The Blind Side Of Love
14 It’s The Most Wonderful Time Of The Year!
Notas iniciais
Algumas horas mais tarde, Spencer e eu assistíamos a um dos filmes de Natal que fazia parte da minha coleção, enquanto Killian dormia pesadamente entre nós duas, com os braços pálidos e pequenos ao redor de Eros, que ronronava suavemente a cada batida e meia de coração. Spencer estava com o corpo inteiro recostado no sofá, com a atenção fixa à televisão, e eu, vez ou outra, checava meu celular para responder às mensagens de Ali, que, a essa altura, já deveria ter saído da Columbia.
O filme mal acabou e Spencer se levantou, recolhendo os copos e pratos que estavam em cima da mesa de centro. Em silêncio, se dispôs a limpar a bagunça que fizemos e, assim que terminou, voltou para o mesmo lugar em que estava estirada há alguns minutos, mas agora encarando o próprio celular em suas mãos. Ali havia parado de me responder, o que me fez pensar que, provavelmente, ela estaria a caminho de casa – se não tivesse parado em alguma loja da quinta avenida para fazer compras.
— Agora que a diversão acabou, tenho que me arrumar para sair. — Spencer disse, torcendo os lábios para o lado, pensativamente, antes de se levantar e acrescentar: — Fiquei de visitar algumas galerias de arte com Aria. Acho que ela está escrevendo um romance, onde a personagem principal é uma artista solitária e incompreendida, ou algo assim. Ela não forneceu muitos detalhes.
— Isso não lhe soa familiar? — Franzi o cenho, com um meio sorriso se formando em meus lábios.
— Um pouco? — Respondeu de volta, soando meio incerta. — Bem, de qualquer forma, eu preciso ir. Não me esperem, talvez eu passe a noite no apartamento de Hanna. — Avisou, dando às costas para mim e desaparecendo no corredor.
Dei uma olhada em Killian, que, de vez em quando, se mexia no sofá, com a respiração estável e perfeitamente ritmada. Enrolei meus dedos em seus cabelos, formando cachinhos loiros com as dobras, enquanto tentava imaginar como seria se Ali dividisse comigo os mesmos planos acerca de um futuro não tão distante – se nossos filhos hipotéticos teriam as mesmas covinhas que ela, ou impecáveis rostos em formato de coração. Aquela ideia, no entanto, era uma semente que deveria ser cultivada por nós duas.
Mas aquele era um assunto sensível para Ali, que, mesmo não demonstrando ou admitindo, nutria algum receio oculto cujo poder era capaz de travá-la a ponto de ignorar alguns dos instintos básicos da vida. Pelo menos, era isso o que Kira havia sugerido quando eu abordei a questão, deixando-a no escuro quanto ao que motivava minha curiosidade. Mais tarde, depois de deixar escapar outros detalhes reveladores sobre o comportamento de Alison, ela não hesitou em afirmar que o medo provinha de um trauma profundo e marcante.
— Acredite em mim quando digo que traumas de infância são mais comuns do você imagina. O risco de problemas emocionais na vida adulta, como também perturbações de personalidade, é muito expressivo e assustador. — Ela havia argumentado, usando uma expressão neutra, como se realmente não fizesse ideia de que aquilo era pessoal para mim. — Geralmente, essas pessoas passam despercebidas durante boa parte de suas vidas, sem deixar transparecer a bomba-relógio que carregam dentro de si.
— Como é possível passar a vida inteira fingindo que está tudo bem? — Perguntei, querendo saber mais a fundo as probabilidades que me cercavam.
— É mais um dos inúmeros mecanismos de defesas que o ser humano desenvolve ao longo dos anos. É importante, se não vital.
Era difícil imaginar Ali naquela situação, abstendo-se das falhas que se confundiam em uma série de habilidades que, por vezes, eram usadas de forma errônea. Talvez Kira estivesse certa sobre Ali, afinal – mesmo que indiretamente. Ela tinha conhecimento sobre o assunto e, ainda que sem saber, estava me ajudando a abrir os olhos e enxergar as coisas com mais clareza.
— Emily... — Escutei alguém me chamar, suavemente, enquanto percebia aos poucos que havia pegado Killian no colo e trazido para o meu quarto, colocando-o no meio da cama de casal, quase involuntariamente.
Os passos firmes de Ali preencheram o silêncio do quarto, e logo ela se aproximou de mim, colocando as mãos em meus ombros quando eu não virei o pescoço para encará-la. Estive tão concentrada em certas reminiscências, buscando qualquer lembrança de Ali quando nos conhecemos, algum momento em particular que ela tenha demonstrado infelicidade, que não notei os movimentos de sua chegada, ou quanto tempo havia se passado desde que Spencer me deixou na sala.
Ela ainda vestia as luvas pretas de couro Valentino, o casaco de lã vermelho e um dos meus gorros; quando olhei para ela, havia flocos de neve em seus ombros e cabelos, que derretiam em consequência do calor reconfortante do nosso quarto. A ponta de seu nariz estava vermelha, os lábios roxos e tinha a tez pálida. Vendo-a me fitar com os olhos azuis, brilhantes e calorosos, coloquei a mão sobre a dela, inclinando a cabeça para me aconchegar em seu abdômen logo atrás de mim.
— Você demorou. — Observei quase inaudível, sentindo-a se afastar levemente para se inclinar em minha direção, roçando a ponta do nariz gelado em minha mandíbula, para então sussurrar perto de meu ouvido:
— Eu passei na Saks no caminho de volta. — Ela disse, e eu murmurei algo em concordância, esperando por aquela resposta. — Comprei um suéter da Ralph Lauren para você, e um novíssimo par de Louboutins para mim.
— Por que você gasta seu dinheiro com isso? — Perguntei com curiosidade, enquanto ela envolvia seus braços ao redor do meu pescoço, esticando-se outra vez.
— Com isso? — Ali repetiu, rindo confortavelmente. — Eu tenho que gastar com alguma coisa, Em. — Ela puxou meu rosto, fazendo-me virar para poder encará-la e, em seguida, grudou seus lábios gélidos contra os meus com uma leve pressão.
— Você está muito fria, vá tomar um banho quente antes que pegue algum resfriado. — Sugeri em um tom meloso, assim ela não tomaria como falta de interesse.
Voltei então a fitar Killian, sem esperar por sua resposta, passando os olhos lentamente pela camisa polo de manga comprida que ele usava, e também pelos fios de cabelo que caíam despojadamente nas maçãs bonitas e de contorno suave de seu rosto, ou dos lábios finos e naturalmente avermelhados. Atrás de mim, Ali retirou suas luvas e seu casaco e o pendurou em algum lugar, enquanto Killian se mexia na cama, virando o rosto para mim e absorvendo todo o meu interesse ao abrir os olhos confusos e sonolentos.
— Ei, campeão. — Sorri largamente quando ele esfregou os olhos, virando-se por completo para mim. — Está com sede? — Perguntei, e ele assentiu com a cabeça. — O que quer beber?
— Suquinho. — Ele disse, com a voz rouca, e eu precisei de alguns instantes para entender o que ele quis dizer, já que trocou o “s” no começo pelo “c”.
— Eu pego, pode deixar. — Ali se ofereceu quando fiz menção de me erguer para ir buscar.
Ela deixou o quarto e eu logo me esgueirei da beirada da cama para me deitar junto a Killian, que sorriu com a minha aproximação. Ele ainda não conseguia falar por causa da língua mutilada, o que fazia com que meu coração se partisse ao meio. Estava aprendendo com ele que a rara insensibilidade à dor física não era uma vantagem, mas, sim, um inferno, já que não havia como evitar se machucar sozinho e inconscientemente, como, por exemplo, quando ele dilacerou a própria língua de tanto mordê-la.
Ali retornou ao quarto com o copo de suco e diversas sacolas penduradas em seu outro braço, tais como Gucci, Burberry, Valentino e Louis Vuitton. Ela me entregou o suco e, então, três sacolas das grifes Fendi e Armani Junior, colocando as outras em cima da poltrona giratória, antes de desaparecer no banheiro. Deixei que Killian bebesse o suco de maracujá e olhei o conteúdo das sacolas, surpreendendo-me ao encontrar uma jaqueta college de lã, calça de moletom de flanela cinza e botas de couro, todas com a logomarca Fendi, enquanto as duas camisas de manga comprida – uma social lisa, na cor azul, e outra de algodão listrada, em tons ambíguos de cinza e preto. Eram roupas masculinas e de criança.
— Você também comprou roupa para ele. — Pensei alto, um pouco pasma, enquanto Ali ressurgia do banheiro em um roupão da Victoria’s Secret e com os cabelos presos em um coque ligeiramente frouxo. — Por quê?
— Eu amo você, e isso faz com que eu me sinta generosa. — Ela disse, aproximando-se da cama e engatinhando até que pudesse plantar um beijo molhado em meus lábios.
Ali sorriu timidamente para mim, roçando seu nariz com suavidade contra o meu, e, depois, saiu da cama para seguir minha sugestão sobre o banho quente. Fiquei pensando por alguns instantes, com ligeira fascinação, em como o humor dela mudava quando estávamos bem, em paz, e eu gostava de ser o motivo daquelas mudanças positivas e admiráveis – embora também despertasse, mesmo que sem intenção, seu lado obscuro. Ali já havia deixado perfeitamente claro, mais de uma vez, que faria qualquer coisa por mim, e que nunca deixaria alguém ficar entre nós duas.
— Emmy, acabou. — Killian estendeu o copo em minha direção, chamando a minha atenção. Recompondo-me, peguei-o de sua mão pequena e delicada e coloquei em cima do criado mudo do lado em que eu estava sentada.
Sentei Killian em meu colo e passei a lhe mostrar suas novas roupas, sempre perguntando se ele gostava ou não, ao que ele respondia com enérgicos acenos de cabeça, todos positivos. Apesar de ter tido pais horríveis, ele era um ótimo garoto. Kira não podia ser diferente, com sua inegável convicção e força de caráter, ela certamente seria a diferença que o irmão precisava.
Depois de alguns minutos, levei Killian para a sala e fiquei brincando com ele enquanto Ali tomava banho. Não demorou muito e ela logo apareceu na sala, vestindo seu pijama especial de Natal que eu havia lhe dado, com pantufas adoráveis e os cabelos ainda presos em um coque. Eros levantou da poltrona e se espreguiçou, antes de ir ao encontro de Ali. Era comum ele fazer isso ao ouvir os passos de Ali ecoar pelos cômodos, ou sentir o cheiro dela, e ela sempre se derretia quando ele se mostrava ansioso por sua presença.
— Onde está Spencer? — Ali perguntou, sentando-se na poltrona, com Eros em seu colo.
— Saiu para se encontrar com Aria não faz muito tempo. — Respondi meio distraída, balançando a cabeça negativamente quando Killian colocou o dedo na boca. — Ei, nada de dedo na boca. Pode fazer dodói, lembra? — Afastei a mão dele de seu rosto, dando um beijinho suave em seus dedos, fazendo-o sorrir em apreciação.
— O que tem o dedo dele, afinal? — Ali perguntou com curiosidade, enquanto Eros brincava com suas mãos.
— O mesmo que aconteceu com a língua dele. — Foi a minha resposta, ao que Ali franziu o cenho, sem entender. — Você não prestou atenção no que eu te contei algumas semanas atrás, não é? — Acusei, com os olhos semicerrados.
— Você estava nua? — Rebateu, com um sorriso perverso cruzando seus lábios, e eu cobri os ouvidos de Killian rapidamente, como uma mãe protegendo a inocência de seu filho. — Ora, não faça essa cara. Ele nem entende. Quando crescer vai adorar ver garotas nuas.
— Você é inacreditável. — Bufei em troca, revirando os olhos com sua falta de tato. — Pare de dizer besteiras na frente dele. Crianças reproduzem o que ouvem, e o que veem também.
Ali balançou a cabeça, rindo confortavelmente, enquanto Eros tinha seus dedos entre os dentes, claramente envolvido com as provocações dela. O interfone tocou e Ali se levantou com ele para atender, murmurando algumas coisas em resposta ao que Andy dizia. Não demorou um minuto e ela logo estava de volta, sentando-se perto de mim.
— O que Andy queria? — Perguntei, mas antes que ela pudesse se dispor a responder, o barulho do elevador chamou a minha atenção e também a de Killian, que procurou a origem do som.
— O que foi isso? — Ele quis saber, com os olhos cheios de curiosidade, o que achei extremamente adorável.
— É só o elevador. — Respondi divertidamente, incapaz de evitar o sorriso que tomou conta de minhas características. — Alguém acabou de subir.
Mal terminei de falar e a figura alta e esguia de Kira surgiu no batente, abrindo os braços quando Killian se soltou de mim para pular nos braços dela, sem medo de ser feliz. Era de fato inspiradora a conexão que eles tinham, assim como o profundo e inabalável carinho que ele sentia por ela. Levantei-me do sofá e notei que Kira ainda estava de jaleco branco, o que significava que ela tinha vindo direto da clínica em que estagiava. Killian mostrou a ela o carrinho do Ben 10 que eu comprei antes de virmos para cá.
— Ei, você está adiantada. — Observei um pouco surpresa, inclinando a cabeça levemente com um meio sorriso.
— Ah, é. Eu pensei em ligar para avisar que iria passar cedo para buscá-lo, mas meu celular estava sem bateria. — Ela disse em tom de desculpas, como se estivesse desconcertada por aparecer do nada.
— Não se preocupe com isso. — Garanti com um aceno de mão preguiçoso. — Bem, deixe-me apresentá-la... — Comecei, puxando Ali para o meu lado. — Esta é Alison.
— Kira, não é? — Ali sorriu docemente, inclinando a cabeça do jeito que sempre fazia quando não estava sendo verdadeira. — Emily me falou sobre você. Estava ansiosa para conhecê-la.
— Bem, ela me falou sobre você também. — Retorquiu com polidez, alternando o olhar entre Ali e eu. — É um prazer conhecê-la. — Ela sorriu contidamente, mas não estendeu a mão como normalmente fazia, tendo os dois braços inteiramente ocupados ao redor de Killian, enquanto Ali apenas assentiu, deslizando seus dedos pelas minhas costas.
Apesar de minha insistência, Kira não quis ficar em nossa presença por muito tempo. Ela agradeceu fervorosamente a minha boa vontade de cuidar de seu irmão, principalmente depois de eu ter entregado a ela as coisas que Ali comprou para Killian. Assim que ela foi embora, Ali me encarou com uma expressão indecifrável e, então, voltou às suas brincadeiras com Eros, sem dizer nada, porém pensativa o suficiente para instigar a minha curiosidade. Sentei-me ao lado dela no sofá e tomei sua mão na minha, entrelaçando nossos dedos amorosamente.
— Você não gostou dela, não é? — Perguntei, fazendo-a desviar os olhos de Eros para me fitar.
— Eu não gosto de ninguém que chegue muito perto de você. — Ela disse, dando de ombros como se não fosse nada de relevante. — Além disso, eu sinto algo de diferente nela. Você sabe que eu tenho um dom muito especial, e pode apostar que vou usá-lo nela.
— Ei, nem pense nisso. — Adiantei rapidamente, encarando-a com seriedade. — Eu sei que você vai intimidá-la com o que descobrir, então não faça isso.
— Eu não vou intimidá-la, só estou curiosa. — Defendeu-se em tom inocente, selando nossos lábios rapidamente antes de reafirmar: — Eu prometo.
***
Na véspera de Natal, o pé da árvore enfeitada estava cheio de presentes. Aparentemente, Spencer aproveitou sua saída com Aria para fazer compras, aparecendo pela manhã com as nossas duas melhores amigas em seu encalço. Ali e eu tratamos de colocar os nossos presentes antes que elas chegassem e, vez ou outra, certificando-nos de que Eros não chegasse perto da árvore e arruinasse os embrulhos. Logo no início da manhã, recebi uma mensagem de Kira dizendo que precisaria declinar o convite para o jantar, o que me deixou triste, pois não veria Killian outra vez.
Ao invés de passar o dia inteiro enfiada na cozinha preparando a nossa ceia, encomendei os pratos principais e mais trabalhosos em um restaurante especializado do outro lado da cidade, encarregando-me dos mais simples e também os que eu sabia que Ali adorava. Passamos boa parte da tarde assistindo a filmes e ouvindo Aria contar sobre o livro que estava escrevendo, até que, algum tempo depois, o foco da conversa tomou um rumo mais pessoal, porém agradavelmente espontâneo.
— O que aconteceu com aquele pintor que você estava saindo? — Spencer perguntou, sentada no braço do sofá em que Aria estava sentada.
— Não deu certo. — Ela respondeu, girando distraidamente a taça de vinho que segurava em sua mão esquerda. — Irving era um cara bem sensível, mas terminamos por causa de nossas diferenças artísticas.
— Vocês, artistas, são muito esquisitos. — Hanna comentou com desdém, tomando um longo gole de seu vinho.
— Então está oficialmente solteira outra vez? — Perguntei causalmente, tirando os pelos invisíveis do suéter cinza escuro de renas que Ali me deu, sentada no outro braço do sofá com as pernas cruzadas.
— Não exatamente. — Aria respondeu, parecendo um pouco hesitante em continuar. — Eu encontrei alguém do passado e nós meio que nos reconectamos...
— Noel? — Ali tentou, fazendo careta diante da possibilidade.
— Não!
— Aria, querida, você tem uma lista bem extensa de ex-namorados, então, por favor, não nos faça adivinhar. — Spencer disse, com um meio sorriso cobrindo seus traços aristocráticos.
— Eu não sei se vocês se lembram dele, mas, de qualquer forma, o nome dele é Ezra Fitz. — Aria contou, soltando tudo em uma lufada de ar apressada. — Ele também é um escritor e está me ajudando com todo o processo do meu livro...
— Voltou com o professorzinho de novo, Aria? — Spencer suspirou, desapontada.
— Ele escreveu um livro sobre ela! — Hanna observou, erguendo a taça em direção à Aria em apreciação. — Alguém já escreveu um poema sobre você? — Dirigiu-se à Spencer, que abriu a boca para dizer alguma coisa, mas desistiu logo em seguida.
Aria observou as duas com olhos atentos e brilhantes, incapaz de disfarçar a diversão que percorria neles ao deixar uma risada confortável, porém contida, escapar de seus lábios. Ali e eu nos esforçamos para acompanharmos aquela conversa, que se seguiu até o momento de nos levantarmos para aproveitar a nossa ceia, mas prestávamos mais atenção uma na outra do que em qualquer outra coisa.
Para a minha surpresa, o jantar transcorreu tranquilamente, sem qualquer desentendimento entre Alison e Spencer. Houve provocações de ambas as partes, certamente, mas nada que causasse atrito entre as duas. Hanna aproveitou o bom humor que fluía de todas nós para compartilhar um de seus projetos para o ano que vem – criar um blog sobre moda feminina –, onde pudesse se dedicar de corpo e alma, sem precisar se submeter às implicâncias de seus chefes e ser a responsável de seu próprio sucesso.
À meia-noite, saímos para a rua coberta por neve e assistimos aos fogos de artifício com alegre disposição. Era uma deslumbrante chuva de cores e formas, que explodiam no céu escuro de forma gloriosa. Ali enroscou seu braço no meu, encostando sua cabeça em meu ombro conforme entrelaçava os nossos dedos. Estava tão frio que era perfeitamente possível enxergar o vapor condensado que saía de minha boca quando eu sequer a abria para suspirar.
Antes que os fogos de artifício cessassem, virei o rosto para encará-la, sustentando um sorriso largo ao perceber a ponta de seu nariz vermelho e, sem conseguir me conter, segurei seu queixo entre meus dedos e me inclinei para grudar meus lábios gélidos nos dela. Pude sentir os flocos de neve caindo sobre nós conforme eu movia minha boca com delicadeza contra a dela, roçando meu lábio inferior suavemente, como uma brincadeira inocente.
— Feliz Natal, Ali. — Murmurei ao me afastar, roçando nossos narizes devagar, vendo-a sorrir quase tão largamente quanto eu.
— Feliz Natal, Em.
Na manhã seguinte, acordamos todas bem cedo para abrirmos nossos presentes. Eros tinha dormido no quarto, deixando Ali brava quando tentou se infiltrar entre nós duas. Assim que deixamos a nossa cama, ele também se levantou e nos seguiu até a sala – onde Aria, Hanna e Spencer dormiam profundamente –, enfiando-se entre os diversos pacotes embrulhados. De maneira rápida, distribuímos os presentes e cada uma abriu o seu. Spencer precisou rir quando viu que Ali tinha comprado para ela o novo iPhone.
— Já estava mesmo na hora de você trocar o seu iPhone, Spence. — Hanna comentou com certo alívio, fazendo todas nós rirmos. — Você simplesmente parou na quarta geração.
— Obrigada por me atualizar, Ali. É muito útil. — Spencer balançou a caixa com o aparelho dentro, sorrindo com ironia, mas genuína diversão.
— Eu estava começando a me sentir envergonhada por você. — Ali disse, fingindo um tom de desdém.
— Não é como se eu fosse capaz, ou tivesse tempo, de acompanhar todas essas novas invenções. — Ela deu de ombros, rindo logo em seguida.
Ali abriu o meu presente e sorriu largamente ao ver a novíssima Polaroid que eu comprei para ela, uma superior à antiga que ela tinha e que também carregava para todos os cantos desde os treze anos. Era sua obsessão tirar foto de cada momento, “como se fosse o último”, lembro-me de ouvi-la dizer certa vez. De repente, Ali me puxou para mais perto dela, fitando-me amorosamente, e me pegou de surpresa ao me beijar na boca e clicar na câmera apontada para nós duas, que gerou uma foto instantaneamente.
— Eu vou guardar esta foto junto das outras centenas que temos. — Ela disse, encarando a imagem com aquele brilho especial nos olhos azuis, apertando a foto em seu peito com inegável emoção.
Afastei uma mecha de cabelo para trás de sua orelha, observando-a com o coração completamente derretido. Eu amava vê-la tão calorosa e vulnerável, embora tenha se tornado muito comum que ela agisse assim perto de mim, e até mesmo perto de outras pessoas. Ali se aproveitou de minha distração e tirou uma foto de mim, rindo confortavelmente quando eu pisquei, processando o que ela tinha acabado de fazer.
— O que achou do meu presente? — Perguntou depois de alguns instantes, e eu logo me dei conta de que ainda não tinha visto.
Encarei o presente aberto em meu colo, pegando-o logo em seguida para analisá-lo com cuidado. Era uma jaqueta college azul marinho, de design um pouco diferente das comuns, com as mangas compridas de couro preto e as iniciais do meu nome – EF – nas costas. Deixei com que um sorriso se espalhasse pelas minhas características, sentindo meu coração falhar uma batida ao perceber que ela também tinha uma, com as inicias de seu nome. Aquilo era algo para dividirmos – embora eu soubesse que ela iria usar a minha constantemente.
— Ali, eu adorei! — Exclamei sem conseguir conter minha animação. — É perfeito, obrigada!
— Eu sei, fui eu quem fiz. — Hanna se gabou, batendo os cílios rapidamente. — Demorei um pouco para desenhá-lo só porque Ali não me deixava trabalhar em paz, mas ficou simplesmente fabuloso.
Ali revirou os olhos, mas logo tratou de ignorar Hanna, que admirou sua obra de arte por mais alguns instantes e continuou abrindo os presentes que ganhou de Aria e Spencer. Ali colocou a sua jaqueta vermelha por cima do vestido florido que usava, e eu fiz o mesmo, vestindo-a por cima do mesmo suéter de ontem.
Em seguida, inclinei-me em sua direção e a beijei longa e profundamente nos lábios. O presente mais especial eu descobri de madrugada, quando tirei o suéter para dormir e me deparei com um pequeno coração de ouro bordado no lado de dentro de uma das mangas. Ela tinha costurado o coração sem que eu soubesse, deixando-me tão encantada quanto perplexa. Aquele gesto, afinal, era uma prova irrefutável de que eu tinha total posse de seu coração, e era mais do que suficiente para mim.
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