The Best Job

26 Chocolate quente


— Essa história foi há cerca de quatro anos. — Sabo começara a explicar, de repente sentindo uma parte do sono que antes persistia em perturbá-lo simplesmente desaparecer. — eu tinha dezesseis anos na época, e eu estava começando a receber permissões pra ir em missões junto com o Dragon-san.

— Ele não te deixava ir antes disso? — Koala indagou, curiosa.

— Não, eu era muito imprudente. — o loiro riu de canto. — eu era até pouco tempo, na verdade. Depois que você chegou eu me acalmei um pouco. — a garota pensou que deveria responder ao comentário do conselheiro, mas não conseguiu achar as palavras certas, então ele continuou. — enfim, eu fui com o Dragon-san numa missão no West Blue, e eu estava bem animado. Já tinha ido em algumas mas não me deixaram nem sair do navio.

— Isso acontecia comigo também! — Koala interrompeu-o. — me deixavam no navio descascando batatas, era bem chato, mas eu fazia com muito empenho crente de que era uma tarefa muito importante.

— E era né, senão não teriam batatas para o almoço. — Sabo brincou, bem-humorado, e logo os dois começaram a rir. — mas... Aquele dia foi inesquecível pra mim. Nós nos infiltramos em uma ilha que tinha uma construção enorme, e que a única coisa que sabíamos sobre o objetivo daquele lugar era que o dono vendia meninas e meninos de quinze anos para serem escravos.

Aquilo bateu fundo no coração de Koala, que logo se lembrara de sua horrível estadia em Mary Geoise. Com os batimentos e a respiração mais rápida, ela perguntou:

— Eles… Rokka, Padomi…. Foram escravos? — a professora depositou a mão no peito de Sabo, e inconscientemente segurou forte na blusa dele, procurando um refúgio.

— Não chegaram a ser vendidos. — Sabo disse com delicadeza, colocando a mão dele sobre a dela. — mas, de qualquer forma, foi uma infância terrível. — suspirou, com pesar. — no dia em que nós chegamos lá, o irmão do dono daquele enorme laboratório estava lá. Juntamente de algumas outras cabeças que se diziam “aliados” do Dr. Prodavets, que era o responsável por tudo, eles assassinaram toda a família a fim de ficar com tudo que era daquele… — Sabia tinha uma expressão de puro ódio ao retornar ao passado. — daquele cientista nojento, sujo, asqueroso. — cuspiu insultos sem se importar com nada. — se ele não estivesse morto no momento em que entramos, não sei nem o que eu teria feito. Era capaz de eu socá-lo até a morte.

— E hoje em dia? — Koala perguntou. — o que você faria se encontrasse-o?

— Sendo sincero?

— Sim.

— A mesma coisa: o socaria até a morte.

(…)

Não demorou muito para que Mahara Liam, inteligente como é, entendesse do que se tratava a substância esquisita que encontrara debaixo do travesseiro de Padomi. Podia não ser ele o médico, mas anos junto de uma viciada em medicina e biologia o fizera aprender o suficiente para saber diagnosticar que tipo de droga era aquela: pó do sono.

Antigamente era legalizada e comercializada em todo mundo, mas após ser constatado que seus efeitos colaterais eram fortes demais para os seres humanos, o comprimido acabou por ser proibido em todos os lugares, sendo comercializado apenas no mercado negro.

— Pó do sono… — Rokka repetira, pasmo com as palavras saídas da boca do tesoureiro. — m-mas isso não faz sentido.

— Faz sim. — Liam se endireitara na cadeira, olhando sério para o cozinheiro. Como as crianças estavam dormindo e não dava para conversarem adequadamente no local, Liam pediu a Rokka que conversassem no quarto pessoal do cozinheiro, que ficava na porta da frente. E, como esquecera-se que estava com Padomi nos braços, acabou levando a garota e depositando-a na cama. — você sabe os efeitos colaterais do pó do sono?

Ainda em choque com o que lhe fora dito, Rokka negou com a cabeça.

— Além de sono extremo, essa droga gera dores no corpo, deixa a imunidade muito baixa e ainda causa febres altíssimas, febres essas que, pelo que me foi passado, Sabo tem tido muito nos últimos meses.

— Onde quer chegar?

— Pelo jeito, você quer que eu seja curto e grosso. — observou o azulado, percebendo a desconfiança do moreno.

— Exatamente.

— Eu desconfio de que ela. — Liam apontou para Padomi. — é que seja a culpada pelos problemas que Sabo teve de sono. Tenho quase certeza de que foi ela que, por muito tempo, esteve fazendo com que Sabo ingerisse essa droga.

Liam podia ver que Rokka observava Padomi dormir, mas não conseguia vislumbrar exatamente a expressão do moreno por causa de seus longos cabelos negros que tapavam a visão. Como ele estava? Com raiva? Triste? Pensativo? Tudo isso passava na cabeça dele, fazendo-o morrer tanto de curiosidade quanto de hesitação.

— A Nina deve ter achado, e ingerido pensando que era açúcar, não é? — Rokka questionou Liam, com a voz mais baixa que o de cotidiano.

— Parece que cogitou o mesmo que eu. — o tesoureiro sorriu forçado, encarando o chão. — a febre que o remédio causou provavelmente causou a convulsão. — voltou a olhar o outro, que não desviava o olhar da garota. — eu sinto muito, Rokka.

— Pare de fingir.

As palavras repentinas do cozinheiro fizeram Liam despertar, sem entender direito o que o outro queria dizer. No momento em que iria questioná-lo sobre o que estava falando, percebeu que Rokka lançava um olhar furioso na direção de Padomi, que ainda dormia.

— Pare de fingir! — falou mais alto. — abra os olhos agora.

Podia não ser tão íntimo de Rokka quanto Sabo era, mas nesses quatro anos de convivência nunca havia visto os olhos dele tão assustadoramente bravos. Padomi, que até então “dormia”, abriu os olhos e se sentou na cama abraçando o roupão que usava.

— Eu…-

— Cale a boca. — Rokka interrompeu assim que a menina abrira a boca para falar – cale a boca… Porque agora, você vai escutar.

(…)

— O Rock-kun é neto desse homem?! — Koala exclamou, olhando surpresa para o outro.

— Sim. — Sabo assentiu com pesar. — ele era muito pequeno na época…

Sabo corria com sangue nos olhos, tendo certeza de que ouviu passos de alguém fugindo em um dos corredores daquele enorme laboratório. Ele sabia que toda a família que constava nos arquivos estava morta, mas se havia a possibilidade de algum desconhecido dali estar tentando fugir, cabia a ele não permitir tal coisa.

— Te achei! — gritou ao ver a tal pessoa virando em um corredor próximo, constatando que seria fácil de alcançar.

E, de fato, alcançou num corredor sem saída, mas não foi um fugitivo da família que encontrou, e sim uma criança de doze anos extremamente desnutrida e machucada. Era uma menina, cujos cabelos eram num tom acinzentado e curtos bem acima dos ombros. Sua pele era branca como a neve, como se nunca tivesse saído para ver o sol, e cheia de hematomas e machucados, além de diversas ataduras pelo corpo. Seus olhos, apesar de tão bonitos e castanhos, transmitiam bem todo o medo e pavor que ela sentia ao ver Sabo adolescente em sua frente, em posição de luta.

Envolvido nos finos braços dela, havia um menininho, parecendo ter dois ou três anos, que, diferente da mais velha, se encontrava em ótimo estado, com as bochechas rosadas de tão saudável. Ele tinha pele branca, além de olhos dourados e… Cabelos escarlates? Logo veio à cabeça de Sabo que, provavelmente, ele fazia parte da família Prodavets, cuja característica mais marcante é a cor vermelho sangue de suas madeixas.

— N-Não nos mate… — a menina começou a chorar, aninhando mais o bebê em seus braços.

De repente, Sabo sentiu vontade de chorar.

Já havia visto escravos antes, mas daquela forma decadente, nunca. Nem mesmo roupas adequadas ela tinha: usava uma blusa masculina surrada, e provavelmente era tudo o que ela tinha.

— Calma, eu não vou lhe fazer mal. — Sabo pôs o cano que levava consigo no chão, e colocou as mãos para o alto, em sinal redenção. A ação pareceu surtir efeito na menina, que lentamente parou de chorar. Entretanto, após alguns segundos do cessar do choro, duas orelhas de lobo foram se elevando em sua cabeça, e Sabo assustou-se, fazendo um movimento brusco para trás.

Os três ouviram uma voz gritando e grunhindo seguida de passos se aproximando, e todas as atenções foram voltadas para a direção que vinha. Para a não surpresa de Sabo, se tratava de Dragon, segurando um adolescente um pouco mais velho que Sabo de cabelos pretos bem escuros.

— ME SOLTA! EU VOU MATAR TODOS VOCÊS! — ele tentava de todo jeito se livrar nas algemas colocadas nele, mas obviamente, com Dragon segurando-o a probabilidade de sucesso era baixíssima. Ao ver a garota encolhida no fim do corredor, o jovem parou de tentar se soltar e começou a fazer força para ir na direção dela.

— Esse rapaz tentou cravar uma faca em minhas costas. — Dragon respondeu ao olhar questionador de Sabo em um tom irônico, o que deixou o garoto algemado ainda mais irritado. Incomodado com a insistência dele, em um golpe rápido no pescoço o líder revolucionário colocou-o para dormir.

— Rokka!! — a menina levantou desesperada, correndo na direção do mais velho caído no chão com o menino no colo. — Rokka…! Acorda…! Eu estou com medo! — ela voltava a chorar, sacudindo o rapaz.

—Deixe-o, logo ele vai acordar. — Dragon disse à menina, que pareceu se tranquilizar por saber que ele não estava morto. — quero que explique tudo o que aconteceu, e do que se trata aquelas encubadoras.

— E ela disse? — ponderou Koala, sentindo tanto fascinação quanto tristeza por aquela história.

— Disse. — Sabo confirmou. — ela estava com muito medo de nós matarmos Rock, ela e o Rokka, principalmente, então explicou tudo o que ela sabia. Disse que o laboratório da família Prodavets fabricava humanos meio animais para serem vendidos como escravos deluxe com sua tecnologia. A Padomi não sabia na época, mas na verdade eles combinavam genes humanos e genes de minks, e acabavam criando esses seres híbridos muito caros sem realizar nenhum tipo de copulação. Durante boa parte da infância esses híbridos ficavam dentro de uma encubadora cheia de água, que lembra muito um útero materno, “nascendo” com mais ou menos uns quinze anos. — explicou.

— Mas a Padomi não nasceu com quinze anos, não foi?

— Não, por isso ela era “defeituosa”, assim como o Rokka. A Padomi nasceu com o tamanho de uma criança de três anos, enquanto o Rokka com uma criança de dois. O Rokka era um projeto de menino meio gato, mas não desenvolveu nada aparente de um gato, nem mesmo as orelhas. Já a Padomi desenvolveu apenas as orelhas de lobo… Isso depende muito; da idade, do animal com que se deseja misturar, é todo um estudo químico e biológico que é feito. Nina, Tora e Marion, por exemplo, ficaram na encubadora menos tempo que o Rokka, mas os três têm orelhas de coelho.

— Por isso eles têm orelhas… — de repente, tudo pareceu claro para Koala. Há tempos estranhava o fato de seus pequenos alunos estarem sempre usando orelhas de coelho, onde quer que estivessem. — com que idade eles nasceram?

— Tora tinha o tamanho de um bebê de um ano e meio, aproximadamente. Já o Marion e a Nina tinham o tamanho de um bebê de um mês. — Sabo tentava puxar na memória. — mas tudo foi muito mais fácil pra eles, afinal, não lembravam de nada. Rokka e Padomi, que nasceram e cresceram escravos, tiveram muito mais dificuldade após sair daquele lugar.

— Está muito frio ultimamente, não acha? — Sabo se sentou de frente para Padomi. A menina usava roupas mais femininas, seu corpo estava repleto de curativos e ataduras por conta do tratamento que tivera do médico do navio, mas ainda estava com uma expressão triste no rosto.

Sabo não sabia mais o que fazer para deixá-la feliz. Sabia que ela havia acabado de sair de uma situação muito difícil, mas estava tudo bem agora, não estava? Não havia porque ela ficar daquele jeito, triste e sozinha.

— Isso é pra você. — o loiro colocou uma caneca no chão na frente dela, e sua fumaça era levada pelo vento forte que havia naquele dia. Tinha sido uma temporada de frio bem forte naquela região, e o rapaz não sabia como a garotinha havia conseguido sobreviver àquele frio usando apenas trapos velhos.

— O que é? — ela perguntou desconfiada, observando o líquido quente.

— Chocolate quente. — respondeu. — conhece né?

— Sim. — as orelhas dela se levantaram em sinal de interesse. — nunca tomei.

— Bem, este agora é seu. — Sabo sorriu, e delicadamente a pequena pegou a caneca e começou a beber. — você ainda não disse a ninguém o seu nome.

— Ria. — respondeu simplesmente.

— Ria? É um nome bonito. Não tem sobrenome?

— Não, esse foi o único nome que Rokka me deu. — ela deu ombros, encarando o chão.

— Bem, acho que precisa de um sobrenome. — o loiro disse pensativo. Repentinamente, ele levantou o rosto fino da menina na altura de seus olhos, e disse com confiança. — Padomi… Padomi Ria. Soa bem, não acha?

Padomi corou: ela havia amado o sobrenome.

Não devia, de forma alguma, ter sonhado demais com aquela situação – mas não conseguia, era perfeita demais. Sabo era um adolescente de dezesseis anos, braço direito de um dos líderes mais importes do mundo inteiro e, além de tudo, tinha uma beleza invejável. Ela, sob a melhor das perspectivas, era apenas uma ex-escrava híbrida defeituosa, não devia nem cogitar ter chances com ele.

Mesmo assim… Apesar de todas as barreiras que insistia em colocar entre eles… Ele era perfeito. Era seu príncipe salvador, seu porto seguro e o rosto de todas as fantasias que tinha.

E ali, naquele dia, Padomi Ria se pegou apaixonada pelo seu superior, Sabo.

(…)

— Eu quero saber… — Rokka bufava, de pé, olhando firme para Padomi. — como você teve coragem de prejudicar alguém que… Alguém não, o Sabo, que foi a pessoa que deu tudo pra nós, que nos ajudou de todas as formas possíveis, que acreditou que nós seríamos capazes de crescer aqui dentro e que foi o mais paciente de todos. Eu não faço simplesmente IDEIA do que se passa nessa sua cabeça, e nem como você conseguiu fazer com que… — ele parou por uns instantes, encarando uma bandeja com talheres e um prato vazio na mesa. E, num estalo, Rokka pareceu ainda mais irado. — como eu sou BURRO, não é? Tá na cara que você colocou aquela droga na comida que eu fazia pro Sabo.

— Não foi com más intenções! — Padomi se defendeu com a voz embargada, se esforçando ao máximo para não chorar. — eu só coloquei aquilo porque ele estava tão mal, não conseguindo dormir…

— E você acha que tem o direito de colocar uma droga pra ele ingerir à força? Ficou maluca, por acaso?! Tem noção do quanto você prejudicou a vida dele com isso? Ele só vivia doente, com febre, dormindo demais, e todos achando que era pura preguiça e infantilidade dele! — as mãos de Rokka tremiam enquanto ele cerrava os punhos. — e o pior de tudo… Por causa desse negócio maldito, a Nina poderia ter até morrido.

— Não foi minha culpa.

— Ah, não foi sua culpa? — ironizou ele, com os olhos vermelhos. — então a culpa foi de quem? Minha? Deve ter sido, não é? Eu sou o trouxa que sempre te defendi de tudo. Eu sou o trouxa que sempre cuidou dos pequenos. Eu sou o trouxa que ficava sem camisa nenhuma no inverno pra você se aquecer, que ficava uma semana sem comer nada e quando conseguia um PÃO VELHO…! — ele parou de falar por uns instantes, então seguiu com a voz embargada. — um pão velho… — seu tom se tornava cada vez mais choroso. — um pão velho… Eu dava pra você, Ria.

Não dava para ver, mais uma vez, do ponto de vista de Liam a expressão de Rokka. Entretanto, pela cara de espanto de Padomi e as gotas que caíam no chão, o tesoureiro percebeu que Rokka fazia o que ninguém jamais esperaria dele em qualquer situação: chorava.

— E você sabe por que… *snif* ...eu fazia isso?

— … — ao ouvir a pergunta retórica dele, Padomi abriu a boca para responder, mas se pegou sem palavras e chorando igual a ele.

E então, com lágrimas grossas descendo de seu rosto, Rokka completou:

— Porque eu te amo.