The Best Job
32 Conselhos ao conselheiro

“Claro, irei fazer como o senhor quiser.”
Leroy ficou pálido. Como assim Koala aceitaria algum trabalho longe? Não sabia se deveria perguntar diretamente a ela, afinal, ficara escondido atrás da porta da sala de reuniões do navio 6, mesmo sabendo que era uma prática proibida – e que com certeza a mestre condenaria. —
— K-Koala-sensei! — ele a interceptou quando viu-a saindo da sala com um olhar determinado. — pra onde senhorita vai, se me permite perguntar?
— Irie-kun? — ela estranhou a presença do aluno ali. Olhou para um lado, depois para o outro, certificando-se de que não havia ninguém ali por perto. Em seguida, o puxou dali, levando-o para um corredor um pouco mais afastado. — eu vou fazer um trabalho recomendado pelo próprio Dragon-san.
— Pelo Dragon-san?! — não conseguiu esconder a surpresa. Quase nunca o líder agia tão diretamente. — e quanto tempo vai ficar fora?
— Não sei… Quero dizer, sinceramente, acho que não vou mais voltar pra antiga divisão.
— O que?
— Eu serei… Ahn… — Koala pareceu meio confusa sobre como explicar sua atual situação. — assistente do Conselheiro Sabo daqui em diante. Foi uma decisão de última hora, e não sei se é secreto, mas eu gostaria que você não comentasse com os outros que... (…)
Koala continuava tagarelando alguma coisa que Leroy, sinceramente, não fazia a mínima ideia do que era. Desde o momento em que ela contara que agora trabalharia em outra divisão e, ainda por cima, diretamente para o segundo em comando do Exército Revolucionário, sua mente inteira tornou-se completamente branca.
Mais uma vez… Seria afastado de uma pessoa importante em sua vida.
(…)
Leroy balançou de leve a cabeça, tentando afastar tais pensamentos. Passara dia após dia, desde sua despedida de Koala, remoendo-se por dentro desejando fazer os dias que passara treinando com sua instrutora voltassem. E que, assim como antes, achasse o karatê do tritão extremamente divertido.
Estava em cima do cavalo, rumo à nova base, usando a característica capa dos revolucionários para esconder sua identidade. A única que havia ali, além dele, era Padomi Ria, a garota responsável por ajudá-lo em seu último trabalho, mas velhos hábitos eram difíceis de quebrar. Não sentia nada em relação a ela: nem gostava, e nem desgostava, era apenas indiferente, então apenas conversavam o necessário, e só.
— Estamos chegando. — ele ouviu ela avisar, montada em cima de outro cavalo. Teve que resistir a vontade de responder que já sabia daquilo, mas segurou-se para evitar discussões. Não teria que ficar muito mais tempo na companhia dela mesmo, mas não queria transformar os últimos minutos nos mais estressantes, logo, apenas assentiu.
Viu de longe a pequena Nina caminhando em direção a nova base. Como deficiente auditivo, Leroy sempre se orgulhara de ter olhos perfeitos, e que conseguiam enxergar muito além de um olho normal. Ela estava acompanhada de dois adultos, que logo viu que eram Sabo e Koala.
Seu coração se aqueceu, abrindo um sorriso. Ele adorava encontrar Koala assim que chegasse, e adorava ser o primeiro que ela encontrava quando esta saía em missões. Assim que chegou, desceu do cavalo do modo mais belo que conseguiu, e marchou na direção da instrutora de karatê.
— É um prazer vê-las de novo. — ele cumprimentou as duas que estavam na frente. — especialmente você… — ajoelhou-se, pegando uma das mãos da mais velha e beijando-a, tentando ao máximo parecer cavalheiro. — …Srta. Koala.
Olhou para cima, esperando que sua ex-professora estivesse corada e um pouco tímida pela aproximação repentina dele. Ensaiara em sua cabeça o caminho todo como a cumprimentaria assim que a visse, não tinha como falhar.
— Irie-kun, que fofo. — ela usou a outra mãos para afagar os cabelos negros dele, dando uma leve risada. — muito educado da sua parte.
Leroy nunca se sentira mais idiota. Eles tinham a mesma idade, 22 anos, então por que, apesar de todo seu esforço, Koala insista em tratá-lo como um de seus alunos de nove anos de idade? Não era nenhum devasso, mas sabia bem que, se fizesse isso com qualquer outra garota, ela ficaria, nem que um pouco, envergonhada com o ato.
Já Sabo sentiu-se satisfeito, e lançou um olhar irônico para Leroy, segurando a risada.
— Oi Padomi!! — Nina gritou de repente, correndo na direção da moça que caminhava em direção ao estábulo, puxando o cavalo. — que saudade de você!
— Oi Nina. — ela sorriu desanimada, agachando-se na direção dela.. — por que você está de maiô?
— Estava matando aula. — a criança deu ombros. — no lago. — explicou.
— Sei. Inazuma-sensei vai puni-la depois, ele nunca deixa esse tipo de coisa passar.
— É verdade… — Nina refletiu com o rosto roxo de pavor.
Os três se aproximaram de Nina e Padomi, fazendo com que a mais velha desviasse sua atenção para eles. Uns segundos de silêncio se instalaram, até que Koala resolvera quebrar o gelo.
— Como foi a missão? — perguntou demonstrando um interesse sincero.
— Um pouco trabalhosa, mas obtivemos sucesso. — ela deu uma resposta rápida, desviando o olhar para o chão.
— Você passou bastante tempo fora. — comentou Sabo. — quanto tempo durou a viagem de vinda?
— Três dias. — Padomi massageou os próprios ombros, visivelmente cansada. — foi uma viagem estressante.
— Deve estar com fome. — Koala comentou simpática. — Vamos entrar, tenho certeza de que Rokka deve ter preparado algo delicioso que passamos…-
Ela se calou. Odiava-se por cometer essas faltas. Padomi e Rokka não tinham mais raiva um do outro, mas todos os revolucionários sabiam que a relação deles ainda permanecia bem estranha, e ambos ficavam desconfortáveis em falar um do outro. Portanto, não se surpreendeu ao ver o rosto de Padomi se transformar num misto de cansaço, frustração e sorriso forçado.
— Realmente. — Padomi disse de repente, após o silêncio constrangedor. — ele deve ter preparado algo delicioso.
(…)
— Lámen?
Rokka lançou um olhar frio para Leroy. Como cozinheiro, não gostava que desdenhassem de sua comida antes mesmo de prová-la, mesmo não sendo considerado o prato mais chique do mundo. Ninguém jamais reclamara de sua comida em todos os anos que assumira o posto, e não era agora que aceitaria críticas de alguém que chegara há um ano.
— Não estava com fome? Isso vai encher sua barriga e ainda é altamente nutritivo. Se não gosta, morre de fome. — Rokka terminou de servir os pratos dos três ali restantes, e entrou na cozinha com seu mau humor cotidiano. Ele até ouvira Leroy praguejar algo sobre como ele era grosso, mas resolver apenas ignorar e seguir seu caminho.
— O lámen do Rokka é ótimo, você que é fresco. — disparou Sabo partindo os hashis, verdadeiramente com raiva pelo amigo. — não precisamos de gente assim nos revolucionários.
— Sabo-kun! — Koala o advertiu. Não concordara com Leroy, mas Sabo também não precisava falar assim com ele. — tudo o que Rokka faz é extraordinário, Irie-kun. Prove e verá.
Leroy hesitou de início. Por algum motivo, Sabo sentiu que aquela aversão a lámen devia ter algum fundamento, mas decidiu não pensar muito a respeito. Então, após fitar Koala por alguns segundos, Leroy pareceu querer satisfazê-la e partiu os hashis, pegando um punhado de macarrão e soprando, provando de vagar para não queimar a língua.
Ele corou. O ex-aluno de Koala ficara com vergonha de ter sido preconceituoso. Aquilo era realmente uma delícia.
— Como sempre, você tem razão, Srta. Koala. — aproveitou a oportunidade para bajular Koala.
— Fico feliz que tenha gostado! — Koala sorriu em resposta.
Sabo se revoltou, por que ele, que defendia a comida do amigo, não recebera um sorriso, e sim uma advertência? Enquanto Leroy, mesmo sendo babaca – na visão dele. — recebera um sorriso aprovador de Koala? Aquela situação não era nem um pouco justa, e não faltava muito para estourar ali mesmo e se irritar de verdade.
Padomi aproveitou sua presença apagada na mesa para prestar mais atenção nas características de Leroy. Seus cabelos eram bem pretos, da mesma cor dos de Rokka. Porém, diferente do cozinheiro, os cabelos de Leroy eram curtos e um pouco espetados, com uma franja longa moldando o lado direito de seu rosto. Sua pele era levemente morena, provavelmente de sol, pensou. Seu nariz era longo e reto, de certa forma dando-lhe um charme, e seus olhos, apesar de parecerem pretos no escuro, tinham um tom verde-musgo curioso.
Iriel Leroy… Não se sabia muito sobre ele, apenas o que os outros comentavam. Padomi sabia que ele viera da divisão do exército Sul cujo Comandante Lindbergh era o responsável, e que era um espião de primeira classe. Além disso, sabia que ele era deficiente auditivo, e só conseguia escutar graças aos aparelhos esquisitos que carregava sempre em suas orelhas.
Mas afinal, o que ela fazia ali? Não tinha obrigação nenhuma de fazer uma refeição com aquele grupo estranho em que não estava inclusa.
— Você tá comendo bem, hein, Koala? — Sabo a tirou de seus pensamentos, lançando um comentário para a instrutora de karatê.
— Como?
— Quis dizer que está comendo muito.
Koala fitou o loiro por alguns segundos, assimilando o que ele dissera. Não entendia como ele conseguia simplesmente chamá-la de glutona e continuar sorrindo para ela como se tivesse dito que seu cabelo estava mais brilhoso que o normal.
— Desculpe-me se engordei, mas sou um ser humano. — resmungou irritada enquanto se levantava da cadeira, levando seu prato vazio até a cozinha.
— Hum. — Leroy se levantou logo depois, sorrindo presunçoso e olhando para Sabo de cima como quem fita um verme. — muito bom, continue assim. — ironizou, indo na mesma direção de Koala.
— Eu não quis dizer que ela engordou! Eu só disse que ela está comendo bem. Isso é bom, não é?! É importante se alimentar bem! — Sabo teve que se justificar com alguém, e como era a única na mesa ali com ele, obviamente Padomi fora a escolhida para ser a “vítima”. — é igual dizer para alguém: “nossa, você bebe muita água!” e esse alguém ficar ofendido por ser uma pessoa hidratada!
Padomi massageou as têmporas. Já terminara a refeição, e podia muito facilmente dizer que já estava indo e deixar Sabo angustiado sozinho. Mas sabia que não conseguiria fazer aquilo. Ela ainda era a boa e velha Padomi Ria, devota ao Conselheiro Sabo.
— Um homem não pode falar sobre o quanto uma mulher come. — esclareceu com a voz cansada. E estava mesmo. Não fazia nem duas horas que chegara de uma missão exaustiva. — é indelicado. Quase nunca soa como um elogio, por mais que você tenha tido a intenção de fazê-lo.
— Entendo… — assimilou. — então, o que eu deveria ter dito no lugar?
— Sendo sincera, nada. Se tivesse apenas comentado sobre como estava bom, teria ganhado uns pontos com ela assim como Leroy ganhou. — Padomi deu ombros, se levantando e pegando a tigela, fazendo menção de sair dali.
— Espera! — ele se levantou abruptamente, fazendo-a parar. — você entende de mulheres, não é?
— Bem, eu sou uma. — retrucou como se fosse óbvio. — agora, se me der licença… — ela se virou novamente, caminhando em direção a cozinha.
Sabo deu a volta na mesa rapidamente, acompanhando-a.
— Pois então! É perfeito! Você pode me ajudar a reconquistar Koala. Eu… Preciso de conselhos. — confessou-lhe claramente incomodado em tem que pedir ajuda, mas Padomi não desviou o olhar do caminho.
— Achei que o senhor fosse o conselheiro, Sabo-san. — ironizou. Sabo revirou os olhos.
— Eu sei, mas…-
O loiro parou de falar após entrar na cozinha e dar de cara com Rokka segurando uma moça pela cintura, com os rostos dos dois mais próximos que o apropriado.
Sabo olhou para Padomi que mirava a situação inexpressiva, apenas com as orelhas de lobo abaixadas.
O que diabos tinha acontecido ali?
(…)
Minutos antes, naquele mesmo dia, Rokka se encontrava especialmente de mau humor. Por algum motivo que desconhecia, sempre que sabia que Ria estava de volta no mesmo lugar que ele, sua irritante enxaqueca atacava e não o deixava se concentrar em fazer nada do que deveria.
— Esses sacos de arroz devem ir para a despensa, certo? — ouviu sua ajudante, Kirara, perguntar. Olhou em sua direção, apenas assentindo. Pensou em dizer que ele mesmo levaria os três sacos, que poderiam ser pesados para ela carregar, mas antes que dissesse qualquer coisa a moça pegou os três e os levou na maior facilidade.
Deixou escapar uma singela expressão de surpresa. Não sabia que a ajudante de cozinha era tão forte assim.
Ela não tinha a aparência de uma amazona, como seria de se esperar de uma mulher com tamanha força, mas sim uma estatura média, de provavelmente 1,58 metro de altura, braços finos, olhos alaranjados, cabelos loiros e curtos com uma franja em “v”, dando-lhe um ar mais infantil. Não teria como imaginar julgando pela aparência.
Tinha que pedir mudassem a função da garota, pensou bem. Ela lhe era útil, mas estava sendo desperdiçada ali com ele. Qualquer um poderia fazer o trabalho dela.
— Reparei que estamos com pouco macarrão. — Kirara comentou depois de sair da dispensa, com um semblante preocupado.
— Estamos em tempos difíceis, não é surpresa que a comida comece a faltar mais rápido. — respondeu. — o que temos que fazer é aproveitar ao máximo o que ainda temos da melhor forma possível. Dragon-san, Sabo e os outros vão precisar estar muito bem nutridos para encarar tudo que está por vir.
— Entendo… — a novata pareceu assimilar o que o chefe de cozinha dizia olhando-o como se fosse um sábio. — você é muito gentil, Rokka-san. — a afirmação da ajudante fez Rokka corar. Não esperava um elogio daqueles.
— Idiota, volte ao trabalho! — esbravejou na mesma hora, virando-se para a pia e tornando a lavar a louça.
Porém, sem querer, acabou esbarrando no detergente aberto, que despejou uma pequena quantidade de sabão no chão. Imediatamente pensou em pegar um pano e limpar, mas quando se virara na intenção de fazê-lo, viu Kirara distraída indo na direção dele.
— Rokka-san, devo ir até o…-
— Cuidado! O chão! — alertou virando-se de volta, mas fora tarde demais: Kirara pisara bem onde a pequena poça estava, e num rápido movimento, ele fora até ela e conseguira agarrá-la, impedindo que caísse no chão e se machucasse. — preste mais atenção, mulher! Podia ter batido e cabe-
Rokka parou de gritar ao ouvir o rangido da porta. Alguém estava ali.
E quando levantou o olhar, percebeu que era a pessoa que menos queria que o visse naquela situação, Padomi Ria.
(…)
PAFF!
A porta da cozinha fora chutada com toda a força por Padomi, e Sabo admirou-se pela menina meio-mink não tê-la quebrado. Após ver a cena um tanto inusitada de Rokka e Kirara, Padomi virou-se de costas e saiu de lá pisando forte, como se estivesse prestes a assassinar alguém.
O loiro pretendia perguntar aos dois o que aquilo significava, mas não podia simplesmente deixar Padomi ir embora assim sem terminar o assunto que tinham pendente. Logo, apenas apontou na direção onde a revolucionária saíra, indicando para Rokka e Kirara que iria atrás dela.
Quando finalmente a alcançou nos corredores, acompanhou-a com certa dificuldade.
— Pra onde você vai assim?! — Sabo indagou preocupado. Ela estava muito nervosa.
— Não interessa! — exclamou impaciente, apertando o passo.
— Claro que interessa, você vai acabar fazendo alguma besteira de cabeça quente!
— Sabo-san, por favor, me deixa em paz! — ela parou de repente, olhando nos olhos dele.
Então Sabo pôde reparar que ela não estava apenas com raiva. Dava para perceber a aflição, o medo e a frustração nas finas lágrimas que tinham em seus olhos. Seus lábios tremiam em um bico infantil, e dava para perceber apenas de olhar que Ria se esforçava ao máximo para não se debruçar em lágrimas.
O conselheiro segurou-a pelos dois braços, encarando-a profundamente.
— Padomi… — ele fez uma pausa. — Você o ama?
Ela encarou o chão, com as bochechas levemente coradas. Ele sabia que aquilo era uma afirmação.
— E você, Sabo-san? — ele não entendeu de início, até que ela completou: — ama a… Koala?
— Amo.
Padomi arregalou os olhos, surpresa pela resposta imediata e pela seriedade no olhar dele. Sabo não estava brincando.
— Muito bem. — ela assentiu devagar, se soltando das mãos do loiro e secando as poucas lágrimas que tinha. Depois, voltou a encará-lo com a mesma determinação no olhar. — eu o ajudarei com ela, e em troca…
— Em troca, eu a ajudarei com Rokka, certo? — ele presumiu, completando.
Os dois sorriram, e aquela, pensou Sabo, era o início de uma aliança que ele nunca na vida imaginaria fosse acontecer.
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