The Best Job

28 A dor da perda


“Portgas D. Ace é seu irmão”, essa era a frase que Koala se segurava a cada minuto para não dizer. Embora não concordasse, que furasse seus ideais, aquilo era algo incorreto que tinha que seguir. Amava Sabo, mas ordens eram ordens, e, acima de qualquer relacionamento, seu trabalho vinha em primeiro lugar.

Mas era difícil manter esse tipo de pensamento estando tão perto de Sabo. Ele a encarava tão profundamente que parecia que conseguia ler a mente dela e julgava naquele instante todos os seus segredos. E, apenas depois que o conselheiro piscou, Koala voltou a si, percebendo que ele esperava uma resposta.

— Portgas D. Ace? — Koala fingiu estranhamento.

— Sim, você falou o nome dele enquanto dormia. — afirmou.

— Bem, confesso que também acho isso esquisito, mas deve ser porque… — ela colocou um pouco de comida na boca. — ...eu costumo ler muito jornal, os nomes que aparecem mais podem ficar na minha mente inconscientemente.

Sabo ficou em dúvida sobre aquela resposta, mas não conseguiu achar argumentos contra a justificativa de Koala, afinal, era totalmente plausível. Ainda assim, o nome de Ace dos Punhos de fogo o deixava com uma pulga atrás orelha.

Porém, a fim de se desviar logo do nome “Ace”, Koala perguntou para Sabo sobre as novidades do momento, e o conselheiro lhe explicara tudo sobre o acontecido com Padomi. E a professora ouvira tudo atentamente, sem interrompê-lo em momento algum. Foi apenas ao fim da explicação do companheiro que indagou:

— E como estão Rokka e Padomi, você sabe? — ela transparecia um semblante de preocupação.

— Sei. — suspirou. — a coisa deve ter sido feia, porque ela saiu de manhã vestida de qualquer jeito pra uma missão de um mês.

— Vestida de qualquer jeito? Ela anda sempre tão bem arrumada… — estranhou. — R okka deve ter sido bem duro com ela, mas espero que fique tudo bem. Depois de tudo o que eles passaram, seria triste se simplesmente parassem de se falar.

Estava preocupado com a amiga, mas o conselheiro não pôde deixar de sorrir.

— Você é muito gentil, Koala. — elogiou. — consegue se preocupar tanto e tomar as dores de pessoas que nunca se deram tão bem com você. Deveria sentir mais orgulho da pessoa que você é.

Aquele foi um elogio sincero, mas conseguiu machucar Koala. Sentia-se suja por saber de seu passado e escondê-lo daquela maneira, e não queria nem pensar na cara de Sabo quando descobrisse tudo e soubesse que ela omitira aquela informação dele.

— O que você pensa de mentiras, Sabo-kun?

Koala arregalou os olhos quando percebeu que perguntara aquilo ao superior. Não era o tipo de pessoa que falava coisas no impulso, mas por algum motivo agira daquela maneira. Ele voltou o olhar para ela, estranhando a repentina pergunta da amiga, mas aos poucos foi refletindo e pareceu chegar em uma conclusão.

— Honestamente não gosto de mentir, mas sei que é necessário para sobrevivência. — ele respondeu enquanto pegava o copo de suco na mesa e bebia.

— Como assim?

— Por exemplo, eu não hesitaria em mentir para salvar a vida de um filho meu. Ou, até mesmo, para salvar um grande amigo. Agora, mentir apenas por capricho ou para se safar de alguma situação… Isso eu não faria. — explicou decidido. — Por que está me perguntando isso?

Ela não soube o que responder, então desviou o olhar para o prato em sua frente enquanto pensava em um bom motivo. Poderia simplesmente desviar-se do assunto, mas Sabo era perspicaz e rapidamente tornaria a perguntar o que antes questionou. Tivera uma grande sorte pelo fato dele não insistir em falar de Ace anteriormente, refletiu.

— Você deve estar em um dilema, não é? — o loiro parecia ter entendido o que ela pensava, e isso assustou a professora por um instante. — deve estar se perguntando o que faria no lugar de Padomi, se agiria como ela e enganaria tudo e todos para se beneficiar… Eu também me perguntei isso. É algo complicado. — confessou. — mas evite pensar nisso. Padomi certamente já está arrependida, levando em consideração o que eu vi.

— Segundo o que Liam-san te disse essa manhã, ela omitiu, não foi? — corrigiu. — ela não mentiu…

Na visão de Sabo, ela estava estranhamente defendendo Padomi com unhas e dentes. Porém, na visão de Koala, ela falava aquilo de Padomi como se estivesse defendendo a si mesma. Obviamente, o segredo que a Ria mantivera fora muito mais grave, mas como poderia ela julgar alguém quando ela própria mantinha uma mentira?

Por fim, encerraram aquele assunto por ali. O loiro percebeu que a parceira estava desconfortável, e por mais que estivesse curioso não seria indelicado ao ponto de forçar esse assunto à mesa. Após terminarem de comer, o conselheiro e a professora de karatê tornaram às suas atividades habituais, que, como sempre, envolviam muita leitura de papelada. Entretanto, naquela época em especial, todos os membros do exército revolucionário estava muito mais ocupados por conta da “Guerra dos Melhores”, e para Koala e, especialmente, Sabo, não era diferente.

(…)

— Onde a Ria está? — Rock questionava Rokka de pulsos cerados, enquanto o adulto lavava as lousas do almoço.

Já havia se passado três dias desde que Padomi saíra em missão, que Nina acordara e, na teoria, era para tudo estar em paz, mas a guerra acontecia a todo vapor e conseguia deixar até o membro com mais baixo escalão ocupado o dia inteiro. Apesar de ser “apenas” o cozinheiro chefe, Rokka também andava muito ocupado, e uma criança de oito anos parada no meio da cozinha com uma pose superior já estava conseguindo-o tirar do sério.

— Creio que não seja eu o líder revolucionário. — respondeu irônico, ainda de costas para o menino.

— E eu creio que Dragon-san tenha te contado. — respondeu provocativo, enquanto cruzava os braços em uma “pose de macho”.

Ele tinha acertado na mosca. Rokka era um menino muito inteligente para a idade, assim como Nina, Tora e Marion, e até elogiaria o garoto por ser tão esperto se não estivesse rangendo os dentes de raiva. Apesar de não fazer a mínima questão de saber para onde Padomi tinha ido, Dragon chamou-o pessoalmente para dizer-lhe aonde a adolescente havia sido mandada, e, sem demonstrar nenhuma emoção, Rokka apenas assentiu.

— Eu quero saber de tudo. Quero saber porque todos estão estranhos e porquê Padomi saiu assim de uma hora pra outra. — o garoto exigiu.

— Rock, pelo amor de Deus, vai brincar por aí! Diferente de vocês, nós, adultos, estamos muito ocupados! — esbravejou o cozinheiro.

— Não vou te deixar em paz até que me conte! Eu tenho tanto direito de saber quanto você! — o ruivo bateu o pé no chão, mostrando que não estava disposto a sair dali sem o seu objetivo concluído.

Contou até três em pensamento. Não queria perder a paciência com ele ali, e não conseguiria despistá-lo facilmente.

— Uma guerra está acontecendo nesse momento, e é com isso que você se preocupa? — Rokka ponderou.

— Sim, é isso. — o menino teimou, ainda sério.

— Então você quer saber? — Rokka perguntou devagar, com ódio nas palavras. Ainda de costas, lavando a louça, o cozinheiro tentava segurar a raiva que insistia em permanecer nele. — a sua querida Ria usou a droga do sono no Sabo por vários meses, e, como se não bastasse, escondeu no quarto, um local onde qualquer um de vocês poderia achar. — Rokka ria de raiva, esfregando e jogando os pratos na pia com violência. — e óbvio, um incidente que aconteceu por causa dela quase tirou a vida da Nina!

— Mas… — o ruivinho estava com os lábios trêmulos. Apesar de querer manter a pose de homem, era apenas uma criança, e lutava insistentemente contra a vontade de chorar.

— Ela é uma garota mimada, acha que independente de quem for a pessoa tem obrigação de tê-la como prioridade, mas isso não é o pior. — Rokka fez uma pausa, e, ainda com o prato na mão, virou-se de frente para o garoto. — o pior foi ela ter usado uma droga feita por aquela família de demônios!

Movido pelo sentimento de raiva, assim que terminou a frase, o cozinheiro jogou com tudo o prato que tinha em mãos no chão, estilhaçando-o e fazendo um barulho extremamente alto. Porém, no momento de emoção, esqueceu-se de que Rock também estava ali, e um caco do prato de vidro voou no ante-braço do garoto, fazendo um corte.

Rokka assustou-se no mesmo instante. Logo ele, que era sempre tão calmo e controlado, estava sendo imprudente e agindo sem pensar. E, para piorar, havia machucado um dos “serezinhos” que conseguiam fazer de sua vida mais colorida. Em seu instinto paternal, rapidamente esticou a mão para analisar o corte, mas o ruivo, que ainda se mantinha de cabeça baixa e estacando o sangue com a mão, esquivou-se do mais velho, olhando-o intensamente com um olhar ameaçador.

— Esse sangue – ele tirou a mão de cima do corte, mostrando-a toda ensanguentada. — é o sangue de demônios. Você não tem noção do quanto isso me machuca, do quanto eu sonharia de ter uma linhagem mais digna ou de não ter linhagem nenhuma, que nem vocês. Isso mexe comigo, mexe com o meu psicológico… — o menino fez uma pausa, já com a voz trêmula, e encarou as próprias mãos. — a Ria faz essas coisas porque, apesar de querer mudar esse mundo, ela não consegue mudar a si própria assim como eu não consigo mudar quem eu sou.

— Você não tem culpa. Você não escolheu nascer onde nasceu… Mas ela escolheu fazer o que fez. — Rokka rebateu olhando para o chão, a fim de esconder o rosto com a franja.

— Não escolhi, mas eu sou o que sou, e estou pronto para perdoá-la quando voltar. E você, Rokka, espero que faça o mesmo, porque senão uma parte de mim vai parar de te admirar como fazia antes.

O garoto, ainda ensanguentado, virou-se de costas e saiu da cozinha. Rokka devia ter feito-o parar, falado umas poucas e boas e cuidado de seu ferimento, como sempre fazia. Porém, naquela conversa em especial, Rock tocara numa tecla nunca antes encostada: o sangue.

Para ser bem sincero, pouco importava se Rock era Rock Prodavet. Na época em que entraram para os revolucionários, ele era um pequeno e ingênuo bebê de dois anos, não tendo absolutamente culpa nenhuma sobre tudo o que sua família tinha feito. Fora criado com muito amor e carinho por todos os revolucionários e, apesar de terem sido escravos de seus pais, Padomi e Rokka o amaram muito, como uma família.

Família…

É, talvez fosse assim que ele os enxergava. Não entedia nada sobre família pais, mas sabia que crianças geralmente odeiam quando os pais brigam. E para Rock, um menino de apenas oito anos, não devia ser muito diferente.

(…)

— Finalmente conseguimos um descanso. — Koala andava pelos corredores da construção do exército revolucionário na superfície de Baltigo. Ela, obviamente, estava trabalhando junto com Sabo, auxiliando-o em tudo o que era necessário.

— Sim, mas não podemos demorar muito, aquilo está uma loucura. — Sabo massageava o ombro, mostrando o claro cansaço. — essa guerra vai mudar os rumos do mundo, mas não vai ser nada perto da futura guerra que o exército revolucionário irá travar.

— Nós iremos nos dar bem. É por isso que eu treino todos arduamente todos os dias, e nossos membros se esforçam para ficar cada vez mais fortes. — ela disse orgulhosa, sorrindo para Sabo. Foi quando, de repente, ela parou no meio do caminho, encarando uma porta aberta. — essa biblioteca tá bem suja, né?

— Ah, não. — Sabo gemeu, revirando os olhos. — Koala, você vai mesmo limpar essa biblioteca nos nossos minutos de descanso?

— É rapidinho. — justificou. — nem precisa me ajudar, pode ficar aí sentado.

E ele sentou mesmo. Pensou em ajudá-la para ser mais rápido, mas se fizesse isso Koala acharia que ele estava incentivando-a a continuar e só sairia daquela biblioteca quando o chão, as estantes e todos os livros estivessem brilhando.

— Faz tempo que não leio um livro. — Koala comentou enquanto tirava o pó de alguns livros na estante. — o último que li foi “O duque e eu”.

— Eu já li vários desses livros da biblioteca quando era mais novo, já que eu tinha mais tempo – apontou perto dos livros que Koala limpava.

— Eu també-

Koala se calou ao perceber o que quase dissera. Por que havia pensado em dizer “Eu também”? Ela nunca havia estado em Baltigo antes, e muito menos estado naquela biblioteca.

Mas por que? Por que de repente aquele lugar lhe soava tão familiar? Seria uma espécie de dejavú? Talvez, em seu consciente, estivesse tendo aquela impressão pelo fato de várias bibliotecas serem parecidas. Então, pensando nisso, Koala, que antes se equilibrava perfeitamente em cima de um banquinho para limpar, se viu vacilando para trás e em fração de segundos percebeu que iria cair feio no chão.

— Opa! — ela ouviu Sabo dizer ao pegá-la no colo, impedindo que caísse. — você tá bem? Se machucou?

A preocupação dele era fofa demais, ela pensava. Sempre que o loiro ficava preocupado, ele tendia a ficar mais corado que o normal, e Koala achava aquilo uma graça. Estava tão absolvida em seus pensamentos que nem reparara que ele a segurava como uma noiva.

— Eu estou bem. — ela o tranquilizou segurando em mãos o chapéu dele, que havia caído na barriga dela quando a pegou bruscamente.

Koala achou que ele a colocaria na chão, mas o que ele fez foi sentar-se novamente na cadeira, porém agora com ela no colo.

— Me senti uma princesa. — brincou ela, apenas aceitando aquela situação. Se fosse outra pessoa que a tivesse colocado no colo, certamente brigaria, mas como se tratava de Sabo, não conseguia ficar irritada. E, para ser sincera, até que gostava da ideia de ficar ali.

— Não tenho vocação para príncipe, estou mais para dragão. — ele continuou a brincadeira em um tom divertido.

— Sabo-kun, dragões geralmente são pessoas feias.

— Não acho, dragões são lindos. Eu ficaria muito feliz se alguém chegasse em mim e dissesse “Nossa, você parece um dragão!” — Sabo fez uma voz anônima com bastante emoção, mas logo essa emoção se esvaiu e deu lugar a uma expressão de desgosto, como se tivesse acabado de comer algo estragado. — pensando bem, pega mal. É bem pejorativo.

— Eu disse. — Koala ria enquanto colocava o chapéu de Sabo na cabeça, e ainda distraída com a longa risada, nem percebeu que o superior passara os braços em volta de sua cintura.

Ele estava adorando aquilo. Ali, no colo dele, Koala parecia sua namorada, e só a ideia de tê-la daquela forma fazia seu coração se aquecer. Nunca namorara antes – e, sinceramente, nem sentira vontade. — mas desde que conhecera Koala seu lado romântico brotara de uma forma inexplicável, fazendo com que pensasse em coisas que nunca pensara.

Era um tanto irônico, pois estava amando ver aquele fofo sorriso dela, mas queria muito beijá-la. Os lábios dela, levemente rosados, brilhavam com a pouca luz da biblioteca, provavelmente porque a moça passara algum tipo de gloss.

—Koala, posso te perguntar uma coisa?

De repente ele se encheu de coragem. Talvez estivesse agindo como um grande louco, talvez estivesse agindo como um grande corajoso, mas sentira que aquele mini momento de calma e descontração era perfeito para concretizar o que tinha em mente.

— Claro que pode. — ela respondeu como se fosse óbvio.

— Você gostaria de namo-

— Sabo! Koala! Estão solicitando vocês lá dentro! — Hack surgiu na porta ofegante interrompendo a fala do loiro, como se tivesse corrido o mais rápido que pôde. O tritão estava tão absolvido de preocupação sobre o andamento da guerra que nem percebera que atrapalhara um momento importante para o conselheiro.

Já Sabo, decepcionado, apenas assentiu fazendo cara feia para Hack, que não entendeu uma grama. Em seguida, o mentre em karatê olhou para Koala, estranhando o fato dela estar no colo de Sabo, e a garota rapidamente se levantou dali, extremamente corada.

O que Sabo iria dizer? “Namorar”? Sua cabeça girou só de pensar nisso. Ela deveria retomar o assunto? Mas e se fosse apenas impressão dela? Passaria uma vergonha fenomenal, e não estava pronta pra isso. Por fim, evitou olhar no rosto dele e foi em direção ao tritão.

— V-Vamos, já ficamos tempo demais aqui. — Koala passara pela porta, e, alguns segundos depois, Sabo a seguiu.

O loiro estava confuso. Ela havia conseguido entender, não havia? Se lembrara de ter conseguido dizer pelo menos metade das palavras, mas era o suficiente para entender a intenção dele, não? Será que ela não gostava da ideia de namorar com ele? O sentimento que sentira ser recíproco era apenas coisa de sua imaginação?

Um tanto desanimado, voltou a trabalhar; a guerra estava rolando e tinha muitas coisas a resolver. Uns minutos se passaram, e Koala, sem perceber, acabara evitado Sabo. Era algo que não conseguia controlar, estava se sentindo mais tímida que o normal perto de Sabo.

Foi quando um membro do exército revolucionário chegara com notícias quentes, que abalaram o mundo inteiro. O yonkou Edward Newgate, mais conhecido como Barba-branca, havia morrido na guerra.

Seu coração parou por um instante.

Assim como Portgas D. Ace.

Seu momento de pânico interior foi interrompido por um som esquisito: Sabo. Com as mãos trêmulas, ela se virou para o conselheiro, vendo-o de um modo tão lamentável como nunca havia visto. Os olhos do loiro estavam arregalados e deles desciam mais e mais lágrimas sem parar, que pingavam no chão a todo instante. Suas pernas, até então bambas, cederam ao chão e este caiu de joelhos, ainda segurando um jornal em mãos.

Então, depois de todos perguntarem-no se ele estava bem, Sabo soltou um grito estridente.

E no mesmo momento, Koala soube.

Não estavam num navio, mas ele sabia. Aquele grito fora de pura dor.

A dor de perder um irmão.