The Best Job

29 Passado perdido


— Sabo-kun!

Uma menina de 14 anos corria em meio a uma tempestade de madrugada. Estavam em um navio, e este balançava a todo momento, fazendo com que a pequena se desequilibrasse. Apesar dos gritos dos demais revolucionários a fim de fazê-la parar, a menina continuou a correr até chegar a ponta do navio, olhando desesperada para o mar.

— Sabo-kun! O Sabo-kun está lá!!! — ela berrava em meio ao barulho dos raios, mas ninguém conseguia ouvi-la, muito ocupados em tirar o navio daquela situação.

— O que está fazendo aqui?! Deveria estar lá dentro com os outros!!! — Ivankov correu até a menina, cobrindo-a com uma capa, provavelmente porque estava molhada. — Liam-boy! Leve-a para dentro! — o revolucionário chamou pelo azulado, que corria até a garota.

— Não! Não! Me escutem! — ela chorava enquanto gritava. — O Jay…! O Jay e o Sabo caíram no mar!!!

— O que?! — Liam esbravejou, arregalando os olhos. Em um pulo, ele olhou para o mar e pôde ver Sabo tentando lutar contra as fortes ondas com uma pequena criança nos braços. — MENINOS!! — o homem pulou no mar sem pensar duas vezes, e em um rápido raciocínio, Ivan correu pegou uma boia e amarrou em uma corda, para que os três pudessem ser puxados de volta.

(…)

— Sabo-kun… — a menina murmurou após acordar de um sono profundo. Tinha passado a noite inteira sentada ao lado da cama em que o menino estava, e quando o sono finalmente a venceu, encostou a cabeça e os braços na cama e dormiu pesadamente.

— Você tem que ficar bem… — ela disse em tom choroso, segurando a mão do garoto desacordado. — você tem que ficar bem… — repetiu.

— Você tem que ficar… — Koala acordava aos poucos, piscando diversas vezes os olhos. — ...bem…

Apenas após despertar a professora de karatê percebeu que dormira. Já não era a primeira vez que sentira que tinha sonhado, porém, quando acordava, não conseguia se lembrar de nada, apenas de algumas palavras muito repetidas durante o sonho.

“Você tem que ficar bem”. Até que aquela frase condizia com o que se passava com ela atualmente.

Havia acabado de acordar depois de dormir sentada ao lado de Sabo desacordado. Estava sendo cansativo passar dias dormindo em uma cadeira de madeira com a cabeça apoiada na cama em que o loiro dormia, mas nem o cansaço e nem os apelos dos colegas para que saísse dali iriam fazê-la deixar Sabo sozinho.

Seu coração doía. Não literalmente, claro, mas no sentido figurado ele estava estilhaçado. Doeu demais ver o companheiro sofrendo e berrando daquela forma, enquanto ela não podia fazer absolutamente nada senão assistir. E agora? Como seria dali em diante? Hack comentara durante uma conversa dos dois que, provavelmente, Sabo nem se lembraria que sempre se recorda dos irmãos quando entra em um navio, e isso tornaria o futuro mais complicado.

No início, não entendeu o que exatamente o tritão queria dizer com “complicado”, mas após pensar bem, concluiu o que não queria nem pensar: Sabo poderia querer sair dos revolucionários.

Nunca conhecera Sabo com uma verdadeira raiva. Claro, ele havia ficado com raiva quando fora mantida em cativeiro na ilha em que conheceram Aurora e Shin, mas a raiva de saber de um irmão morto por causa de uma ou umas certas pessoas poderia fazer surgir nele uma vontade de abandonar todos os ideais e seguir em busca vingança.

— Ainda aqui? — Koala ouviu alguém perguntar, então olhou na direção da voz. Eram Hack e Liam, que passaram pela porta com expressão de desânimo. — dormiu aqui de novo? — Hack continuou a pergunta.

— Sim, não quero que Sabo-kun esteja sozinho quando acordar. — ela explicou forçando um sorriso.

— Conversei com a Ieni, e ela disse que não tem como saber quando ele vai acordar. — Liam lamentou, encostado na porta.

— Ele já está assim há tanto tempo, e ainda essa febre… — Koala murmurou em tom preocupado, tirando uma mecha de cabelo dele de perto do olho.

Os três ficaram em silêncio, pensando seriamente sobre a situação em que o companheiro se encontrava. Todos estavam preocupados, obviamente – e as crianças não paravam de perturbá-los sobre o estado de Sabo – mas aquele trio, principalmente, tinha muito receio sobre o que fazer quando o loiro acordasse.

De repente, então, ele abriu os olhos, fazendo o coração de Koala quase parar. Passaram-se mil coisas em sua cabeça, e, entre elas, umas das possibilidades era a de Sabo nunca acordar. Logo, vê-lo ali de olhos bem abertos e vívidos fora um dos maiores alívios que sentira em toda a sua vida.

— Buááááá! Pensávamos que estava morrendo, Sabo-kun!!!! — ela não conseguiu evitar de gritar quando as lágrimas desceram desesperadas, fazendo o conselheiro levar um susto e se sentar na cama.

— Você estava com uma febre incrível, Sabo. Ficou desacordado por três dias, começamos a nos preocupar. — ouviu Hack dizer.

Seu cabelo estava desarrumado, sua boca extremamente seca e suava como nunca antes, mas de alguma forma conseguiu se recompor melhor sentando-se. Apesar de saber que haviam três pessoas no quarto, Sabo não levantou a cabeça para olhar para nenhum deles, já que em sua mente se passavam pensamentos estranhas.

— Você recuperou as memórias? Você vai nos abandonar agora? — Koala questionou-o com o coração na mão, temendo a falta do parceiro.

— Não! Claro que não! — ele espantou a ideia, ainda mirando o colchão. — O Dragon-san está aqui? Há algo que eu gostaria de discutir… — explicou – e também…

— Sabo. — Liam o interrompeu, e os três se viraram para ele. — nós precisamos conversar.

Sabo conhecia Liam desde que entrara nos revolucionários, e, desde sempre, o Mahara fora um rapaz gentil, educado, e muito bem-humorado. Entretanto, naquela hora, conseguira vislumbrar uma cena nunca vista antes, com o azulado assustadoramente sério.

— A sós? — o outro perguntou.

— Se Hack e Koala quiserem, podem ficar à vontade para permanecer aqui. — o tesoureiro andou até o canto do quarto e pegou uma cadeira, colocando-a em frente a cama para ficar cara a cara com o conselheiro. — é um assunto do interesse deles, de qualquer forma.

Ambos os praticantes de karatê pareceram ter entendido rapidamente do que se tratava, o que deixou Sabo com uma pulga atrás da orelha. Tinha acontecido algo sério no tempo em que esteve desacordado? Esse fora o único pensamento que se passara por sua mente, que reagia mais lenta que o normal por conta da febre.

— Você se lembra do Jay, não lembra? — Liam iniciou o assunto cruzando as pernas, e Sabo segurou a respiração. Fazia anos que não falavam do pequeno James.

— Eu… Lembro. — respondeu quando finalmente conseguiu respirar.

— O Jay… O James… Era a minha vida. — ele sorriu tristemente, encarando um canto qualquer da sala. — ele era um menino tão alegre, nunca deu muito trabalho. E, mesmo quando o dia era cheio de desafios, quando eu via o sorriso dele à noite, sentia que tudo valia a pena.

— Quantos anos você tem, Liam-san? — Koala perguntou repentinamente.

— Atualmente tenho vinte e oito. Eu tinha quinze anos quando o Jay nasceu, e a Ienni… quatorze. — coçou a cabeça só de lembrar das broncas que os dois tomaram de Ivankov e Dragon. — nós fomos muito imprudentes, somos órfãos por isso não tínhamos nenhum parente pra cuidar dele no nosso lugar, então mesmo com todo o trabalho nos esforçamos muito pra cuidar dele.

— Sempre o admirei por isso. — Sabo acrescentou com um meio sorriso.

— Vocês sabem como Jay morreu, não sabem? — indagou se dirigindo aos homens na sala, e estes assentiram.

— Ele morreu de hipotermia. — Hack explicou baixinho para Koala, que estava meio perdida na conversa.

— Exato. — o tesoureiro concordou.

— Ainda não estou entendendo o que James tem a ver com o você quer me dizer. Digo, ele já… Morreu tem dez anos. — Sabo transparecia confusão.

— Ele pegou hipotermia quando caiu no mar, numa noite de terrível tempestade. Nós mandamos todas as crianças entrarem enquanto a nós tentávamos manter o navio navegando, mas…

Enquanto ele fazia uma pausa, encarando Sabo, Koala se sentia estranha. Por que? Por que a história sobre uma tempestade a fazia ouvir o barulho dos relâmpagos? Por que ela ouvia gritos? Sentindo-se confusa, ela fechou os pulsos, tentando prestar atenção ao que o superior falava.

— Ele caiu no mar depois que você nos desobedeceu, e saiu de dentro do quarto. Vocês eram muito apegados, e quando ele viu que você saiu, ele te seguiu, óbvio. E como o navio estava balançando muito, ele… Caiu. — a voz de Liam já começava a ficar num tom choroso. — ele caiu no mar gelado.

— O J-Jay… — Sabo arregalou os olhos, estático. — m-mas eu não me lembro disso! Eu não lembro de ter desobedecido! — ele praticamente gritou, se aproximando mais do tesoureiro, que já não o encarava mais.

— Você não teve culpa nenhuma. Iennifer estava em outro lugar nessa época, meu filho era minha responsabilidade. — ele levantou o olhar para Sabo, que parecia angustiado. — é justamente por causa dessa sua sensação de culpa que eu tive que… Cometer atitudes que hoje eu dia eu me arrependo profundamente. Poucas pessoas sabem, mas até os meus dez anos, eu vivi em uma família de pessoas que mexiam com hipnose, e nisso eu aprendi o básico do assunto. Eu agi errado, eu sei, mas… — ele fez uma pausa na fala. — eu mexi nas suas memórias… — Liam olhou para Koala. — e nas suas também, Koala.

Sabo não ficara com raiva quando dissera que mexera com sua cabeça, afinal, ainda estava assimilando todas aquelas informações sobre a morte de James. Mas fora só ouvir sobre ter mexido com a cabeça de Koala que o loiro virou-se para o tesoureiro com um olhar ameaçador que nunca fizera antes. – até porque, nunca tivera motivo para tal. -

— Vocês não se lembram. — Liam continuou calmamente, antes de Koala sequer conseguir pestanejar. — mas vocês dois se conheceram ainda crianças, com 12 e 13 anos. Vocês eram uma dupla muito engraçada, Sabo sempre aprontando e Koala sempre atrás como uma irmã mais velha, dando broncas e tomando conta. — ele abriu um singelo sorriso lembrando-se de antigamente, por mais que os dois citados não estivessem nem um pouco de bom humor.

— Liam. — Hack tossiu, sentindo a situação tensa. — acho melhor ir direto ao ponto.

— Na noite da morte do Jay, uns dias depois daquela tempestade, você se sentiu muito culpado, desde então não queria nem comer, virou um menino depressivo. Logo, eu tentei fazer uma sessão com você, que foi completamente falha. Eu não tinha muita experiência, então… — ele procurava as palavras certas. — eu acabei bagunçando suas memórias. O passado com seus irmãos, que você havia esquecido, voltaram de uma forma estranha, sempre que você subia em um navio, com uma filosofia que não era a sua. Koala e Jay foram totalmente apagados de sua mente, por algum motivo, mas você ainda se lembrava das outras pessoas. — explicou. — mas eu me arrependi. Depois que vocês esqueceram desse incidente e se esqueceram um outro, eu me arrependi de ter manipulado a vida de vocês. E… Tentei me redimir… — ele olhou fundo nos olhos de Sabo. — juntando vocês dois.

Os braços de Sabo, que segurava forte os lençóis, estava tremendo. Os três ali presentes consideraram a possibilidade dele estar segurando lágrimas, ou, até mesmo, de estar estático de tanta surpresa por conta de todas aquelas informações. Apenas quando ele levantou olhar, que puderam ver a pura raiva em seus olhos.

— C-Como você pôde…? — ele gaguejava tentando falar, e Liam não expressou uma palavra. — você… Você…-

— Como isso pode ser possível?! — Koala gritou de repente, com lágrimas nos olhos. — Eu… Eu me lembro muito bem! Me lembro de quando eu cheguei na outra divisão com treze anos, isso não é possív-

— Quando eu mexi com suas memórias, o que você viveu foi distorcido. Você acha que chegou lá, mas na verdade suas memórias são daqui de Baltigo. — esclareceu com calma. — eu sinto muito, Koala.

O loiro, mesmo estando febril e com roupas de dormir, se levantou num pulo da cama. Liam até pensou que ele se levantaria para lhe dar um soco no olho, mas a única atitude tomada pelo conselheiro foi passar pela porta e batê-la fortemente ao ponto de quase quebrar. — e, se ele realmente quisesse fazê-lo, conseguiria com perfeição.

Hack e Liam permaneceram em silêncio, e apenas a professora de karatê do tritão se levantou da cadeira disposta a ir atrás do amigo. Se Liam fosse, provavelmente voltaria surrado, e Hack igualmente não seria ouvido. Logo, a única capaz de fazer o revolucionário escutar seria sua parceira do dia a dia.

(…)

— Finalmente eu te achei.

Koala chegou à sacada que dava a visão ao lado de fora de Baltigo, encontrando Sabo sentado em cima do grosso parapeito, que, apesar do tamanho, era extremamente baixo. O conselheiro encarava o nada. Já estava com as roupas trocadas e calçara botas, vestindo-se como sempre, fazendo Koala pensar que devia ter sido difícil se vestir com febre.

Ela piscou diversas vezes os olhos. Estava ventando muito, e por mais que não conseguisse ver o rosto de Sabo – afinal, ele estava de costas para ela. — conhecia-o o suficiente pra saber que estava de olhos bem abertos.

— Você está bem? — indagou, pensando que talvez agora ele respondesse. Mas nada foi ouvido, e ela caminhou até suas costas, apoiando a cabeça nele, encarando o chão. — deve estar sendo doloroso pra você. Perdeu o irmão, descobriu uma mentira de dez anos…

Dessa vez, ela pôde sentir um suspiro vindo dele, o que já foi um bom sinal. Olhou pra cima, e reparou que ele não usava chapéu, logo, seus cabelos loiros estavam sendo bagunçados pelo vento, criando em Koala uma enorme vontade de mexer ali. Mas aquela não era uma boa hora pra pensar nisso. Sabo estava sofrendo, e ela tinha que ser o apoio dele.

— Eu entendo como está se sentindo. Também perdi alguém muito especial pra mim, e parece que minhas memórias também são falsas. Mas… Apesar disso… — ela abraçou Sabo por trás, fechando os olhos. — eu fiquei feliz em saber que já nos conhecíamos.

— Eu também.

Ela sorriu ainda de olhos fechados quando finalmente ouviu a rouca voz dele. Foi uma fala baixa, mas o suficiente para deixá-la feliz.

— Fiquei em um dilema tão grande. Foi por pouco tempo, mas o bastante pra ficar me matando por dentro, querendo te contar e mesmo assim não podendo…

Num rápido movimento, Sabo virou-se para ela, fazendo-a se separar do abraço bruscamente. Koala não entendeu nada do que aconteceu, e olhou confusa pra ele. O loiro não costumava fazer movimentos bruscos com ela, mas ao ver os olhos dele arregalados entendeu que algo estava errado.

— Você… Escondeu algo de mim? — ele perguntou devagar.

— E-Eu… — ela juntou ao peito, vendo que acabara de cair em uma cilada. Não tinha mais opção nenhuma a não ser falar a verdade. — me disseram que eu não podia falar sobre seus irmãos fora de um navio, porque você não se lembrava deles. Depois de ouvir o que o Liam-san disse, percebi que todos os que sabiam dessa história fizeram isso para encobrir o que ele tinha feito. — ela andou até ele em passos apressados, agora abraçando-o de frente. — mas agora vai ficar tudo bem. Eu vou te ajudar em tudo o que você precisar, porque…

Koala sentiu-o relaxando o corpo, e, por alguns segundos, pensou que aquilo fosse um bom sinal, até que ele a afastou com os braços, deixando-a desconcertada.

— Sabo-kun?

— Esperava isso de qualquer um… — ele olhava decepcionado para ela. — menos de você, Koala.

— O que? — ela não acreditou. — Sabo-kun, eram ordens superiores! Eu não podia contar, acredite!

— Eu acredito, mas não entendo! — ele gritou de volta. — eu achei que não haviam segredos entre nós! Eu achei que nossa relação fosse diferente! — ele bateu o punho no parapeito de tijolos, fazendo uma cratera.

— E ela é diferente!

Koala berrou como nunca antes, conseguindo, de alguma forma, conter as lágrimas. Estava desesperada para fazer Sabo enxergar tudo do ponto de vista dela, mas parecia impossível, ele estava irado de raiva. Depois de alguns segundos com o peito subindo e descendo por causa da respiração pesada, Sabo finalmente pareceu ter se acalmado, e Koala pensou que era um bom momento para se aproximar.

— Nós vamos superar isso. — ela disse já cara a cara com o parceiro, ambos com uma expressão de tristeza no rosto. — eu gosto muito de você, Sabo-kun. E, se o que eu pensei ter ouvido há dias não for só impressão minha, eu acredito que juntos nós-

— Não.

Ela parou de falar ao ouvir a negação.

— Não quero nada disso. Eu me enganei.

— Se enganou?

— Sim, com você.

Uau, aquela doeu, mas ela conseguiu se segurar bem.

Koala tocou de leve na bochecha esquerda dele, olhando-o nos olhos.

— Tem certeza de que é isso que você quer?

— Tenho. — ele respondeu com firmeza nas palavras.

— Tudo bem, então.

Ela assentiu, e beijou de leve em sua bochecha, como um beijo de despedida.

Sabo olhou-a ir, certo de que estava fazendo o que queria fazer.

Porém, no fundo, bem lá no fundo, a real vontade que ele sentia era de correr atrás dela, e selar seus lábios.

Mas ele não o fez.