The Blood of a God
19 Capítulo XIX
Notas iniciais

POV Isa
Não posso garantir que minha vida seja normal. Talvez nunca mais possa garantir isso. Tinha pontos positivos, e claro, negativos.
Por um lado, grande parte do sonho da minha vida tinha se realizado. Por outro, não podíamos fazer quase nada do que gostávamos sem atrair monstros. Se bem que… Era legal vê-los virando pó amarelo com cheiro de enxofre. Sem ofensas aos meio-monstros que estiverem lendo.
Sabe aquela com a Cora? Que me fez ficar com alguns pontos roxos? Resolvi deixar pra lá. Aquilo não levaria a nada, apenas mais ferimentos. E nós brigando no meio de um mundo de monstros não traria bons resultados.
Claro, eu ainda estava ressentida por causa daquilo. "Ela merece uma vingança! Ela te pegou desprevenida!" Disse uma voz na minha mente. "Calada, ela fez para tentar proteger a irmã!" Disse uma outra. "Assim como a sua irmã se sacrificou pra salvar a sua vida medíocre." Disse uma terceira. "Caladas!" Bradei.
Depois do deslize do Luigi, fiz algumas perguntas pra ver até onde o tinham ensinado. Algumas respondeu corretamente, outras, simplesmente não sabia. Fui paciente, e expliquei para ele da melhor maneira que pude. Ele agradeceu, e fiz as mesmas perguntas a Samu. O mesmo resultado.
Quando saímos do Acampamento Júpiter, tive a sensação de que algo aconteceria de errado. Eu estava certa. Muito certa. Eu devia me inscrever naqueles programas de talentos sobrenaturais. Seria engraçado invocar raios e colocar medo em todo mundo. Ou prever que algo iria acontecer.
Tínhamos pegado carona com as Irmãs Cinzentas! Aquilo sim era loucura. Atravessamos quase todo o país, mas ainda teríamos que caminhar mais um pouco. Durante a manhã, nada de irrelevante aconteceu.
Mas durante a tarde, assim que fizemos uma pausa para descansar, as coisas pioraram drasticamente. Ta legal, eu vou parar de enrolar vocês.
Paramos no topo de uma montanha, e um penhasco se estendia a nossa frente. Sentamos na grama, o máximo possível da borda. Comemos, bebemos, descansamos e conversamos durante uns quinze minutos.
Enquanto Samu e Luigi discutiam pelo fato de que não poderiam mais jogar videogame, um barulho perto de algumas árvores me chamou a atenção. Aparentemente, ninguém tinha ouvido, então pensei que era coisa da minha cabeça. Segundos depois, o barulho se repetiu, e eu tinha certeza que eram folhas se mexendo ou galhos sendo partidos.
– Calados. — Todos ficaram em silêncio.
– Não ouvi nada. — Disse Cora, com deboche.
– Claro que não, você não fica quieta. — Disparei, com rispidez. Antes que ela pudesse responder, um rosnado cortou o ar.
De cima da copa das árvores, uma cabeça reptiliana surgiu. Tinha o crânio angulado, a pele verde escamosa e olhos amarelos como ouro. Não havia nos notado, mas assim que percebeu que estávamos ali, rugiu, revelando carreiras de dentes mais afiados que facas de açougue.
Aquilo não era bom. Permanecemos parados como estátuas. Talvez o monstro fosse burro o suficiente para pensar que éramos pedras. Segundos depois, outras seis cabeças absolutamente idênticas a primeira, emergiram de cima das folhas, e focaram a sua visão diretamente em nós.
Ninguém merece. Muito menos a gente. Fala sério, primeiro o ciclope, depois as Irmãs Cinzentas, agora uma hidra. O que falta agora? Unicórnios cor-de-rosa que soltam arco-íris pelos chifres comedores de gente?
– Hidra… — Disse Michelle, pálida. Eu entendia. O único jeito de matar a hidra, seria acertar a cabeça que seria o ponto fraco. Mas se cortarmos a errada, seja qualquer uma delas, duas cresceriam no lugar. Isso sem mencionar que ela podia cuspir fogo e fazer você virar churrasco.
O único jeito seria acertar todas as cabeças de uma vez.
– Não cortem as cabeças. Vai piorar a situação. — Disse, baixinho. Eles assentiram em silêncio. — Causem ferimentos, mas não cortem as cabeças.
Uma das cabeças rugiu, e as outras responderam ao coro. Ao mesmo tempo, empunhámos as armas e nos preparamos.
As árvores que antes cobriam o réptil, foram derrubadas pelo corpo musculoso. As narinas soltavam fumaça, as garras eram afiadas e ela não parecia contente. Como se tivéssemos invadido o território dela ou algo do gênero. Era basicamente uma cabeça para cada um de nós.
Ela se aproximou, e cada cabeça tentou uma mordida. Tínhamos que pensar em um modo de matá-la. Pensa Isadora, pensa!
– Hey! Que tal empurrarmos do penhasco? — Berrou Bella, em algum lugar a minha esquerda. — Isso causaria um impacto em todas ao mesmo tempo.
– Uma boa. TENTEM FAZER A HIDRA FICAR ENCURRALADA!– Gritei.
Samu começou com a distração, berrando insultos e causando alguns arranhões com a espada. Funcionou, pois a hidra se voltou com três cabeças contra ele. Soltaram um jato de fogo, que Samu teve a sorte de se esconder atrás de uma rocha.
Um movimento a minha direita me fez olhar pelo canto do olho. A cauda da hidra acertou Cora, fazendo com que ela fosse arremessada na direção do abismo. Ela agarrou a borda, ficando pendurada, mas eu sabia que ela não teria força o suficiente para se tragar para cima.
“O pesadelo.” O mundo pareceu ficar em silêncio, entrando em câmera lenta e a hidra me ignorou totalmente. Talvez pensasse que eu fosse me suicidar, pulando dali de cima. Um erro, e talvez eu morresse mesmo. Arrisquei, e me aproximei da borda.
Cora estava pendurada, segurando com toda a força possível. As botas raspavam a pedra, tentando achar algum apoio, mas apenas se balançavam inutilmente no ar.
– Droga! Droga! — Cora não parava de praguejar. — Ferrou legal! M*rda!
– Cora calma, eu vou te tirar daí, agarra minha mão! — Disse, estendendo o braço.
– Idiota! Se eu soltar a minha mão daqui, eu caio. Não usa a mente não?
– Caramba, você ta usando as duas mãos, sua lesada! — Gritei. — Agarra logo! — Estiquei o braço o máximo que pude, mas mesmo assim não era o suficiente.
– Se eu soltar uma delas, eu caio, demente! — “CALA A BOCA E AGARRA LOGO A MINHA MÃO!” Gritou uma voz dentro de mim. “Deixa ela morrer, ela nunca gostou de você!” Disse outra. Não. Vou tirá-la dali.
– Uma coisa chamada rapidez. — Disse. Eu já estava ficando irritada.
– Sei que você vai me deixar cair. O que me faria pensar que não?
– Que tal o fato de que eu nunca quis que fossemos inimigas? — Aquilo era verdade. A única coisa que eu nunca quis na minha vida era que alguém me odiasse. A pedra em que Cora se pendurava, despedaçou, fazendo com que ela perdesse o equilíbrio. Ela agarrou outro ponto de apoio, e pude ver o desespero em seus olhos ao me fitar.
– Ahãm. Acha mesmo que eu vou acreditar nisso? — Ela estava desesperada. Queria confiar, mas não sabia se podia.
– Acho, pois você tem duas escolhas: morrer ou aprender a confiar em mim. -Respondi, tentando parecer calma, mesmo que uma voz dentro de mim gritasse para eu puxá-la logo. — E eu garanto que a primeira é uma péssima escolha.
– Morte parece ser uma boa. — Ela deu um sorriso irônico.
– Ótimo. Se junte ao papai no submundo. — Disse, caçoando. — De lembranças a ele por mim.
– Amiga. — Ela franziu a testa. — Então, amiga, estende logo a m*rda do braço. — Não consegui conter um sorriso, e Cora agarrou meu braço.
– Desculpe, não consegui conte-lo. — Ela cravou as unhas no meu braço. — Tudo bem. — Com algum certo esforço, consegui puxa-la do penhasco, e a afastei da borda o quanto pude. — Vem. Temos um lagarto para abater.
– Pena que não posso cortar a cabeça dele.
– Te entendo. — Fiz uma cara de decepção. A hidra estava de costas para nós, e a mesma cauda que derrubou Cora, balançava de um lado para o outro. — ABAIXA!
Eu e Cora nos jogamos no chão, momentos antes da cauda passar raspando por cima de nós. Fomos nos arrastando para onde os outros estavam, e quando saímos do alcance do chicote-verde-mortal-que-pode-lançar-sua-cabeça-do-outro-lado-do-país, corremos em disparada.
A espada de Cora tinha caído na grama, então foi um pouco mais fácil de recuperá-la. Passamos meia hora escapando de jatos de fogo, mordidas e cabeçadas, até que finalmente conseguimos derrubar a hidra do penhasco.
Assim que tivemos certeza de que ela estava morta, nos apressamos a recuperar o tempo perdido. Hora correndo, hora caminhando.
Não tivemos mais nenhum incidente no caminho, e quando a noite caiu, fizemos uma fogueira em uma clareira na floresta e montamos as barracas.
Conversamos, jantamos e depois de um tempo fomos dormir. Ninguém comentou nada sobre o acidente da Cora, ou talvez nem tivessem notado. Achei melhor assim, e acho que ela também. Honestamente, sonhar foi o único erro que cometi naquele dia.
A princípio, voltei para a rua onde minha irmã morreu. Estava vazia, e o céu estava escuro e repleto de nuvens. Alguns raios caíam ao longe. O vento estava forte e gelado, trazendo uma chuva forte consigo.
Logo, todo o asfalto estava molhado, e eu, ensopada e congelando até a alma. Um trovão ressoou, um raio caiu no chão a minha frente, deixando um cheiro de churrasco.
Uma fenda surgiu no lugar onde o raio caiu, e uma mão sangrando surgiu. Logo em seguida, outra. Alguns segundos depois, minha irmã surgiu da terra. Seus cabelos estavam embaraçados, o corpo totalmente machucado, igual ao dia em que ela pereceu.
Os olhos, antes azuis, agora eram brancos e leitosos. Tive que me segurar pra não vomitar. "Certo. Isso é um sonho, posso controla-lo." Imaginei uma floresta comum, com um cervo comendo algumas amoras. A imagem tremulou, e o pesadelo retornou, mais real que antes.
Ela estendeu a mão sangrenta em minha direção e, dentro de minha consciência, sua voz me acusava de sua morte. O som era como dobradiças enferrujadas se quebrando, e tampei os ouvidos.
Ela se arrastou em minha direção, estendeu as mãos na direção do meu pescoço e começou a me estrangular. Tentei para-la, mas ela tinha força demais. O ar foi retirado do meu pulmão, minha visão ficou turva, e pude sentir a vida se esvair de mim.
Quando minha visão sucumbiu, acordei na barraca, e só percebi que havia prendido a respiração quando meus pulmões clamaram por ar. Estava suando frio, e caí a cabeça com tudo no travesseiro.
Fechei meus olhos, e a visão voltou. Me sentei, e olhei em volta. Nada demais. Tudo normal. Atordoada, saí pra fora da barraca. Uma claridade me cegou, e pisquei meus olhos para poder enxergar melhor.
Uma pequena fogueira queimava, e perto dela, Cora cutucava o fogo sentada em uma pedra. Ela me fitou, e voltou a olhar para o fogo, me ignorando totalmente. Me sentei perto das chamas, e senti o calor do fogo aquecer meu rosto. Permanecemos em silêncio, até que Cora cortou o gelo.
– Valeu...
– O que? — Estava distraída, então não ouvi direito.
– Por não me deixar cair.
– Oh. — Ergui as sobrancelhas. Ela agradecer a alguém por algo era coisa rara. Especialmente a mim. — De nada. Não posso dizer que você faria o mesmo por mim, pois honestamente, não sei.
– Eu iria perturbar quem, depois da sua morte? — Ela riu, e deu um sorriso irônico. Também sorri.
– Provavelmente você me atormentaria até depois de morta e... — A imagem do pesadelo retornou, mais vívida que antes. — Ela.
– Ela? Você tem um amigo imaginário? — Cora deu uma gargalhada alta, mas depois baixou o tom para não acordar os outros.
– Quem me dera, se ela realmente tivesse sido imaginária. — Desviei o olhar para o fogo. As estrelas pontilhavam o céu escuro, negro como luto. Negro como a morte. Um vento frio soprou, fazendo com que a fogueira tremulasse. Uma nuvem cobriu a lua, e ficou mais escuro. Quase podia ver Laura nas sombras, a me observar com os olhos brancos.
– Ah. — Ela ficou em silêncio. — Eh…
– Entendo a sua confusão. — Respondi, cortando-a. — Nenhum de vocês jamais soube. Mantive isso em segredo por sete anos, e você não vai ser a primeira a contar. — Olhei pra ela, séria. Acho que ela entendeu o recado, pois ficou meio sem jeito, mas depois voltou a sorrir.
– Te devo uma, não é? — Ela cutucou o fogo, e as chamas aumentaram. Sorri, e contei o acidente daquele dia. Logo em seguida, lhe contei sobre o pesadelo. Ela permaneceu em silêncio, ouvindo atentamente a tudo. — Não sei o que dizer. Meus… pêsames? — Ela meio que engasgou ao dizer a palavra, e deu um sorriso sem graça.
– Todos dizem isso. Mas isso não muda a dor que a pessoa sente.
– Uma dor que não passa, e parece que cada detalhe da sua vida lembra essa pessoa. — Aquilo me pegou desprevenida.
– Você… Entende?
– É. Você não foi a única a perder alguém, sabe?
– Quem? — Ela soube me ouvir. Senti que pude confiar nela. Eu estava disposta a lhe retribuir o favor.
– Minha… Mãe. — Permaneci em silêncio, e depois de um tempo, ela entende como um sinal para prosseguir. — Quando eu era pequena, minha mãe e eu tínhamos acabado de chegar do parque. Eu… Subi as escadas, e quando cheguei no meu quarto, ouvi um som vindo da cozinha. Desci as escadas, com medo, claro, eu não passava de uma menininha sapeca suja de lama. Quando cheguei na cozinha, minha mãe estava caída no chão, sangrando. Ela disse para eu ser forte, pois as coisas iriam mudar pra dali em diante. — “Ao menos ela pode ter as últimas palavras. As da Laura foram o que? Okay, vou pegar a bola na garagem. Grande coisa. ”
– É como não ter uma parte de si. — Respondi.
– Como se respirar fosse uma culpa. — Ela continuou.
– E mesmo que digam que não foi você, você sente que foi. — Completei. Uma música surgiu em minha mente, Batlle Cry. Os primeiros versos diziam:
Just one more time before I go / I'll let you know /That all this time/ I've been afraid wouldn't let it show/Nobody can save me now, no/ Nobody can save me now…
A tradução, era mais ou menos essa:
Só mais uma vez antes de eu ir/ Eu vou deixar você saber/ Que todo esse tempo eu tive medo, não iria deixá-lo mostrar/ Ninguém pode me salvar agora, não/ Ninguém pode me salvar agora. Refletia totalmente o momento.
– Sabe Isa… — “Ai meus deuses, é a primeira vez que ela me chama pelo apelido sem usar um xingamento depois!”– O que mais doí é o fato de não ter nenhuma lembrança dela. — Mesmo fitando o fogo, pude ver que ela estava prestes a desabar. Algumas chamas ficaram negras, e depois voltaram ao normal.
– Bem. — Me levantei, e tirei o pó da calça jeans. — Preciso ir dormir. Temos que achar um modo de atravessar o oceano amanhã.
– Mar. — Ela fez uma cara de desgosto tão "linda" que tive vontade de tirar uma foto. — Boa noite. — Andei na direção da barraca, e ela me chamou. — Sabe. O negócio da minha mãe... É segredo, e se você contar para alguém, pode ser seu último dia de vida. — Fez uma cara meiga, e não contive a risada.
– Você não conta sobre mim, e eu não conto sobre você. — Dei uma piscadela.
– Não pense que eu vou parar de te perturbar só porque, aparentemente, fizemos as pazes. Boa noite, cabeça de raio.
– Não duvido disso. — Dei um sorriso. — Boa noite, caveirinha.
Entrei na barraca, e depois de alguns minutos, finalmente adormeci com um único pensamento na mente:
No fundo, não éramos totalmente diferentes.
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