura falou, suspirando maravilhada, jogou os olhos para ele. — Mas acho que isso é que o significa ser um “deus”?
— Suponho...
Ela riu e deu tapinhas no ombro dele.
— Se saiu muito bem! Muito bem, hahaha!
De alguma forma, isso virou ele sendo elogiado como se faz a uma criancinha. Sasuke até se ofenderia, mas havia um frescor inigualável nas reações dela.
Já havia sido bajulado de centenas de formas, por humanos e deuses. Mas percebeu que não lembrava mais a última vez em que sentira orgulho ou prazer genuínos em mostrar sua criação.
Todos viam seu reino como um reino de exílio, as circunstâncias dolorosas e tenebrosas de seu nascimento reverberavam até hoje, e a maioria temia e via o reino e o deus do fogo com repúdio e desagrado até que precisasse tirar vantagem deles.
Sasuke havia se acostumado a usar a máscara para manter esses tipos fora de seus domínios. Mas não percebera que havia se tornado apático àquilo que tanto tivera carinho e bom grado em conceber, no processo.
Magma e Nébula, outras tantas criaturas, a terra, as plantas, o céu e as nuvens, ele projetou todos eles ou adaptou para si, e até então, ninguém elogiou ou apreciou com tanta honestidade.
Até essa cálida alma humana ser empurrada para ele pelo Destino.
Talvez devesse mesmo alguns agradecimentos.
Inclinou-se na direção dela, beijando sua têmpora suavemente. Sakura ficou parada, sentindo a pressão calorosa dos lábios dele contra a pele, muito desconcertada e surpresa para reagir.
Sasuke afastou a boca só alguns centímetros para baixo, o calor de se hálito aqueceu a orelha dela quando falou e Sakura apertou os olhos e os lábios tentando conter as próprias reações.
— Obrigado.
¤
“— Obrigado.”
Aquela simples palavra parecia capaz de roubar-lhe o sono. Sakura tentou aproveitar aquele tempo sozinha para ponderar melhor sobre si mesma e tantas mudanças recentes, mas tudo retornava aquele único momento.
Suspirou, olhando o próprio reflexo no espelho. Depois de um banho demorado e uma farta refeição, tudo o que havia eram livros antigos e o céu estrelado para admirar.
Sakura sentiu falta de descansar na frente da TV, babar e sofrer por heróis de dramas, até mesmo dos mangás, internet e trabalho acumulado no escritório de finanças.
Ela nunca havia se visto como alguém antenada ou dependente da tecnologia, achara até que se adaptaria super bem e que isto seria uma vantagem. Só que, ao menos agora que estava sozinha, era difícil não se sentir meio entediada ou deslocada.
Olhando-se agora sem maquiagem, sentia-se mais como a antiga Sakura de alguns dias atrás, e isto também se aplicava a auto estima.
Sakura de testa grande, seios pequenos, traseiro desagradavelmente grande e tão baixa estava completamente de volta, suspirou. No entanto, reparou que havia algo mais, aquele losango em sua testa.
Tocou-o, percebendo-o realmente como se fosse uma pinta, não sentia nada do que sentiu quando Sasuke a tocou ali, mas recordava da sensação apaziguadora e calorosa daquele momento.
— Olhe só para ela, toda contente tocando este selo tosco, como se tivesse sido um presente...
Sakura olhou para o canto do espelho, vendo alguém sentado na janela, se virou na cadeira reconheceu a deusa Karin sob a luz dos candelabros. Ela parecia ainda mais magnífica com o céu estrelado de fundo para sua beleza, mas Sakura sentiu também seu tom venenoso.
As moças disseram-na para se manter longe da deusa, porém, não disseram nada sobre ela vir até Sakura em seu quarto.
Tocou o sinal outra vez, ainda confusa sobre o desdém dela para com algo tão simples.
— Você não sabe para quê Sasuke o pôs aí? – Karin cantarolou e Sakura se surpreendeu menos com o veneno do que com como se incomodara de ela falar de seu marido tão intimamente.
Cresceu então o conflito interno.
Karin o conhecia a milênios, e Sakura agora era sua única e absoluta esposa, quem poderia ser mais íntima afinal?
De toda forma, não estava gostando de para onde essa conversa pretendia avançar.
— Não... Não disse... Mas acredito que ele teria dito se achasse importante.
— Oh, sim? De toda forma não é como você se importasse tanto, não é? Afinal, estar aqui não é bem melhor do que estar na ridícula e miserável terra humana? Ao lado dos mundanos e traiçoeiros mortais?
— Não é assim! – Ela protestou, envergonhando-se em seguida de destratar uma deusa, só não podia apenas baixar a cabeça e engolir o que ela dissesse. — Tem pessoas ruins e se não fosse por elas eu não estaria aqui, é verdade... E minha vida não foi a melhor de todas... Mas foi uma boa vida, uma vida digna, e conheci pessoas dignas nela, senhora. Então, por favor não fale com tanta leviandade sobre, como se alguém que só viveu num lugar como esse.— Afirmou, estendendo a mão para os arredores.— Como a senhora, pudesse saber o que é viver ou morrer como um humano.
Karin estreitou seus olhos avermelhados com desprezo, mas engoliu o despeito mais uma vez para continuar sua amostra de superioridade.
— Que seja. Você ao menos tem mais peito, figurativamente falando, claro, do que as outras noivas... – Iniciou, displicente. — Sobre o selo, é para evitar que você se torne um aborrecimento, enlouquecendo pelos corredores...
Sakura a fitou, consternada.
— Enlouquecer....?
— Quando uma pessoa morre, as outras pessoas lamentam, certo? Até mesmo por uma ninguém como você? Se recorda a imensa dor, angústia e comoção que sentia? Ser jogada num poço de lava deve ter chocado muita gente do outro lado, huh? O selo impede que os lamentos cheguem até você deste lado e apodreçam até mesmo este reles corpo humano que a lava trouxe junto de sua alma.
Sakura tocou a testa novamente, assombrada e desnorteada, voltando a sentir aquela angústia que a fazia apenas querer chorar.
Então as pessoas sabiam o que houve com ela? Que foi vítima de fanáticos? Chegava a ser vergonhoso, mas era ainda mais doloroso saber que alguém sofreu por ela, ela que se achava tão insignificante.
Quem foi? Quem notou seu sumiço? Quem chamou a polícia? Sobrou algo do que foi jogado na lava? Acharam seus pertences? Saiu no jornal? Seria alguém do trabalho? Um dos colegas que saíra pra beber raramente? Os vizinhos? Quem estava sofrendo?
Quem?
Por que sofria? Ela nunca quis se apegar a ninguém depois da morte da mãe, ela nunca quis ser notada? Por que só descobrira agora e perdera a chance de ter um amigo ou amiga, talvez um namorado ou pretendente?
Era tão injusto. Tão injusto, e ela nem podia sentir o que eles sentiam, nem poderia aliviar suas aflições com o fato de que estava num bom lugar agora.
— Isto mesmo. Você estaria era apodrecendo pelos corredores, definhando nesta contradição de vida e morte como aqueles que vão para o Yomi. – Karin exultou, sadicamente assistindo a mortal se entregar desapercebidamente ao caos das aflições mortais que afligiam todos os humanos que se perdiam no caminho entre vida, morte e reencarnação.
O selo impedia que os ecos das lamentações terrenas perturbassem quem estivesse nos planos mais altos, mas não resistiria muito, se a própria pessoa se entregasse aos questionamentos e angústias.
Podia ver o selo brilhar como um cristal rachando, enquanto a jovem desmoronava sobre os joelhos entrando aos poucos, em estado de catatonia.
E então sua visão foi encoberta por uma mão grande e quente, por um momento ela se entregou a sensação de estar tão próxima dele, mas, aquele calor foi se tornando cada vez mais intenso, e Karin retornou á sanidade, ciente de que havia não só falhado, mas sido pega.
Seu sangue esfriou mais do que a permanente temperatura da brisa naquele reino e a voz grave e sem emoção de Kagutsuchi gelou-a também a alma e partiu o coração outra vez com a sensação de rejeição.
— Parece estar se divertindo, Karin.
Ela abriu os lábios, mas deles só saiam expirações entrecortadas de medo.
Convivera tanto tempo com o lado Sasuke, soturno, sábio e refinado, que esquecera que o deus do fogo, em sua faceta de Kagutsuchi era infernal em todos os sentidos, do quente ao aterrorizante.
— Vou lhe dizer apenas mais uma vez, Karin. Minha noiva não é um humano para você brincar. Se quer fazê-lo, desça a terra e encontre os seus, quem sabe aprenda uma coisa ou outra com eles. Agora, desapareça da minha vista por um tempo.
Ele retirou a mão, Karin ainda sentiu o ímpeto de se virar e implorar para que não a castigasse tanto. Porém, sentia seu olhar ardente e ferino queimar as costas, e nenhum músculo seu teve fibra para ousar contrariar tamanha ira divina.
Desceu da janela, mantendo a cabeça baixa, e seguiu para fora do aposento o mais rápido possível.
Sasuke atravessou a janela, com um suspiro aborrecido, tirou a atenção das portas e se aproximou de Sakura, abaixando-se, puxou-a para o peito e aqueceu-a num abraço terno.
— Minha pobre e bela alma... Restaure-se, Sakura. Você não tem culpa de nada.
Sakura arquejou, chorando e ainda arranhando a testa como começara a fazer.
— Ainda... Ainda sim... – Balbuciou. — Ainda é um presente não é? Para eu não sofrer...Você não tinha a obrigação de me manter ou se casar ou... Nada...
— Shhh, é claro que tinha, o que foi ordenado pelos deuses a eles deve ser responsabilizado. – Explicou, puxando as pernas dela e levantando-a, seguiu até a cama, e deitou-a nela. — Os humanos têm uma natureza, morrer e renascer, os sentimentos, emoções e dúvidas em torno, são dessa natureza. Os deuses são eternos, e conhecem outro tipo de sentimento, emoção e dúvida. Karin não sabe o que é deixar entes queridos para trás, ou vê-los partir. É fácil zombar do que não conhece. – Ajeitando as cobertas sobre ela, Sasuke se inclinou e beijou sua testa, refazendo o selo novamente, Sakura suspirou de forma profunda, todo seu corpo voltando a relaxar, a mente esvaziando-se e aliviando-se aos poucos.
Ainda assim, ele não gostou em absoluto de como ela era mais susceptível que as outras.
Realmente por nunca ter estado preparada para o destino que acabou tendo.
Sakura deveria ter continuado sua vida humana, seu trabalho humano, ao lado dos humanos, quem sabe casando-se com um humano um dia, tendo crianças choronas como ela foi e envelhecendo até a morte.
Ainda assim, ela estava aqui, e então ele deveria ao menos tentar fazer menos sofrível para ela. Achou que somente o selo da princesa das lesmas serviria, mas parecia que teria de se esforçar mais por essa reles humana.
Deveria soar até ofensivo. Mas, Sasuke poderia fazer o sacrifício pela honesta criatura que apreciou sinceramente tudo o que ele havia criado.
Alisou seu cabelo entre os dedos, cheirando uma mecha macia, por fim se levantou, deixando-a desfrutar sossegadamente do sono e seguiu para fora do quarto, disposto a fazer uma viajem rumo a um destino que já mal lembrava a última vez que tinha ido.
O lado humano da balança universal.
Anemone = Anêmona, significa Sinceridade.
Sumire = Violeta, significa Honestidade.
Kiiroibara = Rosa Amarela, significa Ciúme.
Biwa* = Instrumento de cordas japonês com o corpo gargalo curto, com trastos de alaúde. A biwa é o instrumento escolhido por Benten, Deusa da música, da eloquência, da poesia, e da educação no xintoísmo japonês.
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