The Bride Of The Fire God
7 Botan e Kiiroichurippu.
Notas iniciais

A véspera do ano novo veio coberta por uma emblemática névoa quente que cobria toda a planície abaixo do vulcão. Como se o vapor que vinha das águas termais por toda região se dissipasse e ficasse fixo no ambiente.
Sakura olhava através da janela, enquanto penteavam-na os cabelos, a visão que tinha dos campos era um tanto precária, mas sua curiosidade estava atiçada pela imagem embaçada de pequenos pontos vermelhos e escuros correndo ou parados em bando entre as flores, pareciam animais, perguntava-se quais.
— Togame-san, que animais são aqueles?
Togame olhou por sobre o ombro e os balançou, sem grande interesse.
— Kitsunes.
— Eh? – Ela inevitavelmente olhou para Kurama que roncava sobre sua cama.
— Raposas comuns, nesta época elas vêm de todas partes do país, se juntam aqui, onde o deus mora, e partem para uma viajem por todo o reino.
— Nossa! Devem ser muitas então!
— Ainda não viu nada, assim que o ano novo chegar, serão milhares partindo e cruzando as planícies e montanhas. Durante onze dias inteiros.
— Ah, deve ser tão bonito! Kurama?! Kurama!? – Sakura atirou a almofada nele que quase caiu da cama. — Você não vai junto? Deve ser divertido, não?!
— Huh?! Por que eu me juntaria a animais tão inferiores?
— Ah, esqueci que você é rabugento demais...
Sakura suspirou, imaginando que deveria ser algo lindo, como as ave imigratórias que viajavam pelo mundo em determinadas épocas do ano. Se perguntava se era isto uma inspiração para Sasuke, e de toda forma sempre se encantava cada vez mais com a beleza e singularidade de tudo o que ele criara.
Só deixou-a ainda mais ansiosa pelo ano novo.
Kurama pretendia voltar a dormir, apesar do burburinho afrescurado dela com as aias, porém notou olhos espreitando pela fresta da porta, encarou de volta ameaçadoramente.
Desceu da cama, e saiu do quarto, parando no corredor e vendo Hinata afastar-se com total tranquilidade.
— Procurando algo? – Interrogou.
— E o que alguém afortunada como eu ainda precisaria buscar? – Ela devolveu quase achando engraçando cogitar isso.
— Algo que foi tola o bastante para achar que sempre teria. – Ele devolveu, mordaz. — Ou que foi arrogante o bastante de achar que ainda tinha.
Hinata parou, o encarando por sobre o ombro mortalmente.
Mas era sempre o que havia para ver, Kurama dar-lhe as costas e nunca aceitá-la não importando o quanto fizesse para agradá-lo e satisfazer Naruto.
Já havia desistido de conquistar ao menos o respeito da kitsune que seu marido tanto prezava, e rebater seu azedume era mais fácil, no entanto, a derrota ainda a espetava e espetou mais ainda que ele aceitasse a companhia de uma humana e fugisse da dela e até da de Naruto que se magoava com isso no fim.
— Fique longe da garota, ou despedaço você. – Ele ameaçou, friamente e pela primeira vez.
¤
Sakura trajaria um majestoso jūni-hitoe para o evento, as camadas de kimono harmonizavam-se entre si em de tons quentes, o vermelho sangue era primeiro, e o último que melhor cobria sua pele era de um tom lavanda.
Seu cabelo foi penteado e deixado solto em maior parte, até por que, se o prendesse, eventualmente Sasuke soltaria. Preso com enfeites dourados de grous e outras aves. Lycoris e um galho pequeno de cerejeira enfeitavam o topo. Sakura ás vezes se sentia sua cabeça era um vaso de arranjo floral para Togame.
Sakura deixou os aposentos e seguiu para o escritório onde presumia que Sasuke ainda estivesse.
No caminho, notou uma figura que a tempos não via, o que não a deixou mais feliz em rever.
A Karin-gami veio trajando um rico traje azul profundo todo bordado em ouro figuras de dragões, um modelo mais semelhante aos trajes chineses tradicionais mas que para Sakura, em nada diminuiria sua beleza ou imponência. Nem ameaça.
Baixou a cabeça e seguiu em frente, passando por ela e pelo rastro de seu estonteante perfume.
— Se continuar abaixando a cabeça assim para qualquer um, não irá durar muito nesse lugar.
Sakura fitou suas costas e ela se virou, dando-a um olhar mordaz.
— Ou espera que Kagutsuchi-sama vá protegê-la o tempo inteiro?
Neste momento, Sakura entendeu verdadeiramente como as outras noivas de Sasuke se sentiram, principalmente a pobre Nanami que se convertera em praticamente apenas espinhos para se proteger.
Mas Sakura se recusava a ser como elas, a ser alguém menos que marcante na interminável vida de Sasuke, ou de qualquer um deles, mesmo dela.
Inspirou e engoliu o medo que ainda sentia com toda força e encarou-a de queixo erguido.
— Não abaixo minha cabeça só por quê a temo, abaixo por que acredito que devo tratar um deus como o é. Mas... Se isto me faz parecer inferior ou vulnerável, devo lembrá-la então de que, muito além de uma simples humana, eu sou a esposa do senhor deus desta terra, deste palácio, então toda vez que a senhora pensar que sou tão inferior, lembre-se de que de uma forma ou de outra, quem está realmente acima aqui, sou eu. – Sakura então fez uma breve reverência e por fim retirou-se tentando soar menos apressada possível.
A coragem se foi com suas últimas palavras e agora ela não sabia se estava bem assim ou se exagerou e foi grosseira. Karin ainda era uma preciosa convidada de Sasuke e embora ele não a ter mandado embora depois do que fez até a magoasse um pouco, sabia que ele apenas confiava que Karin jamais o desafiaria.
Além de que certamente era mesmo ignorante ao que ela sentia de verdade.
Sakura se entristecia por ela, mas não sabia bem que não era tanto assim, pois da mesma forma que Karin não era completamente enxergada por aqueles olhos, ela tampouco poderia dizer que o era.
Mascarava até mesmo para si o que sentia, na tentativa de ao menos suprimir os sentimentos aflorando cada vez mais em seu peito.
Sakura enfim chegou ao escritório, entrou rapidamente, percebendo que andara tão rápido que ficou ofegante.
Sasuke se afastou da janela, deixando um pergaminho na mesa e se aproximando dela, gloriosamente bem vestido e ainda portando uma suntuosa espada dentro de uma bainha dourada.
— Ah, já é hora de partir? Está magnífica. – Elogiou, acariciando o contorno do maxilar dela, Sakura assentiu, deixando-se relaxar contra deu toque quente e Sasuke leu a inquietação através de sua doce expressão de alívio.
— Está tudo bem?
— Está, agora está.
Sasuke afagou a tez dela mais uma vez.
— Está pronta? Temos uma longa comemoração pela frente.
Sakura concordou, se contagiando novamente e ambos deixaram o vestíbulo e cruzaram o palácio em direção á carruagem.
No céu estrelado desta noite, ela viu novamente os barcos flutuantes navegando em direção a cidade, iluminados por luminárias de papel de arroz, algumas deixando um rastro de pétalas vermelhas no caminho. Observou aquilo extasiada.
— Ah, minha noiva chegou depois do ano novo passado, por isso não viu mais os barcos. – Sasuke recordou.
— Sim? Qual o propósito deles?
— São o transporte de quem vem de outras terras comemorar o ano novo aqui. Pessoas dos países da terra, água e ar, ás vezes deuses que ainda habitam o plano humano ou o plano acima do sol e da lua.
— Alguém habita o sol e a lua?
— Certamente.
— Incrível.
— Não tanto, na verdade é a primeira vez em milênios que vêm tantos barcos, a terra do fogo sempre esteve longe de ser o lugar preferido para se passar essas datas...
— Ora por quê?! Aqui é maravilhoso!
Sasuke apreciou a inocência dela. Talvez ela estivesse certa, o problema não era a terra que ele criou, mas ele.
Isto já era uma verdade antiga, inclusive.
— De qualquer forma...- Continuou, ajudando-a a subir na carruagem. — Parece que a minha bela noiva foi o que atraiu essas visitas a mais, devem estar muito curiosos a seu respeito.
— E- Eu?!
— Claro, mas veja pelo lado bom, podemos nos aproveitar disso e dar uma volta num desses barcos depois.
Sakura voltou a olhar as embarcações através da janela, e embora ainda insegura, admitia que era uma oferta tentadora. Quantos mortais como ela tiveram essa chance, afinal?
Iria aproveitar ao máximo.
As ruas da capital estavam abarrotadas de transeuntes em seus melhores trajes e joias, haviam feiras na rua, com até mesmo barracas vendendo brinquedos e afins, ver as crianças fez Sakura recordar da infância em que visitava o templos com os pais, dos kimonos com estampas fofas que usava, os pedidos que pendurava para obter sorte.
Não eram lembranças dolorosas, ela percebeu, mas agora pareciam ainda mais distantes, e ela se sentia mais confortável agora, do que na sua vida adulta de antes.
A entrada e arredores do templo estavam bem cheios, as pessoas jogavam moedas nas caixas de oferta, os bambus e galhos de árvores estavam lotados de omikujis atados nele. Sakura não recordava bem qual foi a última sorte que tirou.
Ainda devia estar no colegial quando pegou um.
Os habitantes logo reconheceram a carruagem deles, passando a acenar energicamente as crianças voltando a persegui-los.
Sasuke abriu a janela e tirou de dentro da manga do traje, um pequeno otoshidama preto, pôs a mão para fora e o lançou para as crianças. O objeto caiu junto de vários, de todas as cores, fazendo a alegria delas.
Sakura acenou, sorrindo do encanto delas ao verem o pequeno truque que o deus lhes fizera.
— Assim que conquista seus fiéis mais novos? – Brincou.
— Sempre dá certo, moedas e doces. São os melhores crentes inclusive.
— Não exigem tanto, eu presumo.
— É a humildade que deve ser recompensada, independentemente do tamanho do pedido.
A carruagem parou em frente à entrada do templo, Sasuke desceu seguido dela, as pessoas apertavam-se acenando para eles, devolveram o cumprimento por alguns minutos antes de serem recebidos pelo sacerdote Sarutobi e o acompanharem para o interior, já bem mais sossegado, as pessoas que transitavam por alo, vestiam-se com ainda mais rigor e exuberância e mantinham um solene tom de voz respeitando o ambiente.
Se todos eram deuses, Sakura imaginou que eles deveriam respeitar-se entre si bastante, oferecendo silêncio contemplativo dentro do templo.
Talvez a regra da humildade também prevalecesse sobre os deuses.
— A contagem logo iniciará e o banquete será servido. – Sarutobi anunciou, cordialmente.
— Ótimo.
Ambos se afastaram e caminharam pelo salão, o cheiro de incenso predominava, mas Sakura ainda podia captar o perfume refinado, exalando das vestes suntuosas dos deuses que os cumprimentavam.
— Kagutsuchi-sama...- Ela disse, agora os olhos pousados na alta estátua diante eles. — Olhando bem agora, ela não se parece tanto com o meu senhor.
Sasuke desviou a atenção para a estátua, seus olhos estudaram a estrutura de forma um tanto inexpressiva.
— Você acha?
Sakura assentiu. O deus em pedra era exageradamente maior, suas vestes mais arcaicas e simples davam um ar mais de guerreiro que de lorde, como o via. O cabelo e a expressão era mais intimidantes.
— Então é melhor que continue achando isso, não? – Ele disse, com um humor que não chegou aos olhos.
Sakura pendurou os olhos na estátua outra vez, indagando-se o que poderia haver neste reflexo que pudesse ser ruim o bastante para que ele evitasse olhar.
Seguiu-o para longe da imagem, o fitando um pouco preocupada, talvez houvesse soado rude.
— Kagutsuchi, quanto tempo.
Sasuke se virou, um tanto surpreso de deparar-se com tal figura, mas não se incomodando afinal.
— Tsukuyomi. – Cumprimentou de volta. Sakura alternou o olhar entre ambos, um pouco pasma.
Este era o deus lunar? Era parecidíssimo com seu marido, Tsukuyomi era mais alto e magro, suas vestes eram negras temperadas com tons de azul escuro e prata, seu cabelo era pouco longo, preto e estava amarrado despojadamente ao pé da cabeça, linhas de expressão marcavam o rosto claro abaixo dos olhos.
Tinha um olhar profundamente gentil para seu marido, ela poderia dizer que fraternal, sem dúvida, embora da parte de Sasuke, sentisse menos familiaridade em sua recepção.
— Faz realmente muito tempo, ficou entediado do seu lar na Lua? – Sasuke completou, Tsukuyomi riu parecendo acostumado ao habitual tom afiado de seu irmão.
— Às vezes é bom tomar novos ares, e aproveitar para ver coisas novas. Sua noiva por exemplo, já posso considerar uma boa sorte poder conhecê-la. – Ele acenou para Sakura, muito gentil. — Ela é realmente bela como as tennyos cantaram.
— Elas geralmente se excedem na bajulação, mas desta vez, estão certas.
Sakura se curvou, cumprimentando ainda um pouco enervada. Tsukuyomi não era apenas nobre de origem ou nome, e se ver em sua presença era algo ainda assombroso para ela.
— Devo concordar, e como se chama, minha cara?
— Sakura, senhor, Sakura Haruno.
— Que perfeita combinação!
Sasuke revirou os olhos um pouco, Itachi quando se empolgava era um pouco difícil de aturar, mas não era ruim. Só não podia dizer que agradava ter o irmão cobrindo sua esposa de elogios.
Tsukuyomi no entanto, merecia mais crédito, era o irmão com quem Kagutsuchi mais se dava, havia Amaterasu também, mas ela era quase enfadonha demais em seu pedestal de deusa solar e mediadora (desde que era mais nova que ele), haviam outros irmãos que pouco vira, e Susanoo era a quem Sasuke mais dedicava inimizade, o que era recíproco.
— E pensar que de toda aquela confusão com nosso irmão, sairia algo bom hein? – Itachi comentou. — Finalmente você arranjou uma boa companheira.
— Ela o deu essa impressão tão rápido? A mim também...
Sakura não sabia se ele estava mesmo concordando ou apenas implicando com o irmão.
Eles deram uma pequena volta pelo salão, Tsukuyomi dissertou um pouco sobre como a vida andava meio enfadonha, observando de seu trono lunar. Até mesmo o lado humano, sempre tão agitado e cheio de surpresas andava tedioso demais para se dedicar a atenção.
— Estou surpreso de Amaterasu não ter vindo, ela sempre diz que deveria vir mais, achei que aproveitaria a ocasião. – Observou ele.
Sasuke sacudiu os ombros, fazendo pouco caso. Amaterasu podia não ser intolerável, mas não era exatamente a companhia mais interessante com seu nariz da justiça querendo se meter em tudo, em prol do equilíbrio.
Como sempre dizia quando o encontrava, ela certamente discorreria sobre milhares de motivos para que ele como um deus primordial e tudo mais deveria se atentar mais a vida humana, que assim e para isso foram concebidos os deuses e outras firulas que Kagutsuchi não tinha paciência de escutar e muito menos concordar.
Os humanos mais o temiam do que respeitavam, ignoravam a natureza do fogo como elemento fundidor e moldador da criação e se atentavam apenas ao lado que consumia e devastava as coisas.
Eram tolos demais para entender, que sempre algo novo nasceria das cinzas, o que foi um dia, depois das chamas outra coisa se torna, assim como a chuva um dia foi rio e mar, assim como a brisa um dia foi tempestade.
Tudo tem um propósito ambíguo, tudo tem um equilíbrio, tudo tem um lado, bom e ruim.
E ele já a muito que se cansara de tentar demonstrar isso, apenas viveria em paz no seu reino, entre seus súditos e amigos, suas criaturas e também, Sakura, o tanto de tempo que fosse permitido.
— Bem, ela deve ter encontrado outro lugar para tentar “concertar” com sua sabedoria. – Respondeu, Itachi riu um pouco.
Sempre admiraria o irmão mais velho por ser tão paciente e ao mesmo tempo, descomplicado.
Uma pena que todos ligados a ele por sangue parecessem nunca serem capazes de ver como ele era. Sasuke seria de grande ajuda entre os deuses, se fosse mais respeitado do que temido, mais compreendido do que marginalizado.
Mas nem seu pai fazia questão de entender isso, e por mais que ele amasse Itachi e Izumi, não estava disposto a ouvir a palavra de cada um deles sobre seu filho mais velho.
Tampouco poderia culpar Sasuke de fazer pouco caso da interferência de Izumi, Tsukuyomi entendia e enxergava bem o bastante para saber que se ela realmente quisesse fazer algo, até mesmo desafiar o pai deles, já teria feito.
Mas Amaterasu sempre foi muito mais coração do que cabeça, embora ela própria achasse o contrário e se negasse a ver, que ainda era uma garotinha que precisava da aprovação do pai antes de fazer qualquer coisa.
Itachi então, só restava observar, talvez um dia ele pudesse ver a união entre os irmãos, talvez um dia tudo culminasse numa guerra, talvez as coisas apenas estivessem destinadas a permanecer assim, separadas. Cada qual com seus fardos.
O banquete foi anunciado, como anfitrião, Sasuke recebeu seus convidados mais íntimos num grandioso jardim, ao ar livre, anexo ao terreno do templo, mas bem cercado, evitando a curiosidade dos visitantes e moradores do reino. Também havia a bela vista das montanhas e alguns dos barcos estavam pousados por perto.
— Então Naruto está aqui...? – Itachi percebeu, um tanto surpreso. Velas iluminavam o centro da longa mesa e Sakura desviou a atenção dos olhos quentes de seu marido, muito mais interessado em flertar do que em falar com os convidados devidamente.
O vento frio, habitual, soprou apagando uma grossa vela próxima a eles. Sasuke deu pouca atenção ao irmão, colhendo uma das flores que enfeitavam a mesa e levando ao cabelo da esposa.
— Sim, veio para uma visita e talvez, assim espero, buscar sua kitsune que já está indo de hóspede para morador fixo...
Sakura riu da implicância dele para com Kurama.
Itachi passeou os olhos mais uma vez, vendo Naruto conversar animadamente com outros deuses menores, por fim notou a encantadora beleza lunar que ele desposara, ali também.
— E ele trouxe a esposa...?
— Aa. – Sasuke respondeu, finalmente satisfeito ao prender a exuberante flor entre o cabelo dela, deslizou as mechas entre os dedos. — Ah, agora sim, esta flor é perfeita para você.
Sakura piscou as pestanas, envergonhada e encantada.
— Si-sim...?
Sasuke pegou outra flor do arranjo, oferecendo a ela.
— Seu nome pode ser Sakura, mas a Peônia lhe faz maior justiça, é a rainha das flores, afinal.
— Meu senhor, é muito amável, obrigada. – Sakura pegou a flor dentre seus dedos aquecidos.
Tsukuyomi decidiu que não havia nada para se preocupar. Sasuke estava bem, tranquilo (o que realmente era importante visto o que acontecia com todas as terras quando ele se encolerizava) e estava feliz, sobretudo.
— Parece que os fogos já irão começar. – Disse, olhando para o céu estrelado.
Sasuke pousou a mão em torno da vela, próximo a linha, Sakura observou, fascinada, a cera começar a derreter sob os dedos dele até que a vela se ascendeu, ela se espantou, admirada, e em seguida o segundo susto, quando os primeiros fogos explodiram no céu, iluminando as faces extasiadas dos deuses e criaturas presentes.
Um novo ano havia iniciado. E só de pensar que exatamente a um ano atrás ela estava vendo a virada no centro de Tóquio, morrendo de frio e na companhia de alguns colegas de trabalho, Sakura até que ainda se sentia zonza com a virada repentina que sua vida tomou.
E estava absolutamente feliz de isso ter acontecido. Talvez ela finalmente houvesse encontrado a vida que queria para si depois de se ver sozinha no mundo.
— Feliz ano novo, humana!
Kurama exclamou, saltando no colo dela, já esperando os afagos como se realmente os merecesse.
Sim, ela ainda era a única humana no reino do fogo. Mas pela primeira vez na vida, ser única ou diferente, era o que a fazia se sentir ela mesma, a tornava especial. Se sentia especial e era tratada como tal.
Ela não poderia querer mais nada, ainda que seu coração egoísta ficasse sussurrando de vez em quando, que gostaria de estar ao lado de todos, de Sasuke, para todo o sempre.
O sempre que apenas os deuses conheciam.
¤
Ainda sob as luzes coloridas dos fogos, Naruto se aproximou da prima, encostada no muro de uma pequena ponte. Karin mantinha-se distante de todos, numa atmosfera solitária e amarga.
Ele sempre se entristeceria disso.
— Ao menos foi saudar o senhor do reino? Sabe que ainda deve ser respeitosa. – Avisou.
Karin suspirou profundamente, com um sorriso sarcástico e rancoroso.
— Não é como se ele fosse sentir minha falta, é? Agora mesmo está muito entretido adorando aquela mulher, praticamente ignora aqueles que vieram saudá-lo.
Naruto encolheu os ombros, em parte concordando. Kagutsuchi e sua noiva estavam tão envolvidos entre si que mais pareciam ainda estar em núpcias e ninguém realmente estava arriscando ter assunto com eles além de Tsukuyomi.
— Bem, ele sempre foi muito atencioso com elas...
— Não se faça de tolo, qualquer um vê a diferença... – Ela cortou, irritada, em seguida, lamuriou — Sasuke está tão perdido nesta distração, nessa mulher que o tira da amargura que você e aquela praga o causaram... Que se esquece que não durará para sempre, um dia ela será pó outra vez, sua alma vagará para a reencarnação e a essência desta vida, estará sepultada numa estrela lá no céu... E quanto a mim, ainda estarei aqui...
— Esperando, tola e desesperadamente, para que ele finalmente a note. – Foi a voz suave mas afiada de Hinata que completou.
Ambos se voltara para ela e Karin a fulminou com nojo e desprezo.
— Quem é você para desdenhar de mim, maldita mulher vil! – Cuspiu para ela.
— Karin! Não seja assim. – Naruto interrompeu, preocupado, e se voltou para a esposa. — Esposa, por favor, não procure discórdia.
— Nunca procurei discórdia, marido. Mas tampouco deveria aceitar ser posta no pedestal da culpa. Até quando terei de suportar o menosprezo dela?
— É muita ousadia sua agir como se fosse inocente. Você jogou com os dois, se divertiu e amou ser disputada, escolheu um deles e se vangloria até hoje de ver ambos em rixa.
— Sasuke e eu não temos uma rixa! – Naruto retrucou.
— Hipócrita! Teme tanto que essa mulher que se diz sua se jogue nos braços dele que praticamente fugiu e ainda foge desta terra!
— Sei que minha imprudência e capricho estremeceram a relação entre Sasuke e Naruto. – Hinata confessou, suspirando. — E os céus sabem que oro todas as noites para que isso seja reparado um dia. Mas não muda o fato de que você, Karin, me acusa de algo do qual não tenho qualquer envolvimento.
— Que seria...? – Karin devolveu, desdenhosa.
Hinata estreitou os olhos prateados.
— Sua covardia.
Karin-gami se inflou de ira, suas faces tornando-se quase tão vermelhas quanto os cabelos.
Mas Hinata não voltaria atrás agora, aguentara seu rancor e destrato tempo o bastante, mesmo quando já nem tinha envolvimento nas escolhas de Sasuke.
Claro que a magoara, talvez até demais que ele lhe tivesse reservado tão pouca atenção desde que se reencontraram, ainda mais sendo por uma mera humana.
Para Hinata que fora criada no reino lunar e era considerada desde sempre a mais bela flor dos reinos divinos, era inaceitável ser ignorada em prol de beleza tão inferior e efêmera. Mas isto, era um assunto que resolveria depois.
— Sim, sua covardia. – Reiterou. — A quantos milênios você veio a essa terra, Karin? A quanto tempo que espera que Sasuke a note somente por isso? Você é covarde, Karin, sempre foi. Por que você não passa de uma deusa montanhesa, de baixa estirpe cujo nome quase foi esquecido através do tempo... Você sempre soube que era ousadia demais amar e desejar para si o maravilhoso Kagutsuchi, filho daqueles que precederam tudo e todos. Então o que você fez? Infiltrou-se na morada dele, passou séculos escondendo-se na sua cortina de bajulação e falsa amizade. Você nunca desejou a amizade dele, você só queria ser aquela que sempre esteve lá, preguiçosamente esperando que um dia ele olhe para o lado e que seu coração simplesmente se cativasse.
— Basta! – Karin trovejou.
— Você queria que Koi no Yokan* acontecesse, mas este sentimento só veio de você. Queria que ele a amasse e adorasse na primeira vez que a visse, mas já a viu mil vezes e nunca uma delas, o sentimento veio. Mas o que você fez, uma vez que Sasuke nunca se cativou de você à primeira vista? Escondeu-se mais, sua mulher vil! Escondeu-se atrás da sua falsa amizade, estava lá quando teve amantes, estava lá quando teve a primeira noiva humana, estava lá quando a segunda veio... e também quando se foi, não é? Estava lá, envenenando a mente da terceira sempre que podia, estava lá quando ela feneceu e mesmo o coração de Sasuke tendo doído por não tê-la salvo, você esteve lá, fingindo o consolar e enquanto se regozijava por dentro.
— Cale-se! Cale-se! Vil é você! Você o tomou! Você o machucou!
— Quando Koi no Yokan aconteceu, você estava lá, e viu o que eu e Sasuke sentimos um pelo o outro, mas você continuou lá, sem fazer nada além de despejar seu veneno e seu despeito. Você viu humanas, criaturas e deusas confessarem seu amor corajosamente para ele mas era covarde e arrogante demais para lutar também. Você não odeia a mim que cativei o deus, você não odeia suas noivas e você nunca se importou realmente com o coração partido de Sasuke ou o quanto esta terra sofreu com ele. Você só odeia a si mesma, você só ressente por si mesma. Você é covarde e arrogante, e a culpa disso é somente sua.
Hinata se afastou, deixando a mulher arrasada dentro de si mesma, deu as costas. Se afastando da ponte.
— Então confessa que...- Naruto iniciou, engolindo em seco. — Entre você e Sasuke, sempre existiu algo mais que a amizade, que o que ele sentia era recíproco?
— O que ele sente. – Para Hinata, ela sempre teria o coração dele. Era o que o destino queria, uma história de amor não correspondido. Uma flor amada por muitos deuses, até o mais temível de todos, mas que no fim, já tinha seu escolhido, Naruto. Por que era tão difícil eles aceitarem a decisão do Destino? — Uma parte de Sasuke sempre será minha, uma parte minha, sempre será dele....E resto do meu ser será sempre seu, esposo. Foi o que o Destino decidiu quando nós três no encontramos naquele dia...
Karin soltou uma risada chorosa e desconsolada. Estava agora no chão, com sua maquiagem desfeita pelas lágrimas.
— Você é um monstro mesmo. Prefere vê-los continuarem a sofrer do que admitir que não poderá ter ambos...
— Isto não sou eu quem decide! Como poderia? Eu não mando nos sentimentos deles.
— Não, não manda...- Naruto decidiu, amargurado. — Você os alimenta, para continuar tendo domínio sobre eles, não é?
Hinata o fitou atônita e ofendida.
— Naruto! Até você...?
— Então eu não sou dono de todo seu ser, seu coração? Mas não foi isso que prometeu durante nossa união, eu lhe entreguei todo o meu ser e se orgulha de dizer que nunca será minha?
— Eu sou sua! Mas o que sinto por Sasuke... Uma parte minha sempre será cativada por ele, Sasuke, sua flor é a lycoris, elas significam separação, não entende? O Destino quer que Sasuke ame e seja amado de longe!
Ele meneou a cabeça, olhando-a decepcionando e também como se não a reconhecesse.
— Você não sabe nada sobre o destino. Você só sabe dos seus caprichos. Que me importam as malditas flores?!
— Esposo!
Naruto virou-a as costas, uma ventania brusca sacudiu suas vestes.
— Eu não sabia o que você realmente pretendia vindo até aqui. Achei que realmente se importava com Sasuke. Mas nisso ambas são iguais, ambas só querem ser donas dele... E pensar que eu o invejei tanto... Mas meu amigo agora é feliz, não importa se aquela garota é humana. Ela trará muito mais bem a ele do que qualquer uma de vocês e eu a abençoo infinitamente por isto. Estou retornando, irei me despedir de Sasuke e você, esposa. Só desejo que esteja comigo quando decidir que será somente minha. Até lá, talvez devesse ficar aqui mesmo, e testemunhar o que realmente é amar e ser amado.
Dito isto, ele desapareceu na ventania, apenas os murmúrios dos grilos e sapos ecoaram entre elas durante o longo momento que Hinata absorvia que seu marido a abandonara.
Karin suspirou pesadamente, e se ergueu esfregando o rosto e erguendo o queixo, arrumou as vestes.
— Ora, ora, será que o Destino previu que você seria abandonada por ambos ao mesmo tempo? – Atravessou a ponte, passando por ela. — Sasuke a esqueceu assim que pôs os olhos na oferenda, e Naruto despreza esse seu coração incompleto. A mim, parece que o Destino a está ensinando uma lição.
Karin seguiu em frente, de volta aos próprios aposentos. Sabia que nada tiraria o gosto de fel que as palavras da mulher a deram, mas poder retrucar o desdém a altura ainda era reconfortante.
O belo rosto contorcido de raiva e despeito de Hinata, chegava a ser assustador, e Karin sentiu um mau presságio, mas apenas decidiu que no fim, independente das próprias falhas, estava certa sobre ela. E esta era sua verdadeira face se revelando.
¤
Sakura subiu os degraus de madeira que levavam ao convés do suntuoso navio ansiosa e encantada com sua beleza, seguiu até a amurada, ansiosa para vê-lo zarpar para o alto.
Sasuke subiu mais atrás, conversando com Tsukuyomi e Ebisu, o gentil deus dos comércios que era dono da embarcação.
Quando o navio misteriosamente começou a flutuar, ganhando altitude, ela visualizou as vestes coloridas em tons quentes que Naruto sempre vestia, e estranhou vê-lo caminhar na direção oposta ao navio.
Naruto olhou por sobre o ombro e ela ia acenar quando notou que ele tinha um semblante estranho e melancólico. Ainda assim, ao que ele a notou, lhe deu um sorriso profundamente singelo e cordial e então, desapareceu de sua visão.
Sakura se perguntou o que poderia ter acontecido a ele, mas como já havia notado a presença da sua esposa no barco, presumiu que não fosse nada de mais, afinal.
Até mesmo Karin-gami finalmente apareceu, embora não se aproximasse, Sakura ao menos estava aliviada de não receber nenhum olhar desagradável até então.
Logo eles estavam navegando acima da cidadela, as estrelas cintilavam parecendo cada vez mais próximas até, e cortaram as finas camadas de nuvens quando tudo lá em baixo se tornara apenas pontos e silhuetas.
— A visão realmente a agrada? – Sasuke perguntou, recostando-se ao lado dela. Sakura assentiu, mal contendo o sorriso imenso.
— É tão lindo! Nunca vi coisa igual, acho que nem de avião seria capaz de dar essa visão.
— Fico feliz que tenha gostado, valeu a pena ouvir Ebisu discorrer ininterruptamente sobre o preço do iene no mercado internacional...?
Sakura gargalhou, sabendo que para ele era tedioso ouvir qualquer coisa acerca do mundo humano e nem ela sabia muito sobre o mercado da moeda.
— Esse foi o melhor ano novo que já tive! – Declarou.
— Nem deixou seus pedidos no templo. Como pretende ter um ano melhor se não pediu ao deus do templo?
Ela piscou, por um momento desesperada, mas então se tocou que ele a estava zombando e riu.
— Oh, e não é mesmo? Mas talvez eu ainda possa pedir? Sou muito próxima dele, aliás.
— É? O quanto? – Ele indagou, inclinando-se em sua direção, Sakura fez o mesmo.
— Muito, eu posso até mesmo sussurrar em seu ouvido, “faça meu ano o melhor de todos, Kami-sama, e minha vida toda será fazer seus dias alegres”.
— Me parece uma ótima promessa, ele seria um tolo de não aceitar. – Sasuke suspirou, contra seus lábios.
— Eu sei que ele não é, afinal é de meu marido que estamos falando.
— Tem razão, ele também tem imensa sorte...- Sasuke selou a boca na dela, afagando sua bochecha e maxilar com um toque de adoração.
Sakura ás vezes o fazia sentir que era ela a deusa.
— E ele não a trocaria por nada. – Concluiu, pressionando seu cabelo perfumado contra as narinas. — Minha rainha das flores...
Ele a olhou com tanta paixão e carinho, que Sakura teve que esconder o rosto contra seu peito, torcendo pra que ele não visse o amor nos dela e assim a verdade sobre sua mortalidade não viesse assombrar este momento que ela levaria consigo para sempre, até em outras vidas.
Quando o navio pousou em meio uma distante colina, foi somente para que pudessem assistir de mais perto o espetáculo do rebanho de raposas desbravando os campos em seu passeio habitual de fim de ano por todo o reino.
Sakura assistiu os pontos vermelhos pararem perto de um pequeno lago e descansarem um pouco. A todo momento novas raposas surgiam de todas as direções e se juntavam a elas. Quando elas deixassem aquele lugar, provavelmente só parariam dali dias após cruzarem boa parte do reino.
Sakura se sentou na grama, e suspirou, vendo que começava a amanhecer, olhou para trás vendo Sasuke conversando com Ebisu, o irmão e Kakashi.
Olhando para a frente novamente, ela viu que em meio ao gramado nasciam alguns ramos da bela flor aranha. Havia um toque da mão criadora de Sasuke em cada canto desta terra e ela amava isso tanto quanto amava o calor das fontes termais que a lembravam o calor dele quando não estava perto o bastante.
Aproximou-se tocando as pétalas longas mas não arrancando-a de lá.
— É uma linda flor, não é?
Sakura se espantou, de notar Hinata-gami tão próxima de si, com um olhar quase vazio e opaco.
— Oh, sim, são. Gosta delas também? Eu as amo... Amo tudo o que Sasuke criou. – Sakura declarou, suspirando ternamente.
Hinata suspirou, olhando em torno com uma expressão melancólica e saudosa.
— Sim... Eu as vi de lá de cima, da minha bacia de prata, da minha casa, eu vi um enorme campo de flores vermelhas, um tapete carmim cobrindo todo a montanha... Isto foi há muito tempo...
Sakura procurou imaginar o que ela viu, e concluiu que era lindo mesmo. Tudo o que Sasuke criara ela lindo e singelo.
— A segunda coisa que vi, quando pousei... Um lindo homem solitário... que desejou meu coração e eu ao dele...
Sakura paralisou, tentando processar o quadro.
— Mas eu só pude pegar uma parte, eu só pude dar uma parte, mas ainda é apenas minha... E não permito que ninguém a tome de volta, nem mesmo ele próprio...
Sakura se levantou de uma vez, alarmada com seu tom, convertendo-se numa melodia fria e sombria. Embora as palavras dela a magoassem e enciumassem, não havia como acreditar em seu relato de amor, quando o contava com tamanho capricho egoísta.
Isto não podia ser amor de verdade.
Hinata sorriu curto e venenosamente e cantarolou maldosa.
— Ei, você não sabia? Lycoris, a flor do Deus do Fogo...- Iniciou, apontando-a um indicador que brilhou uma luz prateada. — Também significa Separação.
Sakura tentou correr, o coração gelado de medo, só poderia ser aquecido pelo calor dos braços dele.
Sasuke notou sua movimentação afoita, e sua expressão desesperada o assolou.
— Se o seu maior desejo é amar a criação do deus, então apenas se torne uma delas. – Hinata proferiu.
Sakura caiu sobre o gramado, desaparecendo em meio o mato alto e Sasuke correu ao seu encontro encontrando apenas suas vestes espalhadas no solo.
— O que houve?! – Itachi indagou, afoito, vendo sua expressão converter-se na mais aterradora de todas.
Karin chegou até eles, preocupada com o deus, assombro a tomou assim que ligou as vestes da oferenda no chão e a expressão insossa de Hinata.
— Você... Você a amaldiçoou...?
— O quê? Como ousa?! – Tsukuyomi interferiu, indignado, mas fúria nenhuma era comparável a que tomou o deus das chamas e toda a terra tremeu aos pés deles.
Kakashi se aproximou, segurando um arco e uma aljava, achando que o que iniciara a confusão fosse o ataque de alguma corrupção.
— O que fez com ela? – Kagutsuchi reverberou brutalmente.
Hinata o lançou um olhar ofendido, mas suas faces enrijeceram de temor ante sua expressão, uma orbe dele tornou-se lilás com arcos negros, a outra, carmim com arcos e virgulas escuras que giravam numa dança de ira, a pele do rosto endureceu com veias vermelhas incandescentes se acentuando sob a pele leitosa e até mesmo seu cabelo escuro e curto eriçou e alongou como um felino selvagem e furioso.
Ao longe puderam ver uma fumaça escura subir do cume do vulcão e seu interior se ascendeu, como se qualquer momento uma erupção fosse assolar aquela terra e todas as outras.
— Sasuke, acalme-se. – Itachi pediu, temendo que os abalos atingissem as terras divinas acima deles e também o lado humano, outra vez.
— Esta oferenda que meu senhor tanto adorou...- Hinata proferiu, escondendo o rosto assustador sob as mangas. — Fez-me temer que já não tivesse mais o lugar que um dia tive em seu coração...
— Fez isso por capricho. – Ele concluiu, com uma longa inspiração.
— Meu senhor, nunca...
— Retire-se da minha presença, deusa cruel e vulgar. – Ele decretou. — Antes que eu...
Um regougar fino e abafado os espantou, olharam novamente para o kimono aos seus pês e viram algo remexer-se entre os tecidos. E então uma cabeça branca de kitsune surgiu, regougando agitada, e saiu dali de baixo, meio aos tropeços.
— Isto é... Sakura-sama...? – Kakashi disse.
A kitsune sentou e coçou as orelhas com manchas de um tom rosado, seus olhos eram verdes e puros.
— Sakura...- Sasuke proferiu, pesaroso, ela se espantou, o encarando e então eles ouviram o regougar conjunto do rebanho de kitsunes, que passou a abandonar a beirada do lado e finalmente partir para sua viajem.
Sakura, agora reduzida a uma criatura como aquelas, desejou seguir o mesmo rumo e com agilidade, partiu em disparada pela campina, em busca de se juntar ao coletivo.
— Essa não! Se ela se misturar! Vamos perdê-la! – Kakashi se alarmou.
— Não há nada que possa fazer agora. – Sasuke declarou. — Dê-me seu arco.
Kakashi o fitou com assombro, mas o deus continuava impassível. Entregou-o o arco.
Sasuke o pegou, apontando na direção do ponto branco, uma flecha de fogo se formou dentre seus dedos e ele suspirou profundamente, fechando os olhos por um segundo, proferiu um sortilégio numa língua mais antiga que o deuses e já há muito esquecida.
Abriu os olhos e atirou a flecha, ela cortou a brisa fria da manhã recém iniciada e atingiu em cheio a kitsune que rolou em chamas e tombou em meio a campina, desaparecendo da vista deles.
Por longos momentos, eles observaram aquele ponto, absorvendo o fato que o deus matara a pobre noiva para dar fim a sua má sorte, Karin virou o rosto, enojada consigo mesma, ao perceber que uma parte sua apreciara isso.
Sentiu-se verdadeiramente desprezível, como poderia apreciar por um segundo, ver Sasuke tendo que agir de forma tão fria e cruel por manipulação alheia?
Hinata inspirou com alívio, ao vê-lo baixar o arco como se pesasse demais para suportar.
Mas neste momento, viram a kitsune se erguer num salto atrapalhado, e olhar pros lados toda alerta, como se esperasse outro golpe surpresa.
Ela então voltou a correr na direção do rebanho, tornando-se o único ponto branco entre eles.
Em seu pescoço, um arco de luz brilhante como um halo balançava enquanto ela corria com suas ágeis patas.
— O que você fez?! – Hinata indagou, histericamente e Sasuke deu as costas, devolvendo o arco ao Kakashi.
— Se sua maldição não for quebrada até o décimo primeiro dia do mês, não sobrará pedra sobre pedra, eu engolirei tudo com lava e chama. – Decretou. — Incluindo os deuses.
Botan = Peônia, considerada a Rainha das Flores, significam Coragem.
Kiiroichurippu = Tulipa amarela, significam Amor unilateral.
Koi No Yokan*
Se refere à sensação após conhecer uma pessoa de que ambos viverão uma história de amor depois de um tempo. É um sentimento diferente do que chamamos de “amor à primeira vista”, uma vez que o amor de fato ainda não existe, somente a premonição de que é algo inevitável.
Fale com o autor