The Blind Side Of Love

12 The First Cut Is The Deepest.


Notas iniciais
Capítulo novo e bem recheado, por isso, leiam com atenção para não deixar passar nada. Espero que gostem!

Estava começando a despertar de um sono profundo e tranquilo, em uma sexta-feira pela manhã, quando senti meu corpo inteiro responder a um estímulo que estava pouco ciente, e foi só quando eu ergui a cabeça e abri os olhos que avistei Ali com o rosto entre as minhas pernas – sua língua vagando tortuosamente pela parte interna da minha coxa, conforme sua mão esquerda subia pelo meu estômago devagar, arranhando a pele de leve, o que fez meu ventre pulsar com violência.

— Ali... — Escapou dentre meus lábios, soando mais como um gemido rouco ao sentir o hálito quente que saía de sua boca tocar minha intimidade, sendo o suficiente para aumentar a intensa umidade em meu centro. — O que está fazendo? — Perguntei ainda sonolenta, erguendo as costas da cama o suficiente para conseguir tocar seu rosto assim que ela o levantou para me fitar.

— Acordando você... — Respondeu suavemente, sorrindo antes de voltar a me torturar com sua língua a poucos centímetros de distância de onde eu mais precisava no momento.

Meu corpo já estava tão entregue e meus sentidos tão vulneráveis que me apoiei sobre os cotovelos por alguns segundos, antes de simplesmente desabar no colchão confortável abaixo de mim, afastando as minhas pernas ainda mais e dando à Alison livre acesso para poder fazer o que quisesse comigo. Como se já não bastasse termos passado boa parte da noite com os corpos suados e cansados, pressionados um contra o outro, movendo-se deliciosamente ao som das nossas respirações, agora passaríamos o começo da manhã nuas e embrenhadas entre os lençóis. Do jeito que Ali gostava.

Quando estava menos esperando, ela me puxou para baixo e deslizou sua língua quente e ágil em minha umidade, fazendo-me arfar em troca e agarrar seus cabelos ao voltar a me apoiar sobre o cotovelo. Seus dedos faziam círculos em meu estômago, enquanto se concentrava em me proporcionar uma das melhores sensações possíveis. Ali rapidamente adicionou seus dedos em minha intimidade, trabalhando junto com sua língua, ao tempo em que segurava os fios loiros de seus cabelos entre meus dedos com firmeza.

— Amor... — Choraminguei, sentindo as paredes da minha entrada se fecharem ao redor de seus dedos, o que a fez sorrir contra o meu sexo inchado e encharcado. Estava tão perto e ela podia sentir isso. — Mais rápido, Ali.

Apertei seu rosto em minha intimidade com um pouco de força, necessitando de mais daquele prazer que parecia me consumir gradativamente. Em resposta, ela pressionava sua língua em meu sexo, fazendo com que seus dedos entrassem e saíssem de mim numa velocidade quase alucinante, e eu já podia sentir a umidade escorrendo entre as minhas pernas...

Não demorou muito até que meu corpo respondesse às últimas investidas de Ali, convulsionando violentamente em um orgasmo vigoroso e deleitoso. Ela ainda levou seu tempo para limpar a bagunça que havia feito e, então, subiu com os lábios em direção ao meu estômago, sugando a pele e mordendo-a com veemência. Como se eu fosse uma fruta macia e suculenta, e da qual ela nunca se enjoava.

Enquanto isso, eu tentava acalmar minha respiração e fazer com que meu coração voltasse a bater normalmente. Ali grudou seu corpo ao meu e começou a roçá-los, conforme arrastava sua boca em direção aos meus seios, com um meio sorriso brincando em seus lábios famintos. Segurando as minhas mãos, ela tomou um dos meus mamilos entumecidos em sua boca e o acariciou com a ponta da língua, deixando um ruído escapar de sua garganta. Deu a mesma cuidadosa atenção ao meu outro seio, até se dedicar em me beijar sonora e languidamente nos lábios, enquanto movia suas mãos – uma para o meu seio direito, onde massageava intensamente, e a outra para o meu quadril, apertando-o contra o seu.

— Adoro sentir o meu gosto em sua boca! — Murmurei com um som de apreciação, fazendo-a emitir uma leve e confortável risada ainda com os lábios colados aos meus.

— Eu amo ter o seu gosto na minha boca. — Ela disse, roçando nossos narizes afetuosamente. — É delicioso, assim como você.

— Parece que alguém acordou de ótimo humor. — Comentei casualmente, afastando uma mecha de cabelo para trás da orelha de Ali, que inclinou a cabeça para o lado com os olhos semicerrados e a expressão confusa. — O quê? — Ela se afastou de repente, fitando-me como se eu tivesse dito algo ofensivo.

— Você não pode ter esquecido! — Exasperou com o tom grave, enquanto eu arqueei as sobrancelhas, claramente perdida com sua súbita mudança de atitude. — Eu não acredito nisso. — Ela resmungou, afastando-se ainda mais para poder se sentar, cobrindo-se com um dos lençóis enquanto eu fazia o mesmo.

— Ali... — Comecei, mas antes que eu pudesse continuar, fui surpreendida com o estalo em minha mente. De repente, eu me senti estúpida e a pior namorada do mundo. — Hoje é o nosso aniversário! — Exclamei, lembrando-me dos planos que eu havia feito ontem para o nosso dia. — Ei, eu não esqueci. É que você me pegou desprevenida e ainda estou acordando... Desculpe, Ali! Eu juro que não esqueci. — Peguei sua mão e a entrelacei entre os meus dedos, trazendo-a então até os meus lábios para depositar um beijo suave.

— Você não esqueceria, não é? — Ela relaxou os músculos, baixando os olhos para as nossas mãos em meu colo, nitidamente abalada com a hipótese. — Porque seria o fim se você esquecesse.

— É claro que não! — Garanti energicamente, aproximando-me dela com um meio sorriso sugestivo. — Como eu poderia me esquecer de um dia tão importante como o nosso aniversário de namoro?

— É bom mesmo que não tenha se esquecido, Emily Fields, ou você estaria perdida agora. — Ali cutucou meu ombro com o dedo indicador de sua mão livre, fazendo-me gemer baixinho de dor e, então, rir quando ela sorriu timidamente para mim. — Eu teria ficado arrasada. — Confessou, desviando os olhos para os lençóis.

— Bem, ontem, eu passei o dia todo pensando no que poderíamos fazer e em como eu poderia surpreendê-la, mas decidi que nós faríamos do seu jeito. — Contei, puxando-a para mais perto para beijá-la nos lábios, sussurrando conforme arrastava meus lábios até seu ouvido. — Podemos passar o dia inteiro na cama, completamente nuas e à vontade, e então eu posso levá-la para um jantar romântico mais tarde, se você quiser, é claro.

— É... Parece um bom plano. — Ela assentiu devagar, fingindo incerteza antes de sorrir largamente com a ideia.

Ali deixou o lençol que cobria seu busto cair na cama, revelando seus seios pálidos e impecáveis parcialmente cobertos por algumas marcas arroxeadas. Não pude conter um sorriso quase tão presunçoso quanto ao que dançava em seus lábios, e antes que eu pudesse me impedir, levei meu dedo indicador até sua clavícula, acariciando a pele com pura dedicação e delicadeza ao arrastá-lo em direção ao mamilo deliciosamente rosado, que implorava pelo toque dos meus lábios, da minha língua.

— Em... — Ali murmurou quando rocei meu polegar em seu mamilo agora rígido, e assim que ergui meus olhos para fitá-la, meu corpo inteiro se arrepiou com a tonalidade de azul que suas íris dilatadas tinham, denunciando sua vulnerabilidade.

Cansada de esperar por mais um instante daquelas carícias provocantes, Ali fez o mesmo comigo – inclinou-se em minha direção e afastou o lençol que também cobria meu busto –, deixando um gemido rouco, quase engasgado, escapar de seus lábios assim que meu corpo desnudo preencheu sua visão. Devagar, ela afastou o cabelo loiro e levemente bagunçado para o outro lado do pescoço e se aproximou ainda mais de mim, beijando-me com propriedade ao se ajeitar em cima de mim – seu corpo roçando deliberadamente contra o meu.

— Você sabe o que significa, não é? — Ali sussurrou, com meu lábio inferior preso entre seus dentes, enquanto um sorriso travesso iluminava seu rosto em formato de coração.

— O quê?

— Três anos, três orgasmos. — Lembrou-me ao deslizar as mãos pelas laterais do meu corpo, preguiçosamente. O dia, afinal, estava apenas começando...

***

Já era noite quando eu finalmente consegui arrastar Alison para fora do nosso apartamento, levando-a a um novo e adorável restaurante francês que havia sido inaugurado algumas semanas atrás no delicioso bairro de Chelsea, perto de onde Hanna estudava e, consequentemente, morava. Às onze horas da manhã de hoje, quando acordei depois de toda a energia que Ali e eu gastamos antes disso, as nossas três melhores amigas, separadamente, fizeram uma chamada de vídeo para nos parabenizar pelos três anos de namoro. Aparentemente, Ali arrumou alguma forma de obrigá-las a fazerem isso, o que me deixou genuinamente emocionada.

Enquanto estudávamos o cardápio, com Sentimental Waltz de Tchaikovsky ecoando graciosamente pelos alto-falantes, ela roçava a ponta de seu salto alto em minha perna de forma distraída – os lábios puxados para o lado da maneira mais adorável e a cabeça ligeiramente inclinada. Com um sorriso terno, fechei o meu cardápio e o coloquei em cima da mesa, sem desviar os olhos das feições angelicais por um instante sequer, deixando nas mãos de Ali a tarefa de escolher por nós duas.

Por fim, quando o garçom se aproximou de nossa mesa, ela optou por um prato chamado Langouste Barcelone e uma garrafa de Montagny, um vinho branco muito leve, entregando-lhe o cardápio e o dispensando logo em seguida. Durante todo o tempo, ela não deixou de me tocar, mantendo seus olhos em mim com imenso júbilo e um brilho nos olhos de torcer o coração.

— Eu não sei você, mas as minhas pernas estão doendo. — Ela disse de repente, colocando as mãos sob a mesa e inclinando o tronco em minha direção, com um sorriso de menina travessa cobrindo seus lábios.

— Você está brincando? Meu corpo está doendo. — Rebati, tentando fazer uma análise mental da quantidade de marcas que Ali havia deixado em meu corpo. — Mas eu não me importo. Hoje foi perfeito, o que faz qualquer incômodo físico ser anulado.

— Mesmo? — Ela inclinou a cabeça para o lado, enrugando as sobrancelhas. — Em, nós fizemos sexo o dia inteiro. Literalmente. E, provavelmente, se estivéssemos em casa agora, estaríamos rolando entre os lençóis, suadas e completamente nuas. Eu amo esse pensamento... Por que estamos aqui mesmo? — Interrompeu seus pensamentos, redirecionando sua atenção para mim.

— Nós não somos animais, Ali. — Balancei a cabeça levemente, um vestígio de sorriso prestes a se formar no canto dos meus lábios. — Eu adoro quando fazemos amor loucamente, mas também gosto de sair e socializar um pouco. Como casais normais.

— Eu sei...

— Além disso... — Não deixei que ela continuasse, erguendo um dedo em sua direção, afinal, eu estava tão certa naquilo. — Hoje é o nosso aniversário! Acredito que encerrarmos o dia perfeito que tivemos com um bom jantar, em um agradável restaurante, seja o mínimo que podemos fazer.

Ali revirou os olhos, tentando esconder um sorriso antes de assentir em concordância e empurrar as costas contra o encosto de sua cadeira, desistindo de sua forçada postura ereta. Ainda com a minha atenção voltada para ela, senti meu celular vibrar no bolso de minha jaqueta, ao mesmo tempo em que o garçom se aproximou com os nossos pedidos.

— Ei, nada de celular até esse jantar acabar. — Ali disse, não hesitando em tirar o celular de minha mão assim que desbloqueei a tela, conferindo então a mensagem que eu havia acabado de receber. — Quem diabos é Kira? — Exigiu ao se deparar com o nome na tela, desmanchando o sorriso que sustentava com meu evidente espanto diante de sua rapidez e agilidade.

Em três anos, aquela era a primeira vez que Alison invadia a minha privacidade, e eu não pude evitar que um sentimento de ligeiro incômodo e insegurança começasse a se formar em minha garganta, contorcendo meu estômago em nós. Era uma regra que não precisava ser proferida – respeitávamos o espaço uma da outra, mantendo sempre a harmonia em nosso lar, pois, antes de sermos um casal, somos seres humanos.

— É uma amiga. — Respondi simplesmente, pegando os talhares, um de cada lado do meu prato, e iniciando a minha refeição. O cheiro estava tão bom que me esforcei em me concentrar somente naquilo.

— Por que ela quer se encontrar com você justo no dia do nosso aniversário? — Perguntou, erguendo o rosto do meu celular com as sobrancelhas arqueadas, esperando ansiosamente por uma resposta razoável.

— Eu não sei. — Dei de ombros, engolindo o pedaço de lagosta que havia mastigado tão calmamente, acrescentando em seguida: — Caso não tenha percebido, você tomou o celular da minha mão antes que eu pudesse ler a mensagem. — Resmunguei, fitando-a de forma que ela pudesse ver o meu desgosto por sua atitude. Não gostava do caminho que aquilo poderia percorrer.

— De qualquer forma, você poderá descobrir mais tarde. — Retrucou, soando tão sarcástica quanto colérica ao colocar o celular dentro de sua bolsa Fendi.

Em silêncio, Ali passou a cutucar sua comida, colocando na boca com evidente má vontade conforme bebericava seu vinho. Como uma criança que havia acabado de ser contrariada. Em vez de tentar se redimir, permaneceu com seu humor desagradável até o fim daquele jantar, levando-me ao arrependimento de ter insistido para sairmos de casa, em primeiro lugar. O problema, no entanto, era nunca saber como proceder com Alison e sua inesperada mudança de comportamento.

— Posso ter o meu celular de volta agora? — Perguntei, soando meio tola e esperançosa quando o manobrista trouxe o carro de Ali.

Ela suspirou audivelmente, assumindo o volante de seu Porsche assim que colocou o cinto de segurança, procurando então o meu iPhone dentro de sua bolsa e o entregando para mim. Ponderei a ideia de não deixá-la dirigir depois dos generosos goles de vinho que ela havia ingerido, mas tentar contrariá-la agora seria uma péssima decisão. Preferindo confiar em sua aptidão de nos levar para casa em segurança, afivelei o cinto e engoli o bolo que se esticava em minha garganta.

— Não era assim que eu queria que a nossa noite terminasse. — Comentei vagamente, olhando pela janela como se houvesse algo de interesse lá fora, onde os flocos de neve caiam com graciosidade. — Eu juro que não sei o que fazer quando você tem essas mudanças bruscas de humor. Você se transforma, fica quase irreconhecível, e é como se eu namorasse duas pessoas diferentes; uma, eu conheço perfeitamente, mas, a outra, eu não faço ideia de quem seja.

Virei o pescoço em sua direção a tempo de ver seu rosto se contorcer, apertando o volante com força, como se tivesse sido acertada em cheio pelo que eu disse. Aos poucos, no entanto, seus músculos relaxaram e sua expressão se suavizou. Ela colocou sua mão em meu joelho, pressionando com delicadeza antes de dizer suavemente:

— Desculpe.

— Não é o suficiente. — Avisei. — Ali, eu não quero mais ter que ignorar que há algo de errado com você. Não é saudável.

— Emily... — Ela tentou dizer, mas eu já estava decidida.

— Você já notou como tem se comportado ultimamente? É como se estivesse em constante conflito... Em um minuto, está segura e satisfeita, como se nada de ruim pudesse alcançá-la; já no outro, parece que está prestes a explodir e levar todos com você. Eu quero ajudá-la, mas é difícil quando não sei o que está acontecendo.

— Eu não sei o que quer de mim, Em. — Limitou-se a dizer, sua voz rouca soando tão cansada e enfadonha.

— Na verdade, você sabe. — Discordei rapidamente, endireitando meu corpo ao tomar uma postura defensiva. — E eu queria saber se é tão irrelevante para você a ponto de ignorar como se fosse algo que pudesse ir embora.

A essa altura da conversa, ela já havia contornado as ruas que interligavam o bairro de Chelsea com o Upper West Side, encontrando o prédio imponente e sofisticado em que residíamos. Ali não demorou a estacionar o carro, desafivelando o cinto e suspirando audivelmente ao fechar os olhos. Ela parecia tão incerta, mas nada que pudesse extinguir o brilho feroz que irradiava de seus olhos. Ela sabia exatamente o que eu quis dizer e estava apenas esperando que eu dissesse em voz clara e distinta.

— Eu tenho planos, Alison... — Comecei devagar. — Gostaria de poder conversar com você a respeito deles, mas sei como se sente em relação a certos tópicos, então eu simplesmente me reduzo ao que é melhor para você e coloco de lado o que eu realmente quero. Você sabe o que eu espero para o nosso futuro, mas se recusa a considerar qualquer possibilidade.

— Nós realmente precisamos conversar sobre isso agora? — Ela quis saber, aumentando de forma significativa o volume de sua voz. — Na verdade, eu nem acredito que estamos tendo esta conversa. É tão...

— Se eu te pedisse em casamento, você aceitaria? — Perguntei de repente, virando-me de lado para poder observar suas sobrancelhas saltarem e sua boca perfeita tremer, visivelmente estarrecida.

— Em, isso é ridículo. — Alison riu nervosamente, destravando as portas do carro para poder escapar.

— É mesmo, Ali? — Ela parou por um instante antes de deixar o carro, virando-se para responder:

— Casamento só serve para atrapalhar as coisas, e eu gosto do jeito que estamos.

Engolindo em seco, balancei a cabeça com veemência, tentando dissipar a voz de Spencer, dizendo coisas que começavam com “Eu te avisei”, tão clara e insistente em minha mente. Partia meu coração sentir as dúvidas crescerem dentro de mim, como uma erva-daninha, de modo que nunca pensei que aconteceria. Ali deveria ser o meu porto seguro, mas aquela fantasia parecia se desmanchar por si própria. Como uma tese sem fundamentos.

De alguma forma, sentia-me incapaz. Algo parecia fora do lugar, e mal pude digerir a sensação de devaneio absoluto, sem notar o trajeto que fiz até o nosso apartamento, onde esperei que Ali entrasse no quarto para seguir até a sala, atirando-me de qualquer jeito no sofá. Estava extremamente cansada e o dia, de repente, havia se tornado triste e sem sentido.

Fechei os olhos pelo que pareceram alguns segundos, abrindo-os num sobressalto com o barulho estridente do meu celular tocando, percebendo então que havia adormecido no breve momento em que tentei descansar a mente. Tirei-o do bolso e olhei a tela, deparando-me com o motivo da raiva repentina de Ali me ligando, instigando a curiosidade que me faltava no momento em que recebi sua mensagem, quando estava no restaurante.

— Kira? — Murmurei ao pressionar o celular no ouvido, após aceitar a chamada quase imediatamente.

Ei... Você ainda tem uma namorada que faz medicina? — Ela quis saber, em uma voz apressada, empenhando-se para se manter inteligível quando eu assenti através de um som nasal: — Isso é bom, porque acho que preciso de uma ajudinha...

Sentei-me no sofá, escutando com atenção conforme Kira me passava o endereço de onde ela queria que eu a encontrasse. Levantei-me rapidamente, embora não houvesse ficado claro do que se tratava, segui o instinto que me abateu de que era sério apenas pelo tom forçado de sua voz. Kira possuía maneiras peculiares, porém suaves e contidas. Pelo pouco que eu a conhecia, dificilmente me ligaria no dia em que eu fazia três anos de namoro com Alison.

Sendo assim, sem pensar duas vezes, entrei no quarto e encontrei Ali apenas de calcinha e sutiã, com uma das pernas sobre a cama, passando hidrante cuidadosamente. Seus cabelos estavam presos em um coque frouxo, com uma mecha solta e rente ao seu rosto delicado. Ela desviou a atenção do que estava fazendo e olhou para mim, sorrindo como se nada tivesse acontecido. Como se não soubesse que algumas de suas atitudes me magoavam.

— Eu preciso sair agora, mas estarei de volta dentro de algumas horas. — Desembuchei, colocando as mãos dentro do bolso de minha jaqueta, meio que sem saber o que fazer com elas.

— Como assim? — Ali piscou como se a ideia lhe fosse incompreensível, mas eu não dei muita atenção e deixei o quarto sem dizer mais nada. — Emily, espere! Aonde você pensa que vai? — Exigiu em alto e bom som, fazendo meus tímpanos vibrarem. Peguei a minha chave do carro e entrei no elevador, apertando o botão que dava à garagem subterrânea.

***

Cheguei ao prédio que Kira havia me indicado e tomei o elevador para o décimo terceiro andar. Assim que o alcancei, apertei a campainha da porta com o coração na boca, olhando nervosamente para os lados, até finalmente ser atendida por ela, que me puxou para dentro no instante em que teve certeza de quem se tratava. Senti um líquido estranho em meu pulso no instante em que ela o tocou – os dedos trêmulos e gélidos enviaram arrepios pela minha espinha.

— Por aqui. — Kira me guiou pelo apartamento escuro, apressadamente, com os dedos firmes em torno de meu pulso.

Até chegar aonde ela queria, precisei prender a respiração e controlar a ansiedade. Agora, estava definitivamente preocupada, e podia sentir que algo não estava certo. Em poucos instantes, no entanto, pude saber o que ela queria de mim ao ser levada a um quarto no fim de um corredor, onde me surpreendi ao encontrar um garotinho de aproximadamente quatro anos sentado em sua cama, distraído com alguns brinquedos.

Kira acendeu a luz e fechou a porta atrás de nós duas, olhando-me com o rosto melancólico e atordoado, gesticulando com a cabeça para que eu fosse até o menino. Aproximei-me o suficiente para enxergar algumas marcas arroxeadas nos braços e pernas dele, ajoelhando-me com o coração já em pedaços, até que consegui uma visão completa do lado direito de seu rosto. Aquela criança estava seriamente machucada.

— Kira, o que significa isso? — Consegui perguntar assim que encontrei a minha voz entre os horrores que se passavam em minha mente.

— Você pode me ajudar a cuidar disso? Eu prometo responder a tudo depois. — Garantiu, aproximando-se com um kit de primeiros socorros.

— Ele precisa de um médico... Por que não o levou a um hospital? — Voltei a questioná-la, vendo-a sorrir para o garoto enquanto tirava a camiseta vermelha e azul do Homem-Aranha que ele usava.

— Porque você foi a minha primeira opção. — Respondeu honestamente.

Deixei as perguntas de lado e resolvi fazer o que estivesse ao meu alcance para ajudá-la naquela situação. Além de marcas arroxeadas, o menino também tinha o que parecia ser queimaduras de segundo grau pouco abaixo do pescoço, próximo à clavícula, onde a camiseta escondia. Observei o lado direito de seu rosto, marcado por arranhões de coloração vermelha, tentando encontrar qualquer sinal de que estivesse sentindo dor, mas sua tranquilidade era inacreditável, se não assustadora.

— Killian, que tal contar à Emily o que houve com você? — Kira incentivou, mexendo nos cabelos espessos e dourados do menino com delicadeza, que ergueu o rosto para mim com olhos curiosos.

— Papai fez com que eu brigasse com um cachorro. — Ele disse, inclinando a cabeça para o lado, mais afetado com a lembrança do que com as feridas.

— Não está doendo? — Perguntei, sentindo meu coração afundar quando ele negou com a cabeça, enquanto eu começava a tratar dos ferimentos superficiais com cuidado para não machucá-lo.

— Killian não sente dor. — Kira contou antes que eu pudesse externar meu espanto. — É por isso que ele tem tantos ferimentos, e raramente percebe quando se machuca. O pai dele se aproveita deste problema genético para fazê-lo de atração entre os amigos de bar. — Explicou, com os olhos brilhantes e salpicados.

Aquilo era repugnante e doentio. Nenhum ser humano deveria passar por tais situações, ainda mais uma criança, cuja imunidade à dor é tratada como um trunfo para passatempos desprezíveis, ao invés de ser levada com extrema seriedade. Já havia estudado casos de pessoas com insensibilidade congênita à dor, chamada também de neuropatia sensorial, mas nunca pensei que encontraria uma delas tão cedo, por ser uma condição rara.

— Qual é a sua idade, Killian? — Indaguei, afastando a revolta e indignação de meu tom de voz, com o intuito de distraí-lo conforme limpava as queimaduras e os machucados para não infeccionar.

Nunca tinha me sentido tão agradecida por insistir que Ali me ensinasse os procedimentos de suturas e primeiros socorros quanto agora. E Kira sabia disso, que Alison me ensinava o que aprendia em suas aulas práticas e teóricas. Também não podia esquecer o dia em que Ali havia ido para casa e contado sobre a primeira vez que teve contato com um cadáver, frisando o quão desconfortável foi, mas que, mais cedo ou mais tarde, se acostumaria.

— Três. — Killian respondeu, fazendo-me erguer os olhos a tempo de vê-lo mostrar a mão com os três dedos orgulhosamente, o que me fez sorrir de orelha a orelha com tamanha genuinidade e esperteza. Ele também quis saber a minha idade, ao que retorqui prontamente:

— Eu tenho dezenove; dezesseis a mais que você.

Killian pareceu contente com a minha resposta, mas também um pouco envergonhado, trocando olhares com Kira, como quem pedindo permissão para interagir comigo, o que achei inexplicavelmente adorável. Ele conversou durante todo o momento, respondendo as minhas perguntas com engenhosidade. Quis saber qual era a relação que Kira mantinha com Killian, se ele era um dos pacientes que ela acompanhava na clínica em que estagiava. Mas parecia tão improvável.

— Pronto, aí está. — Avisei ao terminar os curativos, mostrando a ele o que eu havia feito através de um espelho.

Antes de me levantar, passei o dedo no ponto que havia feito no topo de sua testa, orientando-o a tomar muito cuidado enquanto estivesse brincando, ou fazendo qualquer atividade física, caso contrário iria se ferir gravemente. O problema, no entanto, era que ele não sabia o que significava a dor e, portanto, não iria aprender a ficar longe do que poderia lhe causar danos físicos e prejudiciais a sua saúde.

Ajudei Kira a alimentá-lo antes que ela o colocasse para assistir Ben 10, momento esse que aproveitei para perguntá-la mais a respeito do garoto, descobrindo então se tratar de seu irmão mais novo. Ela também me contou, superficialmente, que tomava conta dele, mas que pretendia obter a guarda legal de Killian, expressando profundo ressentimento por sua mãe e grande desprezo pelo padrasto.

— Mas, primeiro, eu preciso mudar algumas coisas na minha vida. — Ressaltou, sentada no sofá com os cotovelos apoiados nos joelhos, enquanto o rosto estava enterrado entre suas mãos. — Eu sou uma bagunça, não posso cuidar de uma criança. Não uma criança como Killian.

— Eu não tenho dúvidas da sua capacidade. — Afirmei, colocando a mão em seu braço em sinal de conforto e benevolência, o que a fez me fitar com um sorriso de alívio que se misturava com gratidão.

— Espero que não mude de ideia quanto a isso. — Ela disse, deixando nas entrelinhas algo que parecia ir além de minha compreensão.

Conversamos por horas sobre a desordem genética de Killian, que o colocava em sérios riscos, sobre os cuidados que Kira precisa tomar para que ele não se mutile inconscientemente, isto é, ao roer as unhas, morder a língua, ou até mesmo ao coçar os olhos. Não houve um único momento da conversa em que entramos em assuntos pessoais, como sua família, ou a minha, embora eu estivesse tentada a questioná-la sobre sua opinião profissional em relação à personalidade de Alison.

Talvez eu devesse mesmo me preocupar, como Spencer havia cansado de me alertar, sobre o rumo em que as coisas estavam indo. As crises de ciúmes eram de proporções absurdas, de onde não havia o menor cabimento, e o mesmo acontecia com as mudanças de comportamento e acessos de raiva e irritabilidade, cada vez mais contínuos, que pareciam começar a afetar a nossa vida – não só como casal, mas também como pessoas. Era preocupante, precisava admitir, e eu tinha a árdua tarefa de convencê-la a procurar ajuda psicológica antes que fosse tarde demais.

Notas finais
Killian tão bonzinho! Já criei laços com ele. :3 Espero que tenham gostado de ler esse capítulo tanto quanto eu gostei de escrever. Quero saber o que acharam, então não esqueçam de compartilhar suas críticas comigo, sejam elas positivas ou negativas. Além disso, sinto que também preciso compartilhar algo com vocês. Estou trabalhando em uma nova fanfic - completamente diferente e fora da minha zona de conforto, devo acrescentar -, que, provavelmente, devo começar a postar quando terminar esta daqui. Bem, por enquanto, acho que é só isso. Até o próximo!