The Best Job
24 Momentos ruins

Padomi era uma excelente atiradora, e todos diziam-na que, se quisesse, poderia atirar em qualquer pessoa mesmo se estivesse a quilômetros de distância. Tinha habilidade de manejar desde uma simples pistola Taurus TH9 até um Fuzil Barrett modelo M82. E, por mais que não estivesse tão distante assim daquela que nomeou como “Phascorlactos”, — nome científico do Coala — desejou fortemente ter essa arma em mãos para explodir a cabeça dela.
Talvez soasse um tanto violento, mas era uma verdade que fazia parte de seus desejos mais profundos.. Não era nem um pouco justo que Sabo tivesse gostado tanto assim do simples bolo de morango que a professora de karatê fizera, já que o que Padomi preparara com tanto empenho era obviamente muito melhor! Ela sim havia feito um bolo com tudo certinho, utilizando açúcar ao invés de sal. Se Koala não sabia a diferença entre o açúcar e o sal não era problema de Padomi, era culpa da própria incompetência dela.
— Ele vai amar o meu mais ainda… — murmurou para si mesma, em meio a todo o barulho que os outros revolucionários faziam. — Sabo-san, agora que já terminou, pode provar o meu! Eu segui a receita certinho, e ainda provei para checar se estava tudo certo! — garantiu Padomi, se aproximando de Sabo empurrando o bolo de Koala para longe dele.
— Eu não tinha terminado… — Sabo disse com uma gota escorrendo na testa, mas a adolescente apenas ignorou.
— Parece um tipo de bolo que o Rokka faria. — comentou Koala, olhando de canto para o bolo da outra. Padomi captou logo a mensagem: Koala insinuava que a garota poderia ter pedido à Rokka que preparasse o bolo em seu lugar.
— Fui eu quem fiz, Phascorlactos. — Padomi rosnou, olhando com raiva para a outra. Ao virar-se novamente para o loiro, num passe de mágica, já estava feliz e sorridente novamente. — eu corto para você, Sabo-san!
Padomi pegou um prato qualquer da mesa, e cuidadosamente cortou um pedaço bem grande para Sabo, que parecia um tanto indiferente sobre comer ou não. De fato, o bolo dela parecia estar bem gostoso, mas ele não era o maior fã de chocolate – coisa que, no bolo dela, tinha aos montes. Mas tudo bem, Padomi era sua amiga e teria que comer com todo o prazer do mundo.
Ao mirar bem o pedaço de bolo, algo chamou-lhe atenção no recheio.
— Padomi… Isso é amendoim? — Sabo indagou para ela, que assentiu, ainda extremamente feliz. Pensou por uns instantes, cogitou sobre uma rota de fuga para a situação, mas ao se ver em um beco sem saída resolveu ser simples e direto. — eu não posso comer isso.
A decepção era visível no rosto da atiradora, que rapidamente descruzou os braços.
— O que?! Mas por que?! Eu lhe garanto que vai gostar, Sabo-san!
— É por causa do amendoim. — explicou Koala, aproximando-se mais dos dois. — Sabo-kun é alérgico a amendoim, não sabia?
Por que?
Por que Koala sabia, e ela não?
Conhecia Sabo há quatro anos, e lhe parecia tempo suficiente para conhecer bem uma pessoa. Seus costumes, seus gostos, manias e desejos. Sabia que ele tinha insônia, dor nas costas, diversas cicatrizes e sabia até o tipo preferido de cueca que usava. Mas como ela poderia não saber de algo tão básico como alergia e Koala, que chegara há poucos meses, sim?
Koala a olhava com pena, e a raiva tomou conta de Padomi ao notá-la. Tinha raiva de toda aquela situação, e se não estivessem ali no meio de todo mundo, no aniversário de seu futuro marido, pularia no pescoço dela e a mataria asfixiada. Seu forte podia não ser combate corpo a corpo, mas tinha habilidade suficientes para dar um fim na existência da mulher com nome de animal.
— Não sabia. — ela respondeu engolindo seco.
Rokka observava um pouco de longe. Inicialmente, ia brigar com ela pois ele haviam mandado-a cuidar de Nina e Marion. Entretanto, se pegara preocupado sobre o que Padomi faria. Cuidara da garota a vida toda, e sabia do que ela era capaz quando se tratava de Sabo. Ela levava muito a sério essa história de fazer doces para o loiro, e logo logo daria um show de infantilidade pelo conselheiro não poder comer o bolo feito por ela.
— A gente pode comer? — Shin e Aurora devoravam o bolo com os olhos, parecendo doidos para provar. A vontade da garota com orelhas de lobo era de quebrar o bolo inteiro e jogar no lixo, mas mesmo ainda abalada não podia perder a compostura e agir assim na frente de Sabo.
— Pode. — afirmou com pesar, sem nenhuma expressão.
Rock, que estava junto de Shin e Aurora, reparou bem nisso. Padomi sempre deixava bem claro por suas expressões que sentimento tinha, e naquele momento era impossível decifrar a garota.
Sem mais nem menos, ela saiu dali.
(…)
Depois de horas dormindo ao lado de Nina, Marion acordou. Ainda estava sonolento. Sentou-se na cama, e coçou bem os olhos tentando reconhecer o local. Era seu quarto, – e de todos os outros – e dormia em um horário que não lhe era cotidiano, provavelmente fora isso que causara tamanho estranhamento.
A garotinha de cabelos róseos não parecia estar dormindo bem. Sua respiração estava descompassada, suava muito e suas bochechas estavam muito vermelhas. O que deveria fazer? Deveria acordá-la? Tinha apenas 5 anos incompletos, e já estava nervoso sobre como proceder. Olhou para o relógio de parede, e marcava 11 horas da noite. Onde estavam Tora, Padomi, Rock, Aurora. Shin e principalmente Rokka? Precisava de ajuda.
Decidiu tentar acordar a amiga, e a sacudiu até que ela abrira os olhos. Foi um instante de felicidade para o pequeno azulado, até que Nina o mirara como se não o reconhecesse.
— Marion. — disse apontando para si mesmo, como se se apresentasse.
Nina respirava com dificuldade, e não parecia estar raciocinando plenamente. Ela olhava para o amigo, estava acordada, mas é como se não estivesse realmente ali. Já havia estado doente antes, mas naquela proporção, nunca. Pensando nisso, Marion pulou da cama e tentara abrir a porta para procurar por Rokka.
Trancada.
Batera na porta diversas vezes, mas ninguém ouvia ou passava no corredor. Tentara gritar, mas assim como simplesmente não conseguia falar bem, não conseguia gritar. Olhou para Nina novamente, e ela continuava lá, estática, olhando para o ponto fixo onde antes ele estava.
Desesperado, mexera na gaveta do criado mudo de Padomi. Podia não conseguir gritar, mas se jogasse vários papéis por debaixo da porta escrito “socorro” o primeiro que passasse ali estranharia. Pelo menos, era o que se forçava a acreditar. Depois de procurar em três gavetas, finalmente, achara as folhas de papel que Padomi guardava. Era, enfim, a sorte do lado dele.
Olhou para baixo ao ouvir algo cair da gaveta quando puxou algumas folhas. Padomi não gostava que mexessem em suas coisas, e não podia deixar nada jogado no chão. Logo, pegou a tal coisa, e ao tocá-la pegou-se curioso. Era um saquinho pequeno, transparente, com um pózinho extremamente fino de cor branca. O que era aquilo? Por que estava nas coisas de Padomi?
— O que você está fazendo? — ouviu uma voz atrás dele, e ao se virar para ver, viu Padomi. Não era Rokka, mas pelo menos já era alguém mais velho aparecendo para ajudar. Seus olhos se iluminaram e animadamente aproximou-se da garota e gesticulou para que ela olhasse para Nina.
Mas ela não olhou, passou por ele com muito mais raiva de que de costume e catara o saquinho com conteúdo suspeito.
— Por que estava mexendo nas minhas coisas? — ela indagou com a voz assustadora. — por que estava com isso nas mãos?
— Nina! Nina! — Marion apontava desesperado para a amiga, que ainda estava lá, estática.
— Da próxima vez que eu ver você ou qualquer uma outra criança mexendo nas minhas coisas vocês vão ver, eu já tive um dia péssimo tendo que aturar… — Padomi falava enquanto olhava lentamente para onde Marion indicava desesperadamente.
Seus olhos se arregalaram ao ver como Nina estava na cama. Agora entendia a aflição de Marion.
Nina estava tendo uma convulsão.
(…)
Após inúmero pedidos insistentes de Koala, Tamura finalmente cedera à pressão da moça e aceitou tocar uma música no piano. Parecia ter dado certo para animar os outros revolucionários, que começavam a buscar seus instrumentos guardados e se juntaram ao jovem para tocar um repertório inteiro. A praticante de karatê havia descoberto, por meio de Sabo, que Tamura tocava piano maravilhosamente e ansiava pelo dia em que conseguiria ouví-lo tocar.
— Eles estão gostando, hein. — Koala comentou ao observar seus companheiros, já bêbados, dançando e cantando.
— Já está tarde, não me admira que eles estejam assim. Muitos deles são ex-piratas… Podem sair da pirataria, mas o espírito de pirata não sai deles. — brincou o aniversariante, após degustar um pouco do vinho que tinha em sua taça.
— Eu gosto da energia que os piratas têm. Passei um tempo em um navio com piratas e foi uma experiência muito importante pra mim. — Koala sorriu de forma nostálgica, lembrando-se de Tiger, Jimbei e os outros.
— É mesmo? Não faz muito o seu estilo. — Sabo estranhou. — você é tão certinha e organizada, não consigo imaginá-la com piratas.
— Existem piratas organizados, sabia?
— Pode até existir, mas tem que admitir que são uma bela minoria, não é mesmo? — Sabo arqueou as sobrancelhas em indagação.
— É, são sim. — ela se deu por vencida rindo depois de instantes pensativo. — acho que se eu criasse minha própria tripulação, só aceitaria no meu bando quem é bem limpinho.
— Se você criasse sua própria tripulação não duraria uma viagem.
— Por que? — exclamou ela.
— O mar costuma ser meio sujo. Assim que o navio começasse a navegar você iria querer parar tudo para limpá-lo. — Sabo soltou uma bela gargalhada.
— Nada a ver! — retrucou ela, puxando as bochechas de Sabo em contradição. — a parte fora do navio ser meio suja tudo bem, mas tripulantes que não tomam banho todo dia é inadmissível.
— Ihh… Já vi que eu não posso ser seu navegador. — Sabo fingiu-se desolado.
— Deixa de ser mentiroso, quando a gente dividia quarto você tomava banho todos os dias.
— Falou certo: “quando a gente dividia quarto”. — provocou ele.
— M-Mentira que você não toma banho todo dia. — Koala afastou-se ligeiramente dele, hesitante. Sabo tornou a rir, deixando Koala vermelha.
— Era brincadeira, eu tomo banho todo dia sim. — terminou de rir. — Tá aí mais uma coisa que temos em comum… Eu também demoro muito filosofando na banheira.
— Hm, então você reparava quanto tempo eu ficava na banheira? Ficava imaginando coisas pervertidas, por acaso? — Koala indagou à Sabo, de alguma forma, deixando o decote de sua blusa mais à mostra que o normal.
Na época, ele não pensava tantas coisas pervertidas em relação à Koala. Ela era sua melhor amiga e lhe parecia estranho pensar algo desse tipo. Mas agora, pelo menos em sua percepção, a relação deles estava diferente. Agora Koala parecia provocá-lo a todo momento – sendo propositalmente, como agora, ou não. — e tinha que ficar lutando contra os próprios instintos.
Deveria ter dado uma resposta à altura, mas Koala estava tão, mas tão sexy do ângulo que ele via, que o deixara sem fala.
— Hm? — Koala estranho ao vê-lo se levantar repentinamente e ir até Tamura. Ele cochichou algo no ouvido do esverdiado, que um tanto nervoso começara a tocar.
Ele começou a tocar uma melodia bem bonita, comum de se encontrar em bailes reais. Não estava entendendo muito bem o por quê de Sabo ter ido até o pianista para pedir que tocasse esse estilo de música em especial, mas ao vê-lo ir na direção dela e esticar a mão, entendeu tudo: ele a estava chamado para dançar.
— O que?! N-N-Nem pensar! — ela negava com as mãos freneticamente.
— Ora, vamos, vai ser divertido! — ele insistiu, puxando-a pela mão e fazendo-a ficar de pé – eu também não danço bem, mas vou fazer o meu melhor.
Meio hesitante, ela acabou por timidamente ceder-lhe a mão. Era seu aniversário ainda, e não podia lhe negar um pedido simples como aquele. Foram para o meio do salão, e começaram a dançar. Apesar de ter dito aquilo, Sabo dançava perfeitamente e não falhava na função de guiar a dama. Ele fora criado por nobres, de certo havia tido aulas de dança.
— Não olhe para seus pés. — explicou ele, levantando o queixo da outra com a mão direita . — mantenha sempre seu olhar na altura do meu.
Ele estava tão másculo dançando daquele jeito. Gostava de seu Sabo infantil e brincalhão, mas aquele maduro e calmo Sabo também não era nada ruim de vez em quando. Ele tinha um singelo sorriso, e a fazia imaginar sobre o que tanto parecia pensar.
Mal imaginava ela que ele em seus pensamentos apenas ela reinava. Ela estava lindíssima, com as bochechas levemente coradas. Koala não costumava ser tímida em sua presença, então provavelmente estava daquela forma pelo fato de vários de seus companheiros estarem assistindo-os.
— Eu tô indo bem? — ela perguntou.
— Está sim. — garantiu ele. — não pisou nos meus pés, é um bom sinal. — caçoou.
— Vou pisar de propósito agora. — Koala ameaçou de brincadeira.
E pelo resto da madrugada, Koala e Sabo seguiram conversando, sem saber que, cada um do seu modo, haviam conquistado um pouco mais um ao outro naquele dia.
(…)
— Isso é muito sério. — Iennifer dizia enquanto protegia a base da cabeça de Nina com suas mãos, na tentativa de evitar traumatismos pelos batimentos violentos. Ela estava tendo um ataque epiléptico e lateralizava suavemente sua cabeça a fim de evitar a bronco aspiração pela salivação excessiva.
Além de tudo, ela estava toda mijada e vomitada, o que só assustava visualmente todos os que estavam presentes. Iennifer, Liam e Rokka principalmente quase chorava de preocupação pelo estado da pequena.
— Como ela ficou assim?! — Rokka urrou, com raiva por não fazer nada.
— Você precisa se acalmar. — Liam segurava-o pelos braços, com medo de que ele pegasse na menina. — Rokka, se você se descontrolar não vai ajudar em nada!
Enquanto ele se acalmava aos poucos, Ienni e os outros dois enfermeiros faziam de tudo para melhorar o estado de Nina. Ela nunca havia tido nenhuma crise convulsiva, o que acabava por se tornar uma terrível novidade para Rokka. Quem havia estado com Nina pela última vez? Marion? Não adiantaria nada interrogá-lo, quanto mais se espera que Marion fale, menos ele consegue articular.
Padomi. Apenas ela saberia lhe dizer como aquilo havia começado, afinal, era ela que havia socorrido a criança naquela situação. Com as unhas quase furando sua mão de tão forte que cerrava os punhos, o cozinheiro saiu da enfermaria, encontrando Padomi sentada no chão do corredor, do lado de fora.
— Quem estava com ela quando isso aconteceu? Apenas Marion? — perguntou sombriamente. — eu havia dito que ela não estava bem, não foi?! Eu disse para você ficar com ela, não disse?! Por que não voltou direto pro quarto quando saiu da festa?!
— Como ousa colocar a culpa em mim?! — ela devolveu no mesmo tom, levantando-se. — você sabe que tem um tempão que ela não está bem, e nem por isso parou de trabalhar para olhá-la.
— Diferente de você… — ele se segurava para não perder o controle ali com a adolescente. — …o meu tipo de serviço não permite que eu passe muito tempo sem fazer nada. Se você, uma pirralha mimada não se dá ao trabalho de cuidar dela e sim de cuidar da vida do Sabo, SIM, EU POSSO TE CULPAR SIM. – ele gritara com ela como nunca havia feito antes, e isso fez Padomi hesitar um pouco.
— O que é? Vai dar pra implicar com isso agora? Eu apenas cuido do que é meu, isso não tem nada a ver com você!
— Olhe a pessoa que você se tornou… — Rokka olhou-a de cima a baixo, com desprezo. — o Sabo não é seu. Acorda.
Rokka virou-se e saiu pelo corredor pisando forte no chão. Ela não sabia onde ou com quem ele iria falar, e tinha certeza que mesmo se perguntasse ele não a diria. Ele tinha dito palavras duras como nunca havia feito, e acertaram em cheio.
Na época em que era escrava e aguardava para ser vendida, ficara sabendo que as garotas que eram compradas por seus senhores só se tornavam realmente deles após perder uma das coisas que mais as classificava como puras: a virgindade.
E talvez, só talvez, fosse isso que tivesse que fazer para ser completamente de Sabo.
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