The Bet (JPLE)
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Notas iniciais
Por Lílian Evans
James saiu e eu fiquei ali, parada. As lágrimas ainda escorriam pelo meu rosto, meu coração afundando em uma tristeza profunda.
Então eu fui atrás dele. Fui até o hall de entrada, mas mãos me seguraram, impedindo-me de seguir em frente. Me debati contra ele, esperando que me deixasse ir atrás de James. Eu precisava ir atrás dele. Eu não podia deixá-lo ir.
– Me solta! Me solta – gritei em desespero, mas as mãos de Severus ainda me segurava.
– Lily, você ainda está nua – disse ele suavemente.
Eu parei e olhei para trás, para Severus e me soltei à força.
– Vire-se – mandei e ele continuou a me olhar. – Vire-se... agora.
– Lil's... – ele suspirou, mas se virou enquanto eu me enrolava na manta que cobria o sofá.
Assim que eu estava "apresentável", mirei as costas dele, não o conhecendo mais. Eu não sabia mais quem era Severus Snape. Eu não sabia desde o dia em que ele partira.
– O que está fazendo aqui, Severus? – perguntei e ele se virou novamente para me ver.
– Ora, o que você acha? Eu voltei para a minha namorada – respondeu ele de forma amarga. Mas eu garanto que quem estava amarga era eu. – Mas vejo que você esteve muito ocupada – terminou ele com desdém. – Como pôde?
Eu balancei a cabeça, rindo com sarcasmo e descrença. Ele não estava falando sério.
– Como eu pude? Como eu pude? – repeti, enfatizando a pergunta. – Eu realmente não acredito que você está me fazendo essa pergunta. – Virei-me de costas, a raiva, a mágoa e a tristeza tornando-se uma só. Um peso que eu vinha carregando durante dois anos e meio. – Quem deveria fazer essa pergunta era você para si mesmo – voltei a encará-lo, apontando um dedo para seu peito. – Como você pôde?!
– Não me venha com essa conversa, Lílian! – o tom da voz dele aumentou e aquilo só alimentou o monstro dentro de mim. – Você era quem estava me traindo! Olhe para você. Nua e... – Severus balançou a cabeça. – Você me traiu, Lily.
– Mas você me traiu primeiro, Severus!
– Eu nunca dormi...
– Não se trata de dormir com outra – eu o interrompi e ele me olhou. – Você me traiu quando me abandonou aqui para viver sua aventura fantasiosa! Deixou-me sozinha. Deixou-me vazia.
– E por isso você saiu transando com qualquer um?! – Severus gritou, abanando a mão para a porta. – Com James Potter?
– Eu não transei com qualquer um – corrigi, com nojo do modo como ele falara de James. – Eu estava carente e sozinha. James apareceu e eu nem sequer gostava dele. Na verdade, eu o odiava. Foi questão de confiança e tempo; ele me conquistou aos poucos. Não consegui evitar – eu olhei bem em seus olhos escuros. – Sabe quantos dias eu esperei você me ligar? Pelo menos para saber se você estava vivo? Mas você parecia estar se divertindo tanto que nem se incomodou com a idiota aqui!
Severus deu um passo para frente, tentando me alcançar, mas eu recuei. Não queria respirar mais o mesmo ar que ele.
– Se sentia tão sozinha assim, por que não foi comigo? Por que não foi comigo quando eu parti?
– Olha com quem você viajou, Severus... Mulciber e Lucius Malfoy? Os homens que estragaram vidas de dezenas de pessoas e usam o dinheiro que roubaram para viagens como essa?! – Respondi, decepcionada. – Eu não podia ir a lugar nenhum com eles. Aceite, você me trocou por ladrões.
Severus ficou calado por alguns segundos, apenas me olhando.
– Se pudesse escolher, teria me escolhido? – perguntei, encarando-o. – Teria ficado?
– Claro que teria ficado — respondeu de pronto, mas eu balancei a cabeça. – Não houve um só dia em que eu não pensasse em você.
Meus olhos já marejavam novamente, porque eu acreditava nele. Entretanto, não dava para mudar o passado e as escolhas que ele fizera o tornaram quem ele era agora. E meu amor por ele não existia mais.
– Então por que você foi?
Severus não respondeu. Não havia resposta para aquela pergunta. Ele podia me amar, mas eu nunca fui sua primeira escolha. Ele ficara encantado com a possibilidade de ser reconhecido, mesmo eu sempre tendo visto o seu potencial. Eu sempre vira o melhor nele, mas ele não me viu. Severus sabia disso agora e por isso havia voltado.
Olhei para o outro lado, para longe dele.
– Vá embora, Severus – pedi, ainda sem olhá-lo. – Não volte mais.
Eu o ouvi arrastar suas malas e depois deixar as chaves em cima da mesinha que havia no hall. A porta se abriu, mas eu não o ouvi sair.
– Uma pergunta, antes de ir – eu não disse nada, mas ele sabia que eu o estava ouvindo. – Por que... por que ele? Você acha que ele a ama? Por que se importa?
– Porque eu... eu o amo. E estou grávida dele. – Fiz uma pausa. – Eu estou esperando um bebê de James Potter.
Severus ficou em silêncio. Eu sabia que ele não havia ido, pois não houve barulho da porta.
– Eu sempre amarei você, Lily – disse por fim e depois a porta fechou-se.
Não consegui conter e desabei no chão da sala. Segurei meu ventre, a tristeza me invadindo de tal modo, que eu não conseguia respirar. Lágrimas manchavam a manta do sofá e lavavam meu rosto. James tinha de saber que eu estava grávida.
(...)
Lene me encontrou enroscada no sofá ainda apenas de manta. Eu segurava a minha barriga, sabendo que ele ou ela estava lá, crescendo. Meu pequeno bebezinho.
– Lil's...
Ela foi cautelosa ao dizer meu nome. Eu precisava contar a ela; era injusto que Severus soubesse antes que ela.
– Eu estou grávida de James – murmurei quando ela de abaixou à minha frente. – E ele nem ao menos sabe. Foi embora. – Eu levantei meu olhar para encarar a minha amiga, as lágrimas já escorrendo novamente pelo meu rosto. – Estou quebrada, Lene.
– Eu não sei o que dizer, Lily – disse minha amiga, digerindo o que eu acabara de falar. – Pela primeira vez, eu não sei.
– Eu ia contar para ele. Explicar o que aconteceu com Severus e que eu estou grávida... mas não importa mais.
Lene estendeu a mão e enxugou a lágrima que ia cair dos meus olhos.
– Claro que importa – rebateu Lene. – James está errado nessa história também! Ou você esqueceu da aposta e todo o resto? Ele nunca foi um santo, Lily. Erros, erros... todos nós cometemos erros em nossas vidas. James não pensou direito.
– Eu também não pensei, sabe – eu me levantei, segurando a manta ao corpo. – Severus ficou tanto tempo fora... eu já considerava nosso namoro terminado. Talvez eu não quisesse me lembrar dele, que ele fora alguém que há muito eu conheci e que agora só passa de uma lembrança borrada. Quando Severus saiu por aquela porta, dois anos atrás, tudo o que a gente tinha, planos, metas... foi esquecido. E, um ano depois, James apareceu. Tão idiota e convencido e inconveniente... Quem era Severus perto dele? – balancei a cabeça, não terminando minha linha de raciocínio.
Lene ficou em silêncio, me observando. Eu não sabia mais o que dizer; acho que ela estava tão preocupada comigo, que esqueceu de ficar surpresa por eu estar grávida.
– Você tem que tomar um banho – disse Marlene por fim. – Sei que está nua aí embaixo.
Eu dei um sorrisinho e me levantei. Lene me ajudou a subir as escadas, pois eu estava sem forças. Amar era uma coisa estranha... e sentir a dor do amor era quase insuportável. Eu não queria amar, mas agora eu amava dois.
Lene me colocou no banheiro e foi buscar roupas limpas para mim. Entrei no chuveiro e abri a torneira, deixando a água escorrer pelo meu corpo. Molhei os cabelos e acariciei minha barriga... ainda estava normal, lisa, apenas com um traço de diferença que apenas eu notava.
Eu amava aquele bebê que estava dentro de mim. Não sabia como ele era nem o que ele seria — menino ou menina. Apenas sabia que eu já o amava e o amava ainda mais por ser filho de James Potter. Aquela quase declaração que ele fizera antes de tudo ruir, quase me fizera desistir daquela aposta ridícula, dizer à ele que tudo aquilo era uma tremenda idiotice. Mas ele não deixara e a culpa era dele.
A culpa sempre era do Potter.
Lene entrou no banheiro e pousou minhas roupas em cima do vaso sanitário fechado. Ela olhou de relance para mim e eu soube que ela me vira olhando para minha própria barriga, com as mãos pousadas nela. Mas foi apenas por dois segundos e, depois, minha amiga saiu, dando-me um tempo com o meu filho.
(...)
– Quantas semanas? – perguntou Dorcas levemente, como se fosse acordar o bebê, com a mão pousada em minha barriga.
– Uma, talvez duas – respondi no mesmo tom de voz. – Não sei exatamente. Quando eu fui ao médico, eu estava com cinco dias... é tão estranho.
– O que vai fazer? – perguntou mais uma vez, depois de algum tempo em silêncio.
– James não atende o telefone e nem chega perto de mim quando estamos no colégio – suspirei, virando me de lado, para encarar Dorcas. – Isso está acabando comigo, Dorcas. E eu estou tentando não desmoronar por causa do bebê.
Dorcas suspirou e se ajeitou em minha cama também. Lene ainda não havia chegado do escritório e Dorcas conseguira tirar uma folga para me visitar. Era bem melhor assim.
– Remus deve estar com raiva de mim, não é?
Dorcas me olhou, como se eu tivesse duvidando de seu próprio caráter. Depois, ao ver algo em minha expressão, suavizou o olhar.
– No início, sim. Ora, qual amigo não ficaria? – ela revirou os olhos. – Mas Remus não é de ficar julgando as pessoas antes de saber o que realmente aconteceu, portanto, não. Remus não está com raiva de você.
– Sirius está.
– Sirius enfiou a cabeça dentro de um balde aos 21 anos. Ele é um idiota – respondeu Dorcas e eu dei uma risadinha. – Mas ele vai perceber que está errado... afinal, temos Marlene.
– Não sei como ele não ficou irritado com ela... – suspirei. – Ela sabia do Snape o tempo todo.
Dorcas deu de ombros.
– Você ficou ao lado dele quando ele mais precisou... Sirius vai entender. – Ela fez uma pausa. – E o caso de Marlene, bem, se ele fizer alguma bobeira, pode perdê-la.
Ficamos em silêncio, a mão de Dorcas ainda pousada em minha barriga, cada uma presa no próprio pensamento. Minha amiga fazia carinho sem nem mesmo prestar atenção.
Não sei por quanto tempo ficamos assim. Talvez tenhamos até dormido, quando ouvimos a porta lá de baixo bater e vozes preencher minha casa, ficando cada vez mais altas e exaltadas. Fiquei ainda mais triste ao perceber que nenhuma daquelas vozes pertencia à James Potter.
A porta do meu quarto foi aberta, fazendo eu e Dorcas levantarmos depressa. Senti tontura, mas consegui controlar o enjoo. Precisava saber quem entrara bruscamente em minha casa.
– É verdade? É verdade? – vi Sirius parado no batente na porta do meu quarto.
– O que é verdade, Sirius? – perguntei, cansada.
– Você carrega um mini veadinho no seu ventre?!
Eu sorri. Sirius e sua mania de apelidar as coisas.
– Não mentiria sobre isso – respondi.
Sirius abriu a boca, depois fechou-a. Ele olhou para Marlene, para Dorcas e para mim. Eu já estava começando a achar que ele ia surtar e dizer que eu estava fazendo aquilo porque James havia ido embora.
Mas eu tirei isso do pensamento antes mesmo que aquilo me envenenasse. Eu não podia pensar aquilo dele.
Então Sirius pulou em minha cama, me abraçando forte. Percebendo que eu estava um pouco fraca, Sirius diminuiu a força do abraço para apenas um abraço reconfortante. Não consegui evitar e comecei a chorar.
Ele não soube o que fazer e pediu desculpas como se estivesse sendo condenado por fazer uma mulher grávida chorar. Entre soluços, eu consegui rir. Eu atirei meus braços em volta de seu pescoço e chorei e ri mais um pouco. Sirius ficou sem reação por alguns segundos, mas depois me envolveu novamente em um abraço.
– Ah, Evans... James tem que saber disso – ele disse e eu o afastei para olhá-lo.
– Você não vai contar – falei seriamente. Sirius me olhou como se eu estivesse louca.
– Tem probleminhas? É o meu afilhado de quem estamos falando. É um mini cervo que você tem aí dentro – rebateu ele, cruzando os braços. – Pela primeira vez, eu não vou me conter!
– E quando é que você se contém, Sirius? – perguntei e ele deu de ombros. – Mas não...
Não completei a frase. Remus apareceu na porta, ofegante. Nós o olhamos, mas ele mantinha os olhos em mim. Dei um pequeno sorriso e Remus se aproximou.
– Lene me contou...
– Mas essa Marlene não consegue manter a boca fechada – fingi reclamar, mas sorrisinho para a minha amiga, que deu de ombros. – Como entrou aqui?
Remus sentou-se na ponta da minha cama com delicadeza. Eu estava grávida, não morrendo, pelo amor de Deus.
– Eu sei onde fica a chave reserva – respondeu ele e eu sorri.
– Tenho que mudar de lugar essa chave – comentei e Lene me deu a língua.
– É verdade, então? James vai ter um pequeno cervo?
– Até você, Remus?! – exclamei e depois suspirei. – Sim, é verdade.
– Você tem que contar para ele – disse Remus e eu balancei a cabeça. – Ele tem que saber.
– Ele não vai me ouvir.
– Então a gente conta – Remus solucionou o problema.
– Não, quero que ele saiba por mim.
– Então estamos na merda – disse Marlene. – Você não quer contar, mas quer que ele saiba por você. Não sabia que gravidez afetava o raciocínio.
– Estou esperando a hora certa. James ainda está magoado, não vai me ouvir. Não quero que ele saiba desse jeito – expliquei, acariciando minha barriga. – Vou esperar.
Lene sentou-se ao meu lado.
– O caso é que vai ser difícil você esconder a barriga crescendo, amiga.
Eu fiquei em silêncio, olhando para o nada. Era óbvio que eu tinha que contar, mas eles não entendiam que eu não queria que James ficasse comigo por obrigação. Queria que ele voltasse para mim, sem que nada o pressionasse para isso.
– Agora não. Vou esperar até que ele se acalme. Não contem nada, ouviram bem? – eu olhei para cada um deles ali seriamente. Meus amigos assentiram e eu relaxei. – Vão ficar aqui mesmo?
Sirius, que não era abusado nem nada, esparramou-se ao meu lado, afastando Dorcas para a ponta da cama e começou a fazer carinho em minha barriga. Eu ri e balancei a cabeça. Remus pegou Dorcas no colo e aninhou-se com ela aos meus pés, enquanto Lene deitava-se do meu outro lado, de modo que eu fiquei entre Sirius e ela.
– E o James, rapazes?
– Ele vive um pouquinho sem nós – respondeu Remus.
– E, além disso, ficar muito com o nosso namorado é um pouco sufocante – acrescentou Sirius e eu gargalhei. – Precisamos sentir falta dele.
– Você é estranho, Sirius. — Comentei e ele deu de ombros, sem tirar as mãos da minha barriga.
Suspirei e deitei-me no travesseiro, com meus amigos embolados em minha cama, relaxada. Com eles ali, tudo ficava mais fácil de lidar.
Agora eu só precisava me acalmar até que James estivesse pronto para me ouvir novamente. Eu e ele tínhamos assuntos inacabados.
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