The Black Halo

2 Capítulo I - Only this, and nothing more.


Notas iniciais
Aí está, capítulo I, seguindo do ponto do último episódio da segunda temporada onde parei, na introdução. Válido relembrar que nesta história, Ciel não mandou os presentes de despedida para seus amigos&conhecidos, ainda planejava desaparecer.

Algumas horas haviam se passado após o despertar do jovem Phantomhive, e este, como de costume, encontrava-se absorto pensamentos em seu escritório. De fato, mais alienado e isolado que o normal.

Apesar de sua recente transformação, Ciel pensava compreender do que se tratava um demônio: A começar por seu chá vazio, o sabor provido pelo paladar terreno lhe era intoleravelmente inferior, superficial e grotescamente artificial, impregnando sua língua de um gosto que associava a chorume e podridão; sabia que por mais que aqueles ao seu redor não notassem diferenças físicas imediatas, sua reles carcaça não envelheceria um único dia; e o mais importante, sentia intuitivamente que a cada dia que corresse por seu calendário faria com que seu coração podre batesse uma batida a menos à cada crepúsculo, que qualquer sentimento e afeição por seus entes queridos, e qualquer lembrança do calor acolhedor do amor familiar seria apagada pelo frio desumano e diabólico águas onde fora batizado. “Ciel Phantomhive” passaria a ser um nome tão inútil e vazio para ele quanto “Sebastian Michaelis” era mais um título insignificante para o manipulador de corvos.

O menino massageava as têmporas, desconectado desse mundo pelo pensamento e a ansiedade quando fora interrompido. Três fortes e características batidas aguardavam resposta, flutuando no silencio.

— Entre, Sebastian. – disse. Apertou os olhos com força uma ultima vez e se endireitou no assento.

— Com licença, jovem mestre. – Abriu a porta, curvando-se quase imperceptivelmente ao entrar.

Carregava uma bandeja de prata, tampada. Não era hora para o chá da tarde ou qualquer lanche vespertino. Ciel franziu o cenho e bufou diante do que o esperava. Desfazendo-se lentamente da tampa de superfície polida, o mordomo lhe estendeu a bandeja. Sobre ela jazia uma carta encimada pelo selo real marcado em cera vermelha.

— Esta carta chegou há poucos instantes. – O mordomo sacou seu relógio de bolso e o encarou de relance. — Dada à precisão dos entregadores reais e o horário atual, diria que é um assunto de expepcional urgência, até mesmo para Vossa Majestade.

O demônio sorriu. Ciel percebeu, perturbado, a satisfação fria e repleta de finalidade do serviçal. Já havia visto aquele sorriso tantas outras vezes quando a criatura estendia seus passos debochadamente adiante dos passos do menino em seus planos, como quem busca asseverar sua superioridade a despeito do pacto, entretanto, ao invés da raiva que normalmente sentia e coloria sua expressão, o herdeiro dos Phantomhive sentia uma apreensão esmagadora. Parecia-lhe que o jogo havia mudado radicalmente, e pela primeira vez na vida desde a morte de seus pais, não tinha ideia de como proceder.

— Leia para mim. Agora. – Ordenou o menino, girando sua cadeira e ocultando sua expressão para o mordomo.

— Como quiser. – O mordomo sorriu ao tomar a carta em mãos como não fazia desde o envolvimento com a casa Trancy. O que era o aviso de uma débil Rainha humana — tão frágil em sua carcaça enrugada de pele colada aos ossos e tão preocupada com a sagrada superioridade de seu pedacinho de terre – perto de até onde alcançava seu olhar?

De fato, podia recitar a maldita carta sem sequer abri-la – tantos anos ao lado do estimado cão da rainha lhe renderam familiaridade suficiente para rendição perfeita da prosa pretensiosa da senil senhora. Entretanto, abriu a carta, despojando-se do selo e tomando o texto em mãos. Não era extenso como de costume — demonstrava justamente o senso de urgência que inferira.

“Sei que retornaste recentemente de sua viagem, meu pequeno Ciel. Entretanto, temo que terei de confiar o destino brilhante de nossa amada mãe Inglaterra à suas mãos — capazes — e as de seu charmoso mordomo.

Traz dor ao meu coração lhe desferir tais noticias, mas a grande e majestosa Abadia de Westminster, a mais importante de toda Londres, por volta da meia noite do dia anterior foi indecentemente arrasada por uma estranha força explosiva que, infelizmente, estendeu o descanso eterno à toda pobre alma que se encontrava na redondeza. Não podemos deixar tal organização, ou indivíduo, ficar impune diante de tamanho crime contra as vidas de nossos cidadãos e a um monumento como aquele.

Destarte, confio esta tarefa ao meu leal cão de guarda a ser realizada com total discrição, como de costume.

Saudações, A Rainha.

Post Scriptum – Ciel, meu menino, anda se alimentando bem?”

—Aí está, jovem mestre. – Finalizou Sebastian com um meneio de cabeça.

— Irei apaziguar o sofrimento que assola o coração de Vossa Majestade... – Suspirou o menino. — ...Pela última vez, pelo orgulho de Londres.

O mordomo havia tomado o sorriso sarcástico e sombrio como substituto para a expressão de frustração que o assolava desde a transformação. Apesar de ter declarado de maneira tão nobre que faria o serviço sujo do submundo mais uma vez, se Ciel desejasse, poderia simplesmente ignorar o pedido daquela mulher, desaparecendo mundo afora com seu empregado sem deixar vestígios. Quem ou o que poderia impedi-lo? Ainda assim, o menino permanecia.

Ciel sentia seu sangue pulsar descontroladamente, entrelaçando-se com a terrível sensação sufocante de sua ansiedade. Só depois ouvir a carta e encarar a expressão desleal do mordomo deu-se conta de uma sensação infinitamente mais terrível que rastejava por baixo de sua pele, suave como uma picada de mosquito, mas asquerosa como nada que jamais sentira. Algo terrível e inominável se esgueirava nas sombras, e a opressão de sua presença era tamanha que o menino sentia fraquejar o que restava de sua alma. O que era orgulho ignóbil perto de um país e de uma família que estava fadado a abandonar frente ao animalesco senso de sobrevivência que esta presença lhe despertava?

— E então, jovem mestre? Estou a seu dispor. – Inclinou-se suavemente, tratando de limpar o terrível sorriso da face.

— Prepare a carruagem e tudo que for necessário. Vamos até a abadia, Sebastian. – O menino se virou para o mordomo, o qual se ajoelhava brevemente. A cabeça estava baixa e a mão direita sobre onde ficaria um coração.

Yes, My Lord. Se me der licença... – O mordomo pôs-se de pé, caminhando em direção à porta. Parou abruptamente à certa altura, porém, virando-se para falar-lhe novamente. – A propósito, jovem mestre... Imagino que não deseje e tampouco vá precisar de agasalhos, não é? O frio não está mais do lado de fora. – Exibiu seu terrível esgar antes de prosseguir. – Existe-lhe algo mais para sentir nesta vida impura, além do paladar de uma alma humana sendo devorada, revigorando não só seu estômago quanto seu espírito, caso sequer tivéssemos um?

Os olhos do menino voltaram a tingir-se inconscientemente. Em breve estaria livre de qualquer fardo para com a Rainha ou qualquer outro alguém, todavia, a tensão crescia em disparate em seu coração.

Após a morte de seus pais Ciel vivera apenas para realizar sua vingança e ter sua alma devorada pelo mordomo. Não possuía qualquer tipo de propósito, e agora, teria de viver uma eternidade repleta deste vazio angustiante. Como se não bastasse, sua fome demoníaca cresceria até o ponto em que seria imperativo devorar a alma de algum inocente; algum inocente que teria a felicidade consumida por suas necessidades indecentes, assim como a do restante da sua família.

— Ca... Cale-se, mordomo imundo. – disse, sequer sustentando o olhar. Sebastian deleitava-se com a situação.

— Não somos tão diferentes. – O mordomo aproximou-se da escrivaninha, enquanto todo o cômodo lentamente era ofuscado por uma escuridão impenetrável. – De fato, nunca fomos. Afinal, vivíamos ambos por propósitos finitos e vãos, propelidos tão somente pelo capricho. Você, com sua ridícula vingança, e eu, com minha busca pelo sabor perfeito. Entretanto, devo corrigir-me. “Não éramos tão diferentes”. Enquanto eu vivo ainda por este paladar definitivo, tu não tens razão alguma para existir... Diga-me, quem é o imundo?

Só ao fim da última frase, aterrorizado, Ciel pôde perceber como todo o escritório havia sido tragado pelas trevas, como os olhos do mordomo assumiram sua aparência mais infernal e como flutuavam na escuridão, tão próximos e tão distantes de seu rosto, como estrelas degeneradas fulgurando macabramente numa noite repleta de astros há muito caídos.

— Sebastian, cale-se!

Yes, My Lord. – Em uma fração de segundo após a cínica resposta, o ambiente clareou-se totalmente, e, uma vez mais, o mordomo encontrava-se ao pé da porta (justamente onde estava) antes de ter caminhado. Era como se tudo aquilo não passasse de uma alucinação infernal que transcorrera em sua mente afogada pelo turbilhão de sua alma, um reflexo exato da queda da Ilha da Morte.

Entretanto, a expressão do demônio afirmava veemente o contrário – seus olhos espectrais e seu sorriso, tão sinistros quanto antes, evisceravam sua sanidade de longe ao penetrar seu ser e abrir cada porta, desvelando tudo o que mais temia admitir. O contrato ainda estava de pé, e para todo o sempre estaria, mas do que lhe seria útil se parecia temer o próprio contratado? De que adiantava uma palavra, quando esta carecia de significado?

— Tratarei de arrumar suas vestes, afinal, parece precisar. Um conde não pode perambular por Londres desta maneira, não é? – Ciel piscou rapidamente. Os olhos do mordomo já haviam retornado a seu vermelho habitual, e sua expressão uma vez mais era o perfeito exemplo da neutralidade. – Quanto à carruagem, assim que terminar seus ofícios a encontrará à sua espera, no portão.

O homem de preto tornou a abrir a porta, preparando-se para sair, quando recebeu um chamado e virou-se para atendê-lo.

— Esqueça as vestes. Traga minha bengala e luvas para cobrir estas unhas. Eu... Em essência, não sou mais o Conde Phantomhive. Por que deveria me preocupar com coisas tão supérfluas?

Sebastian assentiu numa mesura profunda. Sussurrou o Corvo:

Nunca Mais.

Notas finais
EDIT: Capítulo editado e revisado em 31/01/16.