The Black Halo
3 Capítulo II - Nameless here for evermore.
Notas iniciais
Em frente ao portão principal da propriedade Phantomhive a carruagem estava pronta. A frente do luxuoso carro um par de cavalos puro sangue de pelos negros esperavam despreocupadamente. Sempre presos as tiras de couro e as estruturas de madeira sólida do veículo, os animais interagiam tranquilamente entre si, mesmo que sua vida muitas vezes se resumisse ao transporte de cargas e pessoas. Encarando a cena com novos olhos, os ideais de servidão, lugar e propósito do conde entravam em conflito com as noções de outrora.
Resignados a suas respectivas posições os cavalos pareciam satisfeitos e munidos de um propósito, por mais penoso e insignificante que fosse. Desprovido de qualquer sentido para sua vida Ciel podia compreender o reconforto daquela noção, mas de que adiantava se lhes faltava a liberdade? Não era bem verdade que caso fossem livres e selvagens seus anseios e lugares a serem desempenhados seriam outros totalmente novos? Como o fiel cão da rainha, obcecado com a vingança pessoal e a justiça da nação, era diferente de um cavalo adestrado que aceita o fardo que lhe é dado e assim vive até segunda ordem? O que seria dele e de sua vida caso seus pais não tivessem sido assassinados, ou melhor, o que seria dele caso tivesse seguido a vida normalmente com Lizzy e os outros? A vingança que o privou de nutrir verdadeiros objetivos era uma escolha sua ou um fardo que lhe foi confiado, por mais que se apressasse em justificar ter assumido o fardo? E mesmo agora, o que era mais favorável, a vingança ou o vazio?
Desta forma, para Ciel até meros animais eram seus superiores, não só por possuírem uma razão, mas por não terem sido totalmente alienados do direito de poderem perecer em paz. Ciel não possuía a benção de poder perecer em paz desde que seus pais morreram, pois abdicara da vida em prol da morte, mas quando se transformara perdeu também o direito. Havia perdido tudo uma vez mais – o direito de conviver com aqueles que lhe aguardariam para sempre, o direito ao descanso eterno, e o direito às suas próprias memórias. O estreito rio que era sua vida anterior logo desembocaria no grande oceano ao fim desta ultima jornada, lenta mas inexoravelmente dissipando suas águas doces no mar salgado até que nada lhe restasse. Seu passado seria como a fotografia de outra família – por mais que pensasse se identificar e sentir um vago reconhecimento aquelas são outras pessoas e aquele junto deles é um outro alguém.
— Jovem Mestre, algo lhe preocupa? – perguntou o mordomo, interrompendo seus pensamentos. – A carruagem está pronta.
Os olhos do mordomo espiavam com interesse aparente, seu sorriso era cordial e tranquilizador.
— Estou bem, só estou... Distraído. É tudo. – Encarou o mordomo e respondeu por fim, deixando escapar um suspiro de cansaço.
Sebastian acenou com a cabeça, curvando-se suavemente enquanto abria a porta para o menino. Como o mordomo desta vez atuaria como cocheiro, seu mestre ficaria sozinho e perdido em seus pensamentos durante toda a longa viagem até a cena do crime, situada no centro londrino. Desde o evento do escritório estava mais do que claro que seu discurso havia abalado seriamente a estabilidade e a serenidade da mente do menino.
— Perdoe-me, jovem mestre, porém, imagino que esteja ciente das limitações deste transporte e do tempo que levará para alcançarmos a cidade.
— Sei disso muito bem, Sebastian. Não é a primeira vez que vamos a Londres, caso tenha se esquecido. É bem simples: Apresse-se e chegaremos mais rápido.
— Como quiser. – disse Sebastian, meneando a cabeça.
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Zombar de um demônio que se apegava a quaisquer valores morais humanos lhe trazia tanto satisfação quanto asco. As noções de humanidade e os ideais infantis que a criança estimava apodreciam muito em breve, e o único lugar que as aceitaria seria o esgoto. O fato de agora estar preso por pacto a uma criatura semi-imortal era o acontecimento mais inconveniente dos últimos séculos, e Sebastian precisava manter a criança onde queria.
O homem caminhou para seu posto, o assento de cocheiro na parte da frente do veículo, e tomou as rédeas dos cavalos, incentivando-os a acelerar gradualmente. Sua mente estava limpa como o céu. A inspeção na área do crime seria rotineira e seus frutos, previsíveis. Mesmo durante o conflito com a casa Trancy, Sebastian havia sentido a estranha movimentação sobrenatural, mas somente na noite passada fora capaz de precisar a fonte de tal inquietação. Por outro lado, para o ilustre passageiro, a viagem seria bem diferente.
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As maquinações e o ritmo das engrenagens mentais de Ciel cresciam a cada segundo, impulsionadas de instante em instante por novas ideias, sentimentos tempestuosos e o ruído ensurdecedor do sangue pulsando em suas têmporas. Embora vez ou outra Sebastian se demonstrasse solicito, cada interação com o mordomo instalava uma peça a mais ao sistema que o sufocava. Em breve tudo entraria em colapso quando a velocidade das engrenagens conflituosas chegasse a um nível insuportável e eclodisse na corrosão de sua mente.
"O que eu nego ter me tornado...? Achei que compreendia tudo o que significava ser um demônio, mas o que é isso, além? Sebastian estava certo tanto a respeito das roupas quanto da carruagem, não necessito de ambos... As vestes seriam meros disfarces, e a carruagem apenas um empecilho quando posso me locomover mais rápido que isto. Ainda assim, uso ambos não como forma de disfarçar minha enfadonha transformação, mas sim como negação interna do meu próprio eu... Após ter atingido minhas ambições – mais de uma vez – Ciel Phantomhive deveria ser livre, maldição! "
Suas mãos apertavam com força as pernas, embora o fizesse controladamente, por mais que sua raiva lhe mandasse fazer justamente o contrário como se quisesse a dor para lhe tirar do inferno. Acabou por esmurrar a porta.
"Sei que ao fim deste último caso serei forçado a ser livre, abandonar tudo, quaisquer laços, títulos, deveres... Mas, ser forçado a ser livre realmente é a liberdade que eu desejava? Não era isso que eu queria. Durante o duelo de Sebastian e o mordomo dos Trancy, percebi o quão dignos de pena são os demônios, lutando desesperadamente por uma alma que nunca terão de verdade. Agora sou um deles, mas ao mesmo tempo, um humano que nunca saberá o que é completamente a humanidade! Não tenho o direito ao descanso eterno e tampouco ser como eles, contentando-se almas, sofrimento e pactos manipuladores!"
Desgostoso, virou-se num impulso preparando-se para golpear novamente a carruagem. Constatou alarmado, porém, o estrago feito por seu soco anterior, que julgara controlado. A espessa madeira da porta havia envergado assustadoramente para fora, como a espinha grotescamente deslocada e exposta de uma vitima de atropelamento de cavalos.
No mais, algo lhe impressionou mais do que a madeira destroçada. Era sua mão. Não havia qualquer tipo de corte, hematoma, ou até mesmo minúscula sensação de agulhas de dor penetrando sua carne através da pele. – Ótimo. – massageou as têmporas, frustrado. – Agora perco até meu direito de sentir dor. Espero que, dormir um pouco me faça passar sobre esta provação mais rapidamente. — Murmurou, recostando-se de forma que lhe agradasse sobre as acolchoadas acomodações da carruagem, e em pouco tempo já havia comprado seu bilhete e feito entrada no expresso rumo ao Reino dos Sonhos. A paisagem que lhe aguardava pelo trajeto, porém... Não era das melhores.
Um pesadelo agonizante e aparentemente sem fim era tudo que lhe aguardava. Em seu mau sonho se encontrava sentado numa cadeira extremamente semelhante a um trono de prata ricamente decorado por intrincados padrões de arabescos azulados, em meio a muitas outras poltronas – todas estas, vulgares – no que parecia ser um teatro. Estar ali lhe dava uma sensação de poder que preenchia e inundava cada fibra do seu ser. Observou suas mãos, constatando a normalidade de sua pele e suas unhas. Notou também suas roupas – estava vestindo as melhores roupas que já tocaram seu corpo, dignas de um soberano incontestável, uma majestade imperial.
Virando-se para a direita, admirou-se. Finalmente percebeu a presença de um trono semelhante ao seu, porém, dourado e elevado num patamar muitíssimo mais alto. De forma estranha, por mais que estivesse vazio — e além da cor e altura, fosse idêntico ao seu – o trono resplandecia de forma singular, emanando uma aura incrível, pertencente de um rei infinitamente mais digno do que Ciel Phantomhive. Levantou-se, observando o restante do teatro, até que uma sinistra e grave voz recitou uma série de versos enquanto as cortinas do palco abriam-se e marcavam o início da peça.
“Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.”
Ao fim da última palavra do último verso e ao abrir definitivo das cortinas, Ciel percebeu que o palco parecia muito mais realista, tendo um aspecto de uma enorme tela negra. Em fração de segundos, olhos enormes e espectrais se abriam no que parecia ser o fundo da tela – bilhas tão familiares e tão desconhecidas ao mesmo tempo. Sua expressão continha e era capaz de transmitir tamanha suavidade e opressão simultâneas que as emoções vulcânicas e paradoxais desencadeadas por seu vislumbre podiam levar uma mente frágil ao colapso instantâneo, despedaçando toda sua psique.
Com o erguer de suas pestanas o menino foi lançado em velocidade absurda contra seu trono, enquanto diversas silhuetas lhe prendiam ao espaldar com dedos que penetravam sua carne como pinças. Dentre eles, podia ver Ângela segurando fortemente seu pescoço, a força era tamanha que qualquer movimento poderia enforcá-lo ou degolá-lo; aos seus pés, Madame Red e Vossa Majestade, a Rainha, estavam sentadas ao chão, esmagando suas pernas e triturando seus ossos. Por uma fração de segundos, pensou ter seus braços livres, até que surgiram das trevas seus pais, sorrindo para o menino e atravessando suas mãos com as terríveis garras alongadas que faziam passar por dedos sem nenhum indicio da delicadeza terna de anos atrás. Todo seu corpo queimava com dor lancinante e de seus ferimentos o sangue jorrava, manchando e arruinando suas vestes reais. Não possuía sequer milímetros para se mover.
— “É só isto, e nada mais.” – Recitaram todos em uníssono.
“Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu queria a madrugada, toda a noite aos livros dada
Pra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais –
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,”
A mesma voz de antes prosseguiu enquanto a tela fazia desaparecer o par de orbes colossais estampados que olhavam para os abismos gélidos de sua alma. Um cemitério surgia. Era enorme, talvez o maior cemitério que já havia visto em toda a vida. A semelhança que dividia com um deserto cinzento era inegável. O céu era totalmente encoberto e com grande número de tumbas – muitas delas possuíam nomes que lhe eram familiares, enquanto muitas outras possuíam nomes que, por algum motivo, não conseguia sequer ler ou manter em mente por mais que alguns segundos.
— “Mas sem nome aqui jamais!” – Exclamou repentinamente o coral, assustando Ciel, que por impulso observava seus captores.
Ao observar a face de sua mãe, testemunhou emudecido como sua pele lentamente se acinzentava e se rompia em diversos pontos, deixando amostra a carne podre, como seus cabelos caíam e criavam mofo, como seus olhos tornavam-se vazios e leitosos. Olhando aterrorizado para os outros constatou o mesmo e logo pode sentir o cheiro fétido da decomposição e o perfume da morte no ar. Conforme suava frio observando todos aqueles que uma vez estiveram vivos o prenderem àquele trono, a voz tornou a recitar os versos.
“Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.”
As surpresas não cessavam, e desta vez o menino viu chamas negras tomarem conta da tela. A medida que o fogo subia pelas cortinas, ele exibia formas sinistras que não faziam o mínimo sentido para uma mente sã, mas que para ele, pareciam perturbadoramente significantes e penetrantes. Era como se os olhos houvessem de fato, olhado no fundo de sua alma e agora o fogo criasse projeções insanas das sombras do seu medo que não respeitavam formas sequer possíveis na realidade. Suas dimensões eram absurdas e simplesmente indescritíveis, impalpáveis, e o conduziam ao ápice do terror, queimando-lhe o peito e entorpecendo seu corpo.
As chamas repentinamente passaram a se concentrar num ponto único, como um tornado de labaredas. As cortinas cujos panos haviam sido totalmente consumidos exibiam bizarras e disformes armações negras que pareciam derramar uma espécie de líquido da mesma cor, como se fossem ossos ou asas que se estendiam majestosamente para os lados arrastando em direção ao chão de forma depravada. Cada linha que compunha a estrutura de tais armações tinha aspecto repugnante, como se fosse feita dos ossos negros de alguma criatura não pertencente ao mundo humano.
— “É só isto, e nada mais.” — Desta vez, era como um coral de sopranos recitando o verso.
“E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.”
O tornado de chamas negras finalmente se consolidou. O processo foi hediondo, lançando labaredas e longas línguas de fogo negro para todas as partes do teatro, enquanto um ensurdecedor som de palmas vinha de todas as poltronas vazias do teatro. Ao desviar o olhar para elas, percebeu que agora todas estavam em péssimo estado, em contraste como estavam antes. – “Noite, noite e nada mais.”
Ao invés de ser recitado pelo coral de seus fantasmas novamente, desta vez era recitado por uma voz gutural distante, familiar, mas extremamente distorcida. O som aumentava, cada vez mais se distorcendo de forma sinistra e dissonante, como um gramofone quebrado.
— Ciel. – Chamou calmamente a voz.
O menino procurou a origem do som, observando toda imensidão do teatro e vislumbrou um trono da mesma altura daquele dourado, porém tão negro quanto a noite. Tinha aspecto vil, e não parecia ter uma textura definida, quase como se fosse feito de chamas. Ao topo dele, uma figura completamente negra, com longos e lisos cabelos, acomodava-se excentricamente. A única parte que lhe era plenamente visível eram seus olhos, idênticos aos que apareceram ao som da primeira estrofe. Imponente, a figura citou:
“A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.“
A figura estalou seus longos dedos, calando as palmas e fazendo com que seu estalo ecoasse por todo o salão: – “Isso só e nada mais.”
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