The Beginning of the End (versão atualizada)
13 Sussuros Antes da Tempestade
A casa há muito tempo já havia caído no silêncio.
Lá em cima, Amelia estava sentada imóvel na beira da cama estreita, os dedos entrelaçados com força no colo, as unhas cravando na pele calejada das palmas. O baixo gemido do vento pressionava contra as venezianas deformadas, infiltrando-se pelas rachaduras na madeira como uma coisa viva, sussurrando lembranças de tudo o que ela queria esquecer.
Mas ela não conseguia.
Não o olhar nos olhos de Gabriel.
Não as palavras com que ele a deixara, ainda ecoando no vazio de seu peito.
E, pior de tudo — não a verdade aterradora que pulsava sob sua pele, enroscada como algo selvagem e à espreita: a parte dela que jamais poderia controlar.
Sua essência Nefilim.
Ela inspirou bruscamente, apenas para perceber que o ar não se aquietava; ele ficava preso e tremulava em sua garganta, como um soluço que nunca conseguia chegar à superfície.
O quarto cheirava vagamente a cedro velho e poeira, o frio atravessando as paredes finas, envolvendo-a como uma segunda pele.
Sua cabeça afundou entre as mãos, os dedos arranhando os fios emaranhados do cabelo, como se pudesse arrancar a culpa de si mesma à força.
Ela não sabia por quanto tempo ficou ali — segundos, horas — antes que uma batida suave, quase imperceptível, rompesse a névoa.
Ela se enrijeceu, o coração saltando contra as costelas, o som despedaçando a frágil barreira que ela construíra ao seu redor.
“Amelia?”
A voz era calma. Estável. Familiar de um modo que tanto confortava quanto a deixava à deriva.
Por um longo momento, ela não conseguiu falar. Não conseguiu se mover.
Então, como por instinto, ela se viu de pé, atravessando as tábuas gastas do assoalho com passos lentos e medidos, e abrindo a porta.
Castiel estava do outro lado, emoldurado pela luz fraca do corredor, a gola do casaco levantada contra a corrente de ar, sombras acumulando-se sob as maçãs do rosto angulosas. Sua expressão era indecifrável, mas os olhos… esses estavam longe de ser indiferentes.
Eles percorreram brevemente o rosto dela — absorvendo as bordas cruas dela — antes de retornarem para encontrar plenamente seu olhar, sem julgamento.
“Posso entrar?” ele perguntou, com a voz mais suave do que ela esperava.
Ela engoliu em seco e deu um passo para o lado.
O quarto era pequeno, mal largo o suficiente para a cama e uma cômoda surrada. O frio do lado de fora se infiltrava, apesar das paredes. Ela cruzou até a janela e pressionou a palma contra o vidro rachado, fitando a paisagem negra como tinta além dali. Em algum lugar à distância, um trovão ribombava baixo, uma promessa da tempestade que ainda não havia se rompido.
Atrás dela, Castiel permanecia perto da porta, sua presença preenchendo o quarto com uma gravidade silenciosa e sólida. Ela podia sentir o calor tênue irradiando dele, incongruente com o frio que mordia sua pele exposta.
Nenhum dos dois falou por um momento.
Então Amelia, ainda encarando a janela, disse: “Você ouviu.”
Não era uma pergunta.
“Sim,” Castiel respondeu simplesmente, sem pedir desculpas.
Ela exalou lentamente, seu hálito embaçando contra o vidro frio. “Não espero que você entenda.”
Um compasso passou, pesado como o céu escuro lá fora.
Mas então a voz dele veio, gentil e certa: “Eu entendo.”
Amelia fechou os olhos com força, a dor em seu peito apertando com uma precisão cruel e familiar. “Não, você não entende. Não poderia.” Ela então se virou, abruptamente, encostando-se ao parapeito da janela, os braços cruzados firmemente contra si mesma como uma armadura. “Você não sabe como é… sentir isso dentro de você. Essa… coisa.”
Sua voz quebrou na última palavra.
O olhar de Castiel não vacilou. Ele deu um passo lento e cuidadoso para mais perto, como se temesse que um movimento brusco pudesse despedaçá-la completamente. Suas mãos se flexionaram ao lado do corpo, um tique quase imperceptível de contenção, de quem queria tocá-la, mas não ousava — ainda não.
“Eu sei como é ser feito de algo que você não escolheu,” ele disse baixinho. “Algo perigoso.”
Amelia engoliu em seco, os dedos cavando nos próprios braços. A pressão a mantinha firme, como se pudesse evitar se estilhaçar por completo. “Mas você controla isso.”
Um sorriso tênue, quase imperceptível, fantasmou pelos lábios dele, triste e consciente. “Na maioria dos dias.”
Sua garganta apertou ainda mais, a pressão insuportável. “Eu não consigo.” A confissão escapou dela num sussurro rouco. “Eu tento… Deus, eu tento. Mas sempre vence. A raiva. O poder. Ele toma conta e eu… eu não sei quem sou quando isso acontece.”
Sua voz tremia agora, os olhos brilhando na luz fraca, mas ela se recusava a deixar as lágrimas caírem. O cheiro distante de chuva pairava no ar, infiltrando-se pela madeira velha, misturando-se ao sabor amargo e metálico de seu próprio desprezo.
Castiel deu outro passo adiante, fechando a distância entre eles a um mero sopro.
“Você sabe,” ele disse suavemente. “Você sempre sabe… mesmo depois.”
Amelia soltou uma risada amarga e quebrada, virando o rosto para longe. “E de que adianta isso?”
Ele não respondeu de imediato.
Em vez disso, a observou — o modo como o corpo dela se encolhia sobre si mesmo, como sua força estava sempre em guerra com sua fragilidade. E algo dentro dele — algo que ainda não ousava nomear — apertou.
Quando falou, sua voz estava mais suave, mas marcada por convicção. “Significa que você não se perdeu.”
Amelia mordeu com força o lábio inferior, forçando-se a não desmoronar. Não agora. Não ali.
Mas então, quase contra sua vontade, ela sussurrou: “Gabriel acha que eu me perdi.”
A mandíbula de Castiel se contraiu, e por um breve, cru segundo, algo cintilou nos olhos dele — algo frio, ciumento e absolutamente humano. A admissão doeu mais do que deveria, e ele odiou o quanto isso o desestabilizava.
Ele desviou o olhar, para a janela, como se a tempestade que se formava lá fora fosse mais fácil de encarar do que aquela dentro dele.
“Você não precisa do perdão dele,” disse por fim, a voz baixa, quase áspera.
Os olhos de Amelia se ergueram rapidamente para os dele, procurando.
Castiel inspirou devagar e então acrescentou, mais suavemente: “Você precisa do seu.”
Isso a quebrou.
Ela abaixou rapidamente o olhar, piscando com força contra as lágrimas que finalmente, traiçoeiramente, escorriam. Uma deslizou pela bochecha, quente contra o ar frio.
Castiel estendeu a mão, hesitou — mas desta vez, não recuou.
Sua mão pousou gentilmente no antebraço dela, quente e firme, ancorando-a ao momento. Os calos das pontas dos dedos roçaram sua pele, provocando um arrepio que não tinha nada a ver com o frio.
Ela não se encolheu.
Por muito tempo, nenhum dos dois se moveu, os únicos sons sendo o sussurro do vento e o distante, inquieto rosnado do trovão.
Quando Amelia finalmente falou, sua voz foi um sopro. “Por que você se importa?”
A pergunta pairou entre eles, frágil e perigosa.
Os olhos de Castiel se ergueram lentamente para os dela, a resposta não dita, mas subitamente tão clara que nenhum dos dois podia mais negar. Seu peito subiu e desceu com uma lentidão deliberada, como se se preparasse contra algo que temia que pudesse consumi-lo.
A tensão que há tanto tempo se enroscava entre eles esticou-se, trêmula no precipício.
“Eu não sei…” ele confessou, a voz áspera e despida.
Amelia o encarou, a respiração presa, o coração batendo com um ritmo imprudente e apavorado. Seu pulso trovejava nos ouvidos, mais alto que a tempestade lá fora, mais alto que sua própria dúvida.
E então, ela fez a única coisa que fazia sentido no silêncio: inclinou-se.
Mas antes que seus lábios pudessem encontrar os dele, Castiel fechou a distância primeiro, sua mão subindo quase hesitante para acariciar a lateral do rosto dela, como se não pudesse acreditar que estava a tocando. Seu polegar roçou levemente o osso da bochecha, traçando o mais tênue tremor ali — prova de que ela estava tão assustada, tão despedaçada quanto ele.
Por um batimento, eles pairaram naquele espaço frágil entre o recuo e a rendição, suas respirações se misturando, seus olhos presos em algo que nenhum ousava nomear, mas que ambos não podiam mais negar.
E então… ele a beijou.
Não o acidente da última vez, não algo roubado e lamentado, mas deliberado, lento a princípio — seus lábios roçando os dela com reverência, com desculpa, com necessidade. Amelia exalou trêmula contra sua boca, as mãos erguendo-se instintivamente para agarrar as lapelas do casaco dele, ancorando-se a algo real, algo firme, enquanto a tempestade de tudo o que não foi dito finalmente se rompia entre eles. O tecido áspero era frio sob seus dedos, mas o corpo dele irradiava calor sob ele, enraizando-a de um jeito que ela não sabia que desejava.
Castiel aprofundou o beijo então, os dedos se entrelaçando nos cabelos dela, puxando-a impossivelmente mais perto, como se pudesse enterrar todas as coisas que deixara por dizer na forma de sua boca. E Amelia deixou — correspondendo com uma quieta desesperação, igualando sua necessidade, derramando naquele beijo cada gota do medo, da dor, do desejo que tentara tanto silenciar.
Não foi gentil, não totalmente. Foi bagunçado, bruto — uma colisão de tudo o que não podiam dizer, todas as noites passadas em silêncio, todos os momentos em que deveriam ter se buscado, mas não o fizeram.
Quando finalmente se separaram, não foi com arrependimento, nem vergonha, mas com a silenciosa, ofegante compreensão de que não havia mais volta.
Castiel exalou lentamente, sua testa caindo para repousar contra a dela, os olhos se fechando como se só a proximidade dela pudesse acalmar o caos que ainda rugia em seu peito. Naquele espaço frágil, ele se perguntou, fugazmente, se era isso que significava cair — não da graça, mas em algo muito mais perigoso.
Amelia deixou as mãos escorregarem do casaco dele, uma delas subindo em vez disso para acariciar a nuca, os dedos se entrelaçando no cabelo escuro ali num gesto muito mais terno do que o quanto seu coração martelava.
O silêncio se estendeu entre eles, pesado com todas as coisas que não podiam dizer.
Finalmente, Amelia o quebrou, a voz quieta mas firme:
“Obrigada… por não fugir desta vez.”
Castiel soltou um suspiro que foi quase um riso, quase um suspiro. Ele assentiu, a expressão indecifrável, mas os olhos traindo tudo o que sentia.
“Eu não estou fugindo,” disse, mal acima de um sussurro.
Por um longo, suspenso momento, eles apenas ficaram ali, respirando um ao outro, ambos sabendo que, qualquer que fosse a tempestade que esperava além daquelas paredes, não era a única que tinham que enfrentar.
Lá fora, o vento uivou mais alto, sacudindo as venezianas como ossos.
A tempestade havia chegado.
Mas, pela primeira vez em tanto tempo quanto podia se lembrar, Amelia não estava com medo.
E nem ele.
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