The Blind Side Of Love
11 Life In A Glass House.
Notas iniciais
Na segunda-feira à tarde, Emily e eu estávamos sentadas em um dos bancos macios de uma adorável cafeteria italiana perto da Columbia, cujo nome eu não sabia pronunciar, onde nos mantínhamos distraídas até a nossa próxima aula começar. Enquanto me ajudava a memorizar todos os membros inferiores do corpo humano, Em bebericava seu Americano com delicada leveza de espírito.
Apesar de ter ficado um pouco abatida e melancólica assim que se despediu de Spencer no dia anterior, sua agradável disposição não tardou a retornar quando eu a lembrei de que estaríamos todas juntas outra vez durante a semana de Natal. No aeroporto, pouco antes de Spencer embarcar em seu voo para Nova Jérsei, aproveitei que Emily estava distraída com Aria e Hanna para fazer com que Spencer prometesse que iria tentar dispensar Princeton mais cedo e vir direto para Nova Iorque.
— É impressão minha ou você está tentando me roubar da minha família? — Ela havia me acusado, cerrando os olhos em minha direção, claramente desconfiada, mas logo relaxou os músculos e deu de ombros quando eu cruzei os braços e revirei os olhos, permanecendo em silêncio por um instante.
Não me importava que o Sr. Hastings pudesse querer passar algum tempo com ela em seu novo apartamento na Filadélfia, ou que a Sra. Hastings ansiava por ter a filha em casa para celebrar um dos feriados mais importantes do ano, principalmente quando eu sabia que tal intento se resumia basicamente em exibir a família perfeita e bem ajustada que sempre sonhou em ter — e na qual Spencer não se encaixava —, mas que só conseguiu formá-la depois de expulsar o Sr. Hastings de casa.
— Bem, não é como se você pudesse me processar por isso...
— Não se preocupe, eu não pretendo ir à Rosewood, de qualquer forma. — Ela disse, ignorando o que eu havia murmurado. — Não é como se eu fizesse diferença também... Além disso, não quero ter que respirar o mesmo ar que Amelia. Ela fica mais irritante quando está com Melissa. — Continuou, referindo-se à filha mais nova do noivo de sua mãe, a qual ela não suportava por ser praticamente o clone de sua irmã mais velha.
— Sua família está em Nova Iorque agora, Spencer. — Apontei com certa rigidez, não querendo transparecer a minha complacência e solidariedade. — Onde Emily e eu estamos. — Acrescentei, mas, dessa vez, um pouco mais suave.
— Eu sei. — Spencer sorriu, transbordando calor humano em suas características para, logo em seguida, murchar. — Mas eu não posso prometer chegar antes do dia vinte e quatro, porque com certeza estarei bem ocupada tentando encontrar meios de inocentar um provável assassino de ir para a cadeia. E, acredite, não será nada agradável.
— Por que você se presta a isso, afinal? — Perguntei, franzindo o cenho com ligeira indignação. — Não vejo isso como algo honrável.
— Ossos do ofício. — Spencer respondeu, como se não fosse nada demais. — Você sabe que ser a melhor nem sempre requer artifícios admiráveis. Se eu quiser sair de um tribunal com a causa ganha, para o bem do meu cliente, eu preciso esquecer o que é justiça e focar em fazer o meu trabalho. Como uma advogada de verdade.
— Nossa! — Suspirei com um sorriso forçado, levando a mão de forma involuntária até o peito. — Aposto que você aprendeu isso em sua primeira aula de Direito Penal.
— Será que você se esqueceu de que meus pais são advogados? Eu aprendi isso quando comecei a andar! — Rebateu, tomando uma posição defensiva que eu conhecia muito bem. — E, quer saber? Não ouse me julgar. Não quando há chances de você estar roubando cirurgias daqui a alguns anos.
— Está bem, tanto faz. — Revirei os olhos, trocando o peso do meu corpo para minha perna direita. — Estamos perdendo o foco aqui, e o fato é que, bem... Eu só queria ter certeza de que você não vai nos trocar pela nova família que sua mãe arrumou. — Esclareci, diminuindo o volume de minha voz conforme as palavras eram proferidas.
— Você é realmente adorável quando quer, não é? — Spencer riu sarcasticamente, fixando seu olhar atento e cheio de entretenimento em mim. — Mas, não se desespere, afinal, o que é um Natal sem Spencer Hastings? Tedioso, decerto.
— Que bom que já está indo embora. — Respondi sem perder tempo, impacientando-me com seu peculiar e irritante senso de humor.
Depois disso, no entanto, seu voo foi anunciado e Aria se aproximou de nós duas, entrelaçando o seu braço com o de Spencer e, então, descansando a cabeça rapidamente no ombro de nossa melhor amiga. Hanna e Emily logo se juntaram a elas, despedindo-se por fim. Apesar de toda a raiva que Spencer às vezes me fazia passar, não podia negar que ela fazia falta.
Agora, voltando ao momento em que Emily me direcionava um sorriso apertado e astuto — vestindo uma de suas jaquetas de couro favoritas e calça skinny de cor vinho —, que logo foi ocultado pelo enorme e pesado livro de Anatomia. Ela também o usava para esconder boa parte de seu rosto conforme se mantinha ocupada, vez ou outra, enquanto folheava as páginas à procura de perguntas que testassem a minha memória e meus conhecimentos.
— Tudo bem, qual é a maior e principal artéria do corpo humano? — Ela perguntou animadamente, erguendo os olhos do livro para poder me fitar.
— Fala sério! Essa pergunta é uma piada. Eu aprendi isso em uma das minhas primeiras aulas de Anatomia. — Protestei vigorosamente, rindo quando ela ergueu os ombros em um gesto de quem não se importava.
— Eu sei. — Ela disse, fazendo parecer algo casual. — Só estou me certificando de que a informação ainda está armazenada em sua memória, porque, você sabe, o cérebro humano tende a arquivar informações que não julga serem necessárias. — Explicou, voltando a fitar a página enquanto esperava pela minha resposta.
— Droga, Em! Você fica tão sexy falando assim. — Suspirei fracamente, notando a leve palpitação em meu peito; minha sereia nunca falhava em fazer a minha alma estremecer. — Eu me pergunto quem ensinou isso a você... — Comentei vagamente, tentando não soar tão presunçosa.
— Você. — Em respondeu sonoramente, quase como se cantasse uma canção; tão suave e melódica que fez meus olhos brilharem e as pernas bambearem.
— Sim, claro. — Consegui dizer através de um mero sussurro, limpando a garganta após ouvir o barulho que a porta fazia a cada vez que alguém entrava ou saía da cafeteria. — É engraçado que, às vezes, eu me esqueço do quão brilhante sou e não posso evitar lamentar o grande desperdício.
— Eu não acho que isso seja possível, Ali. — Ela zombou, balançando a cabeça levemente enquanto ria. — Você não seria tão modesta a esse ponto. Não me leve a mal, mas modéstia não é o seu forte.
— Sério, Em? — Arqueei uma sobrancelha, fitando-a com atenção. — Você está me chamando de arrogante? Porque eu acho que modéstia é para os fracos e perdedores, de qualquer forma. Você me conhece, estou muito acima de toda essa besteira. — Dei de ombros, suspirando satisfeita com o pensamento.
— Eu acho... — Emily tentou dizer, mas se interrompeu antes que pudesse formular algo mais. — Bem, não importa. — Desistiu de continuar, evitando olhar para mim.
— É claro que importa. — Discordei imediatamente, inclinando-me sobre a mesa à procura de sua mão. — Você sabe que pode me dizer qualquer coisa, não é? — Perguntei, acariciando seus dedos entre os meus com suavidade.
— Acredite, não é nada. — Insistiu, desfazendo-se do contato entre nossas mãos com gentileza, mas não foi o suficiente para anular a mágoa que me cegou por uma fração de segundos, antes que eu pudesse afastá-la. — Não vamos perder o foco, está bem? Você me deve uma resposta, ainda estou esperando. — Ela disse, suavizando novamente a maneira com que me fitava.
— Isso é ridículo. Eu quero perguntas de verdade. — Resmunguei, meio a contragosto, empurrando as minhas costas para trás contra o encosto do banco de couro. Emily arqueou uma das sobrancelhas, encarando-me com expectativa, o que me fez revirar os olhos e suspirar audivelmente: — É a aorta, com diâmetro de vinte e cinco milímetros.
— Muito bem. — Assentiu lentamente, com os olhos brilhando em puro contentamento, como se nada de estranho tivesse passado por sua mente alguns segundos atrás; e, quando estava prestes a abrir a boca para dizer algo, seu celular vibrou sobre a mesa, chamando sua atenção de imediato para o aparelho.
Aproveitei o momento em que Em estava entretida com seu celular para observá-la atentamente, e eu podia jurar pela minha vida que nunca me cansaria dessa maravilhosa visão. Era no mínimo interessante notar que os papéis se inverteram com o passar do tempo, uma vez que, quando tínhamos treze anos, Emily era quem gostava de me olhar, pensando que eu estava distraída. Mas eu sempre sabia quando sua atenção estava exclusivamente voltada para mim, podia sentir a minha pele queimar com a intensidade de seu olhar, sempre tão cheio de amor e devoção.
— Você está me encarando. — Ela notou, com um meio sorriso, ao erguer os olhos da tela de seu iPhone para me fitar.
— Eu só estava pensando... — Comecei meio incerta do que dizer, observando o leve tremor de seus lábios conforme seu sorriso se ampliava ainda mais, assim como as sobrancelhas, que se erguiam em sinal de interesse. — Eu acho que mereço um prêmio por ser um gênio, você sabe... — Toquei meu lábio inferior com meu dedo indicador, fazendo beicinho ao indicar meu desejo por um beijo longo e lânguido.
— Eu acredito que você merece. — Emily concordou, mordendo o lábio com a intenção de conter uma risada, enquanto fechava o livro e o colocava de lado, sem tirar os olhos de mim uma vez sequer. — Vem aqui, meu amor. — Ela me chamou e eu não perdi tempo, arrastando-me com cuidado ao redor da mesa até estar ao lado dela, sentindo o delicioso cheiro de sua pele e de seu cabelo macio, que logo estava entre meus dedos.
— Eu amo quando você me chama assim. — Confessei baixinho, deslizando devagar a ponta do meu polegar pela sua mandíbula, até que ela inclinasse a cabeça e acabasse com a pouca distância que ainda nos separava. — Com tanta afeição... — Murmurei antes que Emily me cortasse com um beijo, partindo os lábios rapidamente quando passei a correspondê-la no mesmo instante.
Em e eu nos beijamos longamente, solvendo o gosto uma da outra, e eu poderia jurar que passaria o resto da minha vida apreciando cada pequeno gesto de carinho que vinha dela. E a forma como sua língua se movia contra a minha, tocando com delicadeza, mesmo que houvesse certa urgência implícita, era sempre o meu paraíso particular.
— Emmy... — Afastei-me depois de um momento, quando o ar se tornou um problema. — Por mais que eu odeie interromper, eu preciso ir. Aula de Anatomia agora. — Continuei com um pouco de dificuldade em me concentrar, sorrindo quando ela fez beicinho.
— Acho que vamos ter que continuar isso mais tarde então... — Deduziu um pouco a contragosto, antes de plantar um beijo casto na ponta do meu nariz e se afastar.
— Pode apostar que sim! — Garanti com um sorriso largo, quase ansioso, pegando a minha bolsa no banco e colando nossos lábios em um selinho longo e molhado. — Vejo você em casa? — Perguntei, levando em conta que ela passaria as suas duas últimas aulas no laboratório.
Emily assentiu, pegando a minha mão quando eu me levantei às pressas ao perceber que só tinha cinco minutos para chegar ao prédio de Medicina, o que não adiantaria, porque, de um jeito ou de outro, eu me atrasaria. Sentindo a minha agitação, Em depositou um beijo suave em minha aliança de ouro branco, que possuía os nossos nomes gravados em seu interior, com a data de quando começamos a namorar.
Tal pensamento me fez lembrar de que estava perto o dia em que faríamos três anos de namoro, e eu certamente não podia me sentir mais feliz e ansiosa por comemorarmos nosso aniversário pouco antes do Natal – o feriado favorito de Emily. Por fim, sentindo-me um pouco zonza diante da rápida retrospectiva de tudo o que vivemos desde o dia em que a tive em meus braços pela primeira vez – nua e toda vulnerável –, inclinei-me para beijá-la brevemente antes de sair apressada pela porta da cafeteria.
Do outro lado da rua, parei uma última vez e olhei para trás, constatando que Emily permanecia sentada no banco, distraída com o seu celular enquanto terminava seu café. Após observá-la pelo que pareceram dois segundos, estava prestes a dar meia volta e apressar meus passos em direção ao Campus de Ciências Médicas, no entanto, antes que eu tivesse a chance, surpreendi-me quando ela ergueu o olhar da tela e pareceu reconhecer alguém que passava perto o bastante para que pudesse ser abordada por ela.
— E aí, Veronica Mars. — Alguém irrompeu atrás de mim, despertando-me dos meus pensamentos quase de imediato. — Espionando a namorada? Que coisa feia.
— Cai fora, Zachary. — Respondi sem ao menos olhar para ele, sabendo o que iria encontrar se eu fizesse isso. — Péssima hora para me provocar.
Eu sabia que o mais sensato naquele momento seria virar as costas e correr para a minha aula de Anatomia, que já deveria ter começado, mas a curiosidade acerca daquela estranha havia sido mais forte, fazendo com que eu fixasse os olhos na garota de cabelos loiros que tinha a total atenção de Emily – até demais, eu diria.
— Emily realmente tem uma queda por loiras, não é? — Ele resolveu ignorar o meu aviso, fazendo-me ranger os dentes, claramente irritada com sua presença.
— O que você quer, afinal, Zachary? — Perguntei rispidamente, sentindo um nó começar a se engrossar em minha garganta quando a garota se juntou à Emily, sentando-se de frente para ela enquanto depositava sua pasta e uma pilha de papéis em cima da mesa.
Girei meus calcanhares ao decidir contra a vontade de entrar naquela cafeteria outra vez e arrastar Emily para longe daquela garota, que, diferente de Summer, parecia-me uma verdadeira ameaça. E, a cada passo dado em direção ao prédio da Columbia, eu repetia incansavelmente, como um perfeito mantra, que sou um ser humano racional, apesar do impulso quase esmagador que eu sentia de proclamá-la em alto e bom som. Como um animal selvagem protegendo seu território.
— Por que você está tão perturbada? — Suspirei com certa agressividade ao notar que Zach caminhava junto comigo. — Não há por que ficar brava, eu só estava brincando. É bem óbvio que Emily só tem olhos para você.
— Você não precisa me dizer isso. — Avisei, parando momentaneamente para encará-lo enquanto eu prosseguia: — Eu confio nela. Cegamente. Eu não confio nas outras pessoas e, acredite, eu reconheço uma ameaça quando vejo uma. Essa é uma das minhas habilidades que sempre me ajudaram a me manter no topo quando eu estava no ensino médio.
— Eu acho que Erin tem razão. Você é mesmo um pouco exagerada. — Zach comentou, casualmente, antes de acrescentar, ao cruzar os braços, com um meio sorriso: — E perversa. Mas isso é algo que eu adoro em você.
— Quer saber? Eu preciso ir. Converso com você mais tarde. — Revirei os olhos, nitidamente aborrecida com sua falta de sensibilidade enquanto estou tendo uma crise. — Ou não.
Desta forma, sem dizer mais nada, dei às costas para ele e me apressei em chegar o mais rápido possível na aula de Anatomia. Zach tentou dizer alguma coisa enquanto eu me afastava, porém eu estava atrasada demais para suas tolices. Ao chegar em minha sala, não era a voz do Professor Evans que ecoava por todos os cantos daquele extenso espaço, o que me fez parar por um instante e olhar ao redor rapidamente, perguntando-me se eu havia acabado de entrar na sala errada.
— Está atrasada... — Anunciou o estranho, tratando de sanar a dúvida que pairava ao meu redor assim que ele caminhou até a sua mesa, pegando uma prancheta antes de continuar com a voz grossa e sotaque carregado: — Srta. DiLaurentis.
— Desculpe, tive uma emergência. — Inventei, dando de ombros internamente ao passar a mão pelo meu cabelo com incrível naturalidade, ignorando completamente os olhares que eu tinha cravados em minhas costas.
— Alguém da sua família, ou próximo a você, estava entre a vida e a morte? — Ele perguntou, fitando-me fixamente.
— Não.
— Receio que não tenha sido uma emergência, afinal de contas. — Decidiu quase de imediato, enquanto voltava a sua posição anterior, que era de frente para os alunos. — Sente-se. E tente prestar atenção. — Concluiu, antes que eu tivesse a chance de retorquir sua petulância com algo à altura. Quem aquele cretino pensa que é para falar comigo daquele jeito?
Engolindo a minha raiva, subi os degraus até o meu lugar com ar de falsa tranquilidade, fazendo com que meus fabulosos sapatos de salto alto Jimmy Choo ecoassem por toda a sala. Mal conhecia aquele professor e já o detestava – um dos motivos que me fizeram revirar os olhos em desgosto assim que me sentei numa das cadeiras da quinta fileira e ele voltou a explicar sobre o que Emily e eu estudamos mais cedo; o outro havia sido encarar a lousa e ler “Professor Ferrari” escrito em letras grandes e redondas, perfeitamente legível, no centro do quadro negro.
— Ele é lindo, não é? — April, a garota que sempre fazia dupla comigo, murmurou em êxtase.
Com as pernas cruzadas, desviei a atenção da caneta que eu adorava ficar girando entre meus dedos e foquei no novo Professor de Anatomia, tentando encontrar em sua fisionomia algo que me fizesse considerá-lo um colírio para os olhos. Mas, por conta da visão desfavorecida que eu tinha de onde eu estava sentada, a única coisa que me chamou a atenção nele havia sido os cabelos extremamente brilhantes e sedosos, tão escuros quanto as asas de um corvo, ao ponto de me fazer querer perguntar qual shampoo ele usava.
— É... Cabelo legal. — Assenti lentamente, porém sem muito entusiasmo. — Mas não faz o meu tipo. — Dei de ombros, sem ao menos disfarçar meu desdém ao começar a revirar as minhas anotações.
— É o que dizem. — April respondeu, sorrindo inocentemente quando eu a fitei com os olhos semicerrados, quase ameaçadores com sua mera sugestão. — Bem, seu tipo ou não, ele será o nosso novo professor. Evans está fora.
— Ótimo. — Murmurei ironicamente, sentindo a fadiga desse primeiro semestre se acumulando dentro de mim.
***
O céu estava quase escurecendo quando finalmente consegui sair das duas aulas práticas que tive hoje sobre atendimentos pré-hospitalares e primeiros socorros, chegando, então, ao conforto do meu apartamento tão cansada e faminta que não pensei ser fisicamente possível. Era genuinamente assustador o quanto a arte da Medicina se tornava cada vez mais difícil conforme os dias, assim como as semanas, avançavam gradativamente. Emily, no entanto, parecia novinha em folha, vestida em seus pijamas confortáveis, enquanto dividia sua atenção entre brincar com Eros no sofá e revisar suas pesquisas de Citologia e Biofísica.
— Olhe só quem está aqui. — Em sorriu assim que eu me aproximei, inclinando-me em sua direção para colar nossos lábios por longos e preciosos instantes antes de me afastar o suficiente para arrastar meu nariz pelo seu rosto. — Está com fome?
— Faminta. — Assenti com um biquinho que eu sabia ser um dos seus pontos fracos, assim como também era o meu quando ela fazia. — E muito cansada.
Emily afastou suas coisas para o lado e segurou meu rosto entre suas mãos com delicadeza, trazendo-me para mais perto de seu corpo quente e convidativo conforme o aroma de sua pele me invadia os sentidos ao ponto de me deixar meio zonza. Antes que eu tivesse a chance de afundar meu rosto na curva de seu pescoço, Eros colocou as patas em cima de Emily e começou a miar, claramente incomodado com o que eu estava fazendo.
— Agora não, Eros. Estamos ocupadas aqui. — Resmunguei ao tentar afastá-lo de nós duas, mas ele não quis se mover. — Não seja um estraga prazeres você também.
Ele só parou de miar quando me afastei alguns centímetros para poder me ajeitar em minha posição um tanto desfavorecida, enquanto permanecia com uma mão apoiada no encosto do sofá e a outra no braço. Eros se aproveitou da pequena brecha para subir no colo de Emily e girar ao redor de seu próprio eixo, até se acomodar em um formato de bola e enfiar o rosto entre as patas ao fechar os olhos. Era perturbador, assim como inacreditável, o fato de ele também querê-la somente para si.
— Ela também é minha, sabe... — Murmurei, tocando o pulso de Emily com a ponta dos meus dedos ternamente, embora eu me sentisse contrariada. — Além disso, eu a vi primeiro.
— Você não pode culpá-lo, Ali. — Em disse, observando-o com um sorriso de extremo deleite estampado em seu rosto conforme brincava com a orelha de Eros. — Afinal, ele é tão ciumento quanto você.
— É porque nós amamos você, e isso nos faz ter o dever de cuidar daquilo que é nosso. — Sussurrei, roçando meu nariz pela extensão da maçã de seu rosto devagar, enquanto segurava seu queixo entre o dedo indicador e polegar antes de beijá-la sonoramente nos lábios e engolir suas risadas abafadas.
— Ei, eu fiz espaguete a bolonhesa. — Emily disparou de repente, afastando-se como se a lembrança houvesse acabado de pipocar em sua mente; seus olhos tão brilhantes e cheios de ternura.
— Apesar de eu estar com muita fome, o que eu realmente preciso agora é de um banho. — Suspirei, imaginando a água quente da banheira cobrindo meu corpo enquanto a minha mente vagava por lugares inimagináveis, com o corpo de Emily colado ao meu. — Com você. — Acrescentei quando minha visão voltou a focar o rosto bonito, que continuava prestando atenção em mim. Como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo.
— Mas eu já tomei banho. — Ela tentou argumentar, fazendo biquinho, porém eu já estava decidida e apenas me endireitei, dando às costas para ela antes de dizer:
— Você tem cinco minutos, amore mio.
Quando Emily apareceu no banheiro, quase dez minutos mais tarde, estava com os cabelos longos e sedosos presos em um coque firme, vestindo um roupão de cetim que eu havia comprado na nossa última viagem à Itália, e o qual eu adorava por combinar com seu tom de pele. Assim que se aproximou da banheira, onde meu corpo coberto pela espuma dos sais de lavanda relaxava, ela desfez o nó do roupão e o deixou cair no chão, gesticulando para que eu lhe desse um espaço atrás de mim.
Estava tão cansada que não hesitei em apoiar minha cabeça em seu ombro quando ela se ajeitou, passando os braços ao redor da minha cintura cuidadosamente e acariciando a parte sensível da minha orelha com seu nariz. E... Deus! Aquilo parecia tão certo e perfeito – apesar do calor que começou a pinicar meu corpo ao sentir seus gloriosos seios contra as minhas costas, provocando-me quando eu estava tão decidida a somente descansar na banheira.
A volúpia, no entanto, dissolveu-se quase instantaneamente quando Emily tirou as mãos de dentro da água e as levou até os meus ombros, massageando-os tão devagar ao ponto de me fazer relaxar os músculos por completo, apreciando aquele breve momento de puro silêncio e tranquilidade.
— Sabe, Em, eu amo essa habilidade que você tem de sempre me acalmar quando preciso. Na verdade, eu acho que é mais como um superpoder. — Coloquei as minhas mãos sobre as dela em meu ombro, o que a fez parar os movimentos e prestar atenção no que eu diria a seguir. — Tudo o que você precisa fazer é me tocar, ou apenas me olhar com essas íris castanhas e brilhantes, tão profundas, que refletem o coração de ouro que você tem. Às vezes, eu não acredito que demorei tanto tempo para perceber o que eu sentia por você...
— Bem, você sabe o que dizem... Antes tarde do que nunca. — Ela riu, depositando um beijo suave em minha nuca. No entanto, eu mal coloquei sentido naquelas palavras, então apenas continuei:
— É curioso, e ao mesmo tempo desprezível, que a única coisa que eu me importava naquela época era ser venerada por você. Eu gostava de toda a atenção que você me dava, dos elogios que recebia, e algumas daquelas coisas legais que eu dizia para você em troca era uma forma de manipulá-la, embora, no fundo, fossem verdades. Eu imaginava como seria se você perdesse o interesse por mim e aquilo me apavorava, então tinha de fazê-la se apaixonar ainda mais, mesmo que eu nunca pudesse retribuir aqueles sentimentos abertamente. Mas não pense que eu me sentia bem com isso, porque havia momentos em que eu me odiava por ter que recorrer àquilo, mas eu empurrava para longe o sentimento de culpa e repetia quantas vezes fosse preciso, até me convencer de que era necessário.
— Você fazia coisas horríveis. — Emily pensou alto, soando um pouco triste e distante com as prováveis reminiscências.
— Eu sei! — Concordei energicamente. — Se eu pudesse voltar no tempo, faria as coisas sob uma perspectiva diferente; só passaria por cima das pessoas que fizessem por merecer, além, é claro, de ser uma amiga melhor para vocês quatro. Eu seria como antes. E como agora.
Distraidamente, peguei as mãos de Emily e coloquei uma delas sobre a minha coxa, entrelaçando nossos dedos com a outra. Ela deixou uma risada baixa escapar contra a minha nuca, enquanto arrastava seus lábios de ombro a ombro, devagar e com cuidado, o que fez um arrepiou profundo percorrer minha espinha com o hálito quente soprando em minha pele.
— Eu sei como você se sente pelo que aconteceu no passado, pelas coisas que fez e por todo mal que causou, mas não deixe isso persegui-la pelo resto da vida. O que está feito, está feito, e não há como voltar atrás. Seria mais fácil se tivesse, mas, no final, não valeria à pena. — Ela disse depois de um momento, movendo seus lábios até o meu ouvido e suspirando a cada pausa de sua reflexão. — Eu não me importo com o passado, Ali, porque, honestamente, não faz diferença. Eu só me importo com o agora e no quanto eu sou feliz por ter a garota dos meus sonhos numa banheira comigo, despindo-se de suas emoções mais secretas e profundas. Eu amo cada parte de você, as boas e as ruins, com uma intensidade que me consome ao ponto de me deixar sem ar...
Não fui capaz de esperá-la terminar, e quando me dei conta já havia virado para trás e sentado em seu colo, puxando-a pela nuca para um beijo caprichoso e cheio de volúpia. Era mais do que certo que eu nunca me cansaria de ouvi-la dizer todas aquelas coisas, assim como meu coração, que pulava de alegria com a ternura de suas palavras.
De nada adiantou o esforço que fiz para manter minhas mãos sob controle, já que deixei uma delas escorregar pelo seu pescoço e clavícula, até sentir o mamilo de seu seio esquerdo fazer cócegas na palma de minha mão direita, enquanto a outra pressionava com firmeza seu rosto contra o meu. Emily agarrava minhas coxas com vontade, puxando-me para o mais perto possível dela e fazendo com que minha intimidade encostasse de leve em sua barriga, arrancando gemidos baixos dentre meus lábios.
— Eu sabia que você estava prestes a ceder. — Ela riu confortavelmente, e eu puxei seu lábio inferior entre meus dentes, mordendo-o com certa força.
— O que eu posso fazer? Tenho em mim essa vontade insana de fazer amor o tempo todo... Você também me consome, Em. — Confessei baixinho, voltando a beijá-la sonoramente enquanto sua mão deslizava entre as minhas pernas, buscando pela parte mais sensível do meu corpo e enviando arrepios até a minha alma.
— Deixe-me fazê-la se sentir ainda melhor... — Emily murmurou, tomando meus lábios com extrema lascívia, porém irrefutável amor.
De repente, sem aviso prévio, Emily me puxou pelo quadril e empurrou dois dedos em minha cavidade, arrancando um gemido rouco e abafado de minha boca. Cravei as minhas unhas em sua nuca e continuei a beijá-la, ardentemente, massageando seu seio com a minha mão livre e movimentando meu quadril contra sua mão, tornando o contato íntimo ainda mais delicioso.
Pressionei minha pele quente e molhada contra a de Emily, fazendo com que nossos seios se tocassem da forma que eu mais gostava, roçando lenta e eroticamente, enquanto seus dedos entravam e saiam de dentro de mim. E meus gemidos e suspiros chorosos ecoavam pelo banheiro, tornando tudo ainda melhor, conforme meus sentidos se tornavam ainda mais sensíveis com a intensidade do prazer que crescia em cada pedaço do meu corpo.
Sem conseguir me concentrar em corresponder ao seu beijo, segurei o rosto de Emily entre minhas mãos e a fitei naqueles olhos escuros e brilhantes, cheios de luxúria e comprometimento, que eu tinha certeza ser o mais puro reflexo do meu. Algumas palavras desconexas começaram a escapar por entre meus lábios, o que fez Em sorrir fracamente, quase de forma orgulhosa, enquanto tudo o que eu conseguia fazer era roçar nossos lábios com um pouco de dificuldade e empurrar meu quadril para baixo, ansiando por mais contato e, portanto, mais sensações que tinham poderes arrebatadores. Era algo tão mágico que eu poderia dizer que estava flutuando.
Rapidamente, Em desceu seus lábios até o meu pescoço e clavícula, sugando a pele com força – e eu sabia que ela iria me deixar marcada, mas estava tão entregue e vulnerável que não me importei de ser em lugares visíveis –, enquanto escorregava lentamente até o meu seio, onde acariciou o mamilo rígido com a língua antes de tomá-lo em sua boca sedenta. Deixei com que minhas mãos caíssem em seus ombros, apoiando-me conforme sentia meu corpo inteiro começar a convulsionar e, então, minhas pernas bambearam a ponto de enfraquecer.
Emily afastou o rosto para poder me fitar e eu me inclinei para descansar minha testa contra a dela, com a respiração pesada e entrecortada, ao tempo em que afastava uma mecha que havia se desprendido de seu coque com a mão direita. Admirando seus olhos gentis e calorosos, acariciei a maçã de seu rosto com as costas dos meus dedos, roçando nossos lábios e, então, nossos narizes, devagar.
— Eu amo você... — Sussurrei, inclinando a minha cabeça para fitá-la com um sorriso bobo e afetado. — Emily Fields. — Continuei, fazendo-a sorrir largamente com a forma suave e amorosa que minha voz soou.
— Eu sei. — Ela disse, segurando meu queixo entre seus dedos e me puxando para um beijo longo e molhado. — Também amo você.
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