The Bride Of The Fire God
5 Akaichurippu, Akaibara e Asagao
Notas iniciais

Sakura despertou com um ruído, que aos poucos foi se revelando como o piado dos pássaros. Esfregou os olhos, sentindo uma cálida claridade contra o rosto e enxergando melhor ao se sentar, deparou-se com sua cama repleta de pássaros aninhados contra seu corpo.
A movimentação dela os fez se agitarem e voarem através da janela e então ela ouviu o relincho suave de Nébula, com o pescoço para dentro da janela.
— Nébula...? – Proferiu, ainda um pouco desnorteada pelo sono, acariciou seu focinho. — Você veio me ver...?
Togame adentrou o aposento, com sua habitual pressa e praticamente atirou a bandeja no chão ao vê-la sentada.
— Acordou! Ela acordou!
— Togame-dono...?
— Ela acordou! – Com os olhos brilhando de alegria, ela veio até Sakura, puxando seu rosto e beijando, e então saiu saltitando para fora do quarto e gritando pelo corredor. — Ela acordou!
Sakura olhou para a égua, se perguntando o que havia se passado para tanto alarde. Foi então que viu miúdos flocos de neve caírem no peitoril de pedra e deparou-se com toda a região, agora totalmente árida, começando a ser recoberta pela nevasca.
O pico da montanha já estava totalmente banhado em branco, as flores vermelhas que cresciam ao pé dele agora eram apenas talos secos e toda a vegetação se encontrava escura e retorcida como se esperava ver no inverno.
— In-Inverno...? Quanto tempo eu dormi?!
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— Hahahahaha! Eu queria ter visto a sua cara! Hiahahahahaha! Deve ter sido hilária! – Kurama gargalhava tão alto que era quase ensurdecedor dentro da carruagem. Togame, Saori e Hitsuko a olhavam com dó mas também se continham para não rirem.
Sakura bufou, já com o gênio espezinhado e chutou a raposa do acento para o chão.
— Chega! Já entendi! E por que você veio mesmo?! Ninguém convidou!
Kurama rolou pelo chão da carruagem que balançava bastante e logo tudo perdeu a graça. Aborrecido, pulou de volta ao lugar e se deitou.
— Ora, não desconte em mim, sua mulher bruta! Ninguém tem culpa se você é fácil de provocar.
— Não me banque o bully!
Era só o que faltava, ser vítima do bullying de uma raposa! Depois de anos sofrendo nas mãos de colegas maldosos, cair nas patas de uma kitsune chegava a ser o fundo do poço!
Mas como poderia ter evitado tamanho papelão? Quando foi dormir era plena primavera, acordar dando de cara com neve foi assustador. Achou que havia dormido seis meses e com razão.
Afinal, nem mesmo Sasuke a havia explicado que a transição das estações no reino do fogo era muito rápida. O tipo que, uma semana que começava em primavera, poderia terminar com o inverno.
O verão não existia no reino do fogo por motivos meio óbvios, e Kagutsuchi estreitara ao máximo o outono. Deste modo, haviam duas estações dominantes apenas, primavera e inverno.
Sakura perdera o curto outono, que durava no máximo um mês, ou seja, ela ainda dormiu muito mais do que era normal.
No entanto, o que mais a preocupava agora era a viajem que seu marido empreendeu e da qual, até então não dera notícias.
Boa parte da ansiedade de Togame e o resto dos servos em vê-la de pé, era pela possibilidade de Sakura informar aonde o marido havia ido, porém ela não pôde ser de ajuda nisso.
Ela tentou pensar que ele só tivera algum compromisso particular e urgente, e aproveitaria sua primeira visita á capital do reino da melhor forma possível. Nem que tivesse de vender a pele de Kurama no mercado.
Sakura entreabriu a janela, e jogou a atenção para a cidade, eram magnificas construções de pedra e madeira, cortadas por canais de água quente, pontes e vias muito limpas, abarrotadas de pessoas, a maioria ela podia dizer que era bem vestida e de certo nível, mas também notara pessoas simples. O mais chamativo era que não haviam só pessoas, haviam criaturas de toda sorte também, tanto passeando quanto trabalhando nos comércios e frentes de barracas.
Não havia como ela se convencer mais de que estava em outro mundo.
Tecnicamente ela era a única humana, e todas essas pessoas eram pequenos deuses, semideuses, youkais e ayakashis, vivendo pacificamente sob as asas de Sasuke, Sakura mesmo sabendo que era humana, percebeu que se sentia melhor chegando ali do que se sentira tantas outras vezes ao ter que se encaixar entre os de seu mundo original.
Ela notou que muitas crianças começaram a seguir a carruagem, acenando e gritando, o par de bisões de pelo prateado que conduzia o veículo começou a bufar, um pouco aborrecidos com essa bagunça.
— Noiva-sama! Noiva-sama! – As crianças insistiam e Sakura se aproximou mais da janela, para vê-las melhor, acenou de volta, para a alegria delas.
E os bisões aceleraram um pouco a passada, atravessando uma ponte de pedra.
— Aonde vamos primeiro? – Perguntou.
— Temos muitos lugares, o templo principal, a feira, o teatro deve ter algo divertido para ver mesmo agora durante o dia, as escolas de artes, todos irão querer receber a sua senhora do Fogo. – Togame declarou, professoralmente.
Se o objetivo era animá-la, Sakura ficou foi nervosa, não estava nem um pouco pronta para esse tipo de fama e prestígio. Kurama riu de sua cara assim como as outras duas moças a olhavam achando graça.
Seguiram direto ao grande templo, ele ficava no centro da cidade e era o lugar que seu senhor e marido vinha com mais frequência, pois também servia como o lugar de onde ele administrava todo o reino. Sakura entendeu que além de sede religiosa era como a prefeitura também, algo assim.
Era tão majestoso quanto o palácio, com grandes torres e monumentos na entrada com a forma de dragões, águias e leões de fogo, com muito ouro e um forte cheiro de incenso que Sakura adorou, e de certa forma, tinha a impressão de já ter sentido antes.
Haviam grandes tapetes bordados com temas históricos, lendas e paisagens, pinturas, esculturas e vasos. No centro havia uma estátua do deus em o que parecia ser pedra vulcânica, rústica, mística, sombria, emanava poder e onipotência.
Sakura olhou aquela estátua por muito tempo, também sentiu como as pessoas se comportavam ao redor dela, completamente tomadas por sua grandeza, intimidadas e maravilhadas, curvando-se em total submissão.
Ela se perguntou se eram assim diante do próprio deus, mas já sabia a resposta por que via como Togame e os outros se comportavam.
Afligiu-a a ideia de viver assim, cercada sempre de quem estaria “abaixo”, vista de cima, e mais ainda por Sasuke, que sempre só conhecera essa vida.
E ela? Era mais uma? Ela poderia mesmo se considerar mais que isso? Ela sequer poderia mesmo se considerar uma noiva ou uma mera oferenda? Considerando como chegara ali, como fora só apanhada e enviada, talvez ela estivesse mais para um improviso ou uma falsa noiva...
De qualquer forma, e embora sentisse que era perigoso para seu coração desejar algo assim. Sakura sabia que não queria ser nada disso, ela queria algo comum, mas real e também maravilhoso.
Ela queria ser alguém próxima de verdade, daquela pessoa, mesmo sabendo que houveram outras a quem ele pertenceu, que existem outras que o querem tanto a ponto de machucar...
Sakura queria, gostaria, de poder dizer que conheceu aquela pessoa como nenhuma outra no reino.
Gostaria de ser uma esposa de verdade.
Sakura deixou o templo logo, pensando somente em quando Sasuke voltaria, e torcendo para que logo, ela só foi se distrair novamente quando esteve na feira.
Havia tantas coisas lindas a se ver, as pessoas foram extremamente agradáveis ou no mínimo, se gostaram dela ou não, eram muito educadas. Ela mergulhou num mundo de lindíssimos tecidos, utensílios, artigos para se enfeitar o cabelo e bugigangas que até lembravam um pouco as de seu mundo.
Togame só então avisou que aproveitariam o passeio para comprar materiais de estudo.
Sakura quase chorou, e Kurama quase perdeu a pele de tanto que riu e encarnou.
Mas o que ela mais temia se tornara real: Descobrir que nem só de luxos e mimos viveria a noiva do deus do fogo.
Ela teria que aprender tudo sobre boa educação, arte e até economia! Sentiu-se como uma princesa feudal sendo educada em casa ou coisa assim.
Aprenderia Ikebana*, Shodo*, Chadō* e tudo mais que englobasse o tradicional Tokonoma*.
Que injusto, parecia até que ela iria casar outra vez! Por um lado, não acreditava que Sasuke fosse ser tão exigente com a educação de uma esposa, mas por outro, já era claro quão culto ele era...
Bem, ela ao menos não ficaria atoa o dia inteiro como havia chegado a imaginar. Se se esforçasse, ao menos poderia chegar a ser vista como muito mais que uma oferenda improvisada.
Durante a tarde, ela passeou pelos jardins, solitariamente brincando com uma pedra de coloração vermelho intensa. Estava nevando outra vez, os flocos derretiam e se desfaziam mal tocavam nas águas aquecidas das piscinas.
Sakura olhou para as montanhas, e viu um grande grupo de cavalos galopando velozmente em direção a elas, desaparecendo na nevasca. Presumiu que não veria mais Nébula ou Magma até o fim do inverno, as estrebarias já estavam vazias.
Nisso, tropeçou nas próprias vestes e viu a pedrinha escapar dos dedos e mergulhar na água. Abaixou-se rapidamente, tateando, mas além de profundo demais, estava longe.
Sakura olhou em volta, temendo que Togame aparecesse para dar sermão ou que Kurama a dedurasse, não viu ninguém então arriscou. Sentou-se na beirada, e mergulhou as pernas, o tecido imediatamente ficou pesado e o choque térmico acabou sendo bem vindo.
A água passava um pouco de seu quadril e os peixinhos mordiscaram-na, Sakura se abaixou e tateou o fundo, entre as plantas aquáticas e encontrou a pedra. Pensou em sair logo, mas aquilo estava verdadeiramente quentinho e aconchegante demais para abandonar e acabou se deixando molhar de vez.
Afundou e se virou, deitando, seu corpo teimava em afundar pelo peso das vestes. Mas relaxar nas águas aquecidas e observar o céu nebuloso de onde a neve caía, era uma sensação maravilhosa.
— O banho não é quente o suficiente, Sakura?
Ela adoraria afundar como uma pedra agora. Girou ficando de pé e olhou para a beira da piscina, onde Sasuke a observava com bom humor.
Sakura quase iria se afogar voluntariamente quando notou o que ele vestia, uma calça social, terno, sobretudo absolutamente pretos e um cachecol longo e cinzento solto sobre o pescoço.
Seu marido mesmo parecendo tão humano, continuava alguém de outro mundo, algo como um modelo ou magnata rico.
Sasuke desviou os olhos para o céu, um instante e suspirou.
— Já é inverno, hein...? – E se abaixou, estendendo a mão para ela. — Venha, se ficar muito tempo entre frio e o calor assim, vai passar mal.
Sakura se aproximou, envergonhada e tentando disfarçar quão maravilhada estava como fato de que seu marido era tão bonito.
Sasuke a puxou da piscina, e muita água escorreu das roupas delas, deixando-a mais desconsolada ainda.
Era uma esquisita, desajeitada e estabanada comparada a ele.
— Se Togame vê-la assim, será um show inesquecível.
— Vai me dedurar?
— Estou feliz que finalmente tenha acordado, então não deixarei que a levem de castigo.
— Oh...- Sakura seguiu ao lado dele, o observando atentamente e comparado com a estátua intimidante que vira no templo.
Não eram exatamente iguais, o cabelo do deus esculpido era longo e selvagem como sua fisionomia, olhos vazios e até mais melancólicos.
— Onde o senhor esteve? Passou um mês fora, e eu dormindo...
— Bem, ao menos alguém estava se divertindo, sonhos interessantes?
Sakura fez muxoxo, sabendo que ele estava fugindo do assunto, Sasuke riu outra vez. Eles entraram no castelo, seguindo para o quarto.
— Estive no mundo humano, resolvendo o que você poderia chamar de... Negócios inacabados.
— Negócios?
— Claro, também acabei resolvendo conhecer o mundo humano atual de onde minha noiva veio.
— Sério? E o que achou?
— Caótico. — Ele suspirou. — Humanos vivendo em torres gigantescas, amontoados como formigas, porém longe de bem organizados quanto.
Ele com certeza esteve em Tóquio.
— Volumoso, barulhento e irritantemente colorido, lembra um pouco você...
— Huh?!
— Mas..- Sasuke apontou o canto do quarto, onde havia um baú marrom. — Não vi por que não trazer um pouco dele, para você.
Sakura se aproximou, encontrando uma infinidade de tralhas modernas, revistas de todos os tipos, itens femininos, coisas simples de casa, que nem ela já usara, brinquedos que funcionavam com pilhas e pelúcias.
— Kagutsuchi-sama... Comprou mesmo tudo isso?
Sasuke sentou-se numa poltrona, suspirando e puxando cachecol de si enquanto ela revirava e ria daquilo tudo, incrédula.
— Vendedores são os mesmos em qualquer lugar. Elogiarão e farão tudo para você comprar...
— Quem te vendeu isso? Uma colegial? – Sakura riu, afinal era tudo em sua maioria feminino, rosa e tudo mais de completamente oposto a um homem daqueles. Só imaginar Sasuke andando por Tóquio carregando aquilo tudo. Ela não poderia se conter.
— Uma colegial? Alguém num uniforme e muito tagarela? Acho que sim.
— Hahaha! Não acredito! Tem até mangás yaoi?!
— Que seria...?
— Na-nada de mais!
— Hm, de qualquer forma. Espero que goste, e que durem, eu descobri que não quero ir para outra margem pelos próximos mil anos, ao menos...
— Hahaha! Isso era algo que eu adoraria ter visto! – Sakura gargalhou, em seguida um espirro.
— Melhor você tomar um banho de verdade e se trocar, ou ficará resfriada.
— Oh, hum, okay. – Ela se levantou, segurando algumas coisas que gostaria de mostrar ás aias primeiro, correu até ele, inclinando-se e beijando seu rosto. — Obrigada por isso!
Sasuke a observou se retirar, calado, e puxou as pernas, esticando-as na cama para descansar.
— Parece que finalmente conseguiu avançar alguns estágios...
Ele suspirou.
— Tudo isto por um beijo no rosto...? Estarei miserável e acabado até que ela me deixe ter mais? – Resmungou um pouco. — Mas, que seja. E quanto a você? Quem disse que pode ficar espreitando dentro do meu quarto?
Kakashi, o chefe da segurança aproximou-se para a luz, enfim, o olhando com ar de troça.
— Não quis interromper seu momento de ternura com sua noiva... Afinal, ainda não fomos apresentados.
Sasuke deu de ombros, olhando para a janela.
— Algo que eu precise saber?
— Não, além de boatos que Susanoo está irado que você se “aproveitou” da aposta de vocês para tomar uma noiva, nada além dos velhos problemas tem ocorrido.
Sasuke o olhou de lado.
— Corrupções? – Kakashi assentiu, sério.
— Têm estado agitados na fronteira, durante as últimas semanas. Mandei aumentar as patrulhas, porém com o inverno, isto se torna mais difícil e perigoso.
— Claro... – Sasuke por fim se ergueu, começando a se livrar das roupas humanas. — Mande aumentar a atenção nas aldeias, na cidade e também aqui.
— Como desejar.
— Apareça para o jantar, caso queira.
— Oh, que convite adorável! Irei no meu melhor traje para impressionar a noiva-chan!
Sasuke bufou, irritado com esse velho Inu.
— Pensando bem, sua cara a assustaria. – Desconvidou.
Kakashi apareceu mesmo assim, claro. Uma vez que ele podia aborrecer Sasuke, ele fazia questão de dar as caras e até mesmo não se atrasar.
Sakura no entanto, simpatizou muito com o chefe de segurança, ele tinha um humor excêntrico, e arrancava caretas do seu marido facilmente, como um tio canastrão. Ainda assim, era também misterioso, escondendo parte do rosto sob uma máscara, cabelos prateados e um olhar muito curioso.
Kurama também fez companhia, Sakura foi plenamente vingada pois Kakashi ganhara a noite infernizando a kitsune e contando alguns de seus podres. Foi um dos jantares mais divertidos que ela teve desde que chegou ali.
Sakura suspirou profundamente cansada, desde que o dia inteiro fora muito agitado, ela se deitou sob algumas camadas de mantas e olhou para o céu, vendo a neve cobrir a paisagem, a nevasca caindo incessantemente.
Sasuke veio para a cama, deitando-se, suas roupas eram ridiculamente finas considerando o frio, e ele se deitou sequer interessado em se cobrir, apenas parecendo também cansado e contemplativo.
— Algum problema? – Indagou, ela se empertigou, envergonhada por ter sido flagrada.
— Bem... O senhor não sente frio? Está congelando...
Kagutsuchi deu de ombros, tranquilo, e só então reparando como ela estava embolada como uma lagartinha.
— Privilégios de ser o deus primordial do fogo.
— Uh, sim...?
— Mas humanos são muito mais frágeis, suponho. Sinta a diferença. – Ele disse, estendendo a mão, Sakura se sentou, empurrando um pouco a coberta, pousou a mão em sua palma, o calor agradável imediatamente atravessando sua pele.
— Vo-você é assim o tempo todo?
— Aa.
— Incrível...
Sasuke riu um pouco, e puxou-a para si, abraçando-a, Sakura paralisou sentindo o calor da pele branca do peito dele através da camisa entreaberta.
— Sinta mais um pouco então. – Ele ofereceu, gentilmente.
— E-está se aproveitando...!
— Será? Deve ser impressão sua.
Sakura estava mortificada demais para se afastar e encará-lo, ele acariciava o dorso de sua mão com o polegar, em lentos círculos e ela não podia realmente negar que o calor de seu colo era melhor que o das cobertas.
Suspirou profundamente e então sentiu aquele cheiro incrível novamente, aquele perfume do incenso do templo. Agora sabia por que gostara tanto.
— Você esteve no templo. – Disse, sem conseguir evitar sorrir.
— Hm? Sim, passei rapidamente antes de vir. Você esteve lá?
Sakura não teve tempo de contar sobre seu dia, pois distraíra-se muito com a companhia divertida de Kakashi.
— Sim! E também na feira, no teatro, é tudo tão lindo lá, e as pessoas foram muito agradáveis, na maioria.
Sasuke afastou uma mão das costas dela, erguendo um pouco de seus longos fios entre os dedos e os admirando.
— A maioria?
— Uh, não acho que todos gostaram de mim, mas foram muito educados.
— Ah, nem todos os ayakashis e pequenos deuses se agradam dos humanos. Enquanto para a muitos uma oferenda é sinal de respeito ao deus a quem foi ofertado e que trará boa sorte, para outros, a face egoísta, cruel e gananciosa dos humanos não é algo a se esquecer facilmente...
— Sim?
— Muitos já passaram pelo lado humano ou nasceram nele, as experiências ruins podem marcar qualquer um com preconceito e temor.
— Entendo... Mas nenhuma foi ruim, ou foi?
Sasuke olhou para a janela, o céu estava fechado agora, mas sabia onde exatamente onde as três noivas apareceriam no fim da noite.
— Foram humanas, como se deve esperar. Tinham personalidades diferentes, e posso ao menos alegar, que viveram satisfatoriamente aqui.
— Faz muito tempo, hein? Se lembra mesmo de cada uma delas? – Sakura disse, quase um resmungo, não admitindo que ele lembrar ou não lembrar bem das outras a incomodaria de todo jeito.
— Vejamos... Quando Kirihana, a primeira noiva veio, era uma criança de doze anos.
— Sério?
— Era também muito rechonchuda... e se me lembro bem, seu formato de rosto e a testa lisa a faziam parecer um ovo. Ela era muito medrosa mas com o tempo, as pessoas aqui fugiam dela, de tanto que falava, ela também amava ir para a costa comer pescados e me obrigava a comer tudo o que cozinhava... E que nem sempre saía tão saboroso quanto ela imaginava...
Sakura riu, percebendo facilmente no tom dele que Kirihana foi muito mais como uma irmã menor e pentelha do que uma esposa.
— Diria que foi a única coisa em que ela não fora exemplar, pois desenhava, cantava e pintava muito bem. Até depois de corcunda e senil me perseguia e fazia comer suas criações culinárias... – Com um suspiro mais pesaroso, ele concluiu. — Recordo que ela foi cochilar e não acordou num dia de outono, a transição de estações sempre atacava sua saúde... Então eu a transformei na primeira estrela da manhã, e na última a ser vista no fim do dia, fazendo jus a sua perseverança em brilhar e alcançar a todos.
Sakura suspirou, contra o peito dele, o sono já não sendo forte contra sua curiosidade e o quanto estava gostando de vê-lo falar de forma tão terna.
— Continue.
— Ah, Aoi, a segunda noiva, era uma garota muito... Discreta, a primeira vista, uma se revelou a esposa ideal para qualquer um.
— Oh, sim?
— Sim, eu lhe dizia que era uma pena tê-la tomado dos humanos, os homens e mulheres perderam um grande exemplo. Aoi era agradável, obediente mas sabia quando dar sua opinião, culta, e amava administrar este lugar, limpar cada coisa e receber visitas. Lembro que este castelo nunca fora tão habitado se não na época dela, quando eu reclamava, ela fazia um grande drama e dizia que eu não queria receber amigos por vergonha da esposa humana.
— Eh? Que caprichosa.
— Sim, muito. Mas era o charme dela, amava cuidar das coisas com zelo, e queria ser tratada da mesma forma, se me lembro bem, era uma amante excepcional...- Ele disse, pensativo e lembrando disso com bastante satisfação.
Sakura se ergueu, o encarando vermelha.
— O quê?!
Sasuke deu de ombros, se defendendo.
— Ela era caprichosa... Cuidava bem de tudo, e claro, do principal, seu marido.
Ela cobriu o rosto, mortificada.
— Aoi não viveu tanto quanto poderia, mas creio que ela estava satisfeita no fim. Ela sempre amou ser jovem, então viveu até o auge de sua beleza e então... Se foi.
Ela o fitou, se perguntando se era certo continuar o fazendo lembrar das partes boas e ruins.
— Como ela...?
— Uma serpente a picou durante um passeio, foi tarde para curá-la, mas se foi sem sofrimento e muito bonita como amava ser. Então, ela é a estrela do meio, de coloração mais viva, como uma pedra preciosa tal qual as que amava usar.
— Sinto muito, por que não pôde cuidar dela até o fim.
— É a existência humana, efemeridade e imprevisibilidade, eu poderia tê-la salvo do veneno, e ela ter escorregado e batido a cabeça no dia seguinte, não?
— Hm... E quanto á terceira?
Sasuke crispou os lábios um pouco, seus olhos ficaram um pouco mais obscuros.
— Nanami... – O nome soou com mais peso e talvez rispidez. — Nanami era... Como posso dizer, para alguns a personificação da parte ruim dos humanos.
— Hein? Tão má assim?!
— Nanami não era má, Nanami era uma mulher assustada, ela acabava atacando para se proteger, e isto virou um hábito. Mas também era muito vaidosa, de todas as noivas, certamente foi a que mais apreciou gozar de ser noiva do deus do fogo, ela esfregaria isso na cara de qualquer um, e era muito ciumenta. Nanami por ser muito medrosa e se sentir inferior aos deuses que coabitavam aqui, acabou se excedendo um pouco, tive que ser duro com ela mas era escorregadia e manipuladora quando queria. No entanto, eu não a culpava por criar uma máscara hostil para se afastar dos deuses e ayakashis. Nanami deixou uma família, amigos, e até um noivo para ser uma oferenda, em um mundo que não conhecia. E quanto a morte dela... Talvez eu tenha sido falho.
— Mas o que houve?
Sasuke ergueu os olhos e tocou a testa dela com o indicador, suspirando.
— Nanami, quando se magoava, acabava voltando a lembrar da sua vida na terra e ficava pesarosa. Um dia, ela se deixou cair em melancolia, e tal como quase houve com você, ela partiu o selo, infelizmente eu não estava aqui para refazê-lo, ou para impedir que a magoassem, então ela definhou muito rápido. E tudo o que pude fazer, foi transformá-la na mais alta e orgulhosa estrela.
Sakura ficou olhando para o nada, pensativa. Considerou que se o selo apenas ao “trincar” em si, a deixara acamada por um mês, e que mesmo que não tivesse tido tantas pessoas realmente próximas a si para lamentar sua partida, ela sofreu, pobre Nanami.
Que deve ter sido linda e amada por seus familiares até o fim, que vivera num mundo que considerara hostil, insegura de si mesma e se corrompendo com o poder, ela no fim, talvez tivesse definhado pelo peso de suas próprias ações do que pelos lamentos que chegaram até ela depois de anos.
Suspirou, verdadeiramente cansada e pesarosa por cada uma delas, se perguntando se agora sentia o mesmo que alguma delas sentiu um dia.
Deitou-se, apoiando a cabeça no peito de Sasuke e inspirou.
— Elas só não queriam ficar sozinhas sem você.
— Hn?
— Kirihana-chan que te seguia, era por que você era o único que se disporia a lidar com a energia dela, Aoi-san que era caprichosa, queria agradar a única pessoa com quem tinha um laço concreto neste mundo... E Nanami-san, podia temer os deuses, mas se orgulhava de ser sua esposa, ela só não queria ser vista como fraca ou inútil, não queria enfraquecer sua imagem... E não queria ser deixada sozinha para encarar a vida aqui onde todos são fortes, belos, e imortais, onde a existência de cada uma de nós é uma flor da estação e a de vocês, um carvalho...Todas elas... Eu entendo elas, eu começo a sentir o mesmo.
Sakura olhou para o céu nublado e se aconchegou mais nele.
— Um dia... Um dia eu serei uma delas, e estarei lá em cima rezando por sua felicidade... Se assim for... Você pode prometer que vai estar comigo sempre? De agora, até o dia...?
Sasuke puxou seu rosto, encarando-a, sem compreender por que suas lágrimas o atingiam tanto.
Mais do que se despedir de uma noiva, ou não poder salvar as outras, mais do que ter de deixar as almas delas seguirem seu caminho, e guardar para si apenas as essências da vida que viveram e transmuta-las para estrelas que podiam ser eternas, isto não o incomodava mais do que esta honesta e frágil criatura pedindo algo tão simples.
— Estarei ao seu lado até o dia em que der o último suspiro. – Prometeu, resoluto.
Sakura assentiu, com um sorriso genuíno, apenas uma pequena lágrima escorrendo pela face, admitindo para si mesma, que assim como as outras noivas, também o amaria, independente da forma. Se deixou por fim, ser tomada num beijo cálido e se entregou de forma lenta, afável e contemplativa.
Nenhum deles sabia, no entanto, que a promessa firmada nesta noite, seria quebrada por ele.
Akaichurippu = Tulipa vermelha, significa Fama.
Akaibara = Rosa vermelha, significa Romance.
Asagao = Glória da manhã, significa Breve amor ou Curto vínculo amoroso.
Ikebana*
Em japonês: 生け花 ou いけばな, literalmente “flores vivas”, é a arte japonesa de arranjo floral, também conhecido como o “caminho das flores” kado (华道).
O arranjo floral, é uma das artes tradicionais do Japão. É praticado em muitas ocasiões como cerimônias e festas, e muitas pessoas atualmente ainda escolhem estudar essa arte.
Shodo*
O Shodo (Shodou/書道) é o nome dado à caligrafia oriental transformada em arte. Traduzindo literalmente, “Sho” significa caligrafia ou escrita e “Do” caminho, ou seja, ” caminho da escrita “ ou ” caminho da caligrafia”.
Chadō*
Existem basicamente dois tipos de cerimônia do chá: Chakai, que são encontros simples e o Chaji que são encontros formais e podem durar até quatro horas.
Tokonoma*
A sala de artes de uma residência japonesa.
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